Toninho Almeida

Toninho Almeida

Toninho Almeida desde jovem, é fascinado pela expressão artística. Aos 17 anos de idade (1977), desembarcou no Rio de Janeiro, onde o jovem sertanejo foi atingido pelo fermento cultural urbano.

Depois de sua passagem pelo Rio de Janeiro, chega a São Paulo, onde a decadência da ditadura anunciava a efervescência cultural, a liberdade e o despertar das consciências. Toninho entra na universidade para estudar sociologia e, sem perder a veia artística, publica uma coleção de poemas, se apresenta em saraus de poesia, teatro e música.

Depois decide viver em Salvador – BA e confirma a sua vocação para a música ao passar por um rigoroso aprendizado na Academia Música Atual. Em 1990, voa para a França. Vive em Paris e, depois Lille. De suas experiências resultaram várias turnês pela França, Europa e o Brasil, além da gravação de quatro álbuns: “Violeta 41”, “Mitade”, “Deu Forró no Samba”, “Intact”. Em 20 de junho de 2021 lançou o álbum “Desligado”, com música no ritmo de Bossa Nova e gravadas no formato Voz e Violão.

A música de Toninho não está particularmente ligada a um estilo, apesar de “Desligado” ser um álbum marcado pela Bossa Nova. Seus outros álbuns foram influenciados por vários ritmos, como samba, afro, funk, reggae e blues. Seu estilo pode ser definido como música popular brasileira. Para o músico, a poesia é sua terapia; o teatro, um meio de contato com um mundo novo e, o violão, antigo companheiro de viagem.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Toninho Almeida para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 20.06.2021:

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Toninho Almeida: Nasci no dia 11.05.1960, Euclides da Cunha – Bahia. Registrado como Antonio Roque de Almeida.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Toninho Almeida: Com 16 anos de idade, eu era menor aprendiz do Banco do Brasil e o colega Rubem me mostrou os primeiros acordes. Lembro ainda da música “Ela é uma boneca, que só diz não, não, não, não”! Vim saber bem mais tarde, já morando na França, que era uma versão brasileira, de uma música francesa. Achei incrível essa ligação com a França antes de mesmo imaginar de vir pra cá. Antes disso um amigo da família vinha de vez em quando tocar Violão em casa, quando ainda morava na fazenda. Tínhamos também um vizinho sanfoneiro-afinador de sanfonas, sem contar que gerava um Grupo de Baile. Quand ensaiavam, podíamos ouvir da fazenda e as vezes, sobretudo nos domingos à tarde íamos là para ver e ouvir os ensaios. Era incrível aquela modernidade de guitarras eletricas, baixos, teclados, sonorisação, enfim… vem daí uma boa parte da minha ligação com a música. E quando maior, nos bailes, sempre ficava alí pertinho do palco, olhando os músicos e babando.

03) RM: Qual a sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical?

Toninho Almeida: Academia Música Atual, em Salvador – BA, onde tive a chance de encontrar grandes músicos e professores baianos: Aderbal Duarte, Sergio Souto, Thomas Gretz, sem contar que a maioria dos outros professores tocavam com os artistas emergentes e no carnaval da Bahia. além disso uma grande efervescência na música afro-baiana na época – Olodum, Muzenza, Ilê Ayê, Armadinho e os trios elétricos. Antes de assumir a música como profissão, cursei Sociologia em São Paulo.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Toninho Almeida: Tantas… claro que vindo de Euclides da Cunha – BA, no meio do sertão, à menos de 100 km do Raso da Catarina, não poderia não ter sido influenciado pela música nordestina: Forró, Baião, Xote, Xaxado. Também vi muitos cantadores e repentistas nos dias de feira nos sábados. Tenho também lembranças de cantores famosos como Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Waldick Soriano, Jerry Adriani, Roberto Carlos e toda a Jovem Guarda. Mais tarde mudei para o Rio de Janeiro e aí foi o estrondo, a miscelânia total. A música clássica em casa, com meu irmão Nelson. O Teatro e a música urbana – Bossa Nova, Tropicalismo, Chico Buarque, Milton Nascimento, Djavan, Belchior, Ednardo, Reginaldo Sodré, Fagner, Zé Ramalho, etc e também os « malditos », já em São Paulo, durante os estudos : Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, Premeditando o Breque e mil outros, inclusive os que não saíram do anonimato.

