Karele MC

Karele MC

Karele MC iniciou na carreira musical em 2015, dando contribuições ao projeto de Rap Combativo “Ameaça Vermelha”, e desde então se envolveu com mais eficácia na cultura Hip Hop.

O que marcou sua trajetória musical até aqui foi justamente a necessidade de se fazer arte a serviço dos interesses do povo pobre da cidade e dos campos, e carrega esse ideal também no seu trabalho como Karele MC. Resgata o conteúdo classista e combativo do RAP, elevando ao patamar científico, e aplica no cotidiano da periferia uma visão de mudança da sociedade atual. Essa é a linha que Karele MC segue e que pretende sintetizar seus cinco anos de caminha no seu primeiro EP solo, que será lançado até 2021.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Karele MC para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 18.08.2020:

Índice

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Karele MC: Nasci no dia 10 de dezembro de 1996, no bairro de Itaquera, zona leste de São Paulo – SP. Registrado como Lucas Carele.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Karele MC: O RAP sempre esteve presente na minha família por dois fatores. O primeiro é a realidade a qual estávamos e ainda estamos inseridos. Na época em que eu e meus seis irmão ainda eram todos crianças e filhos de mãe solteira, conhecemos de perto a realidade de exploração, opressão e miséria que as famílias da periferia são submetidas. E as formas de arte que surgem em meio a exploração, é justamente a arte que aborda essas questões. O segundo fator, de que veio o envolvimento mais consciente com a cultura hip-hop, foi por influência do artista Vulgo CJ, o mais velho dos homens entre meus irmãos. Hoje minha família respira arte independente.

03) RM: Qual a sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical?

Karele MC: Não possuo formação formal para fazer arte, ou ao menos não a formação oficial. Não concluí o Ensino Médio. Em  escola pública pouco nos ensina sobre a realidade do país e do mundo. Não cria perspectivas, desestimula e desencoraja o jovem, principalmente o jovem de periferia. A formação de um artista independente vem, na minha visão, justamente da sua atuação nas ruas, sua ligação com o povo, suas relações com os meios culturais e apoio mútuo entre home studio, ativistas culturais, espaços, etc. Aquele que souber aceitar as críticas e se forjar na autocrítica, irá se desenvolver tecnicamente.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Karele MC: Quando se trata de música, sempre prezei pela arte que represente os anseios de mudança que a realidade exige. Isso vem provavelmente já da época em que ouvia músicas desde RAP Nacional dos anos 90, o movimento Punk nacional, e os músicos de resistência ao golpe militar fascista de 1964. Com o passar dos anos fui conhecendo e desenvolvendo a minha arte neste sentido, com influências que a indústria da música joga no esquecimento justamente por seu conteúdo, desde o Rage Against The Machine até nomes como Victor Jara, Víctor Campos Bullón, David Zé, o Grupo de Ação Cultural (GAC década de 70) o grupo de RAP Combativo Bandera Roja, entre muitos outros. Ao mesmo tempo em que abandonei influências que até hoje influenciam a degeneração do ser humano, como a indústria pop, por exemplo.

05) RM: Quando, como e onde você começou a sua carreira musical?

Karele MC: Comecei a pegar firme na música em 2015, com um projeto de RAP combativo chamado “Ameaça Vermelha”. Fruto dos levantamentos de junho/julho de 2013, em que a juventude atuou nas linhas de frente e combateu heroicamente as forças de repressão. O projeto completa cinco anos em 2020.
E também uma recente carreira solo, já com alguns sons lançados.

06) RM: Quantos CDs lançados?

Karele MC: Nenhum álbum oficial foi lançado até agora. Embora com o “Ameaça Vermelha” já tenha um número elevado de músicas lançadas, e participações. Nos meus trabalhos solos eu pretendo lançar um EP, no qual já estou trabalhando, mas por hora não tem uma data prevista.

07) RM: Como você define seu estilo musical?

Karele MC: Acredito na nova fase do RAP nacional, é necessário recusar aquilo que a indústria cultural e musical quer dos rappers e resgatar aquilo que a de mais valioso nesta arte, sua consciência crítica de denuncia a realidade de opressão, da violência policial. Enfim, das reivindicações que sempre acompanharam este gênero. E eleva-lo ao nível ainda mais avançado, o de apontar a as raízes dos problemas sociais do nosso país e do mundo. Este é o RAP Combativo.

08) RM: Você estudou técnica vocal?

Karele MC: Não. Os ensaios e técnicas são feitos de forma independente. Tal como o estudo.

09) RM: Qual a importância do estudo de técnica vocal e cuidado com a voz?

Karele MC: Embora eu acredite que o conteúdo seja o mais decisivo e principal na produção de qualquer tipo de arte. É claro que é preciso também haver qualidade técnica, a me esforço para avançar nos três polos; Técnica, forma, e principalmente conteúdo.

10) RM: Quais as cantoras(es) que você admira?

