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Uma Revista criada em 2001
pelo jornalista, músico e poeta paraibano
Antonio Carlos da Fonseca Barbosa.

Climério de Oliveira


O cantor, compositor, pesquisador, professor e escritor baiano Climério de Oliveira.

É Doutor em Música pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO, 2014), onde desenvolveu uma tese sobre forró. Leciona no Conservatório Pernambucano de Música (desde 1994) e no Programa de Pós-Graduação em Música da UFPE (desde 2019), no qual também orienta alunos do Mestrado; lecionou nas faculdades FAFIRE e AESO – Barros Melo (Pernambuco); ministrou aulas e palestras na Tulane University (New Orleans – EUA).

É membro-fundador e atual Secretário Geral da Associação Respeita Januário; integrou a equipe que elaborou e realizou a pesquisa e o dossiê (texto) da Instrução Técnica para o Registro das Matrizes do Forró como Patrimônio Cultural do Brasil (Iphan).

Criou o projeto Nossos Passos (90 aulas-espetáculo e oficinas nas escolas da rede pública estadual e municipal (RMR); publicou vários artigos em anais de congressos/livros/revistas do Brasil e de outros países. A coleção de livros Batuque Book, da qual publicou 4 títulos; premiado em festivais de música popular; lançou vários CDS e DVDs, conforme relação a seguir.

Atualmente, coordena a pesquisa do projeto Inventário do Forró no Interior de Pernambuco (patrocinado pelo Funcultura/Governo do Estado de Pernambuco) e está finalizando o EP Traquinagem – quatro canções autorais, utilizando violão como instrumento de acompanhamento multi-sonoro: harmonia, melodia, percussão e efeitos.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Climério de Oliveira para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 18.07.2022:

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Climério de Oliveira: Nasci no dia 27/07/1968 em Jequié-BA. Porém, a maior parte da minha vida, eu vivi em Pernambuco, onde também tenho antepassados familiares. Registrado como Climério de Oliveira Santos.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Climério de Oliveira: Meu primeiro contato com a música foi através do meu pai, Miguel José, que era um cantador não profissional, amava muito a música; minha mãe, Maria Glória, às vezes cantava em casa com o meu pai. Desde criancinha, eu presenciava as cantorias em que meu pai cantava e celebrações, em festas de casas campestres com os seus amigos, bares, etc. Ele tinha muitos amigos instrumentistas e cantores (as), participou de grupos musicais não profissionais, que tocavam sobretudo samba, samba-canção, boleros, etc. Entre os seis filhos, o meu pai me escolheu para ser o mascote que ele levava para as farras e sempre me fazia dar uma canja. Além disso, ele tinha muitos LPs dos mais variados artistas: de Luiz Gonzaga a Chico Buarque, de Nelson Gonçalves a Martinho da Vila (destes dois, ele cantava dezenas de músicas, eram a base do seu repertório). Eu também convivi muito com a cultura popular de raiz: reisado, bumba-boi, festejos juninos, cantigas de roda, cantos de trabalho nos eitos da nossa então Fazenda Papagaio e, principalmente, da festa de Cosme e Damião, que os meus pais (e muitos outros da região) faziam anualmente e que eram celebração que mobilizava centenas de pessoas da zona rural, de povoados e de cidades próximas. Gravei algumas das cantigas de Cosme e Damião no primeiro CD do grupo Chá de Zabumba e guardo muitas outras na memória.

03) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Climério de Oliveira: Falar em influência é muito abstrato, mas posso falar do que me impactou ao longo da minha vida e que ressai no meu trabalho. Esse impacto vem de todos os cursos e artistas/músicas já citadas, tanto os da música de concerto europeia, quanto várias outros, como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Zé Ramalho; o rock brasileiro e estrangeiro; o jazz; a bossa nova e o tropicalismo; a música brega (que ouço desde criança, quando amei, depois passei a odiar – na adolescência – e voltei a amar, hoje considero um traço importante da minha vida/memória); e, enfim, as três referência que considero mais importantes: Miguel José (meu pai), Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga.