05) RM: Quando, como e onde você começou a sua carreira musical?

Toninho Almeida: Na França. Na Bahia já compunha, mas não assumia a parte de intérprete. Inclusive no meu show de despedida, quando vim de Salvador para Paris, minhas músicas foram interpretadas por cantores e cantoras da Bahia e eu só tive coragem de subir no palco para cantar a música de abertura “Cilada” à capela, pois tinha medo de músico. Meu aprendizado musical, ainda que muito intenso e forte, não foi coletivo. Acho que o compositor ganhou mais que o músico na minha experiência na Escola de Música. Ensinei música muitos anos na Academia Musica Atual, mas como músico profissional veio com a experiência na Europa.

06) RM: Quantos CDs lançados?

Toninho Almeida: São cinco álbuns, todos com composições próprias : “Violeta41” com estilos diversos como reggae, funk, música eletrônica, samba e etc. Mitade, um album de canções com influências afro-brasileira, funk, reggae, bolero, samba e muito mais. “Deu Forro no Samba” é um retorno à infância que abrange a maioria dos ritmos nordestinos, compostas com diversos parceiros. “Intact”, é uma reunião de composições de várias épocas entre elas 3 compostas com amigos do Brasil e da Europa, a maioria no estilo samba, samba-reggae, afoxé. Desligado, o último, composto em 2019 foi uma pausa geral… uma reflexão sobre a vida, a correria e a falta de objetivo societal e mesmo individual. Foi um confinamento pessoal antes do coletivo, um retiro espiritual.

“Violeta41” (2001/2003) – Músicos: Stéphane Beaucourt, Mike Rajamahendra, Pierick Viard, Alexis Terain, Nicolas Engrand, Nourdine Bouali.

“Remix Violeta” (2002) – ElectroBrasil.

“Mitade” (2004) – Músicos: Stéphane Beaucourt, Mike Rajamahendra, Pierick Viard, Alexis Terain, Yann Denèque, Nourdine Bouali, Fred El pulpo, Coro – Ali Dyalo, Mark Arnold, Cécile Almeida.

“Deu Forró no Samba” (2013) – Músicos: Douglas Marcolino, Mehdi Bennadji, Roberto de Oliveira, Florence Vincenot / part.Alexandre Rodas Viola, Bizarro Angola Berimbau, Cecile Cuvelier coro, Simon Demouveau – guit.

Tourné “Slambolada” (2015), Repente e Embolada em francês e português (Escrito, ainda nao foi gravado)

“Intact” (2017) – Samba/Bossa Nova. Músicos: Mehdi Bennadji, Stéphane Beaucourt, Osman Martins, Roberto de Oliveira, Florence Vincenot / part percu Bizarro Angola, Nourdine Bouali; coro: Denise Marques, Lala Carvalho, Bodhigita part. Cécile Cuvelier, Manuel Lefevbre.

“Desligado” (2021) – Bossa Nova. Voz e Violão: Toninho Almeida.

07) RM: Como você define seu estilo musical?

Toninho Almeida: Não creio que eu possa ser definido em um estilo musical. Sempre fiz o caminho que o projeto me inspira. O primeiro, “Violeta41”, foi uma experimentação, como era o primeiro, coloquei tudo que pude dentro e o que menos me importava era o estilo musical. Diria mesmo que quanto mais diferentes as músicas umas das outras, melhor eu achava.

08) RM: Você estudou técnica vocal?

Toninho Almeida: Estudei um pouco de técnica vocal. Sei fazer exercícios para aquecer a voz e vocalizes. Sempre procuro fazer antes dos shows ou gravações, mas não faço tão religiosamente quanto deveria.

09) RM: Qual a importância do estudo de técnica vocal e cuidado com a voz?

Toninho Almeida: Com certeza importante, mas sobretudo para cantores ou cantoras “de verdade”. Eu me considero como um compositor que canta, então canto e sobretudo digo o que cada música quer dizer. Ser intérprete é vestir a roupa de um personagem e quando canto uma canção, tenho a impressão que estou nesse personagem, nessa canção. É uma história e quando contamos uma história só rola quando é vivenciado. Claro que posso cantar ou tocar uma música só como um técnico, mas isso vale quando mostramos acordes ou as notas de uma melodia, mas quando interpretamos, é outra história.

