Míriam Miràh

Míriam Miràh

A cantora e compositora paulistana Míriam Miràh iniciou seu aprendizado musical com piano e violão, e influenciou-se com toda a renovadora agitação musical que embalou o Brasil e o mundo nos anos 60 e 70.

Nos anos 70 estuda técnica vocal com Caio Ferraz, e participa de festivais estudantis, inclusive o do efervescente Colégio Equipe, que tinha então Serginho Groisman na Coordenação Cultural, ali conhece Jica Nascimento e Emílio de Angeles Nieto e junto com Alice Lumi, Marly, Angel e Manolo surge o GRUPO TARANCÓN. O Grupo faz suas primeiras apresentações junto à Comunidade Espanhola do CDE (Centro Democrático Espanhol no Brasil), posteriormente pelas Universidades, Comunidades de Base (da Igreja Católica) e logo por todo o país. O show no TUCA (Teatro da Universidade Católica –SP) em 16/08/1975 e o primeiro disco, ”GRACIAS A LA VIDA” em 1976 foram fundamentais na profissionalização do Grupo e de sua solista, somando-se ainda 5 discos e mais de 1500 shows nos principais teatros de todo o país.

Destaca-se também a participação da cantora em shows das lendárias Mercedes Sosa (1976) e Isabel Parra (1980 e 2008), além de tornar-se a “musa” do som latino no Brasil.

Nos anos 80 inicia sua carreira individual, agora com a preocupação de reintroduzir a MPB e seus novos compositores no repertório, surgindo daí um som brasileiro com influência latina. O maior exemplo disto foi visto por todo o país no Festival dos Festivais da Rede Globo em 1985, quando interpretou a canção “MIRA IRA” (Lula Barbosa – Vanderlei de Castro), composta em sua homenagem, campeã do público e carro-chefe na vendagem do disco do Festival, com mais de 250.000 exemplares segundo a Som Livre, e incluída em 2004 no CD – “O Melhor dos Festivais” pela mesma gravadora.

Nos anos 90 Míriam Miràh passou a investir nos ritmos dançantes do Brasil e do Caribe, gravando o CD – CUBA NAGÔ, um interessante trabalho de fusão de duas nações nagô fora da África, uma na América Central (Cuba) e outra na América do Sul (Bahia, Brasil), em que se destaca a contribuição do maestro e músico Edwin Pitre, panamenho radicado em nossas terras. Seguem-se o show de lançamento mais as apresentações dançantes em quase todo este período, além de participações em CDs de Coletânea e junto a artistas como: Gerônimo, Marlui Miranda, Gereba, Lula Barbosa e outros.

A partir de 2000 inicia uma trajetória de reencontros e retrospectivas sem perder de vista a atualidade do novo cancioneiro brasileiro e latino americano. Em 2002, refaz sua antiga parceria com Lula Barbosa e juntos montam 2 shows: “Duos na MPB” e “Homenagem a Clara Nunes e Agostinho dos Santos”. Em fevereiro de 2003, participam do “FESTIVAL MUNDIAL DE LA CANCIÓN” no Panamá representando o Brasil e defendendo a música América Morena (L. B. – V. de Castro), com arranjo de Jayme Lessa e regência de Edwin Pitre. Também em 2002 é convidada pelo maestro Willy Verdaguer a participar do Grupo Raíces de América, onde segue até hoje, e grava com eles o CD “Raíces de América 25 Anos”, em 2005. Entre 2005 e 2006, também faz participações especiais

com o Trio Boa Vista, formado por Jica (bongô), Sérgio Turcão (baixo acústico) e Jayme Lessa (piano), interpretando canções caribenhas dos anos 40/50.

Em 2008, Míriam junta-se a Lula Barbosa e Mário Lúcio Marques (recém saído do Placa Luminosa), 23 anos após o Festival da Globo e gravam o CD – “Viajar”, lançado em 2009 com shows pelo interior e capital de São Paulo, com uma linda gravação em versão acústica de “Mira Ira”. Participou do Projeto “Mulheres do Sol”, no Centro Cultural Banco do Brasil SP, também em 2008, que trouxe as melhores intérpretes da América Latina e juntou-as com as brasileiras, dividindo o palco com Isabel Parra (filha de Violeta Parra), num grande reencontro musical após muitos anos.