Na adolescência, eu cultuava Caetano Veloso, Gilberto Gil e também curtia muito Moraes Moreira. Mas a minha inclinação para o rock se acentuou quanto o meu irmão mais velho, Walmick Santos, retornou de um intercâmbio nos EUA, trazendo consigo álbuns de diversas bandas/artistas estadunidenses, inglesas e de outros países: Jimi Hendrix, Led Zeppelin, Cheap Trick, Rush, Deep Purple, Queen, The Who, Janis Joplin, entre várias outras e artistas do jazz: Billie Holiday, Duke Ellington, John Coltrane e outros.

A cidade de Jequié – BA já tinha uma vertente de intelectuais com a qual eu fui me entrosando e, por meio dessa gente, eu entrei em contato com ideias de movimentos emancipatórios do Brasil e de países do hemisfério norte, como a resistência à ditadura militar no nosso país, a luta pelos direitos civis nos EUA, a revolução socialista em Cuba, alguma literatura de autores das ciências sociais e humanas e da filosofia: Freud, W. Reich, Marx, Castaneda, Sartre, só para citar alguns).

Através de professores e de amigos mais experientes, que curtiam uma certa diversidade musical, eu fui cada vez mais conhecendo discos de artistas/grupos do Brasil e de outros países. A banda que conquistou definitivamente o meu coração foi Led Zeppelin, aos poucos eu fui adquirindo os seus álbuns, tenho todos os LPs desse grupo.

Essas influências foram se afunilando, algumas tiveram importância reduzida aos poucos, outras foram ganhando relevo, como os artistas brasileiros citados, sobretudo Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Gilberto Gil e, mais recente, Chico Science.

Outro impacto relevante na minha música vem dos músicos com quem tive contato prolongado, como Léo Meira, Hermes Gegué, Robson Bass, Xisto Medeiros, Adriano Sargaço, Cleyton Barros e outros.

Faço aqui outra retrospectiva. Aos 11 anos de idade, sabendo da minha vontade de comprar uma prancha de surf, meu pai conseguiu desviar a minha atenção e me deu um Violão. Um irmão, Abrahão, 3 anos mais velho do que eu, reivindicou que antiguidade é posto, e se apossou do Violão. O meu pai então me deu de presente uma matrícula num curso de Piano clássico, a qual ele tinha previsto para Abrahão. Com o tempo, eu acabei abandonando o piano e passei a tocar os primeiros acordes nesse violão. Mas o meu irmão o vendeu e eu fiquei sem instrumento.

Assim, quando eu contava 14 anos, diante de minha nova ameaça de virar sufista, meu pai novamente me deu um violão e eu me matriculei na Álamo, uma pequena escola dirigida pelo professor Moisés, com quem aprendi a tocar as primeiras canções. Mas até então, eu não pensava que seria um músico profissional.

04) RM: Qual a sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical?

Climério de Oliveira: Além da formação não acadêmica, a minha formação acadêmica é inteiramente na área de música, mas cruzada com as ciências humanas, o que é fruto da minha inserção na etnomusicologia. Eu cursei duas graduações – o Bacharelado e a Licenciatura em Música, com Especialização em Etnomusicologia, o Mestrado em Etnomusicologia e o Doutorado em Música, na linha de pesquisa Etnografia das Práticas Musicais (etnomusicologia), pela Unirio – Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (2014), onde defendi a tese Forró desordeiro: para além da bipolarização “pé-de-serra versus eletrônico”. Muitos outros cursos de curta duração incrementam essa formação. Além disso, a experiência de ensino também vem sendo uma grande aprendizagem: passei a ensinar no Conservatório Pernambucano de Música desde 1994 e, a partir de 2019, no Programa de Pós-Graduação em Música da UFPE – Universidade Federal de Pernambuco, como professor colaborador.

05) RM: Quando, como e onde você começou a sua carreira profissional?

Climério de Oliveira: Em 1988, aos 20 anos, morando em João Pessoa–PB, eu estudava psicologia na UFPB – Universidade Federal da Paraíba e ingressei na Escola de Música Antenor Navarro, um conservatório local. No ano seguinte, em meio a conflitos interiores e a contragosto dos meus pais, eu decidi que me tornaria um músico profissional. Pouco depois, eu ingressei no Bacharelado em Música, na UFPB.

