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Uma Revista criada em 2001
pelo jornalista, músico e poeta paraibano
Antônio Carlos da Fonseca Barbosa.

Tabajara Belo

Tabajara Belo
Tabajara Belo

O violonista, guitarrista e compositor mineiro Tabajara Belo é um destaque na cena musical brasileira.

Professor da Universidade Federal de Ouro Preto, Bacharel em violão pela UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais e Master of Guitar pela University of Arizona, é atualmente Doutorando em Composição e Jazz Performance pela University of Florida. Dono de um estilo que abriga sólida formação erudita e grande fluência na música popular, vem trabalhando, em shows e gravações, com nomes como Trio Amaranto, Marina Machado, Paula Santoro, Déa Trancoso, Marcus Viana, Vander Lee, Paulo Bellinati, Claudio Nucci, Wagner Tiso. Tem se apresentado em importantes festivais e projetos de música instrumental no Brasil e no exterior. Já atuou como solista junto à Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, Orquestra SESI Minas e University of Florida Symphony Orchestra. Conquistou o prêmio de Melhor Instrumentista do BDMG Instrumental 2008. Gravou os CDs “Tabajara Belo”, em 2006, e “Suíte Brasil”, em 2009, em parceria com o flautista Bruno Pimenta. Prêmio de violonista-destaque pela revista Guitar International Magazine, em 2011. Também conquistou, em 2016, o segundo lugar nacional no concurso NOVAS 3, voltado para a composição de peças para o repertório violonístico. Trabalha atualmente na produção de seu terceiro disco e na composição dos Estudos para Improvisação Multi-textural ao Violão Solo.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Tabajara Belo para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 23.04.2021:

Índice

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Tabajara Belo: Nasci no dia 31.01.1973 em Belo Horizonte – MG.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Tabajara Belo: Meu pai e minhas três irmãs tocavam violão em casa com frequência, tenho essa lembrança bem viva na memória.

03) RM: Qual a sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical?

Tabajara Belo: Eu gostava de música, cantava etc., mas nunca tive iniciativa de procurar aprender um instrumento. Meu começo é bem engraçado… Meu pai era coronel da polícia militar, me colocou numa viatura e pediu para o motorista me levar para primeira aula de violão. Fui meio obrigado a ir. Ele queria que eu fosse à primeira aula, se não gostasse eu teria o direito de sair. Gostei tanto da aula que me apeguei rápido ao violão, foi uma descoberta, uma mágica mesmo. Depois fui estudar guitarra, mais tarde bandolim, viola-caipira etc. E tive uma graduação inacabada em Publicidade e Propaganda pelo caminho. Só aos 22 anos de idade ingressei no Bacharelado em Violão na UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais, e aí a profissionalização e a inserção na vida acadêmica foram se consolidando. Vim para os EUA logo depois pro mestrado em Performance na University of Arizona. Em 2007 me tornei professor da Universidade Federal de Ouro Preto. Atualmente cá estou de novo nos EUA, dessa vez na Flórida, pro meu doutorado em Composição. Meu caminho sempre foi multidisciplinar. Canção, música contemporânea, choro, jazz, violão solo, guitarra e banda, folk.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Tabajara Belo: Cresci num ambiente de canção popular brasileira, que era o que se ouvia e tocava em casa. Minha irmã Jussara cantava num grupo vocal, o Nós & Voz, eu ficava assistindo os ensaios, as aberturas de vozes. Acho que minha fascinação com harmonia começa aí. Mais tarde, veio a guitarra, sempre adorei Brian May, Jimmy Page. A guitarra jazz, Pat Metheny, veio um pouco depois. O ingresso no violão erudito, inicialmente motivado pela expansão da técnica, me levou também ao repertório orquestral, Bach, a música barroca de câmara. No meio disso veio o choro, que é uma forte influência pra mim, Raphael Rabello… Aí depois dos 30 anos a gente vai misturando, né. No momento ouço muito Bill Frisell, Julian Lage. Egberto Gismonti sempre. Ligeti, Debussy. E continuo escutando o cânone do violão brasileiro, duo Assad, Marco Pereira, Paulo Bellinati, Swami Jr., Ulisses Rocha, Toninho, Juarez Moreira, além dos colegas da minha geração, André Siqueira, Carlos Walter, Daniel Murray, Luis Leite, uma lista infinita….

