Lula Barbosa

Lula Barbosa

Lula Barbosa é o único paulistano de uma família da cidade de Mar de Espanha, interior de Minas Gerais. Talvez por isso, sua música reúna com tanta naturalidade o sabor interiorano e a sofisticação urbana, delimitando um imaginário onde esses elementos se combinam criativa e harmoniosamente.

Lula começou sua carreira aos 15 anos de idade, na efervescência do final dos anos 70, quando os esperançosos ares da redemocratização política faziam pipocar no campo da cultura nacional, como era o seu grupo “Semente” (Marquinho, Alemão, Mindú, Joca, Luiz Carlos, Betinho, Claudemir e os vocais Márcia Cauê e Arlete).

No início dos anos 80, começou a carreira solo, apresentando-se nas lendárias casas noturnas de São Paulo, como o inesquecível Bar Boca da Noite, no bairro do Bixiga. Nesse ambiente, a verdadeira escola para os que pleiteiam se estabelecer na vida artística, Lula pôde desenvolver sua musicalidade em contato próximo com artistas do quilate de Filó Machado, Geraldo Cunha e outros. E não demorou e em 1981, gravou o seu primeiro compacto, por selo independente. Em 1982, foi convidado a cantar no LP “Cau Pimentel entre Amigos”. Porém, embora fosse ganhando cada vez mais reconhecimento no meio musical, Lula só conseguiu projeção nacional quando em 1985 classificou sua canção “Mira Ira” no badalado Festival dos Festivais, da Rede Globo. Desde então, tornou-se um compositor requisitado, tendo músicas gravadas por diversos nomes prestigiosos da música brasileira, como Roberto Carlos, Fábio Jr, Jair Rodrigues, Jessé, Sergio Reis e outros, ultrapassando 500 músicas gravadas.

Na década de 90, gravou vários discos e participou de muitos shows. No ano 2000, volta novamente a ganhar projeção ao interpretar a música “Brincos”, de Amauri Falabella, que ganhou o prêmio Preferência do Público no Festival da Música Brasileira na TV Globo. Em 2008 excursionou pelo Norte do país, pelo projeto Pixinguinha, ao lado de Mônica Salmaso e Lui Coimbra.

Em sua discografia, incluindo CDs, LPs e compactos, há mais de 20 títulos. Graças ao belo timbre vocal e à sincera emotividade de suas interpretações, seus CDs autorais também conseguiram boa repercussão, sobretudo “Os Tempos São Outros”, “A Voz do Violão”, de 1994, indicado ao Prêmio Sharp, e “Amigos, Sonhos e Canções”, de 2005, indicado ao Prêmio TIM.

Além de shows em São Paulo, Lula apresenta-se frequentemente pelo país afora, por cidades do Pará, Amapá, Paraná, Santa Catarina, Minas Gerais, Goiás e outros.

Já dividiu palco com Djavan, Nelson Cavaquinho, Adoniran Barbosa, Jair Rodrigues e Ivan Lins. Em 2016, iniciou carreira internacional com show em New Jersey (EUA) e em 2017 representou o Brasil no Celebrate Southlake, no Texas (EUA).

Segue abaixo entrevista exclusiva com Lula Barbosa para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 20.01.2020 

Índice

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Lula Barbosa: Nasci no 20.01.1956 em São Paulo. Nome de registro como Luiz Barbosa.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Lula Barbosa: Meu primeiro contato com a música foi aos 5 anos de idade quando minha tia Aparecida (Bicida) me ensinou os primeiros acordes no Cavaquinho e posteriormente no Violão.

03) RM: Qual a sua formação musical e\ou acadêmica fora da área musical?

Lula Barbosa: Cursei Publicidade e Propaganda na Universidade Metodista no bairro Rudge Ramos em São Bernardo do Campo. . Estudei Técnica Vocal na ULM (Universidade Livre de Musica Tom Jobim).

