Zé Geraldo


Nascido em Rodeiro, na Zona da Mata mineira, e criado em Governador Valadares, no Vale do Rio Doce, o cantor e compositor Zé Geraldo caiu na estrada cedo. Aos 18 anos foi estudar e trabalhar em São Paulo, ainda com o sonho de se tornar jogador de futebol mas, um acidente de ônibus mudou o rumo de sua história e com pouco mais de 20 anos, suas jogadas foram transformadas em versos e canções.

Por cerca de oito anos, a vida do artista foi dividida entre os estudos, o trabalho e os palcos dos bailes da periferia paulistana nos finais de semana. ZeGê, como era conhecido nos anos 70, lançou três compactos e um LP pela gravadora Rozemblitt. No entanto, o título de romântico atribuído a ele, não satisfazia sua alma de artista, desprovida de rótulos.

Entre 75 e 78, participou e foi premiado em inúmeros Festivais, até gravar em 1979, seu primeiro disco como Zé Geraldo: “Terceiro Mundo” (CBS). Ainda pela CBS, lançou “Estradas” (1980) e Zé Geraldo (1981). Canções como “Cidadão” (Lúcio Barbosa), “Como Diria Dylan”, “Senhorita”, indispensáveis no repertório de seus shows, fazem parte desta primeira safra de gravações, assim como “Rio Doce”, com a qual Zé Geraldo participou do Festival MPB-Shell de 1980, e “Milho aos Pombos”, que tornou o artista conhecido em todo o Brasil no mesmo festival promovido pela Rede Globo, em 1981. Duas de suas músicas foram temas de novelas da Rede Globo: Semente de Tudo (Livre para voar) e São Sebastião do Rodeiro (Paraíso), que conta com a participação de Zé Ramalho na gravação.

Hoje, aos 76 anos, contando mais de 40 anos de estrada, 17 álbuns e 3 DVDs lançados, além de coletâneas, participações e compactos, Zé Geraldo é aclamado como artista independente, autêntico e totalmente alinhado ao seu discurso. “Nesses anos todos, indo e vindo mundo afora”, nosso roqueiro da roça construiu e consolidou sua carreira longe dos grandes holofotes da mídia, contando sempre com um público fiel que amplifica seus versos e lota os shows por onde passa.

Com o Duofel, lançou o CD acústico (1996/ Paradoxx), com o amigo de muitos anos, Renato Teixeira, gravou “O Novo Amanhece” (2000/ Kuarup). Seu 14º CD, “Tô Zerado”, foi lançado em 2004, o primeiro pelo selo próprio Sol do Meio Dia.

“Um Pé no Mato – Um Pé no Rock”, seu primeiro DVD/ CD, foi gravado ao vivo no Teatro do SESC Pompeia, em São Paulo, e lançado em 2006. Em comemoração aos seus mais de 30 anos de carreira, lançou pela Sol do Meio Dia/ Unimar Music, em 2010, o DVD/ CD – “Cidadão trinta e poucos anos”, gravado ao vivo no Auditório Ibirapuera, em São Paulo, com participações de artistas como Geraldo Azevedo, Chico Teixeira, Landau, Shangai e sua filha, Nô Stopa.

Em 2016, Zé Geraldo gravou o DVD ao vivo “Canções e Versos” (Sol do Meio Dia/ Tratore) ao lado do violeiro Francis Rosa. Em 2019, seu mais recente trabalho, “Hey Zé!” (Sol do Meio Dia/ Kuarup), conta com as participações de Chico Teixeira, João Carteiro e Banda Mirim.

Zé Geraldo já se apresentou algumas vezes nos Estados Unidos e Canadá, onde foi bem recebido por brasileiros e latinos. No Brasil, seus versos são cantados em uníssono por seu público, que acompanha seus shows em Teatros, Feiras, Exposições e Ginásios. Como diria seu amigo, o cantor e compositor Guarabyra:

“A sua voz ecoa nos rodeios e nas universidades fazendo sonhar, fazendo sorrir e dançar. Sem preconceito… É o inacreditável mundo de Zé Geraldo. Um brasileiro e tanto”.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Zé Geraldo para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 22.09.2021:

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Zé Geraldo: Nasci no dia 9 de dezembro de 1944 em Rodeiro – MG. Registrado como José Geraldo Juste e fui criado em Governador Valadares – MG.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Zé Geraldo: Quando eu era criança em Rodeiro – MG, meus tios, irmãos de minha mãe, quando voltavam da roça à tarde na fazenda do meu avô, sentavam embaixo do grande alpendre, pegavam a viola e tocavam as músicas simples do interior. Esse foi o primeiro contato que eu tive com a música. Depois escutando as músicas através dos alto-falantes da difusora e nos rádios.

03) RM: Qual sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical?

Zé Geraldo: Minha formação musical é autodidata e minha formação escolar é superior incompleto em Administração de Empresas, faltou um ano para concluir o curso. Na época eu trabalhava como gerente na área de Recursos Humanos e tinham muitos cursos de aperfeiçoamento na empresa, depois me envolvi profissionalmente com a música, por isso faltava às aulas na Faculdade.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente? Quais deixaram de ter importância?

