Felipe Avila

Felipe Avila
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O guitarrista, violonista, compositor, arranjador e professor paulistano Felipe Avila começou a tocar aos 10 anos de idade, e aos 17 começou estudar música para entender o que fazia. Achava as suas composições diferentes do convencional, queria buscar novos e maior número de elementos para continuar compondo.

Nas aulas que ele teve de Teoria Musical, Harmonia e Improvisação era usado o piano como instrumento didático. Felipe Avila é autodidata no conhecimento técnico da  guitarra e violão. Três professores o marcaram de forma expressiva: Luiz Roberto Oliveira, apresentou à música brasileira (Felipe só queria tocar rock!) e com quem desenvolvi o conceito de disciplina e o conhecimento da música eletrônica e do sintetizador. E Cláudio Leal com o trabalho de harmonia e improvisação foi essencial para o Felipe queria e buscava. Ele que sempre foi um músico de forte intuição e ousadia considerava muito importante ter a consciência do que está acontecendo. E o Félix Wagner com quem desenvolveu a percepção. Contribuiu muito para aprendizado: “do quê e como ouvir”, além de ensinar a escrever solos – Felipe analisava e tocava – era um estudo complexo que a princípio parecia impossível. Descobriu músicos e trabalhos que não conhecia – além dele (o professor) que é um grande instrumentista – sem falar em grandes solistas, mesmo aqueles cujos instrumentos eram diferentes do meu, como Charlie Parker, Baden Powell e outros.

Ele teve poucas influências de guitarristas brasileiros. Nessa época, não havia material, quase sempre o que era disponível referia-se a guitarristas americanos ou europeus. Hoje isto mudou, comenta feliz Felipe. Suas referências musicais na música e na guitarra: Helio Delmiro, Heraldo do Monte, Wes Montgomery, George Benson, Django Reinhardt, Joe Satriani, Steve Morse, John MacLaughlin, Barney Kessel, e no violão: Baden Powell, João Bosco, Leo Browell, Theo de Barros, além de outros músicos como Hermeto Pascoal e o Grupo Um.

Felipe já se apresentou no Brasil e no exterior, no contato com tantas pessoas e lugares diferentes que conviveu e compartilhou os resultados, sua maior felicidade foi de tocar com grandes músicos como: Felix Wagner, Lelo Nazário e Zé Eduardo Nazário, Teco Cardoso, Itamar Collaço, Vinícius Dorin, entre outros. E de participações e da criação de vários grupos instrumentais – Sexo dos Anjos, Casa 3, Orquestra Estranho Hábito, e mais recentemente, Os Cinco, e o Power Trio “Percussônica”. E como uma criança que ganha sua primeira bicicleta ele conta da sua guitarra dos sonhos: “Sempre quis ter uma Ibanez GB10, tanto por sua beleza como pela qualidade do som. Foi desenhada para o George Benson, um dos meus maiores ídolos. Semiacústica, ela possui dois captadores IBZ GB Special (braço e ponte), braço de ébano, tampo de spruce e lateral e fundo de maple. No início dos anos 1990, uma cantora e violonista recém-chegada do Japão me procurou para que lhe fizesse arranjos de seu próximo disco. Quando passei o orçamento do meu trabalho, ela me propôs pagar com uma das guitarras que havia trazido do Japão, que eram uma Joe Pass acústica e uma Ibanez GB10 semiacústica. Não acreditei que essa oportunidade estava batendo à minha porta. Mal consegui escrever os arranjos, contaminado pela ansiedade de receber logo o meu ‘cachê’. Foram muito trabalhosas as gravações e criação dos arranjos, mas valeu a pena”.

“Músico, músico, músico. É o que é Felipe Ávila, guitarrista, violonista, compositor, devotado ao seu instrumento e aos sons que dele extrai. Eu o conheci ainda muito jovem, ao lado de Luiz Brasil, Cid Campos, Xico Carlos, Guelo e outros, integrando o “Sexo dos Anjos”, grupo instrumental que marcou época nos anos 80, tempos efervescentes do Lira Paulistana e das vanguardas da MPB de São Paulo. O que me chamou a atenção desde logo em Felipe foi a sua inventividade, a sua abertura para o instrumental, patente em composições virtuosísticas onde as evoluções imprevistas do dedilhado da guitarra quebravam ritmos e descobriam modulações incomuns, na linhagem dos mais ousados inovadores do jazz e da música pop. Premido pelas dificuldades, o grupo se dissolveu, porém cada qual, ao longo do tempo, foi desenvolvendo um trabalho independente, que dia a dia sobressai com mais nitidez. Felipe prosseguiu com atividades docentes e intervenções criativas, junto de músicos expressivos como Lelo e Zé Eduardo Nazário, com os quais lançou o belo CD – “Percussônica”, uma festa de criatividade sonora. Artista consumado, mestre de seu instrumento, grande incentivador da música instrumental, ele não mudou”, segundo Augusto de Campos (poeta, tradutor, ensaísta, crítico de literatura e música).

Segue abaixo entrevista exclusiva com Felipe Avila para a www.ritmomelodia.mus.br , entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 09.08.2020:

Índice

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal? 

Felipe Avila: Nasci no dia 27.05.1957 em São Paulo – SP.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Felipe Avila: Eu cresci ouvindo muita música clássica em casa, com minha família. Tenho quatro irmãos mais velhos e todos estudavam Piano desde crianças. Minha mãe também tocava Piano e cantava. Meu pai ouvia muitos programas de rádio.

03) RM: Qual a sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical?

Felipe Avila: Formei-me no segundo grau, num curso técnico em Administração de Empresas. A partir daí, passei a me dedicar somente aos estudos da música. Estudei por dois anos na Fundação das Artes de São Caetano do Sul – SP e, segui meus estudos de Harmonia, improvisação e Composição, com alguns professores particulares como: Luiz Roberto Oliveira, Claudio Leal Ferreira, Roberto Sion e Felix Wagner. Tecnicamente, sou autodidata.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente.