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Lula Barbosa: Cresci ouvindo minha mãe cantando Cascatinha e Ñhana, e meus tios tocavam Violão, Cavaquinho, Bandolim e Flauta e meu padrinho Acordeon, eles se reuniam nos fins de semana para tocar músicas da obra de: Francisco Alves, Orlando Silva, Silvio Caldas, Vicente Celestino, Dorival Caimmy, aos domingos em meados dos anos 60 tinha a Jovem guarda com Roberto Carlos, Erasmo, Wanderléa, Jorge Ben, Tim Maia, programas de TV como: “O Fino da Bossa” com Jair Rodrigues e Elis Regina; “Essa noite se improvisa”; “Um instante maestro”, entre outros. Já na adolescência eu ouvia a Bossa Nova, de Tom Jobim, João Gilberto, Vinícius de Moraes, Baden Powell, Carlinhos Lira, na voz de Agostinho dos Santos, Maysa, Elizete Cardoso e Elis Regina, depois vieram os Festivais de Música da TV Excelsior, TV Record e TV Globo com o Festival Internacional da Canção e com a MPB, de Geraldo Vandré, Chico Buarque, Edu Lobo, Caetano Veloso e Gilberto Gil, depois Clube da Esquina de Milton Nascimento e Lô Borges, Toninho Horta, Novelli, Festival Universitário com Gonzaguinha, Ivan Lins, Eduardo Gudin e Taiguara (momento politico que o país passava com a ditadura militar, muitas músicas de protesto, músicas censuradas, tempos difíceis). La fora Woodstock, movimento paz e amor, Jimmi Hendrix, Joe Cocker, Carlos Santana, as bandas inglesas assombravam o mundo Beatles, Rolling Stones, Led Zeppelin, Bee Gees, Genesis, The Who. O Folk music com James Taylor, John Denver, Don Mclean e Grupo América, movimento black music, Marvin Gaye, The jacksons Five, Stevie Wonder, Otis Redding, The Dells, The Temptation, Diana Ross, Glads Knight, todos contribuíram pra eu ser o que sou.

05) RM: Quando, como e onde você começou a sua carreira musical?

Lula Barbosa: Iniciei cantando em Festivais de Música Estudantis, o primeiro foi o Festival de Música da quarta delegacia de ensino em 1972 com a música “Meu samba na avenida” com a banda “A semente” e ficamos com o segundo lugar, tocava no SESC Interlago – SP e fomos descobertos pelo Ivan Paulo Gianini que era programador e colocou a gente pra abrir shows de Adoniran Barbosa, Paulinho da Viola, Isaurinha Garcia. Também toquei nos Barzinhos de São Paulo, O PSiu, Janela para o mundo, Chopp som e Cia,  mas, era tudo pura diversão, profissionalmente foi no Boca da noite final dos anos 70 levado pelo Filó Machado, aí passei a viver só de música, cantei ao lado de Geraldo Cunha, Leyvi Miranda, Celso Miguel, Maria Martha, Filó Machado, Julinho, cantei em vários Barzinhos de diversos pontos da cidade até chegar na zona norte onde cantei no Beleléu Chop e Arte, Gente Amiga e por último o Vozes da Terra que foi meu primeiro e único Bar com amigos de infância do bairro Jabaquara.

06) RM: Quantos CDs lançados?