Nesse período, toquei-cantei MPB em barzinhos da capital paraibana e dei aulas de violão numa sala que batizei com o nome de Energia Musical. Nessa cidade, eu conheci alguns dos músicos mais incríveis com que eu já interagi, como Zé Valdomiro, Xisto Medeiros, João Linhares, Ronedilk, Francisco (que eu chamava de Segovinha), Djalma Marques (Prof. de violão da UFPE), o Maestro Chiquito, Radegundes Feitosa, Nailson Simões, Arimatéia (Teinha), Leo Medeiros, Glauco Batera, Chiquinho Percussão, Adriano Sargaço, Escurinho, Pedro Osmar, Paulo Ró, Marcelinho Macedo. Além desses; eu pude interagir com músicos que iam lá tocar, como Carlinhos Malta; que nos deu um mine curso de harmonia e improvisação e com quem dividi o palco tocando uma composição sua em homenagem a Luizão Maia e Arthur Maia – esses dois músicos, juntamente com Xisto Medeiros me deram uma grande força espiritual-musical, sobre o que eu também incluo a contribuição de todos os demais mencionados nessa relação acima, além de outros não citados. Em João Pessoa, vivi um período economicamente e psicologicamente muito difícil, cheio de incertezas, mas, paradoxalmente, um dos mais felizes da minha vida.

Em 1993, buscando conhecer os “ritmos brasileiros”, eu ingressei num grupo multidisciplinar de pesquisa coordenado pela Profa. Maria Ignez Novais Ayala, com quem iniciei-me no conceito antropológico de cultura e na sociologia da arte. Em 1994, tendo finalizado o Bacharelado em Música, eu fui aprovado num concurso e passei a ensinar violão clássico no Conservatório Pernambucano de Música. Mas a música clássica nunca me conquistou a alma inteira, aliás, eu sempre fui mais inclinado à música popular. Entrei em contato com o movimento Manguebeat, que muito me influenciou. Chico Science, que gravava – com a banda Nação Zumbi – a trilha sonora do filme Baile Perfumado, me concedeu uma entrevista no estúdio do Conservatório Pernambucano, o que me animou ainda mais a morar no Recife. Ainda residindo em João Pessoa, eu constituí a banda Os Caba, na qual eu cantava e compunha as canções fundindo ritmos tradicionais e rock. Eu tinha muita vontade de morar no Recife – PE, mas, além do amor, o ambiente musical e amistoso que eu tinha em João Pessoa me segurou por muito tempo. Finalmente: “Partiu Recife”!

Por volta do ano 2000, eu conheci Carlos Sandroni e, como diz Manuel Veiga, me converti à etnomusicologia, um estudo da música como cultura, levando em conta não apenas o som, mas também o contexto, a produção, as significações, os valores e as relações sociais envolvidas. Aos poucos fui me aprofundando em etnomusicologia (e campos correlatos) até chegar ao ponto de perceber que o som sequer é a parte mais importante da música, por incrível que pareça. Quem desejar adquirir essa percepção, leia e releia autores como Bruno Nettl, John Blacking, Anthony Seeger, Ruth Stone, Maria Elizabeth Lucas, Samuel Araújo, Carlos Sandroni, Acácio Piedade e, entre muitos outros menos importantes, Climério de Oliveira Santos.

Em 2002, Carlos Sandroni convidou a mim e outros (as) pesquisadores (as) para fundarmos a Associação Respeita Januário, que focaliza a pesquisa de músicas tradicionais do Nordeste. Em 2019, tornei-me professor colaborador do Programa de Pós-Graduação em Música da UFPE. Entre 2019 e 2022, participei como pesquisador da pesquisa e do dossiê que passa a instrução técnica para o reconhecimento oficial – pelo IPHAN – do forró como patrimônio cultural brasileiro.

06) RM: Quantos CDs lançados?

Climério de Oliveira: Lancei quatro CDs e um EP. Além disso, lancei livros e vídeos sobre música. Os CDs são do grupo de forró Chá de Zabumba, que fundei em 2001, nomeei, administrei e na qual cantei, compus e arranjei. Com esta banda eu fiz dezenas de festas (shows) de forró em Pernambuco. O nosso forró tinha identificação com as vertentes tradicionais, mas, além de traços advindos de várias culturas musicais populares tradicionais, misturávamos elementos de rock, bossa nova, música eletrônica e, nas letras das canções, abordávamos temas que não eram convencionais no forró. Isso ocorreu, por exemplo, nos xotes “Clarice de Milena” (um romance bem-sucedido de duas garotas) e “Martelo de ninar cabra-de-peia” (um diálogo psicodélico entre um narrador sideral e o seu componente tenebroso, o “cabra-de-peia”, algo como o seu lado coringa).

