Well Matos

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Well Matos
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O cantor, compositor e poeta maranhense Well Matos tem na sua música, a poesia do cancioneiro popular brasileiro unindo-se à denúncia de problemas sociais e ecológicos.

Well é um pesquisador popular, que usa elementos da ciência para melhor embasar os seus questionamentos existenciais. Participante assíduo de Festivais de Música do sul do país e do Maranhão, este cantor de regionalismo multifacetado, deixou suas impressões registradas no Festival de Música Popular Maranhense do Sintsep 2016, na Terceira Mostra Sesc de Música, no Festival Universitário da Canção da ESAL, no Oitavo Unireggae, arrebatando o primeiro lugar da premiação no júri técnico, com “Unção” na interpretação de Célia Sampaio. Ele participou do Show Nacional em homenagem a João do Valle (II Salão Nacional dos Territórios Rurais, Brasília-DF), em companhia outros artistas maranhenses, como Claudio Pinheiro, Cesar Teixeira, Carlinhos Veloz, Paulo Pirata, Milla Camões e Garrincha. Ele participou de vários Festivais de Música realizados no Estado, a exemplo do Unireggae, Fesmap, Festival João do Vale, etc. Que entre tantas perspectivas ousa sempre renovar, diferenciar e acrescentar. No tocante ao estilo musical que o artista desenvolve, é sabido que a herança folclórica da baixada maranhense se impõe de forma característica no sentido de integrar-se a uma visão universal da arte brasileira. Well tem em seu repertório baião, reggae, xote, blues, baladas e uma leva de sons, que segundo a crítica cultural, ainda não podem ser definidos e explicados.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Well Matos para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 20.08.2018:

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a cidade natal?

Well Matos: Eu nasci no dia 23.02.1971 em Sítio Belas Águas em São Bento (MA). E registrado como Wellington Matos.

 02) RM: Conte como foi o seu primeiro contato com a música.

Well Matos: Ainda na infância eu acompanhava alguns parentes nas batucadas de Carnaval e os assistia como instrumentistas dos eventos, tocando flautas e rebecas, e percussões nos tambores de crioulas. Ali nascia o meu desejo pela música.

03) RM: Qual a sua formação musical e acadêmica fora música?

Well Matos: Na música sou um autodidata. Não que não precisasse de aperfeiçoamento ou aprofundamento, pois acredito no conjunto da obra, no potencial dos músicos enquanto células para a composição de um organismo musical. Fora da música eu sou bacharel em Administração Rural (Agronegócio), tecnólogo e especialista em geoprocessamento e geomensura.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente? Quais deixaram de ter importância?

Well Matos: Quem nasceu nos anos 70 no Maranhão, cresceu ouvindo músicas caribenhas e regionais. Uma safra de ritmos e canções marcantes, alguns até já esquecidos, mas que foram importantes para a minha educação e vocação musical. Os ritmos variados de merengue/cadence (Les Aiglons), reggae (Bob Marley, Peter Tosh, Jimmy Cliff, The Gladiators), carimbó (Pinduca), Forró (Luiz Gonzaga, João do Vale, Jackson do Pandeiro), tambor de crioula (Mestre Felipe) e bumba meu boi (Coxinho, Papete). Outra safra marcante, as músicas temáticas e de identidade corroboraram para uma mudança de época na politica brasileira, nesse período a poesia de Gonzaguinha, Chico Buarque, Caetano, Gilberto Gil, Geraldo Vandré, Raul Seixas, etc. E aqui no Maranhão, o Cesar Teixeira e outros, me chamavam muito a atenção quanto à importância de ser um artista ideológico e a sua participação na sociedade. Pode-se dizer que, com exceção das redes sociais, os talentos musicais estão cada vez mais na invisibilidade da política pública e com poucas oportunidades. Outro fator limitante é que a atual cadeia produtiva visa oferecer na maioria das vezes um produto musical que atenda a uma onda do momento e de valor invertido, sem perspectiva execução em médio e longo prazo. Como consequência, o impacto desse cenário já é visível se compararmos aos níveis das canções executadas nas últimas décadas.

05) RM: Quando, como e onde você começou a sua carreira musical?

Well Matos: Durante a vida acadêmica em Lavras, no sul de Minas Gerais. Eu lembro que já escrevia alguns poemas e dedilhava o violão, e de repente apareceram alguns amigos músicos e universitários precisando de letra para compor canções e concorrer aos Festivais Universitários de Música. A primeira música que escrevi se chamava “TRILHAS”.