05) RM: Quando, como e onde você começou a sua carreira musical?

Tabajara Belo: Difícil definir o início da carreira, mas acho que quando larguei o curso de Publicidade na PUC houve ali um rito, firmei um compromisso que viveria de música a partir daquele momento. Eu tinha 20 anos, em 1993.

06) RM: Quantos CDs lançados? Cite alguns CDs que já participou e tocando que instrumento?

Tabajara Belo: Meus mesmos tenho dois, o Tabajara Belo, de 2006, e o Suíte Brasil, com o flautista Bruno Pimenta, de 2008. Toquei como solista com a Orquestra Sinfônica de Minas Gerais em disco que o Wagner Tiso arranjou e escreveu sobre a obra do Tavinho Moura. Gravei o Três Pontes com o trio Amaranto, o Sabiá com Paula Santoro. Produzi o disco Oito, do Bê Sant’Anna. Gravei o Tum-tum-tum com a Déa Trancoso. Participei do Catamarã, do André Siqueira.

07) RM: Como você define o seu estilo musical?

Tabajara Belo: Sou um guitarrista/violonista/compositor que preza muito pelo timbre e por caminhos harmônicos e texturais variados. Improviso muito, às vezes como processo de criação, às vezes na performance pública. Não consigo dar nomes. Música brasileira, jazz, erudito…

08) RM: Como é o seu processo de compor?

Tabajara Belo: Sempre compus muito com o violão em punho, improvisando, cantarolando. De uns tempos pra cá uso o piano e até os softwares de editoração de partitura para escrever pra outras formações maiores. O doutorado em composição me colocou em contato com formas de planejamento do processo composicional que acabei incorporando, o serialismo, o foco na estrutura etc. Mas minha tendência mais forte ainda é compor improvisando no violão, e minha pesquisa de doutorado tem relação direta com esse processo. Estou escrevendo o ciclo de “Estudos para Improvisação Multi-textural ao Violão Solo”. São peças escritas que tem a improvisação como processo gerador e como um dos objetivos finais para quem as estuda.

09) RM: Quais são seus principais parceiros de composição?

Tabajara Belo: Na música instrumental o processo tem sido sempre solitário. Na canção tenho parcerias com Makely Ka, Be Sant’Anna, Jorge Fernando do Santos, Pamelli Marafon.

10) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Tabajara Belo: A autonomia é um bem precioso propiciado pela carreira independente. Nunca desenvolvi a carreira em outro formato, então nem sei avaliar como seria. Ainda que independentes, sempre tecemos parcerias e redes de trabalho, o que é muito positivo, inclusive no plano filosófico.

11) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

Tabajara Belo: Minha carreira acadêmica se desenvolve em integração com a carreira artística. Tenho conceitos em relação à música e ao violão e seu congêneres, e procuro difundi-los em vários formatos, seja pelo texto, pela docência presencial ou não, no palco, na gravação, nas redes sociais.

12) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira musical?

Tabajara Belo: Além de geração frequente de conteúdo em redes sociais, youtube e website, eu gosto de desenvolver produtos com a minha marca, cuja logo é uma simpática autocaricatura feita por mim mesmo, como camisetas, palhetas, e até máscaras, agora na pandemia do Covid-19. Faço muitas parcerias com universidades, promovendo eventos e encontros em que a produção artística e acadêmica se integra.

13) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento da sua carreira musical?

Tabajara Belo: A internet ajuda porque agiliza o contato com o público, mas dificulta porque o público está bombardeado por informações o tempo todo, então temos sempre que elaborar formas de se destacar nessa multidão cibernética.

14) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)?

Tabajara Belo: Não vejo nunca como desvantagem, é mais uma ferramenta que precisamos aprender a dominar para empreender os passos da carreira com mais autonomia.

15) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo. Mas, a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Tabajara Belo: Procuro exercitar a fé e a convicção nos conceitos musicais que desenvolvo, com coerência, e entender o que vale a pena ser compartilhado, nas redes, por exemplo. Às vezes, é melhor demorar a obter certo retorno, do que afobadamente se formatar pra atender a uma suposta expectativa de um suposto público.

