Marcio Bragança

Marcio Bragança

Marcio Bragança tem sua musicalidade influenciada pelo Blues, Jazz, Soul, Bossa Nova, Pop-Rock e pelo Samba e possui vasta experiência na noite e em bailes.

Marcio Bragança tem uma extensão vocal de três oitavas e habilidade no uso dos falsetes, fruto da influência da música de Minas Gerais. Aos nove anos de idade deu seus primeiros passos musicais participando do coral de sua igreja e do coral de sua escola, onde teve sua primeira experiência com os palcos, participando de um concurso de corais onde seu grupo tirou o primeiro lugar, dando direito a participar da solenidade da ECO-92, na praia de Botafogo-RJ, evento assistido no mundo inteiro.

Marcio Bragança começou a cantar profissionalmente em 1994 nos Bares cariocas em paralelo com sua curta, porém marcante carreira de cantor gospel católico. No ano de 2000, começou a estudar na Escola de Música Villa-Lobos em que concluiu o curso em 2002. Em 2003 participou de um programa de empreendedorismo da Shell chamado Iniciativa Jovem e o seu projeto musical recebeu o SELO EMPREENDEDOR SUSTENTÁVEL, com chancela da UNESCO. Nesse momento, Marcio entendeu que precisava gerir sua carreira como se fosse uma empresa.

Marcio Bragança foi membro da equipe do Centro Municipal de Referência da Música Carioca Artur da Távola em 2011. Dirigiu o Movimento Musical OutrosSim, que foi criado em 1997 por Jorge Vercillo e Marcelo Miranda.

Marcio Bragança é Curador Musical do Corujão da Poesia – Universo da Leitura, que tem Jorge Ben Jor como padrinho. É membro do Clube Caiubi de Compositores, que reúne grandes vencedores de Festivais de música por todo o Brasil.

Artista multifacetado, Marcio Bragança é ator, poeta e cronista. Tem na sua discografia apenas um álbum – “Odisseia”, lançado em 2010, com um repertório bastante eclético.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Marcio Bragança para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 20.08.2020:

Índice

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Marcio Bragança: Nasci no dia 24 de novembro de 1977 no Rio de Janeiro – RJ.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Marcio Bragança: A música chegou na minha vida por herança de família. Na geração do meu avô materno, Pedro, havia muitos músicos. As festas da família, da parte materna, eram quase sempre com música ao vivo. Minhas tias-avós eram cantoras de rádio e tinham aquele vozeirão característico. Meu avô tocava um pouco de violão. Por outro lado, na parte paterna, também não podia faltar música, mesmo sendo através dos discos. Na minha casa havia muita música. Meus pais tinham muitos discos de vinil. O “chamado” para música, eu tive aos 8 anos de idade através do LP – “Realce” de Gilberto Gil, que carinhosamente chamo de “meu pai musical”.

Durante muito tempo, quando eu voltava da escola, ia direto para vitrola lá de casa e ficava ouvindo o LP – “Realce” de ponta a ponta. Enquanto eu ouvia, ficava fazendo gestos como se eu estivesse tocando junto com os outros músicos. Na época eu não sabia que esse era o meu chamado, pois meu sonho naquele momento era ser jogador de futebol, que não pude realizar por causa do meu joelho esquerdo. Joguei em dois clubes de pequena expressão na infância e adolescência.

03) RM: Qual sua formação musical e\ou acadêmica fora da área musical?

Marcio Bragança: Na área musical, tenho formação básica e técnica na Escola de Música Villa-Lobos (RJ) e curso superior de Gravação e Produção Fonográfica na Universidade Estácio de Sá (RJ), além de diversos cursos livres de Áudio. Fora da área musical, concluí a faculdade de Licenciatura em Letras – Português/Inglês na Unicesumar (PR), concluí alguns cursos técnicos na área de informática e estou fazendo cursos técnicos de Eletrônica, realizando um desejo antigo.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Marcio Bragança: Talvez possa soar antiquado pra algumas pessoas, um certo saudosismo, mas as minhas influências musicais no passado são exatamente as que me influenciam no presente. Isso não significa que eu não admire o trabalho dos meus contemporâneos, mas acho que se tem três exemplos que posso considerar influência, o primeiro é o Vander Lee, pela simplicidade dos arranjos, pela forma poética de dizer coisas do nosso dia a dia e o segundo é o Ed Motta, pela forma plural de pensamento musical, pelo cuidado na execução, pelo senso de experimentação e inovação. O terceiro exemplo é Cássia Eller, o mais perfeito exemplo de pluralidade musical. Cássia tinha uma marca, mas não limitava sua musicalidade a um estilo. O que vinha, ela cantava com força, expressão e originalidade.

