Grupo Comunidade Carcerária

Grupo Comunidade Carcerária

Washington Pereira Paz (W.O) começou a curtir RAP a partir de 1987.

De 1989 a 1993 ele perdeu a mãe (doença), avó (infarto), o pai (acidente), o irmão (de tiro) e perdeu o chão e ficou sem direção. Começou a roubar e traficar, mas não era usuário de drogas. Em 1994 foi preso por assalto e ficou nove meses presos, faltando dois meses para sair por ser réu primário sem antecedentes criminal, ele começou a usar crack e quando saiu da cadeia já estava dependente e voltou a roubar para sustentar o vício. Em 1995 voltou a ser preso e ficou detido nos Distritos 33 – Pirituba e 46 – Perus e no final 1995 foi transferido para a antiga Casa de Detenção – Carandiru em São Paulo e passou pela triagem do Pavilhão 2, passou o Natal e Ano Novo trancado na masmorra sem visita. No Ano Novo ficou pendurado na ventana com os pés para fora olhando para o Mac Donald e vendo os fogos da virada do ano e pensando no dia que iria sair.

Em dois de janeiro de 1996 passou a morar no quinto andar no Pavilhão 9 com seu amigo Mineiro que já conhecia os presos e depois de um mês andando no campo encontrou com o Caju, um amigo que conheceu no terceiro Distrito do Centro de São Paulo, que o convidou para morar no Pavilhão 8 e trabalhar no setor do Jumbo (distribuir produtos de higiene,  remédios, comidas que as famílias dos presos traziam),  W.O conversou com os presos da cela que ele morava e mudou de Pavilhão.

Depois de uns dias morando no Pavilhão 8 andando na galeria perto da rua 10 conheceu o Carioquinha do Bixiga que estava com uma bola na mão e perguntou se o W.O jogava bola e o levou até a cela 207E, no segundo andar e o apresentou para o FW (Flaviano Souza Fonseca Filho) dizendo que W.O iria tomar a posição dele no time (risos). O W.O e FW ficaram amigos. E alguns dias depois, o Carioquinha apresentou o senhor Valdemar Gonçalves (presidente do esporte) para o FW que no início não gostou muito, mas com o tempo ele foi percebendo que o senhor Valdemar era diferente e fazia a diferença ajudando os presos telefonando para os familiares informando se estava tudo bem com o detento e avisando quando precisavam trazer remédios e os encaminhava para consulta com Dráuzio Varella. 

Em 1996 o senhor Valdemar organizou um Festival de música com o propósito de gravar uma coletânea com os presos da Casa de Detenção – Carandiru e o Carioquinha falou para o FW participar, já que FW ficava cantando RAP dos Racionais MC’s na orelha do Carioquinha. O Batata ouviu a ideia e falou para o FW para chamar o Washington (W.O) que também gosta de RAP, o Batata correu na cela 427E do quarto andar em que o W.O morava junto Gago, Ratinho, Pequeno,  Serginho e disse que o Flavinho (FW) estava o chamando.

Quando W.O chegou na cela que estava o Flavinho, ele o convidou para montar um grupo de RAP e participar do Festival de música e o prêmio será gravar uma música para uma coletânea da Detenção com vários ritmos: Samba, Sertaneja, RAP. Eles montaram um grupo e começaram a escrever as músicas e passavam a maior parte do tempo cantando e escrevendo. Os presos gostavam das músicas deles, mas infelizmente recebemos a notícia de que o Festival foi cancelado, mesmo assim não desistiram continuaram com o grupo.

Em 1997 através do senhor Valdemar receberam a visita de repórteres, atores, fotógrafos, alunos de Faculdades e de dois grupos de RAP “Face Ativa” e “Calibre 12” que trocaram ideias e cantaram algumas músicas. FW e W.O não tinham um nome definitivo do grupo que formaram. Quando começaram a cantar uma música deles em que o refrão dizia: “Comunidade Carcerária vai lhe dizer que a lei da cadeia é matar pra não morrer”, um dos integrantes do grupo “Face Ativa” disse: “Esse é o nome do grupo de vocês: assim nasceu o grupo Comunidade Carcerária com os integrantes com Washington Pereira Paz (W.O), Flaviano Souza Fonseca Filho (FW), Jhone (Mc Jhey) Beto (B.O).