Zé Geraldo: As minhas primeiras influências foram as músicas simples do interior. A música caipira personificada na figura do Tião Carreiro. Nessa época eu queria ser igual ao Tião. Depois fui tendo contato com outras formas de músicas e cantei em Conjunto de Baile de 1969 a 1978. Na época dos bailes cantei muito Rock, Blues que se somaram às músicas simples do interior que eu já cantava. As obras de Tião Carreiro e Bob Dylan fazem parte do que mais me influenciou com destaque para Dylan que ajudou a formatar o meu estilo musical e depois adaptei para meu jeito criando a minha personalidade musical. O Raul Seixas, me influenciou mais por sua postura pessoal e artística com muita atitude rock. Ele já misturava a música do mato com o rock, eu não fui o pioneiro em fazer essa mistura. A influência que deixou de ser marcante foi a do Roberto Carlos, teve um período que eu me espelhava no Roberto na forma de interpretar com o coração e sentimento. Aos poucos fui me afastando desse estilo de interpretar a canção e o seu próprio repertório se afastou de mim. Aprendi com ele como usar o sentimento ao cantar.

05) RM: Quando, como e onde você começou sua carreira musical?

Zé Geraldo: Em 1964 quando eu tinha 20 anos de idade sofri um acidente automobilístico, eu já estava morando em Santos – SP, tinha o sonho de ser jogador de futebol. Um amigo trouxe um violão e aprendi os primeiros acordes com ele. Eu já tinha um caderno com poemas da época de adolescência para as namoradas e outros temas, mas sem a pretensão de ser um artista. Mas percebi que com aqueles primeiros acordes já tinha como criar melodia para meus poemas. Em Santos eu tinha um tio que era influente, ele era diretor do Banco Nacional e foi vice presidente do Santos Futebol Clube, era um parente distante do meu pai. Quando um jovem nessa época começava a compor quem estava ao redor: tios, mãe, pai, irmãos, namorada, amigos achavam que tinha nascido um novo gênio. Esse meu tio influente arrumou, através de amigos, para eu gravar três compactos. O primeiro em 1967 com as músicas: “A garota do show” / “A bela e a fera” pela Rozenblit e com o nome artístico de ZeGê. Mas esses três compactos ainda não tinham nenhuma significância e não era o que eu queria fazer. Em 1969, eu morei em São Paulo com o pessoal do grupo vocal The Snacks (Edson Trindade, Altair e Fernando) e o Tim Maia tinha voltado do EUA, ficou um tempo morando no apartamento com a gente e me aconselhou ir cantar em conjunto de baile para eu melhorar meu cantar, eu era muito primário na época. Eu acatei a sugestão e cantei nos bailes por quase 10 anos que me ajudou a chegar no tipo de música que eu queria fazer e que me agradava. Eu fui melhorando minhas músicas na letra e melodia e em 1975 comecei a participar de Festivais de música. Nessa época eu estava bem empregado, trabalhava de segunda a sexta e nos finais de semana participava de festivais. Eu chegava nas cidades do interior de Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, etc., para participar dos festivais, mas ninguém me conhecia e fui melhorando a minha auto confiança em palco. Eu apresentava a música e o público começava a torcer por mim. Esse fato mexeu com a minha cabeça, na segunda-feira quando eu colocava o terno para ir a empresa.

Em 1978, venci o festival de Ilha Solteira – SP, estava presente no júri o produtor Romeu Giosa da gravadora CBS, ele me levou em 1979 para gravar o meu primeiro disco “Terceiro Mundo” na CBS como Zé Geraldo. Larguei o trabalho na empresa e passei a me dedicar exclusivamente à carreira musical. Nesse álbum a música “Cidadão” (Lúcio Barbosa) foi o meu primeiro grande sucesso. Essa música ficou em segundo lugar no Festival de Ilha Solteira em 1978. Eu e Lúcio Barbosa ficamos amigos, mostramos músicas um para o outro e eu gostei especialmente da música “Cidadão”. Eu nunca tive um auge na minha carreira, mas nos anos 80 minhas músicas começaram tocar nas rádios após o grande sucesso que foi “Cidadão” e na sequência “Senhorita”, entre outras. Zé Ramalho gravou a música “Cidadão” nos anos 90 por oportunismo pelo sucesso da música na minha gravação em 1979.

06) RM: Quantos CDs lançados?

Zé Geraldo: “Hey Zé!” pela Kuarup Discos (2019). “Cidadão 30 e Poucos Anos (Ao Vivo)” pela Sol do Meio Dia (também em DVD em 2011). “Catadô de Bromélias” pela Sol do Meio Dia (2008). “Um Pé no Mato, um Pé no Rock (Ao Vivo)” pela Sol do Meio Dia (também em DVD em 2006). “Tô Zerado” pela Sony (2002). “O Novo Amanhece” (com Renato Teixeira, Nô Stopa, Chico Teixeira) – (Ao Vivo) pela Kuarup (2000). “No Meio da Área” pela Paradoxx (1998). “Acústico (Ao Vivo)” pela Paradoxx (1996). “Aprendendo a Viver” pela Eldorado (1994). “Ninho de Sonhos” pela Eldorado (1990). “Viagens & Versos” pela Eldorado (1989). “Poeira e Canto (Ao Vivo)” pela Vaqueiros Urbanos / Eldorado (1988). “No Arco da Porta de Um Dia” pela Arca / Vaqueiros Urbanos / Eldorado (1986). “Sol Girassol” pela Copacabana (1984). “Caminhos de Minas” – Copacabana (1983). “Zé Geraldo” pela CBS (1981). “Estradas” pela CBS (1980). “Terceiro Mundo” pela CBS (1979). Três compactos simples: Em 1970 “Zegê e The Silver Jets” pela Rozenblit. Em 1968 “Eu tenho o maior amor do mundo” / “Minha esperança é você” pela Rozenblit. Em 1967 “A garota do show” / “A bela e a fera” pela Rozenblit.