10) RM: Quais as cantoras (es) que você admira?

Toninho Almeida: Várias e vários e no mundo inteiro, mas por período. Gal Costa um certo tempo, Fernanda Abreu em um outro, Edith Piaf um certo dia, Nina Simone, Sarah Vaughan, impossível de lembrar de 1/100 de todas que amei e amo. João Gilberto, Gilberto Gil, Itamar Assumpção, Milton Nascimento, etc. Não especialmente grandes cantores, com vozes extraordinárias, muito mais a questão da mensagem ou do personagem: Bob Marley, Michael Jackson, Prince, Jimi Hendrix, etc.

11) RM: Como é o seu processo de compor?

Toninho Almeida: Já passei por vários métodos. No começo sempre vinha melodia e letra juntas. As vezes demorava muito, pois uma não ajudava muito a outra. Desde o CD – “Deu Forró no Samba” passei a escrever as letras de todas as músicas, como uma base de trabalho. Isso me permitiu de escrever discos de uma maneira mais concentrada. Uma inspiração perseguida e reunida em várias letras, que no fundo, na maioria das vezes só serviram de base, mas importantíssimo para guardar uma ligação entre todas as músicas do mesmo disco. Na verdade, as notas (inspiração), os famosos 5 por cento de inspiração que falava o maestro Tom Jobim que são os tijolos, mas para fazer uma casa são muitos processos, saberes, suor e repetições que aprimoram uma ideia de base e esses 95 por cento são os outros na fabricação da obra. No começo inclusive acontecia de pensar que a inspiração já era a música ou o poema e cadê o suor? As vezes sai coisas maravilhosas sem muito trabalho, mas na maioria dos casos o trabalho de procura, experimentação, tentativas e tentativas é que vai dar nessa coisa que quando chega, como uma criança, a gente sabe que é ela e nenhuma outra.

12) RM: Quais são seus principais parceiros de composição?

Toninho Almeida: Quase não tive parceiros nos primeiros discos. A primeira experiência de compor com parceiros veio com “Deu Forró no Samba”. Vontade de mudar, de procurar outros caminhos, tentar novas experiências e deu certo. Entraram nesse disco várias pessoas que fizeram não só as músicas comigo, como o disco. Roberto de Oliveira, Cearense, Douglas Marcolino, sanfoneiro de Alagoas, que fez a maioria dos arranjos e também compôs “Deu forro no Samba”, et why not ccomigo, Florence Vincenot que fez “Tá tudo aí” e “Xote das 4 notas”. Teve também Mehdi Bennadji em uma homenagem a Jackson do Pandeiro, com a música “Encontro”. No disco “Intact” já foi uma reunião de canções que estavam na gaveta, só não “Ral le bol” com Florence Vincenot e “Nu” que deveria ser composta com um guitarrista de Minas Gerais e depois não rolou, pois ele achou que a letra era muito complicada. E também duas canções vieram de parcerias da época em que morava na Bahia. “Abaeté” com Julio Miranda e “Ainda Feliz” com Ricardo Guima. Em compensação no disco “Desligado” são todas minhas, como nos dois primeiros discos. Estava de novo precisando voltar à toca, sozinho e reencontrar meus próprios caminhos. E a Bossa Nova nesse caso veio como uma evidência, pois a ideia de estar só, de sussurrar como se falasse a mim mesmo, mais que aos outros, me levou direto ao Violão e Voz et consequentemente à Bossa Nova.

13) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Toninho Almeida: Os prós são a liberdade de fazer o que bem entende e não ter que lançar um disco só porque está previsto, ainda que o artista não esteja feliz com o resultado. O ruim é que você perde muito tempo com outras coisas e termina passando mais tempo para lançar um álbum. Mas não sei se comigo aconteceria de outra maneira. Quem sabe? veremos!

14) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

Toninho Almeida: Hoje eu diria que o vento virou… de um lado as possibilidades são muitas, pois somos um pouco mais iguais diante da internet que não éramos no período das gravadoras. Hoje pode-se gravar um álbum de qualidade sem sair de casa. Agora para conseguir passar na teia de aranha que é o mundo digital/internet é uma outra história. E por isso os independentes precisam passar muito tempo nas redes sociais para conseguir ganhar uma parte do mercado. Agora o CD só se vende em show.

15) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira?

Toninho Almeida: Trabalho muito durante o período quando o novo álbum é lançado. Primeiro para criar expectativa da chegada e depois para continuar a colocar conteúdos nas redes sociais. Hoje não se pode passar nas redes sociais sem vídeo, então a produção do vídeo clip é um fato. Sem esquecer do contato com os meios de comunicação em geral, rádio, jornal, televisão, blog, enfim, jogar na rua.

16) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira?

Toninho Almeida: A internet só ajuda, mas tem que estar presente e entender como funciona cada rede social, para ter alguma resposta. Hoje o grande lance é o Buzz. Mas para fazer barulho, no meio desse barulho enorme tem que tentar construir estratégias e não largar a coisa enquanto o resultado não chegar.

17) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)?

Toninho Almeida: Desde que o “home studio” apareceu, cheguei junto. Lembro-me o quanto era complicado guardar uma ideia para trabalhar no ano que vem. Hoje você liga o computador e manda brasa, está tudo aí, na nossa frente. Hoje não trabalho mais assim, mas em todo caso, quanto sofrimento para guardar uma ideia e depois de finalizada, como e quando gravar. Só para os felizardos com gravadora, os outros, ficavam com as partituras; para os que sabem escrever e letra e cifra para os outros. Por isso meu disco “Intact” foi uma reunião de vários períodos, tem músicas que foram compostas 20 anos antes e que nunca tinha tido a oportunidade de gravar.

18) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo. Mas, a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Toninho Almeida: “…Todo artista tem de ir à onde o povo está, se foi assim, assim será…” – Milton Nascimento. Não tenho preconceito nenhum com isso. Instagram, Tik Tok, Facebook, etc. Gostaria que fosse mais simples, mas não é, hoje mesmo para os grandes nomes mundiais a internet é a ferramenta obrigatória. A diferença é que ao invés do artista famoso fazer, uma equipe o ajuda a abrir o leque e o artista faz só os selfs. Mas do meu lado descobri que se puder estar na internet trazendo conteúdo, discutindo com o público, convivendo nesse mesmo: “Mundo, mundo vasto mundo se eu me chamasse Raimundo pro mundo seria uma rima, não seria uma solução, mundo, mundo, vasto mundo, mais vasto é meu coração”, do grande Carlos Drummond.

19) RM: Como você analisa o cenário do Forró. Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Toninho Almeida: Não tenho um conhecimento profundo do mundo do Forró, andei pesquisando durante a composição do álbum “Deu Forró no Samba”, escutei muita coisa das antigas. Já tinha essa ligação com o Forró também pelas minhas origens por nascer em Euclides da Cunha – BA e sobretudo tive a sorte de conhecer na minha infância um sanfoneiro que morava numa Fazenda a 10 minutos da Fazenda dos meus pais. Foram muitos os saraus e só bem mais tarde descobri ou redescobri pérolas musicais: Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Dominguinhos, etc. Hoje são muitos os nomes, mas quem vai ficar, o futuro dirá.

20) RM: Quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Toninho Almeida: São muitos e variados. Eu bebi muita água dos rios Bossa Nova, Tropicalismo, do Itamar Assumpção, Premeditando Breque, Arrigo Barbabé e tantos outros. Mas para começar, o meu encontro com o mundo urbano aos 17 anos de idade morando no Rio de Janeiro que me trouxe uma safra artística sem precedentes na minha vida. Em Euclides da Cunha – BA, íamos do Forró ao Repente à música internacional nos Bailes, sem esquecer a Jovem Guarda. Depois no Rio de Janeiro vieram Chico Buarque, Milton Nascimento, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jorge Mautner, Fagner, Belchior, Elis Regina, Gal Costa, Nara Leão, Clara Nunes, Nana Caymmi, Rita Lee e mais tarde Fernanda Abreu com a qual pirei quando vi a mistura. Passaria a noite para tentar lembrar de todos os nomes.

21) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical (falta de condição técnica para o show, brigas, gafes, show em ambiente ou público tosco, cantar e não receber, ser cantado etc)?