Jhone ganhou liberdade, mas nunca mais foi visto. Beto foi transferido de Boeing do exército para outro Estado. Ficou no grupo Washington Pereira Paz (W.O), Flaviano Souza Fonseca Filho (FW) e o Carioquinha do Bixiga de tanto W.O e FW incentivarem, ele criou coragem e entrou pro grupo. W.O ganhou a liberdade em 25 de maio de 1999 e passou pelo grupo alguns integrantes nesses mais de 20 anos de história. Hoje na resistência e no grupo estão: Washington Pereira Paz (W.O), Flaviano Souza Fonseca Filho (FW), Claudio Antonio da Cruz (Kric).

O senhor Valdemar era um funcionário que enxergava o preso como uma pessoa que precisa de ajuda para mudar de vida, sair da vida bandida e ter uma segunda chance. Ele costuma dizer que o melhor investimento era a recuperação do ser humano.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Washington Pereira Paz (W.O) para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 09.10.2020: 

Índice

01) RM: Qual sua data de nascimento e cidade natal?

W.O do Grupo Comunidade Carcerária: Nasci no dia 04.08.1975 em São Paulo – SP. Registrado como Washington Pereira Paz.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

W.O do Grupo Comunidade Carcerária: Meu primeiro contato com a música foi em uma quermesse de Pirituba – SP em 1992 subi no palco e cantei um RAP em cima da base do Ndee Naldinho meu interesse pelo Rap começou aos 12 anos de idade.

03) RM: Qual a sua formação musical e/ ou acadêmica fora da área musical?

W.O do Grupo Comunidade Carcerária: Não estudei música e estudei até a sexta série do ensino fundamental.

04) RM: Quais as suas influências no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

W.O do Grupo Comunidade Carcerária: Minhas influências no passado foi Thaíde (Altair Gonçalves) e Dj Hum (Humberto Martins Arruda), Ndee Naldinho, Racionais MC’s, RZO, 2Pac (Tupac Shakur), Realidade Cruel, SNJ, DMN, Sabotagem (Mauro Mateus dos Santos) etc. Minhas influências no presente: Nocivo Chonon, Crônica Mendes, Chahege. Quem deixou de ter importância foi o grupo Racionais MC’s (Mano Brown, Ice Blue, Edi Rock, KL Jay).

05) RM: Quando, como e onde você começou a sua carreira musical?

W.O do Grupo Comunidade Carcerária: O grupo Comunidade Carcerária começou em 1996 escrevemos um RAP para participar de um Festival de Música na antiga Casa de Detenção de São Paulo – Carandiru o grupo foi formado no Pavilhão 8 na cela 207 no segundo andar por Washington Pereira Paz (W.O), Flaviano Souza Fonseca Filho (FW), Claudio Antonio da Cruz (Kric).

06) RM: Quantos CDs lançados?

W.O do Grupo Comunidade Carcerária: Lancei dois CDs com o grupo Comunidade Carcerária“Código de Honra” e “Guerreiro da Paz”.

07) RM: Como você define seu estilo musical?

W.O do Grupo Comunidade Carcerária: Meu estilo é RAP Gângster.

08) RM: Você estudou técnica vocal?

W.O do Grupo Comunidade Carcerária: Eu não estudei técnica vocal e eu aprendi cantar com meu parceiro musical FW.

09) RM: Qual a importância do estudo de técnica vocal e cuidado com a voz?

W.O do Grupo Comunidade Carcerária: O estudo é muito importante para o desenvolvimento e aperfeiçoamento profissional. Os cuidados com a voz ajudam a prolongar a carreira profissional. Infelizmente não estudei técnica vocal, mas tenho interesse em estudar.