Quais deixaram de ter importância?

Felipe Avila: Tudo o que pude ouvir, desde a música clássica lá em casa, e mais adiante, Beatles, Jovem guarda e, o Rock do Led Zeppelin, Deep Purple, Jimi Hendrix e tantos outros, me influenciaram de alguma maneira. Fizeram parte da minha formação e de minhas influências. No momento em que passei a estudar e me tornar um profissional da música, muitos outros contatos e outros instrumentistas e compositores eu passei a conhecer: Hermeto Pascoal, George Benson, Wes Montgomery, Vitor Assis Brasil, Heraldo do Monte, Hélio Delmiro, John Scofield, Django Reinhardt, Kurt Rosenwinkel, Pat Metheny, Miles Davis, Weather Report, Bill Evans, Barney Kessel, Jeff Beck e muitos outros. Nenhum deixou de ter a sua importância!

05) RM: Quando, como e onde você começou a sua carreira musical?

Felipe Avila: Meu primeiro show foi num Sanatório (risos), e um cheque no valor de 13 cruzeiros de cachê. Isso em 1968, eu com 11 anos de idade. Eu tocava Bateria e, o pai de um dos guitarristas, era o dono ou o administrador do Sanatório. Ele nos contratou para tocar numa festa que aconteceu nos diversos pátios do Sanatório. Eu nem sabia o que era um Sanatório!

Uma curiosidade: no Sanatório, tinha um alemão, ele era só meio maluco (risos) ficava solto, circulando em todos os pátios e ajudando todos que precisavam. Depois que tocávamos num pátio e tínhamos que ir para outro, ele abraçava minha Bateria por baixo e, saia carregando tudo (risos). Ele era bem grande, uns dois metros de altura e muito simpático e sorridente, mas aquilo era assustador!

Nessa mesma época e, com outro conjunto, “Os Únicos”, fomos tocar num programa de televisão na TV Bandeirantes. O programa Tic-Tac do Tio Molina. A partir daí e, já faz mais de 50 anos que peguei o gosto pelo sanatório (risos).

06) RM: Quantos CDs lançados? Cite alguns CDs que participou?

Felipe Avila: Lancei oito CDs: 6 autorais e dois  “Beatles Brasil”. Os meus CDs Autorais: “Percussônica” e “Percussônica ao Vivo-Hoje”, com o Power Trio com os músicos Lelo Nazario e Zé E. Nazario. “Janela”; “Quase Tudo”, “Xaxim”, “Amazônia”. E  “Beatles Brasil”  e “Beatles Brasil Vol. II”,  com músicas dos Beatles  e com arranjos com sabor da música brasileira.

Tive muitas oportunidades de gravações ao longo de mais de 40 anos como profissional, com artistas diversos, em que toquei Violão, Guitarra e fiz arranjos e produção musical: “Todo dia, qualquer hora”João Bianco e Mônica Marsola; “E por falar em tabuada…”João Bianco e Mônica Marsola; “Onda de Amor”André Melo; “Onde o céu azul é mais azul”Margareth Reali; “Quebragalhoterapia” – Meneguim; “Cabelos de Sansão” – Tiago Araripe E com arranjos do maestro Antonio Duran, foram vários CDs gravados no Studio da Edições Paulinas – Comep, com destaque para: “As sete palavras de Cristo na cruz”, músicas de Johnny Alf. Banda VRT; Com o compositor Cid Campos foram cinco CDs: “No Lago do Olho”, “Fala da Palavra”, “Crianças Crionças”, “NEM” e “Emily”.  “Eva Jagun”Camburí, “Ateliê” – Claudia Catelli; “Africasiamerica” – Lelo Nazario, “Canto da Areia” – Beba Zanettini.

07) RM: Como você define o seu estilo musical?

Felipe Avila: Não me considero um especialista e também nunca pretendi ter um só estilo musical. Sempre me dediquei estudando e, procurei tocar todos os gêneros e estilos diferentes. Essa característica, era importante para quem queria ser um músico profissional nos anos 60 e 70, quando iniciei minha carreira musical.

A diversidade, ter conhecimento e tocar de tudo, possibilitava ter acesso a mais oportunidades de trabalho e, isso era importante e necessário. Sempre gostei mesmo desta diversidade, de tocar de tudo. Penso que navegar por todas as águas é enriquecedor de maneira geral e, em todos os gêneros tem coisas lindas. Mas, claro que tenho minhas preferências.

08) RM: Como é o seu processo de compor?

Felipe Avila: Às vezes, por inspiração, já aconteceu de eu estar dormindo e, acordar cantando uma melodia e me levantar para escrever. Se voltasse a dormir, certamente teria me esquecido dela no dia seguinte. Outras vezes, insistindo num exercício qualquer, brincando, estudando, pesquisando. Na busca por sonoridades e timbres diferentes. Um motivo melódico, rítmico ou um caminho harmônico diferente, pode despertar a criatividade e principalmente, a vontade de compor.

09) RM: Quais são seus principais parceiros de composição?

Felipe Avila: Nunca tive parceiros para compor. Mas, sim, nas ideias de arranjos. Pensar junto, experimentar e decidirmos qual a melhor ideia. Nos grupos: Casa 3, Sexo dos Anjos e o Power Trio Percussônica, isso acontecia com naturalidade.

10) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Felipe Avila: Hoje, praticamente todos os artistas e principalmente os músicos, são independentes. As gravadoras ficaram enfraquecidas com a internet e plataformas digitais. Desta forma, você dirige suas ideias, faz a música que quer e acredita, sem ter que dar explicação de nada e, para ninguém. Mas, por outro lado, correr atrás dos recursos necessários para realizar um show, divulgação, patrocínio etc; de forma independente é muito sacrificante e cansativo. E, são poucos artistas-músicos que conseguem e “sabem” realizar bem estas tarefas tão importantes. O ideal, é que o músico se concentre apenas em tocar, estudar os arranjos e poder fazer uma boa apresentação.

Eu, na minha carreira musical, não tive a oportunidade de usufruir das estruturas que as gravadoras ou produtoras propiciam aos artistas contratados. Tive sim, muito apoio da minha mulher, a Maria Rosa, que através do seu relacionamento pessoal e profissional, conseguiu em algumas empresas, apoio para os meus projetos.

Deve ser muito bom poder contar com uma estrutura de divulgação na grande mídia, uma condição digna e com qualidade para realizar as gravações de discos-CDs, viagens e shows. Curti um pouco destas estruturas, trabalhando para alguns artistas. E, quando o artista é lucrativo para a gravadora ou produtora, ele consegue impor suas vontades e projetos pessoais também.

11) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

Felipe Avila: Não acho que minha carreira artística tenha tido estratégias de planejamento. As coisas foram acontecendo de forma natural em função dos estudos, relacionamentos e, dos convites de trabalhos que iam surgindo. Fui privilegiado por momentos profissionais de mercado muito férteis em termos de oportunidades de trabalho. Essa sequência de trabalhos diversos com vários artistas, é que foi impulsionando, estimulando e solidificando a minha carreira musical.

Sempre procurei fazer música ou, estar trabalhando para algum artista, com o maior prazer e, dando o meu melhor. Mas, sem perder a noção da troca, da remuneração justa e digna e, principalmente, do quanto investi nos meus estudos e equipamentos para poder realizar o meu trabalho com qualidade. Mas entendo que seja importante sim ter estratégia e planejar as coisas. Hoje, isso é importantíssimo e, estou me adequando. No palco, procuro tocar da melhor maneira possível, interpretar e fazer uma música que as pessoas possam curtir.

12) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira musical?

Felipe Avila: Procuro entender e fazer uso das ferramentas disponíveis na internet. Isso exige bastante tempo e dedicação, mas é importante. Meu site, minha página no YouTube, as redes sociais. Faço divulgação dos shows, das aulas

que dou, presencial ou online, da distribuição dos meus CDs que acontecem nas diversas plataformas digitais e também em alguns sites e lojas através da Tratore, que faz a distribuição. Tenho muito material gravado de meus shows e, também com artistas diversos, que vou editando e disponibilizando também para o público. Acho legal que as pessoas mais jovens tenham a oportunidade de conhecer estes sons que estão fora da grande mídia, mas que fazem parte da nossa história.

13) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento da sua carreira musical?

Felipe Avila: É uma ferramenta que está aí e veio para ficar. Tem um alcance enorme e podemos nos conectar com o mundo, é necessário que saibamos fazer uso dela. Mas, ao mesmo tempo, a internet deixou a música barata e de fácil acesso. Muito material de videoaulas, disponíveis há qualquer preço ou até mesmo de graça. Muitas vezes ótimos músicos, com conhecimentos “questionáveis”, mas, famosos e, disponibilizando material que agrada e, de graça. Este profissional poderá ter dificuldade de ser remunerado lá na frente, como também, muitos outros professores sofrem consequências deste comportamento.

É uma situação semelhante ao Karaokê nas casas noturnas. Além do proprietário não contratar mais os músicos, passou a faturar com pessoas que pagam para cantar no estabelecimento. Como competir com isso? Muita gente disponibilizando material em troca de visualizações e fama. E, com isso, o conhecimento mais sólido e estruturado de uma aula planejada mesmo, fica sem sentido. As pessoas vão direto na cereja do bolo. Sim, é prazeroso e estimulante, mas não tem conteúdo e solidez. É um aprendizado fácil e descartável ao meu ver. É um assunto e comportamento delicado.

14) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)?

Felipe Avila: Não vejo desvantagem e sim, só benefícios para quem trabalha com a música. Poder compor e gravar, fazer trilhas e registrar o material. No passado, na década de 80, tive dois grupos de música instrumental que considero bastante interessantes: O Casa 3 e, o Sexo dos Anjos, mas que não conseguiram gravar os LPs. Era muito caro fazer um disco e, as gravadoras não estavam interessadas na música instrumental.

Hoje está bem fácil, podemos gravar um CD por dia, os singles também. Mas esse conforto também gera uma acomodação das pessoas e uma certa solidão em fazer tudo sozinho. O músico deixa de compartilhar e de tocar junto com outros músicos. Perdemos o contato social e a troca de ideias que sempre foi muito enriquecedora. A energia que rola de um som quando os músicos estão juntos é incomparável.

15) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo. Mas, a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical? 

Felipe Avila: Penso que a “concorrência” leal de mercado é saudável e, o público poder ter a oportunidade de escolher, comparar e decidir o que quer. A identidade e personalidade musical são importantes para o artista se posicionar e ficar conhecido. Procuro me mantar fiel a estas características que considero o diferencial e que possam me beneficiar. Fazer a música que acredito ser interessante, um trabalho artístico, criativo e feito com muito carinho e dedicação acima de tudo.

16) RM: Como você analisa o cenário musical brasileiro. Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Felipe Avila: Temos no Brasil, pessoas interessantes e talentosas fazendo trabalhos muito criativos e de alto nível, como sempre tivemos. Eu gostaria que os Centros Culturais, Sesc e Museus, que tem espaço e programação para shows, pudessem ter uma diversidade mais ampla de artistas jovens, misturado com os mais seniores que realmente necessitam destas estruturas para realizarem seus trabalhos.

