André Abujamra

André Abujamra

Filho de um dos grandes atores do teatro brasileiro Antônio Abujamra, André Abujamra herdou do pai o talento e a necessidade em provocar a ordem vigente, em mais de 40 anos de carreira se firmou como um dos grandes artistas criativos do Brasil.

Multi artista André é cantor, compositor, guitarrista, percussionista, pianista, produtor musical (produziu mais de 60 trilhas para cinema), ator, diretor de teatro e cinema. Iniciou a carreira artística nos palcos em 1985 em parceria com Maurício Pereira, na banda “Os Mulheres Negras”. Em 1994 estreou a banda “Karnak”, em que seu disco de estreia foi considerado pela revista americana Rolling Stones entre os melhores lançamentos da década de 1990. Já lançou cinco discos solos: “Infinito de Pé”, “Retrasnformafrikando”, “Mafaro”, “Homem Bruxa” e “Omindá”. Como ator já participou de vários filmes, entre eles: Sábado (Ugo Georgetti), Durval Discos e Proibido Fumar (Anna Muylaert). Em trilhas sonoras tem destaque os trabalhos para Carandiru, Bicho de sete cabeças, 2 Coelhos e Castelo Ratimbum. 

Segue abaixo entrevista exclusiva com André Abujamra para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 06.01.2020:

Índice

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

André Abujamra: Nasci no dia 15 de maio de 1965 em São Paulo.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

André Abujamra: Eu demorei muito a falar, mas já tocava meus primeiros acordes com 4 anos de idade. Foi paixão a primeira vista com a música.

03) RM: Qual a sua formação musical e\ou acadêmica fora da área musical? 

André Abujamra: Eu tentei me formar, mas não consegui. Comecei a trabalhar cedo e com os shows, trilhas e discos não sobrou muito tempo para terminar a Faculdade de música e parei no quarto ano se não me falhe a memória.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

André Abujamra: Minhas influências musicais são muitas e não deixaram de ter importância, pois eu vou sempre somando mais uma. Adoro rock, blues, música clássica, bollywood, música brasileira, black music, afro. Quem acompanha minha trajetória musical desde “Os Mulheres Negras”, “Karnak” e meus discos solos, vai ver que sempre misturei tudo e fiz disso um caldeirão sonoro.

05) RM: Quando, como e onde você começou a sua carreira musical?

André Abujamra: Aos 18 anos de idade depois que voltei de um intercâmbio nos Estados Unidos. Trabalhei por lá e comprei uma guitarra Gibson que me acompanha até hoje. Em 1985 formei minha primeira banda “Os Mulheres Negras” junto com meu soul brother Maurício Pereira.

06) RM: Quantos CDs lançados, quais os anos de lançamento (quais os músicos que participaram nas gravações)? Qual o perfil musical de cada CD? E quais as músicas que entraram no gosto do seu público?

André Abujamra: Essa pergunta eu não saberia responder sem olhar num Google e mesmo assim talvez se esquecesse de algum nome. Foram dois discos pelos “Os Mulheres Negras” em 1988 e 1990. Foram quatro pelo “Karnak” em 1994; 1997; 2000; 2003. Foram cinco discos solo em 2004; 2007; 2010; 2015; 2018. Foram dois pelo projeto eletrônico “Fat Marley”. Um pelo Gork em 2010 e um pelo Turk. Fora as inúmeras participações e outros projetos paralelos como a Banda Vexame. Melhor parar por aqui e quem tiver mais curiosidade ir buscar na internet…

07) RM: Como você define seu estilo musical?

André Abujamra: Nunca tive uma definição sobre o gênero que eu faço. Tem quem diga que é: pop, world music, fusion, rock, punk. Cada disco tem uma leitura diferente. Prefiro dizer que toco a música que eu gosto. E eu gosto de muita coisa diferente.

08) RM: Você estudou técnica vocal?

André Abujamra: No início da minha carreira fiz algumas aulas de vocal.

09) RM: Qual a importância do estudo de técnica vocal e cuidado com a voz?

André Abujamra: Eu não penso muito respeito. Não costumo me preocupar com ar condicionado, tomar chás ou ter cuidados extras com a minha voz. Procuro dormir e descansar antes dos shows.

10) RM: Como é o seu processo de compor?