Com o tempo, eu migrei do grupo Chá de Zabumba para a carreira solo, como Climério de Oliveira e banda (no forró) e Climério de Oliveira e Orquestra Clima-X (no frevo). Em 2021 gravei o EP – Traquinagem, em que todos os sons (melodia, acordes, percussões e efeitos) são extraídos de um único violão (um Tessarin) e da minha voz. O EP traz quatro canções de minha autoria. As quatro músicas são: “Revolussamba”, “Chico lulu pra Lia” (arrasta-pé), “O desequilibrista” (bolerossa), “Ciranda à Lua”. O EP – Traquinagem ainda lançado e divulgado nas plataformas digitais e redes sociais.

Em 2010 – CD com o grupo Chá de Zabumba“Sem Regra”. Em 2007 – CD com o grupo Chá de Zabumba“Chá de Zabumba”. Em 2004 – CD com o grupo Chá de Zabumba – “Pra Sambar um Forrozinho”. Em 2002 – CD com o grupo Chá de Zabumba“Vamo Vadiá”.

LIVROS ESCRITOS E LANÇADOS – COLEÇÃO BATUQUE BOOK:

Em 2005 – Maracatu: baque virado e baque solto (c/ CD ROM anexo, parceria com Tarcísio Resende). Em 2008 – Cabocolinho (c/ CD ROM anexo, parceria com Tarcísio Resende). Em 2013 – Forró: a codificação de Luiz Gonzaga — Cepe Editora (c/ DVD anexo). Em 2020 – Frevo: transformações ao longo do passo — c. vídeo postado na Web (Cepe Editora).

OUTROS CDS EM QUE ATUA COMO PRODUTOR MUSICAL/DIRETOR:

Em 2016 – CD Salvaguarda do Maracatu Leão Coroado. Em 2009 – CD Caboclinho União 7 Flexas – Goiana-PE. Em 2009 – CD Coco de Aliança – PE. VÍDEOS EM QUE ATUA COMO PRODUTOR MUSICAL/DIRETOR. Em 2014 – Vídeo e DVD homônimo do livro Forró: a codificação de Luiz Gonzaga. Em 2010 – DVD – Maracatu Nação: Leão Coroado, Porto Rico e Encanto da Alegria. Em 2010 – Vídeo Que baque é esse? (premiado no Cine-PE; integra DVD Maracatu Nação). Em 2013 – Vídeo O frevo na rua: Orquestra Maestro Oséas (55 min.; integra o livro Frevo).

PARTICIPAÇÕES EM COLETÂNEAS – CDS:

Em 2013 – Pernambuco Forrozando para o Mundo – Passadisco. Em 2012 – Pernambuco Frevando para o Mundo – Passadisco. Em 2004 – Music From Pernambuco Vol. 2 – Astronave. Em 2002 – Música de Pernambuco Vol. 1 – Idem. Em 2002 – Pernambuco em Concerto II – África Produções. Em 2001 – Abril Pro Rock – Pernambuco – Astronave. Em 2000 – Pernambuco em Concerto I – África Produções.

07) RM: Como você define seu estilo musical?

Climério de Oliveira: Estilo Climério de Oliveira, músico, pesquisador e professor; tenho uma boa dose de antropofagia (no sentido de Oswald de Andrade) em relação às culturas musicais do mundo com as quais entro em contato. Não nasci e nem vivo para ser famoso, mas para conhecer e vivenciar a música através da performance, mas também da pesquisa. A minha performance musical inclui não só os meus shows musicais e minhas gravações, mas também os meus livros, artigos e escritos sobre música, sobretudo a minha tese sobre Forró, as minhas palestras, as minhas aulas e minhas entrevistas, como esta que ora concedo.

08) RM: Você estudou técnica vocal?

Climério de Oliveira: Não. Apenas tive algumas aulas de impostação e procuro ler sobre os cuidados. Mas confesso que não cuido devidamente da minha voz.

09) RM: Qual a importância do estudo de técnica vocal e cuidado com a voz?