Hoje, a relação do artista com os programadores destes Centros Culturais passaram a ser por email. Não há mais o encontro, levar o CD novo, um café e bate papo. E você nem sabe se seu material ficou no SPAM do programador. E, ficamos sem respostas. Temos algumas pessoas jovens responsáveis por estas programações, agendar e contratar os shows, que tem pouco conhecimento da história da nossa música, e também não conhecem muitos dos músicos mais velhos e que ainda atuam no mercado musical. Isso somado à forma de relacionamento mais distante que se instalou, praticamente fecha as portas para quem está fora da grande mídia.

Novos talentos nas duas últimas décadas, me permite ir bem longe. Vou citar trabalhos que amadureceram, ganharam corpo e qualidade: Cid Campos, Mônica Salmaso, Beba Zanettini, Anderson Moura, Thiago Pimentel, Rodrigo Zanettini, Nando Miranda, João Taubkin, Zeca Loureiro, Michelle Spinelli, Zezé Freitas, Willie Daniel e Kiko Perrone.

Quero destacar o trabalho do Peter Farrel, um guitarrista de São Paulo que tive a oportunidade de conhecer através de um convite do Tomati para fazermos um som. O Peter Farrel, desenvolveu um método de guitarra, junto com o mentor dele: O George Benson. Já está disponível no mercado, eternizando assim o jeito e o estilo do mestre George Benson, que é uma grande referência na guitarra.

Alguns trabalhos consistentes e para vida toda são: Hermeto Pascoal, Tom Jobim, Pau Brasil, Banda Mantiqueira, Nenê Trio, Lelo Nazario, Felix Wagner, Moacir Santos, Victor Assis Brasil e muitos outros.

17) RM: Quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Felipe Avila: Especificamente músicos: Lelo Nazario, Jane Moraes, Marinho Andreotti, Nenê, José Briamonte, Cid Campos, Robertinho Carvalho, Beba Zanettini, Douglas Las Casas, Vinícius Dorin, Felix Wagner. Quero acrescentar três artistas com quem trabalhei e que os admirava muito pelo profissionalismo: O Luiz Carlos d’Ugo Miele, Dercy Gonçalves e o Manolo Otero.

18) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical?

Felipe Avila: Por duas oportunidades e por dois anos consecutivos, fiz shows com o cantor espanhol Manolo Otero num cemitério em Santos – SP – Memorial Ecumênico. No dia dos pais e com um público bem grande. Fizemos um show também em Rio Branco-Acre, numa Casa de Forró, 40 graus na sombra e nós de smoking. Foi triste!

AH! Essas coisas acontecem aos montes (risos). Ter tocado em um grande show internacional, na inauguração de um cemitério foi uma coisa estranha (risos). Mas acho que a coisa mais maluca mesmo, foi ter tocado num show-comício, na cidade de Assis – SP no início dos anos 80, com o cantor Waldick Soriano. Ele cantava em cima de um caminhão-palco, junto com o prefeito e autoridades locais, e a banda que o acompanhava, num outro caminhão do outro lado da avenida, muito distante mesmo. O atraso do som era enorme. Ele acabava de cantar a música uns 5 minutos antes da banda, era muito louco aquilo. E, depois deste show, continuamos em cima do caminhão, tocando pela cidade como se fossemos um trio-elétrico. O motorista do caminhão se empolgava com o som e corria (Risos). Ninguém conseguia seguir o caminhão, as pessoas também corriam e os galhos das árvores iam derrubando tudo que estava em cima do caminhão, inclusive os músicos e os instrumentos. Só vendo para crer!

19) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Felipe Avila: Uma coisa que me entristece muito é; ver um artista famoso, dar uma entrevista de uma página inteira de jornal, falando de um show ou de um CD novo e, não mencionar em nenhum momento quem toca com ele (a), quem gravou o que, e fez os arranjos, etc… Isso, acontece com muita frequência, infelizmente. O que me deixa muito feliz é; ter a oportunidade de tocar com amigos e grandes músicos, com boas condições de cachê, som e lugar apropriado.

20) RM: Você acredita que sem o pagamento do Jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Felipe Avila: As minhas músicas, nem pagando tocarão nas rádios de grande audiência (risos). Não que sejam ruins. São muito raros hoje, os programadores sérios e com bons programas em rádios, onde há espaço para a música instrumental. E, com autonomia de tocarem o que quiserem.

21) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Felipe Avila: Sugiro que ele (a) ouça de tudo, procure tocar todos os gêneros e estude sempre e muito. Tenha bons relacionamentos e procure estar sempre com boas pessoas e ótimos músicos. Valorize o que faz, lembre-se sempre o quanto você investiu de tempo e dinheiro nos estudos, equipamentos e não abra mão de trabalhar com dignidade, ética e boas condições. Seja uma pessoa boa acima de tudo.

22) RM: Quais os guitarristas que você admira?

Felipe Avila: Eu gosto de muitos guitarristas. Mas, citarei alguns: George Benson, Django Reinhardt, Luiz Brasil, Tomati, Kurt Rosenwinkel, Frank Gambale, Barney Kessel, Herb Ellis, Jim Hall, Faíska, Álvaro Gonçalves, Allan Holdsworth, Lee Ritenour, Jarbas Barbosa, Aires, Pat Metheny, Pat Martino, Antenor Gandra, Djalma Lima, Roben Ford, Scott Henderson, Michel Leme, Mou Brasil, Steve Vai, Steve Morse, Joe Satriani, Sergio Dias, Don Mock, Luis Carlini, Raulito, Joe Bonamassa, Peter Farrel, Joe Pass, Fernando Corrêa, Pablo Zumaran, Mike Stern, Heraldo do Monte, Hélio Delmiro, Jeff Beck, Ritchie Blackmore, John Scofield, Kenny Burrel, John Mclaughlin, Adam Rogers, Nelson Faria, Paul Gilbert, Greg Osby, Gary Moore, John Mayer, Martin Miller, Tom Quayle e, muitos outros.

