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Uma Revista criada em 2001
pelo jornalista, músico e poeta paraibano
Antonio Carlos da Fonseca Barbosa.

Banda Rebel Lion


Gianni Zion é sinônimo de reggae no Ceará, estando presente como pioneiro em tudo que envolve o ritmo jamaicano em Fortaleza.

Em dezembro de 1976, com 12 anos de idade, tem o primeiro contato com o reggae através de estações de rádio internacionais, sendo um dos primeiros a conhecer o reggae, como um estilo musical, no Brasil. LPs do Jimmy Cliff lançados do Brasil desde 1968 ainda não eram vistos como representante desse estilo musical.

Em 1977, Gianni Zion começa a colecionar discos de vinil de reggae, tornando-se um dos primeiros colecionadores no Brasil na época. Primeiro disco “Rastaman Vibration” do Bob Marley; o acervo é estimado hoje em mais de 3.000 discos de vinil.

Em julho de 1990, funda a primeira banda de reggae de Ceará, a Rebel Lion, uma das mais roots do Brasil, onde é vocalista, tecladista, arranjador e autor de mais de 200 músicas. Algumas de suas composições foram gravadas por cantores jamaicanos como Eric Donaldson, Jackie Brown e George Faith.

Em 1992, lança, juntamente com a grande Zumaika, o primeiro programa de reggae do Ceará: Skolreggae na FM Cidade (O Povo) e por volta de 1998, o programa Reggae Night na FM Cidade, que ampliou bastante a divulgação do reggae no Ceará. Estes foram marcos da introdução do reggae no Ceará.

Em junho de 2001, Gianni Zion, Cezar, Bidela fundam o legendário clube de reggae Canto das Tribos, que promoveu shows inesquecíveis com os maiores nomes do reggae jamaicano, africano e nacional e que colocou o Ceará no mapa mundial do Reggae.

Em 2003, lança o site oficial da banda Rebel Lion, considerado por muito tempo o portal do reggae cearense. O site contava com letras de reggae jamaicano, mercado de venda de discos raros de reggae e um fórum que muito contribuiu para a troca de informações sobre reggae.

Em 2009, começa a atuar também como DJ e selector, ao lado da grande Zumaika, tirando as suas pedradas raras de dentro do baú.

Ao longo da sua existência, a banda Rebel Lion teve várias gravações de shows ao vivo vendidas no circuito de fãs da banda. No início dos anos 2000 lançou o CD – Ao Vivo no Clube Canto das Tribos e atualmente está concluído a gravação de um CD de estúdio com músicas autorais.

A Rebel Lion representa uma rebelião musical em Fortaleza – CE. Formada em 1990, é a banda com maior tempo de atividade no cenário musical cearense – sendo responsável pela introdução do reggae no estado. Sua sonoridade é bastante próxima ao reggae jamaicano entre a década de 70 e o início dos anos 80, passando pelas diversas vertentes roots reggae: early reggay, ond drop, rockers, lovers rock, dub e rub-a-dub.

O líder, Gianni Zion, há mais de 40 anos pesquisa e coleciona discos de reggae, tendo realizado visitas à Jamaica, Inglaterra e EUA em busca de conhecimento sobre o reggae. Gianni é também o compositor e arranjador da banda com mais de 200 músicas autorais. A Rebel, como pioneira no estilo, inspirou a formação de outros grupos de reggae em Fortaleza como Tribo de Leões, Nação Regueira, Trem de Zion. A banda Donaleda foi formada com ex-integrantes da Rebel Lion.

Durante sua trajetória, a banda já dividiu os palcos com os maiores nomes do reggae mundial: The Wailers (banda do Bob Marley), Alpha Blondy, Steel Pulse, Gladiators, Jimmy Cliff e Gregory Isaacs, e do reggae nacional: Cidade Negra, Tribo de Jah, Ponto de Equilíbrio, Natiruts, Edson Gomes, além de atuar como banda de acompanhamento de legendários artistas jamaicanos em turnê no Brasil: Max Romeo, Eric Donaldson, Johnny Clarke, Jackie Brown, Larry Marshall, Owen Gray, Richie Spice, Leo Graham e o africano Tiken Jah Fakoly. Dois desses nomes, Eric Donalldson, Jackie Borwn, gravaram músicas da Rebel Lion.

O som da banda bate forte em outras capitais como Recife, Brasília, Salvador, São Luís, Teresina, Belém. O grupo já se apresentou em praticamente todas as casas de shows de Fortaleza e participou de cenas da novela Tropicaliente e no Festival Canta Nordeste da Globo, além de tocar em 3 edições do CEARAMUSIC, principal evento musical do Ceará.

Atualmente está gravando seu CD oficial, “Nossa Filosofia”, em estúdio próprio, mixado pelo próprio Zion, com lançamento em breve. O público já curte os leões rebeldes através de vários CDs ao vivo e músicas disponibilizadas na internet, com destaque para os clássicos de autoria de Gianni Zion: “Razão de Ser”, “Capital do Reggae”, “Sinta a Música”, “Rebellion”, “Wicked Babylon”, “Chant & Pray”. O mais recente trabalho, “O Elo Encontrado” (de Gianni Zion e Leudo) será lançada mundialmente como primeiro single do futuro álbum. Nos shows, além das “pedradas” próprias, a banda interpreta nomes clássicos do reggae, como: Bob Marley, Alpha Blondy, Gladiators, Burning Spear, Gregory Isaacs, Jacob Miller, Max Romeo, Tribo de Jah, etc. As composições são em português, inglês e até no dialeto jamaicano patois, criando o puro clima do som jamaicano.

Formação atual: Gianni Zion (Teclado, vocal, composições e arranjos), Rafa Winner (Vocal e Guitarra), Anderson Bitencourt (vocal); Leudo (Vocal), Thiago Castro (Bateria) Roger Bass (Contrabaixo), Eliakin Castro: (Teclado), Orlando Jr. (Guitarra), Marcus Pique (Percussão).

Segue abaixo entrevista exclusiva com Gianni Zion da banda Rebel Lion para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 20.04.2022:

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Rebel Lion | Gianni Zion: Nasci no dia 02 de janeiro de 1964, em Fortaleza, CE. Registrado como Gianni Peixoto Bezerra Lima. A formação atual da Rebel Lion: Gianni Zion (Teclado, vocal, composições e arranjos), Rafa Winner (Vocal e Guitarra), Anderson Bitencourt (vocal); Leudo (Vocal), Thiago Castro (Bateria) Roger Bass (Contrabaixo), Eliakin Castro: (Teclado), Orlando Jr. (Guitarra), Marcus Pique (Percussão).

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música e com o reggae.

Rebel Lion | Gianni Zion: Meu primeiro contato consciente com a música, foi com 3 a 4 anos de idade, ouvindo sucessos que tocavam no rádio, ainda nos tempos da Jovem Guarda – nomes como Wanderley Cardoso e Jerry Adriani, me vêm à memória, além do inevitável Roberto Carlos. Posteriormente, início dos anos 70, me chamou a atenção os vinis que meu pai Giovanni Gondim ouvia, desde música clássica à música negra. Nesta época eu já notava uma facilidade de perceber os diversos instrumentos e solfejava não apenas a melodia cantada, mas a linha de contrabaixo ou o solo de um instrumento e imitava os sons percussivos com a boca. Minha mãe Eliane Peixoto, filha de organista de igreja, também tocava piano, no qual eu fazia barulho por volta de 10 anos de idade. Aos 14 anos da idade ganhei um violão, com o qual componho meus reggaes até hoje.

A descoberta do reggae se deu em meados de 1976, graças ao hobby de sintonizar rádios em ondas curtas num potente rádio Transglobo. Usava o rádio para explorar músicas do mundo todo e, entre dezenas de estilos, o reggae se destacou. A primeira vez que o escutei foi no programa Request Time, da rádio Voice of America. Entre os primeiros reggaes que ouvi estavam: Bob Marley – Roots Rock Reggae, Inner Circle – Jah Music, Jimmy Cliff – Going Mad, Althea & Donna – Uptown Top Ranking. Antes de saber mais sobre o estilo, chamava-o de música das guitarrinhas.