Climério de Oliveira: Os exercícios diários mantêm as pregas vocais (cordas) com um tônus muscular necessário para cantar com tranquilidade. Os cuidados alimentares (água sobretudo) ajudam a manter o nervo vocal hidratado. Algumas restrições são importantes, como evitar tossir, falar alto, gritar, arranhar a garganta (han-han), álcool, cafeína, ventilador, ar condicionado, gripe, cigarro, etc.), forçar a voz (cantar melodias em registros mais altos (agudos) do que aqueles que você pode cantar tranquilamente; por isso, é muito importante conhecer a sua própria tessitura). Entretanto, repito: não sigo os “cuidados” ortodoxamente, mas recomendo.

10) RM: Quais as cantoras (es) que você admira?

Climério de Oliveira: Algumas delas: Elis Regina, Cássia Eller, Janis Joplin, Amy Winehouse, Roberta Sá, Maria Bethânia, Marinês, Elba Ramalho, entre muitas outras.

11) RM: Como é o seu processo de compor?

Climério de Oliveira: Vem à mente, aleatoriamente, uma ideia musical (fragmento ou trecho melódico/rítmico) ou uma ideia literal (frase) e, a partir daí, vou construindo. Às vezes um refrão nasce inteiro e eu construo o restante. Sempre que posso, gravo a primeira frase construída. Se não puder construir uma frase inteira, gravo apenas o insight, que é o fragmento melódico ou trecho inicial. Mas muitas vezes eu perco a ideia inicial ou frase, porque não gravo logo e acabo esquecendo. Ultimamente, algumas canções surgem na minha mente enquanto estou dormindo, em sonhos, o que registro ao acordar e concluo a composição, dando também o crédito a parceiros que fizeram comigo o canto seminal no sonho.

12) RM: Quais são seus principais parceiros de composição?

Climério de Oliveira: Os colegas das bandas Os Caba e Chá de Zabumba: Adriano Sargaço, Tarcísio Resende, Mardônio Albuquerque, Toinho Alves, entre outros.

13) RM: Quem já gravou as suas músicas?

Climério de Oliveira: Gláucia Lima, Banda Rabo de Saia, Banda Fulô de Muçambê e outras.

14) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Climério de Oliveira: O prol: autonomia na criatividade; propriedade sobre o trabalho. O contra: o custo financeiro, a estrutura e divulgação que uma gravadora/selo de peso pode oferecer.

15) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

Climério de Oliveira: Não tenho, sou péssimo nisso. O máximo que fiz foi elaborar projetos, financiá-los através de leis de incentivo e realizá-los. Assim consegui publicar livros e discos e realizar outras ações.

16) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira?

Climério de Oliveira: Eu elaboro projetos – individualmente ou com parceiros – e os realizo, submeto os projetos a editais e assim consigo patrocínios; concorro aos editais de eventos das prefeituras e governos.

17) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira?

Climério de Oliveira: Não sei se a internet em si é prejudicial. O que prejudica é a ação de empresários que empreendem as plataformas de streaming e pagam valores irrelevantes pelos usos dos fonogramas. Por outro lado, ajuda na divulgação, na veiculação dos conteúdos, na participação em editais, na velocidade da comunicação, no compartilhamento de músicas (que pode ser benéfico ou não), etc.

18) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)?

Climério de Oliveira: A tecnologia de um modo geral é muito complexa, por está mediando as relações de trabalho em um mundo capitalista, imbuído de uma colonialidade em que nós somos a parte expropriada (posto que colonizada). Dentro dessa complexidade, a tecnologia de gravação por um lado é benéfica, e por outro, tem permitido a concentração de riqueza e poder para uns e de empobrecimento para a maioria – isso é estatisticamente comprovado. Mas, dentro de toda essa complexidade, temos que buscar sobreviver, criar, contestar esse sistema e melhorar de vida.

Parte do EP – Traquinagem foi gravado em um home estúdio. Uma gravação é, entre outra coisa, a captação de uma execução da música e a sua fixação. As vantagens do home estúdio são muitas: você pode fazer uma pré-produção muito boa, a baixo custo; assim, tem-se o tempo que julgar necessário para captar a melhor das execuções e para editar o áudio; grava em dia e hora que pode, à sua escolha; pode experimentar mais; tudo isso com custo muito baixo.