Tem apresentado o show LA NEGRA Y LA NEGRITA, num tributo a eterna Mercedes Sosa, já registrado em DVD; em 2013 fez o show Tributo a Geraldo Vandré e Taiguara no SESC Belenzinho, além de um trabalho com a música pop mexicana atual no SESC Consolação em plena Virada Cultural. Em clima das mais diversas comemorações de seus 40 anos de carreira, na Virada Cultural de 2013 participou da “Maratona Álbum” no SESC Belenzinho, apresentando-se junto com o Grupo Tarancón no show do disco “Gracias a La Vida” gravado em 1976. Em 2015 participou mais uma vez do Projeto Álbum no Sesc Belenzinho para duas apresentações em palco do “Rever Minha Terra”, terceiro disco do Grupo Tarancón.

Em 2018, destacam-se três Projetos feitos no Sesc: “CANÇÕES DE RESISTÊNCIA DA AMÉRICA LATINA”, e seu show “A VOZ DOS HUMILDES – MERCEDES SOSA” (Sesc Campo Limpo), “VIOLETA PARRA 100 ANOS” (Sesc Santana e Sesc 24 de Maio) e “CANÇÕES DO CONE SUL” (Sesc Bela Vista e Sesc Santana). Foi lançado também em 1918 nas plataformas digitais o CD – PRETOBRANCO, em parceria com Lula Barbosa, que começará sua carreira em shows neste 2020. Outro show lançado em 2020 é ”SÓ MULHERES”, onde a cantora interpreta compositoras de destaque no cenário brasileiro e latino americano.

Em fase de pré-produção está a gravação do trabalho “CLÁSSICOS LATINOS DE TODOS OS TEMPOS”, com um repertório bastante conhecido do grande público. Míriam Miràh alia um trabalho retrospectivo, com músicas da América Latina que interpretou ao longo de sua carreira, ao lado de compositores das novas gerações, principalmente do Brasil. Alia também a sonoridade acústica e de raiz à modernidade na concepção dos arranjos em seu show.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Míriam Miràh para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistada por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 03.08.2020:

Índice

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Míriam Miràh: Nasci no dia 02.04.1953 em São Paulo – SP. Meu nome de registro é Miriam Pedroso.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Míriam Miràh: Em tempos de infância com toca-discos hifi, meu pai, que não era músico, comprava LPs em promoção, quando conheci os sons de Yma Sumac, Celia Cruz e Tito Puente. Inspirei-me em meu tio, um nissei que tocava Viola Caipira. E na minha irmã Cida Olivetti, cantora do movimento de Bossa Nova em São Paulo, e na MPB dos Festivais das TVs Excelsior e Record dos anos 60, que não perdia por nada em nenhum segundo. Junto a todo esse pacote, tem ainda a influência dos Beatles e toda a revolução cultural dos anos 60. Na década de 70, conheci a Nova Canção da América Latina, que me marcou definitivamente.

03) RM: Qual a sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical?

Míriam Miràh: Aos 8 anos de idade comecei o aprendizado de Piano Clássico, interrompido pelo meu gosto ser maior para o Violão como meio de me acompanhar ao cantar. Mais tarde no final da adolescência tive aulas de canto com Madalena de Paula e com minha irmã Cida Olivetti. Em torno dos 23 anos e já como profissional, ingressei na Fundação das Artes de São Caetano do Sul. Não completei nenhum curso, atropelada pela atividade intensa de shows e viagens, adotando então uma atitude autodidata, sempre atenta às necessidades profissionais do momento. Sou casada com um maestro, Jayme Lessa Gonçalves, e apesar da idade, continuo aprendendo com ele, tirando as dúvidas que surgem a respeito, e que são constantes.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Miriam Miráh: Embora não pareça, é de muita importância a influência da MPB dos anos 60/70 e destaco as músicas de Chico Buarque, Edu Lobo, Milton Nascimento, Caetano Veloso e Gilberto Gil, principalmente na voz de Elis Regina. E da música pop no mundo junto à revolução cultural da época, tremendamente importante  pra mim e pra humanidade. Em seguida veio a “descoberta ” da Nova Canção da América Latina, e no foco os movimentos musicais do Chile, Argentina e Cuba. A voz de Mercedes Sosa, que despertou um profundo sentimento de aproximação com as culturas dos países vizinhos. Até hoje a música latina é meu tema predominante, embora tenham surgido oportunidades de montar trabalhos com música brasileira num sentido amplo, que chega ao nosso “pop”. Nada deixou de ter importância, porque tudo que absorvi segue aqui dentro, e em tudo que canto trago minha história.