O início da minha coleção de reggae foi através da gravação, em fita cassete, desse programa semanal de reggae, mesmo que o som fosse sofrível, com bastante ruído e interferências. Mas tive o privilégio de conhecer as músicas de diversos artistas de reggae na época em que foram lançadas. Por volta de 1980, descobri uma das melhores fontes para se ouvir reggae, diariamente, a rádio Free Grenada, direto do Caribe. Infelizmente, em 1982 as forças americanas invadiram a ilha, alegando que o seu governo apoiava a União Soviética durante a guerra fria e destruí a rádio. O reggae foi banido da ilha, por ser considerada uma música socialista, quando os EUA recuperaram a emissora e controlavam o novo governo, após o golpe de Estado apoiado pelos imperialistas americanos. Foi nessas transmissões de rádio que descobri, além dos nomes mais populares como Mighty Diamonds, Gregory Isaacs, Ken Boothe, Delroy Wilson, Gladiators, Twinkle Brothers e Dennis Brown, nomes mais obscuros como George Nooks, Brent Dowe, Ruddy Thomas, David Isaacs, King Sighter, Ronnie Davis, BB Seaton, Roman Stewart, Pluto, Tru Tones, entre tantos.

Eu concluí, após pesquisas na internet e contatos com antigos colecionadores de reggae de São Luís – MA e de Belém – PA, que eu sou um dos primeiros “regueiros” e colecionadores de reggae do Brasil, ao lado do pioneiro Riba Macedo, que adquiriu seus primeiros discos de reggae entre 1977 e 1978, apesar de nessa época esses discotecários de Radiolas não serem exatamente colecionadores de reggae, que era apenas um estilo em meio aos discos de Merengue, Cadence, Carimbó, disco music, etc.

03) RM: Qual a sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical?

Gianni Zion: Nenhuma formação oficial ou curso especializado na área musical, apesar de habilitado com carteira da OMB – Ordem dos Músicos do Brasil. Sou o típico músico natural, intuitivo “de ouvido” e autodidata. Por tocar exclusivamente de ouvido, me adapto facilmente aos diferentes instrumentos. Apesar de o Teclado ser o meu instrumento principal, também toco Guitarra, Violão, Contrabaixo e Percussão. Além de atuar como compositor e arranjador de múltiplos instrumentos. Tenho formação como Engenheiro Agrônomo e Mestrado em Irrigação e Drenagem (UFC – Universidade Federal do Ceará).

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Rebel Lion | Gianni Zion: Creio que a musicalidade bateu mais forte quando, por volta de 1973, ouvi os discos de música negra do meio pai. Fiquei encantado com os timbres vocais e os ritmos ligados ao soul e o rhythm & blues, de nomes como Nat King Cole, Ray Charles, Stevie Wonder e o grande organista negro Earl Grant, que me introduziu ao mundo do órgão Hammond, bem cedo, com apenas 8 anos de idade.

Nas trilhas de novela da Globo, sempre me identificava com músicas negras como o clássico Why Can We live Together – Timmy Thomas e as trilhas das novelas Locomotivas e Dona Xepa, recheadas de soul nacional da banda Black Rio, Cassiano, Hyldon, Carlos Dafé. Passei uma fase ligada à música instrumental: Azymuth, Deodato, Chick Corea, Pau Brasil e soul jazz do Herbie Hancock, George Benson, George Duke, Jimmy Smith. Já na década de 80 eu me interessei pela MPB de Filó Machado, Fátima Guedes, Ivan Lins, Milton Nascimento e o Djavan inicial e depois Ed Motta. Nunca me identifiquei muito com o rock e música pop branca em geral. Tenho convicção, mas não prova, de que sou um negro reencarnado.

A partir de 1974 e 1975 fui seduzido pela disco-funk music até descobrir o reggae em 1976, que passou a ser o meu estilo favorito, juntamente com o soul e ritmos caribenhos. Desde então, acompanhei em tempo real a evolução do reggae do período 1976 a 1984, passando pelo roots rock/flying cymbal de 1975 e 1976, rockers de 1976 a 1978, steppers de 1979 a 1980 ao rub-a-dub de 1981 a 1984, desanimando e largando o rádio com a chegado do dance-hall digital.

As principais influências do reggae na década de 70 foram Bob Marley, Ken Boothe, Delroy Wilson, Mighty Diamonds, Gregory Isaacs, Jacob Miller, Third World, Gladiators, Dennis Brown, Ruddy Thomas, Culture, Wailing Souls, Congos, Brent Dowe, entre tantos, dos quais eu passei a colecionar LPs em 1977. Do lado soul, ouvia bastante Stevie Wonder, Jackson Five, The Commodores, Billy Preston e artistas da Motown. Durante a década de 80 estava dominado pela onda Funk-boogie (soul-funk), RAP e urban soul ballads, colecionando LPs de nomes como The Whispers, Shalamar, Change, Jeffrey Osbourne, James Ingram, George Benson, Manhattans, O’Jays, Stylistics, Sugarhill Gang, etc. mas sempre investindo na coleção de reggae, que foi ampliada através de três viagens à Jamaica da década de 90 e com o Ebay e as lojas virtuais na internet.

Nesse mesmo período, posso ter sido um dos primeiros a descobrir e colecionar os outros ritmos contagiantes do caribe: soca/calypso de Trinida & Tobago, o cadence de Guadeloupe/Martinica, o compas do Haiti, o spouge de Barbados e o cadence-lypso de Dominica, ritmos que estão na minha playlist até hoje. Mais recentemente, a cerca de 10 anos eu me aprofundei bastante no Soul, mais aí é outra longa história.

Deixaram de ter importância: MPB, Beatles, música pop branca em geral. Ao contrário de quase todos os seguidores da música negra eu nunca me identifiquei muito com o blues de raiz, acho que a simplicidade melódica, os vocais muito semelhantes e os laços com o rock’n’roll me levaram aos estilo mais elaborado e complexo, encontrado na música soul, sobretudo do final dos anos 60 para início dos 70.

05) RM: Quando, como e onde você começou a sua carreira musical?

Gianni Zion: Apesar de tocar um pouco de Piano e posteriormente Violão por volta de 1978, com 14 anos de idade, somente em 1990 eu fundei a banda de reggae Rebel Lion, da qual soul líder até o presente. A ideia da banda surgiu após eu compor 10 reggaes e achar que seria interessante ouvi-las com uma banda completa. Cheguei a colocar anúncio nos classificados à procura de músicos negros e rastas (dreads) para montar uma autêntica banda de reggae. Pela dificuldade de encontrar esse perfil em Fortaleza, a banda foi formada com músicos de diversos perfis raciais, mas sempre tendo à frente cantores negros, junto comigo, que também sou vocal, mas um tanto frustrado por não ser negro. A estreia de deu em 21 de janeiro de 1991, após 6 meses de ensaio, na praia do Futuro, em Fortaleza – CE.

06) RM: Fale sobre a experiência de viagens ao exterior e Jamaica.

Rebel Lion | Gianni Zion: Durante a década de 90, eu fiz diversas viagens para o exterior para aprofundar o conhecimento sobre o reggae e ampliar a minha coleção de discos de reggae. Aproveitei para conhecer estúdios jamaicanos legendários e contactar artistas e técnicos desses estúdios. Foram três visitas à Jamaica, em 1993, 95 e 98, incluindo a capital Kingston, o berço do reggae e Montego Bay. Estive também Miami e Nova Iorque, nos Estados Unidos e em Londres, na Inglaterra, que estão entre as cidades onde o reggae é mais difundido no mundo, juntamente com Toronto no Canadá, graças à grande emigração de jamaicanos.

