Zulu de Arrebatá

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O cantor, compositor e violonista paulistano Zulu de Arrebatá começou a trilhar os caminhos da arte, com especial atenção para a música nos anos 70 respirando o fenômeno da migração ocorrida na década de 50 que fizeram de São Miguel Paulista, um bairro operário e ao mesmo tempo rico em influências culturais da região norte e nordeste, e ao mesmo tempo integrado com outros centros culturais, de outras partes do planeta, com destaque para as culturas de origem Árabe, Africana, Portuguesa e Italiana.

Ele sob uma forte influência da música gospel cantada nas igrejas evangélicas, aliada ao interesse pela compreensão da produção cultural dos seus antepassados, iniciou aos 17 anos de idade a busca da confluência musical e sonora que lhe acompanhará até os dias atuais. Tudo começou com o grupo Caaxió, criado em 1972, em que participava como backing vocal que depois mudou de nome para Matéria Prima em 1975, por força da gravação do primeiro disco que levou o mesmo nome e que teve a canção “Maria gasolina” um grande sucesso de público que proporcionou a primeira aparição na TV, no programa Fantástico, da TV Globo, rendendo ao grupo o reconhecimento na cena musical. Neste mesmo período, os integrantes do grupo faziam incursões pela música experimental e tiveram como parceiro a “geniosidade” de Tom Zé e Vicente Barreto (que anos mais tarde ser tornaria o principal  parceiro de Alceu Valença).

Com a perspectiva de alcançar novos objetivos, Zulu, deixou o grupo Matéria Prima em 1977 e no ano seguinte, retorna a cena cultural de São Miguel Paulista para fundar juntamente como os velhos parceiros o Movimento Popular de Arte, mais conhecido como MPA. A participação no MPA colaborou de modo decisivo para o amadurecimento musical de Zulu, que passa também a escrever as próprias canções e intensificando a busca por composições mais complexas e abertas as influências musicais dos quatro cantos do mundo.

Com um estilo incomum de cantar conquista admiradores por onde passa e este estilo incomum se explica pelas influências sonoras recebidas na infância, que traz na alternância dos tons graves e agudos; característicos do canto “spirituals” presente no Jazz, Soul, Funk dos afroamericanos, temperado com as frases e melodias do baião, do xote, do samba e por fim aliado ao intimismo da Bossa Nova, completam o universo singular da construção melódica deste compositor.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Zulu de Arrebatá para a www.ritmomelodia.mus.br , entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa  em 16.08.2015:

01) Ritmo Melodia – Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Zulu de Arrebatá: Eu nasci no dia 16/01/1957 em São Paulo, no bairro de São Miguel Paulista, Vila Rosária – Zona Leste e batizado como Gilberto Gonçalves da Silva.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Zulu de Arrebatá: Desde jovem, na igreja Congregação Cristã no Brasil, onde permaneci congregando até os 17 anos de idade.

03) RM: Qual a sua formação musical e\ou acadêmica fora da área musical?

Zulu de Arrebatá: Sou autodidata no que se refere ao estudo de música, e formado no curso de História pela UNIESP/SP.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Zulu de Arrebatá: Das influências, no passado quando criança ouvia um pouco de tudo, Nelson Gonçalves, Altemar Dutra, Ângela Maria, Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga. Na adolescência The Beatles e mais adiante Jovem Guarda, Tropicalismo. E hoje ouço Bossa Nova, Jazz, Soul, por exemplo, Esperanza Spalding, All Jareal, Phil Perry, Marvin Gaye e referências brasileiras da atualidade tem Marisa Montes, Mariana Aydar, Jorge Dissonância, Edvaldo Santana, Zeh Rocha, Alex Mono, Lenine, Paulinho Moska, Dani Black, Luis Melodia, Ed Mota, Emílio Santiago, Clube de Esquina e a nova formação da Banda Black Rio. Deixaram de ter importância àquelas ouvidas quando criança, ou seja, Nelson Gonçalves, Ângela Maria, Altemar Dutra.

05) RM: Quando, como e onde você começou a sua carreira musical?

