Geraldo Vandré

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Geraldo Vandré
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O paraibano Geraldo Pedrosa de Araújo Dias (nascido em 12 de setembro de 1935), ou simplesmente Geraldo Vandré, nome com o qual entrou para a galeria de gênios e mitos da Música Popular Brasileira, é um homem que vive enclausurado com seus conflitos.

Ele mora em São Paulo e quase não atende o telefone. O número do celular apenas raros amigos possuem e entrevistas só concede depois de argumentar muito. Tivemos sorte. Vandré atendeu quando ligamos para o seu telefone móvel e, como sempre, foi solícito e amável. “Falo para você quando e quanto quiser”, respondeu. A entrevista foi movida a emoção e revelações muito pessoais, e o artista nega a sua intenção de voltar aos palcos, como anunciado em um site brasileiro. “Posso até gravar, mas um disco com minhas peças para piano. Não canto mais e nem pretendo mais fazer shows”.

O autor de clássicos como: “Disparada”, “Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores” e “Canção da Despedida”, rejeita o rótulo de mártir, e diz que escolheu a relação amistosa com as Forças Armadas por uma questão de foro íntimo. Vamos a entrevista com Geraldo Vandré para o jornalista *Ricardo Anísio ([email protected]). O compositor diz que compõe, mas não tem pressa de gravar e responde a Elba Ramalho:

01) Ricardo Anísio: Andaram falando em um retorno seu a carreira artística. Isso é verdade? Certa vez disse que a entidade “Vandré” estava morta. Ela ressuscitaria?

Geraldo Vandré: Não. Eu não volto atrás com o que disse. Mas eu também lhe deixei claro que estava compondo peças para piano e que buscava contato com uma pianista européia para registrá-las. Cheguei a perguntar se você não queria cuidar da produção do disco. Mas a minha atividade profissional de cantor se encerrou. Cumpri a função que estava determinada para mim aqui na Terra.

02) Ricardo Anísio: Isso é uma coisa mística? Você não se dizia Ateu?

Geraldo Vandré: Não sou místico e nem necessariamente ateu. Sou agnóstico e realista. Mas sei que há uma regência cósmica de nossas vidas, algo que nos impõe alguns limites e que norteia isso a que chamamos de destino. Mas sei que nós temos muita responsabilidade sobre o rumo que toma nossa vida. É comodismo demais entregar tudo ao Deus dará.

03) Ricardo Anísio: Lê algum livro de autoajuda ou de temas místicos como os de Paulo Coelho, por exemplo?

Geraldo Vandré: Se é de autoajuda é uma coisa que vem de nós e nós é que temos de criar as fórmulas para nos ajudarmos certo?! Com relação a este senhor, o Paulo Coelho, acho que tenho mais com que me ocupar do que ficar entrando nas suas viagens loucas. Ainda prefiro reler Brecht, Joyce ou Graciliano Ramos e José Lins do Rego. Mas na verdade tenho lido muito pouco, porque ainda tenho armazenadas muitas coisas que li há duas décadas e que ainda não processei da forma como devia. Acho que a literatura se perdeu nos últimos anos, e não me interessa muito.

04) Ricardo Anísio: Ao escrever a canção “Fabiana”, para a Força Aérea Brasileira, você chocou seus admiradores e disse que isso não lhe importava mais. Ainda pensa assim?

Geraldo Vandré: Eu disse que havia escrito a canção porque sempre fui um apaixonado por aviões. Agora, a minha relação com as Forças Armadas hoje, é de muito respeito mútuo. Eles me tratam com dedicação e sabem das minhas questões existenciais.

05) Ricardo Anísio: Como nasceu essa relação de respeito entre o autor de um hino antimilitarista e os militares?

Geraldo Vandré: Quando voltei do exílio, no final de década de setenta, meus companheiros me receberam com decepção, porque eu estava “vivinho da silva”, e eles me queriam mártir e morto. Seria para eles mais uma bandeira. E eu voltei doente e meio perdido em meu país, quando justamente os militares me acolheram e me deram tratamento médico, e me alojaram. Essa é uma relação de seres humanos e não de instituições. Outra coisa, tem que se acabar com essa ideia de que dentro dos quartéis todo mundo será sempre de direita. As coisas mudaram, e a tendência dos jovens oficiais hoje é mais de esquerda, ou de centro, na pior hipótese. Não foram as Forças Armadas as responsáveis pelos anos de ditadura, mas sim os homens que estavam à frente delas naquele momento.