10) RM: Quais as cantoras (es) que você admira?  

W.O do Grupo Comunidade Carcerária: Edy Rock do Racionais MC’s, Dina De, Nocivo, Ndee Naldinho, Douglas ex Realidade Cruel, Raquel Reis, Cahege.

11) RM: Como é o seu processo de compor?

W.O do Grupo Comunidade Carcerária: Eu costumo compor através de fatos que acontece no dia a dia. E quando a inspiração de compor surgi a qualquer momento em casa, no ônibus, no trabalho, passeando, quando a inspiração vem eu aproveito e escrevo meu RAP.

12) RM: Quais são seus principais parceiros de composição?

W.O do Grupo Comunidade Carcerária: Eu costumo pegar algumas ideias para compor com meus parceiros musicais FW e Kric, mas meu maior parceiro é DEUS e quando estou escrevendo peço inspiração para Deus.

13) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

W.O do Grupo Comunidade Carcerária: Os prós é que não tem ninguém interferindo na sua minha ideologia, mas o ruim é a falta de estrutura e recursos financeiros para investir no trabalho musical.

14) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

W.O do Grupo Comunidade Carcerária: Em cima do palco pretendo passar mensagens positivas e de alta estima e fora do palco a minha estratégia é de trabalhar a nossa marca com confecções de Bonés, camisetas, CDs e vender nossos artigos para investi na nossa carreira musical.

15) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira?

W.O do Grupo Comunidade Carcerária: Trabalhamos com a nossa marca vendendo nossos artigos: Bonés, camisetas, CDs girando um capital para investi na nossa carreira musical.

16) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira?

W.O do Grupo Comunidade Carcerária: Ela ajuda na conexão entre as pessoas e com outros países, mas ao mesmo tempo a internet também manipula e prejudica como qualquer outro meio de comunicação de massa.

17) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)?  

W.O do Grupo Comunidade Carcerária: As vantagens do home estúdio é que facilitou o processo de gravação de nossos RAP e o que antes demoravam anos, hoje demora dias. Não vejo desvantagens depende de quem está no comando do computador e programas de gravações.

18) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo, mas a concorrência de mercado se tornou o grande desafio O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical? 

W.O do Grupo Comunidade Carcerária: Eu transmito emoção e mensagens de superação em cada frase, um flash, roubando sua atenção te paralisando passando informação através do meu RAP.

19) RM: Como você analisa o cenário do RAP brasileiro. Em sua opinião quem foram as revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?  

W.O do Grupo Comunidade Carcerária: O RAP Brasileiro cresceu muito com novos estilos e duas décadas pra cá surgiram algumas revelações: Mcda, Projota, RZO, Criolo, Hungria, Tribo da Periferia etc. Criolo deu uma sumida.

20) RM: Quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

W.O do Grupo Comunidade Carcerária: EDI ROCK, THAÍDE, EDUARDO TADDEO, MV BILL.

21) RM: Quais as situações mais inusitada s aconteceram na sua carreira musical?

W.O do Grupo Comunidade Carcerária: Uma vez o grupo foi chamado para fazer um show no final da avenida Inajar de Souza, bairro da zona norte de São Paulo e para a nossa surpresa quando entramos no camarim tinha quase 20 policiais. , Acho que o nome do nosso grupo Comunidade Carcerária causa um caos para quem não nos conhecem. Outro fato inusitado foi quando no começo do nosso trabalho fomos comparados com o grupo Racionais MS’s por alguns sites.

22) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

W.O do Grupo Comunidade Carcerária: Eu fico muito feliz como o retorno das pessoas que escutam meus RAP. Escuto palavras de incentivo e alguns depoimentos de pessoas que mudaram suas atitudes após escutar nossos RAP. Fico triste pelas dificuldades que passamos e os obstáculos que encontramos na caminhada do RAP, mas não desisto e o RAP continua Vivo.