Toninho Almeida: Dois dos mais folclóricos, o primeiro, tinha um show marcado em um festival de música em uma cidade pequena, onde estava previsto vários shows. A pessoa que preparou a programação não colocou meu nome na lista e então tendo sido anulado o show, recebi o cachê (risos), fui ver um outro festival para onde uns amigos me convidaram. Encontrei minha esposa e 20 anos depois temos três filhas lindas e maravilhosas. O segundo foi em uma Sala de Festas, nem era realmente Casa de Show. A produção tinha mandado a ficha técnica e todas as indicações como manda o figurino. Chegando lá, não vejo os equipamentos de som montado. Tiramos os instrumentos do carro e lá vamos nós. Perguntei para o primeiro que veio receber a gente, onde estão os equipamentos de som para o show e ele me mostrou alguém que está no palco (cena) que seria o responsável. Fui vê-lo e perguntei onde estava os equipamentos de som e ele me mostrou uma vitrola para colocar discos . Consegui sobreviver para contar a história (risos).

22) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Toninho Almeida: O que me dá mais felicidade é a composição. Adoro esse período onde fico quebrando a casca do ovo para ver os pintinhos saindo. É realmente minha praia. Diria até que poderia fazer só isso na minha vida musical. Sou meio como Jean Luc Godard, o cineasta Franco-Suisso, só vou mostrar o que fiz para dar comida para as crianças (risos)! Exagero, pois quando estou lá no palco a coisa muda. Triste? Nem sei, talvez tocar com músico que atrasa para chegar no ensaio.

23) RM: Qual a sua opinião sobre o movimento do “Forró Universitário” nos anos 2000?

Toninho Almeida: Não conheci quase nada desse período… já faziam 10 anos que eu morava na Europa, não vivi nem de longe. Talvez um pouquinho em 2015, quando fiz “Deu Forró no Samba”, pois com a turnê dos Festivais de Forró tive a oportunidade de conhecer alguns, mas não tenho opinião formada suficiente para falar sobre o assunto.

24) RM: Quais os grupos de “Forró Universitário” chamaram sua atenção?

Toninho Almeida: Tenho uma lembrança muito boa de algumas músicas do Forróçacana, banda do Rio de Janeiro.

25) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Toninho Almeida: Talvez minhas músicas toquem no rádio, mas não corro atrás, faço só minha obrigação de informar. De qualquer maneira hoje em dia a maioria das pessoas escutam música nas plataformas digitais. Hoje o rádio é a playlist, queira ou não queira é por aí que a coisa está andando. Quem sabe mude, mas por enquanto, acho que as rádios vão talvez ter que se adaptar para continuar a ter público e existir.

26) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Toninho Almeida: Vá com vontade e só vá se realmente tiver vontade e seja filosofo, pois nem todo dia você vai voltar pra casa cheio de dinheiro ou melhor ainda, felicidade. E o caminho é longo. Mas acho que de qualquer maneira só vai quem consegue passar o vestibular de casa, convencer pai e mãe que a escolha é boa. Mas enfim, se tivesse que me arrepender de alguma coisa, seria de não ter começado mais cedo, de ter perdido tempo fazendo outras coisas, pendurado na dúvida se era o meu caminho ou não. A última coisa é que se alguém diz que isso (musica) é pra vagabundo, seguramente não é um musico e se for, não deve ser dos bons, pois se tem uma coisa que eu posso garantir é que o trabalho é gigantesco, independentemente da tua especificidade na música: instrumento, canto, chefe de orquestra, compositor… é igual, pra chegar longe tem que ralar e muito.

27) RM: Quais os prós e contras do Festival de Música?

Toninho Almeida: Adoro. Não tenho nada contra. Antes os festivais de Música tinham uma coisa de escolher o primeiro lugar, como um concurso, não sei nunca participei. Ainda estava no período das dúvidas e ainda estava engatinhando nas composições. No mais, os que tive oportunidade de participar, foram momentos maravilhosos, pois as pessoas estão disponíveis, escutam. Em geral aqui na Europa são vários dias e as vezes as pessoas vem de longe e fazem os festivais como férias e isso é maravilhoso a nível de público. Manda que eles recebem com gosto. Maravilha.

28) RM: Hoje os Festivais de Música para revelar novos talentos?

