Ivan da Gamboa

Ivan da Gamboa

O compositor Ivan da Gamboa nascido em Areia Branca, Belford Roxo, mas, logo se mudou para o bairro da Piedade, subúrbio carioca, onde, ainda criança, toma gosto pela música, através de discos (LPs) ouvidos por sua mãe.

Ivan da Gamboa já no final da adolescência, mudou-se para o bairro da Gamboa, no centro do Rio de Janeiro, onde residiu por proveitosos 15 anos de sua vida. Daí em diante, começa a ter contato mais próximo com as Rodas de Samba da Pedra do Sal, da Lapa e com o fascínio da boemia noturna. Com o tempo vieram os parceiros musicais. Novas referências chegando. Antigas referências se fortalecendo. O amor pela música aumentando.

A rosa dos ventos do compositor Ivan da Gamboa aponta para todas as direções musicais, mas tem no Samba o seu Norte mais constante.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Ivan da Gamboa para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antônio Carlos da Fonseca Barbosa em 13.11.2020:

Índice

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Ivan da Gamboa: Nasci no dia 28 de novembro de 1977, na extinta maternidade São Francisco de Paula, no bairro de São Cristóvão, no Rio de Janeiro – RJ. Registrado como Ivan Tavares Ferreira Junior. 

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Ivan da Gamboa: Minhas primeiras recordações musicais são da infância. Eu escutava minha mãe ouvindo alguns LPs (Vinil) em casa, enquanto ela realizava seus afazeres domésticos. Ela ouvia de tudo um pouco. Lembro-me de ouvir a turma do Balão Mágico, Trem da Alegria, Clube da Criança, entre outros. tinha um ou outro que eram os “campeões de bilheteria”. Benito Di Paula, Fundo de Quintal – álbum “O mapa da mina”. Lembro que minha mãe havia comprado um LP – “A turma do sereno”. Nesse LP tinha: “Carinhoso” (Pixinguinha e Braguinha), “Negue” (Adelino Moreira e Enzo de Almeida Passos), “Nervos de Aço” (Lupicínio Rodrigues), entre outras pérolas da música brasileira. Então, meu primeiro contato com a música foi através da audição dos LPs que minha mãe escutava. 

03) RM: Qual sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical?

Ivan da Gamboa: Eu costumo dizer que minha profissão é como Projetista de Estruturas de Concreto Armado desde janeiro de 2000. Gestor ambiental, por formação, desde março de 2019. Compositor musical, por insistência, desde sempre. Fora isso, eu estudei até o quinto período de Arquitetura e Urbanismo e fiz alguns cursos correlatos a área como desenho de arquitetura (prancheta), autocad, revit archtectural. Coisas relativas à área de projetos, desenho e engenharia/arquitetura. Relativos à música eu apenas frequentei algumas poucas aulas de Cavaquinho, mas, o pouco que eu sei foi por insistência mesmo. Hoje eu arranho muito pouco de Cavaco e Banjo. O suficiente para me ajudar a encontrar alguns caminhos enquanto estou compondo algumas de minhas canções. 

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Ivan da Gamboa: A minha influência musical é a música, propriamente dita, na sua mais pura e simples essência. Qualquer som que mude o estado de silêncio, eu estarei sempre ouvindo. Não posso negar que, dentre os inúmeros estilos musicais que escuto e gosto, sempre tem aquele que a gente se sente mais em casa. Mais à vontade. Isso acontece comigo quando eu ouço um samba bonito. Algumas canções instrumentais, como as do já saudoso Enio Morricone. Eu busco a gratidão em todas as coisas boas dessa vida, na mesma intensidade que agradeço também as coisas que não são tão boas. São com as coisas não tão boas que a gente aprende a sair da zona de conforto. Por isso, não acredito que nenhuma de minhas influências tenha deixado de ter a sua importância. 

05) RM: Quando, como e onde você começou sua carreira musical?