Desvantagem: os estúdios profissionais costumam ter melhor isolamento acústico (menos ruído de fundo), melhores equipamentos, salas amplas, que podem gravar instrumentos acústicos e gravar mais de um músico simultaneamente; gasta menos tempo, pois costuma ter um técnico de gravação que auxilia, enquanto você se preocupa mais com a execução musical; tem infraestrutura para receber vários músicos; alguns têm espaço para gravações ao vivo de grandes grupos.

19) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo. Mas, a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Climério de Oliveira: Tenho buscado a diferença na criatividade musical e comportamental.

20) RM: Como você analisa o cenário do Forró. Em sua opinião quais foram as revelações musicais nas últimas décadas? Quais artistas permaneceram com obras consistentes e quais regrediram?

Climério de Oliveira: O cenário do Forró é rico e diversificado, é criativo e também articula bem a convenção da tradição, mas há também muita caricatura e cópia. A riqueza está na criatividade de artistas, como Silvério Pessoa, Josildo Sá, Maciel Melo, Sandra Belê, Chico César e outros. Eu não diria que houve regressão, mas fica estagnado quem tem medo de ousar, quem pensa que apenas usar um trio gonzagueano e vestir roupa de cangaceiro ou de vaqueiro são suficientes para fazer um bom Forró; quem usa apenas a temática do amor romântico e emprega sem nenhuma nova configuração; quem repete os ícones do passado sem uma nova reflexão ou atualização.

21) RM: Quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Climério de Oliveira: Marisa Monte; Maria Bethânia; Flávio José; Chico César; Alceu Valença; Gilberto Gil; Caetano Veloso. Porém, ultimamente, eu tenho aprendido sobre profissionalismo mais com produtores do que com artistas.

22) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical (falta de condição técnica para o show, brigas, gafes, show em ambiente ou público tosco, cantar e não receber, ser cantado, etc)?

Climério de Oliveira: Performar em um evento em que o equipamento de som dava choque elétrico; contratantes que deram calote; entre outros; perceber que a estrutura oferecida ao gênero Forró é quase sempre precária, se comparada à que é oferecida à música pop e congêneres.

22) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Climério de Oliveira: O que me deixa mais feliz: concluir uma composição que eu ache bonita e singular e mais ainda quando percebo que provoque essa sensação em outras pessoas. Ver músicos unirem-se em torno de causas sociais e ambientais. O que me deixa mais triste: ver tantos músicos apoiando e cultuando fascismo, nazismo, ditadura, tortura, desigualdades sociais, racismo, homofobia, misoginia, etc.

23) RM: Qual a sua opinião sobre o movimento do “Forró Universitário” nos anos 2000?

Climério de Oliveira: Apropriar-se do Forró é um direito de qualquer pessoa e grupo que queira praticar a música popular, quer gostemos ou não. Isso é tanto fruto das forças do mercado quanto do vigor do Forró. Esse movimento rotulado de “forró universitário” surgiu no final dos anos 1990 entre jovens estudantes, em São Paulo. A sua maioria era de classe média, muito embora houvesse uma heterogeneidade, pois participaram pessoas oriundas de vários grupos sociais, inclusive nordestinos.

Eles gostavam de dançar e alguns produtores (da comunidade universitária festiva e que eram amadores no ramo de produção de eventos), percebendo o potencial de nicho, começaram a fazer algum dinheiro produzindo festas animadas com trios de forró (zabumba, sanfona e triângulo) e outras formações instrumentais. Como o público era majoritariamente de universitários, esse nome eclodiu facilmente entre os participantes e foi parar nos panfletos dos produtores que divulgavam suas festas.

Alguns grupos se sobressaíram e receberam injeção de recursos do mercado fonográfico, sendo Falamansa e Rastapé, os mais famosos. Alguns grupos não fizeram muito sucesso, mas eram excelentes e participaram dessas festas, como o Trio Sabiá (com o sanfoneiro Tio Joca), Trio Virgulino (com o sanfoneiro Enok) e o Trio Juriti (Thaís Nogueira, Mestrinho, Scurinho Zabumbada), etc.