16) RM: Como você analisa o cenário da música instrumental no Brasil. Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Tabajara Belo: Tem muita gente maravilhosa, não consigo enxergar quem tenha regredido. O reaquecimento do Choro, com um alcance a várias gerações, considero um fenômeno superlativo. Nesse sentido, os nomes de Yamandu Costa e Hamilton de Holanda se destacam, inegavelmente.

17) RM: Quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Tabajara Belo: Yamandu Costa e Hamilton de Holanda.

18) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical (falta de condição técnica para show, brigas, gafes, show em ambiente ou público tosco, cantar e não receber, ser cantado etc)?

Tabajara Belo: São tantas coisas… Mas, uma vez, o público caiu na gargalhada quando anunciaram meu nome, num show em que eu acompanhava o trio Amaranto… Estranho como num país de matriz étnica indígena o nome Tabajara soe exótico, vire motivo de chacota. Coisas do Brasil.

19) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Tabajara Belo: Frustro-me com uma certa preguiça, má vontade e falta de interesse das pessoas em enxergarem nosso ofício como algo intrincado, uma ciência mesmo, que exige método, etapas de produção etc. Veem o lado lúdico, a diversão, mas fecham os olhos pra esse outro lado. Às vezes por desconhecimento, às vezes é má fé mesmo. A alegria está em desenvolver uma rotina de busca, de descoberta, de questionamento, que mobiliza muito de nossa humanidade, tanto na docência e na academia quanto na produção artística. A sala de aula e o palco, o contato com o público, ambos são sagrados pra mim.

20) RM: Você acredita que sem o pagamento do Jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Tabajara Belo: Não sei dizer, procuro contato com veículos que já tem uma identidade afim com minha estética.

21) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Tabajara Belo: Recomendo paixão e coragem. Esses dois elementos, estando vivos, fazem a gente desenvolver o restante e seguir o caminho.

22) RM: Quais os violonistas que você admira?

Tabajara Belo: Como já listei em resposta anterior, duo Assad, Marco Pereira, Paulo Bellinati, Swami Jr., Ulisses Rocha, Toninho Horta, Juarez Moreira, além dos colegas da minha geração, André Siqueira, Carlos Walter, Daniel Murray, Luis Leite. E tem o Ralph Towner!

23) RM: Quais os compositores eruditos que você admira?

Tabajara Belo: Bach, Debussy, Ligeti, Scarlatti.

24) RM: Quais os compositores populares que você admira?

Tabajara Belo: Tom Jobim, Chico Buarque, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Gershwin, Cole Porter, Paul McCartney.

25) RM: Quais os compositores da Bossa Nova você admira?

Tabajara Belo: Tom Jobim, Carlos Lyra, Roberto Menescal.

26) RM: Apresente seu trabalho de pesquisa de mestrado e doutorado.

Tabajara Belo: O meu mestrado, na University of Arizona, foi em performance pura, não tinha uma tese, trabalhei um repertório solo que incluia transcrições de Piazzolla, Berkeley, Walton, Scarlatti, além de arranjos meus pra temas populares. O meu doutorado, a ser concluído agora em 2021, é sobre a composição de meus estudos para improvisação multi-textural no violão solo. São dez movimentos que trabalham ideias composicionais em diferentes matérias escalares e texturas, tendo como desdobramento principal a improvisação nesse contexto de violão solo, sem acompanhamento.

27) RM: Quais as diferenças técnicas entre o Violão Erudito e Popular?

Tabajara Belo: Não enxergo como diferenças, mas acho que o erudito prioriza muito o repertório canônico e a sonoridade. O virtuosismo é uma obrigação. No violão popular a mensagem rítmico-harmônica tende a se sobressair. O aspecto autoral-criativo permite que o violonista ajuste com mais autonomia suas capacidades técnicas às demandas musicais.

28) RM: Quais as principais técnicas que o aluno deve dominar para se tornar um bom Violonista?

