Banda Caacttus


A ideia de educação com imersão cultural existe na minha cabeça desde que eu ainda era um adolescente. Minhas famílias maternas e paternas sempre acreditaram que a cultura é um importante mecanismo de desenvolvimento e valorização da vida familiar e social, uma vez que, a cultura quebra as amarras, pré-conceitos, e, naturalmente, aproxima as pessoas.

Ainda criança, me lembro quando meus avós paternos colhiam arroz, enchiam até o teto a sala da casa deles na fazenda Morro Redondo, na época em Corrente – PI, com os cachos de arroz colhidos. Ali nos reuníamos com os vizinhos toda noite e ao som dos vinis de Luiz Gonzaga brincávamos subindo e descendo, escorregando na montanha de arroz.

Naquele caldeirão cultural minha avó Carmelinda chorava toda vez que ouvia Asa Branca. Aqueles foram tempos maravilhosos, que transcenderam nas gerações futuras e que hoje faz morada na cabeça de meus filhos Lucas Gabriel e Luiz Miguel. Portanto, mesmo muito tempo antes do nascimento de Lucas Gabriel e depois de Luiz Miguel, todo o terreno já estava preparado para que pudéssemos semear neles, aqueles valores culturais.

Desse modo, a Banda Caacttus surgiu como um projeto pessoal de educação com imersão cultural dos meninos com vistas no fortalecimento da formação cidadã deles através da cultura. Nós, pais e familiares, sempre ensinamos através da nossa vivência que a cultura é um importante mecanismo de desenvolvimento e valorização da vida familiar e social, uma vez que a cultura quebra as amarras, pré-conceitos, e, naturalmente, aproxima as pessoas. E o forró, como música, dança, local de festa, consegue cumprir esse papel, como talvez nenhuma outra manifestação cultural consegue. Tudo isso, somado ao amor que toda família tem por nossa cultura, nós sempre buscamos educar e colocar os meninos em contato com boas músicas, bons forrós, norteados pela obra dos grandes mestres Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Marinês, Sivuca, Dominguinhos, Trio Nordestino, Os 3 do Nordeste e tantos outros mestres de nossa cultura.

Desde que os meninos nasceram, eles foram estimulados com brinquedos musicais e com boa música. Em maio de 2013, ainda com seis anos de idade, presenteamos Lucas Gabriel com sua primeira sanfona, uma Michael de palhetas com apenas oito baixos, com a qual cinco dias depois ele começou a fazer aulas com o maestro Edmar Miguel. A partir de setembro de 2013 passou a fazer aulas com Edglei Miguel, filho de Edmar, que acabara de fundar a escola A Sanfonada. Nesta época começamos uma saga: encontrar uma sanfona que fosse suficientemente pequena e leve com pelo menos 80 baixos para possibilitar a Lucas Gabriel um bom desenvolvimento nas aulas. Tive que virar importador e depois vendedor de sanfonas. Após comprar três sanfonas pequenas de 120 baixos encontramos a ideal para ele. Algum tempo depois conheci o amigo irmão Antônio Carlos da Fonseca, que buscava comprar uma sanfona.

O leva e traz de Lucas Gabriel para as aulas de sanfonas e Luiz Miguel para as aulas de musicalização me inseriu aos poucos no olho do furacão do mundo musical. E eu que já era um ferrenho defensor da cultura nordestina me revelei de uma hora pra outra um atuante ativista cultural. Estava sempre pronto para ajudar A Sanfonada, seu fundador Edglei Miguel, os alunos e quem mais precisasse de minha ajuda.

Em 2015, aos nove anos, após Lucas Gabriel passar por uma experiência de bullying, compomos e gravamos em 2016 nossa primeira música: “A Natureza do Bullying”. Esta gravação foi o marco formal da criação da Caacttus como banda, criada e mantida até hoje apenas com crianças como músicos.

Em 2017 gravamos “Um Povo Sonhador”, nossa segunda composição, que foi lançada no início de maio, quando as águas da transposição do Rio São Francisco estavam chegando ao Açude Epitácio Pessoa, que abastece Campina Grande. O videoclipe dessa música entrou em diversas TVs Brasil afora, inclusive duas vezes na TV Canção Nova, e passou a ser tocada em diversas rádios de norte a sul do país. Mais ou menos nessa época entrei, a convite de Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, em um grupo do whatsapp chamado #SOSFORRÓ, idealizado, entre outros, por Snides Caldas, José Carlos, Cássia Veríssimo, cantor Geovane Junior, Jota Gomes e muitos outros, o #SOSFORRÓ viria a se transformar, em setembro de 2017, no primeiro Fórum do Forró de Campina Grande-PB. Nesse fórum conheci muitas pessoas. Entre elas, Joana Alves, fundadora e coordenadora do Fórum Nacional do Forró de Raiz (FNFR), Jota Gomes (infelizmente assassinado no último dia de 2017), João Paulo Jr., Aracílio Araújo, Petrus Di Luna, Helloysa do Pandeiro e sua família, João Ribeiro, Maria José Araújo, Ribeiro Filho e muitos outros. Pouco tempo depois o #SOSFORRÓ passou a se chamar “Rota do Forró”.

O movimento continuava crescendo e entre reuniões dos fóruns, reponsabilidades familiares, no último dia de agosto de 2018 defendi minha tese de doutorado em Engenharia Elétrica na UFCG – Universidade Federal de Campina Grande. Título muito importante para um retirante, filho de pais semianalfabetos: um vaqueiro e uma dona de casa, cada um com apenas dois anos de estudos. Eu nasci e vivi na roça até os sete anos, em meio a uma prole de seis filhos, dos quais fui o único a alcançar este título. Tese defendida e aprovada, menos de um mês depois já estávamos como coordenador do FNFR – Fórum Nacional do Forró de Raiz e do FNRF – Fórum Nacional da Rota do Forró, realizando em parceria com a ProCult UEPBUniversidade Estadual da Paraíba, o primeiro FNFR e o primeiro FNRF. Ambos realizados simultaneamente juntos e misturados na Vila do Artesão em Campina Grande – PB. O movimento continuou ativo a discutir políticas públicas de sustentabilidade do Forró e da Cultura Nordestina.

Em 2019 voltamos a realizar, novamente em parceria com a ProCult UEPB, os FNFR e FNRF. Pra estes fóruns foram enviados mais de quatrocentos ofícios convite. Todos os vereadores, secretários, prefeito, SESI, SENAI, SESC, FIEP e entidades de classe de Campina Grande receberam ofícios. Enviamos ofícios também a todos os deputados estaduais e federais, senadores, governador e secretário de cultura da Paraíba. A mobilização foi imensa e intensa. Os fóruns foram um sucesso. Com o auditório lotado, marcaram presença muitos fazedores de cultura da cidade e do estado, professores, o vereador Olímpio Oliveira e os senadores Veneziano Vital e Zé Maranhão, vítima no início deste ano de Covid-19.

Desde então passamos a intensificar a defesa junto à prefeitura de Campina Grande para que os trios de Forró tivessem um cachê mínimo de três mil reais e nenhuma atração do Maior São João do Mundo (MSJM), paga com dinheiro público, tivesse um cachê superior a duzentos mil reais. Estávamos com um edital do MSJM pronto para sugerirmos à prefeitura. Mas, infelizmente, a pandemia da Covid-19 chegou. As festas juninas foram adiadas e depois canceladas. Heroicamente, sem dinheiro ou qualquer apoio da prefeitura de Campina Grande, o FNFR realizou o primeiro Festival São João na Rede (FSJR), o qual durou quatorze dias, um dia para cada estado membro do FNFR. O FSJR teve mais de trezentas atrações, mais de cento e cinquenta horas de programação transmitida no YouTube. Transmiti e locucionei três dos quatorze dias do FSJR. Apenas um desses três dias teve uma programação cerca de quinze horas. Foi estafante. Mas, valeu a pena. A segunda edição do FSJR vem aí com quarenta e seis dias e mais um não da prefeitura de Campina Grande – PB.

Voltando a falar da Caacttus, passamos um tempo sem gravar, e em abril de 2020 em plena pandemia da Covid-19, compomos “Isso é Baião”, esta que foi gravada, em junho de 2020, em pleno FSJR. “Isso é Baião” é um marco de ruptura das festas juninas tradicionais, de origem rural, para uma festa ultra moderna, onde o cenário foi a internet, que mesmo em meio a tanta modernidade preservou nossa cultura e tradição. “Isso é Baião”, ainda sem videoclipe, é um sucesso tocado até em rádios no Japão. Nos próximos dias deveremos gravar nossa quarta música: A Majestade do Ritmo, na qual, contaremos a história do grande mestre Jackson do Pandeiro, o paraibano rei do ritmo, que é um dos pilares de nossa cultura.

Por fim, nesses seis anos de banda já participamos de diversas apresentações em teatros, museus, casas de shows, escolas, videoclipes, diversos programas de rádios e TVs e fóruns em defesa de nossa cultura. Essa é a nossa história. Uma história de estudo de nossas raízes culturais, amor e dedicação à luta pela preservação e continuação de nossa cultura, que é o maior dos tesouros imateriais de nossa nação… Razão pela qual, nossa caminhada segue firme adiante, sempre nos passos da cultura.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Alfranque Amaral criador, mentor, pai de Lucas Gabriel e Luiz Miguel, fundadores da banda Caacttus para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 02.06.2021:

Índice

01) Ritmo Melodia: Qual a data de nascimento e cidade natal sua e dos músicos da Caacttus?

Banda Caacttus | Alfranque Amaral: Nasci no dia 22.06.1974. na fazendo Morro Redondo, em Corrente-PI, hoje Sebastião Barros-PI.

Quanto aos músicos da Caacttus, todos nasceram na cidade de Campina Grande-PB. O mais velho é o sanfoneiro e cantor Lucas Gabriel Patrício do Amaral, nasceu no dia 02.06.2006, bem no início dos festejos juninos. Portanto, nasceu com o pé no Forró. Ele começou suas aulas de sanfona aos seis anos e onze meses. Lucas Gabriel também toca teclado e violão e compõe. Ajudou a compor e gravou “A Natureza do Bullying” aos nove anos de idade, em parceria com seu pai Alfranque Amaral e com o músico, amigo campinense Miguel Arcanjo. Aos treze anos ajudou a compor e gravou “Isso é Baião”, em parceria com seu pai, Roxinó do Nordeste (radicado na cidade do Recife-PE) e Miguel Arcanjo.

O segundo mais idoso, irmão de Lucas Gabriel, é o percussionista Luiz Miguel Patrício do Amaral, que tem 10 anos. Ele nasceu no dia 04.05.2010, tirando som de tudo que aparecia à sua frente. Esse é outro que também nasceu com o pé no Forró, durante as prévias das festas juninas. É um percussionista e ritmista nato. Começou suas aulas de musicalização aos quatro anos. Ele toca Zabumba, Triângulo, Bateria, Cajon, Pandeiro, Atabaque e acredito que qualquer instrumento de percussão que lhe for entregue. Ele também tira um som no Teclado e na Sanfona.

Por fim, o mais novo, também de dez anos, é o percussionista José Lucas do Nascimento Souza Almeida no dia 27.03.2011 e toca Zabumba, Triângulo, Bateria e Pandeiro. Filho do sanfoneiro Pita do Acordeon, nasceu dentro do Forró.

Na Caacttus, o Lucas Gabriel toca Sanfona, Luiz Miguel toca Triângulo e Pandeiro e José Lucas toca Zabumba. Lucas Gabriel e Luiz Miguel estão na Caacttus desde o surgimento da banda, que naturalmente surgiu por conta deles. O terceiro integrante, José Lucas, está na Caacttus há cerca de dois anos. Estamos nos últimos dias tentando fazer mais uma importante aquisição, o quarto membro. Ela se chama Lorena Barros, uma flor em meios aos espinhos, que nasceu no dia 05.02.2013 e é uma talentosa poetisa e sanfoneira de oito anos, filha de um grande artesão, poeta, compositor, cantor, sanfoneiro, violeiro: Roosevelt Fernandes – “o homem que transforma couro em ouro”.

02) RM: Fale do primeiro contato com a música dos músicos da Caacttus.

Banda Caacttus | Alfranque Amaral: Todos eles tiveram seus primeiros contatos com a música e, sobretudo com o Forró, ainda na barriga de suas mães. Lucas Gabriel e Luiz Miguel, filhos deste que vos escreve, ainda na barriga da mãe quando ouviam uma boa música estufavam a ventre da mãe na direção da fonte sonora. Lembro-me que, durante os três últimos meses da gravidez de Lucas Gabriel, quando eu pegava o violão e tocava a música “Leãozinho” de Caetano Veloso, a barriga de minha esposa estufava na minha direção. É como se ele posicionasse a cabeça naquela direção para escutar melhor o som.

Ele nasceu numa sexta feira, 02.06.2006, por volta das 17h e saiu do hospital pra casa no finalzinho da tarde de domingo: 04.06.2006. Minutos depois de chegar em casa, ele todo abusado, chorava desconsolado. A mãe tentava amamentá-lo e não conseguia. Foi quando ela se sentou numa cadeira de palhinha reclinável e eu peguei o violão e comecei a tocar a música predileta dele: “Leãozinho”. Já nos primeiros versos ele começou a mamar, parou de chorar e adormeceu antes mesmo de terminar a música. Esta é uma história que me emociona muito, pausa para enxugar as lágrimas.

Outra história muito bacana aconteceu final de maio de 2008 quando Lucas Gabriel. Na época recebemos a visita de minha mãe Francisca Corado do Amaral e Silva que mora em Corrente-PI. Durante a visita dela decidimos ir, eu, minha esposa, Lucas Gabriel, minha mãe e minha sogra Maria Bernadete Marcelino Patrício, num domingo, comer um peixe em Boqueirão-PB. Lá estávamos almoçando e apreciando o açude Epitácio Pessoa, quando um amigo professor me cumprimenta. Papo vai, papo vem, ele diz: “estou indo para Festa do Bode Rei em Cabaceiras-PB” (23,3 km de Boqueirão) e saiu. Ficamos algumas horas no restaurante e também decidimos esticar o passeio até Cabaceiras para conhecermos a Festa do Bode Rei. Chegando lá, foi difícil até estacionar. Estava tudo tomado de gente e carros. O Forró comia solto. Minha mãe dançou com minha sogra e eu dancei a três: com Lucas Gabriel e minha esposa. A música estourada na época era Vida Boa Aperriada de Pinto do Acordeon, sucesso na voz de Flávio José. Foi muito divertido.

Por volta de 17h30min decidimos ir embora. Nesta hora Lucas Gabriel esperneava, fazia de tudo para se livrar de nossos braços e corria para dentro do Forró – Palhoção. Fez isso diversas vezes. Chegou até a se jogar no chão revestido de brita e esperneava pra ninguém o pegar. E quando abríamos minimamente a guarda, ele se levantava e corria para dentro do salão onde o Forró comia solto. Esse dia foi difícil sair do Forró e retornar a Campina Grande-PB. Portanto, a música sempre esteve presente nas vidas dessas crianças. Com José Lucas, acredito que não tenha sido diferente, uma vez que ele é de uma família de músicos, tendo o pai e o avô sanfoneiros. Por fim, a Lorena Barros, assim como José Lucas, também tem a cultura nas veias desde a barriga da mãe, por ser filha de pessoas muito ligadas à cultura.

03) RM: Qual formação musical e fora da área musical sua e dos músicos da Caacttus?

