MaySistah

MaySistah

Tempo de Leitura: 20 minutos

A musicista, cantora, multi-instrumentista, poeta, compositora, professora, artesã e MC paulistana MaySistah teve sua iniciação musical aos 8 anos de idade tocando instrumentos de sopro em bandas marciais da escola onde estudava e aos 15 anos seguiu sua trajetória voltada para a música popular.

Trabalha em show em formações acústica e com banda. É multi-instrumentista toca: Guitarra, Contrabaixo, Flauta, Trompete, Escaleta, Percussão e tem desenvoltura em compor letras com assuntos pré-determinados. Participa de batalhas de rima de conhecimento e eventualmente em SLAM (campeonato de poesia), em que ela emana suas ideias em forma de rimas e poemas.

Entre seus trabalhos, participou da música “Levante sua Cabeça” do disco RAP Pluz Size das Mc’s Issa Paz e Sarah Donato, ao lado da cantora Tassia Reis. Já participou no palco com: Qg Imperial; União Rasta; Família Teocratas; Denise D’Paula, Odisseia das Flores; Talita Cabral; Roots Guetown; Semente Regueira e artistas da cena alternativa e independente do RAP, MPB e Samba da capital e interior de São Paulo e Rio de Janeiro.

Teve participação como cantora na Reggae Expo Clic k2017 com Dubalizer e Jah Dartanhan. Já lançou um single em formato LP como intérprete da música “Janaína” na coletânea de drum’s in Bass lançada na Europa no ano de 2014.

Hoje é vocalista e instrumentista das bandas DaviDariloco e Gambiarra, além de seu trabalho próprio e freelance nos gêneros já citados. “Não precisa ter medo é só chegar… Levo de bom os acontecimentos positivos, o apego não é material, buscando sempre ser melhor”, afirma MaySistah.

Segue abaixo entrevista exclusiva com MaySistah para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistada por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 09.01.2020:

Índice

01)  Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

MaySistah: Nasci no dia 05 de setembro de 1983 em São Paulo. Sou regida pelo signo de virgem ascendente em Touro. Registrada como Maytê Rodrigues.

02)  RM: Como foi o seu primeiro contato com a música?

MaySistah: O contato com a música foi desde muito nova com os brinquedos musicais. Eu tinha um piano de armário mini de madeira, flauta doce, carrilhão, tambor infantil, e o pense bem que tinha muitas lições de música que eu seguia pra tocar as músicas infantis…

03) RM: Qual a sua formação musical e acadêmica fora música?

MaySistah: Iniciei na música de verdade como estudo (pois até então era brincadeira) na escola aos 9 anos de idade aproximadamente, na Fanfarra. No primeiro ensaio fui tocar Surdo, no próximo já fui para a Caixa e no próximo ensaio fui para Corneta e aprendi a tocar todos os instrumentos da Fanfarra no primeiro mês. Em pouco tempo virei líder de naipe onde passava a técnica que tinha acabado de aprender para os que recém chegavam à Fanfarra.

Assim continuei e fui para a banda marcial quando estava na sétima série onde aprendi de fato a ler partitura em Clave de Sol e de Fá e tocava Trompete. Fiquei em banda marcial até uns 15 anos de idade já tocava em campeonatos, festas, casamentos e em desfile cívico. Tive a oportunidade de gravar duas músicas no CD da banda do Colégio Progresso que era regido pelo maestro Marcelo Bonvenuto.

Minha formação acadêmica acabou sendo ligada à música podendo desfrutar da arte como trabalho oficial também. Fiz Magistério no CEFAM (projeto temporário da SEE no Ensino Regular 4 anos)  onde comecei a tocar instrumentos de corda e desde então montando bandas, tocando em bares em diferentes estilos musicais, gêneros, lugares, com pessoas distintas, enfim, universo do qual eu vivo até hoje.

Fiz licenciatura em Música e leciono artes em Escola Estadual desde 2002 em São Paulo. Tenho algumas especializações e complementações ligadas à licenciatura e pós-graduação em coordenação pedagógica pela UFSCar. Atuei como Professora  Coordenadora por sete anos e dois anos como professora de artes da escola integral, sempre incentivando, promovendo, criando espaços, festivais e parcerias na música e na arte em geral. Com alunos e artistas em espaços culturais, escolares e artísticos.

04) RM: Quais suas influências musicais no passado e no presente? Quais deixaram de ter importância?