05) RM: Quando, como e onde você começou a sua carreira Musical?

Míriam Miràh: O que me fez desembarcar na profissão e foi marcante foi ter participado de um Festival de Música no Colégio Equipe, a convite de minha amiga Alice Lumi, quando interpretei três músicas. No júri, nomes como Gianfrancesco Guarnieri, Tom Zé, com “produção” (na época não se usava tanto esse termo) de Serginho Groisman. Lá conheci Emílio de Angeles Nieto, que me apresentou o Jica Nascimento, e eu apresentei Alice Lumi, e algum tempo depois, ouvindo os “novos sons” da América Latina, resolvemos em 1972 montar um grupo que pouco depois se chamaria “Tarancón”. 

06) RM: Nos apresente o grupo “Tarancón”. 

Míriam Miràh: O grupo Tarancón em 1972 e foi o primeiro a pesquisar e divulgar no país a diversidade de ritmos e canções latino-americanas. O grupo é composto por artistas de vários países da América Latina e participou de alguns Festivais de Música, com destaque para o Festival dos Festivais, da TV Globo em 1985, em que a canção “Mira Ira”, de Lula Barbosa e Vanderlei de Castro, conquistou o segundo lugar e ainda o prêmio de melhor arranjo.

A música do grupo é influenciada por ritmos brasileiros, andinos, caribenhos e africanos. O nome do grupo, “Tarancón”, era também o nome de uma mina de carvão na Astúrias, Espanha, que desabou, ocasionando a morte de onze trabalhadores. História contada na canção “En la mina el tarancón”. Unindo instrumentos originados dos Andes como a Quena (flauta de cana ou osso), a Zampoña ou Sicus (similar à flauta de Pan), a Tarka (flauta ortoédrica de madeira de uma só peça com seis furos, também conhecida como “anata” no norte da Argentina), o Bombo leguero (bumbo de couro de ovelha ou guanaco), o Charango (instrumento cordófono de 10 cordas ou mais feito com carapaça de tatu (chamado de “Quirquincho”) ou de madeira), ao Violão e Baixo acústico.

Fizeram parte da primeira formação: Miriam Miráh, Emílio de Angeles Nieto, Marli Pedrassa, Alice Lumi, Halter Maia, Jica Nascimento e Juan Falú. A partir do terceiro disco Sérgio Turcão entra substituindo Juan Falú. Da década de setenta até hoje, várias formações se sucederam.

Atualmente, o grupo é formado por Emilio de Angeles (flautas andinas, percussão e voz), Jorge Miranda (baixo, charango e voz), Ademar Farinha (flautas andinas, viola, charango e voz), João Miranda (charango, violão, quena, zamponha e voz), Maetê Gonçalves (voz), Jonathan Andreoli (Bombo leguero, bongô, caixa, cajón) e Natália Gularte (cajón, surdo, e efeitos percussivos). O “Tarancón” dividiu espetáculos com Mercedes Sosa, Milton Nascimento, Chico Buarque, Almir Sater, MPB 4, Angel Parra, Marlui Miranda e outros.

07) RM: Quantos CDs lançados?

Míriam Miràh: Com o grupo “Tarancón”, como intérprete principal foram cinco LPs: “Gracias a La Vida” (1976); “Lo Unico que tengo” (1978); “Rever Minha Terra” (1979); “Bom Dia” (1981) e “Ao Vivo” (1981). Ainda em nesse formato o single “MIRA IRA”, pela Continental, 1986.

Após um “pitstop” para cuidar dos meus quatro filhos, retomei nos anos 90 um som focado na música caribenha, e veio o CD – “CUBA NAGÔ”, um mix de Caribe-Brasil. Participei também de diversas coletâneas de MPB e em trabalhos inumeráveis de muitos amigos. Participei do CD – “Raíces de América 25 anos” em 2004, e gravei com Lula Barbosa e Mario Lucio Marques, compositor e arranjador de “Mira Ira” respectivamente o CD – “Viajar”, também uma comemoração ao nosso encontro tão certeiro no Festival da Globo em 1985. Há também o DVD em homenagem a Mercedes Sosa, “La Negra y La Negrita”.