Banda Caacttus | Alfranque Amaral: Eu, Alfranque Amaral, não tenho formação musical formal. Praticamente nunca fiz cursos de música. Já até comecei um ou outro curso, mas devido ao corre-corre da vida os interrompi no começo. Toco um pouco de Violão que aprendi praticamente sozinho, nos tempos das revistinhas de músicas cifradas. Já fora da música, fiz graduação, mestrado e doutorado em Engenharia Elétrica na UFCG – Universidade Federal da Paraíba, é um dos poucos cursos de graduação em Engenharia Elétrica cinco estrelas e um dos três cursos com conceito sete (conceito máximo da CAPES) na pós-graduação.

Quanto a Lucas Gabriel, fez aula de sanfona desde os seis anos e onze meses, maio de 2013, aulas estas interrompidas em 2020 devido à pandemia da covid-19. Nesse meio tempo fez alguns meses de aulas de Técnica Vocal no Departamento de Artes (DART) da UFCG e também fez, um ou dois anos de aulas particulares de técnica vocal. Fora da música, ele estuda inglês desde os seis anos e está atualmente no primeiro ano do ensino médio. Infelizmente, devido à pandemia as aulas de inglês e música foram interrompidas.

Quanto a Luiz Miguel, ele começou suas aulas de música aos quatro anos, na musicalização. Depois de uns dois anos de musicalização passou a fazer aulas de percussão, inicialmente nos cursos de música da FURNE e depois em casa. Fez dois anos de curso de inglês, de fevereiro de 2019 a junho de 2020, que, infelizmente, foi interrompido devido a pandemia da covid-19. Pandemia esta que também interrompeu as aulas de música. Ele ainda chegou a fazer algumas aulas de Técnica Vocal. Hoje ele está no sexto ano do ensino fundamental.

Por fim, José Lucas tem a vantagem de ter próximo o avô Heleno Gomes Macambira e o pai Pita do Acordeon, que são sanfoneiros. Então a escola musical de José Lucas é a sua própria residência. Na parte acadêmica está no quinto ano do ensino fundamental. É um garoto de ouro. Ficamos muito felizes quando o encontramos no programa Diversão & Artes da rádio Da Mata FM do distrito de São José da Mata, Campina Grande-PB, sob o comando do amigo poeta, compositor e cantor Carlos Pêre, que prontamente fez a ponte com a família do José Lucas para que este fizesse parte da banda. Nesta época a Caacttus estava apenas com Lucas Gabriel e Luiz Miguel como músicos e precisávamos de pelo menos mais uma criança para completarmos, ao menos, um trio de Forró Tradicional.

Nos últimos dias estamos fazendo de tudo para termos mais uma criança, a poetisa e sanfoneira Lorena Barros de oito anos. Estamos confiantes que a chegada de Lorena Barros e de sua família à banda seja um divisor de águas, agregará muito valor à Caacttus. Sobretudo, na parte de criação e composição, uma vez que o pai Roosevelt Fernandes, entre outras coisas, é poeta e compositor. Atualmente, Lorena está estudando o terceiro ano do ensino fundamental um.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente? Quais deixaram de ter importância?

Banda Caacttus | Alfranque Amaral: Nossa principal influência musical desde a nossa concepção foi Luiz Gonzaga, que como dizemos em nossa música Isso é Baião, com sua luz revelou nosso sertão: “A estrela que brilhou no pé de serra/ Eternizada no chapéu de Gonzagão/ O criador do forró, xote e baião/ Com sua luz revelou nosso sertão”! Portanto, Luiz Gonzaga é essa luz que surgiu de dentro pra fora, do centro para as bordas, como manifestação cultural regional que se tornou universal, que revelou uma região, sua fauna e flora, uma cultura, um povo e suas tradições manifestadas de várias formas, costumes, festas, e que tem, ao meu ver, nas festas juninas o ápice dessas manifestações.

Costumo dizer que tais manifestações tem no Forró seu epicentro, a chamada cereja do bolo, de uma cultura própria que tem trajes (roupas/vestimentas) próprios, música própria – com ritmo, melodia, poesia e histórias próprias, dança própria, comida própria e aconchego próprio. E todos esses elementos estão permeados com lendas, lutas, labutas, amores, migrações de seres humanos e não humanos, crenças religiosas, cristãs monoteístas, ou não cristãs politeístas, afro-brasileiras e indígenas. Tudo isso, criou um caldo que resultou em verdadeiras epopeias que sob o ponto de vista musical, sociológico, antropológico, filosófico e histórico são verdadeiras obras primas, de uma riqueza incomensurável.

Um exemplo disso é a música A Triste Partida de Patativa do Assaré, eternizada na voz de Luiz Gonzaga. Essa música sintetiza em cerca de oito minutos e meio a história secular de um povo, com suas alegrias, tristezas e esperanças que foge da seca do sertão e que engrossa as fileiras da miséria das periferias das grandes cidades, numa espécie de epopeia ao contrário. A qual, é vivida por um povo esperançoso, que espera poder viver um dia a plenitude da vida com fartura e riqueza. Riqueza esta que a natureza nos oferece e que poderia ser socializada com todos. Mas, que devido a algumas circunstâncias políticas, sociais e naturais, como o egoísmo humano, nos impede de alcançar.

Portanto, Luiz Gonzaga é o primeiro e o único. A prova disso é que ele partiu a mais de trinta anos e ainda não surgiu alguém com sua luz para aquecer nossas almas. Espero poder viver o suficiente pra ver surgir esse novo rei. Até lá vamos de forró do bom de seu Luiz e de seus muitos discípulos, que ele, ao longo de sua vida, fez questão de espalhar pelo mundo, ao distribuir centenas de sanfonas e ajudar tantos artistas de todas as formas possíveis. Sanfonas estas que foram presenteadas, inclusive, a ídolos como Lindú e Pinto do Acordeon e tantos outros. A maioria dessas sanfonas revelaram bem mais do que melodias, revelaram a generosidade, a visão futurista e a gratidão de um rei verdadeiro.

Sonho com o dia de poder ver nas salas de aulas estudos sociológicos, antropológicos, filosóficos e históricos, centrados no Forró e em letras como “A Triste Partida”. Quando este dia chegar, acredito que o cidadão formado neste país terá uma consciência beirando patamares de plenitude.

05) RM: Quando, como e onde começou a banda Caacttus? Qual a formação atual nome e o instrumento que cada membro toca?

Banda Caacttus | Alfranque Amaral: O projeto da Caacttus ou da banda Caacttus, surgiu desde a concepção de Lucas Gabriel e Luiz Miguel. Sempre sonhamos em educar nossos filhos com uma formação que fosse baseada em valores pautados na disciplina, honestidade, simplicidade, amizade, fraternidade e respeito ao próximo e à natureza, tudo isto junto e misturado num caldo de imersão cultural. Acreditamos que a imersão cultural é um norte que nos traz consciência social, política e nos fornece os subsídios para estruturação e formação de um cidadão crítico com identidade e valores próprios. Valores estes que nos darão os elementos para, antes de valorizar os aspectos de uma outra cultura, valorizarmos primeiro a nossa própria cultura.

Isto é muito importante para qualquer ser humano. E, certamente, quem adquire tais valores, antes de pensar em, por exemplo, visitar outro país, fará questão de conhecer primeiro tudo que seu próprio país tem a lhe oferecer de bom. Com isso, estamos ensinando aos meninos que antes de valorizar demasiadamente o outro, seja o ser ou o país, ou outra cultura, se valorize antes como ser, como país ou como cultura. Analogamente, e sob a ótica musical, antes de gostarmos, por exemplo de outro estilo musical, devermos gostar e valorizar primeiro o forró, que é a nossa cultura.

A partir desse entendimento e com os primeiros passos musicais dos meninos, veio a ideia da criação da banda. A banda iria inicialmente firmar um compromisso e uma disciplina de ensaios, apurar os sentidos e instigar a busca pela perfeição da execução e interação social, e, ao mesmo tempo, desenvolver aspectos cognitivos e linguísticos, bem como, acurar aspectos relativos à percepção, convivência e interação social coletiva com os colegas de banda e com o mundo no entorno dos meninos e de sua obra.

Sob o ponto de vista formal, a Banda Caacttus surgiu na cidade de Campina Grande-PB com a composição, gravação e lançamento do videoclipe da música “A Natureza do Bullying” (Alfranque Amaral, Miguel Arcanjo, Lucas Gabriel). Na época do lançamento Lucas Gabriel tinha nove anos de idade. Tal obra foi o resultado de uma experiência de bullying que Lucas Gabriel sofrera na escola. Descoberto o problema a escola e as famílias envolvidas agiram e o resolveram. Em gratidão à forma como o problema foi resolvido, resolvemos transformar tal experiência em música, a qual trata dos aspectos sociais e psicológicos, tanto sob as óticas do autor quanto da vítima de bullying. Seu videoclipe foi publicado no YouTube e no Facebook no dia 02.05.2016.

Tão logo ocorreu o lançamento do videoclipe a própria escola de Lucas Gabriel, onde ocorrera o bullying, passou a utilizar a música e o videoclipe em suas campanhas anti-bullying. Em pouco tempo TVs locais de Campina Grande fizeram matérias sobre a música e o videoclipe, a exemplo da TV Borborema, afiliada do SBT e da TV Itararé, afiliada da TV Cultura. Uma TV nacional nos garantiu exibir o videoclipe de “A Natureza do Bullying, tão logo conseguíssemos produzir um videoclipe profissional para a música. Eles adoraram a música. O problema é que a depender do videoclipe seu custo pode ser alto. De toda forma vejo aí uma boa oportunidade de parceria, uma boa oportunidade para uma ou mais empresas ter(em) sua(s) marca(s) vista(s) em uma TV nacional por um custo muito baixo, se comparado com a veiculação de uma propaganda de um produto seu.

Por fim, até meados de 2017, a banda tinha seis integrantes, ocasião em que saíram quatro dos seis. Atualmente, a banda conta com quatro integrantes: Lucas Gabriel, de 15 anos, que canta e toca sanfona; Luiz Miguel, de 10 anos, que é percussionista, toca triângulo e pandeiro; José Lucas, de 10 anos, também percussionista, que toca zabumba e Lorena Barros, de 8 anos, que está chegando à banda, toca sanfona, dança xaxado, recita e canta.

06) RM: Quantos singles já lançaram?

Banda Caacttus | Alfranque Amaral: Três! São eles: 1) “A Natureza do Bullying”, composta por Alfranque Amaral, Miguel Arcanjo, Lucas Gabriel e gravada por Lucas Gabriel em 2016, quando ele tinha apenas nove anos; 2) “Um Povo Sonhador”, composta pelo poeta Aziel Lima, Alfranque Amaral e gravada por Lucas Gabriel em 2017, quando ele tinha dez anos; 3) “Isso é Baião”, composta por Roxinó do Nordeste, Alfranque Amaral, Miguel Arcanjo, Lucas Gabriel e gravada por Lucas Gabriel em junho de 2020, em plena pandemia da Covid-19, ocasião em que ele se encontrava com quatorze anos.

Acho que vale a pena falar um pouquinho sobre cada música da Banda Caacttus: 1) A Natureza do Bullying é música que em cuja letra é abordado o tema bullying. Tal temática é trabalhada sob o ponto de vista da psicologia do autor e da vítima de bullying, comparando o autor e a vítima de bullying com uma planta sensitiva, rasteira, chamada maliça, malícia ou mimosa púdica. A qual, fecha suas folhas ao menor toque. E, ao fechar suas folhas revela uma infinidade de espinhos em seus ramos. O fechar das folhas simboliza a vítima de bullying que, uma vez oprimida, por ter sofrido bullying, se fecha para o mundo, escondendo de todos a realidade em que está vivendo. Já com os espinhos afiados e cortantes, presentes nos ramos da maliça é feita uma alusão ao autor de bullying, que ao praticar bullying, agride, fere sua vítima. Vítima esta, que na maioria das vezes é um colega, um amigo ou até mesmo um parente. O autor de bullying, em geral, é alguém que já sofreu bullying, que o pratica numa atitude quase sempre inconsciente de vingança. A psicologia nos diz que por trás de uma pessoa agressora quase sempre existe uma pessoa ferida.

2) “Um Povo Sonhador conta a história de um povo guerreiro, resistente, que ao longo de sua existência conviveu nas mais brutais adversidades provocadas pela natureza, a seca e, sobretudo, pelo descaso de seus governantes. Mas, que mesmo assim, tem na sua honra o seu valor maior. Um povo que vive da esperança de um dia ver seu sertão virar um oásis, irrigado pelas águas do Velho Chico. Águas estas, transportadas pelos canais da transposição, que passara mais de um século e meio para sair do papel e que se tornara, sem dúvida alguma, a obra mais importante já realizada neste país. Obra está que finalmente materializou-se como uma esperança de segurança hídrica para toda uma região.

O videoclipe dessa música foi lançado nas redes sociais no dia 02.05.2017. Exatamente, no dia 18.04.2017 as águas da transposição encontraram com o que restavam das águas do Açude Epitácio Pessoa, vulgo Boqueirão, que abastece Campina Grande-PB. Estávamos, há anos, passando por um racionamento brabo e quando as águas chegaram restavam menos de 3% de água em Boqueirão. As chuvas só chegariam cerca um ano depois. Portanto, se não fosse as águas da transposição cerca de um milhão de pessoas de Campina Grande e de cidades vizinhas ficariam totalmente desprovidas de água. Seria um caos total. Desse modo, a chegada das águas e dessa música foram duas razões de muita alegria para nós. O videoclipe de “Um Povo Sonhador” entrou em diversas TVs do país. Entre elas: duas vezes para todo Brasil na TV Canção Nova; duas vezes na TVC do Ceará; algumas vezes na Sertão TV, canal 180 da Brisanet, que transmite no Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí, Pernambuco; TV Itararé de Campina Grande-PB e certamente em outras TVs Brasil afora.

3) “Isso é Baião – gravada durante a pandemia do Covid-19, esta música iria se chamar São João na Rede devido ao festival online de mesmo nome organizado e realizado pelo Fórum Nacional do Forró de Raiz, do qual eu, Alfranque Amaral, sou o coordenador em Campina Grande-PB. O Festival São João na Rede foi realizado em junho de 2020 durante a pandemia do Covid-19 e como a pandemia ainda não acabou o realizaremos novamente em 2021. Vale destacar aqui um fato importante! No dia da gravação, os amigos Savanna Aires e Miguel Arcanjo atentaram para uma palavra do refrão e sugeriram trocar essa palavra. O argumento dela é que o Baião estava muito vivo e esta música era uma prova disso. Portanto, não fazia sentido começar o refrão com a expressão: era Baião, meu povo, era Forró. Acatamos na hora o argumento, e modificamos o refrão para: isso é Baião, meu povo, isso é Forró. E nós, prontamente concordamos em trocar a palavra era por isso e quando eles gravaram o coro do refrão eu me arrepiei todo, aí não tive dúvidas, era o sinal, o nome da música deveria ser “Isso é Baião”, em vez de São João na Rede.

Vejo a música “Isso é Baião” como um marco de reafirmação da música Baião de Luiz Gonzaga de 1946. “Isso é Baião” mostra o baião ao mundo pela rede, sem balanço, abraço ou fogueira, devido às restrições sociais impostas pela pandemia, mantendo a tradição e inovando naquilo que há de mais moderno: a internet e as lives. Desse modo, naquele momento, o baião se reinventava, encontrando um jeito novo e moderno de se mostrar ao mundo, ao romper as fronteiras de sua origem rural e ganhar o mundo através do meio de comunicação mais moderno e democrático que temos: a internet.

07) RM: Como é o seu processo de compor?