Na Jamaica eu contei com o apoio do jamaicano Ivor Jones que era um conhecido dos maranhenses por ter organizado a vinda de vários cantores jamaicanos para shows em São Luís. Como ele conhecia muitos artistas, estúdios e lojas de disco, foi uma grande ajuda, além de ele trabalhar como taxista para os visitantes do Brasil que viajavam em busca de reggae.

Na primeira viagem tive a sorte de ainda encontrar os famosos estúdios de reggae ainda intactos, apesar de desativados. O principal deles, pelo valor histórico de ser o principal estúdio da Jamaica na melhor fase do reggae, foi o Studio 17, na (rua) North Parade, também conhecido como Randy’s por ser o nome da loja de discos que ficava na parte debaixo do mesmo prédio, ficando o estúdio na parte superior. A Randy’s era a principal loja de discos da Jamaica, pois era um distribuidor de todos os selos de produtores jamaicanos. No estúdio ainda se encontravam os instrumentos originais como o piano, a bateria e dois modelos de órgão Hammond. Além dos discos à venda na loja debaixo, aqueles que ganhavam a confiança dos vendedores tinham acesso a um galpão na área do estúdio onde estavam milhares de discos compactos em vinil guardados em toneis onde eu pude adquirir raridades, algumas ainda na embalagem de fábrica com 10 unidades do mesmo disco.

Numa viagem posterior, a loja já havia se convertido em um supermercado, sendo relocada para o andar superior, junto ao que restou do estúdio. Para compra discos, outro local com milhares de compactos de vinil e LPs é a loja Aquarius, uma das fontes secretas dos maranhenses donos de radiola e dos colecionadores europeus e japoneses. Outro estúdio icônico, o Joe Gibbs, que ficava bem próximo ao Randy’s, já havia se transformado em supermercado. Outros estúdios clássicos que visitei foi o pioneiro, Studio One, que estava bem conservado e transformado numa espécie de museu. Passei em frente ao Channel One, que estava em ruínas, sem condições de visita.

Outros estúdios tradicionais visitados foram, o Dynamic Sounds e o Tuff Gong, antigo Federal Records, adquirido pelo Bob Marley, que estavam em plena atividade e também contavam com vendas de discos. Além dos estúdios, ainda podiam ser encontrados lojas e sedes de grandes produtores e selos de reggae da década de 70, como a Rockers Intnl do Augustus Pablo, Prince Buster’s, Tip Top da Sonya Pottinger, K&K Records, GG Records do Alvin Ranglin além de lojas de artistas como Gregory Isaacs (African Museum), Derrick Harriott, Derrick Morgan e Hopeton Lewis, os quais pude encontrar pessoalmente e trocar umas ideias sobre o reggae.

Artistas que encontrei em locais diversos como lanchonetes, restaurantes ou estúdio foram Leroy Smart, Tinga Stewart, Jah Rubbaal, Ansel Collings (tecladista do Revolutionaries). O Naggo Morris do Heptones, Clinto Ruffus do Gladiators e o Eric Donaldson eu visitei em suas próprias residências. Na pousada onde eu estava recebi a ilustre vista do Grande Justin Hinds e do George Faith, ambos estavam em negociação para fazer shows no Brasil com o Ivor Jones e o Junior Black de São Luís. Testemunhei uma cena triste ao ver o grande cantor Junior Byles dormindo numa praça, vivendo como mendigo, após anos sofrendo problemas mentais. George Faith também estava numa fase difícil, viciado em álcool e drogas que levaram à sua morte poucos anos depois. Eu cheguei a pagá-lo para gravar uma música minha, com letra dele, mas nunca recebi a gravação, devido às dificuldades que ele enfrentava.

Fiquei bastante impressionado ao visitar lojas de instrumentos usados na Jamaica. Instrumentos como órgãos Hammond ou Farfisa, Clavinet Hohner, pianos Rhodes, Arp String, que a gente raramente vê no Brasil eram comuns nessas lojas. Exatamente os instrumentos utilizados no roots reggae. Nas ruas da Jamaica encontrei o grande percussionista e cantor Bongo Herman que fabrica seus próprios tambores akete (utilizados nas cerimônias rastas/nyabinghi) de quem eu comprei uma unidade que utilizo em nossas gravações.

Kingston, não muito diferente das capitais nordestinas, é uma cidade violenta. E pelo fato de ter uma população de grande maioria negra, com pequeno percentual de indianos e chineses, o visitante branco é logo identificado como turista, sendo alvo comum de assaltos. Por isso é importante estar em companhia de um jamaicano, sobretudo se você se aventura a entrar nos guetos como Trenchtown, onde Bob Marley morou, em busca de discos raros, como eu fiz. As maiores raridades de reggae, com preços razoáveis, eram encontradas nos guetos, nas mãos de antigos donos de sound systems desativados.

Apesar das áreas violentas, o povo Jamaicano é bastante hospitaleiro, simpático e educado. No trânsito eles são comparáveis aos britânicos, pelo respeito às sinalizações e a cordialidade. Ao falar que era do Brasil, você é tratado com muita simpatia, pois os jamaicanos vêm o Brasil como uma democracia racial – sabemos que não é – e idolatram o Pelé. A seleção Brasileira é o time que eles torcem nas copas.

Na visita à cidade natal do Bob Marley, Nine Miles, na zona rural, pude conhecer o mausoléu onde estão as cinzas do artista, local sagrado que temos que entrar descalços. Sendo que no portão de entrada você é presenteado com um grande cigarro da erva, o spliff, que experimentei por curiosidade, com cautela, devido à fama que o fumo jamaicano tem de ser muito forte. Para mim, que não tenho o hábito de fumar, tive que pegar leve, mas era uma oportunidade única para reverenciar o mestre espiritualmente.

Achei curioso ver a culinária e os frutos jamaicanos bastante similar aos do Nordeste. Alimentos como tapioca, pamonha, macaxeira, broa, inhame e frutas como pitomba, sapoti, acerola, abacate, manga e até seriguela são encontradas por lá. Comida bastante condimentada com pimenta. O baiano ficaria à vontade. Outra curiosidade é ver várias famílias morando na mesma casa. Na verdade, eram mansões antes habitadas por barões ingleses que deixaram a ilha no final da década de 60, cujos donos atuais alugam para famílias pobres que se dividem nos vários cômodos.

O roots reggae como a gente tanto aprecia é uma música da velha guarda jamaicana, algo que lembra nossos idosos saudosistas ouvindo jovem guarda, sambas antigos ou um velho brega de cabaré. A juventude em seus carros, fones de ouvido ou nas festas em clubes escutam mesmo é o ragga e o reggae moderno com influência cada vez maior do r&b e do hip-hop. Apesar disso, as rádios FM ainda dedicam horários para o velho e bom roots e os programas de TV dirigido à famílias e público maduro, costumam convidar artistas clássicos de reggae que ainda vivem na ilha, muitas vezes para programas de entrevista.

07) RM: Cite os CDs que você já participou tocando Teclado?

Rebel Lion | Gianni Zion: CD da banda DONALEDA“Liberdade e Libertação” (2003), arranjos e solo de órgão na “Meu Poder”. Diversos CDs ao vivo (piratas) da banda Rebel Lion. CD independente da Rebel Lion“Canto das Tribos”. Percussão em outros CDs da banda Donaleda, além de singles independentes do Mr. Régio (reggae) e do Rafa Winner (reggae) e o single da Rebel Lion: “Elo Encontrado”, na qual eu executei todos os instrumentos e arranjos.

08) RN: Quais os motivos para que Rebel Lion com tanto tempo de existência e poucos álbuns gravados?