23) RM: Quais os compositores eruditos que você admira?

Felipe Avila: Heitor Villa Lobos, Claude Debussy, Leo Brouwer, Ravel, Bela Bartok, Frederic Chopin, Erik Satie, J. S. Bach, Mozart e outros. 

24) RM: Quais os compositores populares que você admira? 

Felipe Avila: Ary Barroso, Pixinguinha, Cartola, Paul MacCartney, Jackson do Pandeiro, João Bosco, Eric Clapton, Moacir Santos, Chick Corea, Hermeto Pascoal, Lelo Nazario, Cesar Camargo Mariano, Tom Jobim, Felix Wagner e muitos outros…

25) RM: Quais os compositores da Bossa Nova você admira?

Felipe Avila: Tom Jobim, Menescal, Luis Bonfá, Sergio Mendes, J.T. Meirelles, Newton Mendonça, Paulo Costta, João Donato, e outros.

26) RM: Nos apresente seus métodos de Guitarra?

Felipe Avila: Sou professor há mais de 40 anos, mas não escrevi meu método de dar aulas. A princípio, comecei a dar aulas por necessidade, preferia mil vezes ter uma agenda cheia de shows, claro. Mas com o passar do tempo, comecei a gostar de dar aulas. O relacionamento que se cria com os mais jovens é muito legal. Eu me organizei de tal maneira, que hoje tenho todo o material escrito no computador, um estúdio onde gravo CDs para o aluno tocar junto com as músicas originais e também com playbacks, para desenvolver solos. Para os alunos interessados, que estudam e querem se tornar um profissional, não tem segredo, digo a eles: Estudem muito, procurem tocar e conhecer todos os gêneros musicais sem preconceito e tenham bons equipamentos. Também digo para se relacionarem com outros músicos, que tenham disciplina e sejam perseverantes. Nada vem fácil e de graça.

27) RM: Quais as principais técnicas que o aluno deve dominar para se tornar um bom Guitarrista?

Felipe Avila: “Ser um bom guitarrista”, é um tema complexo… Ter o conhecimento e a compreensão de várias matérias, mais a disciplina de tocar todos os dias e, por muitas horas, pode ajudar e, fazer com que o aluno venha a se tornar um bom guitarrista. Claro que o dom e talento são importantes também.

O aluno decidir qual linguagem musical ele quer desenvolver e, se deseja se especializar em alguma delas, pode ajudar muito a planejar a estrada que irá percorrer e a concentrar energias para tal. Ou, como eu fiz, optar em tocar todos os gêneros e estilos diferentes. E, não chegar a lugar algum (risos). Brincadeira (risos), este caminho foi o que escolhi para mim!

Mas, basicamente, não dá para fugir de alguns assuntos como: os arpejos, escalas diversas, o domínio e a percepção rítmica, melódica, e o estudo da harmonia. São o alicerce de conhecimento de todos os músicos. Mas, não basta só conhecer estes assuntos, tem que estar “na mão”. Já aconteceu de um aluno me dizer que quer ser “solista”, mas não quer saber de fazer muitos acordes ou tocar a “Base”. A pessoa esquece ou não sabe, que praticamente, todos os solos acontecerão em cima de acordes ou harmonia-Base. Há não ser num tipo de música específica, que não tenha harmonia (Acordes). Então, é preciso conhecer e analisar muitas harmonias para ser um bom solista. Saber o que fazer e como aplicar o conhecimento daquelas escalas todas.

28) RM: Quais os principais vícios e erros que devem ser evitados pelo aluno de Guitarra?

Felipe Avila: Estudar sempre as mesmas coisas, ficando na “zona de conforto” e evitando assim, novos desafios e novos conhecimentos. Querer impressionar fazendo escalas super rápidas e achar que está arrasando. A velocidade é um recurso muito interessante, desde que o músico esteja pensando junto com os dedos, construindo as idéias e sentimentos. Apenas o movimento físico dos dedos não nos passa música. Impressiona sim, mas, sem alma. Tocar rápido significa pensar e sentir rápido.

29) RM: Quais os principais erros na metodologia de ensino de música?

Felipe Avila: Já me deparei com alunos me pedindo um caminho mais fácil. EX: Não dá pra simplificar isso? Deixar a música mais fácil de tocar? Eu digo: Se eu fizer isso, a música que você gosta de ouvir e deseja aprender, perderá aquele sabor, não será mais a mesma música. Nós, professores, não devemos concordar com isso, aceitar de alguma forma atender a estes pedidos “preguiçosos”, não estaremos contribuindo com nada. Não existe um caminho fácil para tocar bem um instrumento. Claro que temos que fazer o que for possível para que o estudo da música seja o mais prazeroso, mas sem pular etapas e sem deixarmos de encarar e de estimular para o aluno para os desafios que existem.

30) RM: Existe o Dom musical? Como você define o Dom musical?

Felipe Avila: Sim. Tem algumas pessoas que são muito privilegiadas e iluminadas com a música. Dá até raiva (risos). Abençoadas mesmo. E, estas pessoas quando tem a oportunidade de também poder estudar, aí elas vão pra outro planeta, para muito longe mesmo. Posso definir “O Dom musical” como: O músico que tem uma memória musical gigantesca, tudo fica fácil de tocar, de ler e, de ter uma facilidade enorme em inventar e criar, compor e improvisar. Além de um ouvido de elefante (risos). Na verdade, são muitos dons.