Ivan da Gamboa: Quando: não sei precisar a data exata, mas tenho plena certeza de que foi nos primeiros meses do ano 2000. Como: da forma mais natural e espontânea que alguém poderia imaginar. Parece até que foi por osmose. Não houve nenhum fato específico que eu pudesse me lembrar de que tenha desencadeado essa habilidade em mim. Onde: em qualquer lugar. Fazendo qualquer coisa, em qualquer momento. Tudo isso pelo fato já mencionado, de que o lance de compor tenha surgido da forma mais natural possível. 

06) RM: Quantos CDs lançados? 

Ivan da Gamboa: Eu não sou cantor. Não é nem que eu não goste. Eu até gosto. Entretanto, minha timidez trava minhas cordas vocais, sempre que estou diante de alguma plateia. Também não gosto de ouvir a minha voz em alguma gravação. Canto apenas de forma obrigatória, quando preciso mostrar alguma composição nova para algum possível intérprete, ou produtor, no ato da gravação. Talvez, por esse motivo, eu ainda não tenha lançado nenhum CD. Tenho planos de lançar um EP de Jazz/Blues, onde algumas cantoras profissionais cantarão algumas canções de minha autoria: “Elas cantam Gamboa”, ou algum outro título parecido. Inclusive, as canções já estão devidamente compostas. Tem até uma já gravada. 

07) RM: Como você define seu estilo musical como compositor?

Ivan da Gamboa: Como um bom carioca que sou não poderia deixar de deitar no berço esplêndido do Samba e seus derivados como o Samba de breque, Samba de Enredo, Samba canção, Samba dolente, Samba de partido alto, entre outros. Até a data dessa entrevista, a maioria esmagadora de minhas composições é do estilo Samba. Entretanto, com o passar dos tempos, a gente vai trilhando uma caminhada e conhecendo novos parceiro e novas possibilidades musicais. Ao longo dessa caminhada eu já compus no ritmo Sertanejo, Forró, estilo Romântico, que já disseram ser do “Erudito popular”; que eu nem sabia que existia essa classificação. E nesse momento, minhas inspirações mais constantes estão me levando a compor em inglês, dentro do estilo Jazz/Blues. Dentro desse desenho, penso que sou como um cientista fazendo experiências e buscando um lugar em que eu me sinta mais à vontade, pelo menos, naquele momento específico. Eu posso dizer que o meu estilo musical é “a música boa”. Pelo menos, esse é o estilo que eu busco sempre alcançar.

08) RM: Você estudou técnica vocal?

Ivan da Gamboa: Não. Nunca estudei nada nessa área. Talvez, minha timidez também crie um bloqueio quanto a isso. Até já pensei estudar algo do tipo, mas, às vezes é tão bom a gente ficar na nossa zona de conforto fazendo o que a gente sabe e gosta né? “cada um no seu quadrado”. Confesso que eu gostaria muito de saber cantar, mas tenho plena convicção de que isso, definitivamente, não é pra mim.

09) RM: Qual a importância do estudo de técnica vocal e cuidado com a voz?

Ivan da Gamboa: Assim como um bom mecânico precisa ter sua ferramenta sempre aferida e pronta para a lida, um cantor deve sempre saber usar sua voz e respeitar seus limites. É importante também saber fazer a manutenção da voz e seguir algumas orientações como não beber gelado, etc. Mesmo para que já nasceu com o dom do canto, uma manutenção periódica e estudos constantes são sempre muito bem vindos. Certos cuidados servem, até mesmo, para quem não já é um profissional da área ou, pelo menos, deseja sê-lo.

10) RM: Quais as cantoras(es) que você admira?