Karele MC: Gosto muito do jogo vocal da banda carioca El Efecto, o artista e revolucionário Victor Jara, e Chico Science, entre outros.

11) RM: Como é o seu processo de compor?

Karele MC: Normalmente parto do estudo, debate e análise do tema, partindo de uma visão classista. Independente do tema.

12) RM: Quais são seus principais parceiros de composição?

Karele MC: Já tive a honra de trabalhar com diversos artistas independentes que compartilham da visão da necessidade de uma arte que sirva aos interesses do povo. Deixo minha saudação aos mcs REVOLT, BARUC, Vulgo CJ, Gattuza, BFC, CRIS PAV, o rapper ANÔNIMO de El Salvador, no qual recentemente tive a honra em participar em sua música “Revolução ou Morte” em um trabalho internacional. Muitos artistas que trabalhei não foram citados aqui, talento é o que não falta pelas quebradas a dentro. Saúdo também os selos Cubo Mágico Prod (Mousin) e Megas Studio PAV (Cris).

13) RM: Quem já gravou as suas músicas?

Karele MC: Além de feats e participações, apenas eu. E os selos Cubo Mágico Prod. e Megas Studio PAV.

14) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Karele MC: Na minha experiência, percebi que o primeiro grande obstáculo que o artista independente encontra na sua jornada é a “miséria da arte”. A dificuldade de acesso, às limitações impostas aos pobres, pois quando falamos em artista do povo, é preciso lembrar que somos divididos em classes, e na cultura isso se expressa com sucateamento e precarização da arte dos oprimidos, para isolar seu conteúdo de reivindicação e luta. Tudo isso leva o artista a se perguntar, “como vou sobreviver, pagar as contas, e ao mesmo tempo produzir e distribuir minha arte?”. A verdade é que existe uma indústria cultural e musical com regras específicas que ditam o que é e o que não é arte.

Todos os gêneros musicais, por exemplo, que vieram das grandes periferias e da juventude pobre, ou dos campos do país como a música camponesa narrando a histórica luta pela terra. Todos esses exemplos passaram por um processo de mercantilização e principalmente de esvaziamento de seu conteúdo popular e de luta. Foi assim com os maiores nomes do RAP, que passou de gênero perseguido pelas forças da repressão ao falatório pop da indústria, substituindo a perspectiva de luta da periferia pelo discurso consumista, pela degeneração, a meritocracia etc.

Com o RAP esse processo começou principalmente com a chegada da MTV ao Brasil na década de 90. Foi assim também com o FUNK carioca, que no seu início defendia os interesses das favelas do Rio de Janeiro, e hoje se iguala ao pop. A música sertaneja, que sempre denunciou os crimes do latifúndio contra os camponeses do nosso país, hoje com nomenclatura de “universitário”, expressa a mais atrasada ideologia de autodestruição, que endeusa o alcoolismo, o individualismo, e perpetua a depressão.

A verdade é que o artista do povo, que NÃO aceitar se submeter às regras da indústria musical, terá de enfrentar todas as dificuldades impostas por essa ditadura cultural que em sua maioria, é dirigida pelo mercado norte-americano. Por outro lado, é desses artistas que surgem os hinos dos povos, aquelas canções que sempre estarão no espírito e nas batalhas dos oprimidos, as canções que narram as transformações sociais, a arte que de fato transforma. O ganho pode não ser individual, mas é de longe muito mais valioso. A arte a serviço do povo é uma arte livre.

15) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

Karele MC: Entendo que pra se produzir uma arte de luta é preciso que essa arte seja produzida em meio ao povo, e que acompanhe as necessidades objetivas do mesmo. Indo até os espaços de luta, construindo a luta junto ao povo, escolas, fábricas, nas ruas, etc. Onde houver luta, é lá que a arte combativa deve se forjar. Não há outra coisa que pode garantir a existência de uma arte de luta se não a própria luta popular pela sobrevivência, pela moradia, etc.

16) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira?

Karele MC: No momento nenhuma. Apenas a ajuda mútua de apoiadores e participantes.

17) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira?

Karele MC: Acho que é uma boa ferramenta de registro, divulgação e contatos mais distantes etc. Mas acredito que o principal ainda é ir de encontro ao público, levar o trampo para rua, olhar na bola do olho de quem aprecia sua arte. Mas durante essa pandemia do novo corona vírus deve ser evitado, é claro. O que dá a internet uma nova importância no trabalho.

18) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)?

Karele MC: A vantagem seria a facilidade em gravar um trabalho mesmo sem condições monetárias. A desvantagem é a falta de estrutura, que torna quase impossível competir com o monopólio.

19) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo. Mas, a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Karele MC: Acredito que a arte popular e combativa se diferencia justamente por negar o caminho da “arte pela arte”. E dar um sentido mais objetivo ao produzir arte sem abstrações.