Lula Barbosa: Minha discografia começou em 1981 com o compacto duplo com as músicas: “Caminhada”, “Noite”, “Nada de Viver” e “Dudu Meningite”. Arranjos e piano com Joel Nunes, Mutinho na Bateria, Alemão no Baixo, Flauta e Sax com Lino Simão, Bocato no Trombone, Mindú e Betinho na percussão, Lula Barbosa na voz e no violão. Em 1984 Compacto simples RGE com músicas: ”Pra ver nascer o Sol” e “Felina”. Arranjos, programação de Teclado com Nico Rezende e guitarra Torquato Mariano. Em 1986 LP – “Os tempos são outros” pela CBS. Arranjos de Wagner Tiso, Gilson Peranzzetta, Mario Lucio Marques, Alberto Rosenblit. Participação de músicos incríveis entre eles: Arthur Maia, Victor Biglione, Ricardo Silveira, Wander Tafo, Ulisses Rocha, Robson Jorge, Miriam Mirah, Jica, Placa Luminosa, Pichu Borrelli, entre outros. Em 1989 o CD – “Amor Demais”. Independe. Arranjos, guitarra e produção de Reinaldo Barriga Brito, com as participações especiais de Maria Eugênia e Kristina Perez nos vocalizes e Mario Lucio Marques (sax soprano), Albino Infantozzi (bateria), Acelino (baixo), Pichu Borrelli (teclados) e Edu Ardanuy (guitarra). Em 1994 o CD – “A Voz do Violão” pela gravadora Velas em homenagem ao cantor e compositor Francisco Alves, com as participações especialíssimas de Ivan Lins e Fábio Jr. Este CD foi indicado para o prêmio SHARP de música. Relançado em 2002 nos 50 anos da morte de Francisco Alves. Em 1994 o CD – “Paixão e Fé” pela gravadora Velas com músicas sacras e populares cantadas nas procissões do Brasil, este álbum serviu de trilha sonora para o Terço Bizantino do Padre Marcelo Rossi. Em 1998 o CD – “Horizonte” – Independente, em parceria com Wilson Dakota, com arranjos e produção musical de Elias Almeida e participação especial de Natan Marques. Um repertório bastante folk. Em 2000 o CD – “A Roda do Tempo” gravadora Atração mescla músicas de minha autoria e clássicos da música brasileira: “Amanhã”, “A Noite do Meu Bem”, “Bom Dia”, “Na Baixa do Sapateiro”, “Minas Gerais”, “Meu País”, “Sampa”, “Lábios que Beijei”. Inclui a música “Brincos”, prêmio Júri Popular, do último Festival de Música da Rede Globo. Em 2001 o CD – “Músicas que Marcaram a Noite” pela gravadora Caravelas gravado ao vivo na Funarte. Inclui as músicas: “Canção da América”, “Sangrando”, “Carinhoso”, “O cantador”, “Andança”, “Tempo de Fé” e “Tomaracá”.