Participações nos álbuns: Rita de Cassia – LP – “Iluminas Gerais” (1982). LP do Durval Souto (1984). Jhonny & Jadson, CD – Mutuos e Fatos (1994). “Grupo Mina das Minas” – CD – Bacupari (1997). “MST Arte Em Movimento” (1998).Juraildes da Cruz“Lugar Seguro” (1998). Carlos Madia – “Idade Ideal” (1999). “O Novo Amanhece” com Nô Stopa, Zé Geraldo, Renato e Chico Teixeira (2000). Marcio de CamiloCD Telepaticamente (2001). Luiz Vicentini“Um Dia A Gente Se Vê” (2001). Augusto RamaciottiDas Raízes Vegetais (2001). Dallas Country – como Diria Dylan (2002). Edimilson DuarteBlues do Estudante (2002). Cantorias e Cantores 3 (2003). Cesar DiCD – Ebulição de Ideias. S.O.S. (2007). Luiz VicentiniSerra da Cantareira (2017). Francis Rosa – CD – Cantos e Versos, várias canções (2018). Wilson Aragão – Cuide Bem da sua Estrada (2018). Valdir Cechinel Filho – CD Pedaço de Mim: Meu Sucesso e Enquanto a Cidade Dorme (2018).

 

Músicas que se destacaram: “Cidadão” (Lúcio Barbosa), “Mistérios” (Zé Geraldo / Mário Marcos) e as exclusivamente de minha autoria: “Senhorita”, “Como diria Dylan”, “Estradas”, “Reciclagem”, “Milho aos pombos”, “Ovelha perdida”, “Olhos mansos”, “São Sebastião do Rodeio”, “Soldado Um”, “Terceiro Mundo”, “O Profeta”, “Corpo carente”, “Dona”, “Descarrilho”, “Lírico-romântico-poeta”, “Maria Bonita”, “Ouro em pó”, “Promessas de um idiota às seis da manhã”, “Rio Doce”, “Sol do meio-dia”, entre outras.

07) RM: Como é seu processo de compor?

Zé Geraldo: Não tenho um processo definido para criar música. Eu caminhando, começo a cantar um verso, vou amadurecendo. Depois passo para o papel e pego o violão para desenvolver. Quando estou calado, a minha esposa Mônica pergunta se estou compondo. Eu tenho amigos que escrevem e fazem melodia com frequência, eu não sou compositor profissional que faz músicas para enviar para outros artistas. Eu admiro quem é e gostaria de ser. Eu tive um período que eu fazia músicas para outros artistas, mas eles me diziam que eu tinha que gravá-las por serem muito meu jeito pessoal. Isso me marcou muito e passei a não mandar mais músicas para outros artistas. Minhas músicas foram gravadas por poucos artistas. A música que faço é a minha história, a minha vida. Eu já criei melodia para os poemas de Tavares Dias. Quando eu gosto do poema eu crio a melodia.

08) RM: Quais são seus principais parceiros de composição?

Zé Geraldo: Eu tenho poucos parceiros musicais: Mário Marcos (irmão do Antonio Marcos), Tavares Dias, Zeca Baleiro, Francis Rosa (que fizemos um disco “O Poeta e o Violeiro”, que se não fosse a pandemia do Covid-19, já tínhamos lançado, é um disco muito bonito, acredito muito nesse disco por ser muito pé no chão, tem muita coisa do mato, ele é um irmão que a música me deu), Max Gasperazzo, Marcão Lima, Sérgio Seidel, Cacá Blaise, Aroldo Santarosa, Paulo Neto, Lourinaldo Vitorino, Fernando Filizola, Carlos Guerson, Fernando Melo, entre outros. Eu não fecho a porta, mas não fico correndo atrás, eu tenho um jeito muito pessoal de fazer música. Fazer música com outra pessoa é igual a namoro tem que acontecer naturalmente sem forçar a barra.

09) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical dentro de uma gravadora e depois de forma independente?