Gianni Zion: Apesar da longa trajetória da Rebel Lion, da ótima reputação na cena reggae e da grande quantidade de composições, a banda demorou parta ter gravações lançadas. A maior parte dos registros divulgados foi através de CDs de shows ao vivo, tanto piratas como promovidos pela banda. Alguns singles foram lançados localmente e tocaram em programas de rádio. A explicação para isso tem a ver com as dificuldades de tentar fazer um reggae com sonoridade autêntica jamaicana na terra do forró. Além disso, por muitos anos minha relação com o reggae era mais passional do que profissional. Não entrei no reggae como músico, mas sim como colecionador de vinil, como um admirador do estilo, então não havia uma visão comercial nesta relação. Eu sempre tive outro emprego e, inicialmente, não via a banda como uma atividade profissional e sentia mais prazer em compor, fazer arranjos e tocar do que em gravar.

Outro fator é que quando a banda começou, em Fortaleza ninguém conhecia o reggae, então não existiam músicos que tocassem o estilo. Levou tempo para que eu e os músicos desenvolvessem a técnica correta e os descobrissem os segredos para tocar reggae. Minha referência nas composições sempre foi o reggae jamaicano dos anos 70, e como a proposta da banda era ser fiel ao estilo, utilizando os mesmos instrumentos e estilo de mixagem, outra dificuldade, em termos de gravação, foi encontrar estúdios em condições de produzir esta sonoridade. Não haviam estúdios em Fortaleza que possuíssem instrumentos como piano acústico, órgão Hammond, clavinet, string synths, ou percussões próprias para reproduzir a timbragem certa desse tipo de música. A banda também não possuía esses instrumentos que são raros no Brasil. Passei então a investir em instrumentos para suprir essa lacuna. Adquiri um órgão Hammond X-5 com caixa Leslie, mesmo modelo da Randy’s, um piano elétrico Rhodes, percussões jamaicanas como o Akete drum, além de um Space Echo e um Spring Reverb, efeitos utilizados nas versões dub do reggae jamaicano. Posteriormente, a banda obteve guitarras e encontrei o baixo típicos do reggae original, o Fender Precision, que equipei com cordas flatwound e com uma esponja colocada na ponte, para um som mais abafado e grave, ao estilo do Aston Barrett. Mas isso levou alguns anos.

Mesmo após adquirir esse instrumental básico, os estúdios não conheciam as técnicas de gravação e mixagem de reggae. Isso fez com que tentativas de gravação em estúdios locais fossem frustradas pela sonoridade distinta do que a banda buscava. Os Estúdios, voltados mais para músicas regionais, não conseguiam reproduzir o som característico da bateria e do baixo do reggae. Isso me levou a concluir que eu mesmo teria que montar um estúdio e aprender as técnicas de estúdio de gravação. Só que todo esse investimento e aprendizagem como autodidata levaria tempo, considerando ainda meu perfil perfeccionista. Então passei a me dedicar a pesquisar e colecionar instrumentos, samples e plugins, já nos anos 2010, para finalmente poder gravar o reggae com a sonoridade almejada.

A evolução da tecnologia de áudio digital, com surgimento de instrumentos virtuais idênticos aos originais, como órgãos, pianos, sintetizadores e até baterias convincentes, facilitou a montagem de uma coleção diversificada de sons que seriam usados em nossas gravações. Passei a criar meus próprios instrumentos virtuais com samples de meus instrumentos e a partir de samples e loops comerciais, sobretudo de bateria e percussão, que seriam combinados nas gravações com instrumentos reais, numa abordagem híbrida.

Apesar da grande evolução da qualidade dos músicos cearenses de reggae nos últimos anos, na Rebel Lion, a maior parte da criação dos arranjos e até da execução dos instrumentos ainda depende de mim, por ser a pessoas que tem mais vivência e conhecimento do estilo. Isso também levou a uma sobrecarga que exigiu mais tempo para produzir e gravar as músicas. A pandemia atrasou o início das gravações que só ocorreu há cerca de 6 meses, tendo sido gravados 2/3 do álbum que terá 13 músicas, todas autorais. Em resumo, os desafios para se gravar o autêntico reggae em Fortaleza, nos levou a ter que fazer todo o processo, da criação à mixagem. Diferente da Jamaica na década de 70, onde um artista chegava no estúdio apenas com uma melodia, a letra e alguns trocados e os estúdio fazia toda a produção da música, contando com músicos e instrumentos e músicos perfeitos para o reggae, e ao final, já saia com o disco na mão.

09) RM: Como é o seu processo de compor?

Gianni Zion:Rebel Lion | Gianni Zion: Desde a inspiração inicial. Eu chamo essa fase da composição de fase inspirada ou fase espiritual. No momento que a música começa a chegar no meu subconsciente, chamo esse fenômeno de “download”. Depois da fase inspirada, vem a fase racional ou fase humana na qual o processo passa a ser mais matemático do que inspirado. Nesta fase, também chamada de upload, vale muito o background de conhecimento através das músicas que me influenciaram ao longo da vida. Após a música completar toda sua estrutura principal: versos, bridge (ponte) e refrão, não necessariamente nesta ordem, eu me dedico as criar a melodia da introdução, se esta já não tiver vindo como um bônus.

Em seguida passo a me dedicar exclusivamente ao aperfeiçoamento da linha de Contrabaixo. Essa é a fase da obsessão, pois sou muito perfeccionista com a bass-line, pois reconheço a importância do riddim, em seu papel harmônico e rítmico no reggae. E seguida vem os arranjos auxiliares de sopro, trinados de guitarra, camas de órgão, percussões, harmonias vocais, etc. Interessante o fato de eu ter feito cerca de 10 músicas dormindo (ou sonhando), totalmente inconsciente e ao acordar lembrar daquela melodia que surgiu no sonho, percebendo que era inédita. Nessa hora acredito que temos uma comunicação espiritual e que algum compositor negro já falecido me escolheu, assim como a outros músicos, para ser o canal de suas criações aqui na Terra.

Por último, a letra, um trabalho desgastante para mim, por não ser inspirado, mas sim racional. Nessa hora me sinto como um arquiteto que gosta de criar estruturas, mas é obrigado a criar também a decoração do ambiente, argh… Apesar disso saíram boas letras. 90% das letras são em inglês, sendo parte delas recheadas de termos do dialeto patois jamaicano, do qual tenho um bom conhecimento.

10) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento da sua carreira musical?

Rebel Lion | Gianni Zion: A internet tem ajudado como fonte de acesso a informações relevantes e de aquisição de instrumentos musicais, equipamentos de áudio, instrumentos virtuais e plugins, além de videoaulas. Ajudou muito também na ampliação da coleção de discos de vinil, através do Ebay e lojas de disco online. As redes sociais Face, Insta e Youtube ampliaram muitos as possibilidades não só de divulgação do nosso trabalho, mas a descoberta de outros artistas e comunicação global. Plataformas de stream como Spotify e outras se tornaram a nova loja de discos. Recentemente a possibilidade de troca de informações entre músicos através de grupos de WhatsApp como o dos Tecladistas de Reggae do Brasil.

11) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)?

Rebel Lion | Gianni Zion: Por muito tempo eu fui purista, no sentido de que somente o instrumento original teria o som adequado para gravar profissionalmente. Dessa forma eu investi nos equipamentos e instrumentos originais (hardware). Mas com a evolução do realismo e da capacidade computacional para representar os instrumentos em livrarias virtuais e as simulações de equipamentos de estúdio através de plugins, eu fui convencido de que essa tecnologia atingiu um nível bastante satisfatório, sobretudo pelo nível de detalhes das coleções de samples de instrumentos atuais. Mas o conhecimento técnico torna-se fundamental para tirar maior proveito dessa tecnologia, permitindo gravações bastantes convincentes, com a característica analógica “vintage” no ambiente digital. Não é por acaso que os grandes engenheiros de mixagem que possuem todas essas relíquias originais estejam optando pelo software equivalente. Um dos meus hobbies é exatamente encontrar a melhor simulação para os instrumentos raros usados na Jamaica, e hoje posso afirmar: encontrei a maior parte deles. Contudo vários instrumentos de percussão não possuem samples com a mesma sonoridade produzida na Jamaica de modo que eu tive que adquiri-los para fazer meu próprio instrumento sampleado ou gravar ao vivo. Sopro e guitarra, no reggae, só é possível gravar com instrumentos reais. Livrarias de baixo, sampleadas ou modeladas, acho bastante competitivo, de modo que eu tenho utilizado meu Fender P-Bass e às vezes boas bass libraries, como a IK Modo Bass e a OTS Flatwound bass.