Tabajara Belo: Difícil resumir numa resposta breve, mas gosto de pensar nas texturas várias e na técnica que cada uma demanda. Tocar blocos exige uma coisa, contraponto a duas vozes outra, escala com apoio ou sem apoio é outra história, arpejo, campanella, rasgeo, melodia acompanhada. É preciso ter essa consciência crítica para se estudar o que vai ser utilizado, de acordo com o repertório, em qualquer gênero.

29) RM: Quais os principais vícios e erros que devem ser evitados pelo aluno de Violão?

Tabajara Belo: Se eu for escolher um ou dois, eu diria que excesso de movimento na mão direita é um equívoco que atrapalha, assim como angulações pouco funcionais, também da mão direita.

30) RM: Quais os principais erros na metodologia de ensino de música?

Tabajara Belo: Novamente, essa é uma longa discussão, mas eu diria que hoje essa ansiedade por atenção nas redes sociais está levando a um discurso raso, uma espécie de predomínio dessa coisa de “aprenda facil e rápido”, que é abominável.

31) RM: Existe o Dom musical? Como você define o Dom musical?

Tabajara Belo: Não sei se existe. Há a vontade de fazer e continuar fazendo, é assim que percebo o dom dentro de mim.

32) RM: Qual é o seu conceito de Improvisação Musical?

Tabajara Belo: Invisto muito no conceito de improvisação multi-textural no violão solo. Mas estudo muito a tradição jazzística na guitarra, fraseados de choro no bandolim, e transporto muitas dessas ideias para o violão.

33) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre Improvisação musical?

Tabajara Belo: Talvez o elemento rítmico seja pouco contemplado, além de reduzirem o trabalho textural ao dualismo acorde-escala.

34) RM: Existe improvisação musical de fato, ou é algo estudado antes e aplicado depois?

Tabajara Belo: Existe um pouco de tudo, inclusive a reorganização, na hora da performance, de ideias previamente estudadas.

35) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre o Estudo de Harmonia musical?

Tabajara Belo: Acho importante o estudo da tradição, desde o tratado de Rameau até Arnold Schoenberg, mas não parar por aí, até porque o tratamento harmônico apresenta peculiaridades em cada instrumento/instrumentação.

36) RM: Quais os métodos que você indica para o estudo de leitura à primeira vista?

Tabajara Belo: Confesso nunca ter praticado em um método específico para esse fim. Particularmente gosto de pegar exercícios rítmicos e aplicá-los a escalas e acordes.

37) RM: Como chegar ao nível de leitura à primeira vista?

Tabajara Belo: O violão é um caso a parte nesse tópico, instrumento difícil pra se ler à primeira vista. Além do domínio da linguagem, notação etc, é preciso muito domínio do braço do instrumento, as possibilidades várias de digitação para um mesmo trecho.

38) RM: Qual a sua relação pessoal e profissional com Carlos Walter?

Tabajara Belo: É um colega querido, incentivador de todos os pares, um aglutinador muito positivo no violão brasileiro, além de músico genial.

39) RM: Quais os prós e contras de ser multi-instrumentista?

Tabajara Belo: Ficar confinado a apenas um instrumento pode ser limitante, essa coisa de enxergar a música pela lente daquele instrumento. Sou a favor de abrir um pouco o leque, ainda que para instrumentos afins. Exige mais tempo de estudo, adaptação, às vezes é difícil alternar isso no palco, mas é uma busca válida.

40) RM: Tabajara Belo, Quais os seus projetos futuros?

Tabajara Belo: Estou trabalhando na pré-produção de meu terceiro CD e na publicação editorial de meus estudos para improvisação multi-textural.

41) RM: Quais seus contatos para show e para os fãs?

Tabajara Belo: www.tabajarabelo.com | https://web.facebook.com/tabajarabelomusic

| https://web.facebook.com/groups/175668429228704/user/100001177981712

Canal: https://www.youtube.com/user/tababelo1

Playlist: https://www.youtube.com/watch?v=gHoykuhgB-M&list=PL7Bx0vwGZIy9rAG7ueBBrWZxrmmpTxcxy

Playlist: https://www.youtube.com/watch?v=PSfYLiJI2cs&list=PL7Bx0vwGZIy_RST6ks3j7rR4Y2vrth_a0


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