MaySistah: Sou eclética e  aprecio das mais diferentes estéticas musicais, como músicas regionais brasileiras, música folclórica internacional, música tribal, instrumental, Erudita entre outras…

Porém tem sempre aqueles trabalhos que nos influência mais contribuindo até para formação social, musical e pessoal como The Doors; Beethoven; Chopin; Adoniran Barbosa; Bezerra da Silva; Carmen Miranda; Elis Regina; Gilberto Gil; Bob Marley; Led Zeppelin; Nirvana; Israel Vibration; Steel Pulse; Villa-Lobos; Noel Rosa; Legião Urbana; Bob Marley; Peter Tosh; Cypress Hill; Planet Hemp; Racionais; Mc Dentinho; Rita Lee; The Prodgy; Carlos Santana; Jovelina Pérola Negra; Elba Ramalho; Janis Joplin entre muitos outros.

Nenhum artista deixou de ser importante cada um teve sua época pra ouvir e sentir, e assim acabou por contribuir de uma forma particular  não só para a minha formação mas diversão também.

05) RM: Quando, como e onde você começou a sua carreira artística?

MaySistah: Na fanfarra, Banda Marcial, Igreja católica, grupo de violões e percussão e tive meu primeiro contato com gravação tocando Trompete com Banda Marcial do Colégio Progresso com 81 músicos entre sopro e percussão.

Tive a oportunidade de entrar na música profissional, e começar a me entender como Musicista e Artista. Eu tive também muita atuação no teatro, tenho facilidade em falar em público e “invocar” personagens. Cresci num ambiente em que tudo nós fazemos e desenvolvemos, então faço artesanatos dos mais diversos tipos e bijuterias com alpaca, latão, cobre e cordão.

06) RM: Apresente seu projeto no Reggae.

MaySistah: No reggae tenho mais de um projeto. O trabalho com as meninas da “DaviDariloco” é uma banda de reggae formada somente por mulheres. O nome quer dizer Vida Colorida é uma brincadeira com as sílabas organizadas ao contrário da escrita (lidas de trás para frente) Da-Vi = Vi-da Da-Ri-Lo-Co = Co-lo-ri-da.

O nome tem haver com o nosso estilo de vida de pintar as coisas e sempre ter os pensamentos “coloridos”, positivos… Poder olhar as coisas sempre pelo lado bom. O nosso símbolo é o filtro dos sonhos, onde acreditamos que toda energia negativa Transmuta à positiva. Já nos apresentamos com Denise D´Paula, Odisseia das flores, Sistah Mari, Talita Cabral, David Hubbard, Tassia Reis, Rap Plus Size (Sara Donato e Jupi77er).

Já atuamos como banda de apoio na Batalha Dominação. Uma batalha de conhecimento das minas que acontece toda segunda feira na estação do metro São Bento. Algumas apresentações foram produzidas pela Luciana Monteiro e equipe, que também nos motivou muitas vezes nas baixas energias. Sempre fortalece nosso trabalho. Somos Gratas por tê-las. Hoje em dia quem nos acompanha e ajuda a organizar o trabalho é a produtora May Root´s.

Esse projeto passa por uma restruturação e tem uma principal função de empoderar e destacar a figura feminina na arte e na produção, incentivando e levando as ideias das mulheres com toquinho feminino através da música. Além de freelance em guitarra, beckin vocal, baixo e percussão no reggae,  tem também o meu projeto solo que se iniciou esse ano de 2019, e conto com a banda de apoio União Rasta e começamos a gravar o EP com a produção minha, do Fábio Silva, Giovanni Cestini e David Hubbard.

Sendo gravado no estúdio União. Os meus projetos do reggae contam com o apoio da Rádio Uniaobr,  estou neste momento também montando a produtora “May´s World Productions” onde realizamos produção e assessoria musical, artística, e executiva. As temáticas das composições no reggae geralmente são relacionadas a vida, a pensamentos, a vida social, histórica e de amor.

07) RM: Apresente seu projeto do Forró.

MaySistah: Temos um trabalho que chama “Gambi Music” que é um coletivo de mulheres musicistas e multi-instrumentistas idealizado por mim e resistente em homenagem ao NettoTrip (que não mais materializa entre nós nesse plano). Apresentamo-nos em várias formações e estéticas.

O projeto forró DiDaDó é uma parte desse coletivo que ganhou destaque por ser um grupo de forró totalmente produzido por mulheres 100%.  As letras das músicas produzidas para esse projeto, geralmente trazem uma raiz regional como sugere o gênero.

08) RM: Apresente seu projeto no RAP.

MaySistah: Este projeto RAP eu chamo de “rascunho de RAP” e produzo sozinha ou com parcerias. Alguns beats são produzidos em parceria, algumas letras são criadas através do Freestyle que é uma raiz da rua que pratico há muito tempo, pois agora sintetizei em música o que penso.