Eles utilizaram músicas dos forrozeiros tradicionais: Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Dominguinhos, Jorge de Altinho, Petrúcio Amorim, Maciel Melo, Accioly Neto e outros clássicos e também compuseram as suas próprias canções, muitas das quais não remetiam ao tradicional sertão do Nordeste, mas às suas situações cotidianas. Esses e outros grupos começaram de modo independente. Mas logo eles passaram a receber investimentos de selos independentes (mas não tanto), como a Deck Discos, que manteve parcerias com grandes distribuidores, como Abril Music, Somlivre e Universal Music.

Independente do aspecto esdruxulo de rótulos como “forró universitário”, foi muito bom o Forró ter se espalhado entre os estudantes universitários em São Paulo e, de lá, voltar a embalar as festas de jovens estudantes do resto do país. Muitos grupos surgiram devido ao sucesso conseguido por eles. Além disso, muitos desses grupos formados em São Paulo ainda existem, o que sinaliza a força do Forró.

24) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Climério de Oliveira: Essa pergunta deveria ser melhor elaborada ou precedida de outras. No Brasil, uma emissora de rádio funciona mediante uma concessão pública do Estado e duas das suas obrigações legais são: pagar direitos autorais e não cobrar pela veiculação da programação artística, como músicas e outras criações afins. Portanto, a prática conhecida como jabá (cobrança pela radiodifusão de músicas) é ilegal.

Mas, as rádios, que devem restringir sua fonte de receitas às publicidades e patrocínios, passaram a cobrar também, ilegalmente, pela inclusão de músicas na sua programação cultural. Obviamente, enquanto isso for cinicamente permitido pelas autoridades, as rádios que praticam o jabá não vão tocar a minha música, exceto que eu também entre nesse esquema. Mas há umas poucas rádios que não praticam jabá e que tocam as minhas músicas.

A prática do jabá exclui a maioria das músicas Brasil afora, e, entre essas, as músicas que poderiam dar grande contribuição para a cultura musical do mundo. Sem contar que muitos empresários do show business compram a rádio ou arrendam todo o espaço da programação e tocam nelas apenas as músicas dos seus artistas contratados, o que é ainda mais excludente do que a prática do jabá. Em suma, o sistema de rádio no Brasil é desastrosamente excludente e descaradamente ilegal.

25) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Climério de Oliveira: Trabalhe, crie, aprimore-se sempre, viva o artista que você é, empenhe-se, “seja você mesmo” (como dizia Chico Science), mas também faça parcerias, crie uma rede de relações (network), que vai dá certo.

26) RM: Quais os prós e contras do Festival de Música?

Climério de Oliveira: Uma grande parte dos festivais de música que eu conheci, creio que contribuem mais do que prejudicam. Eu já fui premiado em vários festivais competitivos organizados por emissoras de TV, prefeituras, universidades, centros acadêmicos, pelo SESC (em João Pessoa e em Recife), etc. Mas eu prefiro os festivais não competitivos. Os festivais que trabalham com uma curadoria alinhada com o pensamento de movimentos sociais emancipatórios contribuem mais do que aqueles que são grandes eventos comerciais e se concentram no lucro máximo possível.

27) RM: Hoje os Festivais de Música revelam novos talentos?

Climério de Oliveira: Alguns, sim. O Rec Beat, no Recife-PE, do produtor Gutierres, é exemplar em revelar talentos e trazer a público tanto a arte desconhecida como os conhecidos que se encontram ofuscados pela cultura de novidade midiática e massiva. Eu costumo sair de casa com a minha família para ir ao Rec Beat sem sequer saber o que está na programação, pois já sei que esse festival traz algo que desconheço e que vale a pena conhecer. Se eu gostar, ótimo; se não gostar, é importante também. O FENFIT – FESTIVAL NACIONAL FORRÓ DE ITAÚNAS – ES, que ainda não conheço pessoalmente, também tem revelado. O Brasil precisa de mais festivais, muito mais. Há campo para isso. Você que está lendo essa entrevista, por que não fazemos um festival em sua cidade? Vamos fazer um festival?

28) RM: Como você analisa a cobertura feita pela mídia da cena musical brasileira?

Climério de Oliveira: Essa é uma grande pergunta. As grandes empresas – emissoras de TVs, rádios, plataformas de streaming fundamentalmente comerciais – são muito restritas ao que é maximamente lucrativo, para o que, elaboram uma seleção de uma fatia ínfima de artistas e vendem (veiculam) como excepcionais. Portanto, essas companhias têm práticas medíocres, gananciosas e perniciosas, atentando contra a grandiosidade e diversidade que caracterizam a música brasileira.