André Abujamra: Não tem uma fórmula. Às vezes fico maturando uma ideia por um tempo, outras vem mais fácil a partir de um conceito. O “Omindá” demorou quase 11 anos entre a criação e o disco ser lançado. Com a minha banda rock punk o Turk, fizemos tudo em três dias e um mês depois o CD estava à venda.

11) RM: Quais são seus principais parceiros de composição?

André Abujamra: Foram e são muitos parceiros. No meu último disco solo, “Omindá”, eu fiz parcerias incríveis com convidados internacionais como Perotá Chingó e Oki Kano. E muitos parceiros brasileiros como o rapper Xis, Anelis Assumpção e Maurício Pereira.

12) RM: Quem já gravou as suas músicas?

André Abujamra: Zeca Baleiro, Ney Matogrosso, Pedro Luiz, Chico César, Perota Chingó, Luiz Caldas e muita gente boa que ajudam a espalhar minha música por aí.

13) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

André Abujamra: Contra é que você tem que bancar seu próprio projeto, mas isso pode ser uma vantagem se for pensar mais a respeito. Prol é a total liberdade para fazer o que quiser. A tecnologia de hoje permite uma independência bem diferente do que era ser independente nos anos 80/90.

14) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

André Abujamra: É um assunto meio longo para caber numa resposta, mas estou sempre pensando novos projetos e conto com uma equipe que me ajuda muito a tocar as ideias adiante. Já temos 2020 no papel e pensando em 2021, 2022. Mas no momento político atual de incertezas e despreparo que o país vive nunca se sabe o que virá pela frente. Uma coisa é certa, a arte é eterna e a ignorância não vai prevalecer.

15) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira?

André Abujamra: Eu empreendo minha carreira, desde sempre. Meu trabalho é música, é arte. Busco sobreviver de todas as formas possíveis dentro desse leque. Toco, componho trilhas, dirijo, atuo, busco parcerias com pessoas que possam me auxiliar e se juntar a projetos.

16) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira?

André Abujamra: Pra mim a internet ajuda em quase todos os aspectos. Produzir, divulgar, espalhar meu trabalho por ai. Prejudica quando você fica perdendo tempo com haters (termo usado na internet para classificar pessoas que postam comentários de ódio ou crítica sem muito critério) nas redes sociais. Mas estou me vacinando contra esse vírus dos tempos atuais.

17) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso a tecnologia  de gravação (home estúdio)?

André Abujamra: Praticamente tudo o que eu faço nasce no meu estúdio. Somente quando preciso gravar uma orquestra ou mais músicos é que opto por um estúdio tradicional. Não é uma questão de vantagem ou desvantagem. São modos de produzir diferentes. Só isso.

18) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo. Mas, a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

André Abujamra: Só conheço uma maneira… Trabalhando muito. Tem que ralar e estar presente para seu público. Seja nos palcos, na mídia ou nas redes. O artista que fica quieto em seu canto terá sempre mais dificuldades em sobreviver de sua arte.

19) RM: Como você analisa o cenário musical brasileiro?

André Abujamra: O Brasil tem um cenário musical maravilhosamente rico. Muita gente jovem e talentosa aparecendo.

20) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical (falta de condição técnica para show, brigas, gafes, show em ambiente ou público tosco, cantar e não receber, ser cantado e etc)?

André Abujamra: O que mais me deixa irritado é não me ouvir no palco. As condições técnicas foram muito piores no passado do que agora, mas sempre rola um perrengue quando tem que fazer tudo na pressa. O resto à gente tira de letra. Se tiver um bêbado na plateia mando ficar quieto em respeito aos demais.

21) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

André Abujamra: O que me deixa feliz é estar em cima do palco tocando. Pode ser meu trabalho ou tocando com meus amigos. O que me deixa triste é ver e ouvir absurdos terraplanistas. Isso realmente é muito triste, mas tem a ver com o contexto político que estamos vivendo.

22) RM: Você acredita que as suas músicas tocarão nas rádios sem o pagamento do jabá?

André Abujamra: Espero que sim, pois nem sei como chegar lá de outra maneira.