08) RM: Como você define seu estilo musical?

Míriam Miràh: Não tenho um nome, um rótulo. Há muita música latino-americana, com brasilidade, e alguma costura do pop dos anos 60. Há em algum grau influências mais contemporâneas, que se incorporam à minha maneira de cantar.

09) RM: Você estudou técnica vocal?

Míriam Miràh: Embora esteja mais pra uma autodidata, tive aulas com Madalena de Paula e minha irmã Cida Olivetti. Mas a partir de um determinado momento fiz mais técnicas de fonoaudiológicas e respiração, escutar com um ouvido interno o que fazemos com a voz.

10) RM: Qual a importância do estudo de técnica vocal e cuidado com a voz?

Míriam Miràh: Eu diria que estudar é bom, fazer exercícios de respiração. Mais do que isso, é a constante observância do que se está fazendo. Quando nova, gravava minha voz num gravadorzinho bem ruim, que realçava bem minhas limitações. Então eu regravava, regravava, até perceber que estava afinada e com boa dicção. Daí em diante era só ouvir a voz do coração.

11) RM: Como é o seu processo de compor?

Míriam Miràh: De verdade, faço parcerias, e sou predominantemente intérprete. Sou boa em colocar letras em melodias prontas (ou quase), e fazer uma ou duas frases melódicas com um tema, e procurar uma parceira.

12) RM: Quais são seus principais parceiros de composição? 

Míriam Miràh: Compus com Lula Barbosa, Juca Novaes, Edu Santhana, Emílio de Angeles Nieto, Jica Nascimento.

13) RM: Quem já gravou as suas músicas?

Míriam Miràh: Meus parceiros e eu.

14) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Míriam Miràh: Ao ser independente paga-se o preço de uma divulgação ou alcance do nosso trabalho bem menor, somente na seara cultural. Esbarrei na grande mídia, e não gostei. O preço que se paga às vezes é muito caro, principalmente se deixamos de ser verdadeiros. Então precisa haver consonância entre você ser ou passar sua verdade e o “sucesso”, quando isso coincide, tudo bem. No meu caso, tive propostas que sairiam muito do que costumava e costumo fazer. E também paguei um preço, porque a sobrevivência tem que ser defendida a todo momento. Cada trabalho fechado significa que o próximo será batalhado do zero. E vamos seguindo.

15) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

Míriam Miràh: Sempre tenho ideias para novos trabalhos, mas não sou uma profissional que tem o talento dos planejamentos fora do palco. Aí a presença do produtor é importante, para discutir em conjunto quais as alternativas melhores a curto e no máximo médio prazo.

16) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira musical?

Míriam Miràh: Não tenho o talento para gerir tudo isso. Fico mais com a parte musical, e estou sempre com um produtor, que complementa a atividade, transformando em trabalho remunerado. Utilizo o que posso (sempre com a ajuda de parceiros) das mídias sociais.

17) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira?

Míriam Miràh: No meu caso a internet só ajudou, desde divulgação até venda de shows, desde que surgiu a oportunidade de utilizar esse veículo. Para os independentes é a alternativa mais abrangente.

18) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)?

Míriam Miràh: Eu venho do tempo do sistema analógico de gravações em estúdio, então acho incríveis os resultados que podemos alcançar tanto com a ambiência de captação do som, como na ambiência da atmosfera de interpretação. Não domino essa nova tecnologia, então ainda frequento estúdios de amigos, e ocasionalmente gravo algumas coisas informais, direcionadas diretamente para as mídias sociais.

19) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo. Mas, a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Míriam Miràh: O meu nicho de intérprete de canções da América Latina é quase exclusivo. Como disse anteriormente, é preciso ter personalidade, assim você se diferencia e é sempre lembrada. Mas o melhor é competir comigo mesma, em prol de uma real melhora e evolução. Além do que fica mais gostoso olhar quem vai surgindo, por não encarar competitivamente.

20) RM: Como você analisa o cenário musical brasileiro. Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Míriam Miràh: Nossa, é muita coisa numa pergunta só. Mas fico com nomes que surgiram agora e há quase três décadas, quais sejam: Chico César, Zeca Baleiro e Lenine. Na música Latina, Pedro Aznar e Jorge Drexler. Simpatizo com o Marcelo Jeneci, acho que é só. Novas bandas e novos compositores me passam que não tem o que dizer. Regredir? Nunca pensei nisso. Alguns cometeram deslizes, só.

