Tabajara Assumpção

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O cantor, compositor paulistano Tabajara Assumpção estudou música na Escola Municipal de Música de São Paulo e Filosofia na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC). Apesar de sua formação musical clássica, optou pela música popular se interessando por movimentos como a Bossa Nova, o Tropicalismo e a Vanguarda Paulistana do final da década de 70 e início dos 80.

O seu mais recente disco SAMPA SAMBA aponta para exploração das diversas linguagens no samba, desde o samba tradicional passando pelas suas variações como o samba jazz, o samba rock, o samba funk, o samba canção, a bossa nova e ainda com elementos do rap e da música cubana. Com sonoridades e temáticas urbanas SAMPA SAMBA busca retratar a nossa sociedade brasileira e os contrastes daqueles que habitam as periferias e as comunidades carentes, com os que moram nos centros urbanos, tratando de questões sociais como inclusão e cidadania, além de falar também de amor, samba, futebol e carnaval.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Tabajara Assumpção para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 16.05.2016:

01) RitmoMelodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Tabajara Assumpção: Nasci no dia 18 de maio de 1961 em São Paulo.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Tabajara Assumpção: A música sempre esteve presente no meu dia a dia. O meu pai todo dia de manhã ligava o rádio antes de ir para o trabalho e minha mãe passava os dias cantando junto com seus afazeres domésticos, apesar de não ser uma profissional e não ter nenhuma formação musical, ela tinha uma bela voz afinadíssima de mezzo soprano que acabava se propagando para além dos limites da nossa casa, percorrendo toda vizinhança. Eu me lembro de vizinhos virem pedir canções para que ela cantasse, por sorte ou pela sua boa performance, nunca houve quem reclamasse incomodado, e ela tinha um vasto repertório que ia desde Orlando Silva, Vicente Celestino, Nelson Gonçalvez, Ari Barroso passando por Noel Rosa, Cartola, Vinicius de Moraes, Lupicínio Rodrigues até a Jovem Guarda como Roberto Carlos, Wanderley Cardoso, Paulo Sergio e também os chamados “bregas” como Waldick Soriano, Odair José, não havia o mínimo de preconceito no repertório dela.

03) RM: Qual sua formação musical e acadêmica fora música?

Tabajara Assumpção: Comecei como autodidata no violão, aprendi a tocar com as revistas que na época se chamavam Vigu (Violão e Guitarra) que se comprava em bancas de jornais, naquela época não existia computadores caseiros e não tínhamos o “mundo sob os nossos dedos”, tínhamos que levantar da poltrona e irmos até uma banca de jornal. Hoje em dia a vida ficou aparentemente mais fácil com a internet e nela pode se encontrar, também, várias músicas cifradas. Resolvi daí começar um curso de música e fui fazer violão clássico no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, fiquei por um tempo, dois anos talvez? Não tenho muita noção de tempo cronológico (risos), mas me lembro de que em 1984 entrei na Escola Municipal de Música de São Paulo para continuar meu curso de Violão, mas para minha surpresa a escola não oferecia esse curso, por ser o Violão um instrumento secundário, ou seja, não faz parte de uma orquestra. Hoje em dia essa mentalidade mudou e a Escola Municipal há muito tempo tem o curso de Violão Erudito. Mas eu teria que escolher um instrumento para poder cursar e como a minha intenção era seguir as matérias teóricas para aumentar o meu conhecimento de música e não de seguir uma carreira de músico erudito e naquela época eu não tinha dinheiro para comprar um instrumento de orquestra porque eram muito caros, escolhi o canto que também me ajudou muito no meu desempenho como musico popular. Neste mesmo ano de 1984 também entrei na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (Puc) e comecei a cursar Filosofia. 

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente? Quais deixaram de ter importância?