E o RAP acaba sendo canal por onde essa expressão é posta e também uma forma de colocar a revolta para fora trazendo outras temáticas e meu ponto de vista sobre os assuntos sociais e históricos, pessoais e do mundo…

09) RM: Quantos discos lançados?

MaySistah: Eu mesma nunca pensei em gravar a minha própria música e de uns 4 anos pra cá que tenho desenvolvido mais essa parte, pois sempre fui mais musicista de palco, show, da noite e ultimamente tenho organizado as mais de 500 composições que tenho pra distribuir entre os projetos e poder consolidar de fato a gravação das mesmas…

A primeira gravada música minha foi em 2014 na Fábrica de Cultura, gravei um single acústico na estética MPB com violão e Cajon chamada Ssano Davi (nossa vida), e eu mesma fiz uma edição de imagens e coloquei uma espécie de clip no youtube só pra testar, mas nunca divulguei. Gravei violão e voz, fiz o arranjo todo e Clave de lua (baixista DaviDariloco) gravou becking vocal, Cajon e fez a letra. Na DaviDariloco tive a oportunidade de entrar mais em estúdio. Gravamos com as meninas do RAP PluzSize e a Tassia Reis na única faixa do cd produzida com banda chamada “Levante a sua cabeça” e eu toco Baixo e Guitarra solo.

Tem um clip essa música também, foi o primeiro da banda. Com as meninas também tive a oportunidade de terminar os arranjos das músicas juntas e gravamos mais 6 singles, Jaçanã produzido pelo David Hubbard (2016) Não lançado ainda. “Luanda” que foi o nosso primeiro clip só da banda (2017). Reggamente com a Sistah Mari e “Felicidade” pelo edital do reggae Bandas novas articulado e realizado pelo Fórum Do Reggae em 2018. E os singles “Amazônia” e “Gnomos e Duendes” que ainda não foram lançados também.

Tem uma mix Tape que eu mesma produzo sozinha e alguns singles com algumas parcerias, que está tomando forma. O trabalho solo MaySistah conta com a banda de apoio União Rasta.  Em 2020 tem muita novidade para sair. Damos Graças pelas atividades.

10) RM: Como você define o seu estilo musical dentro da cena reggae?

MaySistah: Não consigo me definir dentro de uma vertente específica do reggae. Não costumo me definir e dizer que sou isso ou aquilo, hoje eu posso fazer isso e amanhã aquilo, então não consigo me definir dessa forma. Já toquei Caixa no bloco de samba reggae Kaya na Gandaya em 2015 e 2016.

Já me apresentei como convidada com a banda QG Imperial na primeira Mostra Cultural de Reggae que contou com vários cantores na apresentação musical entre eles Rodrigo Piccolo, RasKadhu, Denise D´Paula entre ouros da cena no ano de 2016. Apresentei o evento como MC “SP REGGAE FEST” realizado pelo Portal Ras e SMC de São Paulo na Praça da Sé em 2017 ao lado de Luana Hansen. Em 2018 participei como backing vocal da Banda União Rasta no palco reggae da Virada Cultural com as participações de Sister Nane, Leny Fyah (ex banda Filosofia Reggae Original).

Fui Maestrina de Cerimonia no último dia da segunda “Reggae expo click” (2018). Um evento que destaca os fotógrafos do reggae music, trazendo os elementos da cultura com exposição de fotos, cards e autógrafos dos artistas da cultura. Em Agosto de 2019 fiquei entre os finalistas do festival Cena Norte realizado pelo “Fórum de cultura Cena Norte” na Fábrica de Cultura Jaçanã com a música “Favela Vive” e ganhei uma gravação, certificado e um troféu.

Os 10 finalistas eram os vencedores desse festival. Em Setembro de 2019 participei do FESTIVAL 6 CONTINENTES que é um festival internacional que acontece simultaneamente em  mais de 40 países, e no Brasil aconteceu na Fábrica de Cultura Jaçanã nos dias 27, 28 e 29 de Setembro, organizado pelo Embaixador Ibero-Americano Sayder SDR III. Apresentei-me com a banda União Rasta pré lançando a minha segunda música em inglês e também atuei também como produtora do evento agregando com a minha equipe (May Roots e Patricia Teodoro) ajudando na organização do 2° dia do festival e também gravando os podcasts com os artistas pela Rádio UniãoBr que se encontram no canal do youtube da Rádio.