Ouvir Django Reinhardt por ex: Parece que ele gravou ontem o disco. Uma concepção musical moderníssima, fazendo uso de todos os truques do instrumento (No Violão – Harmônicos, Bend, Mute…), na época dele, o Violão era um instrumento relativamente novo ainda. E, pensar que a discografia dele praticamente é dos anos 30 e, ele morreu muito jovem. Mas, mesmo assim, nos deixou muito material. Um virtuose genial e muito criativo. Um exemplo de um gênio com muito dom.

31) RM: Qual é o seu conceito de Improvisação Musical?

Felipe Avila: Gosto de pensar improvisação na forma livre. Mas com bom senso, sem arruinar muito a música do amigo (risos). Gosto da maneira como a improvisação acontece no Bebop, onde todas as notas são usadas de forma melódica. Vale tudo! Mas é uma linguagem que também tem regras. Gosto do Free também.

32) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre Improvisação musical?

Felipe Avila: Tudo que reúne material de estudo com a proposta de ensinar, educar, e, que tenha conteúdo bom, não vejo nada contra. Um método feito por quem estudou, se dedicou a fazê-lo e que queira compartilhar novas ideias, é ótimo e Bem-vindo!

33) RM: Existe improvisação musical de fato, ou é algo estudado antes e aplicado depois?

Felipe Avila: Sim, existe e, isso acontece com músicos que estudam permanentemente. Faz parte da rotina do músico ir tocar, fazer um som e, ter que ler e tocar alguma música desconhecida por ele. E, ter que improvisar sobre a harmonia e o tema. Aqui no Brasil, de maneira geral, não temos o hábito e a disciplina de ensaiar. Quase sempre não há verba para pagar ensaios. Então, não se ensaia.

Mas, para o músico que é estudioso, esse desafio chega a ser até muito prazeroso. É nesta situação, de tocar e improvisar numa música desconhecida por ele, que porá em prova a sua capacidade de assimilação dos seus momentos de estudo. A qualidade da sua performance, o reflexo da leitura e o raciocínio.

O hábito e a disciplina do estudo, ajuda ao músico a ter uma boa performance nestas situações. Pois certamente nos momentos de estudo dele, aconteceram situações similares de harmonia e estrutura, então; ele está preparado.

34) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre o Estudo de Harmonia musical?

Felipe Avila: Eu só percebo benefícios para métodos de qualquer matéria e, disponíveis para quem quer estudar. Desde que sejam bem feitos e que tenha conteúdo.

35) RM: Quais os métodos que você indica para o estudo de leitura à primeira vista?

Felipe Avila: A leitura à primeira vista, é consequência de um treino diário de praticar ler partituras que a pessoa nunca tenha lido.

36) RM: Como chegar ao nível de leitura à primeira vista?

Felipe Avila: Lendo muito (risos). Um estudo que posso sugerir e que considero bem legal é: Escolha um solo de um grande músico que goste, com boas frases e ideias e que queira tocar. Não precisa ser necessariamente do mesmo instrumento do estudante. Escreva nota por nota, depois leia e toque exatamente igual. Respire junto. É um estudo bastante completo fazer isso. Estará praticando a percepção, ouvindo o som. A escrita, a leitura posteriormente e, a técnica ao executar o que ouviu e escreveu. E, seja persistente sempre.

Quando eu comecei a vida profissional, a leitura rápida de uma partitura, era um item muito importante e requisitado para o músico. Os shows de grandes artistas e também, nas gravações de discos e até de jingles nos estúdios, tinham arranjos escritos pelo maestro. O maestro chegava com os arranjos, distribuía as partes para os músicos e; gravando! Quase não havia tempo para olhar e entender do que se tratava. Era um momento muito tenso e de muito suor (risos).

Eu olhava para os lados e via só cobras, músicos cheios de experiencia, brincando e conversando…, e eu querendo estudar ali o arranjo antes do maestro contar 1,2,3,4. Por mim, ele poderia contar até 1200 e, bem devagar (risos). O custo da hora de um estúdio era muito alto e não podia perder tempo, tinha que ter muita competência e rapidez mesmo.

Hoje, o produtor ou cantor (a), desenvolveu a prática de enviar os áudios do repertório do show para os músicos da banda que farão o show. E, salve-se quem puder (risos). Temos que torcer para que todos os músicos saibam ouvir igual e toquem os mesmos acordes, mesmos compassos, etc… poucos músicos sabem escrever direito e com qualidade. Outros não irão querer escrever mesmo, pois não estão sendo pagos para tal.

Aí você pergunta para o artista: você tem o seu repertório escrito? Resposta: Não, cada um escreve a sua parte (risos). Esse comportamento, que se generalizou, torna a produção do show mais barata, uma vez que não haverá um diretor musical, arranjador ou maestro…, mas certamente, todos os envolvidos no ensaio, perderão muito mais tempo fazendo os acertos e tentando entender as coisas. As horas de estúdio e tempo gasto nos ensaios serão muito maiores. E, a margem de erros durante os shows também.

37) RM: Quais foram os primeiros obstáculos no início da sua carreira musical?

Felipe Avila: Penso que a falta de uma condição financeira mais privilegiada por parte da minha família, que me possibilitasse ter acesso ao estudo diversificado de forma mais frequente e que a falta de equipamentos de som com qualidade, discos, e instrumentos, foi o lado mais chato do início. Havia uma dificuldade muito grande em conhecer outras pessoas da minha idade e com vontade de se tornarem músicos e que tocassem outros instrumentos para que pudéssemos ter um grupo. Um cara que tocasse Baixo, por exemplo, era muito difícil. Também tentei por várias vezes arrumar um professor de guitarra em vão.  Os bons guitarristas daquela época que procurei para ter aulas como o Aires, Antenor, e Domingos, não tinham tempo para dar aulas em função de muitas gravações e trabalhos diversos. Para estes músicos da época, era um mercado muito privilegiado em termos de trabalho. Acabei por estudar um pouco de violão clássico num conservatório. Foi legal, mas não era o que eu queria.