Banda Caacttus | Alfranque Amaral: Acho extremamente difícil compor. Na verdade, eu sempre achei que jamais conseguiria compor uma música. Mas, o amor pela música e pelos meus filhos me fizeram acreditar que com muito esforço e boas parcerias poderia sair alguma coisa. Nós precisávamos e precisamos compor junto com os meninos para eles aprenderem, já que o projeto da banda é um projeto educativo com imersão cultural. Assim sendo, quando conversei com o parceiro Miguel Arcanjo e falei que tinha interesse em compor um baião sobre bullying, ele disse: “será muito difícil, se é que não é impossível, você conseguir abordar uma temática tão complexa, com nomenclatura de outra língua, como bullying, num baião, que é uma música tão regional”. Mesmo ouvindo atentamente o que ele disse mostrei o que eu havia escrito. Ele sorriu, tirou uma onda e disse: “isso não é uma música, é um tratado científico. Mas, parabéns, gostei muito da ideia. Agora vamos trabalhar para transformar esse tratado científico numa poesia, numa música”. Fiquei um pouco aliviado e começamos o trabalho. Pra ser sincero, acho que de tudo que escrevi a única parte que nunca foi contestada por Miguel foi o título: “A Natureza do Bullying. E, isso me deu muita confiança, pois eu sabia que tinha acertado em cheio no título.

Depois da apresentação da ideia e dos meus manuscritos a Miguel, comprei um livro que explicava o que era um verso, uma rima, os tipos de versos, rimas, o que era uma sílaba poética, métrica, etc. Confesso que foi um parto, na verdade, ainda é um parto toda vez que tento compor algo, mas conseguimos. Miguel criou uma melodia e com uma linha melódica que remete a todo o sofrimento de quem sofre bullying. Ainda hoje ficamos muito cheios de orgulho quando alguém ouve a música e diz: “rapaz que letra sensacional!”. Nesse momento, sempre dizemos, tem um ou dois versos nesta letra que precisam ser acabados, melhorados, mas até hoje não conseguimos tal melhoria. É isso! acho que conseguimos quase um milagre abordar em poucas linhas um tema tão complexo quanto bullying de forma tão clara, direta, profunda e com aspectos e linguagem tão regionais. Fico muito feliz quando vejo amigos sinceros, grandes poetas, que nasceram poetas, como é o caso do amigo Leo Poeta dizerem: “gosto muito das ideias de suas letras”. Isso me deixa feliz e ao mesmo tempo reflexivo, quase na obrigação de estudar mais ainda e aprender muito para não decepcionar tais amigos.

Algo semelhante ao processo descrito no parágrafo precedente aconteceu com a música “Isso é Baião”. Uma bela manhã recebo uma ligação do amigo pernambucano radicado no Recife, Roxinó do Nordeste. Ele diz: ”poeta! amanheci com os meninos da Banda Caacttus na cabeça e fiz uma música pra eles gravarem, vou te enviar a letra e a melodia”. Quando ouvi o áudio dele com arranjos feitos na hora cantando e solfejando, eu disse: “meu Deus! isso é que é ser poeta! Quem dera eu conseguisse fazer 10% disso!”. Vi a letra e gostei de boa parte dela. Aí eu disse: “posso mudar o que eu quiser na letra?” Ele respondeu: “pode!”. Guardei o áudio e a letra escrita à mão, num pedacinho de papel, mais ou menos em agosto de 2019. Quando veio a pandemia e a ideia do Festival São João na Rede, em abril de 2020, me lembrei da música de Roxinó, mostrei a letra e o áudio ao parceiro Miguel Arcanjo e começamos um processo de reengenharia da letra. Digo reengenharia porque mantivemos parte da letra, descartamos outra parte, e introduzimos uma estrofe inteira, sobre a parte que trata do São João na Rede e a manutenção da tradição da cultura nordestina, forró, mesmo na forma de lives. O resultado agradou muito ao próprio Roxinó e amigos mais próximos chegaram até a me dizer: “agora a Caacttus tem uma música top, acabada, parabéns”. Particularmente, gostei muito do resultado.

Tão logo recebi o arquivo do áudio da gravação da música, enviando pelo amigo Waguinho Duduta, do Radiola Studio, o escutei e enviei para alguns amigos radialistas, que gostaram e a tocaram na mesma hora. Foi muito emocionante ver “Isso é Baião” ser anunciada por Sílvio Mendes, no Forró sem Fronteiras, da rádio Água Fria FM 104.8 de Água Fria – BA, apenas cerca de cinco minutos depois que a enviei. Sílvio Mendes fez elogios rasgados ao trabalho dos meninos e às músicas, em especial a “Isso é Baião” que já chegara chegando e que seria sucesso certo. Sílvio estava certo. “Isso é Baião” tem sido tocada dentro e fora do Brasil em rádios até no Japão.

Por fim, na música “Um Povo Sonhador, do poeta Aziel Lima e Alfranque Amaral, o processo das discussões da letra foi mais simples, tivemos uma outra divergência em alguns versos, mas algo simples e que fora resolvido rapidamente. Nessa música nós fizemos um videoclipe profissional. Eu já estava escaldado das críticas que recebi por ter feito o videoclipe de “A Natureza do Bullying” e ele ter ficado amador. Caprichamos em toda a produção de “Um Povo Sonhador”, preparamos o roteiro do videoclipe e contratamos um profissional para fazê-lo. O resultado ficou excelente. A prova disso é que ele já entrou na programação de diversas TVs Brasil afora.

08) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Banda Caacttus | Alfranque Amaral: Prós: independência e liberdade pra gravar o que quiser e divulgar seu trabalho também como quiser, sem a interferência de gravadoras ou de qualquer pessoa, bem como, tocar o repertório que você quiser. Contra: dificuldade de divulgar o trabalho, uma vez que, o artista independente tem que se virar nos trinta e se responsabilizar por todo o processo de criação, produção, divulgação e vendas de sua obra e shows. Tudo isso é muito difícil de ser realizado por apenas uma pessoa. E mesmo que o artista tenha uma equipe, esta equipe precisa ter muita qualidade técnica e muito influência para fazer o trabalho crescer e alcançar um grande público.

09) RM: Como você analisa o cenário do forró? Em sua opinião quem foram as revelações musicais nas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Banda Caacttus | Alfranque Amaral: O cenário do Forró é preocupante e ao mesmo tempo fabuloso. É preocupante no sentido de que parece existir uma barreira natural que impede o Forró de se desenvolver em larga escala. Algumas pessoas defendem que isso ocorre porque tudo no forró é difícil: é difícil comprar uma sanfona porque ela é cara; é difícil tocar uma sanfona porque é um instrumento de cego, ou seja, quem toca sanfona não consegue enxergar as teclas e os baixos da sanfona; enfim, muito difícil lhe dá com a complexidade de tocar uma sanfona: lidar com o teclado, os baixos e o fole da sanfona; é muito difícil cantar Forró; é muito difícil compor Forró, pois requer uma letra muito poética, muito simples e uma melodia muito rica. Tudo isso torna o Forró muito difícil. E o Forró é fabuloso porque é como uma extensão do coração do povo. O forró emociona, cativa, une as pessoas, as crenças, os corações, as almas. Por estas razões acredito que o Forró só acabará quando a humanidade for extinta. Enquanto houver gente no mundo haverá forró. Então, todos esses aspectos fazem do forró um valor cultural de uma riqueza inestimável.

Nas últimas duas décadas surgiram nomes interessantes no Forró. Entre eles, nomes como: Del Feliz, Mestrinho, Lucy Alves, Deusa Nordestina do Forró, Forró Meirão. Tenho certeza que muitos outros artistas talentosos que muitas vezes não conhecemos por não pesquisarmos a fundo ou, por falta de divulgação, ou por não aparecerem na grande mídia. Não sei se alguém regrediu. Mas, fico triste quando me lembro da competência e genialidade de uma artista como Lucy Alves ao vê-la se distanciar do Forró Pé de Serra. Creio que talvez isso aconteça por questões mercadológicas. E por esta ótica até a entendo. Mas, jamais deixarei de me lembrar da surpresa maravilhosa de quando a conheci, por acaso, tocando com o Clã Brasil, no Terreiro do Forró, em um São João de Patos-PB. É aquela lembrança maravilhosa que ficará gravada em minha memória. Saudades daqueles tempos.

Nas minhas pesquisas, vejo e fico muito feliz, em ver que está surgindo uma criançada sensacional, que se não mudar de estilo, em breve serão grandes baluartes do Forró. Entre estas crianças cito nomes como: Helloysa do Pandeiro, de Areia – PB; Raí Bezerra, de Parelhas – RN; Ian Messias, de Santo André – PB; Pedro do Cordel, de Bauru – SP; Francine Maria, de Ibiapina – CE; Crístian e Sebastian, de Parnaíba – PI; Nino Sanfoneiro, de Cruz da Almas – BA, Laís Amaro, Cajazeiras – PB, Wendell do Acordeon, Itapetim – PE e tantos outros que estão por aí, espalhados por esse Brasilsão. Tenho muita esperança nessa meninada…

10) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na carreira musical da banda Caacttus (falta de condição técnica para: brigas, gafes, show em ambiente ou público tosco, cantar e não receber, ser cantado etc)?

Banda Caacttus | Alfranque Amaral: Embora a Caacttus seja uma banda em que todos os integrantes sempre foram crianças, já aconteceu de tudo. Mas, vou me concentrar em descrever uma experiência maravilhosa que aconteceu no dia 25.12.2013. Nesta época Lucas Gabriel já tocava umas cinco ou seis músicas, entre elas, Jingle Bell. Neste dia estávamos na casa de minha avó materna Lavina Corado, em Santa Rita de Cássia – BA, que é banhada por um dos rios mais bonitos do planeta, o Rio Preto. Pois bem, neste dia logo cedo minha tia Maria Corado nos convidou para irmos à casa de um senhor vestido de Papai Noel que estava distribuindo presentes para a criançada. Para preservar a identidade do senhor o chamaremos de Papai Noel. E assim fizemos, fomos à casa do Papai Noel. Chegando lá, Lucas Gabriel tocou as cinco ou seis músicas que sabia e o Papai Noel ficou muito feliz, colocou o microfone na sanfona para o som sair num carro de som que estava estacionado no canteiro central da rua defronte a sua casa. Este carro de som fazia parte da estrutura do evento que o senhor o Papai Noel organizou para distribuir presentes para criançada. Quando íamos saindo de volta para casa, o Papai Noel presentou Lucas Gabriel com cinquenta reais e o agradeceu muito pela emoção e alegria que ele causara em todos ali com sua pequena sanfona.

Chegado de volta à casa de minha avó fomos direto para o Rio Preto, para minha esposa e os meninos conhecerem e tomarem banho no rio. Fomos para um local do rio chamado Piranhas, com Cristiano, filho de tia Maria. Alguns minutos após chegarmos ao rio, o telefone de Cristiano tocou, e me lembro dele dizer que estava nas Piranhas. Continuamos por ali apreciando a beleza do local e as águas transbordantes em algumas partes do rio. Quando de repente olho por entre as árvores e vejo o Papai Noel, seu filho e filha do o Papai Noel que chegara mais atrás. Eles se aproximaram e o Papai Noel começa a me pedi desculpas, que estava muito envergonhado de no dia de Natal ter recebido uma visita tão especial, ter se emocionado tanto com o menino sanfoneiro e ter sido tão pouco generoso ao dá apenas cinquenta reais ao menino.

Nesta hora, enquanto eu dizia que não havia do que pedi desculpas, ele levantou a roupa vermelha do Papai Noel, enfiou a mão no bolso da calça jeans que ele usava por baixo da roupa de Papai Noel e retirou do bolso um maço de notas de cinquenta reais e entregou a Lucas Gabriel. Quase de joelhos, semiagachado defronte a Lucas Gabriel, o pediu desculpas e disse: “meu filho, aqui está o que você merece. Deus o levou até a mim para que eu tivesse o melhor presente de Natal de minha vida, muito obrigado. Essa é a prova da minha gratidão, por favor me perdoe, e receba esse pequeno presente. E acrescentou: Deus te abençoe com uma vida longa e feliz. Feliz Natal!”.

A filha do Papai Noel quis pegar o dinheiro de volta e eu já ia entregando a ela o dinheiro, quando o filho do Papai Noel, de botas e apenas de calça jeans, sem camisa, disse em voz alta: “se você puser suas mãos neste dinheiro eu te mato agora mesmo. Respeite a vontade de nosso pai! Ele está fazendo o que seu coração pediu para fazer! Tenha vergonha em sua cara e respeite a vontade dele! Você não tem medo dele morrer do coração no dia de Natal por conta desta sua atitude mesquinha?”. A filha acabou se contendo e aceitando a vontade do pai.

Assistimos a tudo aquilo arrepiados. Tudo parecia a cena de um filme. Muita emoção e ao mesmo tempo um certo medo de tudo aquilo acabar em tragédia. Felizmente, tudo acabou bem e hoje estamos aqui registrando esse dia único de nossas vidas. Seremos eternamente gratos ao Papai Noel e ao seu gesto de gratidão e generosidade. Que Deus o abençoe sempre! E, que seu gesto seja sempre, para nós, uma bússola norteante na busca do bem e do enaltecimento da generosidade e do talento e bondade do próximo. Já ia me esquecendo, ao chegar de volta à casa da minha avó contei o dinheiro, eram vinte notas de cinquenta reais (mil reais).

Neste mesmo dia no início da tarde, a casa de minha avó estava cheia de filhos, netos, bisnetos e parentes dela. Em meio a todo aquele povo ali, percebemos uma movimentação estranha. A meninada toda seguia Luiz Miguel, na época com apenas três anos, para onde quer que ele fosse. De repente Luiz Miguel entra no quarto e sai todo desconfiado. Quando olhamos pra ele, lá vinha ele com uma nota de cinquenta reais na mão. Ele estava fazendo a festa com o dinheiro que Lucas Gabriel recebera, horas antes, do Papai Noel. Desse modo toda criançada o seguia para onde quer que ele fosse. Luiz Miguel simplesmente estava pegando o dinheiro para comprar sorvetes e picolés para toda criançada em um pequeno comércio que ficava quase defronte à casa de minha avó. Naquele dia ele fez, literalmente a festa, pagou sorvetes e picolés para todas as crianças.

Outra história muita bacana aconteceu no dia 12.06.2020 durante o Forró da Resistência, primeiro dia do Festival São João na Rede, transmitido no YouTube, apresentado por mim, que estava em Campina Grande-PB e Marcus Lucenna e Lindbergh Farias que estavam no Rio de Janeiro – RJ. A Caacttus foi a primeira atração, das mais de trinta do dia. A live começou e o microfone de Lucas Gabriel estava mutado, praticamente o som bem baixinho da voz dele que saia na live era captado pelos microfones da eletrificação da sanfona. Foi aquele estresse! Mas, eu não poderia deixar o comando da transmissão para tentar resolver o problema do microfone. Até porque, se eu fizesse isso iria aparecer na live, poderia estressar mais ainda os meninos, e, portanto, poderia piorar o que já estava ruim. Foram cerca de 20 minutos de tensão, mas acabou. Eu continuei na locução e comandando a live por cerca de mais ou menos sete horas. Tudo acabou bem. No fim estávamos exaustos, mas com a certeza de que fizemos um grande trabalho.