Ivan da Gamboa: Aí você tocou na menina dos meus olhos. Com todo respeito aos grandes cantores que temos, tanto no casting nacional como: Agnaldo Rayol, Agnaldo Timóteo, a dupla Cristian e Ralf, quanto os internacionais como Frank Sinatra, Tony Bennett. Bem, entre outros grandes, mas, meu fraco mesmo é pelas cantoras. Tenho enorme adoração pelas vozes femininas. Ainda não parei pra contar, mas penso que mais de 95% das canções de minha autoria foram gravadas por mulheres. Das internacionais eu gosto das clássicas como Sarah Vaughan, Lena Horn, Ella Fitzgerald, Billie Holiday, entre outras grandes. Vindo para os tempos mais atuais, gosto muito da interpretação da já falecida Amy Winehouse. No nosso brasil temos grandes cantoras como Elsa Soares, Maria Bethânia, Gal Costa, Elis Regina, Nana Caymmi, Elizeth Cardoso, Clara Nunes, Ângela Maria, entre tantas outras grandes vozes. Somos abençoados com nossas cantoras. Tenho um carinho muito especial pela voz e presença de palco da grande Leny Andrade.

11) RM: Como é seu processo de compor?

Ivan da Gamboa: Não existe fórmula mágica, nem receita de bolo. Se tiver uma inspiração, um lápis e um pedaço de papel, sempre será uma ótima hora pra compor. Já soube de casos de canções compostas sob um lindo pôr do sol acompanhado de uma brisa fresca que vinha do mar calmo e convidativo, como também vi lindas obras ser compostas dentro do banheiro. Tem vezes que, dependendo da sua capacidade de memorizar uma nova canção, o lápis e o papel até se fazem desnecessários. Mas, uma boa inspiração é fundamental.

No meu caso, muitas vezes até parece que a inspiração é um ser independente. Um ser que escolhe o melhor momento para me visitar. Ouvi dizer que algumas pessoas doutrinam e canalizam o dom da inspiração. Talvez, isso venha com o tempo. Eu ainda não sei fazer isso. A inspiração é quem manda em mim. Teve vezes em que eu estava com muita vontade de criar uma nova canção ou, simplesmente, escrever. Sentei no meu canto, peguei papel e lápis e aguardei, mas, faltava a convidada principal: a tal da inspiração. Mandou dizer que não vinha e não tinha o que a trouxesse naquela vez. Ela (a inspiração) tem vontade própria. Fazer o que? Teve vezes que a inspiração decidia me visitar durante meu sono, nas madrugadas. Parecia que me cutucava e me fazia acordar. Eu cantarolava a canção inteira. Uma coisa linda. Estava tão confiante, que pensava que poderia escrevê-la no dia seguinte, quando acordasse. Ledo engano. Ela parecia me dizer: “não quis levantar para me receber de forma digna, também, vou embora e não volto mais!”. Tem ou não tem vida própria? Ela é quem manda. Tinha que ser ela, novamente a fêmea.

12) RM: Quais são seus principais parceiros de composição?

Ivan da Gamboa: Quando eu penso na diversidade de uma determinada coisa, eu penso num grande motor gerando uma força de extrema importância. Nesse motor nós temos inúmeros componentes como o combustível, os cabos, os tubos, as placas, as pequenas e grandes porcas, arruelas e parafusos. E se o combustível faltar, o motor não funciona. Assim como se uma pequenina porca se soltar, o carro não anda e não ganha frete. Dentro desse pensamento, todas as peças têm sua importância e valor. Não existe a peça principal, assim como eu não tenho parceiros principais. Todos têm sua importância e valor. Posso ter, no máximo, um ou dois parceiros com quem eu faça música com uma maior frequência. Posso citar aqui, por exemplo, Luciano Trindad, com quem eu já compus algo em torno de mais de 15 canções. Volto a dizer que a importância do Luciano é exatamente a mesma que tem o Léo Poeta, com quem eu fiz apenas um Samba (até o presente momento).

13) RM: Quem já gravou as suas músicas?

Ivan da Gamboa: Posso dizer que tive uma boa pitada de sorte no que diz respeito às minhas intérpretes. Citarei apenas algumas que me vêm na memória: Nina Rosa e Fernanda Garcia, em alguns sambas de minha autoria. No Jazz, fui agraciado com a belíssima interpretação da cantora e compositora Fernanda Santanna, na canção “Bat’s flight”. Duas fernandas (risos). Sempre as mulheres. Ainda vem muito mais por aí. Tem coisa no forno, com novas vozes; femininas, claro!

14) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Ivan da Gamboa: A essência do artista precisar ser de pensamento livre. Não quero e não posso imaginar que essa ou aquela gravadora/produtora/editora tenha pretensão, de alguma maneira, de cercear essa liberdade. Entretanto, imagino que, a partir do momento em que um indivíduo passe a integrar uma equipe (empresa), ele tenha que se enquadrar em algumas regras. Talvez, essas regras até ajude um ou outro artista a ajustar-se ou doutrinar-se em algum viés que lhe seja falho. Graças a Deus, ninguém é perfeito. Mas uma vez deixo minha impressão, apenas como “espectador”, uma vez que não faço parte de nenhuma empresa. Tenho sim duas ou três canções em uma editora do Rio de Janeiro. Também não creio que essas regras figurem como “contras”. Aliás, penso que as regras devam existir em tudo na vida. Direitos e deveres. Estou nessa de compositor, como foi dito, desde o início do ano 2000.  Desde que me entendi como artista, sempre atuei de forma independente. Sou eu quem compõe minhas canções e atuo também como produtor fonográfico. Seja sozinho, ou com alguns parceiros musicais. Nunca tive qualquer patrocínio de ninguém, nem de nenhuma empresa (gravadora, etc). O fato de ser um artista independente me permite criar da forma e no momento que mais for conveniente as minhas condições emocionais e/ou financeiras daquele momento em que me encontro. A inspiração é diária, mas, a criação do produto final, que é a música gravada direitinho num estúdio, acontece apenas no momento oportuno.

15) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

Ivan da Gamboa: Enquanto compositor, eu não tenho esse lance de “dentro e fora do palco”, mas, relativo a estratégias de composição, o que eu tento fazer é manter minha mente limpa, o máximo possível e respeitar o meu estado de espírito. Estar atento as coisas ao meu redor, bem como ter apreço as palavras e as regras gramaticais, também julgo ser uma boa estratégia.

16) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira?

Ivan da Gamboa: Eu sou o produtor fonográfico, se não da totalidade de minhas canções, da maioria. Fui atrás e consegui emitir os ISRC’s dos fonogramas que produzo. Busco manter minhas obras sempre disponíveis em todas as plataformas digitais, bem como ter as redes socias sempre ativas. É um trabalho de formiguinha. Nem sempre é tão glamuroso e gratificante, mas, na grande maioria das vezes, consigo um retorno bacana. É muito mais qualitativo, do que quantitativo e recebo menos feedbacks do que eu gostaria, mas, os poucos que recebo são sempre bem vindos e muito sinceros. Sempre carinhosos e elogiosos para como as canções que componho. Eu acabo sempre fazendo o que eu gosto, que é manter essa minha relação de amor a música.

17) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira?

Ivan da Gamboa: Enquanto compositor, minha relação é de divulgação através das redes sociais e plataformas digitais. É uma ajuda fundamental. A maioria dos meus parceiros musicais foram trazidos pelas redes sociais. Posso dizer que 70% das canções nasceram de uma relação de troca, via redes socias. Dessa forma, internet não me prejudicou em nenhum aspecto. Já dei até entrevista para uma rádio de Barcelona – Espanha, estando sentado no conforto da minha poltrona. Como isso seria possível, sem a internet?

18) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)?

Ivan da Gamboa: É uma linha muito tênue. Ajudou e não ajudou ao mesmo tempo. A facilidade aumentou absurdamente. Entretanto, todo mundo agora acha que pode produzir alguma coisa em casa. Até pode, mas, aí, a qualidade ficou um pouco de lado. É aquela coisa: não basta só apertar o botão. Tem que saber qual botão apertar, e qual momento ele deve ser acionado. A tecnologia vai demorar muito ainda, para substituir a sensibilidade humana. Isso se conseguir.

19) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo. Mas, a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que o artista tem que fazer efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Ivan da Gamboa: Segundo o último censo mundial, o número de habitantes no planeta era de pouco mais de sete bilhões. A pessoa deve desencanar de ter a pretensão de agradar a todo mundo. Deve estar preparado para uma crítica contrária e, nem sempre, construtiva. E isso vale para a vida. Já conheci gente que não gostava de Beatles. Já imaginou? Não gostar de Beatles! Se os Beatles não agradam a todo mundo, porque eu vou agradar? Essa facilidade de se gravar um disco nos dias atuais caminha ao lado do lance da possibilidade de termos um home estúdio. A quantidade aumentou, mas a qualidade não caminhou na mesma proporção. Não sou crítico ou analista musical, mas, também não sou surdo. O que eu tento fazer no caminho para essa diferenciação é buscar um aprendizado constante, nos mais diferentes estilos musicais. O ouvido precisa estar mais atento do que a mente. Aquela máxima de “a prática leva a perfeição” também é muito válida. Eu escrevo diariamente. Algumas coisas bem interessantes, outras coisas impublicáveis, mas, sempre escrevendo. 

20) RM: Como você analisa o cenário do Samba. Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Ivan da Gamboa: O cenário do Samba é como um camaleão que se adapta ao momento em que está vivendo. Às vezes um pouco mais em evidência. Nem sempre no mainstream, mas, nunca morto. Afinal, muito bem disse o grande Nelson Sargento… “Samba, agoniza, mas não morre… alguém sempre te socorre, antes do suspiro derradeiro…”. O Samba se mistura com essa nação chamada Brasil. É produto de exportação. Muito cultuado lá fora. Tem também o underground, que fervilha e não para nunca. Tem uma infinidade de artista de qualidade maravilhosa, que não está na grande mídia. A mídia… sempre a mídia. A mídia é um grande holofote, que tem um foco peculiar.

Existe também um burburinho que diz que “o povo do samba” não é tão unido, quanto o do Sertanejo, por exemplo. Vejo muita coisa bacana, vejo também algumas coisas que me fazem pensar em parar. Mas, não acho que isso seja uma coisa do “Povo do Samba”. Acho que se trata mais de uma peculiaridade do ser humano. Portanto, essas questões podem ocorrer em qualquer lugar. Talvez, essa suposta desunião se evidencie no Samba, justamente por conta de sua enorme importância no cenário cultural. Não posso dizer que compactuo com esse lance da suposta desunião. Tudo bem… Não posso dizer: “Nossa, como eu fui ajudado pela turma do samba”! Mas, também não posso dizer que me prejudicaram ou atrapalharam de alguma forma. Sigo meu caminho, com Deus na frente sempre. Caneta e papel nas mãos, e atento a uma boa inspiração. Sempre receptivo a uma boa parceira também. A música é linda. O Samba é maravilho e eterno, independente do cenário em que esteja atuando. Sua raiz é muito forte. O Samba é uma árvore frutífera, que dá sombra a muita gente. Difícil de derrubar. As pessoas vão, e o Samba fica!

21) RM: Quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Ivan da Gamboa: Ah! Qualquer artista que tenha uma carreira longeva pode ser considerado um exemplo. A coisa não é fácil. Se tal artista atravessou modas e gerações e chegou até aqui, com toda certeza, ele agiu com profissionalismo e teve qualidade artística. Temos muitos exemplos em nossa música brasileira, graças a Deus. Eu seria até injusto em citar um ou dois nomes.

22)RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical?

Ivan da Gamboa: Na condição de compositor que sou, o “meu show” sempre se deu na melhor forma possível. “Meu show” precisa de muito pouco recurso e estrutura para acontecer. Tendo um pedaço de papel, uma caneta ou lápis e uma boa inspiração na cabeça, “Meu show” sempre é sucesso. Quando muito, uma tacinha de vinho ajuda a umidificar as ideias.

23) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Ivan da Gamboa: Numa visão geral, a música é uma viagem muito maravilhosa. Quase que psicodélica. Temos os frios na barriga. Temos as vezes que voltamos num tempo longínquo, para buscarmos algumas passagens, nomes ou sensações. Temos os encontros com parceiros que, muitas vezes, ficam para toda a vida. Muitas vezes, a parceria ultrapassa a coisa da música. Deixamos de sermos parceiros para nos tornarmos amigos. Tem diferença. É muito certo encontrarmos o respeito e admiração entre parceiros, mas, a amizade mesmo, apenas com alguns. Com relação às coisas que me deixam triste, nem são coisas da música, propriamente dita. São coisas de quem faz parte do mundo da música. Mas, isso em nada tem a ver com a música. A música é maravilhosa. Penso que tenha mais a ver com uma face mais feia do ser humano como uma “puxada de tapete”, um by pass, uma falta de incentivo e/ou consideração… Esse tipo de coisa. Mas, se a gente aprender a não criar expectativas com nada e, principalmente, com ninguém, a gente faz essa viagem numa boa. No fim, sempre sai um som legal.

24) RM: Existe o Dom musical? Como você define o Dom musical?

Ivan da Gamboa: Certa vez eu estava lendo um livro muito bom, do Lúcio Rangel, intitulado Samba, Jazz & outras notas. Nesse livro consta a transcrição de uma carta escrita ao nosso eterno poetinha, Vinícius de Moraes.

Aí vai o trecho da carta, que responde a essa pergunta: “… Se o sujeito não é poeta, ele poderá escrever versos, poesia não. Ora, com o Samba é a mesma coisa. Você citou Noel Rosa, Ary Barroso, Almirante (Henrique Foréis Domingues), Antonio Gabriel Nássara, Lamartíne Babo, Assis Valente, sambistas que “estiveram no colégio”, homens alfabetizados. Mas, não foi lá que eles aprenderam Samba. Como o camarada que estudou artes poéticas, o aspirante a sambista pode ouvir todos os discos de samba, as peças mais belas e autênticas, estudar música, ler o que entender – se não for sambista, se não tiver a “bossa”, é inútil procurar aprender. Poderá tornar-se um erudito no assunto, um sambista jamais!”. Trecho do livro samba, jazz & outras notas – Lúcio Rangel, pág.120).

Salvo juízo contrário, acho que o caminho seja bem por aí. Talvez, além da minha timidez, essa visão ilustre um pouco da minha falta de animação em cantar. A pessoa precisa se auto conhecer e ter um senso crítico, autocrítico, em saber o que dá e o que não dá. Persistência não é a mesma coisa que forçar a barra. Dom é dom. É nato e pronto. Pode até ser que o dom precise ser polido e estimulado, mas, não dá pra alguém parir um dom.

25) RM: Qual é o seu conceito de Improvisação Musical?

Ivan da Gamboa: Improvisação musical é tudo aquilo que foge ao que foi previamente combinado e, mesmo assim, torna-se audível e agradável.

26) RM: Existe improvisação musical de fato, ou é algo estudado antes e aplicado depois?

Ivan da Gamboa: Penso que a improvisação possa ser concebida através de estudo ou de um dom. Em ambos os casos, o executor precisa saber o que está fazendo. Senão, deixa de ser improvisação e passar a ser qualquer outra coisa inominável. As respostas das perguntas 25 e 26 foram redigidas a partir de uma percepção de ouvinte.

27) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Ivan da Gamboa: Muito da minha vida é baseada na fé que tenho em Deus e no plano astral. Essa crença me permite saber, comprovadamente, que, para Deus nada é impossível. Entretanto, sendo um pouco mais realista, e um pouco menos otimista (pessimista nunca), penso que isso seja uma possibilidade um tanto improvável de acontecer. As rádios tornaram-se grandes empresas com vários funcionários e demais custos. Para tanto, as rádios habituaram-se a cobrar o jabá. Não estou me referindo às rádios web, exemplo Música Tá na Pista. Ainda que alguma rádio abra algum espaço para que isso aconteça, tem muita gente melhor que eu, com um material mais bem trabalhado, mais consistente, com mais bagagens. Mas, para Deus, nada é impossível!

28)RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Ivan da Gamboa: A pessoa que lida com a música está lidando com a arte, com a sensibilidade humana. Sua música, seja através da composição ou de uma interpretação, provavelmente causará sensações em quem está ouvindo, ou seja, você tem que saber que, naquele momento, você está tendo o poder de mexer com alguém que, na maioria das vezes, você nem conhecer e, talvez, nunca venha a conhecer. É uma coisa mágica, entretanto, como todas as demais áreas profissionais, também têm seus atalhos e, nesses atalhos, muito provável que se encontre algo inesperado, pejorativamente falando. Mas, se a pessoa sentir aquele fogo dentro de si, e acreditar que tenha o dom, acho que não custa tentar. A pessoa pode se surpreender com a sua capacidade. A viagem pelo musical é muito linda, mas, não é brincadeira! Se quiser ser profissional, há que se encarar as coisas com uma boa dose de comprometimento e seriedade. Na hora que o “bicho pega”, quem se diverte de verdade é quem está na plateia.

29) RM: Quais os prós e contras do Festival de Música?

Ivan da Gamboa: Talvez, os contras apareçam mediante a uma possível má direção/gestão, por parte dos organizadores, no que diga respeito à segurança, estrutura física do local do acontecimento (banheiros, estacionamento, etc.). Penso também que a transparência das votações e apurações deva estar ao alcance de todos, participantes e espectadores. A lisura é fundamental. Quantos aos prós, as possibilidades são infinitas. A visibilidade, os encontros entre artistas, o estímulo à criação de novas obras, entre tantos outros. Hoje temos possibilidade e viabilidade de promover Festivais com elevada seriedade, através de adventos da tecnologia, com a internet.

30) RM: Hoje os Festivais de Música revelam novos talentos?

Ivan da Gamboa: Na vida, tudo se transforma. Infelizmente, fica bem difícil imaginar os saudosos e icônicos Festivais da Canção Brasileira, como os da TV Record, Tupi, Globo, que ainda vemos em preto e branco por aí. Mas, tenho visto algumas coisas bem interessantes acontecerem. Participei de alguns Festivais, inclusive, tendo uma visão mais fria, bem sabemos que “a coisa” não funciona por si só. Ainda precisamos contar com o lado comercial de fomento a arte, tanto pela iniciativa privada, quanto pela governamental. Aí é que eu penso que o foco se perde um pouco. Penso que, inclusive, esses Festivais poderiam ser mais incentivados nas escolas. Outro dia eu estava pesquisando, atrás de conhecer um pouquinho da história da talentosíssima cantora e compositora Fátima Guedes, e acabei sabendo que ela teve o seu início enquanto cantava em Festival de Música Estudantil.

31) RM: Como você analisa a cobertura feita pela grande mídia da cena musical brasileira?

Ivan da Gamboa: Quando eu penso no termo “grande mídia”, e, mais uma vez, vou falar como espectador, me vem a relação com o comercial, com investimentos (pesados), ibope, propaganda, etc. Não consigo ver um atrativo midiático apenas pela arte em si. Penso, de verdade, que a arte deveria ser a intenção preponderante. Nem digo que seja exclusiva, pois, como eu disse “a coisa” não funciona por si só. É claro que esse cenário é muito vasto e sempre haverá alguém muito bem intencionado. Sempre tem. Tem aquela coisa do momento, né? Da moda.  A grande mídia, no intuito de atrair uma maior visibilidade, através de seus espectadores, vai mostrar o que o povo quer. Quando eu digo o povo, me refiro a grande massa, ou a um número muito grande de pessoas. Entretanto, nem sempre a grande massa vai eleger um modelo bonito para estar na moda. Mesmo assim, se as pessoas gostam e enchem casas de espetáculos, compram discos e consomem os produtos desse modelo eleito, esse modelo deve ter o seu valor, ainda que não se enquadre no meu gosto. Muita gente é diferente de todo mundo. O gosto é pessoal, intransferível e deve ser obrigatoriamente respeitado. A grande mídia não mostra nem coisa boa, nem coisa ruim. Ela mostra o que a massa quer consumir.