38) RM: Por que você optou pela música instrumental?

Felipe Avila: Não sei se a música instrumental foi uma questão de opção. Naturalmente, desde que comecei a tocar, não sentia prazer em cantar, gostava mesmo era de tocar. Hoje, durante meus estudos, gosto de cantar os solos dos diversos instrumentistas que ouço. Percebo que cantando, a assimilação é muito maior.

39) RM: O que é pior. Tocar com um músico de pouca experiência /conhecimento ou tocar com músico “estrela” demais? 

Felipe Avila: Nunca tive a oportunidade de tocar com um músico “estrela” demais. Conheci e toquei com grandes músicos muito exigentes, mas não “estrelas”. Para mim, o grande músico também envolve a pessoa, o ser humano. Mas por algumas vezes, toquei com músicos com pouca experiência. É difícil, o som não rola, parece que tem um caminhão de uma tonelada em cima de você (risos). Quando este músico de pouca experiência e conhecimento está aberto a sugestões e dicas, maravilha, dá para levar a situação com mais humor e com o pensamento de que a coisa vai melhorar (risos). Mas quando este músico ruim se acha ótimo e cheio de ideias e é um líder, aí a coisa fica feia. Então, me tira daqui (risos).

40) RM: Com você se define como guitarrista?  

Felipe Avila: Sou autodidata, como disse e nunca tive um professor de guitarra. Não que eu quisesse ser um, mas naquela época que resolvi começar a estudar música, os poucos guitarristas que tinham no mercado não tinham tempo para dar aulas ou não eram professores. A guitarra é um instrumento de muitos atalhos e truques e, sozinho, perde-se muito tempo para descobrir essas particularidades do mesmo. Mas, voltando à sua pergunta, me considero um guitarrista versátil e estudioso. Adoro tocar guitarra.

41) RM: Com você se define como violonista?

Felipe Avila: Sempre gostei muito de tocar o Violão e já estudei muita coisa da música erudita. Mas, chegou um momento da minha vida profissional que tive que optar em estudar e tocar mais a guitarra. Era mais requisitada para shows e gravações. O violão é outro instrumento, outra técnica. Eu utilizo muito o violão para compor e nas gravações que é requisitado. Sou um violonista que toca violão (risos).

42) RM: Quais músicos que te companharam que você passou a admirar?

Felipe Avila: O Brasil é um país-celeiro de muitos músicos de alto nível e, em várias oportunidades, pude conhecer, tocar e trabalhar com muitos deles. Mas, no meu trabalho, procuro me cercar de amigos e pessoas que tenham prazer em tocar a minha música, como também de ótimos músicos. Assim, tudo fica mais fácil. Vou citar alguns que trabalham comigo hoje: Zé Nazário e Nenê (Bateria-percussão), Itamar Collaço e Marinho Andreotti (Baixo acústico e elétrico), Lelo Nazário e Moisés Alves (Teclado), Vinícius Dorin e Vitor Alcântara (Sax/Flauta), Robertinho Carvalho (Baixo), Douglas Las Casas (Bateria), Beba Zanettini (Teclado). Com destaque para os trabalhos do Lelo que, além de tocar também, faz toda a mixagem e masterização dos CDs.

43) RM: Quais os motivos que o levou a terminar o trabalho com os grupos musicais?

Felipe Avila: Na década de 80: Grupo Casa 3, Sexo dos Anjos, Patif Band, Sexteto do Félix Wagner e Orquestra Estranho Hábito, Grupo Velocípede. Nos anos 90: Os Cinco, e o Power Trio Percussônica. Os motivos para o fim dessas formações são diversos. E no nosso caso, não me lembro de problemas específicos de relacionamento, brigas por ganância, ou mesmo conflitos de valores e interesses – que são a causa de boa parte das separações. Nos diversos grupos nos quais eu curti muito tocar, os fatores de interferência foram desde a vontade de se fazer outro tipo de música, até problemas com agenda dos músicos ou falta de perspectiva e falta de espaços para tocar. Hoje, acho que do jeito que a coisa vai… Falta até público que exija música de qualidade.

44) RM: Você participou, na década de 80 do movimento Lira Paulistana e das vanguardas da MPB de São Paulo. Conte como foi essa experiência.  

Felipe Avila: Foi um momento muito criativo dos músicos e de um mercado aquecido da música em São Paulo. Muitos grupos e trabalhos com qualidade surgiram naquela época. E, talvez o fato mais significativo, foi o de termos um público grande que nos acompanhava em todo este momento histórico da nossa música.  O Lira Paulistana e também o programa da TV Cultura Fábrica do Som, os Circos montados pela cidade, o Metrô, e os bares com música ao vivo, como o “Lei Seca” e “Penicilina”, foram pontos expressivos daquele momento. Por outro lado, a confecção de um disco, ainda era uma ideia de alto custo no sentido do investimento e eram poucas as gravadoras que se interessavam por aquele tipo de música.

Então, surgiu o disco independente.  O “Grupo UM” lançou “Marcha Sobre a Cidade” que foi o primeiro disco independente do Brasil, em 1979, Era muito bom participar dos Festivais de Música e dos programas culturais, onde podíamos reunir os trabalhos mais significativos desta época como: Arrigo Barnabé, Grupo Um, Grupo Rumo, Vânia Bastos, Suzana Salles, Virginia Rosa, A Divina Increnca, Banda Metalurgia, Sexo dos Anjos, Sossega Leão, Itamar Assumpção e tantos outros. Eram trabalhos artísticos de alto nível que sempre traziam novidades.

45) RM: Você acha que este movimento serviu como uma forma do público tomar contato com a música regional de São Paulo?