Já sobre as influências do passado, o referencial é vasto, pois ouço os mais variados estilos musicais. Posso considerar a banda americana Earth, Wind & Fire como a maior das influências, pois é através do som deles que vem a forma que eu penso musicalmente.

No exterior, os referenciais diretos são poucos, mas bem pontuais: Michael Jackson, Paul McCartney, Stevie Wonder, Gino Vannelli, Michael McDonald, Elton John e Bill Withers. Essas são as principais fontes “gringas”, além de toda a admiração que tenho pelo produtor Quincy Jones. Há vários outros nomes que fazem parte da minha cultura musical, mas não posso dizer que são influências diretas.

Já no Brasil, a lista é grande. Obviamente que ela começa por Gilberto Gil. Já citei acima Vander Lee e Ed Motta. Ela segue, sem ordem de preferência, com Djavan, Caetano Veloso, Emílio Santiago, Jorge Ben Jor, Tim Maia, Cassiano, Ivan Lins, Flávio Venturini, Milton Nascimento, Gonzaguinha, Tom Jobim, João Gilberto, Alceu Valença, João Bosco, Elis Regina, Marina Lima, Rita Lee, Nando Reis, Moraes Moreira, Pepeu Gomes, Kleiton & Kledir, Byafra, Dalto, Roupa Nova, Paulinho da Viola, João Nogueira, Zeca Pagodinho, Almir Guineto, Martinho da Vila, Fundo de Quintal, Arlindo Cruz, Jorge Aragão… e muito mais… A pluralidade de referenciais é muito presente na forma que faço música.

Os ritmos brasileiros são muito presentes no meu repertório de Barzinho, principalmente Samba e Bossa Nova. Porém, como compositor, tenho poucas canções nesses dois estilos citados.

05) RM: Quando, como e onde você começou sua carreira musical?

Marcio Bragança: Acho que sou um dos poucos artistas que lembram exatamente a data do início da carreira profissional. Pelo menos não vejo os artistas citando essas datas (risos). Comecei exatamente em 7 de setembro de 1994, num pequeno Boteco na Zona Norte do Rio de Janeiro. Eu estava fazendo o curso de Crisma numa paróquia do bairro de Piedade (Zona Norte) e eu comecei a cantar na Igreja.

Um senhor que tocava nesse Boteco me chamou para cantar com ele e naquele dia ganhei meu primeiro cachê como cantor. Depois, na Igreja Católica, comecei uma carreira musical que durou cerca de 10 anos. No começo, eu cantava nos Barzinhos escondido do pessoal da banda, pois não era bem visto “cantar no mundo”. Esse senhor que me acompanhava me deu a dica de ouro que eu precisava para começar a minha carreira, ele disse: “Aprenda a tocar violão para que não dependa de alguém pra tocar para você”. Segui o conselho e comecei a aprender Violão de forma autodidata com aquelas revistinhas de violão vendidas nas bancas de jornais. Em menos de um ano, eu já estava com condições de tocar uma apresentação inteira.

06) RM: Quantos CDs lançados?

Marcio Bragança: Em 2010 lancei CD – “Odisseia”. O perfil musical costumo dizer que é MPB/Pop. As pessoas que conhecem esse disco costumam gostar muito de: “Grades do Tempo” (Marcio Bragança / Toninho Spessoto), “Expresso Oriente” (Marcio Bragança / Nilton Bustamante), “Sol” (Duda Lucena), “O Meu Lugar no Mundo” (Sonekka / Zé Edu Camargo), “Agridoce” (Sonekka / Zé Edu Camargo).