Este foi o primeiro evento que a Radio UniãoBr fez a cobertura com produção e podcast. Motivados pela minha atuação no Festival internacional 6 Continentes fui indicada e homenageada junto com outros artistas como Personalidade do ano de 2019 na Câmara dos Vereadores em São Paulo e recebi um troféu e certificado. Montamos a rádio UniãoBr em Julho de 2018 em parceria com o estúdio União, banda União Rasta e produtora May´s World Production, com intuito de fazer entrevistas, tocar nossas produções, promover shows, apoiar eventos e fazer os podcasts.

Na arte me sinto bem livre e faço o que tenho vontade, sempre estudando para tentar trazer novidade e poder me divertir também. Alguns dizem o que eu sou “nova geração do reggae music”, outros dizem o que eu faço a linha “Roots favela” (risos). Mas presumo que o que mais me define mesmo é ser uma mulher fazendo música praticando as ideias femininas juntando com a vontade e o temperinho da geração Y que tem a tendência de misturar as coisas. Fazer várias coisas ao mesmo tempo, se adaptar com as mudanças e envolver diferentes pessoas pra exercitar a “Nossa arte de cada dia”.

11) RM: Como você se define como cantor(a)/intérprete?

MaySistah: Acho que me defino sem barreiras, num “misturê danado”; como camaleão que se adapta ao ambiente que está. Sou muito eclética e cada estética me completa de uma forma diferente para eu praticar a musicalidade de vários gêneros, mas tenho uma caidinha maior pelo reggae, mas não me limito somente a ele. Amo cantar MPB e música internacional, rock, blues, black onde pratico outras habilidades e impostação vocais distintas.

12) RM: Quais os cantores e cantoras que você admira?

MaySistah: São muitos! Tem uns que não gosto muito da música, mas o jeito de cantar é incrível e muito bom pra treinar… Mas gosto bastante da Dezarie, banda Nazirê, I Tree, Groundation, Byoncé,  Adele, as meninas da DawtasofAya, Marina Peralta, James Brown, Tim Maia, Rihanna, Michael Jackson, Erika Badu, Ambulantes, Pink, Elza Soares. Identifico-me muito com os ousadxs também (risos).

13) RM: Como é o seu processo de composição musical? Quem são seus parceiros musicais?

May Sistah: Minha criatividade é aguçada, se eu pudesse criava uma música por dia. Tenho vários processos criativos. Tem dia que crio várias; principalmente quando estou brava com alguma coisa da minha vida pessoal ou social do nosso país. Eu coloco uns beat (batidas) e fico pensando no que eu vejo e coloco em música e depois peneiro e vejo o que ficou bom, o que dá pra usar, arrumo umas coisinhas e produzo e surge uma música nova!

Assim como sento e escrevo sobre um assunto que estou pensando, de uma situação que passei ou que vi pelo mundo, depois crio a melodia e os arranjos. Tem muita música que faço de Freestyle, acho que empata esses dois processos criativos, mas gosto muito de criar, inventar, experimentar com parceria também (risos). Tenho vários parceiros musicais, além das meninas da banda DaviDariloco, Fabio Silva, Bah Eny (criamos coisas pela rede social em várias estéticas), Allan Z (Itú), Fabio Kura (Dj RJ), Rogério Marquês, David Hubbard entre outras parcerias de um trabalho.

14) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

MaySistah: Na minha concepção, antes de desenvolver um trabalho artístico sólido de fato, sem ficar só na “fazeção” do “músico funcional” (barzinho e cover) é preciso entender como funciona a arte musical, quais fatores a envolvem além do “sentar e tocar” é preciso entender os bastidores para que o trabalho autoral aconteça. Venho dessa caminhada.

A música é infinita então vou morrer aprendendo (risos). Sustentar um trabalho artístico autoral e independente é muito, muito difícil, precisa ser resiliente, próspero, ter paciência e o principal não desistir. Ir construindo pedrinha por pedrinha do castelo artístico e precisa ser sólido, por isso o preparo anterior é essencial. Há um ano trabalho com a produtora May Root´s, e recentemente com a Patricia Teodoro (minha namorada).

Passo pra elas a visão que tenho e de como acho que as coisas devem acontecer e juntas nós direcionamos  e organizamos os trabalhos sempre agregando os saberes e práticas de todas, pois logo mais quero me preocupar somente com a parte musical. O restante na fica direção delas que sabem fazer muito bem. Juntas nós somos mais fortes! Tem um slogan que uso desde sempre “a força da “mulherada” fazendo um som” nesse caso é produzindo também (risos).

15) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira musical?

MaySistah: São muitas! Várias pessoas me falam que sou uma “potencia musical”, mas nunca botei muita fé nisso. Eu só faço o que gosto e tenho facilidade de aprender música. Cresci no meio musical, nas rodas de samba, rimando no rap, tocando no mpb, soul e rock, ou no karaokê. Trabalhando como locutora em comércios, inventando singles, propagandas de produtos (risos).

