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Uma Revista criada em 2001
pelo jornalista, músico e poeta paraibano
Antonio Carlos da Fonseca Barbosa.

Elaine Frere


A compositora, cantora, atriz circense e produtora cultural independente paulistana Elaine Frere.

Produziu diversas montagens, de forma independente, em companhias nas quais atuou, sempre no processo de teatro de grupo. Escreveu e publicou os livros infantis “Lá vem o Circo” e “O vento veio brincar no Trapézio” pelas editoras Napoleão e Trilha das Letras, respectivamente.

Em 2018, 2019 e 2020 foi Coordenadora Geral de Produção do FIC – Festival Internacional de Circo da Cidade de São Paulo. Coordenou os trabalhos e fez direção cênica da Ocupação Artística “ABEQUAR- ÓPERA ROCK de temática Indígena”, ao lado de Jaya Vitali, no tendal da Lapa. Esse trabalho recebeu participantes de todas as oficinas que o tendal abrigava na ocasião, para a concentração, experimentação e viabilização de um espetáculo com música, teatro, dança e circo na cena. Colabora com curadoria artística e realiza assessoria à produção do Piccolo Teatro. Em 2019 realizou, como Coordenadora Geral de Produção ao lado de Hugo Possolo, a Noite de Gala do Circo no Theatro Municipal de São Paulo – Espetáculo São Paulo, meu amor! Este espetáculo se tornou um especial da TV Cultura. Lançou seu primeiro single “Quando Adormeço” em 2019 com participação especial de Kleber Albuquerque. “Quando Adormeço” ganhou videoclipe gravado no Theatro Municipal.

Em 2020 outros três singles, apesar da pandemia covid-19, “Vício”, “Quase”, “Tudo o Que você não disse, mas eu ouvi”. Em 2021, em 25 de junho chegou o single “Nem o mar chorava”, com videoclipe, abrindo caminhos para o álbum “Quando os Versos se Uniram pra Reclamar Canção” em 24 julho de 2021 traz dez canções autorais, seis inéditas.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Elaine Frere para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistada por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 01.09.2021:

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Elaine Frere: Nasci no dia 05 de junho de 1964 em São Paulo – Capital. Registrada como Elaine Cristina Frere.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Elaine Frere: O ambiente familiar sempre foi regado a canções do rádio. Lembro-me de acordar com Zé Bettio jogando água em alguém, enquanto minha mãe preparava o café. O primeiro contato com um instrumento foi em torno de 16 anos de idade, quando comprei meu primeiro violão, com o primeiro salário do trabalho como escriturária. Nessa época, eu costumava ficar horas trancada no quarto, musicando meus escritos. Tinha até uma parceira fixa para essa aventura. Os finais de semana eram consagrados a compor e cantar no quarto com minha prima Cássia, canções que nunca mostramos a ninguém.

03) RM: Qual sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical?

Elaine Frere: Nascida em família simples, nos redutos da imensa zona leste de São Paulo, passei o Ensino Médio como quem atravessa o insondável. Eu não conseguia me concentrar ali, no curso técnico, nem lembranças guardo. Passava os dias sonhando com a Universidade de Música. Mas ao chegar nesse tempo, por não saber ler partituras, pulei para minha segunda opção no vestibular: Educação Artística, pelo simples fato reconhecer nesse curso, uma possibilidade de encontro com a música. Sobre esse episódio, tenho a considerar que o professor de teatro, era infinitamente mais criativo que o de música, o que me leva a pensar no importante papel do Professor para o seu aluno.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Elaine Frere: A Música Popular, tocada nas rádios, em programas de TV e, em trilhas de novelas estão presentes no meu universo musical longínquo. Gosto de me lembrar dos encontros familiares, em que o cenário musical era competidíssimo, com meu irmão insistindo em Michael Jackson, meu primo em Creedence Clearwater Revival e meu pai em Modas de Viola, enquanto eu sonhava com Lulu Santos, Milton Nascimento, Beto Guedes. Para além das coletâneas com canções de novelas, que eram muito consumidas na época, particularmente, eu preferia colecionar os álbuns de meus preferidos. O tempo foi passando e fui me aproximando muito da obra de cantores como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e, mais tarde, me apaixonando demais por Marisa Monte, Ceumar, Adriana Calcanhoto, Arnaldo Antunes. Talvez pela afinidade com a qualidade de compositores desses artistas, por seus versos e seus timbres inigualáveis. Esses permanecem, assim como os demais, nas entranhas.