Vantagens gerais como a possibilidade de comparar dezenas de alternativas de plugins, isentos de defeito técnico, sem necessidade de manutenção, sem o peso de transporte nem espaço para armazenamentos e as facilidades do mundo digital: midi, undo, salvamento de arquivos, etc, somam-se às vantagens já descritas.

Desvantagens: o fácil e democrático acesso à tecnologia, apesar de superpositivo, levou à facilidade de produções musicais bem abaixo dos padrões de qualidade e sem qualquer controle, ajudando a poluir o mercado com produções medíocres que aliado a um público jovem cada vez mais alienado e sem referências musicais históricas está levando a um rebaixamento dramático do padrão e do gosto musical do público, sobretudo no Brasil. Isto é agravado pela grande mídia que visa o lucro que esse mercado oferece, sem qualquer preocupação com o valor cultural ou artístico dessas produções. Como em qualquer aspecto da vida, a democracia traz também seus riscos.

12) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical (falta de condição técnica para show, brigas, gafes, show em ambiente ou público tosco, cantar e não receber, ser cantado, etc)?

Rebel Lion | Gianni Zion: Antes de trabalhar com um representante, quando os músicos eram os próprios representantes da banda, aconteceram, pelo interior do Ceará, duas situações cômicas. Numa delas, após roça total (fracasso de bilheteria) descobrimos que o contratante era dono de uma fábrica de redes, na cidade (Jaguaruana), conhecida como a capital das redes. Então pressionamos o contratante a nos pagar em redes, de modo que cada um voltou da viagem com duas redes na mão. Isso foi muito bom porque os músicos puderam se reconciliar com as esposas, dizendo que lembraram delas e trouxeram uma rede de presente, que aceitaram alegremente o gesto de amor. A mesma prova de carinho foi utilizada pelos músicos malandros que tiveram o cachê pago em calçados femininos, em circunstâncias semelhantes. Neste caso, rendeu sapatos até para as amantes, para os que possuíam uma ou mais na época.

Noutra situação inusitada, o espaço era um ginásio com uma grade de ferro na frente, permitindo a visão do palco para quem ficava do lado de fora. Como era de se esperar, ninguém pagou para entrar, mas uma multidão se aglomerou na grade, pelo lado de fora. Como as mesas estavam todas vazias, os dois guitarristas, o baixista e os vocalistas fizeram o show sentados numas nas mesas colocadas para o público, assim eles eram músicos e ao mesmo tempo a nossa única plateia.

Ocorreram também alguns casos onde o show da banda foi pausado para pedido de noivado no nosso palco. Noutro show, o vocalista principal; da época, estava bêbado. O cara até que não esqueceu as letras e nem desafinou, mas atrasava todas as frases. Foi o primeiro caso de latência alcoólica que presenciamos (risos).

13) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Rebel Lion | Gianni Zion: Feliz: ter o dom de compor e fazer os arranjos completos dessas composições e depois vê-la tocada pela banda; saber que o meu pioneirismo no reggae influenciou o surgimento de várias bandas, como Donaleda, Alma Negra e tantos colecionadores e DJs de reggae no Ceará. Perceber que com 32 anos de carreira na Rebel Lion, eu ainda ensaio, componho e me apresento com o mesmo vigor de quando estava iniciando. A reputação e respeito que a banda Rebel Lion conquistou com seus shows, apesar de ter poucos trabalhos gravados.

Triste: perceber que estilos musicais de alto padrão artísticos vão desaparecendo com o passar das gerações, incluído a magnífica soul music americana e o próprio roots reggae, que na própria Jamaica vai se tornando uma música da velha geração, como a Jovem Guarda para o brasileiro. Saber que com a pirataria, o nosso trabalho musical pode não gerar o retorno merecido.

14) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Rebel Lion | Gianni Zion: Se a carreira é vista como a sua atuação profissional, creio que é importante tentar conciliar o gosto musical com o que o mercado quer consumir. Mas sei que em muitos casos como o meu, o estilo com que me identifico, o reggae, fala mais alto do que qualquer interesse de mercado ou da grande mídia. O mais importante é ser muito bom naquilo que faz e sempre estar atualizado e se aperfeiçoando no domínio do seu instrumento ou técnica vocal e tenha uma boa diversidade de etilos para o instrumento que toca. Finalmente escutar bastante os grandes nomes do estilo musical em que atua.

15) RM: Quais os tecladistas que você admira?

Rebel Lion | Gianni Zion: Jimmy Smith – o king of Jazz Hammond, Billy Preston, Jackie Mittoo – o King of reggae Hammond, Wire Lindo (The Wailers), Ansel Collins (The Revolutionaries), Stevie Wonder, organistas negros de jazz e gospel em geral, Donald Fagen, José Roberto Bertrami (Azymuth), George Duke, Deodato.

16) RM: Quais as principais técnicas que o aluno deve dominar para se tornar um bom Tecladista?

Rebel Lion | Gianni Zion: Por tocar exclusivamente de ouvido e ser autodidata, não é simples eu recomendar técnicas tradicionais. Mas um bom caminho, que eu trilhei, foi sempre tentar tirar de ouvido as músicas que eu gostava e que tinha uma riqueza melódica e harmônica. Além disso, praticar solo e improviso, copiando frases clássicas e também criando clichês para embelezar e dar mais molho nos solos. Praticar escalas e arpejos complexos e dominar bem a mão esquerda para desenvolver um baixo e acordes seguros. Sempre iniciar exercício num tempo lento e só depois de dominar a execução, acelerar. Conhecer acordes mais complexos e dissonantes. Nos solos, trabalhar bem com as pausas – o instrumento também precisa respirar. Usar as inversões dos acordes, não se limitando à sua posição básica.

17) RM: Existe o Dom musical? Como você define o Dom musical?

Rebel Lion | Gianni Zion: Creio que existe sim, e tenho plena consciência que possuo o dom musical. Acredito que esse dom é bastante potencializado por uma audição apurada, apesar de o dom em si estar no cérebro e não do ouvido. No meu caso acredito num elemento também espiritual para esse dom, já que as vezes parece que uma composição já vem pronta, sem esforço para a mente.

Uma das primeiras características do dom musical, percebida ainda na fase de criança, é o fato de você escutar na música, não apenas a melodia principal, mas todos os instrumentos. Eu, criança, escolhia um instrumento para “perseguir” e era comum, com cinco ou seis anos de idade cantarolar a linha do contrabaixo e não a do vocal, e me concentrava no ritmo da bateria, imitando seus sons com a boca. Com esse dom, ao pegar um instrumento musical pela primeira vez, se torna fácil reproduzir a linha melódica de uma canção e não demora muito para copiar a linha do contrabaixo e consequentemente, formar os acordes somente de ouvido, e não apenas ao ouvir a música, mas também pela memória mental dela.

O passo seguinte e natural é a facilidade de compor, não apenas a melodia, mas também a base harmônica. Numa fase mais madura, com esse dom, e também é o meu caso, passa-se a fazer os arranjos musicais, que podem incluir não apenas os instrumentos que você toca, mas também os demais, como harmonia de sopro, orquestração de cordas, harmonias vocais e até todos os elementos percussivos e frases de bateria. Se o dom musical estiver associado a uma compreensão de lógica e matemática, de uma sensibilidade emocional e até espiritual, além do hábito de ouvir gravações no estilo que você se identifica, aí surgem os gênios da música, sendo o caso do Stevie Wonder e do Bob Marley. Enfim, o dom é a habilidade de perceber a música em todas suas dimensões, assim como um pintor que ao desenhar um cubo, além do contorno quadrado (a melodia), reproduz todas as nuances do objeto, com seu sombreamento, brilho, reflexo, perspectiva tridimensional, etc.