06) Ricardo Anísio: E realmente você nunca foi torturado?

Geraldo Vandré: Nunca! Nem sequer fui exilado, porque escapei do país antes que me prendessem e me exilassem. Saí do Brasil sem que me encostassem um dedo sequer, embora soubesse que era considerado de alta periculosidade pelo SNI (Serviço Nacional de Informação). Mas os tempos mudaram, e mudaram também os militares. Hoje quem é de esquerda no Brasil? Os compositores? Você quer brincar comigo? Vivem sorrindo para as câmeras de TV e vendendo discos e mais discos. Esses são os comunistas e socialistas? E o público deles, onde fica? Como aceitam que as gravadoras multinacionais se valham dele da pior maneira possível? Essa esquerda é uma coisa estereotipada, ficou démodé e não funciona mais. Qual a diferença dela para o que chamam de direita. Não são os lados que importam (risos).

07) Ricardo Anísio: Qual a sua visão sobre o Governo Lula?

Geraldo Vandré: O povo no poder! Então o povo deve estar feliz e satisfeito. Mas não é bem assim, não é essa a realidade. O Lula faz o governo menos popular que já vi, e era dele que esperava-se um mandato voltado para o povo. Veja só que loucura, não acha? O problema do Brasil é na sua conjuntura, seus vícios homéricos e a falta de cultura de sua gente. Os políticos não têm interesse em educar, para não dar consciência política, percebe?! Não está diferente com o Lula, até porque eles venderam a alma para chegar ao poder, e suas boas intenções ficaram no discurso.

08) Ricardo Anísio: Ainda continua um clandestino em sua terra?

Geraldo Vandré: É para gargalhar, mas é um fato. Eu sou a prova da ilegalidade. Quiseram me anistiar e eu disse não! Anistia é perdão e eu não tinha do que ser perdoado, veja que coisa louca. Então voltei a morar no Brasil, mas sem a anistia, “eu sou um clandestino em meu próprio país” . “Não vou pedir perdão”. O autor de “Caminhando” acha contraditório aceitar a anistia se não admite que cometeu crime algum.

09) Ricardo Aníso: E não pretende pedir perdão?

Geraldo Vandré: De que? De ter escrito uma canção? De não concordar com aquele regime político? Ora, eu acho que quem assinou o pedido de anistia decretou que havia cometido um delito, e eles nunca observaram isso. Depois eu sou quem não tem lucidez? Mesmo que eu achasse que tinha sido um delito, feito isso por ideologia, jamais me desculparia.

10) Ricardo Anísio: Por isso não podem comercializar os seus discos?

Geraldo Vandré: Sim. Porque se eu estou na ilegalidade, minha obra também é ilegal no país. A engrenagem é toda cheia de absurdos, de contradições. Mas não compactuo com isso, e a aí me consideram o louco, por não aderir a essa onda toda de teorias furadas e nenhuma prática com fundamentação jurídica.

11) Ricardo Anísio: E seus CDs, eles foram recolhidos?

Geraldo Vandré: Ganhei na justiça. Como sou advogado com especialização justamente em Marcas e Patentes, que passa pelos direitos autorais, provei que minhas obras eram ilegais. Nunca assinei contrato para CD também, porque não tínhamos bola-de-cristal para antever a sua invenção. Tenho todos os direitos sobre minha obra, hoje. Meus discos só saem se eu os produzir.

12) Ricardo Anísio: Como avalia a MPB atualmente?

Geraldo Vandré: Quase não a conheço, ouço mais música erudita, isso me interessa. Mas acho que o Zé Ramalho, o Vital Farias, o Sivuca e aquela moça que você levou para cantarmos juntos (N.R – Essa moça é Cátia de França) lá na Praia do Poço e o Chico Buarque fazem canções de muita qualidade, eu é que estou muito hermético em minha crença sobre essa sigla M.P.B. Na sua grande maioria, as coisas estão muito aquém do que ser poderia esperar que chegassem a ser.

13) Ricardo Anísio: Elba Ramalho o chamou de louco e disse que não usou seu nome quando gravou “Canção da Despedida” porque você queria excluí-la do disco. O que tem a dizer sobre isso?