05) RM: Quando, como e onde você começou sua carreira musical?

Elaine Frere: A formação em Educação Artística, com habilitação em Artes Cênicas, me direcionou primeiro para o Teatro Amador e depois para o Circo. Nessa época, anos 80, eu participava de Festivais de Teatro Amador com meu grupo saído da Universidade, de nome “RARoEFEITO” e, trabalhava como Repórter Fotográfico. Entrelaçando os dias, revistinhas de música compradas nas bancas de jornais e a companhia do meu violão Giannini. Depois veio o encontro com os mestres do Circo Tradicional, num momento em que muito se falava sobre a extinção dessa arte milenar. As famílias circenses estavam abrindo sua arte, antes passada apenas de pai para filho, para todos nós, seres mortais interessados na magia do Circo. Foi então que abandonei, literalmente, casa, comida, roupa lavada e uns trocados por mês. Fui morar no Circo! Foram cerca de dez anos com dedicação exclusiva, até que o desejo de misturar as artes em cena me consumiu. Em 2003, realizei minha primeira produção inteiramente independente: Bons Sonhos, um espetáculo Circo Teatral que ficou em cartaz no Centro Cultural São Paulo. Além da produção assinei o texto dramatúrgico, a direção circense e a composição da Trilha Sonora Original, sob a batuta do querido e generoso amigo Guga Stroeter e ao lado de Pepe Cisneros.

Eu não sei se tenho uma carreira musical. Eu diria que tenho uma vida dedicada a arte. Em música tenho muitos fragmentos: as experimentações adolescentes, alguns espetáculos teatrais em que cantava, trilhas sonoras, os poemas de um livro infantil musicados, uma ou outra composição perdida na linha do tempo. A partir de 2016, passei a me dedicar a música autoral, em especial ao me deparar com a obra de Kleber Albuquerque, um importante cantor e compositor da cena musical independente, amigo e parceiro, a quem, pela primeira vez, tive coragem de mostrar minhas composições. De lá para cá e adentrando a pandemia do covid-19, fiz quase sessenta canções e coloquei no meu canal do Youtube no formato Voz e Violão. Foram cinco singles e agora um álbum autoral com produção em parceria com Felipe Mancini, multi-instrumentista, a quem devo toda a minha evolução no Violão.

06) RM: Quantos CDs lançados?

Elaine Frere: Em 2021 lancei meu primeiro álbum “Quando os versos se uniram pra reclamar canção”, disponível nas plataformas de streaming desde 24 de julho de 2021. O álbum traz dez canções, sendo seis inéditas. Antes dele foram quatro singles: “Quando Adormeço” (2019), que teve a parceria luxuosa de Kleber Albuquerque no violão e na voz, e ganhou videoclipe em janeiro de 2020, gravado do Theatro Municipal de São Paulo. “Tudo o que você não disse, mas eu ouvi” (2020), que traz os arranjos e o violão lindíssimo de Felipe Mancini. “Vício” (2020), sambinha alto astral, com arranjos de Felipe Mancini e percussão de Ivan Silva. “Quase” (2020), uma canção que chegou a mim às 04h00 de uma madrugada qualquer, com letra e melodia prontas. A sonoridade dos instrumentos buscou inspiração na música de Cabo Verde.

07) RM: Como você define seu estilo musical?

Elaine Frere: São tantas influências, não me sinto capaz de responder a essa questão. Eu creio que esteja dentro de um espectro que se caracteriza por Música Popular, cuja amplitude abriga tanto… em algum lugar aí, devo resvalar. Posso até tentar justificar, minha incapacidade para definir meu estilo, ilustrando com uma situação particular: Há tempos, em busca de compreender a arte, resolvi fazer um curso de Crítica Teatral, que apesar de muito bem conduzido, me fez ver que não tenho gosto por pensar a arte, me satisfaz a beleza de poder realiza-la, sem o compromisso de acertar um alvo.

08) RM: Você estudou técnica vocal?

Elaine Frere: Estudei bem menos do que devia e gostaria. Tive apenas as aulas na universidade e, recentemente, no início da pandemia do covid-19, fiz cerca de quatro ou cinco aulas remotas, com Fernanda de Paula, uma cantora, poeta e professora impressionante. Essas poucas aulas me abriram um universo de possibilidades. A técnica vocal me parece algo imprescindível, que pretendo aperfeiçoar.