Dez dias depois, dia 22.06.2020, dia do meu aniversário, recebo mensagens no WhatsApp da coordenadora do Fórum Nacional do Forró Raiz de Pernambuco, Tereza Acioly. Ela dizia, “Alfranque, olha que massa”. Quando vi, quase infarto. Era uma foto, print, dos meninos daquela live em que o microfone de Lucas Gabriel não funcionou, estampada na capa do Caderno de Cultura do Jornal O Globo, ao lado de Gilberto Gil, Nonato, Marcelo Caldi, Chambinho do Acordeon. Eu fiquei estático diante da matéria. Agradeci a Deus e entendi que para os meninos aparecerem ali naquele jornal o som do microfone de Lucas Gabriel não precisava ter funcionado. Pois, foto não tem som, né mesmo? Me lembrei do que o amigo Antonio Carlos me disse uma vez: “Alfranque, seu filho Lucas Gabriel tem muita luz, tanta luz que ele pode se ofuscar com ela”. Entendi também, e disse aos meninos, que a aparição deles ali era simbólica, e trazia a mensagem subliminar de que o Forró estava se renovando. E acrescentei, a foto de vocês junto de mestres como Gilberto Gil, é a prova dessa renovação. De todo jeito vibramos muito. Afinal de contas os meninos estavam na capa de um dos maiores jornais do país, sem sair de casa, em um dia que tudo deu errado para eles. Sem falar que o jornal poderia ter escolhido outras crianças, entre tantas que se apresentaram no FSJR – Festival São João na Rede. Moral da história: marcamos um gol de placa histórico belíssimo!

11) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Banda Caacttus | Alfranque Amaral: O que me deixa mais feliz na vida, incluindo, inclusive, a carreira musical, é a generosidade e simplicidade de alguns seres humanos iluminados. Vejo essa luz sobretudo nas pessoas mais simples e com menos estudo. Nasci e vivi os primeiros sete anos de minha vida na roça e cresci vendo gestos de generosidade do tipo, um vizinho da propriedade ao lado da propriedade do meu pai Alfredo Lobato da Silva, matar uma galinha e duas outras famílias vizinhas comerem dessa galinha. Aqueles eram bons tempos. Parece que as pessoas tinham mais zelo umas pelas outras. Atualmente, está cada dia mais difícil ver coisas deste tipo acontecerem. E digo isso com propriedade porque nasci na roça, vivi em várias cidades, inclusive em três capitais e no estudo concluir até o doutorado. Mas, as grandes atitudes, aquelas atitudes que nos emociona, nos causa arrepio e nos dignifica como ser humano, em geral, vi emanadas das pessoas mais simples, quase sempre mais pobres e menos estudadas.

No campo musical me lembro de algumas atitudes que nos emocionaram e nos deixaram muito felizes. Uma delas foi a história do Papai Noel, narrada em outra pergunta. Outra que vale a pena ser externada diz respeito à Roda de Choro do Mestre Duduta (José Ribeiro da Silva falecido no dia 25.07.2018 aos 84 anos), em Campina Grande – PB. Antes da pandemia do Covid-19 fomos muitas vezes a esta Roda de Choro. Em algumas destas vezes Lucas Gabriel oferecia grande resistência para ir comigo, talvez por preguiça ou por não está afim de sair de casa. Mas, para não me desagradar acabava indo. Quando lá chegava, tocava, cantava, encantava, se maravilhava, recebia elogios, enfim, vivia aquele momento de forma intensa e radiante. E, quando dali saia antes mesmo de entrar no carro para retornamos para casa ele dizia: “papai não dê ouvidos quando eu não quiser vi para a Roda de Choro, por favor, me traga nem que para isto o senhor precise me amarrar”. Esse é um registro que eu não poderia deixar de dizer.

O senhor Duduta, é natural de Bananeiras – PB e aos 5 anos de idade veio morar em Campina Grande, foi uma das pessoas mais iluminadas que conheci. Na sua simplicidade e nos mais de sessenta anos de sua Roda de Choro formou centenas de bons músicos em Campina Grande. Com a sua fiel ajudante e esposa amante, Dona Zilda, foi um grande Luthier. Além de ter construído instrumentos sensacionais, também restaurou, fez reviver muitos instrumentos quebrados, praticamente destruídos. Ofício este, e também de grande músico, herdado por seu filho Waguinho. Quando me lembro do legado de Duduta e vejo que o poder público e os empresários da cidade nunca deram qualquer apoio a ele, à sua obra, a seu legado e à sua Roda de Choro, fico muito triste e tenho a certeza de que algo está muito errado neste mundo. Parece-me que tem alguma coisa muito importante fora da ordem. O mestre Duduta encantou em 25 julho de 2018, mas seu legado, sua obra e sua roda de choro continuam. E digo mais, quem vier a Campina Grande e gostar de cultura, não pode deixar de conhecer esse importante ponto de cultura da cidade. Ali eu vi a generosidade e a simplicidade materializados nas pessoas e na arte: Salve o Mestre Duduta, o senhor vive em nossos corações mestre.

E o mais triste da vida, dentro ou fora da carreira musical, entre pessoas, instituições ou nações, é o egoísmo e o egocentrismo: primeiro eu, segundo eu, terceiro eu, por fim eu, e assim sucessivamente.

12) RM: Nos apresente a cena musical da cidade que você mora.

Banda Caacttus | Alfranque Amaral: Campina Grande – PB é uma cidade muito diferente da maioria das cidades que conheço. Uma cidade com vida noturna pacata, de poucas festas, onde os jovens têm comportamento atípico, são muito caseiros e pouco festeiros, pelo menos é esta a impressão que sempre tive desde que cheguei à cidade no dia 15.11.1994. Talvez por isto, seja um grande centro universitário. As pessoas vêm pra aqui para estudar ou trabalhar. Até o carnaval é completamente atípico. É uma época de completa calmaria na cidade. Época de encontros religiosos e ecumênicos e algumas poucas manifestações profanas. Dentre elas, se destaca o bloco carnavalesco Jacaré do Açude Velho. Diante dessa cena, me parece que Campina Grande trabalha e/ou estuda onze meses do ano e deixa o mês de junho para festejar. É como se a energia de um ano de estudo e/ou trabalho se concentrasse e extravasasse nas festas juninas. As quais, são tidas como as melhores e maiores festas juninas do país. Campina Grande carrega a alcunha de cidade do Maior e Melhor São João do Mundo (MSJM).

O MSJM é uma marca construída ao longo de quarenta anos de história (1981), cerca de trinta dias de festa em cada edição. Tradicionalmente, o MSJM ocorre em toda cidade e particularmente em diversos lugares públicos e privados. O Parque do Povo é onde se concentra boa parte da festa que a prefeitura realiza. Lá tem: um palco principal, muito grande e luxuoso, onde se apresentam as grandes atrações da festa; o segundo maior é o palco cultural, onde se apresentam artistas regionais, sobretudo os da cidade; um terceiro palco fica na pirâmide, onde além de shows são realizados os concursos de quadrilha, apresentações de grupos de dança, bem como o famoso casamento coletivo; outros três palcos são as chamadas Ilhas ou Palhoças de Forró, onde se apresentam os trios de Forró! Além disso, no Parque do Povo tem uma infinidade de barracas onde se vende todo tipo de comidas e bebidas, bem como, tem réplicas de monumentos históricos, etc. Vale muito apena conhecer o MSJM.

13) RM: Como coordenador dos Fóruns de Forró da cidade quais críticas e elogios você faria à organização do Maior São João do Mundo?

Banda Caacttus | Alfranque Amaral: Elogios todos os possíveis. Neste caso num universo de zero a cem, os elogios passariam dos oitenta e cinco pontos. Ao longo de quase 40 anos de história, o MSJMMaior São João do Mundo vem sofrendo naturalmente algumas mudanças. Até mais ou menos o ano de 2016 a festa era muito cultural, prevalecendo o Forró nos palcos da festa. Críticas menos de quinze ponto num universo de cem. Vamos a elas.

Mais ou menos por volta de 2016 a prefeitura resolveu mudar o formato da festa, sob o argumento de que a festa passara a ser realizada por uma empresa contratada pela prefeitura, a qual tinha total autonomia sobre a festa. “Foi a chamada privatização da festa”. Desde então, o lado comercial da festa tem prevalecido. O Forró e a cultura regional foram relegados ao segundo plano: o que não é uma coisa boa para sustentabilidade da festa. A partir daí houve uma grande descaracterização da festa, com uma invasão de estilos musicais, como: música Sertaneja, FUNK, Gospel, Axé music e outros tipos de música. Tal mudança, inchou a festa e aumentou muito a violência. Vendeu-se mais cerveja, mas também se perdeu o turista que vem de longe, que fica em hotel, que passeia e leva em sua bagagem recordações, entre elas, presentes e artesanatos da terra visitada.

E como em toda festa com público muito grande as chances de acontecimentos bizarros aumentaram. Lamentavelmente, em 2018 o terror tomou conta da cidade. Os megas shows de artistas midiáticos de todos os estilos de música que lotavam o Parque do Povo levou a cidade às primeiras páginas dos maiores jornais do país, reverberando nos principais veículos de comunicação nacionais e até internacionais. Na época diversas pessoas deram entrada nos hospitais da cidade vítimas de furadas de agulhas. Dizia-se que tais agulhadas eram usadas para disseminar doenças. Segundo relatos e matérias da época, as ocorrências aconteciam aleatoriamente no meio da multidão. Realmente foi um terror. A festa deste ano terminou com esse triste legado: medo e insegurança, que afugentavam até as pessoas da cidade, quanto mais os turistas.

Em 2019, ano do último São João presencial da cidade, aconteceu o anúncio de que a festa seria aberta por Ivete Sangalo, da qual eu sou um grande fã. Todavia, o anúncio de que Ivete iria abrir o MSJM gerou uma repercussão tão grande na cidade e nas redes sociais, que dias antes da abertura do MSJM a própria artista desistiu do show e o cancelou. Para completar a repercussão nas redes sociais e na imprensa, uma das figuras mais lendárias, simbólicas, carismáticas e sensacionais da cena cultural da cidade, o mestre Biliu de Campina, até então estava fora da grade da festa. Salvo engano ele não foi contemplado em nenhuma data no MSJM de 2019. Ficou literalmente fora dos palcos. Brilhou apenas nas redes sociais, nas quais não se falava em outro assunto.

Me lembro na época de uma fala de um empresário entusiasta da chamada privatização da festa dizer em uma das maiores emissoras de rádio da cidade que, de fato, fora um erro cometido por parte dos organizadores da festa abrir o MSJM com uma artista de outro estilo musical, diferente do Forró, como era o caso da Ivete Sangalo. E mais, que o ocorrido, deveria servir de exemplo para os organizadores, para nunca mais se repetir. Como amante e defensor dessa cultura e como representante dos Fóruns do Forró da cidade (Fórum Nacional do Forró de Raiz e Fórum Nacional da Rota do Forró), eu vibrei e concordei com a fala deste empresário.

Outro efeito ou consequência da privatização da festa foi a imediata desvalorização dos forrozeiros, sejam os de Campina Grande, sejam os de fora. Houve quase que um completo desprezo à categoria. Diz-se que os forrozeiros chegavam com sua proposta e o contratante dizia: “só temos tanto pra você, é pegar ou largar!”. Muita gente boa se revoltou e ficou fora dos palcos. Há relatos de artistas que eram contratados por quinze, vinte mil e receberam propostas para tocarem por três mil. Em alguns casos cachês até menores que três mil reais. Cachês estes que levavam meses, em alguns casos, até anos para serem pagos. Fato este que é uma infração à lei 8.666/93, de 21/07/1993 que rege as contratações de artistas pela iniciativa pública: municípios, estado e federação.

Outra triste realidade, além dos atrasos nos pagamentos dos cachês, o artista que reclamava ficava fora dos palcos no ano seguinte. Isso aconteceu, tanto com artistas de Campina Grande, como também com artistas de fora e de renome nacional e midiático. Me lembro de uma entrevista de Elba Ramalho para a imprensa de Caruaru – PE, em junho de 2017, onde ela falava da descaracterização da festa e da invasão do sertanejo nas festas juninas. Na ocasião ela falou da preocupação em manter as tradições, tal qual ocorre na festa do Peão de Boiadeiro de Barretos – SP, em que nomes como o dela e o de Dominguinhos nunca fizeram parte da festa e acrescentou, o pessoal de Barretos está certo, tem que ser assim mesmo. A repercussão das declarações de Elba foi grande, reverberaram distorcidamente Brasil afora. Isso causou um desgaste tão grande, que Elba quase fica de fora do MSJM de 2018 e no ano de 2019 a programação do MSJM foi divulgada sem o nome dela. Felizmente, ela acabou sendo contratada. Entretanto, muitos outros que reclamaram, nunca mais voltaram aos palcos do MSJM.

Outro problema que vejo como grave é a desvalorização dos trios de Forró. Vergonhosamente, o cachê dos trios de Forró, que na capital João Pessoa – PB é de três mil reais, aqui no MSJM caiu para humilhantes quinhentos reais. Esse tratamento de completa desvalorização dos artistas é um ”tiro no pé“, uma vez que dificultará a renovação dos artistas de Forró, que além de praticamente só tocarem nos meses de maio e junho, ainda recebem subcachês. E ainda, muitas das vezes, só os recebe depois de meses. Além disso, a prefeitura e os gestores da festa não realizam quaisquer ações no sentido de capacitar os forrozeiros e a cadeia produtiva do Forró.

Neste sentido, a luta dos Fóruns do Forró tem sido grande para elevar o cachê dos trios para um valor mínimo de três mil reais e limitar o cachê máximo de qualquer artista, pago com dinheiro público, a duzentos mil reais. Vale lembrar que, muito embora se diga que a festa é patrocinada e bancada por empresas particulares, os recursos de tais patrocínios chegam através incentivos fiscais, como ocorre com a Lei Rouanet e outras leis de incentivo. Neste caso, o empresário banca o patrocínio com um dinheiro que é público, uma vez que ele teria que pagar o tributo com aquele capital. Assim, os empresários realizam ações de marketing e divulgação de suas marcas com um dinheiro, que embora saia de seus cofres, é dinheiro público.

Outra demanda dos Fóruns do Forró é a igualdade de tratamento com som de qualidade e camarins em todos os palcos do Parque do Povo. Não é justo que se tenha super camarins para os artistas do palco principal, com comidas e bebidas a vontade e que nas Ilhas de Forró, por exemplo, não tenham sequer mini camarins, onde os artistas possam trocar de roupa, beber uma água e fazer um lanche antes e após os shows. Idem na questão do som, que deve ser qualidade em todos os palcos, bem como, ter ao menos um técnico de som em cada palco.

No tocante às demandas dos Fóruns do Forró, nós enquanto fóruns já até fomos recebidos várias vezes pelos responsáveis pela festa (prefeitura e empresa), que sempre nos escuta, mas nunca nos ouve, nem aceitam as propostas dos fóruns. Mas, vamos continuar tentando e nos organizando, até porque: “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”. Vale lembrar também que os fóruns só querem o melhor para festa e a cultura. Não somos adversários, somos parceiros, pelo menos tentamos sempre ser parceiros, para ajudarmos a elevar e valorizar a cultura nordestina ao ponto de destaque que ela merece.

14) RM: Quais os objetivos e ações do Fórum Nacional do Forró de Raiz?

Banda Caacttus | Alfranque Amaral: O FNFRFórum Nacional do Forró de Raiz foi criado com o objetivo de gerar discussões e conhecimento sobre as matrizes do Forró, bem como, buscar gerar políticas públicas que venham a garantir a perpetuação do Forró e a sustentabilidade de toda cadeia produtiva do Forró.

Felizmente, graças ao FNFR, tudo indica que dia 13/12/2021, Dia Nacional do Forró, seja homologado pelo IPHANInstituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional o registro do Forró como patrimônio imaterial da cultura brasileira. E essa é uma grande vitória da coletividade, construída e alicerçada no inconsciente das pessoas que fazem o FNFR.

15) RM: Quanto às contratações dos artistas pela iniciativa pública, qual lei rege tais contratações? As iniciativas públicas estão cumprindo a lei ao contratarem os artistas?