Zulu de Arrebatá: Profissionalmente, digo que foi dia 15/04/1974, no Teatro de Arena em São Paulo, hoje Eugênio Kusnet, um show chamado “Casca de Vento” com o Grupo Caaxió, criação e direção de Edvaldo Santana.

06) RM: Quantos CDs lançados, quais os anos de lançamento (quais os músicos que participaram nas gravações)? Qual o perfil musical de cada CD? E quais as músicas que entraram no gosto do seu público?

Zulu de Arrebatá: Em 1975, gravação do LP – “Matéria Prima”, pela gravadora Chantecler/Continental, grupo este do qual na época eu fazia parte como backing vocal. Em 1985, participo com música de minha autoria, “Pés N’areia”, no disco do Movimento Popular de Arte de São Miguel Paulista – M.P.A.

Em 2004, gravo meu primeiro CD – “Amor Urbano”, sendo Zulu de Arrebatá: Voz; Alexandre Mariano: Guitarra; Armando Leite: Guitarra; Nado Silva: Piano Rhodes; Leandro Rodrigues: Órgão Hammond e Piano Eletroacústico; Fábio Aposan: Contrabaixo; Elder Jonnas: Contrabaixo; Alexandre Aposan: Bateria; James Curaçá: Percussão; Lino Kleber: Trompete; Elton Silva: Trombone de Vara; Adalton Jr.: Sax Tenor e Soprano; Marcos Henrique: Sax Alto; Jair Beneducci: Flauta Transversal; Paulo Cesar Baruk, Jaie e Queila Soares: Backing vocals. Sob Direção Geral de Zulu de Arrebatá. Quanto ao perfil, faço citação a Celso de Alencar que bem define meu trabalho como: “Uma linguagem bluessoulsambajazzistica”. Do CD – “Amor Urbano” – classifico: Claridade, Pés N’areia, Clareza, Quem Não Conhece o Brasil; Pro Mundo Ver São Miguel, Amor Urbano e Loucas Viagens Transcendentais.

07) RM: Como você define o seu estilo musical?

Zulu de Arrebatá: Como dito anteriormente, bluessoulsambajazzistico.

08) RM: Você estudou técnica vocal?

Zulu de Arrebatá: Não.

09) RM: Qual a importância do estudo de técnica vocal e cuidado com a voz?

Zulu de Arrebatá: Técnica vocal é o aperfeiçoamento, saber lidar melhor com a respiração; e o cuidado com a voz será uma constante, partindo do princípio que a voz para o músico é seu instrumento de trabalho.

10) RM: Quais as cantoras(es) que você admira?

Zulu de Arrebatá: Brasileiros: Elza Soares, Elis Regina, Gal Costa, Leny Andrade, Marisa Monte, Dom Paulinho Lima, Jorge Dissonância, Meyson Vieira, Rosa Passos, Mariana Aydar, Lica Cecato, Flora Purim.

11) RM: Como é o seu processo de compor?

Zulu de Arrebatá: Partindo sempre de uma ideia, uma imagem, de livros, ouvindo música instrumental e assim vai…

12) RM: Quais são seus principais parceiros de composição?

Zulu de Arrebatá: Sacha Arcanjo, Jocélio Amaro, Raberuan (in memoriam), Zeh Rocha, Cecíro Cordeiro, Gilberto Braz.

13) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Zulu de Arrebatá: Dificuldades são várias, a começar pela falta de recursos financeiros para investimento; as emissoras de rádio, a sua maioria, cobrando “jabá”, com exceção de algumas emissoras de rádio e televisão públicas que não o fazem.

14) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

Zulu de Arrebatá: Elas são realizadas a partir das oportunidades que surgirem pelo caminho.

15) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira?

Zulu de Arrebatá: O empreendedorismo se dá na medida em que alcanço através das ações positivas a efetiva realização dos meus projetos.

16) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira musical?

Zulu de Arrebatá: Digo que ajuda, na divulgação do meu trabalho em sua totalidade, alcançando o maior número de pessoas.

17) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso a tecnologia de gravação (home estúdio)?

Zulu de Arrebatá: A vantagem é a autonomia na elaboração de seu projeto. A desvantagem é quando gravadoras interferem no seu produto final.

18) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo. Mas, a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Zulu de Arrebatá: Busco me mostrar presente através de show e nos meios sociais, sempre com boa música.

19) RM: Como você analisa o cenário musical brasileiro. Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Zulu de Arrebatá: O cenário musical é sempre uma caixinha de surpresas. Revelações: Lenine, Edvaldo Santana, Zeca Baleiro, entre outros. Permanente é o sucesso, algo difícil de manter. E quanto a regredir, não acredito que merece ser apontado.

20) RM: Quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Zulu de Arrebatá: Luis Melodia.

21) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical (falta de condição técnica para o show; brigas; gafes; show em ambiente tosco; cantar e não receber; ser cantado e etc)?

Zulu de Arrebatá: Acho desnecessário responder a pergunta, não vejo em que acrescenta ou agrega valores.

22) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Zulu de Arrebatá: Feliz é quando executo meu trabalho a contento, não deixando espaço para a tristeza.

23) RM: Nos apresente a cena musical da cidade que você mora?

Zulu de Arrebatá: Para o mundo ver São Miguel Paulista; ouça minha música e terá a resposta. Acesse as minhas músicas: http://palcomp3.com/zuludearrebata/ .

24) RM: Quais os músicos, bandas da cidade que você mora, que você indica como uma boa opção?

Zulu de Arrebatá: Zulu de Arrebatá e Edvaldo Santana.

25) RM: Fale de sua atuação cultural no bairro de São Miguel Paulista.

Zulu de Arrebatá: Fui um dos fundadores do Movimento Popular de Arte, em 1978, com Edvaldo Santana, Sacha Arcanjo, Raberuan, Cecíro Cordeiro, Claudio Gomes, Luiz Casé, Lígia Regina e Eder Lima, Severino do Ramo, Silvio Araújo e outros. E a proposta era a construção de um centro cultural na região e a difusão de ações culturais no coletivo.

26) RM: Quais os artistas genuinamente de São Miguel Paulista?

Zulu de Arrebatá: Zulu de Arrebatá, Edvaldo Santana, Osnofa, Fernando Telles (Grupo Matéria Prima), Silvio Araújo, Luiz Casé, Nelson Mouriz, Eder Lima, Ronaldo Ferro.

27) RM: O que falta para a Zona Leste ter a mesma agitação e força cultural que uma Vila Madalena?

Zulu de Arrebatá: Investimento e vontade política.

28) RM: Quais os prós e contras dos CEUs e Oficinas Culturais em São Paulo?

Zulu de Arrebatá: Não tem prós e contras, os dois projetos CEUs e Oficinas Culturais são frutos da luta do Movimento Popular de Arte de São Miguel Paulista (M.P.A.).

29) RM: Quais os prós e contras da popularização dos Saraus em São Paulo?

Zulu de Arrebatá: Vieram para contribuir na divulgação dos trabalhos que ficam a margem dos meios de comunicação, tornando-se um elo entre quem desenvolve e quem participa, interagindo culturalmente e de forma positiva.

30) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Zulu de Arrebatá: Se tocar tudo bem, se não tocar, tudo bem também, vou continuar cantando e tocando porque gosto.

31) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Zulu de Arrebatá: Vá à luta!

32) RM: Quais os seus projetos futuros?

Zulu de Arrebatá: Todos.

33-) RM – Quais seus contatos para show e para os fãs?

Zulu de Arrebatá: (11) 95270 – 5430 (TIM) | 98182 – 7515 (TIM) |  [email protected]  | WWW.facebook.com/zuludearrebatá | www.palcomp3.com/zuludearrebata

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor Responsável pela revista Ritmo Melodia desde 2001, músico, letrista e poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, sempre se preocupou em divulgar a música (popular, regional, instrumental e erudita) com entrevistas e artigos sobre os músicos e artistas brasileiros.