09) RM: Qual a importância do estudo de técnica vocal e cuidado com a voz?

Elaine Frere: As poucas aulas que tive me fizeram perceber que há muito por descobrir e conhecer sobre esse instrumento que é a voz e que, buscar utiliza-la de forma saudável e com consciência faz toda a diferença quando se pensa em longevidade e apresentações presenciais, em especial. Isso sem mencionar a maravilhosa sensação de descobrir e visitar espaços, lugares e sons que desconhecíamos.

10) RM: Quais as cantoras (es) que você admira?

Elaine Frere: Admiro tantas… vou focar em Marisa Monte para ilustrar melhor o caminho do meu jeito de admirar alguém. Quando conheci o trabalho de Marisa Monte, me chamou a atenção a revisitação de canções tão distantes do nosso tempo. Eu ficava fascinada pela sua capacidade de revestir de atualidade e imprimir sua personalidade às obras que apresentava. Com ela conheci outros artistas importantes. Aos poucos fui descobrindo a compositora, a parceira fiel de tantos outros que eu admirava e, sobretudo, a possibilidade de estudar e aprender, apenas ouvindo como e quando ela respira nas canções, os passeios melódicos… sem mencionar o timbre, que gosto demais. As canções de Marisa embalaram minha filha do útero até a pré-adolescência, quando ela partiu buscando suas próprias formas musicais, levando meu bom gosto por referência (risos).

11) RM: Como é seu processo de compor?

Elaine Frere: Incrivelmente, em tão pouco tempo de dedicação exclusiva a música, já compus das mais variadas formas: Já enviei letra para ser musicada; Já recebi letra para colocar melodia; Já musiquei letra de um amigo; que vi no facebook e só avisei depois; já enviei melodia para ser letrada; já recebei melodia para ser letrada… mas, principalmente componho sozinha, a partir do que vejo, sinto, pressinto… já acordei com letra e música pronta e corri para gravar no celular antes que se fosse, já fiquei meses mexendo numa letra ou numa melodia até encontrar a forma. Gosto de todos esses processos porque gosto de ser provocada para criar, assim como gosto de provocar também. É um prazer imenso servir a ARTE.

12) RM: Quais são seus principais parceiros de composição?

Elaine Frere: Acho que no trabalho em arte e/ou na música, as parcerias tem muitas instâncias. A intuição é minha principal parceira. Me mantenho aberta para recepcionar o que chega. É um exercício. Quanto mais me abro e crio, mais inspiração chega e mais fácil fica o processo. Mas tem o Kleber Albuquerque, o mais frequente nas criações, não apenas em música. Gosto demais da poética dele, gosto da simplicidade, gosto do timbre e, ele é muito generoso no trabalho. Acho que fazemos uma boa dupla! Para a produção musical em si e os arranjos, tenho uma parceria incrível com o Felipe Mancini. Ele reveste de luxo minhas canções simples, com seus arranjos sofisticados e seu violão preciso.

13) RM: Quem já gravou as suas músicas?

Elaine Frere: Minha trajetória musical curta, ainda não me deu esse prazer de ouvir alguém cantando meus versos e melodias, mas jamais vou esquecer o dia em que, pela primeira vez, um profissional da música, me confidenciou que gostaria de tocar e produzir uma canção minha. A canção era “Tudo o que você não disse, mas eu ouvi” e o produtor e instrumentista, era Felipe Mancini. Foi maravilhoso porque até então, eu nem sabia que poderia chegar nesse lugar. Foi meu primeiro passo.

14) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Elaine Frere: O agravante de ser um artista produtor independente, é o fato de sobrar menos tempo que o desejado para os estudos e a produção artística propriamente, já que são tantas as linhas de atuação que precisam ser desenvolvidas. Ainda assim, eu, que venho de uma escola de artistas independentes e, raras vezes me deparei com outra forma de trabalho, considero mais consistente a forma independente de atuação na arte, em todos os sentidos. Como artista produtor independente, você faz o passo a passo da sua jornada, estuda o campo, faz a caminhada toda, centímetro por centímetro, tem a possibilidade de compreender o processo, mudar de ideia e fazer tudo de novo e diferente, se julgar necessário. Parece-me que, desta forma, você tem mais compreensão e domínio sobre o que quer, e como quer. São muitos altos e baixos, muito aprendizado sobre a vida, sobre parcerias, sobre a arte e, desta forma, me parece que o seu chão, pode ficar mais firme. Mas eu poderia citar mais um contra: as vezes cansa, porque a jornada é exaustiva! A gente chega a sonhar que alguém convidou para somente cantar, ou somente atuar, ou somente voar num trapézio, em determinado trabalho.

15) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

Elaine Frere: A estratégia, na minha forma de ver, é desenvolver maleabilidade e constância. Tento traçar linhas de atuação, mas, em muitos momentos, já tive que abrir mão e recomeçar, assim, sem rumo mesmo, ao sabor do momento. É o caso, por exemplo, do que vivemos no início de 2020, com a pandemia. Abandonar o próximo passo, planejado, é uma decisão difícil e necessária, em muitos momentos. Não se deve ter apego a nada. Perdi a conta de quantas vezes tive que fazer escolhas entre o meu plano ideal e o que se apresentava na realidade, como forma de continuar realizando meu trabalho e não morrer na praia. Sobre isso, me lembro de um tempo sinistro, em que me retirei por completo das artes, estava triste e sem expectativas de futuro. Foi uma experiência de quase morte, mas a arte veio me resgatar, cutucou de leve e acordei, abri mão dos planos e fui viver o que era possível. Para além dessa reflexão, na pratica, sei que meu trabalho é cheio de estações, tem o tempo de buscar parcerias, o tempo de escrever projetos para os editais, o tempo de realizar e, o tempo de mostrar. Delineando o processo como um todo, tento manter-me criativa, sintonizada e, cuido de manter amigos e parceiros.

Como artista, a grande expectativa é mostrar, é estar com o público, é estar no palco, mas para que isso aconteça satisfatoriamente, há muito trabalho que antecede. O álbum “Quando os versos se uniram pra reclamar canção” estava planejado para março de 2020. Inclusive eu já vinha iniciando aparições públicas com as canções desse álbum, e em questão de segundos tudo mudou. Foi assim para todos. Abrir mão dos planos foi duro demais, porque eu estava num processo bem acelerado e produtivo, por outro lado, avaliando hoje, foram quase sessenta canções autorais durante o recolhimento, nada disso fazia parte das minhas estratégias de carreira como compositora e cantora, mas se fez. O álbum ganhou canções outras, eu acolhi a qualidade de compositora em minha carreira, amadureci minha técnica vocal e no violão, ganhei parceiros inesperados, aprendi um pouco mais sobre divulgação e lives, coisa que eu nunca tive a intenção de aprender, e chego a gostar de tudo, mas de fato, nada disso era estratégia, foi tudo consequência e desprendimento.

Neste momento, estou mostrando o álbum, o tão sonhado álbum autoral e me considero mais amadurecida em todos os aspectos, sei que o encontro com o público, assim que possível, será delicioso e leve. Para estar no palco com tranquilidade, preciso de tempo e silêncio para estudar, elaborar cada passo daquilo que vou apresentar. Esse processo é solitário porque preciso abandonar a condição de produtora e ser a artista.

Mas sou da escola do Teatro de Grupo, lembra? Tenho enorme prazer na troca em cena, e busco trabalhar com parceiros de longa data, amigos muito queridos, gente interessada em fazer junto. Gosto de pensar a obra no palco, como algo em construção, nada está pronto, tudo depende daquelas pessoas e é uma grande aventura fazer arte junto. É um jogo e todos precisam estar bem no jogo porque assim, o público ganha em qualidade e diversão.

16) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira?

Elaine Frere: Tenho gosto por iniciar coisas novas, desbravar caminhos. Tudo me interessa e todo assunto vira uma possibilidade de criar algo novo, reinventar o que já se foi engordar o que já é, ou projetar uma nova parceria. Considero a disponibilidade, uma grande aliada. Tudo está em movimento e, estar disponível, é muito importante!

Gosto de ouvir os sonhos das pessoas, detectar possibilidades, ajudar a ver, estimular. Muitas vezes nascem parcerias ou amizades desse exercício, e nasce também a gratidão mútua. Nascem, ainda, novas ideias, para alavancar os projetos, fazer o percurso, enquanto não se chega ao que, à primeira vista, parece ideal. Por vezes trabalho na execução do sonho de um parceiro, que em seguida se soma a realização do meu, o que me leva a crer que ideal é a caminhada, a busca e as descobertas. Tenho um objetivo: fazer arte, e todos os meus passos me conduzem nessa direção. Não costumo dar ponto sem nó, no mais absoluto bom sentido!