Seria genial se houvessem mais rádios públicas, comunitárias e universitárias por todo País. As rádios são concessões públicas que são usadas para interesses particulares. Isso vem de longo tempo atrás e gera essa distorção absurda. Imaginou como seria diferente se tivesse por aqui uma Radio France ou BBC?

23) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

André Abujamra: Seja resiliente e trabalhe muito. Acredite na sua arte e saiba que não será fácil.

24) RM: Quais os prós e contras do Festival de Música?

André Abujamra: Os antigos Festivais de Música abriram as portas para muita gente que marcou a história da música no Brasil. Eu participei de um Festival da TV Cultura nos anos 80 e foi uma experiência bem legal. Foi lá que começou a semente dos “Mulheres Negras”. Festivais são vitrines onde você consegue mostrar sua música para um público que nem sempre teria atenção ao seu trabalho. Hoje esse antigo formato televisivo de Festivais não existe, mas os Festivais tem cada vez mais sucesso. Temos ótimos Festivais em todo país como: Bananada, Se Rasgun, Radioca e Rec Beat.

25) RM: Hoje os Festivais de Música revela novos talentos?

André Abujamra: Eles são ótimos e relevantes para divulgar as bandas e formar público, principalmente os que estão fora do eixo São Paulo – Rio de Janeiro.

26) RM: Como você analisa a cobertura feita pela grande mídia da cena musical brasileira?

André Abujamra: Música nunca teve muito espaço na grande mídia. Hoje com a internet, a informação está mais espalhada em vários nichos. Se você gosta de death metal ou valsa, vai encontrar. Agora se for pensar em grandes portais de notícias, TV e rádio; é bem complicado estar presente. Você está disputando espaço com um Big Brother Brasil, um jogador que traiu a namorada, um blockbuster americano e por aí vai.

27) RM: Qual a sua opinião sobre o espaço aberto pelo SESC, SESI e Itaú Cultural para cena musical?

André Abujamra: O Sesc deveria ter status de Ministério da Cultura. São os maiores empreendedores da cultura nacional. Um modelo elogiado no mundo todo. O Itaú e Sesi também tem um trabalho muito importante, mas não com a abrangência e dimensão do Sesc. Também espero que mais empresas como a Natura, Ambev e outras invistam cada vez mais nessa área.  A cultura tem muito a ajudar no PIB nacional.

28) RM: O circuito de Bar ainda é uma boa opção de trabalho para os músicos?

André Abujamra: Sempre foi uma opção e sempre será. O que precisa melhorar é que alguns donos de Bar deem à devida importância a música. Eles colocam música ao vivo porque leva público. A pessoa paga R$10 por uma lata de cerveja que custa R$2 e no final é possível que o “flanelinha” que cuida dos carros dos clientes, leve mais dinheiro para casa que o músico que está no palco. Tem várias casas que tratam respeitosamente os músicos, mas infelizmente alguns comerciantes não entendem essa importância e querem apenas uma música de fundo para faturar mais.

29) RM: Quais os seus projetos futuros?

André Abujamra: Em janeiro lanço o novo disco do “Karnak”, a ópera rock Nikodemus. No segundo semestre é a vez do meu próximo disco solo, Emidonã. Lancei o Omindá em 2018 que falava sobre a água. Em 2020 será do Emidonã, que fala sobre o fogo. Na sequência virão discos sobre o ar, a terra e o quinto elemento surpresa. Isso se o mundo não acabar até 2030.

30) RM: André Abujamra, Quais seus contatos para show e para os fãs?

André Abujamra: https://andreabujamra.com.br |  Instagram @andre_abujamra | http://www.imdb.com/name/nm0009494/ | https://www.facebook.com/andreabujamraoficial | https://www.youtube.com/user/xirian2006 | https://soundcloud.com/andre-abujamra |


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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor responsável pela revista digital RitmoMelodia desde 2001, jornalista, músico, poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, propaga a diversidade musical brasileira através de entrevistas e artigos. Jornalista formado pela Universidade Estadual da Paraíba - UEPB (1996 a 2000) que lançou um livro de poesia em 1998 e seus poemas ganharam melodias gravadas em três álbuns concluindo a trilogia "reggae baseado em poesia" no seu projeto musical Reggaebelde. Unindo a sensibilidade do poeta, músico com o senso crítico do jornalista e pesquisador musical colocado em prática em uma revista que Canta o Brasil.