Sai de casa com 15 anos de idade, tive que me sustentar desde então e trabalho desde os 9 anos de idade pra poder conquistar meus instrumentos e bens materiais. Nunca tive muito tempo pra pensar nessas coisas, precisava sobreviver, depois que me formei e na pós-graduação que comecei a levar a vida artística a sério mesmo, além somente de expressão.

Primeiro Tive que investir em conhecimentos específicos e depois em ferramentas físicas e tecnológicas que pudessem materializar o que praticava todos os dias (fazer música e produzir os amigos) como notebook, pedais, case de pedal, microfones, interface de som, controladora entre outros, além do investimento intelectual e também as direções artísticas, musicais e executivas em conjunto com as meninas May e Paty. Pois além da música somos as proponentes Majoritárias da rádio UniãoBr.

16) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento da sua carreira?

MaySistah: A internet não prejudica, pra mim só agrega e facilita muito a comunicação principalmente dentre do reggae que é um nicho relativamente pequeno perto dos outros gêneros. Temos que ter um “filtro” pra não ficar expressando muita emoção através das redes sociais, pois isso segrega as opiniões e gera maus entendimentos, mas minha pegada ultimamente é mostrar pro mundo do que eu sou capaz de fazer sendo mulher. Sou multi-instrumentista e produtora periférica e independente!

Capaz de chegar a qualquer lugar que eu destacar como prioridade, pra traçar metas, planejar e alcançar os objetivos pensados por mim e sempre com o apoio da minha equipe. A música não tem limites! O limite muitas vezes está dentro das nossas barreiras mentais.

17) RM: Como você analisa o cenário reggae brasileiro? Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

MaySistah: Na arte não existe o bonito ou feio, existe o que dá certo e o que não dá naquele grupo e naquele momento, é muito particular… Pra acertar o gol precisamos chutar inúmeras vezes de vários ângulos e formas diferentes, e nem sempre a técnica aplicada por um que deu certo, dará certo para o outro.

Então não acredito em uma regressão de trabalho, mas sim de repente uma equipe ou trabalho que parou de caminhar, ou parou de tentar “acertar” para dar certo e esse “dar certo” é íntimo a cada trabalho. Sobre o cenário acho que está faltando os “grandes” pensar como eles são e até ou acreditar mais em si e no seu trabalho (risos). No reggae falta um pouco do ousar, inovar e juntar. Acredito que esses três elementos juntos são capazes de ampliar os horizontes do reggae atual fazendo com que o a cultura caia nas graças de pessoas comuns não somente de regueiros.

18) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso a tecnologia  de gravação (Home Studio)?

MaySistah: A vantagem é o poder de praticar a gravação… Hoje em dia a maioria das bandas tem o seu, mas poder desfrutar de um estúdio com tecnologia e equipamentos de ponta fazem diferença para o trabalho. Mas conheço álbuns incríveis que foram produzidos em casa e que deu muito certo… Só tem vantagem. Principalmente pro multi-instrumentista como eu, que tem a possibilidade de gravar todos os instrumentos  da música sem depender de outras pessoas (risos).

19) RM: Quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

May Sistah: No Reggae tenho visto que os trabalhos do Dada Yute tem chamado a atenção pela versatilidade das estéticas trazidas pra dentro do reggae, ele ousa, propõe parcerias, o reggae está precisando mais disso. O SensimilaDub (Neskau Magnarelo) também vem ampliando os horizontes do reggae music de longo alcance. MonkeyJhayam e o Men que atua com Leões de Israel trazem propostas diferentes também.

20) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical (falta de condição técnica para show, brigas, gafes, show em ambiente ou público tosco, cantar e não receber, ser cantado e etc)? 

MaySistah: Já aconteceu tudo descrito na pergunta (risos). Uma das experiências mais marcante, foi uma vez o técnico de som não ter conseguido alinhar as caixas P.A (PUBLIC ADRESS = endereçamento ao público) e ficava dando microfonia no meio do show, tivemos que parar diversas vezes até o técnico de som abandonar o posto e deixar o local (risos).

Fizemos uma gambiarra lá desligamos os microfones da bateria, deixamos as P.A só pra voz, não usamos microfone para o Trompete e terminamos o show sem os instrumentos na linha. Mas a casa nos propôs uma contra proposta em forma de desculpas e se retratou da melhor forma. Mas foi bizarro, o público não tava entendendo nada. Tivemos outra oportunidade em realizar o show naquela casa, foi com a banda DaviDariloco.