Não importa em que estação do meu trabalho eu esteja, será sempre tempo de criar uma coisa nova, de me envolver em algo novo, de melhorar aquilo que já faço, de formar uma nova parceria, encontrar um novo caminho ou cutucar um amigo, inserindo inquietação no dia a dia. Mover a roda da fortuna. Provocar. Sou aliada das trocas de saberes, das mudanças e das descobertas.

17) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira?

Elaine Frere: Vejo a internet como aliada. As facilidades atuais, colaboraram para que eu conseguisse fazer uma transição no meu trabalho, apenas seguindo atenta, ativa e disponível. Estive por muito tempo dedicada ao Circo, então meus parceiros e público são desse segmento. Importa dizer que não rompi com o Circo, aliás com nenhum campo da arte. Tudo está incorporado e nada se perde.

O acesso irrestrito a todo tipo de material de estudo, que a internet propicia, colaborou, muito para a minha compreensão dos caminhos da produção em música. Já a facilidade de divulgação, abriu portas para um público novo e diferente do anterior, que aos poucos vou compreendendo e conquistando.

Com tantas ofertas e facilidades, resta essa sensação de que o mar é vasto e bem servido de peixes… a gente que lute! (risos). Me parece que, quem ganha é o público, pela diversidade de opções, o alcance e, nossos esforços a mais para ganhar a cena com criatividade. Para o público recomendo filtro solar. Em meio a tudo e tanto, que a gente encontre formas mais justas de receber por nossa obra, veiculada nas plataformas de streaming.

18) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)?

Elaine Frere: Vejo muitas vantagens, entre elas a agilidade, facilidade, baixo custo e, sobretudo, a autonomia. “Quando os versos se uniram pra reclamar canção” foi todo produzido remotamente. Pelo milagre da tecnologia ao alcance de todos, evitamos a depressão, trabalhando, mesmo a distância. Creio que ficou mais fácil, mais democrático e menos oneroso colocar uma canção no mundo, e acredito que isso seja bom para todos. Na contramão, com tantas facilidades e o afastamento, perdemos a deliciosa aventura de gravar num estúdio, com toda a equipe reunida criando, dando pitacos, torcendo e vibrando coletivamente.

19) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo. Mas, a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Elaine Frere: Acho que não faço muito para me diferenciar. Eu não sinto essa necessidade. Minha produção sempre foi muito movida pelo coração. Eu sou uma artista, para além de qualquer rótulo, porque se eu não pudesse ser, morreria. Meus versos me ajudam a compreender e ressignificar o mundo interno e externo. Minhas melodias são como marés que sobem e descem acompanhando meu estado emocional. Fico feliz quando minha obra toca o outro, considero que isso seja a consequência de sermos feitos do mesmo barro, afinal. Raras vezes pensei que preciso ocupar um lugar, raramente penso em marketing pessoal… vou fazendo o que me dá prazer e considero que poder viver assim, com arte e pela arte, é uma grande dádiva, um presente.

20) RM: Como você analisa o cenário da Música Popular Brasileira. Em sua opinião quais foram as revelações musicais nas últimas décadas e quais permaneceram com obras consistentes e quais regrediram?

Elaine Frere: Vou deixar essa tarefa para um crítico especializado. Posso me furtar a responder essa pergunta deixando só uma dica? Acho que a revelação sou eu! (risos). Eu acho que as pessoas não regridem, elas se transformam, mudam de rota e nesse processo talvez deixem de atender algumas expectativas. Acontece.

21) RM: Quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Elaine Frere: Eu gosto muito do que vejo e pressinto sobre Arnaldo Antunes e sua arte. Penso que o artista e o ser humano, coadunam.

22) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical (falta de condição técnica para show, brigas, gafes, show em ambiente ou público tosco, cantar e não receber, ser cantado etc)?