29) RM: Qual a sua opinião sobre o espaço aberto pelo SESC, SESI e Itaú Cultural para cena musical?

Climério de Oliveira: Primeiro, as empresas e as instituições sociais brasileiras são diferentes entre si, em finalidade e nas ações. É necessário não ser ingênuo e verificar se o que fazem é relevante e que impacto o “conjunto das suas ações” causa na sociedade. Mas essa seria uma análise mais profunda, talvez não caiba aqui. O que eu diria é que as empresas privadas e as instituições sem fins lucrativos no Brasil, quando patrocinam cultura, o fazem muito pouco diante do que poderiam fazer. Contudo, não devemos deixar de reconhecer que fazem alguma coisa e que isso tem sua importância.

30) RM: Qual a sua opinião sobre as bandas de Forró dos anos 90 e as atuais do Forró Estilizado?

Climério de Oliveira: As músicas das bandas de Forró que surgiram com a cearense Mastruz com Leite não são as que estão no hall da minha admiração, com raras exceções. Mas essas bandas/músicos e seus empresários e públicos fizeram os seus estilos, construíram a sua trajetória, montaram os seus mercados, agenciaram os signos cosmopolitas e foram bem-sucedidos. Muitas pessoas vivenciam afetos (amor, amizade, dilemas…) relacionados a essas músicas que, de certo modo, narram suas vivências e sentimentos. Trata-se de uma cultura musical e mesmo que eu não a ame, é preciso saber como abordá-la, como avaliá-la sem posicionar o meu próprio gosto como superior e sem utilizar os parâmetros da música que eu admiro como modelo. Não sou Juiz para condenar uma cultura musical. Mesmo porque muitos dos seus participantes/integrantes não são condenáveis.

Respeito muito as músicas de Forró de várias bandas, algumas têm inclusive um suingue curioso. Há, porém, aquelas que têm letras que ferem a dignidade humana, trazendo afirmações homofóbicas, machistas, misóginas, racistas, etc. Afora essas excrescências, o que me incomoda não é o som musical das bandas, mas, sim, o arrivismo no uso das rádios e TVs, as negociatas com gestores públicos, o monopólio dos espaços de shows, a sonegação fiscal, a lavagem de dinheiro e outras aberrações empreendidas pelas lideranças envolvidas, o que não se restringe às bandas de Forró, pois, caracteriza o mercado de mega-shows no Brasil, de sertaneja a axé music, de forró a funk, de pagode a gospel, etc.

31) RM: Quais os seus projetos futuros?

Climério de Oliveira: Lançar o EP Traquinagem, em breve. Os demais, eu prefiro não falar, deixa acontecer.

32) RM: Quais seus contatos para show e para os fãs?

Climério de Oliveira:

(81) 99945 – 9434 | www.batuquebook.com.br

| [email protected]

| https://www.instagram.com/climerio_de_oliveira

Canal: https://www.youtube.com/channel/UCwM_u-X5gdm7frPYuOz_uHA

Isso não é forró – Climério de Oliveira (participação de Josildo Sá e Fred Andrade): https://www.youtube.com/watch?v=SFagtUx0ETg

Chá de Zabumba – Sambastral (Climério de Oliveira & Adriano Sargaço): https://www.youtube.com/watch?v=rxQtdxYgdTo

Batuque Book – Dominguinhos e Climério de Oliveira – Baião: https://www.youtube.com/watch?v=Tfe73q19_Ag

Climério de Oliveira – O Estigma: https://www.youtube.com/watch?v=Nz_LHl2glF0

Climério de Oliveira cantando Lua Cirandeira: https://www.youtube.com/watch?v=rjg9Kvax830

Climério de Oliveira cantando O trem da vida: https://www.youtube.com/watch?v=x_ds4hY9JdY

Mapa Cultural de Pernambuco – Mapa Cultural de Pernambuco 09/11/2020

https://www.mapacultural.pe.gov.br/inscricao/768612982

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Mais publicações no currículo lattes: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/busca.do


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Uma Revista criada em 2001
pelo jornalista, músico e poeta paraibano
Antonio Carlos da Fonseca Barbosa.
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