Outra coisa inusitada que aconteceu foi uma produtora que confundiu as bandas por ter nome parecido, e pediu que confirmássemos uma apresentação em um espaço público em São Paulo, confirmamos. Eu contratei toda a banda e quando chegou 3:00 antes da apresentação a mulher disse ter se enganado, pois negociamos e ela conseguiu ressarcir os custos de quem se locomoveu até o local. Esse foi demais…

21) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

MaySistah: Feliz é ter a oportunidade de cantar com os irmãos, nas apresentações ao vivo no improviso, quando outras bandas e projetos me chamam pra participar, cantando ou tocando algum instrumento, ou gravando. Ver os artistas se unindo, fazendo parceria, dividindo show, cantando junto…

Ah triste, não sei pontuar a tristeza assim. Mas artistas que não praticam a humildade e “se acham” me chateiam um pouco, mas não fico triste não… O Machismo também me deixa chateada, algumas situações que fui diminuída por ser mulher, ou periférica, ou lésbica, ou fora dos padrões…

Enfim rótulos e preconceitos me chateiam, mas quando se fecha uma janela abrem-se portas. Acredito nisso. E é bem difícil eu ter esse sentimento, se estou fazendo minhas coisas estou feliz e nada me atrapalha (risos). Temos que sempre agradecer a vida e as oportunidades.

22) RM: Nos apresente a cena musical na cidade que você mora?

MaySistah: Moro em São Paulo, onde tem uma cena musical infinita… Nunca dá pra conhecer tudo e todos. Porém no reggae ainda tem alguns artistas que perdem a oportunidade em fazer parcerias, agregar pessoas e ampliar a cultura reggae rastafári. Vejo também uma crescente evolução na cultura e no cenário, aonde os homens rastas vêm agregando e exaltando mais a força ômega (feminina) e também amadurecendo.

Nascemos em uma sociedade extremamente capitalista e machista, em que as coisas materiais e o poder tomam os olhares de quem faz acontecer. Tenho sentido a evolução em muitos que há uns 10 anos atrás agiam de forma diferente. A galera do Fórum do reggae, os meninos do Portal Ras e do Instituto Bola de Fogo falam muito sobre agregar essa força feminina, incentivando e promovendo a força ômega abrindo espaço para as mulheres perder a timidez e participar cada vez mais como ativas no movimento. Isso me dá muito orgulho da cultura reggae/rastafári que vem ampliando os olhares dos irmãos e simpatizantes do movimento. 

23) RM: Quais os músicos ou/e bandas que você recomenda ouvir?

May Sistah: David Hubbard e Tikinho do Brasil são mestres do reggae e anciões Rastafári que nos ensina, nos aconselha sempre direcionando para o bem; banda União Rasta, Família Teocratas Allan Z, QG Imperial, KampFar I, Monkey Jhayam, RAP Plus Size, Semente Regada, Denise D´Paula, DaviDariloco, Sistah Chilli, Unidade Punho Forte, Nyabingui Brothers, Sistah Mari, Odisseia das Flores, Gabi Nyarai, Luana Hansen, Tassia Reis, Gritos Ocultos, Ethiopicos, Ras Menor, Rebote Zion, Mulamba, Bia Ferreira, Pscipretas

24) RM: Quais os cantores e cantoras que gravaram as suas canções?

MaySistah: Por enquanto nenhum, eu já vendi músicas, mas fazia parte do contrato não reclamar direitos autorais, me restringindo dos mesmos, gravamos com a Sistah Mari Reggamente.

25) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

May Sistah: Não incialmente. Quem sabe futuramente…

26) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

MaySistah: Acredite e lute para construir o seu trabalho, mesmo que para os outros isso é absurdo! Junte-se com quem também acredita, e encontrar essas pessoas pode demorar, mas, tudo no tempo de Deus e dentro do nosso planejamento e investimento material e imaterial.

27) RM: Como você analisa a relação que se faz do reggae com o uso da maconha?

MaySistah: Infelizmente tem pessoas que ainda atribuem o reggae ao uso da erva cannabis sativa, a cultura rastafári tem a sua ideologia e as pessoas confundem e julgam sem conhecer. Não sou rasta e não faço apologia, tenho outros assuntos para falar na frente que julgo ser mais latente a mim do que me posicionar sobre o uso da erva.

Mas seria como julgar todo Rapper de ladrão, todo sambista de boêmio e toda dançarina de puta entre outros rótulos que a geração Baby Boomers (Explosão de Bebês; são todas aquelas pessoas nascida entre 1945 e 1960, logo depois da Segunda Guerra Mundial), alguns religiosos e ditadores tem a tendência de taxar. Abstenho-me de qualquer opinião ou julgamento relativo a isso.