18) RM: Qual é o seu conceito de Improvisação Musical?

Rebel Lion | Gianni Zion: A improvisação não é um exercício rápido de execução de escalas, nem um passeio aleatório pelas notas que compõe tal escala. Para mim é como uma composição em tempo real, uma sequência de melodias que expressão algum sentimento ou prazer sonoro, podendo ser recheada de clichês para criar um groove positivo no aspecto rítmico do solo. Acho fundamental usar as pausas como parte da melodia, dando fôlego ao instrumento. Além disso é muito importante a síncope, evitando o simples martelamento das teclas num ritmo constante, sempre utilizando notas de duração variadas e não apenas se preocupar com a rapidez. Muito importante usar também a variação dinâmica, tocando com mais força as notas que merecem destaque para dar mais vida e interesse ao solo.

19) RM: Existe improvisação musical de fato, ou é algo estudado antes e aplicado depois?

Rebel Lion | Gianni Zion: Existe sim. O que é estudado são as escalas, suas variações, técnicas de execução e clichês previamente utilizados. O resto é pura criação em tempo real de melodias em um determinado contexto harmônico. Mas considero que várias frases durante o improviso podem ter sido usadas em outros contextos anteriormente, mas uma boa parcela das frases poderá ser criada na hora.

20) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre Improvisação musical?

Rebel Lion | Gianni Zion: Como autodidata, não conheço suficientemente os métodos de improvisação, preferindo não opinar. Mas um conselho simples é: imite bastante antes de “mitar”. Ou seja, estude e reproduza os solos de grandes artistas e depois se aventure a fazer o seu como uma sopa de elementos aprendidos e ideias próprias que irão surgir.

21) RM: Quais os prós e contras do uso de VST (Virtual Studio Technology) e VSTi (Virtual Studio Technology Instrument) pelo Tecladista?

Rebel Lion | Gianni Zion: Com o alto nível atual da tecnologia utilizada no áudio digital, na recriação de plugins através de modelagem e da maior capacidade de armazenamento e de processamento, permitindo coleções de samples de instrumentos com grande riqueza de detalhes e realismo. Não tenho dúvida que chegamos à era dos instrumentos virtuais – não uso o termo VSTi nesse sentido, já que se trata de um formato de propriedade da Steinberg e não representas instrumentos em outros formatos.

Uma experiência vivida por mim, me forçou a migrar para os instrumentos virtuais. Sempre fui aficionado pelos instrumentos tradicionais ligados à música negra e ao reggae: órgãos Hammond, Farfisa, piano acústico, pianos Rhodes e Wurlitzer, Hohner Clavinet, Arp Solina. Ao longo dos anos 80, consegui adquirir um piano Rhodes, um órgão Hammond X-5 (mesmo modelo usado nos estúdios Randy’s e Channel One da Jamaica), um piano acústico upright (vertical). Posteriormente passei a enfrentar problemas com esses instrumentos.

A Leslie que usava com o Hammond, após ficar parada por três meses num quarto, sofreu um fulminante ataque de cupins, quando fui transportá-la para o estúdio que estava montando, ela simplesmente desmoronou em pó. O papelão do alto-falante grave de 18 polegadas também foi destruído. O próprio órgão não ligou mais, apesar de ainda ter planos de consertá-lo. O piano upright, já não está fácil de encontrar profissionais de afinação. O Rhodes (Stage 73 Mark I) continua firme e forte, e pesado! Desanimado com esses percalços, me transformei num verdadeiro caçador de instrumentos virtuais para substituir os meus originais. Passei a comprar ou “baixar” todas as libraries e plugins relacionados com esses instrumentos que admirava, sempre tendo muitas decepções, como o Native Instrument B4, que considero péssimo.

Os grandes pianos sempre voltados para o clássico, cinema ou pop, sempre foram muito frustrantes para mim. Caros, com arquivos imensos, não são para reggae. Mas a busca continuou e atualmente posso afirmar que encontrei os substitutos muito bons para o piano de reggae, para o Hammond B-3, Farfisa, Vox, mas não para o X-5 que devo recuperar em breve e para o Rhodes, além de ótimas libraries de clavinets e dos exóticos pianos eletrônicos e synth strings que foram usados secretamente no reggae. Todos bastante satisfatórios para gravações de estúdio no estilo roots jamaicano.

Atualmente estou aposentando meu velho teclado Ensoniq TS-10 e os módulos de órgão E-MU B3 e Voce V-3 que me acompanham há mais de 20 anos, para usar só instrumentos virtuais. O acesso a centenas de diferentes modelos de cada instrumento e todas as vantagens práticas do ambiente digital, fazem desses instrumentos a melhor opção para se tocar o autêntico reggae ou qualquer música, seja vintage ou moderna. A única desvantagem que percebo é a possibilidade de instabilidade do notebook (Windows), dependendo da configuração, trazendo risco de travamentos e outras surpresas no uso ao vivo, o que pode ser minimizado com uma máquina moderna e potente.

22) RM: Quais são os melhores Teclados para tocar música reggae?

Rebel Lion | Gianni Zion: Respondendo pelo lado ideal, seriam os órgãos Hammond B-3, C-3 ou X-5, entre outros, órgãos Vox e Farfisa, piano acústico com “character”, clavinet e sintetizadores analógicos dos anos 70: Moogs, Prophet 5, Oberhein, Yamaha, Arp, etc. Ou numa resposta mais realista e atual, um Teclado ou workstation que reproduza bem esses timbres, apesar de que neste momento eu estar migrando para o formato notebook+ controlador MIDI, com dezenas ou centenas de instrumentos virtuais cuidadosamente selecionados para o estilo, com as vantagens de maior flexibilidade de timbres, realismo e praticidade.

23) RM: Como você analisa o cenário do reggae no Brasil. Em sua opinião quais foram as revelações musicais nas últimas décadas? Quais permaneceram com obras consistentes e quais regrediram?

Rebel Lion | Gianni Zion: Infelizmente eu não tenho acompanhado tão de perto a cenário reggae nacional, apesar de apreciar vários trabalhos nacionais, muitos do Nordeste, mas vários do Sudeste também. Pelo fato de ter iniciado essa trajetória pelo reggae jamaicano da década de 70, esse é o som que bate mais forte, que me identifico, que coleciono vinis, que me inspira nas composições da minha banda Rebel Lion, que representa 90% da minha audição, afinal essa é minha especialidade ao longo de mais de 40 anos como regueiro. Desse modo, apesar de ter tocado ao lado (dividido palco), com quase com todos os grandes nomes do reggae nacional: Edson Gomes, Tribo de Jah, Cidade Negra, Ponto de Equilíbrio, Mato Seco, Leões de Israel, Planta & Raiz, Chimarruts, Adão Negro, etc, e até contratado vários deles, me sinto desatualizado para esta análise.

24) RM: Você é Rastafári?

Rebel Lion | Gianni Zion: Não. Tenho grande respeito e admiração por vários conceitos da fé rastafári, mas não sigo todos os seus princípios. A imagem de uma divindade negra africana “Jah” apesar de toda controvérsia histórica tem um simbolismo de valorização do povo negro inestimável. Além disso, provavelmente o verdadeiro Jesus deve ter uma fisionomia bem mais próxima do Haile Selassie, pela região em que nasceu, do que a imagem europeia construída pelo império romano. Vejo a maconha, sagrada para os rastas, como uma planta do nosso habitat, reconhecida pelo grande valor medicinal. Quanto ao uso recreativo, apesar de eu usar raramente, talvez 4 vezes por ano apenas, mais como uma atitude contra a hipocrisia da sociedade e por solidariedade às causas rastas e dos negros, vejo com cautela os efeitos da legalização, mas defendo que seja tentada essa alternativa no Brasil. Não tenho religião definida, meu contato com Jah é sem intermediários. Acredito na reencarnação e simpatizo com a visão espirita, até por ter vivenciado fenômenos espirituais, inclusive relacionados com o dom musical.