Em 2003 o CD – “Ruas e Luas” pela gravadora Atração, também mescla músicas de sua autoria e clássicos da música brasileira: “Eu Sonhei Que Tu Estavas Tão Linda”, “Deusa da Minha Rua”, “Serenata”, “Anos Dourados”, “Até Pensei” e “Jura Secreta”. Em 2003 o CD/DVD – “De coração Pra Coração” pela gravadora Atração em homenagem a Paulinho Nogueira, gravado ao vivo no Tom Brasil. Participação especial de Jair Rodrigues nas músicas: “Viola Enluarada”, “Romaria” e “Simplesmente”, com o acompanhamento de Théo de Barros, Natan Marques, Laércio de Freitas, Maguinho, Arismar do Espírito Santo e Joãozinho Paraíba. Em 2005 o CD – “Amigos, Sonhos e Canções” pela gravadora Paulus, músicas feitas em parceria com Vanderlei de Castro, ao longo de mais de 25 anos de parceria e amizade. Eu concorri como melhor intérprete no Prêmio TIM de música ao lado de Ney Mato Grosso e Emilio Santiago. Em 2009 o CD – “Viajar” projeto Proac marca o reencontro de Lula Barbosa, Míriam Miràh e Mário Lúcio Marques, a Tribo Mira Ira. O trabalho mescla as sonoridades latino-americana e brasileira de Míriam, a sofisticada musicalidade e o leque de estilos de Lula, além da rica combinação de choro, jazz e música pop de Mário Lúcio. Em 2011 o CD – “Mar de Espanha” – Independente, com músicas inéditas feitas em parceria com o poeta mineiro Ricardo Castro, com produção do maestro Mario Campanha e arranjos de Natan Marques, Mário Lúcio Marques e Marinho Brasil, participação especial de Jane Duboc na música “Manhãs”. Em 2013 o CD – “Simplesmente” pela gravadora Atração, comemora os 32 anos de carreira. Um CD com a minha cara. Releituras de clássicos da MPB como: “Quem Há De Dizer”, de Lupicínio Rodrigues, “Menina”, de Paulinho Nogueira, “Deus Quem Me Fez Assim”, de Nelson Cavaquinho, “Coração de Estudante”, de Wagner Tiso e Milton Nascimento, e composições inéditas, como: “A bailarina”, Lula Barbosa e Álvaro Gomes, “Caminhos”, parceria com Rafael Altério e Rita Altério e “História de Amor”, de Lula Barbosa e Pedro Barezzi, canção gravada por Roberto Carlos em 2003. Em 2013 o CD – “A Casa de Dom Inácio” – Independente, CD autoral em parceria com Zéca Aquino, foi gravado no estúdio Galeão em São Paulo com arranjos de Renato Zanuto. Em 2015 o CD – “Treze por Quatro” – CD em parceria com Ricardo Castro, Natan Marques e Maurício Ribeiro, com arranjos e regências de Natan Marques e participação especial de Myrthes Aguiar na música “Cores e Dores” e de Marcelo Barra em “Valsinha”. Em 2016 – “Chuvarada” – EP Galeão arranjos de cordas Neymar Dias. Violão de aço Gabriel Martins. Em 2018 o CD – “Mestiçaria” – Estúdio Galeão, CD autoral em parceria com Luciano Thel, com arranjos de Natan Marques, Mario Lucio Marques, Pichu Borrelli, Michel Freidenson, Ziza Padilha e Gerson Serafim e com participações especiais de Jane Duboc (na Todos os Deuses Do Meu Coração), Maria Martha (na Ventos do Tejo), Miriam Miràh (na Mestiçaria), Dimi Zumquê (no samba O Santo Sumiu) Zé Alexandre (na Brasis) e Patrícia Bastos e Oneide Bastos (na O dobrador de Obá). Em 2018 o CD – “Branco Preto” pela gravodisc, Atração, com Mirian Mirah, sucessos, das 3 américas, projeto básico e necessário, Lula Barbosa nos violões, Miriam Mirah, no violão Cuatro Venezuelano e Charango e Jica na percussão, quarteto de cordas e arranjos Andre Perine. Em 2019 o CD – “Suave, Casa da Árvore”, um CD em parceria com Ricardo Castro, arranjos de Pichu Borrelli, Plinio Oliveira, Emmanuel Santos, Lula Barbosa e banda da Cantareira (Iuri nos teclados e Acordeon, Omar na Guitarra, nos violões e baixo fretles, Elias Caju na bateria, Sidão no Baixo) participações especiais Renato Teixeira, Zé Geraldo, Emmanuel Santos e Ladston do Nascimento.

07) RM: Como você define seu estilo musical?

Lula Barbosa: MPB4 clássico com o pé no pop.

08) RM: Você estudou técnica vocal?

Lula Barbosa: Sim. Estudei na ULM (Universidade Livre de Musica Tom Jobim).

09) RM: Qual a importância do estudo de técnica vocal e cuidado com a voz?

Lula Barbosa: É de suma importância a gente cuidar da nossa ferramenta que é a Voz. A técnica vocal ensina a conservar as cordas vocais, e como aprimorar, e conservar esse instrumento incrível que é a Voz.

10) RM: Quais as cantoras(es) que você admira?

Lula Barbosa: Pela técnica e emoção: Elis Regina, Célia, Miriam Mirah, Jane Duboc, Patrícia Bastos, Mônica Salmaso, Agostinho dos Santos, Jessé, Edu Santhana, Zéluiz Mazziotti, Renato Braz, Josifran.

11) RM: Como é o seu processo de compor?

Lula Barbosa: Às vezes vem uma melodia na cabeça e passo para algum parceiro por a letra. Outras vezes ponho melodia nas letras dos parceiros. O processo é bem rápido quando estou inspirado e normalmente ao ler a letra eu já enxergo a melodia e normalmente eu acerto e sem alterar a letra e sem mudar uma vírgula.

12) RM: Quais são seus parceiros de composição?

Lula Barbosa: Vanderlei de Castro, Ricardo Castro, Zeca Aquino, Pedro Baresi, Álvaro Gomes, Rubens Alarcon, Ana Lucia Heringer e Reinaldo Barriga, Wilson Castro, Eduardo Gudin, Irineu de Palmira, Salgadinho, Fabio Jr, Telma Alves, Wismar Rabelo, Wagner Salis, Ge Alves Pinto, Edu Santhana, César Camargo Mariano. E eu é que sou o letrista na parceria, interessante não é?

