Maurício Pereira

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Maurício Pereira
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O cantor, compositor, saxofonista, produtor musical, ator e jornalista paulistano Maurício Pereira foi integrante nos anos 80 da banda “Os Mulheres Negras”, que se caracterizava por sua teatralidade e experimentalismo, e que lançou 2 discos – atualmente esgotados – pela gravadora Warner.

Entre 1992 e 1994 foi cantor da banda do programa diário “Fanzine”, sempre ao vivo na TV Cultura, apresentado pelo escritor Marcelo Rubens Paiva, onde cantou, diariamente durante 2 anos, mais de 600 canções brasileiras dos mais variados gêneros e autores. Tem quatro discos solo lançados: “Na Tradição”, “Mergulhar na Surpresa”, “Canções que Um Dia Você Já Assobiou – vol.1” e “Pra Marte”, todos em catálogo pelo selo independente Lua Music (www.luamusic.com.br ).

Maurício produziu, além dos seus próprios discos e os dos “Mulheres Negras”, discos de jovens artistas brasileiros como o duo instrumental Bico de Pena, as cantoras Rita Monteiro e Rossanna Decelso, aBanda Paralela, o compositor pernambucano, Armando Lôbo. Dirigiu shows de: Hermeto Paschoal, Paulo Moura, Os Incríveis, Jerry Adriani. Fez a direção musical de peças de teatro: Um Certo Faroeste Caboclo, A Gata Borralheira e a direção de dublagem musical de desenhos animados e videogames (Discovery Kids).Trabalhou como ator em teatro: Parlapatões, Jogando no Quintal, propaganda (Nextel) e séries educativas (TV Futura, TV Senac, TV Cultura), nas quais fez também trabalho de pesquisa e reportagem. Compôs trilhas para peças de teatro e documentários.

Como jornalista, faz a pesquisa, pauta e reportagem dos documentários que acompanham os shows gravados pelo Instituto Itaú Cultural, para a série de DVDs “Toca Brasil” (Edith do Prato, Berimbrown, Mombojó, Quaternaglia, Nei Lisboa, Nei Lopes, Siba e a Fuloresta, Banda Mantiqueira, entre outros).

Figura no Guinness Book dos Recordes 1998 por ter feito, em 1996 no Centro Cultural São Paulo, o primeiro show brasileiro ao vivo via internet.

Regularmente, realiza oficinas e palestras sobre composição de canções, sobre produção cultural, sobre produção de discos e shows, e participa de programas de formação de público para música (para universidades, prefeituras e instituições como SESC, SESI, Fundação Bienal, Itaú Cultural, Soc. de Cultura Artística).

Segue abaixo entrevista exclusiva com Maurício Pereira para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa 01.12.2008:

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Mauricio Pereira: Nasci em São Paulo no dia 08 de novembro de 1959.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Maurício Pereira: O primeiro contato foi com o povo que cantava para eu dormir, certamente. Depois, as marchinhas no Carnaval. A minha mãe dando aulas de piano. As músicas dos grupos e cantores (as) da Jovem Guarda e as dos Beatles. E principalmente as músicas que tocavam no rádio, eu amo ouvir rádio.

03) RM: Qual a sua formação musical e acadêmica fora da área musical?

Maurício Pereira: Me formei em jornalismo pela USP em 1980. E confesso que uso o que aprendi, tanto para a profissão de músico quanto para outras coisas. Mas já estudava música antes. Estudei piano e teoria musical quando era pequeno. Na época da faculdade estudei sax, teoria, harmonia. Conheci o André Abujamra justo num curso de dois anos de percussão africana, com um discípulo do percussionista argelino Guem. E no tempo do “Os Mulheres Negras” estudei contrabaixo e harmonia, além de continuar com o sax.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Maurício Pereira: As primeiras devem ter sido a Jovem Guarda e o Beatles. Escutei muito rádio nos anos 60, o que quer dizer: tudo. Luiz Gonzaga, Elvis Plesley, Ray Charles, Lindomar Castilho, pop italiano de montão. Em seguida, eu já tava com uns 10 anos de idade, o Tropicalismo fez a minha cabeça, mesmo eu sendo criança. Caetano Veloso, Gilberto Gil, Mutantes, Tom Zé, Gal Costa. A gente ouvia muito isso lá em casa. O “despreconceito” do Tropicalismo fabricou um bom pedaço da minha alma, acho que ele está até na raiz do trabalho dos “Os Mulheres Negras”, e também do meu terceiro disco solo: “Canções Que Um Dia Você Já Assobiou”.