23) RM: Você Acredita sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

W.O do Grupo Comunidade Carcerária: Eu não acredito que sem pagar o jabá a rádio 105 FM vai tocar meu RAP. Só as rádios comunitárias e web rádio que tocam sem precisarmos pagar o jabá.

24) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

W.O do Grupo Comunidade Carcerária: Eu digo que primeiro tem que acreditar no próprio trabalho e depois fazer o melhor que pode e sempre buscando o conhecimento e se aprimorando dentro do estilo musical que escolheu.

25) RM: Quais os prós e contras do Festival de música?

W.O do Grupo Comunidade Carcerária: Um Festival de Música é muito bom para o crescimento do artista como músico, mas é muito difícil de conseguir estar entre os primeiros colocados.

26) RM: Na sua opinião, hoje os Festivais de música revelam novos talentos?

W.O do Grupo Comunidade Carcerária: Sim, acredito que os Festivais de Música têm grande importância para revelar novos talentos.

27) RM: Como você analisa a cobertura feita pela mídia da cena musical brasileira?

W.O do Grupo Comunidade Carcerária: Para o artista que tem dinheiro ou empresário que invista na sua carreira musical, a grande mídia funciona muito bem e para quem não tem é quase impossível aparecer na programação de Rádio e TV.

28) RM: Qual a sua opinião sobre o espaço aberto pelo Sesc, Sesi, Itaú Banco do Brasil e Caixa Cultural para cena musical?

W.O do Grupo Comunidade Carcerária: Esses espaços são muito importantes para apoiar e dar um suporte para a carreira musical.

29) RM: O circuito de Bar na sua cidade é uma boa opção de trabalho para os músicos?

W.O do Grupo Comunidade Carcerária: Sim, acredito que se apresentar em Bar é uma boa opção para os músicos se tornarem conhecidos em sua cidade.

30) RM: Quais seus projetos futuros do Grupo Comunidade Carcerária?

W.O do Grupo Comunidade Carcerária: Estamos trabalhando a gravação do terceiro álbum e vídeos clipes para serem lançados em 2021. Lutamos para abrir uma Casa de Cultura na Vila Joaniza na zona sul de São Paulo.

31) RM: Quais seus contratos para show e para fãs?

W.O do Grupo Comunidade Carcerária: (11) 99120 – 9160 (W.O) / https://www.facebook.com/washington.paz.96

Grupo Comunidade Carcerária – Álbum – “Guerreiro da Paz”:https://www.youtube.com/watch?v=cYcvKdWoOB4 

Disponível em: Spotify – https://goo.gl/3id62F 

iTunes – https://goo.gl/QrZq9W

Deezer – https://goo.gl/9K3G35

Napster – https://goo.gl/8a5tMw

Google Play – https://goo.gl/6jnJE6 

Grupo Comunidade Carcerária – Álbum – “Código de Honra” – [2000]: https://www.youtube.com/watch?v=C_okwMpLGwM 

Tv Nas Ruas entrevista com o Grupo Comunidade Carcerária: https://www.youtube.com/watch?v=JpfAKVzhRgg 

Grupo Comunidade Carcerária No Carandiru Programa “H” [1999]: https://www.youtube.com/watch?v=4VEnYF3ZPyU 

GRUPO COMUNIDADE CARCERÁRIA: ENTREVISTA AO BLOG NOCAUTE 2018: https://www.youtube.com/watch?v=EajVgQMqN3w


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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor responsável pela revista digital RitmoMelodia desde 2001, jornalista, músico, poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, propaga a diversidade musical brasileira através de entrevistas e artigos. Jornalista formado pela Universidade Estadual da Paraíba - UEPB (1996 a 2000) que lançou um livro de poesia em 1998 e seus poemas ganharam melodias gravadas em três álbuns concluindo a trilogia "reggae baseado em poesia" no seu projeto musical Reggaebelde. Unindo a sensibilidade do poeta, músico com o senso crítico do jornalista e pesquisador musical colocado em prática em uma revista que Canta o Brasil.