Banda Caacttus | Alfranque Amaral: Quando um artista é contratado pela iniciativa pública, sejam órgãos municipais, estaduais ou federais, a contratação deve ser feita de acordo com a lei 8.666/93, de 21/07/1993. Tal lei é clara ao explicitar que o artista deve ser contratado por inexigibilidade! Isto é, o artista deve ser contratado pela sua história, pelo seu legado e não por um pregão. Em outras palavras, o artista não pode ser contratado pelo valor que o contratante quiser, ou oferecer. O contratante é obrigado a contratar o artista pelo valor que o artista for capaz de comprovar com notas fiscais de trabalhos realizados para iniciativa pública e também para a iniciativa privada.

O modus operandi que a empresa responsável pela realização do São João de Campina Grande utilizou e que também foi utilizado por várias outras cidades do Brasil tem sido questionado na justiça. Segundo informações de alguns desses juristas, tais ações estão sendo vencidas por eles, que defendem a tese da inexigibilidade prevista na lei 8.666/93. Deste modo, as empresas contratadas para realizar tais festas estão cometendo infrações, ao não cumprir a lei e, certamente, os órgãos que as contrataram responderão em juízo por tais infrações. Como aliás já vem acontecendo em diversas cidades. Campina Grande é uma delas.

Um desses juristas é o renomado advogado Ricardo Bezerra, que escreveu o livro: Licitação e Cultura – Contratação de artistas pela Administração Pública, editora Ideia, 2018. E, que está com um canal no YouTube no qual ele sempre publica vídeos sobre os ditames das contratações de artistas pela administração pública. Inclusive, ele acabou de publicar uma série importantíssima sobre a novíssima lei que regerá as contrações pela administração pública: lei 14.133 de 01/04/2021, que veio para substituir a lei 8.666/93. Recomendo fortemente que todo artista se inteire desse assunto. A lei 14.133 estará plenamente em utilização até 01/04/2023. Até lá, o gestor público pode contratar de acordo com a 8.666/93 ou a 14.133. Depois de 01/04/2023 as contratações, obrigatoriamente, terão que ser regidas pela lei 14.133.

16) RM: Como você ver Campina Grande do ponto de vista cultural, econômico e científico?

Banda Caacttus | Alfranque Amaral: Do ponto de vista cultural Campina Grande – PB é um celeiro de artistas de vários estilos e com vários graus de fama e reconhecimento dentro e fora da cidade, do Estado, do país e do mundo. No tocante ao potencial científico, tem uma forte tradição como renomado centro universitário quase secular reconhecido nacionalmente e internacionalmente. Por fim, do ponto de vista econômico tem uma tradição comercial de alguns séculos.

Portanto, Campina Grande reúne, ao meu ver, todas as condições de ser uma grande potência cultural, industrial, comercial, tecnológica para atrair cientistas, estudantes em todos os níveis: da creche ao pós-doutorado, atrair empresas do setor tecnológico, bem como, atrair turistas do mundo inteiro todos os meses do ano e não apenas durante o mês de junho.

Embora o MSJM seja uma festa incrível, ele é apenas a cereja de um grande bolo muito poderoso. Bolo este que se explorado de forma coerente pode e deve, não só trazer muita riqueza para a cidade, como também, projetá-la definitivamente para um futuro de muita sustentabilidade. Temos uma joia preciosíssima, ainda bruta, que infelizmente, tá longe de ser explorada em toda sua integralidade. Campina Grande tem potencial de ser um grande polo de desenvolvimento cultural, tecnológico e comercial, o Vale do Silício do hemisfério sul. Só está faltando ação pra isto acontecer. O mais difícil, que são: instituições fortes e potencial humano, já temos.

17) RM: Quais os músicos e bandas locais que você recomenda ouvir?

Banda Caacttus | Alfranque Amaral: Campina Grande é um celeiro de grandes artistas, grandes mestres. Cidade que tem o privilégio de ser a terra mãe de mestres como: João Gonçalves, com suas mais de mil composições. Entre elas, sucessos como: Severina Xique Xique, “Galeguim do Zoi Azul, “Mate o Veio, “De Quem é esse Jegue”, “Pescaria em Boqueirão”. Músicas eternizadas pela irreverência e a voz do Rei da Munganga, o também campinense Genival Lacerda, infelizmente vítima no dia 07.01.2021 da Covid-19. João Gonçalves é um artista que dispensa comentários. Mas, eu não poderia deixar de me furtar de falar da simplicidade e generosidade desse grande homem a mim apresentado pelo amigo Antonio Carlos da Fonseca Barbosa no finalzinho de abril de 2017.

Cerca de dois meses depois estava o mestre, a meu convite, colocando seus mais de quarenta anos de reputação em risco. Ele, generosamente, aceitou fazer uma matéria para o programa Aparecida Sertaneja, da TV Aparecida, para um quadro em que um jovem talento apareceria ao lado de um experiente talento. O jovem talento era Lucas Gabriel e o mestre era João Gonçalves. Essa matéria foi gravada no Sítio São João em junho de 2017, mas nunca a vimos. Felizmente, fizemos nossos próprios registros daquele momento único em nossas vidas. Vale a pena lembrar ainda que por ser considerado rei do duplo sentido, algumas pessoas julgam João Gonçalves como um indivíduo malicioso ou coisa do tipo. Mas, esse achismo fica apenas para as pessoas que não o conhece. João Gonçalves é um ser humano simples, doce e admirável, do qual nos tornamos amigos dele e da família e sempre que podemos o visitamos. Em todas essas visitas ele e sua adorável esposa Dona Glória e seus filhos sempre nos receberam com muita alegria e bom humor. A gente tem a sensação que nem está diante de um mestre, cuja obra é mundialmente conhecida, que tem músicas gravadas por artistas de vários países e tem inclusive músicas em filmes.

Outros dois nomes campinenses consagrados são Antonio Barros e Cecéu. Antonio Barros nasceu no então distrito de Queimadas, pertencente a Campina Grande – PB, hoje cidade de Queimadas – PB. Eles têm mais de setecentas músicas gravadas, verdadeiros hinos do forró, como “Homem com H, “É Proibido Cochilar, Bate Coração, “Por Debaixo dos Panos, “Bulir com Tu, “Sou o Estopim, “Forró Número 1 e tantos outros. Segundo eles, só músicas inéditas, ainda sem gravar, são cerca de trezentas. Nos conhecemos e nos tornamos amigos nas prévias do Troféu Gonzagão de 2018, quando Lucas Gabriel vez a festa tocando suas músicas no restaurante do hotel onde foi realizado o evento. Dias depois a farra continuou, promovida pela equipe do blog Festar Muito, em João Pessoa – PB, na residência do grande mestre Pinto do Acordeon. Esse encontro foi maravilhoso e reuniu grandes mestres de nossa cultura, tais como: Antônio Barros e Cecéu, Pinto do Acordeon, Hermelinda Lopes, Preto Guarabira, Lisete Veras (esposa de Parafuso, zabumbeiro e fundador dos Os 3 do Nordeste), Os Filhos do Forró e convidados.

Outro nome que não poderia deixar de falar é Biliu de Campina. Um dos cantores e figura humana das mais irreverentes e talentosas que conheço. Um mestre de nossa cultura. Um ferrenho defensor do Forró. É o maior discípulo de Jackson do Pandeiro. Nascido na vizinha Alagoa Grande – PB, Jackson juntamente com Luiz Gonzaga são os dois pilares mestres da cultura nordestina. Além dos nomes já citados, Campina Grande tem a honra de ter sido escolhida como cidade mãe de ícones como: Rosil Cavalcanti, Duduta, Parafuso, Marinês, Elba Ramalho.

Dentre estes falarei um pouco de Parafuso, com o qual cheguei a ter contato e me tornar amigo. Ele foi o zabumbeiro, cantor e compositor, fundador dos Os 3 do Nordeste. Um mestre que tive a honra de conhecer por acaso, quando precisei comprar um zabumba, bem pequeno, para meu filho Luiz Miguel, na época com quatro anos de idade. Me indicaram ele como o luthier que poderia construir o zabumba que eu procurava comprar e não encontrava no comércio. E assim aconteceu, um amigo dono de uma loja de instrumentos musicais da cidade me passou o contato de Parafuso. Eu liguei e fui à casa dele encomendar o Zabumba. Quando o zabumba ficou pronto fomos eu, minha esposa e os meninos Lucas Gabriel e Luiz Miguel, respectivamente, com oito e quatro anos, pagar e receber o zabumba.

Quando soube que íamos à casa de Parafuso, Lucas Gabriel fez questão de aprender a tocar “É Proibido Cochilar, para tocar para seu ídolo Parafuso. Quando lá chegamos fomos muito bem recebidos. Foi uma festa total, fomos presenteados com CDs e DVDs autografados dos Os 3 do Nordeste. E, Parafuso num gesto de grandiosa generosidade inaugurou o zabumba tocando junto com Lucas Gabriel na sanfona e Luiz Miguel no triângulo. Eu filmei tudo. Quando eles terminaram de tocar e eu de gravar, eu perguntei se poderia publicar aquele vídeo. Com aquela face alegre e radiante a reposta de Parafuso foi: “meu amigo fique à vontade pra fazer o que você quiser com este vídeo”. Eu, naturalmente, perguntei se poderia publicar o vídeo por duas razões. A primeira é que não se pode publicar nada sem autorização da pessoa que foi filmada e a segunda e mais importante razão é que fiquei preocupado em expor aquela lenda viva do forró, tocando com crianças que nem sequer sabiam tocar direito. Diante de sua reposta, eu tive a certeza de que tudo que eu já ouvira a respeito daquele homem fazia jus ao seu gesto de nobreza e grandeza. Saímos de lá muito felizes, com a tão sonhada zabumba nova e com a certeza de que conhecemos um grande ser humano e um artista sem igual.

Agora que já falei nos grandes mestres, a velha guarda, por assim dizer. Vamos doravante falar de nomes, talvez não tão famosos quantos os primeiros, mas que são muito bons, que eu sem pestanejar recomendo muito, que sejam ouvidos. Entre eles estão: o professor, poeta, compositor, cantor, violonista Dudé das Aroeiras, que tem uma obra autoral sensacional. Ele e seu violão maravilhoso são uma espécie de Elomar Figueira Mello ou Xangai da Paraíba. Tem músicas belíssimas como Violinos do Ar. Essa música tem um dos versos mais belos que já vi em uma canção: “o pássaro sem pauta é a música que falta o maestro aprender”. Com essa música o também poeta, cantor e compositor campinense Pepysho Neto venceu dezenas de festivais pelo Brasil afora; Outro que também sou fã é Carlos Pêre, também professor, poeta, cantor e compositor de mão cheia. Tem músicas sensacionais como: A Regra de Zabé, “Um Xote pela Feira, “Se José Cavalgasse de Camelo, “O Coco dos Três Pandeiros” e muitas outras.

Outro poeta, cantor e compositor, apresentador de TV, filho de poeta cantador, que também faz sua obra com primor é Ton Oliveira, autor deParaíba Joia Rara, que considero sua obra prima. Uma música que se transformou no hino da Paraíba, semelhante ao que representa “Asa Branca” para o Nordeste. Outro que recomendo é Capilé, eclético por natureza, toca, compõe e canta de Bossa Nova a Axé, enveredando muito bem, também pelo Forró. Capilé é um ser humano especial, de uma alegria e simpatia cativantes. Lembro-me que no dia 26.06.2019, quando levei os meninos da Caacttus pela primeira vez ao seu programa Alegria, Alegria, da rádio Cariri FM 101.1, indicado por seu parceiro de programa, o também maravilhoso artista e ser humano Sócrates Gonçalves, outro que recomendo escutarem, Capilé ainda não conhecia os meninos. Mas, Sócrates disse: “Capilé espere e você vai ver e conhecer hoje, uma meninada arretada”.

O programa foi tão bom, a sinergia dentro daquele estúdio foi tão maravilhosa que Capilé se tornou naquele dia um irmão nosso. Só a cultura tem esse poder. Esta é uma das razões pela qual educo meus filhos com imersão cultural. Capilé é um irmão do tipo que já me ligou pra só pra mostrar, em primeira mão, uma música recém composta. Naquele dia, naquela espécie de transe dentro daquele estúdio me deparei algumas vezes com o olhar de admiração e contemplação de Capilé! Saí dali muito feliz, na certeza de que os meninos conseguiram cantar, encantar e até transcender. Voltamos ao Alegria, Alegria no dia 07.01.2020, dias antes de ser decretada o início do isolamento social, devido à pandemia da Covid-19. Nesta última ida dos meninos aconteceu de tudo, até Tempo Perdido de Renato Russo em ritmo de Forró, foi sensacional. Fizeram até música ao vivo protagonizando os cachorros de José Lucas. Esses programas estão no YouTube, recomendo assistirem, é só clicarem nos hiperlinks contidos na data de cada programa.

Outro nome que vale destaque é Abdias do Acordeon. Forrozeiro autêntico, se autodenomina matuto, mas é um artista e um ser humano maravilhosos. Dono de uma voz potente, é o maior intérprete do mestre João Gonçalves, do qual já gravou mais de cem músicas. Ele, sua sanfona e sua voz poderosa são sinônimos de forró da melhor qualidade. Outro que também destaco e que escolheu Campina Grande como cidade mãe é Amazan. Um vencedor nos palcos e fora deles. Mesmo sendo um homem de origem muito pobre e com pouco estudo, ele idealizou e fundou a Leticce Acordeons, uma das poucas fábricas de sanfonas do Brasil. Não tenho contato com ele. Mas, o parabenizo por sua história empreendedora, bonita e de superação.

Partindo agora para o pessoal com menos de quarenta anos, entre os muitos nomes, impossíveis de citar apenas em uma entrevista, destaco: Savanna Aires uma amiga, meiga e literalmente gente fina, cantora e compositora de mão cheia, tem uma voz firme e aveludada com a qual ela envereda em alto estilo pelo mundo do samba. As músicas dela são ótimas. Outra cantora e compositora jovem, de muita presença, musicalmente muito eclética, também é atriz e apresentadora é a patoense, radicada em Campina Grande, Gitana Pimentel; Outro cantor e compositor, dono de uma voz poderosa, que também tem crescido e se destacado na cena musical de Campina Grande é Lucas Barreto. Também muito eclético, canta de tudo.

Por fim, eu gostaria de fazer um comentário abrangente no tocante aos aspectos gerais de muitos outros grandes talentos campinenses. Infelizmente, muitos deles não fazem uma carreira autoral, acaba numa espécie de ofuscação ou de subutilização de um potencial incomensurável. Temos grupos, trios, bandas sensacionais aqui. Não sei se estou certo, e desde já peço mil desculpas se eu estiver errado. Mas, me parece que muitos não têm confiança ou não acreditam em uma carreira autoral. Há alguns desses grupos e pessoas mais próximas a mim e dos quais sou fã, que sempre que tenho oportunidade, estou instigando-os e motivando-os a gravarem. Creio que dessa forma elevaremos nossa cultura ao patamar que ela merece e que ela naturalmente deveria estar. Dois desses grupos dos quais já motivei gravar alguma coisa, são dois dos melhores trios que já conheci: Forró Campina e Os Anselmos. Este último trio desenvolveu uma técnica de cantar, os três membros ao mesmo tempo, em coro: é de arrepiar, simplesmente sensacional.

18) RM: Quais os fatores que faltam para uma cidade universitária e de forte comércio como Campina Grande, ter um mercado melhor para a profissão de músico?