Felipe Avila: Foi um momento mágico e com uma série de coincidências, desde as pessoas responsáveis pelas programações de espaços culturais que estavam a fim de fazerem coisas boas, passando por um momento muito criativo da música e, claro, com o público consumindo tudo isso.

46) RM: Como você analisa o panorama musical de São Paulo no passado e nos dias atuais?

Felipe Avila: Acho que no passado, as opções de casas noturnas, teatros, Festivais de Música e eventos culturais, as ofertas eram maiores. Penso também que a intenção de se fazer um trabalho artístico, com originalidade e não comercial, era o principal. Ser original e poder mostrar alguma coisa nova era o que importava.

Hoje temos os Sescs, alguns poucos centros culturais de grandes empresas, e alguns poucos museus, onde acontecem alguns poucos eventos. E ainda podemos contar com uma infraestrutura de som, luz, divulgação e um cachê razoável (já foi melhor) para as apresentações. E, o público que frequenta estes lugares é bom, gostam de ver e ouvir coisas novas. Há muitos grupos novos surgindo com qualidade, e que precisam utilizar estes espaços disponíveis.

Mas, uma coisa que tenho observado, é que estes espaços têm sido utilizados por artistas já famosos e consagrados pelo grande público, artistas que poderiam enfiar a mão no bolso e bancar as suas apresentações nos grandes teatros e, com certeza, teriam o retorno do investimento. Além do que, os grandes patrocinadores, só patrocinam os grandes artistas.  Então, os espaços de hoje acabam ficando pequenos para tantos trabalhos a serem mostrados.

47) RM: Como você analisa o fato de a música erudita ser colocada em posição de superioridade à música popular? 

Felipe Avila: Ah! Isso para mim é ridículo. Só existe a música boa e a música ruim. Antigamente, o que chamamos de música erudita hoje, era a música popular da época. Os músicos faziam parte da corte nos castelos e compunham para as festas da burguesia. Era música para dançar, ouvir, etc. E, paralelo a isso, também tinha a música “mais popular” que acontecia fora dos castelos, nas ruas. Tudo é música!

48) RM: O que você sugere para que a música, seja erudita ou instrumental, possa alcançar a camada mais popular?

Felipe Avila: Primeiro. Acho muito importante que, as pessoas que detém o poder de decidir o que pode ser tocado e mostrado para o público, sejam abertas e cultas, para poderem oferecer variedade e qualidade nos eventos. A grande mídia, não divulga nada, só quer criticar (risos). O papel da mídia não é esse! Jornais e revistas deveriam, ambos, divulgar os novos trabalhos e deixarem o público decidir o que é bom ou ruim. Quando o público tem a opção de comparar as coisas, saberá avaliar o que gosta mais. Eu mesmo já tive a experiência de tocar em lugares distantes, para pessoas simples que nunca tiveram a oportunidade de ouvir aquele tipo de som-instrumental, e que adoraram poder ver e ouvir. Quando um trabalho é feito com o coração e é verdadeiro, as pessoas gostam. Claro que o bom senso deve estar sempre presente. O grande público consome o que toca nas rádios e também o que assiste na TV. É a referência que eles têm do que é bom ou ruim. Se a música instrumental ou erudita não acontece nestes importantes veículos da mídia, o grande público não terá acesso a poder ouvir, gostar, ou não, deste tipo de música. E, não vai assistir e nem comprar o CD.

49) RM: Quais os seus projetos futuros?

Felipe Avila: Pretendo continuar compondo e gravando mais CDs. Paralelamente, escrever um livro sobre a música instrumental brasileira. Com entrevistas de músicos amigos e conhecidos, com muitas histórias curiosas também. Um CD com músicas inéditas de alguns entrevistados e, arranjadas por mim. Estou escrevendo uma história infantil que provavelmente será um Livro-CD.

50) RM: Felipe Avila, Quais seus contatos para show e para os fãs?

Felipe Avila: www.felipeavila.com | [email protected]

| https://www.youtube.com/user/felipeavila05   

| Álbum Janela – Felipe Avila: https://www.youtube.com/watch?v=nFXrGC3l4W8&list=OLAK5uy_nIh-vw-ZCPyQMzcdhEa54srjFE7Nl1fxU 

| Álbum Beatles Brasil – Felipe Avila: https://www.youtube.com/watch?v=hPZybWlHgGY&list=OLAK5uy_kwvWYAqJ9NhaF-8hiSvUgJPBeALKhxlAE 

| Álbum Beatles Brasil Vol. 2 – Felipe Avila: https://www.youtube.com/watch?v=LrTOhdWdIbQ&list=OLAK5uy_mX7EOlq-i3kYQ6AfcoVJQwzdru27BcSnA

| Álbum Xaxim – Felipe Avila: https://www.youtube.com/watch?v=kCC1JAU7joY&list=OLAK5uy_mX4CPOePpvmUxgUPKgYZRYi41uD4OJd5U 

| Álbum Quase Tudo – Felipe Avila: https://www.youtube.com/watch?v=5N0-0xZqLec&list=OLAK5uy_l9IIp4oAA5Grm5H9UlUnFGcA4G1_Myx-k


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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor responsável pela revista digital RitmoMelodia desde 2001, jornalista, músico, poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, propaga a diversidade musical brasileira através de entrevistas e artigos. Jornalista formado pela Universidade Estadual da Paraíba - UEPB (1996 a 2000) que lançou um livro de poesia em 1998 e seus poemas ganharam melodias gravadas em três álbuns concluindo a trilogia "reggae baseado em poesia" no seu projeto musical Reggaebelde. Unindo a sensibilidade do poeta, músico com o senso crítico do jornalista e pesquisador musical colocado em prática em uma revista que Canta o Brasil.