Elaine Frere: Como menciono em outra pergunta, minha trajetória musical é jovem e com poucas oportunidades para o inusitado até o momento, porém, posso mencionar diversas situações inusitadas em minha vida na arte, uma delas rendeu desconforto, medo e está diretamente ligada as nossas feridas estruturais como sociedade: Ao representar uma profissional do sexo numa peça teatral, na cidade de Brotas – SP, nos anos 80, alguns moradores insistiram em agitar um “programa” comigo. Minha sorte foi estar rodeada de amigos que se ocuparam de explicar aos interessados que aquilo era teatro.

23) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Elaine Frere: O que primeiro me deixa mais feliz, é me descobrir cantando, depois vem o fato de me ver, cada vez mais, dentro da música, o sonho adolescente que se concretiza aos poucos, e tem o prazer de colocar a obra no mundo e perceber que as pessoas se identificam com ela. Triste é adiar as apresentações presenciais.

Triste é não termos, ainda, uma política cultural séria, com verba pública, que abrace a tantos profissionais talentosos.

24) RM: Existe o Dom musical? Como você define o Dom musical?

Elaine Frere: Vale lembrar que minha formação é de arte educação e, com base nessa informação relevante, me dou o direito de acreditar que tudo se aprende! Me parece que alguns surgem mais prontos, com habilidades mais desenvolvidas, muitas vezes em função do ambiente familiar ou do meio em que habitam, por exemplo. Sobre esses, já colocamos a etiqueta: Tem Dom. Já aqueles que nos parecem mais despreparados, muitas vezes por falta de oportunidades, deixamos de lado, com um título camuflado de esse não dá pra coisa. Quando adentrei o Circo, aos 24 anos, alguns mestres tinham a ideia fixa de que Circo se aprende quando criança, obviamente porque o Circo, até então, era passado de pai para filho. Fosse eu, um pouco menos insistente, teria desistido da jornada. Considero um grande desafio ser professor, porque você pode determinar o futuro de alguém. Muito cuidado nessa hora. O Dom não sustenta ninguém. É muito mar pela frente para conquistar.

25) RM: Qual é o seu conceito de Improvisação Musical?

Elaine Frere: Meu conhecimento em torno da área musical é muito intuitivo, não tenho formação especifica nessa área, então peço licença e tomo a liberdade de tecer comentários sobre aspectos gerais da arte. Para a questão da Improvisação, entendo que, temos técnica e conhecemos os caminhos, é hora de experimentar e fazer escolhas. Momento apropriado para descobrir caminhos diferentes e soltar a imaginação, estudar ou praticar, brincar ou se reencantar.

26) RM: Existe improvisação musical de fato, ou é algo estudado antes e aplicado depois?

Elaine Frere: Acredito no improviso, de modo geral acho imprescindível. Mas se visto como potencial de performance pessoal, acredito ser necessário muito estudo da técnica. No Circo dizemos que, o Palhaço que faz graça no trapézio e leva o público as gargalhadas, treinou mais que os trapezistas oficiais.

27) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre Improvisação musical?

Elaine Frere: Eu não tenho uma opinião formada a esse respeito. Como compositora intuitiva, pouco ou nada, me dediquei a métodos de estudos nesse campo.

28) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre o Estudo de Harmonia musical?

Elaine Frere: Sobre Estudos de Harmonia Musical, compreendo como algo que faz muita diferença, em especial na vida de uma compositora intuitiva como eu, mas, de novo, não tenho domínio nem opinião formada sobre os métodos empregados.

29) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Elaine Frere: Complicado… acredito que haja outros caminhos para levar uma canção até a rádio, sobretudo se ela tocar o público… Eu tento acreditar nisso e vou trabalhando aqui, torcendo para que essas negociatas desapareçam.

30) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Elaine Frere: Eu peço que ela se questione, no silêncio, se precisa da música, ou se precisa da arte em sua vida, para viver. Se a resposta for sim, só digo que vá, mas que esteja preparada, há ventos e tempestades pelo caminho, mas também bastante Sol e praias lindas. Vale a jornada!

31) RM: Quais os prós e contras do Festival de Música?

Elaine Frere: Como Coordenadora Geral de Produção do Festival Internacional de Circo da Cidade de São Paulo por três anos consecutivos, acredito que, um Festival, seja de Música, Circo, Dança ou Teatro, é momento de confraternização. Acho muito especial poder reunir uma classe artística. Pode-se trocar saberes, observar as novidades, ampliar o olhar, conviver, provocar, jogar luz, gerar trabalho e renda para muitos e valorizar as raízes. Quando abrimos competições, corre-se um risco. Acho o formato de competição um contra de porte considerável, a se pensar na fase da concepção de um Festival. Para o artista, o glamour de vencer um Festival, mas é preciso pensar se isso colabora para o todo.