21) RM: Quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Míriam Miràh: Saudosas: Mercedes Sosa e Elis Regina. Willy Verdaguer, monstro no Baixo e um incrível diretor musical. Trabalhar com ele no Raíces de América é aprender sempre. Dercio Marques, grande inspirador do início de minha carreira. Há muitos outros, que me cativam pelo detalhe e me inspiram. Gilberto Gil, Rubén Blades; meu amigo, grande músico e musicólogo Edwin Pitre, que me ensinou muito da música centro-americana. Já sei que devo ter esquecido mais alguém. Que me perdoem, e da mesma forma agradeço.

22) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical (falta de condição técnica para show, brigas, gafes, show em ambiente ou público tosco, cantar e não receber, ser cantado e etc)?

Míriam Miràh: Fiz uma apresentação em Lagarto em Sergipe, numa festa de gado, e nos colocaram, no caso eu ainda no grupo “Tarancón”, numa espécie de curralzinho com 4 microfones direcionais, e éramos 6 músicos.

Já vi músico invadindo o camarim e socar outro músico que lá estava (estilo box). E quanto a gafes, não receber depois de cantar, público que não sabe o que está fazendo lá ou contratante que nos levou e esqueceu de combinar com a plateia, foram muitas vezes. Hoje em dia estou mais protegida, então o camarim antes e depois do show é pura risada com os músicos com quem trabalho.

23) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Míriam Miràh: Depois de montar o repertório e ensaiar fico feliz em subir no palco, cantar e fazer tudo bem feito e com alegria, isto é o melhor. O pior é a atitude desrespeitosa com artistas de todas as áreas, na maioria dos casos. Isso traz como consequência uma remuneração desrespeitosa na maioria das vezes. Isso me deixa triste.

24) RM: Nos apresente a cena musical da cidade que você mora?

Míriam Miràh: Em São Paulo há de tudo: RAP, Rock, Música de raiz, novas bandas que misturam tudo, músicas mais comerciais (que atualmente são pavorosas). Alguns poucos bares que ainda faziam MPB, música ocasional no Metrô dentro dos vagões, som nos parques. Saudade. O SESC é quem estava com as rédeas do novo e do que já existia, e que dessa maneira mostrava as tendências musicais.

25) RM: Quais os músicos, bandas da cidade que você mora, que você indica como uma boa opção?

Míriam Miràh: Vamos prestigiar minha turma, que se mistura em grupos e no individual: Raíces de América, Tarancón, EntreLatinos (há algumas outras bandas que agora não me vem o nome), Nadia Campos, Katya Teixeira e o Circuito Dandô, Jica Y Turcão. Há ainda o talento de Antônio Nóbrega, Renato Brás, Mônica Salmaso.

Difícil é pra mim, destacar valores individuais da nossa música hoje, a grande maioria não me chama a atenção. Falo de emoção e qualidade, um dueto pouco usual nos dias de hoje. Chamo de música rasa, não nos atinge com profundidade. Saindo do lugar comum estão ainda Marisa Monte, Roberta Sá, Maria Rita, que são até anteriores. Confesso que não frequento os lugares que deveria para ter um contato mais próximo com novos valores. Mas imagine só a dificuldade que tenho em valorar os novos se meus ídolos ainda hoje são tão sólidos até para esses novatos?

26) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Míriam Miràh: A mesma regra de sempre: não pagou para tocar nas rádios de grande audiência, a música só tocará na Rádio USP.

27) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Míriam Miràh: Diria que hoje os passos dessa estrada têm mais pedregulhos. É preciso ter vocação, persistência, resiliência. Ter personalidade. Seguir uma tendência que goste, mas tentar ser diferente, o que significa que a pessoa tem que ser ela mesma.

28) RM: Quais os prós e contras do Festival de Música?

Míriam Miràh: Contra tem a competição. Porque de verdade, o melhor caminho, o que dá personalidade é quando você olha, ora dentro de si e tenta todos os dias fazer o seu melhor.

A favor é que o artista vai amadurecendo, e faz sua vitrine, se expõe.

29) RM: Festivais de Música revelam novos talentos?