Banda Caacttus | Alfranque Amaral: “Não sei!” Essa é uma resposta que muitos gostariam de ter. As aspas iniciais foram propositais, uma vez que a reposta existe e talvez seja mais simples do que possamos imaginar. Acho que falta uma gestão eficiente, por parte das máquinas pública e privada, desse grande patrimônio cultural e científico que habitam em Campina Grande. Quer um exemplo disso: Roda de Choro do Mestre Duduta. Essa Roda de Choro existe desde 1955, portanto, há mais de sessenta anos na cidade. Mesmo com o encantamento de Duduta em 2018, continuou ativa e só parou suas atividades agora em 2020 devido a pandemia da Covid-19.

Pois bem, essa Roda de Chora é frequentada por todos que gostam de cultura, seja quem mora em Campina Grande, seja quem mora fora. Tal Roda já foi visitada por nomes como Dominguinhos, Paulinho da Viola, Flávio José e tantos outros artistas, empresários e políticos influentes da esfera local e nacional. Quantos desses políticos ou empresários, mesmo admirando todo aquele legado de Duduta, já contribuiu sequer com um pacote de biscoito ou uma garrafa de café, que sempre estão presentes encima da mesa no meio da roda de choro? A resposta é: nenhum. Digo isso com conhecimento de causa, porque já tive a ousadia de fazer essa pergunta, que chega a ser constrangedora, aos donos da roda. Deixar um ponto de cultura dessa magnitude existir e resistir à própria sorte é de uma completa e absoluta falta de sensibilidade da gestão e da visão empreendedora por parte dos políticos e empresários. Pergunto-vos, quanto custa um pacote de café, quatro pacotes de biscoitos e uma garrafa térmica e algumas xícaras? Os biscoitos e o café é o que são consumidos em um mês de Roda de Choro! cujo valor, acredito não chegar a vinte reais mensais. Faço essa pergunta, e de antemão peço a família de Duduta que me perdoe por estar externando isto, para dizer que as pessoas que visitam a roda de choro sempre filmam e postam seus vídeos e fotos em redes sociais e isto, por si só, poderia ser uma grande propaganda para qualquer marca, seja indústria de café, biscoitos, empresa de instrumentos musicais, etc. Mas, ninguém se toca e nada faz.

Eu poderia passar dias e semanas aqui dando exemplos. Por fim, gostaria de deixar uma indagação no ar sobre o legado desse ponto de cultura: alguém em Campina Grande, no Brasil ou no mundo tem ideia de quantos músicos Duduta formou em sua Roda de Choro? e, qual a economia gerada por estes músicos em mais de sessenta anos de atuação da Roda de Choro? Para ajudar vocês a pensarem um pouco sobre a resposta, eu adianto que, apenas uma edição do Maior São João do Mundo (MSJM) movimenta, segundo dados da prefeitura, em torno de trezentos milhões de reais, só na cidade.

Outro exemplo de completa má gestão ocorre no tocante ao MSJM, que mesmo gerando essa fábula de dinheiro a prefeitura não valoriza e nem realiza qualquer ação para qualificar os forrozeiros com cursos e aprimoramentos. De modo que, os forrozeiros passam dez, onze meses do ano abandonados à própria sorte, vítimas da falta de uma política cultural inclusiva e que desse sustentabilidade à categoria.

No tocante à qualificação dos músicos, felizmente, o Centro de Arte e Cultura (CAC) da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) oferece, gratuitamente, diversos cursos. Entre eles, cursos de canto e música: violão, percussão, sanfona, oito baixos, etc.

19) RM: Campina Grande que realiza o Maior São João do Mundo, gera de fato, um mercado profissional para os músicos locais?

Banda Caacttus | Alfranque Amaral: Até gera, mas seguindo quase sempre os padrões institucionais, com cachês muito baixos.

20) RM: O que falta para o Festival de Inverno de Campina Grande (FICG) ter o mesmo destaque que o Maior São João do Mundo (MSJM)?

Banda Caacttus | Alfranque Amaral: Não sei, e acredito que seja até muito difícil estabelecer qualquer comparação, uma vez que o FICG e o MSJM são eventos que embora sejam de música, são muito diferentes. Todavia, mesmo assim, emitirei uma opinião que pode fazer sentido!

A cultura do forró e das festas juninas, por serem festas religiosas e também profanas seculares, se tornaram festas muito populares. Tais festas sempre foram realizadas para comemorar a fartura das colheitas, celebradas de modo religioso e também profano, numa sinergia de fé e alegria. Portanto, estão naturalmente há séculos no inconsciente popular. Já o Festival de Inverno de Campina Grande (FICG) mesmo sendo um importante festival idealizado e realizado desde 1975 pela grande ativista cultural Eneida Agra Maracajá e família em parceria com a prefeitura, me parece que ainda não entrou no inconsciente popular.

Talvez a organização do FICG não tenha conseguido fazer um forte trabalho de base de modo a conseguir inseri o FICG no inconsciente das pessoas. Já o Maior São João do Mundo (MSJM) mesmo surgindo oficialmente apenas em 1983, a cultura das festas juninas já estava há séculos no inconsciente popular. Fato este, que elucida de maneira inequívoca a força do forró e da cultura nordestina. Razão pela qual sempre digo, no dia em que esta joia chamada forró for trabalhada e lapidada a cultura nordestina chegará forte, e para ficar, em todas as partes do mundo. Aliás, isto já está acontecendo lá fora, onde sementes estão sendo, individualmente, plantadas e regadas, por pessoas como o pernambucano Diego Silva em Nagóia no Japão; o cearense Eliano Bráz, criador do The New York Forró Fest, e o paraibano Gelúcio em Nova York nos EUA; o mineiro e sanfoneiro Fabiano Santana que junto com Gennaro são protagonistas do filme Estradar na Alemanha e muitos outros brasileiros espalhados em vários lugares do mundo.

Quando me refiro ao Forró como joia preciosa, é preciso entender que o Forró é uma cultura, que inclui vários ritmos musicais dentro de um estilo de música. Além disso, tais ritmos musicais estão fortemente atrelados à dança: xote, baião, forró, xaxado, coco, arrasta-pé, etc. A denominação Forró também inclui o local onde estas manifestações culturais ocorrem. Inclui uma culinária, inclui vestimentas, artesanatos e costumes. Ou seja, é uma riqueza que nem em dezenas de páginas seria possível descrever.

21) RM: Campina Grande, que faz o Maior São João Mundo, tem espaços para dançar forró fora do mês de junho?

Banda Caacttus | Alfranque Amaral: Forró é música, é dança, é roupa, é comida, é suor, é alegria, é local de festa, é encontro, é emoção, é abraço, é afeto… Não acredito que alguém consiga passar onze meses sem esses atributos. Como já disse, o forró é uma joia preciosa, um tesouro ainda bruto que, assim como tantas riquezas que temos no Brasil, ainda não sabemos explorar com sustentabilidade. Razão pela qual, somos um país pobre ao mesmo tempo que temos as maiores riquezas do mundo: clima, fauna, flora, Carimbó, Axé, Frevo, Choro, Forró, ausência de terremotos, tsunamis, furacões e tantas e tantas outras riquezas: ouro, diamantes, ferro, manganês, petróleo, sol o ano inteiro, as maiores reservas de água doce líquida do mundo e um povo alegre, feliz, festeiro e hospitaleiro. Preciso dizer mais alguma coisa?

22) RM: Quais os outros gêneros musicais que são fortes em Campina Grande?

Banda Caacttus | Alfranque Amaral: Infelizmente, Campina Grande – PB, como toda cidade do país segue o modismo ditado escancaradamente e/ou subliminarmente pela força do capital, do jabá, imposto pela indústria do entretenimento, que suprime a real cultura de um povo, e enfia goela abaixo o que eles, os poderosos donos do dinheiro, querem que seja sucesso. Aí você me pergunta e como eles fazem isso? Simples! Eles, os donos do dinheiro, compram horários em rádios e TVs, pagam pra tocar suas músicas, compram espaços nas redes sociais, fazendo impulsionamento e tantas outras manobras, inclusive, censura a conteúdos que as redes sociais nos impõe sem que ao menos saibamos que nossos conteúdos estão sendo manipulados ou censurados. Portanto, respondendo sua pergunta, aqui é forte o que estiver na moda: no momento o sertanejo. Mas, isso muda todos os anos, como em um passo de mágica, como em um chamado dos santos juninos, durante o mês de maio e junho, meses em que as emissoras de rádios e TVs e as redes sociais descobrem que existe Forró, e voltam suas atenções para nossa cultura: o Forró. Aí a cidade e o mundo se enchem de alegria e felicidades, o forró dita o pulsar das almas.

Na realidade a força do capital, manifestado de suas mais variadas formas, sempre se faz presente quando a competência não é o forte do artista. Digo isto porque todo artista quer o sucesso, mas a maioria não tem a competência e a sensibilidade para construir uma obra que caia no gosto popular e que seja perene por anos e décadas. Diante deste argumento eu pergunto: qual artista não gostaria de chamar de sua, obras como: uma “Quinta Sinfonia, uma Asa Branca, uma Aquarela do Brasil, uma Garota de Ipanema, uma “Chiclete com Banana, uma Faroeste Caboclo, uma Bohemian Rhapsody”, uma Imagine, uma Hallelujah, uma Espumas ao Vento, uma Filho do Dono, uma Feira de Caruaru, uma Feira de Mangaio, uma Sanfona Sentida e tantas outras obras primas? Quem não gostaria de compor uma música para ser sucesso duzentos, trezentos anos após sua composição? Todos os artistas querem esse sucesso. Mas, tê-lo é muito difícil. Então se não pode fazer sucesso pela qualidade de sua obra, se compra o sucesso. Todavia, o sucesso comprado é efêmero como a luz de um vagalume. No fim, o que fica é o que tem qualidade! E fica por conseguir fazer morada no coração das pessoas.

É bom sempre lembrar que muitas vezes uma música, mesmo sendo muito boa, enfrenta uma grande dificuldade para ser um grande sucesso. Das músicas citadas no parágrafo anterior algumas enfrentaram dificuldades até para serem gravadas. “Asa Branca”, por exemplo, instantes antes da gravação o pessoal da gravadora tirou onda com Luiz Gonzaga e a Humberto Teixeira, perguntando se eles iriam gravar “Asa Branca” para usarem a música para pedirem esmola em porta de igreja. Resultado, gravaram assim mesmo, e a música se transformou no maior sucesso deles. Outra que passou por situação semelhante foi “Hallelujah” de Leonard Cohen. Quando Cohen a apresentou na gravadora nos Estados Unidos ela fora rejeitada, com o argumento de que aquilo não era uma música. Cohen só a gravou anos depois no seu país, Canadá. Mas, a música não fez sucesso, aumentando a frustração dele. Cerca de dez anos depois o cantor estadunidense Jeff Buckley a gravou e também não fez sucesso. Alguns anos depois da gravação de Buckley, ele tomando banho em um dos canais do rio Mississippi, se afogou e morreu. A comoção foi geral! Tocaram a música durante o velório dele e a música estourou mundialmente e se transformou em um clássico mundial.

Outra que enfrentou problemas, foi Bohemian Rhapsody, que por ter cerca de seis minutos e meio e misturar rock com opera gerou o maior problema com o empresário da banda Queen. O empresário alegara que aquilo não era música e que a música jamais faria sucesso. Ele foi demitido depois de brigar feio com Freddy Mercury, compositor da música. Freddy insistiu e levou a música para um amigo de uma rádio inglesa e depois de conversarem o amigo tocou a música. Bastou uma vez e a música estourou e foi o maior sucesso da Queen. O ano era 1975. Recentemente, em 2019, fora transformada em filme, o qual ganhou quatro das cinco indicações ao Oscar.

Acredito que tais exemplos nos fornece os subsídios suficientes para dizermos, sem medo de errar: se você acredita em sua obra, não desista dela jamais. Siga em frente sempre. O sucesso é só a consequência de um bom trabalho. Por fim, nunca devemos nos esquecer que: “Sucesso só vem antes do trabalho no dicionário!”.

23) RM: Quais os principais espaços de música ao vivo em Campina Grande?

Banda Caacttus | Alfranque Amaral: Durante os meses de maio e junho, no clima das festas juninas, tem festa em muitos lugares, na maioria dos bares e restaurantes da cidade. Grandes Casas de shows que ficam fechadas ou com pouco movimento, praticamente, durante o resto do ano, abrem nessa época. Entre elas, Campestre, Vila Sítio São João, Casa de Cumpade, Vila Forró, Spazzio. Já durante o ano inteiro encontra-se música ao vivo entre outros lugares em casas de shows e restaurantes como: Campina Grill, Bar do Cuscuz, Picanha 200, Celacanto Bar Restô, Urka Grill Restaurante, Forró do Max, Espaço Pé de Serra no Quintal, Espetão, Bodódromo, Tok do Tok.

Destaco aqui dois pontos de cultura com música de altíssima qualidade e de graça, que eu não poderia jamais deixar de citar, são: a Roda de Choro do Mestre Duduta e os encontros musicais que acontecem no Museu de Arte Popular da Paraíba, vulgo, Museu dos Três Pandeiros.

24) RM: Fale da sua relação pessoal e profissional com João Gonçalves.

Banda Caacttus | Alfranque Amaral: Muito boa! Um amigo arretado do qual já comentei. O grande João Gonçalves é uma pessoa muito especial.

25) RM: Fale da sua relação pessoal e profissional com Amazan?

Banda Caacttus | Alfranque Amaral: Nenhuma. Enviei ofício convite dos Fórum Nacional do Forró de Raiz e FNRF de 2019 para ele, para o filho Luan Estilizado e para direção da fábrica Leticce Acordeon. Mas, nem me responderam e nem apareceram nos fóruns. Ele é um exemplo de superação dentro e fora dos palcos. Em 2020 foi eleito prefeito pelo do PSD de sua cidade natal Jardim do Seridó – Rio Grande do Norte.

26) RM: Fale da sua relação pessoal e profissional com Biliu de Campina.

Banda Caacttus | Alfranque Amaral: Praticamente nenhuma. Trocamos algumas mensagens pelo whatsapp, ocasião na qual apresentei o trabalho autoral da Caacttus. Ele ficou fascinado pela “A Natureza do Bullying” e começou a tocar em seu programa na Rádio Cariri, 101.1 FM. Biliu é um dos nossos grandes mestres. Ele tem todo nosso respeito e admiração pelo que é e pelo que já fez em prol de nossa cultura.

27) RM: Fale da sua relação pessoal e profissional com Eloisa Olinto.

Banda Caacttus | Alfranque Amaral: Praticamente nenhuma. Lembro-me de ter falado com ela uma ou duas vezes via whatsapp. Sou fã dela. É uma grande cantora. Tem o mundo para conquistar e tem muito potencial para tal.

28) RM: Fale da sua relação pessoal e profissional com Gitana Pimentel.

Banda Caacttus | Alfranque Amaral: Uma guerreira! Não tenho muito contato com ela. Mas, o pouco contato que tive foi muito positivo. Pessoas mais próximas a ela falam muito bem dela. Ser reconhecido pelo público e pelos colegas de profissão é algo, sem dúvidas, muito positivo.

29) RM: Fale da sua relação pessoal e profissional com Jorge Ribbas.

Banda Caacttus | Alfranque Amaral: Jorge é uma pessoa do bem, franca e direta. Quando criança foi escoteiro, cresceu e se tornou um grande homem, um grande ser humano, um grande artista, um grande professor de música: de sua Escola Musidom e do Departamento de Artes (DART) da UFCGUniversidade Federal de Campina Grande. Meu filho Luiz Miguel já estudou musicalização na Musidom, entre os quatro e seis anos de idade. Em síntese, tenho uma visão muito positiva dele, gosto muito dele.