Acredito que ações pessoais são intimas demais pra ser comentadas assim, mesmo que uma massa a pratique! Preconceito é difícil de lidar! Cada um sabe o que faz!

28) RM: Como você analisa a relação que se faz do reggae com a religião Rastafari?

MaySistah: Os rastas me ensinam muita coisa. A doutrina me guia em muitos pensamentos, e acho fantástica a forma como expressa isso através da música reggae que veio dessa manifestação ancestral e que hoje como estética musical se ampliou e vem tomando o mundo não só trazendo a sua raiz e acompanhando as mudanças, mas também abrindo e somando as outras vertentes da música, ampliando a mensagem e o movimento.

O Nyahbinghi (palavra foi adotada pelos rastas jamaicanos, como afirmação de sua fé na luta contra a Babilônia e passou a significar “Morte aos opressores, brancos e negros” e se tornou um ritmo “Batida do Coração” junto a cânticos de louvação “Nyahbinghi Chant”, que eram em geral Salmos da Bíblia, ou adaptações de cânticos cristãos locais) é uma coisa mágica que só quem já participou sabe o que é, sentir e poder batucar a batida do coração em uma experiência incrível e renovadora que limpa nossa mente nos fortalecendo e criando pensamentos bons.

Pois o capitalismo tem deixado às pessoas doentes e tristes, com mania de juntar coisas materiais, o que faz sentir mal quando não é selecionado em uma das caixinhas do sistema. O reggae traz esse empoderamento, não precisamos nos encaixar em um padrão, só precisamos ter fé, sermos verdadeiros e acreditarmos em nós mesmos, sempre agradecendo e retribuindo ao universo e ao Jah. O movimento tem outras correntes, entre elas a capoeira, o sound system, os Cantores e MC’s, a alimentação I Tal, a vestimenta, os dreadloocks. Além das mensagens sobre a cultura que agrega muito quem participa.

29) RM: Você usa os cabelos dreadlock. Você é adepto a religião Rastafari?

MaySistah: Tenho dois dreadloocks, não sou rasta, pratico mais o espiritismo, mas me sinto muito bem nas cerimonias rastafari e nas rodas de Nyahbingui, onde posso desfrutar da religião de maneira diferente e bem a vontade e sem rótulos e ouvir a palavra.

30) RM: Os adeptos a religião Rastafari afirmam que só eles fazem o reggae verdadeiro. Como você analisa essa afirmação?

MaySistah: Não vejo os irmãos rastas fazerem esse julgamento. No reggae de uns 15, 20 anos atrás (quando comecei) era mais latente essa situação, mas hoje em dia com o empoderamento do preto, da mulher, do periférico isso se distancia nos dias de hoje, é lógico sempre tem a exceção, mas não se faz mais maioria na minha vivencia.

Tenho visto muitos irmãos rastas evoluírem em seus pensamentos e práticas e acredito que desse pensamento também. O reggae verdadeiro é feito com muito amor de verdade e muita emoção no coração. Vários rastas ancestrais que conheço afirmam: o rasta não está na aparência e nem na musicalidade, mas sim no pensamento, atitude e coração…

31) RM: Na sua opinião por que o reggae no Brasil não tem o mesmo prestigio que tem na Europa, nos EUA e no exterior em geral? 

May Sistah: Porque aqui a indústria da música fica rendida aos investimentos das grandes gravadoras. O reggae quebra um pouco esse tabu, pois essas gravadoras não investem em artistas desse cenário, por não ser uma indústria milionária. O que a meu ver promove mesmo a cena independente, é nós artistas se fortalecendo e se fazendo grande com as nossa autonomia.

Levando o reggae a um estádio como aconteceu no Kaya reggae fest (sem  patrocinadores milionários), assim como “República do reggae” (o maior festival anual de reggae do Brasil). Os eventos do Dia Municipal do reggae realizados pelo Fórum do reggae. O movimento pelo movimento, o reggae está crescendo novamente! O Ousar dentro do gênero vem tomando grandes proporções e abrindo portas entre nós músicos e produtores que tem a estrutura pra desenvolver festivais grandes dentro do reggae.

Acredito que o cenário se fortalece também com o retorno do “circuito reggae” que faz muito pelo movimento, tirando do anonimato bandas e artistas fantásticos e os trazendo para a massa. Acontecimentos concretizam essa crescente. Em Novembro de 2018, o Reggae jamaicano foi reconhecido pela Unesco como Patrimônio imaterial. Há criticas que enfatizam que não precisamos de organização reconhecer a nossa influencia, de fato! Mas em contrapartida faz com que o reggae apareça em outros espaços atingindo outros tipos de pessoas.