Zé Geraldo: No passado as gravadoras tinham um papel muito importante para a carreira de artista. Era muito difícil ser contratado por uma gravadora para gravar um disco e se manter gravando na mesma. Dependia sempre do sucesso do disco anterior. Gravar de forma independente nessa época, eram muito altos os custos de gravação, prensagem e distribuição do disco, poucos artistas conseguiram gravar por conta própria. A partir de 1986, após lançar meu quinto álbum, me tornei independente, pois os produtores da gravadora começaram a dar palpites sobre as minhas músicas, dizer que minhas letras eram isso e aquilo e a querer mexer na minha obra. Eu comprava um carro e quando chegava na hora de gravar minhas músicas eu vendia para pagar as produções independentes. Eu comprava outro carro a prestação e comecei a minha caminhada fora de uma gravadora. Nos anos 80 e 90 as gravadoras ainda eram importantes, se eu tivesse ficado em uma gravadora por mais uma década talvez tivesse alavancado mais minha carreira. Mas eu preferi correr o risco a ter que deturpar meus versos, eu sei o que estou cantando, aceito sugestões, críticas, mas modificar minha forma de fazer música, querendo que eu cante de um jeito ou de outro, fez com que eu me afastasse de vínculo com gravadora. Hoje a gravadora não tem um papel tão preponderante como no passado áureo da indústria fonográfica. Hoje temos outras mídias para divulgar nosso trabalho musical e no passado era exclusivamente a grande mídia que estava a serviço das gravadoras. Hoje você pode gravar música em casa seja em home estúdio ou com seu celular e consegue uma qualidade audível. Hoje a gravadora auxilia uma carreira, mas não é tão importante como no passado.

10) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

Zé Geraldo: Eu tenho uma equipe pequena (músicos, minhas filhas, meu produtor), mas que já está comigo há muitos anos e junto com todos eu monto minha estratégia de carreira, eu dou a palavra final, mas acato muitas sugestões deles. Todos já me conhecem por estarmos juntos há muitos anos. Minha postura e segurança no palco aprendi cantando nos conjuntos de bailes, nos festivais de música ganhei mais autoconfiança para cantar os meus versos. Fui achando a minha maneira singular. No início da carreira eu era muito tímido no palco, a timidez é amiga da insegurança. No começo eu cantava com o microfone baixo e ficava com uma postura curva do corpo, fui alertado por minhas irmãs e meu empresário e fui melhorando minha postura. Minha equipe me ajuda fora e dentro do palco. O meu produtor Célio Silva cuida da agenda de shows, do translado, hospedagem e montagem do palco.

11) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira?

Zé Geraldo: A internet é uma faca de dois gumes, ela ajuda divulgar o artista, mas hoje todo mundo é artista e todo mundo faz música. Mas o artista já conhecido através da internet tem a oportunidade chegar até seu público sem depender de rádios e de pagar o jabá para tocar suas músicas e fazer divulgações de show. Eu nunca paguei jabá, pois nunca tive condições financeiras e nenhuma gravadora em que estive quis pagar o jabá para minhas músicas tocarem nas rádios. Elas pagavam para outros artistas e esse fato foi um dos motivos que me fez sair de gravadora. O lado negativo das redes sociais é que algumas pessoas se sentem no direito de acessar o perfil do artista e o atacar. Eu uso as redes sociais exclusivamente para divulgar meu trabalho musical. Digo em um verso meu que: “Eu não dou ibope a boçal / Eu não bato boca em rede social / Para não dar ibope a boçal / Eu não sou a Eletropaulo para dá luz a quem não tem”. Hoje a internet não me prejudica depois de tantas cacetadas que levei aprendi a usá-la.

12) RM: O que o deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Zé Geraldo: Mais feliz é escutar os meus versos sendo cantados em todo lugar que eu chego. É um presente de Deus que eu agradeço. O que me deixa triste na carreira musical é o poder do capital que influencia a música brasileira. O artista que tem dinheiro para pagar, toca nas rádios e aparece na grande mídia e influencia a cultura do país. A música sertaneja que foi imposta pelo poder do dinheiro não tem nada de música sertaneja. Qualquer tipo de música que pagar o jabá para estar na grande mídia fará sucesso. Não me afeta, mas falo pela cultura musical nacional. Todo mundo acha que Zezé Di Camargo é o maior compositor brasileiro, mesmo com todo o respeito que eu tenho por ele. Cito ele, para citar apenas um, não tenho nada contra ele. Esse fato deturpou a música brasileira, já que a música brasileira de qualidade fica escondida. Hoje nas rádios o que tem são pastores pedindo dinheiro e o “breganejo” tocando em toda a programação musical.

13) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Zé Geraldo: Seja sincero com o próprio coração e que tenha força de acordar todos os dias e arregaçar as mangas para matar uns quatro leões por dia.

14) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo, mas a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que um artista que está começando deve fazer para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Zé Geraldo: Para o artista se diferenciar no seu nicho precisa ter autenticidade e desenvolver a música que lhe agrade. Tem artista que grava todos os tipos de músicas. Eu já não tenho esse dom, essa facilidade. Hoje ficou muito fácil gravar música. O artista tem que se dedicar todos os dias ao que gosta de fazer para desenvolver sua carreira. Hoje a concorrência ficou muito grande no mercado musical, muitos artistas desconhecidos divulgam músicas novas todos os dias na internet. Teoricamente toda quantidade pode gerar qualidade, a esperança é que essa quantidade de músicas criadas também seja de boa qualidade.

15) RM: Como você analisa o cenário da Música Popular Brasileira? Em sua opinião quais foram as revelações musicais nas últimas décadas, quais permaneceram com obras consistentes e quais regrediram?