07) RM: Como você define seu estilo musical?

Marcio Bragança: Eu definiria “World Music” pela diversidade de referenciais, mas esse termo já existe e ele é bem específico. Se for pra nomear de forma fácil de entender, fico com o termo abrangente MPB, que nada mais é que um conjunto de ritmos brasileiros.

08) RM: Você estudou técnica vocal?

Marcio Bragança: Não estudei de forma aprofundada, pois minha formação vocal é mais para o canto popular, com foco mais na interpretação, no uso cênico da voz, do que na técnica em si.

09) RM: Qual a importância do estudo de técnica vocal e cuidado com a voz?

Marcio Bragança: A importância é máxima! A Voz é um instrumento que não tem reparo. Se você danifica a Voz, não tem luthier para consertar. Tem danos que até se consegue acertar com fonoaudiologia e algumas cirurgias, mas a maioria dos danos são permanentes. A longevidade da Voz se dá no cuidado que temos com ela. Cantores e cantoras que conseguem cantar por muitos anos usando a voz de forma errada não são a regra! São RARAS exceções. Uma coisa que aprendi na prática e tive tempo de corrigir, é nunca mais cantar em tonalidades desfavoráveis para a minha tessitura. Desse jeito, conseguirei cantar com qualidade ainda por muitos anos.

10) RM: Quais as cantoras(es) que você admira?

Marcio Bragança: Além dos cantores e cantoras citados nas referências musicais, admiro Maurice White e Philip Bailey (já citados indiretamente por serem do Earth, Wind & Fire), Chaka Khan, Aretha Franklin, Whitney Houston, Dionne Warwick, Freddie Mercury, George Michael, Maria Bethânia, Marisa Monte, Ivete Sangalo, Gal Costa, Pedro Mariano, Simone, entre muitos outros…

11) RM: Como é seu processo de compor?

Marcio Bragança: Não existe um processo padrão, a não ser o fato de eu não gostar das letras que escrevo. Prefiro sempre fazer a melodia e harmonia. Quanto à letra, prefiro contribuir com inserções nas letras dos parceiros ou determinando a direção discursiva da letra.

12) RM: Quais são seus principais parceiros de composição?

Marcio Bragança: Os parceiros com quem tenho mais canções são: Nilton Bustamante, Dênis Rubra e Cassiano Andrade.

13) RM: Quem já gravou as suas músicas?

Marcio Bragança: Apenas a cantora paulistana Maga Lieri gravou minha canção “Grades do Tempo” (parceria com Toninho Spessoto) em seu CD – “Bem Acompanhada”.

14) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Marcio Bragança: Há mais prós do que contras. Começando pelos contras, o artista independente não tem ao seu favor a “máquina”, ou seja, a grande mídia. Há artistas independentes que tem alta visibilidade, mas todos esses artistas fizeram parte da “máquina”. Suas visibilidades caíram, porém, estão em situação bastante confortável, comparada à situação dos demais artistas independentes. Eu vejo como único contra essa questão da distribuição do trabalho.

Por outro lado, os prós, já começam pelo que considero o principal: a liberdade artística. O artista ser o dono do seu trabalho. Deixa-me um pouco aflito pensar que tenho que compor um hit de sucesso para “manter meu contrato com a gravadora”. Isso pra mim é “prisão”. Acho outra coisa favorável em ser independente a questão de estar mais próximo do seu público. Eu sei que tem artistas que não gostam do contato com o público. Eu poderia citar outros prós, mas todos eles vão perpassar pela mesma questão: liberdade. Liberdade, para mim, é algo fundamental para um artista.

15) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

Marcio Bragança: Estou num momento em que estou revendo todas as minhas estratégias. Tenho avaliado o que funcionou e o que não funcionou. O principal pensamento atualmente é saber qual a minha relevância artística, o que posso oferecer, o que melhorei, o que preciso melhorar.