32) RM: Qual a sua opinião sobre o espaço aberto pelo SESC, SESI e Itaú Cultural para cena musical?

Ivan da Gamboa: Todo e qualquer espaço para o fomento e divulgação da cultura sempre será sempre de extrema importância para a formação de todos. A cultura faz parte da formação do indivíduo e também do coletivo. Essas três instituições citadas têm uma estrutura enorme e isso possibilita a devida manutenção da cultura e dos seus agentes. Vida longa a essas três instituições e que seus gestores sejam ungidos por um sentimento visionário, assistencialista, sério e realmente comprometido com a cultura.

33) RM: O circuito de Bar na cidade que você mora ainda é uma boa opção de trabalho para os músicos?

Ivan da Gamboa: Imaginando uma situação ideal, fora do pesadelo da pandemia do Covid-19, o Rio de Janeiro é internacionalmente conhecido, muito pelo seu circuito cultural e boêmio. Em uma situação ideal, o circuito de Bares é uma opção maravilhosa para os músicos.

34)RM: Quais os seus projetos futuros?

Ivan da Gamboa: Procuro muito não viver de momentos, mas, vivo o hoje. Busco sempre plantar hoje. A colheita é inevitável. O retorno é certo. Tudo é repartido. Se fizer um bom plantio hoje, não tem porque eu ficar me preocupando com o amanhã. Dentro desse pensamento, meu projeto é sempre estar aprendendo, atento, praticando a escrita das canções, buscando novas rimas, novos parceiros. Meu único projeto é compor. Enquanto eu tiver uma caneta, um pedacinho de papel, uma boa inspiração e a permissão divina, estarei sempre compondo. Compor é o meu plantio. Hoje eu planto canções no solo da vida para quem sabe, colher alguma coisa no futuro. A pessoa passará, a música ficará para sempre. A primeira coisa que fazemos ao nascer é emitir um som, através do choro. Quando isso não acontece, logo começa uma preocupação geral.

35) RM: Quais seus contatos para show e para os fãs?

Ivan da Gamboa: (21) 96561 – 4664 /   [email protected]  

/ https://www.facebook.com/sambaeoutraspoesias

/ https://www.instagram.com/ivandagamboa 

Bat’s Flight – Ivan da Gamboa por · Fernanda Santanna: https://www.youtube.com/watch?v=ss0YnNnzjDI 

Playlist de vários intérpretes cantando as músicas de Ivan Gamboa: https://www.youtube.com/watch?v=pmfyrfsKEVs&list=PLXpIPb9ZmRVjdPJ-BmLGDPHXl4ho7a47L 

YouTube: https://www.youtube.com/c/ivandagamboa 

SoundCloud: https://soundcloud.com/ivandagamboa  

Palcomp3: https://www.palcomp3.com/ivandagamboa/

 


Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor responsável pela revista digital RitmoMelodia desde 2001, jornalista, músico, poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, propaga a diversidade musical brasileira através de entrevistas e artigos. Jornalista formado pela Universidade Estadual da Paraíba - UEPB (1996 a 2000) que lançou um livro de poesia em 1998 e seus poemas ganharam melodias gravadas em três álbuns concluindo a trilogia "reggae baseado em poesia" no seu projeto musical Reggaebelde. Unindo a sensibilidade do poeta, músico com o senso crítico do jornalista e pesquisador musical colocado em prática em uma revista que Canta o Brasil.