Zé Geraldo: Até a minha geração musical a música popular brasileira foi muito fértil e criativa. Depois da minha geração, eu até sou meio suspeito em falar, pois muitos são meus amigos, a exemplo Zeca Baleiro, Chico César, Lenine, que é quase da minha geração. Tem a geração da minha Nô Stopa, Chico Teixeira, Bhezão, Tuia Lencioni, Francis Rosa, entre outros. Não me sinto confortável de citar quem regrediu.

16) RM: Como você analisa a cobertura feita pela grande mídia da cena musical brasileira?

Zé Geraldo: A cobertura feita pela grande mídia da cena musical brasileira está devendo. Não temos um Festival de Música na televisão faz muitos anos. Raros os programas em televisão que o foco é a música popular brasileira. Não sei se esse fato se deve ao dinheiro. Eu não corro mais atrás de aparecer na grande mídia. Outro dia uma pessoa falou que minhas músicas não tocam nas rádios por terem duração de mais de três minutos. Eu não faço música pensando se as rádios vão tocar, mas para me agradar. Eu não tenho mais saco para correr atrás de aparecer em programas de televisão, eu preciso e muito de aparecer, mas prefiro ir para o mato e ir para o interior rever meus amigos. Não tenho mais ilusão de aparecer na televisão e em programas de rádios. Hoje eu gosto mais de me apresentar em shows.

17) RM: Qual a sua opinião sobre o espaço aberto pelo SESC, SESI e Itaú Cultural para cena musical?

Zé Geraldo: Esses espaços citados e outros com a mesma filosofia são importantes e chegam a serem vitais para a música brasileira. No período de pandemia do Covid-19 sem shows, se tivessem apresentação no período de quatro a cinco meses nos SESCs quebraria um galho. Acho que outras empresas poderiam seguir o mesmo exemplo.

18) RM: Qual sua relação pessoal e profissional com sua filha Nô Stopa?

Zé Geraldo: A minha relação com a minha filha Nô Stopa (Aniela Stopa Juste) é de muito amor. Ela batalhou muito para entrar na USP – Universidade de São Paulo – no bacharelado em Esporte, após tirarem algumas disciplinas do curso ela falou pra me que tinha trancado a matricula no curso e que iria estudar Música. Eu a apoiei sair do curso de Esporte e recebi críticas de alguns amigos por ter a incentivado entrar na área musical. Mas eu sabia do seu talento musical, por isso, temos uma relação de muito amor, de apoio, de cumplicidade, amizade. Estamos juntos e misturados.

19) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)?

Zé Geraldo: O home estúdio proporciona independência criativa e a necessidade de o músico fazer e aprender a usar a tecnologia ao seu favor. Eu mesmo, durante a pandemia do Covid-19, tive que aprender a usar equipamentos para fazer apresentações em lives. Eu e Francis Rosa usamos o serviço de home estúdio do Juninho em Joanópolis – SP, gravamos sem pressão do tempo e do jeito que queríamos. Acho fundamental a tecnologia de home estúdio estar ao alcance de todos.

20) RM: Qual foi o impacto pessoal e profissional da pandemia do Covid-19?

Zé Geraldo: Impactou principalmente no aspecto financeiro, eu sempre tive uma agenda de shows para todo o ano, graças a Deus, sempre trabalhei bem. Tive que cancelar todos. Os primeiros meses da pandemia do Covid-19 passei a dormir mal, me alimentar mal, aumentou o consumo de álcool. Eu fui obrigado a me adaptar a essa nova realidade. Eu achava que não iria fazer música, mas trancado dentro de casa comecei a escrever e já tenho algumas músicas prontas e outras já gravadas para serem lançadas em momento oportuno. Afetou muito a cabeça e foi angustiante para todo mundo, mas hoje já estou na expectativa de voltar a trabalhar, já tenho alguns shows marcados e já tomei a segunda dose da vacina. Mas continuo me cuidando, pois não sabemos o quanto estamos protegidos. Nesse período me especializei na cozinha, pois assumi a cozinha da casa, e cozinhei no período da pandemia. Minha companheira Mônica trabalha home office e faço a comida.

21) RM: Como você analisa a postura do governo federal (Jair Bolsonaro) para enfrentar a pandemia do Covid-19?

Zé Geraldo: A atuação do governo federal (Bolsonaro) está sendo a pior possível. No início da pandemia do Covid-19, ele ficou negando, chamando de gripezinha. Não é uma postura esperada de um líder, independente de ideologia, ele tinha que assumir a guerra desde o início.

22) RM: Como você analisa a postura presidente Bolsonaro em apoiar seus eleitores que pedem uma intervenção militar?

Zé Geraldo: É devaneio, uma loucura, um pesadelo, mas eu acredito que não vai acontecer uma nova ditadura militar. Os militares não vão embarcar em uma proposta dessa.

23) RM: Qual é o seu conceito de improvisação musical?

Zé Geraldo: Não sou um grande músico, e nunca tive essa pretensão. O Tim Maia me dizia que para ser um grande músico, tem que estudar igual a um médico, engenheiro, advogado, etc. Eu sou o músico menos indicado para falar sobre improviso, eu sempre estive do lado de grandes músicos, as bandas que me acompanharam sempre foram formadas por excelentes músicos. Eu gosto de ver talentosos músicos improvisando.