06) RM: Quantos discos lançados e quais os anos de lançamento (quais os músicos que participaram das gravações)? Qual o perfil musical de cada álbum? E quais as músicas que você acha que caíram no gosto do seu público?

Well Matos: Discografia no link abaixo:  https://drive.google.com/file/d/0B2RR7cqgAgBXZnR6bTB1VVVoT2s/view

Gravei dois álbuns (produção independente), os demais foram coletivos e resultantes de festivais e mostras musicais. Em 2001 o primeiro álbum – “Canções e Cantigas” – produzido por Mauricio Filho, a proposta foi de um cancioneiro popular regional abordando questões sociais, ambientais e um pouco de romantismo. Em 2015 o segundo álbum – “Aquarela do Mar”, produção e mixagem de Danni Blues e João Simas.  Houve uma diversificação de ritmos e também mais poético. Algumas músicas vêm se destacando nas redes sociais (facebook) e nas apresentações, como por exemplo: “Dias de Lua” – https://www.youtube.com/watch?v=N6BFOLD0TEM&vl=pt

CD – Festiveiros, 2007 (participação e co-produtor); CD – Canto da Ema, 2015 (participação com 4 faixas); CD 1° Festival Música Popular do Maranhão do Sintsep, 2016 (música premiada: “Aleive”). Músicas premiadas: “Unção” e “Caramboleira” – Festival da UFMA/Unireggae; “Trilhas”Festival da Canção da ESAL; “Aquarela do Mar”Festival Onde Canta o Sabiá (SESC); Diversas músicas classificadas em diversos festivais presenciais e virtuais.

07) RM: Como você define o seu estilo musical?

Well Matos: Acredito que o processo migratório das pessoas no mundo e na historia contribuiu também para a migração dos instrumentos musicais e a concepção dos ritmos. Dessa forma, toda música faz parte de um corredor territorial ou Continental, apesar da identidade o do rótulo local. Sendo assim, posso dizer que o meu estilo é MTB – Música Territorial no Brasil.

08) RM: Como você se define como cantor/intérprete?

Well Matos: Um cantor não tão bom quanto um interprete.

09) RM: Quais os cantores e cantoras que você admira?

Well Matos: São muitos, Belchior, Milton Nascimento, Gonzaguinha, Maria Bethania, Djavan, Zeca Baleiro, Tim Maia, Rita Lee, Jackson do Pandeiro, Ednard, Rubinho do Vale, Lenine, Rita Benneditto, Tião Carvalho, Nilson Chaves, Chico Nô, Fauzi Beydoun, Milla Camões, Célia Sampaio, Didâ, Atallaia, Eliseu, Ronaldo Queiroz.

10) RM: Como é o seu processo de compor?

Well Matos: É de forma variada, já sonhei com uma música e acordei passando-a para o papel. De outras vezes ouvindo os sons naturais e percebendo o ambiente.

11) RM: Quem são seus parceiros de composições?

Well Matos: Mestre Antônio Vieira (in memória) e tenho outros parceiros: Ronaldo Queiroz, Paulinho Dimaré, Erivaldo Gomes e o meu compadre Claudio Cruz (in memória).

12) RM: Quais as ações empreendedoras que você sempre pratica para o desenvolvimento da sua carreira?

Well Matos: Limitam-se aos registros das obras, parcerias, o mix de marketing e também a divulgação nas redes sociais.

13) RM : O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento da sua carreira musical?

Well Matos: Percebo a internet como uma vitrine de oportunidade. Um ambiente alternativo e convencional para a promoção da carreira, estreitando a interação com um público diverso.

14) RM: Como você analisa o cenário musical brasileira? Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Well Matos: Vivemos um momento de crise e de oportunidade na música. A crise em função do crescimento da pirataria, grande redução das grandes produtoras, pouco incentivo governamental, baixa qualidade e muita competitividade. Também surgiram as oportunidades, como o fácil acesso a inovação tecnológica na música, como os softwares e Home Studio. E novas legislações dos direitos autorais e comunicação facilitada entre músicos, produção alternativa e independente, e o surgimento de novos nichos de mercado para a música digital. Quem vem acompanhando tais mudanças não ficarão fora do palco.

15) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso a tecnologia  de gravação (Home Studio)?

Well Matos: As vantagens estão na redução dos custos, desburocratização, e rapidez. Por outro lado, isto pode comprometer a qualidade de uma boa produção, e equipe multidisciplinar atuando conforme as competências (ex. engenheiro de som, publicidade, arte e vendas).

 16) RM: Quais os músicos já conhecidos do público que vocês têm como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Well Matos: Tudo passa pela gestão, pois todos aqueles que sobreviveram ao mercado e nas relações pessoais são vitoriosos.

17) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na carreira musical (falta de condição técnica para o show, brigas, gafes, show em ambiente ou público tosco, cantar e não receber, ser cantado e etc)?

Well Matos: Acho que o calote é maior situação, cantar e não receber.

18) RM: O que deixa você mais feliz e mais triste na carreira musical?

Well Matos: Quem canta, por natureza é feliz pelo prazer de cantar. Mas somos também como um passarinho que às vezes canta na gaiola do mercado e da necessidade.

19) RM: Você acredita que sem o pagamento do Jabá as suas músicas tocaram nas rádios?

Well Matos: São raros os casos em que não sejam pagos os jabás, até as rádios públicas e universitárias seguem as normas do mercado.

20) RM: O que vocês dizem para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Well Matos: Sugiro que componha as suas músicas, crie uma identidade musical, use a imaginação e a inovação.

21) RM: Como você analisa a relação que se faz do reggae com o uso da maconha?

Well Matos: Durante a minha infância, na minha cidade, os maiores consumidores de maconha eram os pescadores, faziam isto para suportar o frio e os mosquitos. Penso que seja um mito, o consumo de bebida alcoólica ainda é maior que o da maconha.

22) RM: Como você analisa a relação que se faz do reggae com a religião Rastafari?

Well Matos: Apesar das origens, acredito que tenha ganhado força junto com as mensagens do reggae pelo seu maior difusor, o Bob Marley. Os princípios de um JAH da paz e de amor não são diferentes do Catolicismo e Judaísmo.

23) RM: Você é adepto a religião Rastafari?

Well Matos: Pelos princípios sim, mas não sou adepto a religião.

24) RM: Os adeptos a religião Rastafari afirmam que só eles fazem o reggae verdadeiro. Como você analisa essa afirmação?

Well Matos: Quem pede proteção divina e medita sobre as nossas causas sociais, com certeza fará um reggae legítimo e verdadeiro. Pode ser que sim, e já provaram isto pela genialidade musical.

25) RM : Na sua opinião porque o reggae no Brasil não tem o mesmo prestigio que tem na Europa, nos EUA e no exterior em geral?

Well Matos: Penso que no Maranhão existe uma particularidade quanto à inserção do Reggae no Brasil. Conforme a tese que se tornou livro do prof. doutor em antropologia Carlos Benedito Rodrigues da Silva (UFMA): “Da Terra das Primaveras à Ilha do Amor”. Um ritmo estrangeiro que entrou em São Luís e em diversas cidades do Maranhão magnetizou milhares de pessoas. O reggae contagiou vários ambientes regueiros da Ilha nas décadas de 60 a 90. Hoje o reggae continua nos programas de Rádios, TVs e nos salões dos guetos. Penso que ainda existe muito preconceito com o reggae pela sociedade branca brasileira.

26) RM: Nos apresente a cena musical reggae de São Luís?

Well Matos: Em São Luís, o reggae é uma cena musical no caribe brasileiro, um fenômeno sociocultural de massa que cresceu na periferia urbana, que no começo foi visto como uma ameaça à identidade cultural. As Radiolas e os vinis foram marcantes.

27) RM: Quais as diferenças das Radiolas de São Luís?

Well Matos: As radiolas, os paredões (caixas de som) pulsantes ecoando o som dos discos de reggae roots importados diretamente da Jamaica propiciaram espaços de laser nos terreiros e nos festejos. Os vinis (long play) eram encomendados com exclusividades em algumas às radiolas, as rádios propagavam o ritmo em maior tempo.

28) RM: Nos espaços ou clubes que tocam as Radiolas tem espaço para banda tocar?

Well Matos: Aos poucos foram surgindo às bandas locais, interagindo o tempo com as radiolas. Bandas como Tribo de Jah, Mano Bantu e Mistical Roots destacaram-se a nível nacional e internacional.

29) RM: Existe rivalidade profissional entre os donos de Radiolas e as bandas e cantores(as) de reggae em São Luís?

Well Matos: Penso que ao longo dos anos o reggae no Maranhão seguiu por dois caminhos. Um para o ritmo tradicional do reggae roots, a originalidade do som do vinil (long play) e a identidade do reggae raiz. E o outro caminho foi o empresarial, pirotécnico, de maior amplitude, aparelhagem, “eleitoreiro” e com fusão eletrônica. Existe até hoje uma forte concorrência entre os empresários e políticos do reggae.

30) RM: Na letra Magnatas e Regueiros da Tribo de Jah. É relatado que os

Magnatas, que são os donos de Radiolas, só pensam em Dinheiros, ou seja, no lucro do baile e não estão se importando com o regueiros nem com o reggae. O que você me diz dessa realidade local?