Míriam Miràh: Sim. Antes dessa pandemia do novo corona vírus, os Festivais de Música estavam sobrevivendo pelo interior do país, e servindo até como sobrevivência de alguns músicos/cantores/compositores. É aonde você amadurece sua trajetória.

30) RM: Como você analisa a cobertura feita pela grande mídia da cena musical brasileira?

Míriam Miràh: Um lixo. Aceito que possam apresentar num espaço de tanto alcance de público um caldeirão de diversas tendências musicais, mas não de lixo musical. Porque infelizmente o público de hoje mal distingue as duas coisas. Existem ainda alguns canais e programas na TV paga que mostram música de qualidade. Mas são poucos os que vêm, diria que os mesmos de sempre, não abre uma janela para um público novo. Aliás esta janela hoje em dia está na internet.

31) RM: Qual a sua opinião sobre o espaço aberto pelo SESC, SESI e Itaú Cultural para cena musical?

Míriam Miràh: É de suma importância. É para os que não estão na grande mídia, de uma maneira geral, e que formam o circuito cultural da cidade, e do país. Nestes lugares SESC, SESI e Itaú Cultural, temos as condições mínimas de desempenhar nosso papel com dignidade. Posso seguir com o que fiz durante toda a minha vida: subir num palco, cantar e dar um recado.

32) RM: O circuito de Bar de sua cidade como boa opção de trabalho para os músicos?

Míriam Miràh: Antes do mundo parar por conta da pandemia do novo corona vírus, São Paulo ofereceu opções de trabalho em Bares e Restaurantes. O que ainda não sabemos é quando a atividade retornará e como. Porque é sabido que o retorno à “normalidade” ainda irá demorar e voltará abalado, e o que é sabido também é que a corda acaba arrebentando para o lado dos músicos. Eu particularmente trabalhei durante quase toda a minha carreira num palco de um Teatro, o que considero um privilégio.

33) RM: Quais os seus projetos futuros?

Míriam Miràh: O último trabalho que fiz recentemente foi com compositoras da América Latina, mas destaquei as brasileiras, e ao confeccionar o repertório fui de Chiquinha Gonzaga até Marisa Monte. Pretendo retomá-lo. O que estaria fazendo agora seria estar preparando o repertório de um DVD, por um selo oficial. Mas por enquanto está suspenso por conta da pandemia do novo corona vírus. Estou preparando o repertório de uma “live” pelo Sesc. Quanto ao futuro, seremos o último setor a voltar às atividades “normais”, então ainda há muito o que pensar em relação às possíveis alternativas.

34) RM: Quais seus contatos para show e para os fãs?

Míriam Miràh: [email protected] | Para shows é com o Jica Nascimento: (11) 99309 – 2037 (WhatsApp):

https://web.facebook.com/miriam.mirah  | https://web.facebook.com/miriammirahoficial 

|Canal: https://www.youtube.com/user/miriammirah 

| Noites Vadias – Miriam Mirah e Lula Barbosa – Preto Branco

https://www.youtube.com/watch?v=tdMGnfwW084&list=PL7AD8CCB39EB85E51 

| Miriam Miràh – Primeira apresentação de “Mira Ira” (Lula Barbosa – Vanderlei de Castro) Festival dos Festivais dos Festivais da Rede Globo em 1985: https://www.youtube.com/watch?v=pNV28B1oG2o 

Miriam Miràh –”Mira Ira” (Lula Barbosa – Vanderlei de Castro) recebendo a premiação de segundo lugar Festival dos Festivais dos Festivais da Rede Globo em 1985: https://www.youtube.com/watch?v=QTsbpxgAe6k 

Miriam Miràh – “Mira Ira” (Lula Barbosa – Vanderlei de Castro) gravação para o CD do Festival dos Festivais dos Festivais da Rede Globo em 1985: https://www.youtube.com/watch?v=w7i_U_1xmIk

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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor responsável pela revista digital RitmoMelodia desde 2001, jornalista, músico, poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, propaga a diversidade musical brasileira através de entrevistas e artigos. Jornalista formado pela Universidade Estadual da Paraíba - UEPB (1996 a 2000) que lançou um livro de poesia em 1998 e seus poemas ganharam melodias gravadas em três álbuns concluindo a trilogia "reggae baseado em poesia" no seu projeto musical Reggaebelde. Unindo a sensibilidade do poeta, músico com o senso crítico do jornalista e pesquisador musical colocado em prática em uma revista que Canta o Brasil.