24) RM: Existe improvisação musical de fato, ou é algo estudado antes e aplicado depois?

Zé Geraldo: Improvisação é um dom e um desafio. Já aconteceu de eu dar uma canja e tocar com músicos que eu nunca tinha tocado antes. O som acontece e é muito legal. A improvisação é uma arte.

25) RM: Existe o dom musical? Como você define o dom musical?

Zé Geraldo: Existe. O meu neto que tem 12 anos de idade, qualquer instrumento que ele pega ele tem uma noção que é impressionante pela idade e nível de estudo que ele tem até o momento. O dom existe e quem tem basta praticar através de técnicas para desenvolver o dom. Eu tive que cantar em conjunto de bailes para aprender mais. Já hoje, pela internet, a criança tem aulas de todos os instrumentos e teoria musical que quiser. O dom é nato, depois é estudar.

26) RM: O público do Belchior, do Raul Seixas, Zé Orlando estão também no seu show?

Zé Geraldo: Sim. Muitos artistas herdaram uma boa fatia do público do Raul Seixas. O Belchior foi um grande amigo que tive, nos encontrávamos em casa, íamos aos shows um do outro. Tenho uma saudade grande do Belchior. No meio artístico o Zé Rodrix foi quem mais me incentivou a fazer o tipo de música que faço. Toda a oportunidade que nos encontrávamos, ele me elogiava, dizia que eu estava fazendo o rock rural, foi muito bondoso, generoso comigo, foi muito importante para a minha autoconfiança. É uma pena que não estejam mais conosco. O Raul temos que tirar o chapéu, pois foi o artista brasileiro de minha geração que chegou no coração do povo com mais força, fidelidade. Ele foi o maior de todos de minha geração.

27) RM: O que é verdade e lenda sobre Belchior?

Zé Geraldo: Belchior é o maior poeta da música popular brasileira, deixou músicas que serão eternas.

28) RM: Com o seu convívio com o Belchior você identificou algum desvio de caráter?

Zé Geraldo: Não, eu nunca tive a percepção de um desvio de caráter do Belchior. Foi uma surpresa quando noticiado alguns episódios sobre sua vida pessoal e profissional. Ele era uma pessoa carinhosa com todo mundo.

29) RM: Nos anos 80 você pensou em encerrar a sua carreira musical?

Zé Geraldo: No meio dos anos 80 eu fazia sucesso, mas era uma pessoa amarga, quase entrando em depressão, as rádios pararam de tocar minhas músicas. As gravadoras começaram a pagar o jabá para as rádios tocarem músicas de alguns artistas e eu ia ficando de lado. Foi um período muito difícil e triste, eu pensei em encerrar a carreira. Em 1985 eu fiz um show no SESC Pompeia em São Paulo e a fila dava volta no quarteirão. Eu identifiquei que boa parte do público também era fã do Raul Seixas, foi um divisor de águas na minha carreira. Eu percebi o quanto eu era querido, saber disso salvou a minha vida. Eu estava a poucos passos da depressão, bebia muito, perdi o controle da minha vida profissional, o que prejudicou muito minha carreira nesse período. Ao perceber o quanto eu era querido pelo público, passei a me vestir melhor para subir ao palco, fazia a barba. Eu agradeço muito e foi a maior riqueza que eu pude ganhar na carreira musical, foi esse público maravilhoso que me acompanha e que canta minhas músicas como se fosse composta por ele. Eu gosto de relatar esse fato e agradecer, pois esse show salvou a minha vida, a minha família, a minha saúde, os meus amigos, a minha carreira.

30) RM: Qual a sua relação com os novos talentos do seu nicho musical?

Zé Geraldo: Eu sou muito sincero no meu contato pessoal e profissional. O Francis Rosa não pediu para eu apadrinhar a carreira dele. As parcerias musicais têm que ser de forma natural. Tem muitos amigos de minha filha Nô Stopa que ficam enciumados por acharem que dou mais atenção para uns e menos para outros. Às vezes a pessoa pode ser gente boa, mas a música que faz não me toca e outras vezes a música me toca, mas a pessoa é uma chata. Nenhuma pessoa me pediu para ser apadrinhada. Eu para apadrinhar alguém tem que ser de forma natural. Eu tenho uma filha talentosa e faço para pessoas talentosas, o que eu gostaria que fizessem para ela. Eu não cobro para participar de uma gravação de um trabalho de outro artista, mas eu tenho que gostar da música que vou gravar. O artista que me convida não pode ficar chateado comigo por eu não ter gostado da música que ele faz. Eu já perdi amizade por conta da minha franqueza. Nesses meus anos de carreira é possível ter chateado algumas pessoas por não ter participado de gravações nas quais as músicas não me agradaram. Mas eu não tenho lembrança de alguém ter ficado magoado comigo por esse motivo.

31) RM: Quais os seus projetos futuros?

Zé Geraldo: Estou esperando voltar à normalidade e voltar para a estrada e lançar minhas novas músicas. E seguir minha caminhada.

32) RM: Quais os seus contatos?