Toninho Almeida: Não creio que hoje seja a função principal do Festival de Música revelar talentos. Vejo mais como promoção. Mas acontece alguns Festivais na Europa, que eles chamam de “trampolim”. Sim, tem alguns que funcionam nesse sentido, mas a maioria se baseia em uma programação já garantida a nível de público.

29) RM: Como você analisa a cobertura feita pela grande mídia da cena musical brasileira?

Toninho Almeida: Não sei atualmente, não tenho como acompanhar morando na Europa. Acho que uma parte da grande mídia é comprada ou vendida (jabá), a maioria está de acordo com essa opinião. Mas não é a totalidade e felizmente que tem gente honesta e sincera em todas as áreas, inclusive nas grandes mídias. Mas quando se trata de grandes mídias não é tão simples. É como na política, sempre sabemos das coisas mais tarde, as vezes nem sabemos. Os interesses não são os mesmos que os nossos, sobretudo dos artistas independentes. Qual interesse pode ter a grande mídia com música independente? Sim, pode, mas nesse caso é porque o independente já saiu do âmbito underground, já está nas grandes mídias. Não é pessimismo é só que vejo como a grande mídia trata o trabalho dos artistas, em geral serve para encher páginas. Outro dia tive uma entrevista com uma TV de informações na França. Depois quando vi o resultado, é para rir, só colocaram o que acharam que era importante, para eles. O que disse que era importante e repeti várias vezes, nem aparece na reportagem. Isso é a grande mídia popular e dominante. Diz o que quer e se você quer aparecer vai aparecer como um pião… um número.

30) RM: Qual a sua opinião sobre o espaço aberto pelo SESC, SESI e Itaú Cultural para cena musical?

Toninho Almeida: Lembro; quando estava no Brasil a 30 anos atrás (nos anos 90), de coisas muito interessantes produzidas nessas instituições. Lembro também que em geral eram artistas de gravadoras. Não sei se mudou. Talvez o Sesc e Sesi tenham mais ligação com o mundo independente, mas o Itaú Cultural, do que me lembro na época, não creio. Lembro em compensação da importância da lei de incentivo à cultura. Isso sim ajudou um pouco mais os independentes, em todo caso eu fui na época na Bahia financiado por empresas para realizar shows na Bahia.

31) RM: Qual a sua opinião sobre as bandas de Forró das antigas e as atuais do Forró Estilizado?

Toninho Almeida: Estou meio por fora por morar na Europa. Não venho do mundo do Forró e creio que tem coisas boas nas bandas antigas como nas bandas contemporâneas. A música não é um museu, mas ao contrário um laboratório. Nos laboratórios nem todos são cientistas extraordinários, mas nem todos são ruins. Tudo muda o tempo todo no mundo. O Forró não pode ficar de fora. Inclusive o disco “Deu Forro no Samba”, no começo do projeto, era para ser Forró eletrônico. Não rolou por mil motivos, mas não porque tenha problema com a evolução, a mudança. O “Forró Estilizado” pode ser positivo como negativo. Ter estilo é bom, mas colocar uma roupa que não combina, já não é estilo, é cafonice. Já cafonice assumida, pode ser estilo. Enfim, os maravilhosos do Forró, são maravilhosos simplesmente. Quando falamos de compositores como Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Dominguinhos, não estamos falando de bons antigos forrozeiros, estamos falando de compositores maravilhosos, que deixaram uma herança enorme para humanidade e não só para o Forró. Isso vale para todos os estilos e todos os tempos, pois em geral, quando falamos desse tipo de compositor, esqueçamos o tempo, não são de tempo nenhum, vão ficar aí como Platão e Aristóteles; sem tempo, mas com uma profundidade humana que vai além de erros e acertos. Esses são simplesmente.

32) RM: Quais os seus projetos futuros?

Toninho Almeida: Tenho cinco discos lançados. Dia 20 de junho de 2021 será o álbum “Desligado” nas plataformas digitais. Novo projeto, marcado pela Bossa nova, e faz alusão ao confinamento provocado pela pandemia do Covid-19. Como no início de cada projeto, a inspiração é o fio condutor indispensável, sem o qual o vazio torna impossível toda obra de arte.