30) RM: Fale da sua relação pessoal e profissional com Pepysho Neto.

Banda Caacttus | Alfranque Amaral: Pepysho é um grande músico. Tem um domínio total da voz. Ele já participou comigo de diversas entrevistas tanto em rádios como em TVs em nosso ativismo cultural em torno dos Fóruns do Forró que já realizamos em Campina Grande, bem como, em ações solidárias que já realizamos, como a campanha Todos por Jade, que fizemos para arrecadar recursos para o tratamento de uma doença rara auto-degenerativa que a menina Jade tem. Neste evento ele tocou a música “Jade”, de João Bosco, de um modo e com uma emoção que só Pepysho consegue tocar.

31) RM: Fale da sua relação pessoal e profissional com Dudé das Aroeiras.

Banda Caacttus | Alfranque Amaral: Praticamente nenhuma relação. Tomamos um café uma vez no centro de Campina Grande junto com o amigo Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, onde conversamos por cerca de uma hora. Depois nos encontramos por acaso algumas vezes no Teatro Municipal durante o Festival Internacional de Música de Campina Grande e o Fimus Jazz. Dudé é um grande cantador, poeta, violonista e compositor de mão cheia. Sou muito fã do trabalho dele.

32) RM: Fale da sua relação pessoal e profissional com Geovane Junior.

Banda Caacttus | Alfranque Amaral: Uma relação muito boa. Geovane Junior é um grande artista, um grande homem, um adulto com o coração de criança, sempre alegre e brincalhão. Ele é um dos fundadores do Maior São João do Mundo (MSJM). Um artista que tem um grande carisma. Fez muito sucesso no final dos anos noventa e início dos anos dois mil. Depois disso passou mais de dez anos morando em Belém – PA. Ao regressar à Paraíba se deparou com a completa desvalorização dos forrozeiros e a descaracterização do MSJM. Diante disso, a partir de conversas com amigos, ele e estes amigos decidiram criar um movimento para unir forrozeiros e discutir a atual situação do MSJM. Ele batizou esse movimento de #SOSFORRÓ, que começou como um grupo de whatsapp até culminar com reuniões que levaram ao primeiro Fórum do Forró #SOSFORRÓ. Este fórum foi um marco importante neste processo de discussão de nossa cultura e de fortalecimento da categoria.

Costumo dizer que Geovane Junior conseguiu quase que um milagre em reunir mais de cem forrozeiros de todo Brasil em um grupo do whatsapp. Devido a críticas realizadas sobre o nome #SOSFORRÓ. O SOS que deveria ser visto como sucesso, orgulho e superação, foi entendido ao pé da letra. Isto levou Geovane a mudar o nome #SOSFORRÓ para Rota do Forró. Já com o nome de Rota do Forró e morando em João Pessoa, assumi a coordenação do Fórum Nacional da Rota do Forró (FNRF) em Campina Grande. Em 2018 e 2019 realizamos em parceria com Fórum Nacional do Forró de Raiz (FNFR) e a Pró-Reitoria de Cultura da Universidade Estadual da Paraíba (ProCult UEPB), respectivamente, o segundo e o terceiro FNRF e FNFR, simultaneamente na Vila do Artesão em Campina Grande.

Sobretudo, os fóruns de 2019 foram um verdadeiro sucesso, com auditório lotado e forte adesão dos artistas que realizaram uma grande mobilização de divulgação nas redes sociais. Foram mais de cem vídeos recebidos de artistas e políticos divulgado e confirmando presença nos fóruns. Enviamos mais de 400 ofícios convite para todos os forrozeiros e trabalhadores da cadeia produtiva do forró, bem como, para todos os vereadores e secretários de Campina Grande, todos os deputados estaduais, federais, senadores, secretário de Cultura e Governador da Paraíba, empresários e representantes da FIEP, SESI, SENAI, CDL, ACI, reitores de universidades públicas e privadas do Estado e demais entidades representativas do estado e da cidade.

Além dos muitos artistas que compareceram e participaram dos fóruns, tivemos a honra de receber dois senadores da república e um vereador de Campina Grande. Infelizmente, o prefeito e demais convidados políticos e empresários e Geovane Junior que estava viajando não compareceram. Mesmo à distância Geovane Junior articulou de forma decisiva a divulgação do evento. A repercussão na cidade e na impressa de um modo geral foi muito positiva, diversas emissoras de TVs, dios e blogs fizeram matérias antes, durante e depois dos fóruns.

Nestes fóruns temos feito diversas reivindicações à prefeitura, tais como: alerta sobre a invasão de ritmos e descaracterização da festa; melhores condições de trabalho para os trios de Forró com camarins, som e palco dignos, valorização dos cachês dos trios para um valor mínimo de três mil reais, uma vez que há anos, na vizinha João Pessoa – PB, já é pago esse valor aos trios de Forró por duas horas de show. No último MSJM presencial, 2019, o cachê dos trios foi de vergonhosos quinhentos reais brutos por três horas de apresentação. É lamentável que a prefeitura de Campina Grande não veja que estar sufocando os forrozeiros, os quais são a alma da festa e que infelizmente não estão sendo tratados como deveriam ser. Mais lamentável ainda é ver que os forrozeiros não sabem o valor que têm e não se unem para reagir a este desrespeito e aqueles que reagem individualmente são excluídos dos palcos. Acredito que só com a união dos forrozeiros tal problema seria resolvido.

Por fim, esse desrespeito ocorre também dentro das bandas que se dizem de forró, em que se sabe que algumas chegam a ter cachês de quinhentos mil reais e pagam a um músico um cachê por show de cento e cinquenta reais. Ou seja, um desrespeito total por parte do contratante que faz vista grossa à situação e um completo desrespeito por parte dessas bandas que exploram seus músicos, velando um completo desrespeito aos mesmos. E o que é pior, o músico que disser o quanto ganha é demitido, conforme já se viu e ouviu em vazamentos de conversas entre tais profissionais. Até quando isto irá acontecer? Até quando os músicos irão se sujeitar a tão humilhante situação? Será que a lei 14.133 será cumprida, de modo a expor tais situações?

33) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá suas músicas tocarão nas rádios?

Banda Caacttus | Alfranque Amaral: É sempre difícil, mas não é impossível. Acho que facilita quando a música é temática, ou quando ela cai no gosto popular e estoure nas redes sociais. Do contrário acho muito difícil a música ser tocada sem o pagamento de jabá. Em geral, nossas músicas tocam bem nas rádios em que temos alguns amigos radialistas ou somos amigos de alguns amigos de radialistas. Ou seja, sem esta teia estabelecida é muito difícil a música tocar em qualquer lugar. Portanto, a divulgação é extremamente importante. Construir essa rede/teia de contatos, embora seja muito difícil, é imprescindível para fazer o trabalho crescer e aparecer para o público.

A outra maneira de fazer é tendo muito dinheiro para pagar jabá às emissoras de rádios e TVs, bem como, impulsionar nas redes sociais. Do contrário, só, talvez um milagre, possa impulsionar um sucesso. Mas, vale lembrar que mesmo quando esse milagre acontece, como foi o caso, por exemplo de “Caneta Azul”, o sucesso não é sustentável, é apenas um sucesso relâmpago, muitas vezes associado a algo engraçado ou inusitado. Acredito que o artista pode aumentar a visibilidade sobre seu trabalho se o associar a uma causa social que ajude as pessoas e, naturalmente, consiga trazer, como consequência, essas pessoas para perto dele e de sua obra.

34) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Banda Caacttus | Alfranque Amaral: Pés no chão e amor à música em primeiro lugar. Em segundo lugar procure se informar sobre o universo de uma carreira musical sustentável e as dificuldades que irá enfrentar para conseguir tal carreira. Busque conhecer os meios de divulgação, redes sociais, etc. Aprenda a utilizar bons programas de edição de imagens, áudio e vídeos. Enfim, seja criativo. É sempre bom lembrar que no passado, na época das gravadoras, aqueles artistas que conseguissem um contrato com uma gravadora, tinha toda sua carreira gerenciada pela gravadora, que produzia os discos, distribuía, divulgava, vendia discos e os shows, etc. Hoje a coisa mudou, embora as gravadoras continuem existindo e fazendo o que sempre fizeram, o avanço da tecnologia possibilitou a proliferação de estúdios de gravação, ficando muito mais fácil gravar. Evidentemente, muitos deles não têm bons equipamentos e nem profissionais qualificados para as gravações. Portanto, não é fácil vencer tais obstáculos. Em síntese, viver de música não é fácil, precisa de disciplina para ensaiar, é preciso uma boa rede de contatos, conhecimentos tecnológicos e um bom e criativo gerenciamento de carreira, além é óbvio, de muito talento.

No caso dos meus filhos, uso a música, através do processo de imersão cultural como meio educativo. Evidentemente, se esse trabalho um dia vai decolar para uma carreira profissional ou não, eu não sei. O que sei é que a gente aprende e se diverte muito neste processo. Buscamos o máximo de perfeição, afinco e profissionalismo em tudo que fazemos. Até porque aí está um dos princípios da verdadeira educação, buscar o crescimento, o conhecimento e o aprimoramento sempre, baseado nos verdadeiros valores da vida. Por outro lado, investimos tudo que podemos na formação educacional formal dos meninos. Não contabilizamos despesas em educação como gastos, mas sim como investimento indispensável para a formação de um ser humano que não venha a nos envergonhar no futuro. Neste tocante, graças a Deus, Lucas Gabriel estudou inglês desde os seis anos e Luiz Miguel, desde os oito anos. Só pararam agora em junho de 2020 devido a pandemia. Lucas Gabriel é fluente em inglês, nunca ficou de recuperação na escola e tem a música como um hobby. Luiz Miguel é percussionista e ritmista nato. Ambos participam também do movimento escoteiro desde os seis anos de idade.

Por fim, vejo e acho arriscado apostar todas as fichas de uma vida em uma carreira musical. Isso porque, é muito difícil uma carreira musical dá certo e proporcionar ao artista uma vida economicamente sustentável. Percebam que ter a música como meio de vida é muito complicado e mesmo os muito bons e muito famosos, diante de uma situação como a que estamos vivendo, de pandemia do Covid-19, ficaram impedidos de exercer sua profissão. Sendo assim, eu não recomendo ninguém direcionar sua vida apenas e exclusivamente na direção de uma carreira musical. Conheço grandes nomes da música que, frequentemente, passam por dificuldades financeiras. E isso não é bom, muito menos desejável pra ninguém. Veja, por exemplo, o caso de Wolfgang Amadeus Mozart, um dos maiores artistas de todos os tempos e que morreu jovem e em dificuldades financeiras.

35) RM: Quais os prós e contras da Rota do Forró nas ações práticas e como grupo de whatsapp?

Banda Caacttus | Alfranque Amaral: Prós: é uma forma bacana de juntar e conhecermos as pessoas e os seus trabalhos. Contras: eu acho que o grupo deveria ser utilizado de forma mais objetiva e sobretudo informativa, como forma de alavancar projetos e buscar oportunidades para os membros. Infelizmente, muita gente ver o grupo como meio de divulgação e auto divulgação e, portanto, de auto promoção. Isso enche o grupo de informações, muitas das quais não são vistas. E, mesmo que sejam vistas, eu acredito que ninguém vá conseguir alçar sucesso para um público inferior a 256 pessoas, que é o número máximo de membros que o aplicativo permite no grupo. Já falei isso tantas vezes no grupo, que hoje nem falo mais. De toda forma a existência e manutenção do grupo é uma ação positiva. Razão pela qual faço parte do grupo e parabenizo a Geovane Junior e Maria José Araújo que administram tão bem o grupo.

36) RM: Fale de sua atividade como professor universitário.

Banda Caacttus | Alfranque Amaral: Ensinar, pesquisar, desenvolver, inovar, colaborar sempre fizeram parte da minha vida. Costumo dizer que estudar é muito chato, mas nada é melhor que o prazer de saber. Dessa forma, acredito que sempre valha muito apena superar todo e qualquer tédio de ficar horas e horas na frente de um livro, artigo ou qualquer outro meio portador de bons conteúdos. Em dezesseis anos no ensino superior, vi dia a após dia, crescerem as dificuldades e responsabilidades para o professor. Nestes anos, vi alunos muito esforçados que superaram muitos desafios e conseguiram vencer, o que é muito louvável. Mas, também vi alunos com muitas deficiências e sem interesse algum em superá-las. Vi professores serem agredidos, assassinados em nossa cidade e fora dela. Vi professores serem dopados em sala de aula, com drogas sendo colocadas em sua água/suco num momento de distração. Um desses casos aconteceu no estado de Goiás e o professor faleceu. Já soube de professor que fora demitido porque deu zero em um trabalho inteiramente plagiado. Já vi aluno responder uma prova, chegar ao resultado 11=13 e perguntar onde errou. Já vi escola ser chamada de empresa educacional.

Enfim, precisamos, urgentemente, como país e nação fazer alguma coisa pra mudar essa realidade. Do contrário, dificilmente, seremos um dia um país desenvolvido, com menores índices de desigualdades sociais. É muito triste ver que os alunos do fundamental ao pós-doutorado só se preocuparem com nota. A maioria dos alunos não estuda pelo conhecimento, mas tão somente pelas notas e o diploma. Isto justifica escuta eletrônica dentro de faculdades em dia de prova. Já soube notícias deste tipo de coisa até em curso de medicina. Como professor, deixo aqui a seguinte indagação: será que o aluno que cola e que usa até ponto eletrônico para colar, está preocupado em ter uma boa formação para um dia atender seus futuros pacientes/clientes com qualidade e dignidade?

Recomendo, fortemente, conhecerem os mecanismos de funcionamento do cérebro que explicam as boas práticas de estudo e da aprendizagem eficientes. Um bom material neste tocante são os livros e palestras do professor Pier. Parafraseando Paulo Freire, enquanto nosso sistema educacional for baseado em um ensino bancário, e acrescento – clientelista – estaremos em maus lençóis, nunca seremos uma nação desenvolvida.

Como solução acredito que a primeira coisa que deva ser feita é melhorar as condições de trabalho e da saúde mental dos professores. O número de professores se afastando do trabalho por ansiedade, depressão e todo tipo de transtornos mentais é crescente em nosso país. Num segundo momento é preciso valorizar o professor. Essa valorização não deve ser da boca pra fora, mas, efetivamente, com bons salários e boas condições de trabalho. É notório e está claro nas estatísticas, que países onde os professores são mais valorizados, existe menos corrupção, menos desigualdades sociais, menos crimes, menos violência…

É impressionante que isto não ocorre quando se trata de justiça. O Brasil é um dos países onde os juízes são mais bem remunerados, mais bem remunerados, inclusive que os juízes dos Estados Unidos, no entanto tem uma das piores justiças do mundo. E, contrariamente, naqueles países onde os professores são menos valorizados são justamente onde ocorrem em maior intensidade a maioria das mazelas humanas: corrupção, pobreza, desigualdades sociais… Vergonhosamente, o Brasil, historicamente, tem ocupado as última posições nos rankings mundiais de salários de professores, o que explica boa parte de nossos problemas enquanto nação.

37) RM: Quais os prós e contras de ser o empresário e produtor artístico dos seus filhos Lucas Gabriel e Luiz Miguel?