05) RM: Quando, como e onde você começou a sua carreira musical?

Maurício Pereira: Quando eu conheci o André Abujamra em São Paulo, em 1983, quando eu ainda era revisor do jornal Estadão. Eu tinha 23 anos, sou um músico tardio, e encontrar o André me jogou para dentro da música. Fizemos o curso de ritmos africanos, e logo estávamos tocando juntos, primeiro no “Muscad Xalote”, depois na banda “Os Mulheres Negras”.

06) RM: Quantos discos lançados (músicos que participaram nas gravações)? Qual o perfil musical de cada CD? E quais as músicas caiu no gosto do seu público?

Maurício Pereira: Lancei dois discos com “Os Mulheres Negras”, mais quatro solos. Vou contar a história…

Em 1988, pela gravadora Warner, saiu o “Música e Ciência”, um disco que registrava o trabalho inicial da banda “Os Mulheres Negras”, muita brincadeira, muita experiência, muita liberdade, muita liga entre eu e o André. Trabalhávamos com a tecnologia primária que tinha na época, em termos de samplers e Teclados, coisas simples, compradas no Mappin ou no Paraguai. Destaque pra a versão de “Yellow Submarine”, a nossa “Sub”.

Em 1990, ainda na Warner, o segundo disco da banda “Os Mulheres Negras”“Música Serve Pra Isso”. Já mais experientes, era um disco mais de canções, poeticamente mais forte. Eu estava amadurecendo como cancionista. E muito bem produzido, o André estava amadurecendo como produtor. É um belo disco. Destaque para a música “John”.

Aí vem a carreira solo..

Em 1995 eu lancei o “Na Tradição”, um disco de canções, uma mpb tocada com aspereza por uma banda a “Natra Tocatudo” formada por Eli Roisman na bateria, Fon Jimenez no contrabaixo,Claudio Bone no trombone, vocais e guitarras, e Gerson Surya no piano elétrico. Desse disco, o povo gostava de: “Pinguim”“Tudo por Ti”,  “Pan y Leche”.

Em 1998 fiz mais uma safra de canções e gravei o disco “Mergulhar na Surpresa”,  basicamente de piano e voz, com o pianista Daniel Szafran. É um disco que gosto muito. O meu trabalho com o Szafran é muito forte. Destaque pra “Dia Útil”. Desse disco participaram vários músicos de São PauloSkowa, Mario Manga, Luiz Waack, Paulo Lepetit, Eduardo Cabello, Guello, Paulo Freire, Tonho Penhasco.

Em 2003, gravei um disco só de clássicos do rádio, nenhuma música minha. Gravei ao vivo em São Paulo com a banda “Turbilhão de Ritmos”, músicos que eu conheci quando trabalhei como cantor do programa Fanzine, da TV Cultura. O nome do disco é “Canções Que Um Dia Você Já Assobiou –vol.1”. Tem músicas de Erasmo Carlos, Dalto, Lamartine Babo, Adoniran Barbosa, gravei “Galopeira”, “O Amor e o Poder”. É um disco de quem ouviu rádio e não tem preconceito. Acho que por conta disso tem gente que tem algum preconceito com esse disco. Os músicos: Carneiro Sândalo – bateria; Reinaldo Chulapa – contrabaixo; Daniel Szafran – piano; Amilcar Rodrigues – trompete e Luiz Waack – Guitarra.

E finalmente, em 2007 lancei o “Pra Marte”, um disco autoral, da poesia forte, e com uma banda que tem muita alma e improvisa muito, entende bem a poesia das letras e a traduz pro som. Os músicos: Leandro Paccagnella – bateria; Mano Bap – contrabaixo; Tonho Penhasco e Luiz Waack – guitarras. Convidados: Skowa, Alice Ruiz, André Abujamra e Daniel Szafran. Meus discos solo estão todos em catálogo, pela Lua Music ( www.luamusic.com.br )

07) RM: Quais são seus principais parceiros musicais?

Maurício Pereira: André Abujamra, a gente tem uma liga muito boa, mesmo não se vendo sempre, quando junta ninguém segura. O mesmo se passa com o Daniel Szafran, tanto que, mesmo 10 anos depois, a gente continua fazendo shows do “Mergulhar”, e o público gosta muito. Tem o Skowa, a gente tem uma liga boa no palco. E um parceiro recente, que eu gosto muito, é o Arthur de Faria, um mestre lá de Porto Alegre. As bandas dos meus discos também costumam ser uma parceria forte, são sempre músicos com quem eu posso tocar de olhos fechados, esse time do “Pra Marte” é maravilhoso: Luiz Waack, Tonho Penhasco, Mano Bap, Leandro Paccagnella.