Well Matos: Perfeito resumo. Essa canção já alertava nos anos 80 sobre a ganancia empresarial, que obtinha grandes lucros e não davam nada em troca.

31) RM: O que justifica São Luís ser conhecida como a Jamaica Brasileira?

Well Matos: Um fenômeno sociocultural de massa que cresceu na periferia urbana e se expandiu para a classe média e outras cidades do Estado.

32) RM: O reggae em São Luís é dançado agarradinho. Quais os motivos que levaram a essa característica local? Seria a semelhança do ritmo reggae com o Xote?

Well Matos: Culturalmente, na época os homens não dançavam soltos nos salões, somente as mulheres nos tambores de crioulas ou em outra forma de festejo. E como as radiolas não tocavam somente o reggae, na passagem de uma seresta, merengue ou lambada, aproveitavam o reggae coladinho para não perderem a viagem e o namoro.

33) RM: O shows de reggae no sudeste a presença maior é de jovens e em São Luís tem pessoas de várias idades. Quais os motivos levaram a essa característica local?

Well Matos: Tais adultos dançaram reggae na juventude e são fieis ao ritmo.

34) RM: Qual a receptividade dos regueiros de São Luís para com os músicos jamaicanos?

Well Matos: São bem recepcionados e o público é presente, principalmente aos famosos artistas jamaicanos: Gregory Isaacs, Eric Donaldson, etc.

35) RM: A receptividade dos regueiros de São Luís é a mesma para com os músicos e bandas de reggae de outro Estado/Cidade do Brasil?

Well Matos: São públicos diferentes. Na verdade, a banda ou o artista possui um público específico, mesmo tratando-se de reggae.

36) RM: A impressão para quem não mora em São Luís é que a cena reggae local é diferente das outras cenas reggae do Brasil. Essa impressão procede?

Well Matos: Perfeitamente. Existe um corredor sonoro e de conexão entre a Jamaica e o Maranhão, já não mais com a mesma intensidade que nos anos 70 a 90, mais ainda existe.

37) RM: Qual a sua relação pessoal e profissional com os membros da Tribo de Jah?

Well Matos: De amizade, inclusive o tecladista Josiel Bives foi produtor de uma das minhas canções.

38) RM: Qual a sua relação pessoal e profissional com Célia Sampaio?

Well Matos: Minha amiga e parceira. Já interpretou e venceu um Festival de reggae universitário com a minha canção “UNÇÃO”.

39) RM: Qual a sua relação pessoal e profissional com Santa Cruz?

Well Matos: Meu amigo. Compositor e cantor de belíssimos reggaes.

40) RM: Qual a sua relação pessoal e profissional com Gerson Conceição?

Well Matos: Já conversamos uma vez. Um artista genial e de muito talento. Vou convidá-lo para uma parceria musical.

 41) RM: Quais as diferenças entre a cena reggae em São Luís e o sudeste do Brasil?

Well Matos: São cenários distintos de classe social, concepção e influência musical.

42) RM: Quais os livros lançados?

Well Matos: Livro e Revistas Técnicas: Obras, Publicações e Premiações Fragmentos – Poemas (1996), Curacanga – Muito Além do Mito (Revista Internacional UFO 133, 2007), Apoena – Poemas e Canções (E-book), Brilho de Âmbar – Casos de Fenômenos Luminosos no Maranhão (Em editoração); Finalista no Festival Nacional de Novos Poetas 2016 (A língua do Mundo); Participação nas publicações coletivas: MacroZEE/MA 2014, Territórios Rurais do Maranhão; Anais de Congressos e Revistas Especializadas em Desenvolvimento Rural; Aspectos para o Zoneamento Agropecuário do Município de São Bento-MA (Em andamento);

43) RM: Quais os seus projetos futuros?

Well Matos: Lançar o livro “Brilho de âmbar” com músicas no encarte, ou seja, um sarau literário e sonoro. Ver link abaixo: https://drive.google.com/file/d/0B2RR7cqgAgBXMmNvaXFtazE2dmc/view

44) RM : Quais os seus contatos para show e para os fãs?

Well Matos: (98) 981171374 | [email protected]

Membro da Academia Sambentuense de Letras: http://www.academiasambentuense.org.br/ocupante_perfil_academico_html/Wellgton_Matos.html

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor Responsável pela revista Ritmo Melodia desde 2001, músico, letrista e poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, sempre se preocupou em divulgar a música (popular, regional, instrumental e erudita) com entrevistas e artigos sobre os músicos e artistas brasileiros.