20) RM: Como você analisa o cenário do RAP brasileiro. Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Karele MC: Não analiso isso de forma separada e unilateral. O RAP nacional como um todo passou por um processo que se estende até os dias de hoje. À medida que a indústria musical coopta cada vez mais um determinado gênero artístico, esse por sua vez passa produzir de acordo com os anseios da indústria, que consequentemente, daqueles que ditam o que vende e o que não vende. O RAP, como um todo, se elevou em termos técnicos nesse processo, mas regrediu no que diz respeito ao conteúdo.

21) RM: Quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Karele MC: Quase todos os artistas aceitos pela indústria musical possuem profissionalismo e qualidade artística. O difícil ainda é achar conteúdo vivo, popular, útil ao povo. De forma que não vale a pena citar esses nomes.

22) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical?

Karele MC: Houve vários momentos inusitados. O que eu mais gosto de lembrar é de uma camponesa, que ouvindo umas intervenções do grupo “Ameaça Vermelha”, chorou ao ouvir os nomes dos camponeses assassinados pelo latifúndio e a polícia. Eu fiquei sem ar quando a vi chorar, a voz desapareceu, jamais vou me esquecer deste dia.

23) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Karele MC: O que me deixa feliz é ver cada vez mais artistas da periferia entendendo que a arte não pode se limitar a estética, a carreira ou ao delírio de “vencer na vida”. O que me deixa triste é ver artistas da periferia querendo ser o garoto propaganda da vez, e bater a cara nas dificuldades que a indústria musical impõe a nós.

24) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Karele MC: Não. Não espero que um dia meu RAP toque nas rádios de grande audiência.

25) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Karele MC: Acho que minha única preocupação aqui é: para que e para quem se faz música.

26) RM: Hoje os Festivais de Música revelam novos talentos?

Karele MC: Tem muito talento por aí se humilhando em trabalhos sucateados. Tem muito talento dentro de cada favela morrendo no anonimato. Tem muito talento sendo morto pela polícia antes de se descobrir. Então, de novo, é muito pouco.

27) RM: Como você analisa a cobertura feita pela grande mídia da cena musical brasileira?

Karele MC: A grande mídia mostra o que está de acordo com seus interesses financeiros e principalmente políticos. Não é pura divulgação, é guerra midiática que corrompem os artistas do povo e isolam aqueles que queiram seguir o caminho da luta.

28) RM: Qual a sua opinião sobre o espaço aberto pelo SESC, SESI, Itaú, Banco do Brasil e CAIXA Cultural para cena musical?

Karele MC: Ainda é muito pouco, e essas instituições jamais aceitarão uma arte que combata o atual sistema de coisas. Todo espaço deve ser invadido pela arte independente, sem pedir permissão.

29) RM: O circuito de Bar na sua cidade é uma boa opção de trabalho para os músicos?

Karele MC: Todo e qualquer espaço ou projeto surgido até agora é importante e útil para os artistas independentes.

30) RM: Quais os seus projetos futuros?

Karele MC: Pretendo fazer meu EP até 2021, mas vamos ver como tudo vai ser até lá. A muito trabalho a ser feito também no grupo “Ameaça Vermelha, alguns já estão na agulha, prontos para disparar. Aguardem lá nos canais “Ameaça Vermelha” – Rap Combativo e Karele MC. Agradeço a oportunidade e o espaço para falar. Por uma arte a serviço do povo!

31) RM: Karele MC, Quais seus contatos para show e para os fãs?

Karele MC:  [email protected]  | https://web.facebook.com/ca.rele.737
| https://www.instagram.com/karele.mc/

Canal Karele MC : https://www.youtube.com/channel/UC0O1k4B-TZKyeiMEdlYNasA 

Canal Ameaça Vermelha: https://www.youtube.com/channel/UCNTH2ayX9FyAQ4vcoKsm7NA 

Karele MC – Produto Clandestino (clipe): https://www.youtube.com/watch?v=sh5OyPNwUMc 

Karele MC – Poesia Periférica: https://www.youtube.com/watch?v=TTYcO-uMD5I 

Karele MC – Coragem: https://www.youtube.com/watch?v=JFg17nCX-TY 

Karele MC – Trincheira de Combate: https://www.youtube.com/watch?v=eMzg_CHhr58 

Ameaça Vermelha – Demarcar Linha de Classe: https://www.youtube.com/watch?v=LZBjO4Fa95E 

Ameaça Vermelha – O Guerrilheiro (Prod. Mousin): https://www.youtube.com/watch?v=J8H-3nrDBVA


Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor responsável pela revista digital RitmoMelodia desde 2001, jornalista, músico, poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, propaga a diversidade musical brasileira através de entrevistas e artigos. Jornalista formado pela Universidade Estadual da Paraíba - UEPB (1996 a 2000) que lançou um livro de poesia em 1998 e seus poemas ganharam melodias gravadas em três álbuns concluindo a trilogia "reggae baseado em poesia" no seu projeto musical Reggaebelde. Unindo a sensibilidade do poeta, músico com o senso crítico do jornalista e pesquisador musical colocado em prática em uma revista que Canta o Brasil.