32) RM: Quais os prós e contras de usar o Riddim como base instrumental? 

May Sistah: Usar Riddim no reggae é o mesmo que usar os beats no RAP, são movimentos muito próximos. Quando você já conhece o Riddim fica mais legal de ouvir e perceber a habilidade do cantor ou MC em usá-lo da melhor forma o adequando ao seu flow… Gosto muito dessa versatilidade, e ultimamente tenho experimentado apresentações com Sound System usando os meus e outros riddims, ora usando algum instrumento ou voz para agregar na sonoridade.

33) RM: Você faz a sua letra em cima de um Riddim já conhecido usando uma linha melódica diferente?

MaySistah: Sim, nunca tinha feito uma apresentação em cima de uma riddim pronto, só tive prática de fazer ao vivo com banda em participações sem ensaio que chegava e combinava com os meninos ali no momento mesmo, e sempre deu certo fazer um freestyle, ou mandava um letra minha e tudo bem…

Às vezes era bem legal, às vezes nem tanto; sou exigente comigo, mais ainda com música (risos). Esse ano em setembro eu participei de um Festival de Música, e não queria me apresentar sem banda, e baixei e editei o riddim Anarexol Dub do Eek a mouse. O resultado me surpreendeu, ganhei entre os 10 primeiros e fui premiada com a gravação do riddim na Fábrica de Cultura, um troféu e um certificado de participação. Foi bem legal. É diferente usar riddim, você usa uma ideia que já existe, quando criamos do zero é legal também, mas é outro tipo de experiência.

34) RM: Você acrescenta e exclui arranjos de um Riddim já conhecido? 

MaySistah: Excluir é difícil, mas acrescentar é bem massa e poder contribuir sonoramente com uma coisa que já existe e que vários artistas usam com a sua particularidade, fortalece a identidade musical do artista, ampliando o desenvolvimento musical e passando por experiências únicas a cada riddim.

35) RM: Quais os prós e contras de fazer show usando o formato Sound System (base instrumental sem voz)? 

MaySistah: Contras, porque acho chato na minha prática, amo tocar com a banda, em dividir a sonoridade com outras pessoas, mas na falta de tu vai tu mesmo (risos). É diferente e muito legal, pois abre outras possibilidades musicais, quando você só canta, ou coloca um instrumento pra agregar num riddim…

36) RM: Quais os seus projetos futuros? 

MaySistah: Lançar o meu álbum solo backingband União Rasta. Lançar a mix tape, produzida majoritariamente por mim. Terminar a Demo da DaviDariloco. Consolidar oficialmente a produtora “May’s World Productions” (que vem trabalhando já esse ano). E quem sabe, lançar um livro com meus poemas que escrevi para Slam (competição de poemas). Publicar os Zines que já criei também. Produzir Clips e fazer parcerias, além dos Podcasts. 

37) RM: Quais os seus contatos para show e para os fãs? 

MaySistah: (11) 94451 – 7259 – May | [email protected] | Insta @Maysistah artista (profissional) | Facebook @mundodemay | Youtube: Canal Radio UniaoBr (construído por mim) | DaviDariloco: Clip Luanda – https://youtu.be/zHeZmDOif_E

| single Reggamente – Participação Sistah Mari – https://youtu.be/4IxDHxiqMkw

| Single Felicidade (vou com Jah) – https://youtu.be/JSe0w9BCCFE

| Quer saber se tocamos bem?  Assista: https://youtu.be/4ONrlYucprw

| livestteping out –  releitura steel pulse com freestyle em português no meio… Nesse mostramos a nossa musicalidade como banda de apoio projeto – Elas cantam Marley com Denise d´Paula, Sistah Mari, Odisseia das Flores e Talita Cabral –  https://youtu.be/smBaMi38O64 por Filme Zero |  Clip com Tassia Reis e RapPlusSize –https://youtu.be/ar16kIFWERI | Inicio do show na Galeria Olido, introdução e releitura da música mixup com improviso e introdução: https://youtu.be/5fEAsUm9A6k

MaySistah 1 Ritmo Melodia

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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor responsável pela revista digital RitmoMelodia desde 2001, jornalista, músico, poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, propaga a diversidade musical brasileira através de entrevistas e artigos. Jornalista formado pela Universidade Estadual da Paraíba - UEPB (1996 a 2000) que lançou um livro de poesia em 1998 e seus poemas ganharam melodias gravadas em três álbuns concluindo a trilogia "reggae baseado em poesia" no seu projeto musical Reggaebelde. Unindo a sensibilidade do poeta, músico com o senso crítico do jornalista e pesquisador musical colocado em prática em uma revista que Canta o Brasil.