Zé Geraldo: www.zegeraldo.com.br | https://linktr.ee/Zegeraldo

| https://www.letras.mus.br/ze-geraldo/discografia

| www.instagram.com/zegeraldooficial |www.facebook.com/oficialzegeraldo

| Canal: https://www.youtube.com/c/ZeGeralOficial

“A Garota do show” – Zegê (1967): https://www.youtube.com/watch?v=XAopiubR7fk

“A bela e a fera” – Zegê (1967): https://www.youtube.com/watch?v=XAopiubR7fk

“Cidadão” (Lúcio Barbosa) – Zé Geraldo (1979): https://www.youtube.com/watch?v=waG66qe2KsM

Colibri na Quarentena – 13.07.2020 – Zé Geraldo e sua filha Nô Stopa: https://www.youtube.com/watch?v=GuBCfTVZq_Y

Histórica: primeira entrevista da RitmoMelodia foi com Zé Geraldo em 24.07.2001:

Conheci Zé Geraldo pela primeira vez com a obrigação prazerosa de entrevistá-lo. Era uma terça-feira, no início da noite de 24.07.2001, tipicamente paulistana- fria, chuvosa e no corre, corre da metrópole. Foram quatro conduções: duas para ir e duas para voltar. Cheguei às dezenove horas no escritório que fica na Vila Madalena, bairro conhecido pela sua movimentação cultural. Ao chegar fui recebido pela simpática e atenciosa produtora Márcia Gonçalves que fez a ponte necessária para meu contato com o Zé Geraldo. Ele chegou minutos depois.

Eu não tinha conhecimento da obra de Zé Geraldo de audição, li sempre sobre o trabalho dele e conheci a sua gravação mais popular: “Cidadão” (Lúcio Barbosa) pela voz de outro Zé, o Ramalho, que escuto desde criança. Pesquisei as fontes que pudessem me dar condições de entrevistá-lo a contento. Viajei literalmente no site oficial do cantor, que é muito organizado e criativo.

Mas minha entrevista foi pautada para pessoas interessadas em conhecer um músico comprometido com a arte dos sons, das palavras e das melodias, algo que está esquecido por muitos aventureiros musicais. O Zé Geraldo chegou e depois de um cumprimento formal e sem delongas entrei na arena com o “Gladiador dos versos”.

A cada pergunta uma resposta breve e sincera. Sem me olhar nos olhos, mesmo estando um de frente para o outro. Ele despojado nas vestes e nas palavras sem um discurso elaborado, mas com uma tranquilidade impávida e uma desconfiança de “homem do mato”, respondendo como quem fala para os próprios ouvidos debaixo de um carvalho mineiro sem a preocupação se quem escutava gostava ou concordava, mas convicto dos seus pensamentos. A voz grave, pausada e as palavras daquele homem silencioso ficaram gravadas na minha mente e alma.

Homem que ao passar dos cinquenta anos, com sua experiência de vida e profissional não se surpreende nem se assusta com nada e não acredita em verdade absoluta nem em caminhos fáceis. A entrevista foi breve e o privilégio foi grande. No meio da entrevista a desconfiança inicial dava lugar a um breve ensaio de intimidade.

Ele perguntou sobre a minha cidade de origem (Campina Grande – PB), comentou que gostaria de fazer um show e conhecer essa cidade do interior da Paraíba, popular pela festa junina. Eu perguntei do novo Projeto Musical que seria o Lançamento do novo CD: TÔ ZERADO em 2002. Eu queria saber como ele não estando na mídia nacional conseguia levar um bom público para seus shows, quebrando o mito que música de boa qualidade não é prestigiada pelo povo.

Saí mais convencido do que nunca que Zé Geraldo canta para esse povo que pega quatro ou mais conduções e que constrói o país sem poder nele entrar. Na despedida, mais calorosa e contida de Zé Geraldo, sabendo que cumpri mais uma rotina do ofício de entrevistador, com o dever cumprido, a serviço da arte musical e com a certeza que existem a música boa e a ruim.

01) RM: Quais as dificuldades que você enfrentou para encontrar seu nicho musical e seu público?

Zé Geraldo: Foram as circunstâncias da estrada com passagem por diversas gravadoras, mais as dificuldades que tive no início de carreira para me posicionar no meio artístico. Eu não era roqueiro, não era do mato, nem era MPB. A gravadora que iniciei me vendia como cantor de vanguarda. Eu dizia que não era, que era um cantor popular. Eu fiquei nesse conflito até a década de oitenta, quando as portas começaram a se fechar e eu caí na estrada, porque sabia que dava para desenvolver meu trabalho longe dos grandes esquemas. Mas isso me custou muito caro. Mas o pior eu já passei, atravessei um grande deserto, mas sempre trabalhando, sempre lutando. E hoje eu olho para trás e fico feliz de ter chegado aqui inteiro como cheguei. Com meus versos com toda sua integridade, não abri mão de uma vírgula das minhas convicções. Isso me custou caro. Mas hoje minhas duas filhas me olham com orgulho, sabem os caminhos que passei.

Olho para o meu passado e vejo que tenho motivos para ficar feliz e confiante no que eu vou caminhar ainda. Mas serve para outras pessoas terem a informação e a certeza que dá para construir uma carreira longe dos holofotes da mídia. Pode custar caro, há muito sofrimento, mas a vida do artista é assim mesmo. Eu felizmente consegui chegar aqui inteiro, com minha música e feliz.