08) RM: Como você define seu estilo musical?

Maurício Pereira: Pop urbano, acho eu. Quando eu preciso sou pop, ou experimental, ou tradicional. Cresci ouvindo tudo, coisa de quem é criado em metrópole. E acho que meu lado letrista e melodista. Torna-me um típico compositor brasileiro de canções. E sou um letrista forte, isso faz diferença no meu trabalho: trabalhamos de coração quente.

09) RM: Como é o seu processo de compor?

Maurício Pereira: Não tem muito processo. Cada música é feita de um jeito. A única coisa é que eu gosto de fazer e deixar a música crescer sozinha, que nem massa de bolo… Às vezes vem música e letra juntas, aconteceu muito isso no “Os Mulheres Negras”, e também nos dois primeiros discos. O Pra Marte, na maior parte, eu fiz as letras primeiro, tava com sede de texto.

10) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Maurício Pereira: Prós: a liberdade de expressão, e o tanto que se aprende, porque você não faz só a música. Você tem que produzir, vender, fazer soar. Acho que abre a cabeça e o leque de conhecimento. O cara tem que se tornar multidisciplinar. E acho q a gente fica mais cooperativo. Contras: é muito difícil sobreviver só de música sendo independente, tem pouco espaço na mídia. Por conta disso a maioria dos músicos independentes faz um monte de coisa além de tocar.

11) RM: Como você analisa o cenário musical brasileiro. Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Maurício Pereira: O cenário brasileiro é maravilhoso. Cada época sempre tem músicos interpretando com criatividade (mesmo sob a pressão do mercado e crises econômicas) o Brasil, sua alma, seu dia – a – dia, sua cultura. Não vejo ninguém que regrida, acho que não existe isso em música, é quase impossível. O que eu achei interessante nos últimos 20 anos? Rap, Mangue Beat, o renascimento do samba e do choro entre os jovens (acho até que o pagode, tão criticado, foi uma das causas desse renascimento), o rock sempre forte (especialmente o independente, de 2000 pra cá), o Funk carioca se consolidou, a música eletrônica brasileira se consolidou. Enfim, é tanta coisa interessante que se eu começar não paro mais. Mas acho que o mais importante das últimas duas décadas é que a música independente tomou conta da cena, é realmente ela que está dando o tom da música brasileira, porque se dependesse das gravadoras grandes a música brasileira estaria mumificada…

12) RM: Quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Maurício Pereira:Puxa, tem tanto… Acho que o Caetano Veloso é um herói nacional. Um cara que filosofa pro povo, graças às ideias dele, aos questionamentos que ele coloca em linguagem que todos podem entender, existe mais liberdade pra se trabalhar, no estilo que for, do jeito que for.

13) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Maurício Pereira: Mais feliz: subir no palco e tocar. A música daqui é de muita qualidade, muito espírito. Mais triste: o mercado restrito pra se trabalhar no Brasil, ainda é muito difícil fazer show. Acho q isso é um problema estrutural do Brasil: só se resolve com distribuição de renda e ensino público massivo e de boa qualidade. Fácil, né?

14) RM: Nos apresente a cena musical paulistana dentro do seu universo musical? Quais os músicos na cena paulistana que na sua opinião tem uma obra consistente, regular e inovadora?

Maurício Pereira: Tem muita coisa interessante em São Paulo, nos mais variados gêneros. O Rap e o Rock, sempre. Têm essa onda de Samba e Choro, feitos por molecada, músicos jovens. Várias rodas de Samba ou Choro pela cidade, já há anos. Na MPB, tem muita gente, difícil até enumerar. O pessoal da Barca tem gerado belos discos, a Juçara Marçal, tem o Padê, o Lincoln Antonio, tem o “Entrevista com Stela do Patrocínio”. O pessoal da minha banda tem belos trabalhos: o Luiz Waack produziu ano passado o disco novo da Alzira Espíndola, o do Edvaldo Santana, e um infantil: Por Quê? Que ganhou o prêmio Tim. O Mano Bap produziu o Zé de Riba, além de tocar no Alta Fidelidade, no Karnak do meu mano Abu, no Scrutinizer (fabulosa banda que toca só Frank Zappa). E tem gentes de fora que tão radicadas aqui, tipo, Zeca Baleiro, Chico César, Wander Wildner, Porongas, Vanguart. É muita coisa, gentes lançando disco de todo jeito, via internet, em boteco pequeno, em megateatro. A cena de São Paulo é rica e variada, se eu começar a lembrar não paro mais.