No caso do álbum “Desligado”, justamente, o vazio inicial, provocado pelo sentimento de estranheza e disritmia com relação à evolução da sociedade atual virou de uma certa maneira esse fio condutor que liga canções e dá sentido à obra na sua totalidade. Aos poucos em cada nova canção, marcada por voz e guitarra, se sente uma certa leveza que vai de “Desligado”, que é um panfleto poético de rejeição à sociedade da qual tento se desligar. “Deixo o tempo ir, ir com quem tem pressa” até chegar a “Só silêncio”, que é uma apologia da solidão e do silêncio interior, onde cada um pode escolher seu caminho “sem esses filtros do mundo de fora, onde as regras não fui eu quem fiz”. Uma enorme necessidade minha de me retirar do barulho cotidiano e como em outras ocasiões, fui buscar refúgio nas palavras e tentar colocá-las em ordem para entender esse sentimento de estranheza, de dissonância. O álbum “Desligado” se impôs como imprescindível e o clima da Bossa Nova, sussurrando no ouvido, pareceu evidente desde o processo de pesquisa, de experimentação até a finalização no estúdio.

Confesso ter pensado em dividir a experiência com amigos músicos com os quais gravei outros álbuns, mas a ideia se esvanecia antes de se tornar realidade. Foi realmente meu confinamento pessoal, que aconteceu antes do confinamento coletivo provocado pela pandemia. Uma outra vertente da criação do álbum “Desligado”, já bastante presente nos meus álbuns anteriores, foi um desejo profundo de não cair na mesmice, tanto na melodia como na harmonia das composições. Evitei também de ir em direção à tragédia nas letras das canções: sem o otimismo dos tolos ou a chatice dos pessimistas, como diria Ariano Suassuna.

Na letra de “Black and white”, por exemplo, faço uma referência à música “Black or white” de Michael Jackson. Pouco me importa a cor de cada um ou que elas se misturem: se abrimos nossa mente olhando um céu estrelado, a grandeza do universo nos mostra que todas essas questões são absurdas. O objetivo do álbum “Desligado” é de “ver mais de uma lua, outros tantos sóis que brilham sem nós.”

Não é nem um álbum de protesto e nem de aceitação neutra do barulho ambiente. Parece mais com um desvio, uma terceira via entre – “faça o que tu queres” de Raul Seixas, “palavras dizem sim, os atos dizem não” de Gilberto Gil e uma esquiva de capoeira. De volta à “normalidade”, pós-confinamento, pretendo me reconectar, mas não completamente. Algumas respostas, muitas perguntas e uma constatação: “Tudo passa e nos resta o presente”.

Os Organizadores de festivais e programadores de salas estão acordando e começam a propor datas agora durante o verão 2021 aqui na Europa. O show “Desligado” tem tudo para acontecer na Europa, pois de um lado a Bossa Nova, talvez a música mais adaptada aos ouvidos europeus e talvez mesmo aos ouvidos do mundo. A segunda coisa que pode ajudar a dar certo, é a simplicidade técnica, um musico/interprete. A terceira é o transporte, hotel e comida. No mais que seja de trem, ônibus ou mesmo avião o custo é mínimo. Estou também com um projeto de BossaSoftElectro para o palco, veremos.

33) RM: Quais seus contatos para show e para os fãs?

Toninho Almeida: +33 6 14 100 209 (WhatsApp)

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Canal Toninho Almeida: www.youtube.com/c/toninhoalmeidaofficial

Deezer: www.deezer.com/fr/artist/5402817

Spotify : https://open.spotify.com/artist/5RsNwg7HXBv5GpzKwqxz8l

| Toninho Almeida – Flor Roxa: https://www.youtube.com/watch?v=976rrL67wBU


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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor responsável pela revista digital RitmoMelodia desde 2001, jornalista, músico, poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, propaga a diversidade musical brasileira através de entrevistas e artigos. Jornalista formado pela Universidade Estadual da Paraíba - UEPB (1996 a 2000) que lançou um livro de poesia em 1998 e seus poemas ganharam melodias gravadas em três álbuns concluindo a trilogia "reggae baseado em poesia" no seu projeto musical Reggaebelde. Unindo a sensibilidade do poeta, músico com o senso crítico do jornalista e pesquisador musical colocado em prática em uma revista que Canta o Brasil.