Banda Caacttus | Alfranque Amaral: Sou o pai e o provedor dos meninos. Então, tudo que eu fizer, no sentido de educar e promover meus filhos, dentro ou fora do universo musical, não passará de minha obrigação legal. Baseado nisso, tento educá-los dentro dos ditames da honestidade e dos verdadeiros valores da vida. Costumo dizer que alguém pode tirar um dez numa prova sem saber o assunto da prova. Mas, eu duvido que alguém toque qualquer que seja a música sem saber tocar. Digo sem saber tocar, porque com a partitura alguém pode tocar com perfeição qualquer música, mesmo sem conhecer a música. No entanto, impreterivelmente, a pessoa precisa saber tocar e ler a partitura com perfeição. Desse modo, é impossível alguém se livrar, digo burlar, esse rígido sistema físico-matemático chamado música. Razão pela qual ele é tão importante na formação de um ser humano.

Sempre digo também que em qualquer área da atividade humana 90% de rendimento é suficiente para alguém passar em qualquer concurso. Mas, na música um acerto de 99,5% não é suficiente para a aprovação. Basta que se erre uma nota, das notas que podem ter em uma música para que todos que estejam ouvindo a execução da música percebam o erro, a nota fora. Além disso, a música e a cultura são dois importantíssimos mecanismos de socialização para qualquer ser humano. Essas são as razões primordiais de, como pai, educar meus filhos com imersão cultural. Sou muito feliz por todas as emoções que meus filhos já me proporcionaram. Isto, pra me, não tem preço e sempre foi e sempre será o mais importante em minha vida. O resto é resto, e deixo ao encargo dos desígnios naturais da vida. Sempre sob a alcunha e comando de Deus. Sem nunca esquecer de fazermos assiduamente nossa parte neste processo constante de estudo e aprendizagem.

38) RM: Quais os prós e contras de trabalhar com artistas crianças?

Banda Caacttus | Alfranque Amaral: Prós: crianças são atração em todo e qualquer lugar que chegarem e isso é um grande trunfo para um artista. Contra: praticamente todo o resto são fatores contra. É uma luta comprar instrumentos de qualidade para uma criança. Gastei uma fortuna importando sanfonas italianas de 120 baixos (três ao todo) de vários países do mundo até consegui a sanfona no tamanho e com o peso próximo do adequado para uma criança de oito anos. Depois de comprar tantas sanfonas passei a importá-las para revender e ajudar as pessoas a adquirirem um instrumento de qualidade por um preço muitas vezes inferior a um similar de baixa qualidade.

No tocante a pandeiros comprei quatro, até acertar em um. Depois de comprar dois, o melhor que encontrei nas lojas e depois de comprar um mais adequado para uma criança de 8 anos, descobri através do amigo Silvano, que frequentava a Roda de Choro do mestre Duduta, um luthier de Belo Horizonte – MG que fazia um padeiro de som muito bom e com a característica primordial para uma criança: ser muito leve. Silvano não tinha mais o contato do luthier, mas pelo desenho da marca do luthier gravada no pandeiro de Silvano, entrei em contato com vários luthiers de Belo Horizonte até chegar ao Bruno Dyorman, o luthier dos pandeiros mais leves que já vi. Imediatamente encomendei dois pandeiros para meu filho Luiz Miguel, um de oito e outro de dez polegadas. Portanto, quando se trata de crianças tudo é muito complicado e delicado.

Quando se trata de crianças no mundo da música, tem que se ter muito jeito, conduzir todo o processo de modo muito lúdico. Além disso, tudo deve ser conduzido com muita paciência junto a professores bem formados e com aptidão para ensinar música a crianças. Neste tocante, minha completa gratidão a todos os professores de música de meus filhos. Como professores de sanfona temos ou tivemos: Edmar Miguel, Edglei Miguel, Erivelton Nóbrega, Franciel Andrade; professora de musicalização: Shirley Guerra; professor de percussão: Beto Cabeça; professores de técnicas vocais: Dayane Maciel e Lemuel Guerra e em breve Savanna Aires.

Outra coisa contra que dificulta muito trabalhar com crianças é que crianças são impedidas por lei de exercerem qualquer profissão, a menos que seja como jovem aprendiz. Para tal, têm que ter no mínimo quatorze anos. Portanto, é muito difícil qualquer contratação por parte da iniciativa privada, que pode sofrer sansões legais por contratar crianças, e mais difícil ainda, é a contratação pela iniciativa pública. Participar de editais é praticamente impossível e por aí vai. Mesmo assim, conseguimos vencer dois editais estaduais da Lei Aldir Blanc 2020, que permitiam a participação de crianças. Em resumo, são muitas as dificuldades. Em nosso caso, tudo isso é menos frustrante porque se trata de um projeto prioritariamente educacional e não profissional.

39) RM: Quais os prós e contras de vender Acordeons importados?

Banda Caacttus | Alfranque Amaral: Prós: são instrumentos que embora usados são de excelente qualidade e num preço razoável, desde que o dólar não ultrapasse o valor de R$ 3,50, compensa importá-los, revisá-los, afiná-los e revender. Sem falar que tais instrumentos muitas vezes são o sonho de consumo de muitas pessoas. Fiz bons amigos vendendo sanfonas. Toda vez que um cliente vem ver minhas sanfonas, eu digo: antes de você virar um cliente meu, eu quero que você seja um amigo. Portanto, avalie, reavalie, se você não entender de sanfona (acordeon) traga alguém que entenda pra te orientar, porque a sua satisfação é a minha satisfação. E assim, fiz muitos amigos, e assim conquistei o respeito e admiração de muita gente e é assim que vivo. Sigo aquele princípio de uma vida fraterna que diz: “aquilo que eu não quero pra me eu não desejo pra ninguém”. Um certo galileu falava umas coisas assim parecidas, lembra?

E, Contras: é um mercado em que ficamos reféns do valor do dólar, pagamos um imposto brutal que varia entre 60% e 100%, sobre o valor do produto e do frete. Além do mais, por morarmos no Brasil boa parte dos vendedores não envia seus produtos para compradores daqui, como eu. Fato este que só reflete como os brasileiros são vistos lá fora.

Neste tocante, de como os brasileiros são vistos lá fora, cabe aqui uma história interessante envolvendo a compra de sanfonas. Em 2014 quando eu já tinha comprado duas sanfonas para Lucas Gabriel, ambas italianas. A primeira da marca Florino, cor branca, 7 kg de peso e 40 cm da primeira à última tecla. A segunda da marca Rivoli, vermelha e branca, de 7,5 kg de peso e com 44 cm da primeira à última tecla, que ele está usando atualmente. Alguns meses depois de comprar essas duas sanfonas me deparei com uma sanfona Florino preta de 6,5 kg, com apenas 37 cm da primeira à última tecla, tão nova que parecia que nunca fora tocada. Fiquei enlouquecido por aquela sanfona. Tentei de todas as formas compra-la, mas o vendedor sempre me dizia: “não, não vendo para compradores que estejam no Brasil”. Depois de uma insistência ferrenha, cheguei a oferecer a ele o dobro do que ele estava pedido pela sanfona e ele relutantemente me dizendo não. Aí resolvi apelar para o emocional dele, disse que a sanfona era para meu filho de sete anos que já tinha uma sanfona da mesma marca. Que a sanfona que meu filho estava usando ainda era grande para ele, e eu estava com medo dele perder o interesse em aprender a tocar ou até mesmo ter um problema de postura por causa do peso da sanfona ser inadequada pra ele. Tirei fotos de Lucas Gabriel com a sanfona, gravei vídeos e enviei pra ele. Contamos toda nossa história e disse que ele não iria se arrepender se me vendesse a sanfona, pois eu iria utilizar e guardar essa sanfona até o fim de minha vida.

Depois de muita insistência veio um sim como resposta. Acompanhado do sim o senhor Dennis me contou a história dele, da família dele e me enviou fotos de seu cachorro. Ele me parabenizou como pai pela minha determinação e insistência e disse: “eu sou italiano e moro nos Estados Unidos. Porém, meu pai viveu a vida inteira na Itália. Ele fabricava sanfonas lá. Eu cresci ouvindo ele dizer, que cada instrumento é único, tem um som próprio, que apenas uma pessoa, a escolhida por Deus, conseguirá tirar plenamente do instrumento. Eu, francamente espero, que este instrumento, que estou lhe enviando, tenha sido destinado, por Nosso Senhor, a seu filho”.

Eu francamente respondi este email da mesma forma que estou escrevendo esta história agora, sete anos depois de responder àquele email: chorando. Fiquei amigo do senhor Dennis e depois disso sempre que ele tinha uma sanfona para vender me oferecia em primeira mão. Ainda o comprei umas duas ou três sanfonas. Depois disso, ele não me respondeu mais. Espero que ele esteja bem, onde quer que possa estar neste momento.

40) RM: Como ativista cultural e coordenador dos Fóruns do Forró em Campina Grande, que mensagem você gostaria de deixar para os artistas e o público em geral?

Banda Caacttus | Alfranque Amaral: Em primeiro lugar amem a música! Faça dela uma estrada pavimentada para que ela te conduza a uma vida plena e feliz. Em segundo lugar, respeite seu próximo como você gostaria que te respeitassem! Torçam por seus colegas, enalteça-os, valoriza-os, sejam verdadeiros e francos para com todos. Torcer contra não vai fazer seu trabalho ser melhor que o de ninguém, pelo contrário te travará e o impedirá de ir além, de fazer o novo em busca da plenitude que sonhas: fazer uma obra que emociona a todos e que seja amplamente reconhecida e consumida.

Eu como ativista cultural e representante dos Fóruns do Forró digo: a classe artística, que talvez seja a mais desunida do planeta, precisa rever seus conceitos e atitudes. Quando os artistas entenderem o poder que têm e começarem a agir unidos, eles mudarão não só suas vidas e de seus familiares, eles mudarão o mundo, e pra melhor, se eternizarão. É como dizia o saudoso Pinto do Acordeon: “o artista não vai morrer nunca. Ele se imortaliza em sua obra. Em sua cova nascerá um pé de flor, pra sempre ser lembrado”.

Digo todos os dias para os meus filhos Lucas Gabriel e Luiz Miguel que se o trabalho deles não falar por eles é melhor eles ficarem calados para não passarem vergonha. O legado de uma pessoa ou artista deve sempre precedê-la, chegar antes dela própria. Só assim o legado, seja de arte, cultura ou outra coisa, fará morada nas pessoas, tornando-as culturalmente ricas e resolvidas. Neste tocante encerro com as palavras do mestre Patativa do Assaré: “tem gente que é tão pobre, tão pobre, que só conseguiu ter dinheiro”. Portanto, tentemos ser menos pobres, busquemos a verdadeira riqueza. Certamente, a cultura é um dos caminhos para se chegar nessa riqueza, se é que não é a própria manifestação da mesma.

41) RM: Banda Caacttus, Quais os seus projetos futuros?

Banda Caacttus | Alfranque Amaral: Continuar motivando os meninos da Caacttus em seus estudos, bem como, continuarem ouvindo boa música, fazendo o melhor trabalho possível na banda. Compor e gravar novas músicas, algumas delas já prontas até no tocante ao roteiro de seus videoclipes. Pretendemos gravar todas nossas músicas também em inglês. Esperamos que consigamos fazer as versões em inglês. Este será um trabalho árduo, uma vez que não se trata de uma mera tradução…

Aproveitar o fato que Lucas Gabriel ser fluente em inglês e aproveitar o fato que o mundo hoje praticamente todo dança Forró e levar nossa cultura para os gringos na nossa língua e também em inglês, que é uma língua mais universal. Só na Europa são mais de setenta Festivais de Forró. Então, nada mais plausível que dá a tantos amantes do Forró, espalhados pelo mundo, a oportunidade de ouvirem nossas músicas em português e também em inglês. No mais é continuar com nosso ativismo cultural junto ao Fórum Nacional do Forró de Raiz, Fórum Nacional da Rota do Forró, Associação Cultural Balaio Nordeste, Página Nordeste Cultural, ProCult UEPBUniversidade Estadual da Paraíba e todos os parceiros que viermos a ter. Uma coisa é certa, juntos e organizados poderemos, com pouco esforço individual, vencer grandes barreiras em qualquer frente de ação que viermos a enfrentar.

42) RM: Quais os seus contatos para shows e para seus fãs?

Banda Caacttus | Alfranque Amaral: (83) 98104 – 3548

| [email protected] | [email protected]

| https://web.facebook.com/alfranque.silva

| https://web.facebook.com/profile.php?id=100008208005471

| https://web.facebook.com/bandacaacttus

| https://web.facebook.com/groups/357305438316116

| www.instagram.com/bandacaacttus

| Canal do YouTube: https://www.youtube.com/channel/UC-ktdXJ84vppVND6dqX3Bjw

“A Natureza do Bullying” – Banda Caacttus – 2016: https://www.youtube.com/watch?v=m4mdLObudcw

“Um Povo Sonhador” – Banda Caacttus de 2 de maio de 2017: https://www.youtube.com/watch?v=Do7J59N3A3E

| “Isso é Baião” (Roxinó do Nordeste, Alfranque Amaral, Miguel Arcanjo e Lucas Gabriel): https://www.youtube.com/watch?v=oJ7JVRyE_fY

| Aparecida Sertanejo – Banda Caacttus com o mestre João Gonçalves: https://www.youtube.com/watch?v=3E6menXX6HE

| Banda Caacttus no Forró da Resistência em junho de 2020: https://www.youtube.com/watch?v=aUK6Jqo73OQ

| Tempo Perdido em Ritmo de Forró: https://www.youtube.com/watch?v=eFIZXDw180c

| Alegria, Alegria – 03.01.2021: Alegria, Alegria – 03.01.2021: https://www.youtube.com/watch?v=iySdPHYBzeQ

| Banda Caacttus no Programa Alegria, Alegria: 26.06.2019: https://www.youtube.com/watch?v=ZsRWs-SlnDk

| Live Solidária da Caacttus: #FiqueEmCasa: https://www.youtube.com/watch?v=Rp9WGUM_gHE

| Banda Caacttus no Programa: Cordel, Sanfona & Viola: https://www.youtube.com/watch?v=GjQW0SVpLtI

| Banda Caacttus no Gelucio Show USA: https://www.youtube.com/watch?v=fujUl2VUbYE

| Semana da Criança: Live IOV Brasil: https://www.youtube.com/watch?v=_3IIorxlFaU

| Banda Caacttus no Forró da Floresta: https://www.youtube.com/watch?v=Sym38oY2wfU

| Dami Convida: Banda Caacttus: https://www.youtube.com/watch?v=Da4CxnQdETQ

| Alfranque Amaral no Jornal 101: Fóruns do Forró: https://www.youtube.com/watch?v=F9GsOtwBsec

| Entrevista Banda Caacttus – Campina Grande 22.04.2021: https://www.youtube.com/watch?v=I6fGZHxI4cw

| João Gonçalves 20 Sucessos: https://www.youtube.com/watch?v=Si2LnxTUhoQ

| ENTREVISTA ESPECIAL com o Cantor e Compositor campinense João Gonçalves – O REI DO DUPLO SENTIDO: https://www.youtube.com/watch?v=gh4Uq4dLMDk

| Mestre Duduta morre aos 84 anos em Campina Grande no dia 25.07.2018: https://g1.globo.com/pb/paraiba/noticia/2018/07/26/aos-84-anos-morre-mestre-duduta-em-campina-grande.ghtml


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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor responsável pela revista digital RitmoMelodia desde 2001, jornalista, músico, poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, propaga a diversidade musical brasileira através de entrevistas e artigos. Jornalista formado pela Universidade Estadual da Paraíba - UEPB (1996 a 2000) que lançou um livro de poesia em 1998 e seus poemas ganharam melodias gravadas em três álbuns concluindo a trilogia "reggae baseado em poesia" no seu projeto musical Reggaebelde. Unindo a sensibilidade do poeta, músico com o senso crítico do jornalista e pesquisador musical colocado em prática em uma revista que Canta o Brasil.