02) RM: A média de idade do seu público é na maioria acima dos trinta anos ou há a presença de muitos adolescentes que se aproximam do seu trabalho?

Zé Geraldo: Pelo contrário, nos meus shows há a presença de muitos jovens que, no início, eram trazidos pelos pais ou que hoje acompanham meu trabalho. Hoje a grande maioria do público é dessa galera que curte outros estilos, mas que valoriza o som autêntico.

03) RM: Como você vê o espaço dado pelos meios de comunicação de grande audiência às pessoas ou grupos que pouco ou nada acrescentam para a música brasileira?

Zé Geraldo: No passado eu ficava sem entender, ficava angustiado. Não conhecia o esquema das gravadoras que pagam a esses programas para ver divulgarem seus lançamentos e popularizarem o produto. E é aquela coisa, quem tem dinheiro pode e manda mesmo. Hoje acho normal. A televisão vive em função de servir os interesses das gravadoras. Mas isso passa e o que fica mesmo é aquilo que tem qualidade. Eu faço dois ou três programas de televisão por ano e não é em televisão de destaque e continuo lotando meus shows.

04) RM: Na sua opinião quem nos anos 90 se destacou e marcou com um trabalho musical consistente?

Zé Geraldo: A MPB teve muitos destaques nos últimos dez anos. Mas a maior perda foi a do Renato Russo e do Cazuza. Eles foram pura originalidade e destaques maiores que apareceram. Foram muito importantes para nossa música. Apareceram grandes cantoras como Adriana Calcanhoto, Marisa Monte e a cantora e compositora Cássia Eller. Apareceram também o Zeca Baleiro, Chico César e muitos outros. O Brasil tem muitos talentos, mas o Renato e o Cazuza foram os poetas modernos da música brasileira. Marcaram com suas obras e foram uma grande perda para a música brasileira.

05) RM: Como você vê a situação do artista que tem um trabalho semelhante ao seu e que não atinge o mesmo êxito nem o reconhecimento?

Zé Geraldo: Os novos artistas não devem desistir com os obstáculos de fazer música autêntica e regional. A vida de músico não é fácil. Eu, quando iniciei minha carreira, cantava em campo de futebol, feira e em frente de igreja. Levava meus músicos no meu carro e saia pelo mundo divulgando meu trabalho e hoje tenho que buscar os espaços para não perder o que já consegui. A verdade é que os cantores que tem um trabalho sério e criativo vão chegar ao que almejam, basta ter talento.

06) RM: Qual a semelhança da sua música com a de cantores como Belchior, Zé Ramalho, Tríade de Cantadores: Xangai, Elomar e Vital Farias?

Zé Geraldo: O que me aproxima desses cantores e cantadores é o mato. Viemos do interior, eu de Minas Gerais e eles do Nordeste. Isso aproxima nosso trabalho, mas como tenho um pé no Rock e outro na música regional, faz o meu trabalho tomar outro rumo. Eu sempre tive essas duas influências musicais. E outro ponto que faz nossos trabalhos ficarem semelhantes é o fato de as nossas músicas falarem do povo para o povo.

07) RM: Zé Geraldo, qual o novo projeto musical e qual a sua música mais popular?

Zé Geraldo: Sem dúvida a música mais popular é “Cidadão” (Lúcio Barbosa), pelo fato de outros cantores terem gravado e pela mensagem que traz. “Senhorita” é outra muito popular, mas com o tempo outras músicas vão ficando na cabeça das pessoas e se tornando populares. O projeto novo é o CD – “Tô Zerado”, que terá músicas inéditas minhas e de parceiros. Esse CD é uma ironia bem humorada pelo fato de estar começando de “novo”. As pessoas questionam porque não apareço na TV, então resolvi fazer um CD que tivesse a marca de estar começando o início de carreira. Vou fazer alguns programas de TV, divulgar mais na mídia, mas o mais importante é que o trabalho traz a mesma fidelidade.

PS: Essa entrevista foi escrita usando a “memória”. Apertei o play do gravador na primeira resposta e depois apertei o pause e não apertei o play de novo nas respostas seguintes do Zé Geraldo. No metro fui escutar a gravação da entrevista e me dei conta que só uma resposta foi gravada. Estava com o bloco de nota que tinha escrito previamente as perguntas que faria para ele. E fui lembrando das respostas que ele deu em cada pergunta que não ficou registrada no gravador. No outro dia enviei para ele por e-mail as perguntas e respostas antes de publicar. Ele leu e aprovou a publicação.


Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor responsável pela revista digital RitmoMelodia desde 2001, jornalista, músico, poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, propaga a diversidade musical brasileira através de entrevistas e artigos. Jornalista formado pela Universidade Estadual da Paraíba - UEPB (1996 a 2000) que lançou um livro de poesia em 1998 e seus poemas ganharam melodias gravadas em três álbuns concluindo a trilogia "reggae baseado em poesia" no seu projeto musical Reggaebelde. Unindo a sensibilidade do poeta, músico com o senso crítico do jornalista e pesquisador musical colocado em prática em uma revista que Canta o Brasil.