13) RM : Quem já gravou as suas músicas?

Lula Barbosa: Roberto Carlos, Fabio Jr, Sergio Reis, Jessé, Jair Rodrigues, Jean Garfunkel, Jane Duboc, Célia, Maria Martha, Miriam Mirah, Adriana Ribeiro, O Terço, Olodum, Katinguelê, Só pra contrariar, Emmanuel Santos, Negritude Jr, Peninha, Oswaldi e Carlos Magrão, Amaya Uranga (Espanha) Tania Libertad (México) Pedro Fernandez (Mexico), Jim Porto (Italia), Tarancón, Raices di América, Bebericanto, Cristian e Ralph, entre outros.

14) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Lula Barbosa: Hoje é tudo prol, tudo a favor, com a internet e as redes sociais e as plataformas musicais todo mundo consegue um pouco de visibilidade para a sua música, mas, a dificuldade ainda consiste na gravação, estúdio, músicos e arranjos, ainda o custo é muito alto pra se obter um resultado de qualidade.

15) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

Lula Barbosa: Tem os Festivais de Música em todo o Brasil que a meu ver ainda é o grande descobridor de talentos. O  Sesc  é um grande espaço formador de plateia, o Sesi, teatros da prefeitura, Proac, saraus, enfim todo artista tem que ir onde povo está.

16) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira?

Lula Barbosa: É tentar todos os projetos e se inscreve, a concorrência é feroz, mas, não temos outra escolha, vai desde editais das secretarias de cultura, editais do sistema S, até Festivais de Música.

17) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira?

Lula Barbosa: Acho que a internet só ajuda, sabendo usar essa ferramenta a ajuda é ótima, excelente.

18) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso a tecnologia  de gravação (home estúdio)?

Lula Barbosa: Nunca usei, mas, para quem não tem grana é uma opção que deve ser benvinda!

19) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo. Mas, a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Lula Barbosa: Com 37 anos de carreira, a minha própria historia serve como abertura de portas, mas em um país que quase não cultua a memoria cultural a gente tem sempre que está se reciclando.

20) RM: Como você analisa o cenário musical brasileiro. Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Lula Barbosa: O cenário musical é o reflexo da atual situação politica, social e cultural dos tempos de hoje, as músicas em geral são pra entreter, pra massificar. Na minha adolescência a música era pra alimentar a alma, pra enriquecer, nos dar conteúdo, crescimento interior. Do que eu tenho visto nas últimas décadas, temos Vanessa da Mata, Patrícia Bastos, Maria Gadú, Thiago Iorc e Monarco. Com o fim do CD como produto, a produção musical caiu muito num todo.

21) RM: Quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Lula Barbosa: São vários, Filo Machado, Jane Duboc, Miriam Mirah, Monica Salmaso, instrumentistas temos Arismar do Espirito Santo, Neymar Dias, Sandro Raick, Mario Lucio Marques, Pichu Borrelli, Michel Freidenson, Omar Campos, etc…

22) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical (falta de condição técnica para, brigas, gafes, show em ambiente ou público tosco, cantar e não receber, ser cantado e etc)?

Lula Barbosa: Falta de condições técnicas já passei por isso algumas vezes, mas, o que foi mais marcante pra mim foi na véspera do show no projeto Adoniran Barbosa no Teatro Caetano de Campos, na Praça da República – SP, eu prendi o dedo indicador da mão direita no carro de um amigo e tive que harmonizar as músicas com três dedos somente, fora a dor. Outra vez foi no Sesc Consolação – SP depois do show ao lado do palco eu peguei a capa pra guardar o Violão e como tinha muita gente a minha volta levantei demais a mão e enfiei o dedo da mão esquerda na parte de trás do ventilador que ficava perto do palco eu vi “estrelas” (risos), quase desmaiei de dor, curioso foi que me levaram pro ambulatório e a primeira pergunta que a médica me fez foi porquê que eu enfiei o dedo no ventilador? (risos).

23) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Lula Barbosa: O que deixa mais feliz é poder viver do que eu gosto e do que sei fazer de melhor. E o que me deixa triste é a falta de interesse da grande mídia pela qualidade musical. Os espaços abertos são muito poucos em Rádios e TV.

24) RM: Nos apresente a cena musical da cidade que você mora?

Lula Barbosa: Em Mairiporã – SP, quase não tem show infelizmente e tem muita gente boa morando lá: Renato Teixeira, Sergio Reis, Cristian, músicos como Crispin Delcistia, Omar Campos, Nadinho, etc…

25) RM: Quais os músicos, bandas da cidade que você mora, que você indica como uma boa opção?

Lula Barbosa: O pianista e acordeonista Iuri Salvagnini, o multi-instrumentista Omar Campos, o baixista Nadinho, o multi-instrumentista Crispin Delcístia, a flautista Carmen Garcia.

26) RM: Você acredita que as suas músicas tocarão nas rádios sem o pagamento do jabá?

Lula Barbosa: Acredito que só na rádio USP não se paga pra tocar nossas músicas.

27) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Lula Barbosa: Se tiver um emprego de meio período melhor tentar fazer as duas coisas até ter certeza absoluta que o que ganha como músico é o suficiente pra tocar sua vida.

28) RM: Quais os prós e contras do Festival de Música?

Lula Barbosa: Os Festivais de Música são a meu ver o que restou para o compositor medir a aceitação de sua música e para o intérprete se firmar como artista e para o instrumentista fazer contatos e se aperfeiçoar. O maior exemplo disto foi visto por todo o país no Festival dos Festivais da Rede Globo em 1985, quando Miriam Mirah interpretou a canção MIRA IRA (Lula Barbosa / Vanderlei de Castro), composta em sua homenagem, campeã do público e carro-chefe na vendagem do disco do Festival, com mais de 250.000 exemplares segundo a gravadora Som Livre, e incluída em 2004 no CD “O Melhor dos Festivais” pela mesma gravadora. Participei de Festivais de Música desde menino. E ainda no cursando o ginásio tinha um grupo chamado “Semente” que era composto por Marquinho, Alemão, Mindú, Joca, Luiz Carlos, Betinho, Claudemir e os vocais Márcia Cauê e Arlete. Tempo inesquecível e que não volta mais e ganhamos vários Festivais no período estudantil. Na fase profissional os principais foram: Festival dos Festivais em 1985 com segundo lugar e melhor arranjo com “Mira Ira” (Lula Barbosa / Vanderlei de Castro). Em 1997 Festival de Avaré – Fampop – SP com “Meninos” (Natan Marques). Em 1998 no Festival de Tatuí – SP, com “Para Juliana” (João Bid / Maria Cândida) com primeiro lugar. E em 2002 com “Harmonia” (Paulo César Pinheiro / Miltinho / Sirlã) com segundo lugar. Em 1996 no Festival de Boa Esperança – MG primeiro lugar com: “Braseira” (Rita Altério / João Aluá). Em 2002 segundo lugar com: “Amor verdadeiro” (Lula Barbosa / Edu Santhana). Em 2000 no Festival da TV Globo – Festival da Música Brasileira com “Brincos” (Amauri Falabella). Em 2002 em Cascavel – SC com “Se eu pudesse” (Lula Barbosa / Pedro Barezzi) com primeiro lugar. Em 2002 no Musicanto em Santa Rosa – RS com “Mão do Tempo” (Edu Santhana / Sérgio Augusto) terceiro lugar. Em 2003 no Festival Internacional da canção do Panamá com a versão em espanhol da música “Mira Ira”: “América Morena” (Lula Barbosa / Vanderlei de Castro).

29) RM: Na sua opinião, hoje os Festivais de Música revela novos talentos?

Lula Barbosa: Sim. Os Festivais de Música é o grande celeiro de novos talentos, é o espaço mais democrático.

30) RM: Como você analisa a cobertura feita pela grande mídia da cena musical brasileira?

Lula Barbosa: A meu ver muito pouco, a grande mídia se interessa mais por celebridade do que por música, a TV só se interessa por tragédias.

31) RM: Qual a sua opinião sobre o espaço aberto pelo SESC, SESI e Itaú Cultural para cena musical em São Paulo?