25) RM: Alguns adeptos da religião Rastafári afirmam que só eles fazem o reggae verdadeiro. Como vocês analisam tal afirmação?

Rebel Lion | Gianni Zion: Creio que essa opinião não é apenas dos rastas, mas também dos próprios artistas originais jamaicanos. E de certa forma isso é bastante compreensível, pois equivale ao sentimento de um músico brasileiro ouvindo um chinês tocar Samba ou Forró Pé de Serra, é natural nós subestimarmos sua habilidade para tocar nossos ritmos. No caso específico do reggae, há motivos de sobra para essa visão dos jamaicanos: o reggae tem características sonoras e rítmicas únicas, relacionadas com a forma como os instrumentos são gravados, percussões únicas, técnicas de bateria bastante diferenciadas e sobretudo os segredos de estúdio dos excepcionais engenheiros de mixagem da ilha jamaicana. Isso tudo somado à pronuncia do dialeto patwa nativo da Jamaica e à herança tradicional das culturas rastafári, da música folclórica mento e da influência do calypso caribenho, fazem do reggae realmente uma música única, difícil de ser reproduzida, ao contrário do rock, cuja sonoridade é facilmente reproduzida por artistas do mundo todo.

Quando você se aprofunda na musicalidade reggae, você percebe, que não é fácil reproduzir por exemplo o timbre o a técnica de bateristas como Carton Barrett e Sly Dunbar. Os timbres de Hammond usados no reggae jamaicanos jamais foram ouvidos em nenhuma outra música. Até o piano acústico do reggae soa único, fazendo com que a grande maioria dos teclados e libraries de piano sejam inadequadas para o autêntico reggae. Quando a gente escuto reggae autênticos produzidos na Inglaterra, EUA e Canadá, podem checar: são produtores e músicos jamaicanos envolvidos. Até os reggaes produzidos nas ilhas do caribe próximas da Jamaica são bastante modestos em comparação.

Em resumo, concordo e compreendo esta opinião dos músicos jamaicanos e a minha maior missão no reggae é exatamente quebrar essa regra através da banda Rebel Lion. Talvez por isso mesmo demoramos tanto a lançar um álbum oficial, pois só agora me sinto equipado e com os conhecimentos para finalmente gravar um reggae como se fosse jamaicano.

26) RM: Na sua opinião quais os motivos da cena reggae no Brasil não ter o mesmo prestígio que tem na Europa, nos EUA e no exterior em geral?

Rebel Lion | Gianni Zion: Se a pergunta se refere ao baixo prestigio do nosso reggae dentro do Brasil, creio que isso não é algo que atinge somente o reggae. Toda forma musical que está fora dos padrões preparados pela e para a grande mídia, como efeito da visível deterioração cultural, social e econômica que o Brasil e vive, sofrem o problema. Acho que a internet e mais ainda, as redes sociais e plataformas streaming, exacerbara esse problema. A música é cada vez mais local, ou com “cara de local” e tudo que difere do comum vai soando estranho.

Com o advento dos vídeos musicais, desde os clips na TV até o presente Youtube, a música passou a ter um forte componente visual e é natural que as sociedades racistas e belezistas prefira um vídeo da Anitta ou dos sertanejos engomadinhos do que o visual dread dos rastas. O apelo rítmico e a simplicidade do fanque (jamais chamaria FUNK) que fala a língua das favelas e suas versões mais elitizadas, junto ás músicas de sofrência são formulas infalíveis no cenário atual, que ocupam todas as faixas sociais, com o apoio da grande mídia que lucra com esse circuito e não deixa espaço para coisas “exóticas” como o reggae.

Mesmo assim, graças à grande qualidade musical e das mensagens inerentes ao reggae, ele mantém um público fiel e dedicado, formado com ajuda da mesma internet. Mas sou pessimista quanto a esse cenário. Acho difícil o reggae se tornar um fenômeno de massa. Rezo para que pelo menos esse nicho seja forte o suficiente para manter nosso circuito alternativo ativo e viável, o que depende de nossa presença competente nas mídias sociais, que é mais democrática.

O mercado musical é cada vez mais ditado pela lei de mercado (pura oferta x demanda) e num país em decadência social e cultural, a tendência é que o fator qualidade der lugar ao fator disponibilidade e preço. Em resumo, é mais fácil a massa consumir refrigerantes e chilitos do que ter a esquisitice de beber suco da fruta com pão integral, sobretudo quando nem o governo nem a grande mídia se preocupa em mostrar que o refrigerante não é uma boa opção, além do esforço e custo adicional de se buscar o melhor.

27) RM: Festivais de Música revela novos talentos?

Rebel Lion | Gianni Zion: Sim.

28) RM: Quais os pros e contras de se apresentar com o formato Sound System?

Rebel Lion | Gianni Zion: Não podemos esquecer que o formato sound system é o mais associado às performances da grande maioria dos artistas de reggae jamaicano. Reggae é uma música essencialmente de estúdio. Os grandes músicos eram músicos de session, diariamente contratados pelos produtores de disco para acompanhar o cantor da vez. Apenas artistas de destaque internacional possuíam uma banda fixa de acompanhamento como Bob Marley, Peter Tosh, Third World, Inner Circle, Chalice, Gladiators (parcialmente), Jimmy Cliff, Black Uhuru. Ainda assim, a banda que acompanhou Jimmy Cliff era a mesma que acompanhou depois o Black Uhuru (The Revolutionaries, uma banda de estúdio) e a do Peter Tosh era baseada noutra banda de estúdio: Soul Syndicate.

Os cantores clássicos do reggae, como Ken Boothe, John Holt, Dennis Brown, Freddie McGregor, Gregory Isaacs reunia músicos desses mesmos estúdios, sobretudo a We the People, liderada pele baixista Lloyd Parks. Desta forma não sobrava músicos para a centena de cantores mais jovens que surgiam, restando o formato mais barato do Sound System para suas performances vocais em cima dos riddims gravados em dub plates.

Era também uma forma de preservar a mixagem do estúdio no show ao vivo. Este fenômeno explodiu sobretudo nos estilos DJ e também no steppers de 1979 que evoluiria para o rub-a-dub no início dos anos 80, no auge dos dance halls (salões de dança, ou clubes). Podemos citar alguns artistas típicos desse fenômeno: Sugar Minott, leroy Smart, Michael Prophet, Linval Thompson, Johnny Clarke, Hugh Mundell, Barry Brown, e os DJs Trinity, Yellown Man, Dillinger, Clint Eanstwood, Half Pint, entre tantos.

Como visto, na Jamaica, esse formato é bastante popular e parte da cultura local, não sendo uma questão de prós e contra. Já no Brasil, pode soar estranho, pois a nossa cultura é de uma banda se apresentando ao vivo, apesar de que, com a evolução da tecnologia e a extrema popularização dos DJs esse formato será cada vez mais normalizado.

29) RM: Quais as diferenças de se apresentar com banda em relação ao formato com Sound System?

Rebel Lion | Gianni Zion:

Muito desse tema já foi abordado na questão anterior. Por ser uma música de estúdio, não é fácil reproduzir um som autêntico de reggae em shows ao vivo. Tive a oportunidade de assistir dezenas de shows com os maiores artistas mundiais de reggae: Abyssinias, Gladiators, The Wailers, Alpha Blondy, Steel Pulse, Gregory Isaacs, Owen Gray, Larry Marshall, Max Romeo, Bob Andy, Ken Boothe, Israel Vibration, etc., e sempre percebi uma tremenda diferença entre a sonoridade original dos vinis em relação ao som mais genérico apresentado ao vivo. Noto que os cantores e as bandas que acompanham, algumas vezes nacionais, com raras exceções não se preocupavam muito com o detalhe dos timbres. Predominava o uso do piano do Korg M1, que apesar de aceitável para produções de dance hall da década de 80, e tão associado ao live reggae, são bastante distantes do som do autentico piano dos estúdios jamaicanos.