Geraldo Vandré: Nada. A loucura é uma coisa relativa de quem a analisa. Se ela se acha normal, eu sou realmente um louco. Não compactuo com os intelectualismos e com os psicologismos que regem-na, mas não vou perder tempo em falar sobre minha lucidez. Pela forma como me excluo de tantas convenções dos tempos atuais, certamente sou diferente, e quando alguém pensa diferente o melhor é chamá-lo de louco, para que ninguém lhe dê importância. Mas depois disso ela gravou “Disparada” com o Zé Ramalho e o Geraldo Azevedo. Ela devia esquecer o louco.

14) Ricardo Anísio: Mas o Geraldo Azevedo também tem uma “estória”. Você disse que ele nunca foi seu parceiro em “Canção da Despedida”. Confirma isso?

Geraldo Vandré: Claro que confirmo. Eu nunca tive parceiro nessa canção, a escrevi sozinho e ela está gravada no disco que fiz na França (Das Terras de Bemvirá), mas quando foi lançado no Brasil veio sem essa faixa, não sei porquê, se foi por censura ou algo que o valha. A verdade é que depois que a marca Vandré virou um mito monstruoso apareceram parcerias que eu nunca fiz.

15) Ricardo Anísio: E as homenagens? Que foi que achou do CD do Quinteto Violado interpretando apenas composições de sua lavra?

Geraldo Vandré: Não gosto dos arranjos. Mas na verdade o Marcelo Melo (vocalista e violonista do Quinteto Violado) é um ótimo músico e o grupo merece respeito. Acontece que eu não aprovaria porque entrei em uma fase de muito rigor musical. Não tenho interesse de que minha obra seja revisitada, mas se o fazem, que a façam com mais requinte do que nas versões originais. Quando você grava uma música de alguém e o faz de forma piorada, não é mais homenagem, dá pra entender?!

16) Ricardo Anísio: Sua versão para “Asa Branca”, de Luiz Gonzaga, você acha que superou a do autor?

Geraldo Vandré: Não, mas não era essa a intenção. Quando eu resolvi incluir a composição do Gonzaga e do Humberto Teixeira era daquele jeito que eu fiz mesmo, como um aboio de guerra, um brado do homem nordestino. Aquele disco (“Hora de Lutar”) era todo assim, com coisas da capoeira, dos povos excluídos e das raças segregadas. “Asa Branca” eu cantei como quem aboia mesmo, e a minha ideia era fazer isso a capela, somente a voz angustiada anunciando a rebelião. Essa foi uma reverência mesmo.

17) Ricardo Anísio: Então você não descarta a possibilidade de gravar um disco instrumental e nem de aparecer em um show do amigo Zé Ramalho?

Geraldo Vandré: Eu sou um mutante (gargalhada). Uma vez desafiei você a me produzir, lembra? Mas você não topou, talvez tenha ficado assustado…Certamente que eu não descarto aceitar um convite do Zé Ramalho, mas se voltar a gravar um disco somente meu, vou querer registrar minhas composições para piano.

18) Ricardo Anísio: Mas não usará o nome Geraldo Vandré, não é? Afinal você disse uma vez em entrevista que “Vandré estava morto”, assassinado pelas suas próprias mãos….

Geraldo Vandré: Se eu criei esse Frankenstein, eu posso ressuscitá-lo. O que disse àquela época foi que não permitiria o uso do minha entidade artística por parte desse mercado de horrores em que se transformou o mundo da música.

19) Ricardo Anísio: Nunca mais veio a Paraíba. Alguma mágoa?

Geraldo Vandré: Fiquei triste, digamos assim, quando minha tia vendeu a nossa casa, a casa onde eu nasci e me criei (na Av. Almirante Barroso, Parque Solon de Lucena) e onde eu pretendia fundar a Capitania de Van-Mar, uma espécie de fundação onde trataríamos de coisas da cultura e da ecologia. Mas admito que sou melhor tratado em outros Estados. Tenho saudade dos amigos e por isso devo estar aí em breve. Talvez grave meu disco de piano aí….

*Ricardo Anísio – jornalista, poeta e produtor musical paraibano.


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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor Responsável pela revista Ritmo Melodia desde 2001, músico, letrista e poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, sempre se preocupou em divulgar a música (popular, regional, instrumental e erudita) com entrevistas e artigos sobre os músicos e artistas brasileiros.