Lula Barbosa: É o que se tem de melhor pra quem ainda está em fase de formação de plateia.

32) RM: O circuito de Bar nos Bairros Vila Madalena, Vila Mariana, Pinheiros, Perdizes e adjacência ainda é uma boa opção de trabalho para os músicos?

Lula Barbosa: É o que se tem, não sei se na minha época era melhor, creio que sim, pois dava pra se viver tranquilamente tocando na noite nos Barzinhos.

33) RM: Qual seu contato pessoal e profissional com Celso Viáfora?

Lula Barbosa: Somos amigos de Festivais de Música, tenho um carinho muito grande pelo seu trabalho, um grande compositor e letrista.

34) RM: Qual seu contato pessoal e profissional com Chico César?

Lula Barbosa: Admiro muito seu trabalho e sua postura politica.

35) RM: Qual seu contato pessoal e profissional Kleber Albuquerque?

Lula Barbosa: Já fizemos shows juntos um projeto lindo “Canções da Resistência”, eu, ele e a Miriam Mirah onde interpretamos musicas de Geraldo Vandré e Taiguara. Foi um sucesso nos Sesc que passamos.

36) RM: Qual seu contato pessoal e profissional com Eduardo Gudin?

Lula Barbosa: Eduardo Gudin; o conheço desde o seu Bar “Vou Vivendo”. Somos parceiros, e tive o privilegio de classificar a música “Verde”, dele em parceria com José Carlos Costa Netto pro Festival dos Festivais em 1985, se a minha música Mira Ira não fosse classificada quem defenderia a música “Verde” seria eu.

37) RM : Qual seu contato pessoal e profissional com César Camargo Mariano?

Lula Barbosa: O César Camargo Mariano; o conheci no “Falso brilhante”, grande musical com Elis Regina. Assisti umas seis vezes esse lindo espetáculo, depois no Festival dos Festivais, ele era o diretor musical do Festival. Tenho uma grande admiração por ele e indo a um de seus shows fiz a letra de uma música e ele adorou ai nasceu minha parceria com ele, “D. Quixote” que foi gravada pela peruana Tania Libertad radicada no México.

38) RM : Qual seu contato pessoal e profissional com Fabio Jr.?

Lula Barbosa: O Fábio Jr. é o cantor do meu maior sucesso “Desejos e delírios”, somos amigos, parceiros, temos umas nove músicas em parceria entre elas: “Luz, Lua, Droga”, “Se você me visse agora”, “Fêmea”, “Apaixonado”, “Navegar”, entre outras.

39) RM: A semelhança de timbre de voz com do Milton Nascimento traz prós ou contra na sua carreira musical?

Lula Barbosa:  Acho que são duas vozes quentes e somos negros, filhos de mineiros, tenores, mas os nossos timbres são bem diferentes. Aliás, não existem timbres iguais geneticamente. No começo me incomodava com a comparação, mas hoje até “tiro proveito” da “semelhança”.

40) RM: Quais os seus projetos futuros?

Lula Barbosa: Agora estou com dois projetos infantis. Um livro CD cantando e contando historias com 15 músicas pra crianças até 8 anos de idade em parceria com Milton Célio de Oliveira. O livro e CD – “Pensamentos mágicos” que fala sobre Bullying nas escolas, fiz em parceria com Ricardo Magalhães.

41) RM: Quais seus contatos para show e para os fãs?

Lula Barbosa: [email protected] | www.lulabarbosa.com.br | www.facebook.com/olulabarbosa | @lulabarbosaoficial


Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor responsável pela revista digital RitmoMelodia desde 2001, jornalista, músico, poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, propaga a diversidade musical brasileira através de entrevistas e artigos. Jornalista formado pela Universidade Estadual da Paraíba - UEPB (1996 a 2000) que lançou um livro de poesia em 1998 e seus poemas ganharam melodias gravadas em três álbuns concluindo a trilogia "reggae baseado em poesia" no seu projeto musical Reggaebelde. Unindo a sensibilidade do poeta, músico com o senso crítico do jornalista e pesquisador musical colocado em prática em uma revista que Canta o Brasil.