15) RM: Qual a relação da sua proposta musical com a vanguarda paulistana?

Maurício Pereira: Acho que não tem uma relação direta, tipo uma influência. O que tem em comum é o fato de eu, há quase 30 anos, estar na estrada batalhando pra fazer música da minha cabeça e tentando me dar liberdade de criação, como eles. E também a experiência de ser produtor independente. À parte isso, eu tenho o enorme prazer de tocar ou ter tocado com vários músicos/mestres que vêm dessa geração da chamada “vanguarda”. Na minha banda mesmo, agora, estão o Luiz Waack e o Tonho Penhasco nas guitarras, eles que tocaram com o Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé, Suzana Salles, um monte de gente. E outros tantos, né?

16) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Maurício Pereira: Praticamente impossível. Só nas rádios públicas ou da web. Mas eu não toparia pagar jabá (pagar para a música ser tocada na programação de uma rádio), aí é que tá… Acho que ele (o jabá) destrói o mercado e a programação das rádios, odeio o jabá. Esse ano eu pesquisei quais as rádios do interior de São Paulo que poderiam tocar o meu som. Um belo dia. Catei meu carro e fui pra lá, uma por uma. Os caras das rádios quase caíam de costas quando me viam por lá… foi ótimo, abri muita porta. Estou na estrada há muitos anos, mas ainda tem que batalhar como se eu tivesse começado ontem. Faz parte.

17) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Maurício Pereira: Tenha muita paciência e muito tesão.

18) RM: Como você vê e usa a ferramenta da internet para propagar e popularizar seu trabalho?

Maurício Pereira: “Os Mulheres Negras”, mesmo antes de existir a internet, usava um raciocínio internético. A gente tinha uma lista gigante de e-mail, e mandava uma newsletter pros caras, éramos super interativos com o público. Depois, eu fui dos primeiros artistas a ter um site. Em 1995, cheguei a esperar a web existir pra lançar o CD Na Tradição. Em 1996 entrei pro Guinness Book, acredita, fiz o primeiro show ao vivo via internet no Brasil. E sempre usei muito o e-mail pra divulgar shows, o www.myspace.com e o www.youtube.com são ferramentas ótimas. Seja para divulgar, vender, trocar informações com músicos do mundo inteiro, a internet é bárbara. Agora é esperar para ver no que vão dar essas mudanças todas que a tecnologia está gerando. Estamos em uma transição muito forte do jeito de fazer e ouvir música. Acho que ainda leva tempo pra a poeira assentar. Vamos ver…

19) RM: Quais os projetos futuros?

Maurício Pereira: Em 2009 quero viajar com o show do Pra Marte, especialmente pro interior de São Paulo, que tem um público que eu adoro. Fora isso, estou voltando a fazer os shows dos meus discos antigos, começando pelo Mergulhar na Surpresa, que eu faço só com o Daniel Szafran no piano. Ele é bem diferente do Pra Marte, fiz uma temporada agora no fim do ano e foi um sucesso, muita gente queria ouvir/ver de novo. Então eu vou prosseguir. Uma hora ou outra deve rolar algo com o André Abujamra, não sei como nem quando, só sei que vai. E continuar com outros trabalhos que eu tenho feito, e que não são só musicais, por exemplo, apresentando a série de shows de um projeto de formação de público no interior, chamado Ouvir para Crescer. Fazendo a pesquisa de documentários como o do Itamar Assumpção que o Itaú Cultural vai lançar em 2009, trabalhos de locutor e ator. São jeitos de manter a minha cabeça afiada e ganhar um troco pra manter a independência do meu trabalho musical, né?

20) RM: Quais os contatos para show e para os fãs?

Maurício Pereira: [email protected]

|www.mauriciopereira.com.br \ www.myspace.com/mauriciopereirawww.youtube.com/mug5599

Luci Traça – Articulartes: [email protected]

(11) 3739-2707 \ (11) 98144-7068 \ Nextel (11) 7840-9335 ID 2*40335 | [email protected]

Skype – lucitraca


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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor Responsável pela revista Ritmo Melodia desde 2001, músico, letrista e poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, sempre se preocupou em divulgar a música (popular, regional, instrumental e erudita) com entrevistas e artigos sobre os músicos e artistas brasileiros.