Os baixos, além de ativos, usavam cordas roundwound, diferente das flats. Os órgãos muitas vezes lembravam os órgãos dos teclados Casio ou Yamaha PSR, sem as configurações de drawbar e leslie usadas originalmente. As caixas e tons da bateria, sempre soam bastante genérica ao vivo, sem as técnicas de afinação e abafamento usadas nas mixagens originais. Os efeitos para DUB, ao invés, dos Space Echos e dos spring reverb, são normalmente racks digitais.

Como já comentei, o sound system pelo menos preserva a sonoridade original da gravação. Coincidentemente, neste momento eu estou concluindo um projeto inovador para usar ao vivo nos shows da Rebel Lion, os sons produzidos em estúdio, buscando a sonoridade autêntica dos estúdios jamaicanos. Uma espécie de meio termo entre o sound system e a banda. Para dar um exemplo: gravei, em estúdio, dezenas de percussões utilizadas pelo baterista no reggae: timbales, congas, bongô, roto-tons, e samples de bateria Simmons e montei instrumentos virtuais para serem tocados ao vivo, preparados e mixados com as técnicas jamaicanas. Da mesma forma criei todos os demais instrumentos, incluindo piano acústico, após cansativa comparação de libraries, com uma sonoridade bastante próxima do reggae jamaicano.

A questão da configuração das drawbars no Hammond é um capitulo a parte, devido a diversidade de timbres criados para os órgãos no reggae. Outro exemplo é caixa rubadub do baterista Style Scott (Roots Radics): é quase impossível se obter ao vivo o som pesado desta snare. Demorei para reproduzir este som a partir de samples comprados ou gravados por mim no estúdio, se aproximando dos autênticos rubadubs de 1982-83. Estes samples, de kick, caixa, tons, timbales, com exceção do hihat, serão tocados ao vivo a partir do notebook, através de pads de bateria.

30) RM: Quais os pros e contras de fazer música usando riddim?

Rebel Lion | Gianni Zion: Mais uma vez estamos falando de uma prática da cultura do reggae jamaicano que tem que ser analisada inicialmente no contexto jamaicano. Pelo mesmo motivo das limitações de recursos de artista para manter bandas de apoio e daí a utilização dos sound systems, os produtores introduziram a reutilização das bases instrumentais já gravadas (riddim) para baratear os custos da gravação de outros artistas. A estratégia funcionou bem porque eram escolhidos riddims já consagrados pelo público que recebem bem uma nova roupagem de um sucesso. Além disso, criava-se um clima de competição entre os riddims, o que animava ainda mais os dance-halls.

Mas não é qualquer base instrumental que poderia virar um riddim. As bases escolhidas para riddims normalmente tinha harmonia simples e repetitiva, com dois a quatro acordes e tinha que ter uma linha de baixo contagiante e com forte apelo dançante. Não seria fácil compor uma melodia inédita em cima de um instrumental complexo, daí ser mais raro riddim com músicas do Bob Marley, Peter Tosh, Third World, etc.

Normalmente eram reciclados sucesso antigos da década de 60 de rocksteady do Studio One para esses riddims. Essa prática teve também um papel importante na competição dos estúdios e dos baixistas e arranjadores para criar cada vez mais riddims de sucesso, ampliando e melhorando a qualidade das produções de reggae, que por sua vez desafiava os cantores a criarem cada vez mais versões. Dito isso, acho bastante interessante a ideia de se reciclar um riddim com uma nova versão, mas como músico, vejo ainda mais mérito em se criar um novo e inédito riddim, que possa ser depois regenerado, fortalecendo a cena reggae.

31) RM: Quais os projetos que já foram realizados e quais os projetos futuros?

Rebel Lion | Gianni Zion: Entre os projetos já realizados como músico e colecionador de reggae, posso citar a criação da primeira banda de reggae de Fortaleza – CE e uma das pioneiras do Brasil, a Rebel Lion, em 1990. A apresentação do primeiro programa de reggae de Fortaleza em FMs, em 1994. A fundação da primeira casa de eventos para shows de reggae em Fortaleza, O Canto das Tribos, em 2001, onde atuei como produtor de shows e contratante de artistas internacionais e nacionais de reggae, entre eles: Alpha Blondy, Gladiators, Eric Donaldson, Owen Gray, Tiken Jah Fakoly, além de dezenas de nomes nacionais como Tribo de Jah, Ponto de Equilíbrio, Adão Negro, etc. Montagem do estúdio de gravação Zion Music, baseado no Pro Tools, que conta com um a coleção de instrumentos e equipamentos raros utilizados no reggae jamaicano: órgão Hammond (X-5), piano elétrico Rhodes, Roland Space Echo RE-301 e Spring Rever Fisher K-10, estes últimos, os efeitos clássicos dos dubs jamaicanos.

Entre os projetos atuais está a conclusão do primeiro CD oficial da banda Rebel Lion no próprio estúdio e a criação de um canal no youtube para conteúdos diversos sobre a banda e o reggae, incluindo técnicas “secretas” de produção e arranjos da música roots reggae. O maior projeto de longo prazo é gravar nesse estúdio todas as mais de 200 composições próprias de reggae.

Atualmente me dedico a usar os timbres produzidos no estúdio durante os shows ao vivo, com recursos de sampling e de mixagem e criação de instrumentos virtuais com timbre usados na Jamaica.

32) RM: Quais seus contatos para show e para os fãs?

Rebel Lion | Gianni Zion: (85) 98784 – 3171 (Odilardo) | (85) 99926 – 6558 | [email protected]

LINKS PARA CONHECER MAIS SOBRE REBEL LION

Facebook da Rebel Lion: https://www.facebook.com/rebellionreggaeband

Instagram da Rebel Lion: https://www.instagram.com/bandarebellion.ce

Tributo a Bob Marley: https://www.youtube.com/watch?v=JzSFvj-Tq60

Entrevista Gianni Zion no Groovin Mood: https://groovinmood.com.br/2008/11/27/gianni-zion-rebel-lion/

Rebel Lion no Ceará Music: https://www.youtube.com/watch?v=rfrtWycLfJg

Rebel Lion – Oppressor (Gianni Zion): https://www.youtube.com/watch?v=sdSFGL2r94w

Rebel Lion – Jah Give us Life (Wailing Souls): https://www.youtube.com/watch?v=QBLl5mQwnRo

Johnny Clarke & Rebel Lion (Fortaleza): https://www.youtube.com/watch?v=73sZyycOvpI

Rebel Lion – Razão de Ser (Gianni Zion): https://www.youtube.com/watch?v=BdwCjxkdZps

Rebel Lion – Rebellion (Gianni Zion): https://www.youtube.com/watch?v=G1NvKAbxp4s

Rebel Lion – Poor Man Rich Man (Giladiators): https://www.youtube.com/watch?v=VCK_uMIunrA

Larry Marshall & Rebel Lion (Fortaleza): https://www.youtube.com/watch?v=x0Sai5IgMcM

Rebel Lion Live (TV Radio Reggae): https://www.youtube.com/watch?v=geQS9CYJfjc

REBEL LION CANTO DAS TRIBOS (AO VIVO) [CD COMPLETO]: https://www.youtube.com/watch?v=xs2ZH4SH-S0

Rebel Lion – Ao Vivo no Canto das Tribos (HD): https://www.youtube.com/watch?v=JzSFvj-Tq60

Rebel Lion – Ao Vivo no Canto das Tribos: https://www.youtube.com/watch?v=P5VE1Z3V3Ls


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  1. Que entrevista rica e com certeza uma aula sobre a Reggae Music do ponto de vista de um verdadeiro Amante da Reggae Music e primeiro Regueiro do Brasil.

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Uma Revista criada em 2001
pelo jornalista, músico e poeta paraibano
Antonio Carlos da Fonseca Barbosa.
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