32) RM: Hoje os Festivais de Música revelam novos talentos?

Elaine Frere: Eu gostaria de acreditar nisso.

33) RM: Como você analisa a cobertura feita pela grande mídia da cena musical brasileira?

Elaine Frere: Eu agradeço todos os dias às facilidades atuais da internet e aos amantes da música que se dedicam a rádios e revistas, como por exemplo a RitmoMelodia, fora desse circuito, e que realizam com competência e dedicação, esse trabalho tão importante de abrir os caminhos e retirar o manto da invisibilidade de tantos de nós. Esses trabalhadores da cultura, incansáveis, que nos possibilitam mostrar o nosso trabalho e estar em contato com a diversidade. São os que registram os caminhos da criação e a história da música.

34) RM: Qual a sua opinião sobre o espaço aberto pelo SESC, SESI e Itaú Cultural para cena musical?

Elaine Frere: São espaços que incentivam a produção cultural de excelência, mas que, infelizmente, estão longe de atender a demanda atual. Há de haver outros caminhos.

35) RM: O circuito de Bar na cidade que você mora ainda é uma boa opção de trabalho para os músicos?

Elaine Frere: Acho que sim. Apesar de não participar desse circuito como cantora, me parece que, através do circuito de bares de São Paulo, “…Muita gente boa pôs (e ainda põe) o pé na profissão…”, como dizem Milton Nascimento e Fernando Brant… A música me soa bem atual, inclusive na frase “cantar era buscar o caminho que vai dar no sol”.

36) RM: Quais os seus projetos futuros?

Elaine Frere: Meu principal projeto para o futuro é continuar vivendo de arte, num país onde a Arte está abandonada, assim como seu povo. Da música, espero não me perder jamais, apesar das circunstâncias e, ao contrário, dar sempre espaço para que cheguem ao mundo através de mim, se possível incentivando outros a fazerem o mesmo. Como produtora desejo continuar pensando a arte e os caminhos possíveis de realização. Mangas arregaçadas e braço forte! No mais é manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo. Acredito! Ou seja: para o futuro poucas estratégias e muita disponibilidade.

37) RM: Quais seus contatos para show e para os fãs?

Elaine Frere: Agradeço a revista RitmoMelodia, por esta oportunidade e, parabenizo pelo importe trabalho que realiza. Aos amigos e fãs que queiram conhecer de perto meu trabalho, deixo os canais abaixo. Peço que curtam, comentem, sobretudo compartilhem música. Música cura! Será um prazer recebe-los. Meus contatos: [email protected] |https://elainefrere.wordpress.com

|https://www.facebook.com/elainefrere.arte

| https://www.instagram.com/elainefrere

| https://open.spotify.com/artist/3V9zrpGgXVu2Dmj6J5LkdB

Canal Youtube: https://www.youtube.com/user/elainefrere1

QUANDO ADORMEÇO – Elaine Frere – Participação Especial: Kleber Albuquerque: https://www.youtube.com/watch?v=FIgQ8zJeZfo

LIVE CANAL ACORDE EM SI – 8/8/2020: https://www.youtube.com/watch?v=LbwbjvU6bq4

Playlist Quarentena: https://www.youtube.com/watch?v=FIgQ8zJeZfo&list=PLctsvsvbZrtwd9mnvHADrkr0X8nL2fCRA

Playlist: https://www.youtube.com/watch?v=6tyVtqOr47Y&list=OLAK5uy_mMj6LqQg_K2Ia1NlDSZRDexPMbcAJF6ZU

Playlist: https://www.youtube.com/watch?v=wXSiYJnkAeY&list=PLctsvsvbZrtw42vD-PbCEpSMbR1biXlZ9


Comments · 1

  1. Ler o relato de Elaine Frere é inspirador. Em sua franqueza e leveza se percebe alguém que é a própria arte que cria, que consegue viver seu sonho, com agilidade de realização prática sem perder o encanto.
    É isso, me encantou!

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Uma Revista criada em 2001
pelo jornalista, músico e poeta paraibano
Antonio Carlos da Fonseca Barbosa.