Fora do palco, determinei planejar toda a minha parte financeira, pois a renda de um artista independente é muito volátil e por muitas vezes precisamos ter outra fonte de renda. Decidi também estudar o mercado musical e não sair mais fazendo as coisas por puro impulso.

No palco, tenho tentado estabelecer uma marca, coisa difícil pra quem toca em barzinho, pois o público por vezes nos trata como “jukeboxes humanas”. As estratégias tem passado por muitas reflexões nos últimos tempos.

16) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira?

Marcio Bragança: Investimento em aprendizado, principalmente no que diz respeito à criação de conteúdo. Nos tempos de hoje, apesar da liberdade artística que um artista independente tem, se ele quiser se manter em voga, tem que criar conteúdo, tem que lançar periodicamente seus produtos. Tenho pensado em algumas ideias para desenvolver produtos que possam alavancar a carreira musical. Penso na minha carreira como se fosse uma empresa a se administrar.

17) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira?

Marcio Bragança: A internet, de certa forma, democratizou um pouco as coisas. Digamos que tornou o caminho menos difícil. Hoje, não necessariamente, um artista depende de rádio e televisão para desenvolver a carreira musical. Porém, as grandes mídias já entenderam que a internet é um caminho forte a se trilhar e estão investindo pesado, o que acaba atrapalhando o caminho do artista independente e faz com que voltemos a depender dessas mídias. Mas ainda prefiro a existência da internet. As possibilidades de êxito são bem maiores do que se ela não existisse.

18) RM: Quais as vantagens e desvantagens do fácil acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)?

Marcio Bragança: Não vejo desvantagem no home estúdio. Se todo artista independente tivesse seu home estúdio, sabendo usá-lo com qualidade, poderia estar criando seu conteúdo com mais facilidade. Poderia, se não gravar seu trabalho e lançar, já poderia economizar bastante com a pré-produção. Lançar conteúdo é a forma de competir no mercado e se fazer ser visto.

19) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo. Mas, a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Marcio Bragança: Hoje em dia, realmente, não é mais difícil gravar um disco. Porém, a facilidade engana um pouco e vários discos com baixa qualidade tem sido lançados, pois há produtores que pensam que não precisam estudar, pois as máquinas já praticamente fazem todo o trabalho. Na concorrência de mercado, eu faço duas coisas simples para me diferenciar. Na verdade, essas duas coisas simples deveriam ser o básico pra um artista: a primeira, entregar uma experiência sonora de qualidade, com som bem feito, bem regulado e bem executado, o que no meu nicho musical é hoje uma exceção e não a regra. A segunda, definir um estilo, uma marca, uma identidade, pois tocar no Barzinho acaba tornando aquele artista como mais um, como a cópia das cópias. Tocar no Barzinho é uma escola fantástica, mas se o artista não prestar atenção, é um prejuízo incalculável no processo criativo.

20) RM: Como você analisa o cenário musical brasileiro. Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Marcio Bragança: Todo artista que deixou de lado a sua arte para virar um mero militante político, regrediu. Isso não quer dizer que eu pense que o artista deve se abster. Não, não, o artista tem que se posicionar! Porém, temos a arte como forma de nos posicionarmos. Foi assim que maravilhosos artistas lutaram contra períodos de atraso mental e político no país: com as canções! Quando um artista prefere não mais se posicionar artisticamente, e sim com palavras que nem sempre são acompanhadas de atitudes congruentes, além de serem meras repetições que até um papagaio faria.

Gostaria de citar como exemplos de consistência artística nos últimos 20 anos os trabalhos de: Pedro Mariano, O Rappa (mesmo com o fim do grupo, a obra marcou), Criolo, Pitty, Maria Rita (ao abraçar o samba, encontrou o seu lugar).

21) RM: Quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Marcio Bragança: Nelson Faria, pelo talento, cuidado musical, generosidade em transmitir conhecimentos e pela capacidade de se reinventar. Mas, nesse sentido, não tem melhor exemplo do que Djavan. Uma obra respeitada mundialmente, uma pessoa que não fica arrumando confusão nos bastidores, um músico totalmente afiado e cuidadoso com cada nota e, principalmente, fazendo arte sem ficar militando pra lado A ou lado B. É um dos nossos gênios da música.

22) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical?

Marcio Bragança: Eu vivi situações diversas na minha carreira. Senta, que lá vem história: Falta de condição técnica para o show? Isso foi muito constante quando eu não tinha o meu próprio equipamento. Toquei em diversos lugares que não tinham um equipamento básico em bom funcionamento.

Brigas? Já presenciei diversas e infelizmente participei de duas, pois elas vieram até mim. As duas envolveram pessoas muito embriagadas, uma constante para quem toca na noite. Uma das brigas foi porque o cara queria cantar, dar a famosa “canja”, mas visivelmente estava sem condições de fazer isso. Diante da minha negativa, ele não gostou e tentou me dar um soco, que por sorte não acertou. Ao me defender, machuquei um pouco o bêbado.

A outra briga envolveu mulher. Havia uma mulher, frequentadora assídua do Bar, que sempre bebia muito e ficava “doidona”. Fiquei sabendo, da pior maneira, naquela noite que ela tinha um interesse em mim. Ela sempre pedia que eu tocasse um grande sucesso da cantora Rosana e eu atendia, como costumo atender pedidos feitos no Barzinho. Eu namorava uma moça naquela época e ela foi comigo ao Barzinho na noite da briga. Movida por ciúme, essa mulher começou a me hostilizar durante a noite toda e num determinado momento eu pedi para ela parar. Ela chegou perto de mim, jogou a cerveja na minha cara e tentou me dar um tapa. Eu apenas cobri o rosto para me defender e pedi que alguém tirasse essa mulher dali. Duas pessoas vieram para tirá-la, mas a soltaram depois, o que foi suficiente para ela pegar um copo e tacar na minha direção. Sorte que ela errou… Aí ela tentou pegar uma cadeira pra jogar em cima de mim… Seguraram a mulher de novo e dessa vez a levaram para fora. Foi terrível…

Show em ambiente e público tosco? Cantar e não receber? Coisas bem constantes, infelizmente, na vida de uma pessoa que canta na noite.

O fato que considero mais engraçado foi quando eu fui contratado para tocar por uma hora dentro de um quarto numa mansão para criar um clima para um casal depois “fazer amor”. Eles estavam jantando enquanto eu tocava. A mulher estava sentada meio que de costas para mim. Acontece que ela toda hora olhava para trás, pois estava gostando da música… O camarada que contratou ficou chateado e me dispensou com quase meia hora de trabalho, mas pelo menos recebi o cachê inteiro (risos).

23) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Marcio Bragança: A música só me deu alegrias. Com ela eu pude ter as coisas que tenho, viajar a lugares interessantes, conhecer pessoas de diversas culturas. Eu sou muito grato à música por conta de tudo isso! Eu só fico triste com a desunião dos meus colegas de profissão. Isso enfraquece toda a nossa classe.

24) RM: Existe o Dom musical? Como você define o Dom musical?

Marcio Bragança: Acredito, por diversas razões, que pessoas nascem com uma aptidão para determinadas coisas. O dom musical existe sim. Defino como a tal aptidão, que não se sabe ao certo de onde vem, que faz aquela pessoa ter uma “facilidade” diferenciada pra se desenvolver musicalmente. Mesmo com o dom musical, é necessário treino, prática, estudo. Por isso, creio que a música é acessível para qualquer pessoa.

25) RM: Qual é o seu conceito de Improvisação Musical?

Marcio Bragança: É a aplicação, de forma intuitiva, de todos os recursos técnicos e repertório de fraseados musicais que um determinado músico possui.

26) RM: Existe improvisação musical de fato, ou é algo estudado antes e aplicado depois?

Marcio Bragança: De fato existe, mas a capacidade de improvisação necessita de estudo e domínio do instrumento. Quanto mais habilidade o músico tem, maior o campo de improvisação. Improvisar é um ótimo exercício de aprimoramento da técnica de um determinado instrumento.

27) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre Improvisação musical?

Marcio Bragança: A parte mais favorável dos métodos sobre improvisação é a construção de um repertório de fraseados melódicos e sequências harmônicas que vão desenvolvendo a percepção do músico, para que assim ele possa construir novos fraseados e sequências. Os métodos de improvisação costumam dar toda a fundamentação para esse desenvolvimento acontecer. A parte desfavorável é quando o excesso de técnica deixa aquela improvisação sem a parte emotiva e humana que dá um “molho” naquela peça musical.

28) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre o Estudo de Harmonia musical?

Marcio Bragança: A parte favorável é o fundamento teórico daquilo que o músico vai fazer na prática. O estudo de harmonia revela a diversidade de ideias que podem ser aplicadas numa peça musical. Porém, o contra é quando esse estudo faz o músico não desenvolver o seu ouvido. Não adianta dominar harmonia e não conseguir sentir auditivamente aqueles sons.

29) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Marcio Bragança: Eu mentalizo que as minhas canções tocarão nas rádios sem pagamento de jabá, mas no momento dessa entrevista (2020), estou com 25 anos de carreira e depois que lancei meu disco “Odisseia” em 2010, procurei algumas rádios FM aqui no Rio de Janeiro e quase todas elas me propuseram o jabá. Então, nessa altura do campeonato, sendo bem realista, acho difícil uma canção minha tocar nas principais rádios sem pagamento de jabá, pelo menos no Rio de Janeiro.

30) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Marcio Bragança: Respeite essa arte, faça com amor, mesmo que você precise se tornar um “produto” na grande mídia. Estude seus instrumentos, tenha excelência no que faz. Não acredite em qualquer produtor que apareça. Faça amigos. Hoje em dia, a boa convivência com as pessoas faz diferença. Se você fica mal visto na praça, a coisa não vai andar. Se puder, seja o mais verdadeiro possível musicalmente falando. Valorize o seu trabalho e valorize o trabalho dos colegas. Acredite em si mesmo. Organize sua vida e curta muito, divirta-se fazendo música!

31) RM: Quais os prós e contras do Festival de Música?

Marcio Bragança: A parte maravilhosa dos Festivais de Música é o fato de podermos divulgar as nossas canções e conhecer outros compositores. Porém, a parte que é muito desfavorável é o “fechamento” desse mercado. Nos Festivais Brasil afora os nomes são quase os mesmos. Num país tão rico de talentos, me parece bastante estranho ver os mesmos competidores nos principais Festivais. Há um grupo que fica “revezando” nas classificações e prêmios dos Festivais. Acho isso nocivo num país tão repleto de grandes talentos, é como se a “roda da história não girasse”. Fica parecendo que a MÚSICA deixou de ser o critério principal de um festival de MÚSICA.

32) RM: Hoje os Festivais de Música revelam novos talentos?

Marcio Bragança: Não mais. Talvez por ter virado uma espécie de “indústria”, não vejo as canções vencedoras dos principais Festivais de Música entrando no cancioneiro popular, como era antes. As canções dos Festivais de mais de 20 anos atrás, mesmo as que não venciam, entravam pro cancioneiro popular. Os grandes nomes da MPB, por exemplo, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Edu Lobo, Chico Buarque, Ivan Lins, João Bosco, fizeram parte da sua história nos Festivais. Hoje em dia, os festivais me parecem um “universo paralelo”. Ou seja, só um público específico, que acompanha os Festivais, conhece de fato grande parte dos compositores e intérpretes que lá participam. Uns poucos, desses artistas, conseguem notoriedade fora daquele universo.

33) RM: Como você analisa a cobertura feita pela grande mídia da cena musical brasileira?

Marcio Bragança: A cobertura feita pela grande mídia da cena musical brasileira é desleal e nociva. Virou indústria. Essa indústria decide o que faz sucesso ou não. O público pensa que escolhe, mas não tem escolha. A predominância de qualquer estilo musical é nociva pro cancioneiro popular. A cena musical brasileira coberta pela grande mídia é extremamente pobre nos quesitos melódicos, harmônicos e líricos. Não é à toa que essas canções tem prazo de validade muito curto, pois a composição de grande parte desse “repertório” é totalmente industrial. Perdeu o sentimento. Virou puro entretenimento. Por isso que as canções de antigamente sempre continuarão tocando, pois essas ficarão. As canções “fast-food” não ficarão, pois é para consumo imediato e mais nada.

34) RM: Qual a sua opinião sobre o espaço aberto pelo SESC, SESI e Itaú Cultural para cena musical?

Marcio Bragança: Nunca verei de forma negativa nenhuma abertura de espaço para a cena musical. Porém, algumas instituições, produtoras, fecham-se num universo restrito aos mesmos nomes. A renovação, a rotatividade são muito complicadas de acontecer. Artistas da cena independente, que precisam de editais de incentivo cultural para sobreviverem, são obrigados a disputar com artistas renomados. É uma disputa completamente desleal. Eu adoro que os espaços se abram, mas eu ficaria ainda mais feliz se houvesse renovação e rotatividade da cena musical nesses lugares.

35) RM: O circuito de Bar na cidade que você mora ainda é uma boa opção de trabalho para os músicos? 

Marcio Bragança: É possível viver dignamente de música trabalhando no circuito de Bares no Rio de Janeiro. Mas isso requer organização, um bom material de venda, construção de uma reputação positiva, estudo e aprimoramento dos equipamentos usados. Se o músico fizer tudo isso e for à luta, o circuito de bares no Rio de Janeiro será uma boa opção de trabalho.

36) RM: Quais os seus projetos futuros?

Marcio Bragança: Terminar a construção do meu home estúdio, lançar uma nova leva de canções autorais nas plataformas digitais, provavelmente em formato de single. Pretendo também levar minha música para o exterior.

37) RM: Quais seus contatos para show e para os fãs?

(21) 98878 – 7047 (WhatsApp) | [email protected]

| www.facebook.com/marciobragancaoficial   

| www.instagram.com/marciobraganca       

| Canal: https://www.youtube.com/user/marciobraganca 

Marcio Bragança – CD Odisseia (2010): https://www.youtube.com/watch?v=VJ7vN-egmIU 

Amor e Nada Mais (Marcio Bragança – André Marçal): https://www.youtube.com/watch?v=7WXMIk8QOXI 

Marcio Bragança – Lente do Amor (Gilberto Gil): https://www.youtube.com/watch?v=OiP_PiPgPbM 

Marcio Bragança – Disseram (Douglas Malharo): https://www.youtube.com/watch?v=kGMyc6KVTrY 

Marcio Bragança – Grades do Tempo (Marcio Bragança / Toninho Spessoto): https://www.youtube.com/watch?v=OcyToiK5-1U 

Marcio Bragança – Sol (Duda Lucena): https://www.youtube.com/watch?v=a-F3ut1NKuY 

Marcio Bragança – Expresso Oriente (Marcio Bragança / Nilton Bustamante): https://www.youtube.com/watch?v=VWQuvSRCwdY  

Marcio Bragança – O Meu Lugar No Mundo (Sonekka / Zé Edu Camargo): https://www.youtube.com/watch?v=2docbKMhU1Q 

Marcio Bragança – Agridoce (Sonekka / Zé Edu Camargo): https://www.youtube.com/watch?v=AV8PkAWqRdE 

Marcio Braganca – Ponto de Interrogação (Gonzaguinha): https://www.youtube.com/watch?v=maCtS6W8qxg 

Marcio Bragança – Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda (Hyldon): https://www.youtube.com/watch?v=8ZHDUZ2N5Cw


Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor responsável pela revista digital RitmoMelodia desde 2001, jornalista, músico, poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, propaga a diversidade musical brasileira através de entrevistas e artigos. Jornalista formado pela Universidade Estadual da Paraíba - UEPB (1996 a 2000) que lançou um livro de poesia em 1998 e seus poemas ganharam melodias gravadas em três álbuns concluindo a trilogia "reggae baseado em poesia" no seu projeto musical Reggaebelde. Unindo a sensibilidade do poeta, músico com o senso crítico do jornalista e pesquisador musical colocado em prática em uma revista que Canta o Brasil.