Tabajara Assumpção: Não acredito em influências que deixam de ter importância, procuro considerá-las, acredito que elas ficam latentes e a qualquer momento, quando menos se espera elas surgem, a questão é o que fazer com elas, como transformá-las e dar a sua própria cara, procuro constantemente uma identidade musical e acho que nunca vou encontrar (identidade também é algo mutável), mas só o fato de procurar, alimenta a minha criação. Além de todas as músicas que ouvi pelo rádio do meu pai e a voz da minha mãe a disco dance dos anos 70 durante algum tempo era o que eu mais ouvia. Naquela época ainda adolescente com 14 ou 15 anos os destaques eram os Jackson Five, Stevie Wonder, Marvin Gaye, depois descobri as músicas do Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Rita Lee, Novos Baianos, Elis Regina, as músicas e músicos da Bossa Nova com destaque para João Gilberto e Tom Jobim e junto com eles também comecei a ouvir o rock de bandas americanas e inglesas como os Beatles, Roling Stones, Led Zeppilin, Black Saba, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Supertramp. Mas fui deixando um pouco de ouvir rock dando mais ouvidos à música brasileira e notei que alguns desses músicos, além de cantarem suas próprias músicas, cantavam também músicas que minha mãe cantava, comecei então a me familiarizar um pouco mais com Noel Rosa, Cartola, Lamartine Babo, até chegar na chamada Vanguarda Paulista, com os seus dois maiores representantes Arrigo Barnabé com a sua dodecafonia irreverente e Itamar Assumpção também com a sua irreverência musical e com temas e sonoridades bem urbanos, ouvi-los pela primeira vez, para mim foi um tapa no ouvido foi a demonstração de quantas possibilidades existem para se fazer música e o quanto é necessário educar e abrir os ouvidos para as novidades e descobrir novas formas de se fazer e ouvir música, aqui falo sobre música, mas penso que sirva para todos os outros sentidos inclusive o pensamento, sair da mesmice, acreditar em novas possibilidades e uma nova forma de ver o mundo e se ver nele e talvez até transformá-lo. Também não posso esquecer-me de Chet Baker, Billie Holiday, Eta James, Ella Fitzgerald.

05) RM: Quando, como e onde você começou a sua carreira musical?

Tabajara Assumpção: A primeira vez que toquei ganhando dinheiro foi em um Bar em São Paulo, na Av. Henrique Schaumann, chamado Lugarejo, era um espaço grande no andar de cima de uma loja, fui contratado para tocar as segundas-feiras. Um dia em que o Bar praticamente não tinha movimento, no máximo três ou quatro mesas de casais quase sempre, mas ali foi onde comecei aprender como tocar com a ajuda dos aparatos técnicos como mesa de som, microfone que nunca tinha usado. Quando? Como disse acima, tenho certa deficiência quando se trata do tempo cronológico, mas eu imagino uns 25 anos atrás (1990).

06) RM: Quantos discos lançados e quais os anos de lançamento (quais os músicos que participaram das gravações)? Qual o perfil musical de cada álbum? E quais as músicas que você acha que caíram no gosto do seu público?

Tabajara Assumpção: CD – “Tabajara Assumpção e a Banda Spray no Ouvido” em 1998. É uma colcha de retalhos, experimentei várias coisas: reggae, jazz, rap, rock, blues, para quem quiser ouvir: http://www.reverbnation.com/tabajaraassump%C3%A7%C3%A3oeabandaspraynoouvido4?profile_view_source=header_icon_nav. Participaram deste CD, Vinicius de Almeida – Baixo, Nelson Simões – bateria, Valter Passarinho – percussão, Ivan Monteiro – Guitarra e participação especial na música Planeta Azul do Didi pianistaCD – “Sampa Samba” em 2012, busquei as várias linguagens do samba desde samba tradicional, até o samba jazz, samba rock, samba funk, samba canção, a bossa nova e participaram Vinicius Almeida no Baixo, Alan Neto na Bateria, Marcelo Castilha nos Teclados, Vitor da Trindade na percussão, teve a participação especial de Meno Del Picchia no Baixo e Claudio Oliveira na bateria na música “Eu Ela e a Cidade”, em “Retalhos Coloridos”, Dico Las Casas no Trombone e Laerte Fernandes na percussão e na música Sampa Samba arranjos de Filipe Dourado que tocou cavaquinho com o seu grupo de samba Pedra 90. Para ouvir é só clicar: http://www.reverbnation.com/tabajara?profile_view_source=profile_box

08) RM: Como você define seu estilo musical? 

Tabajara Assumpção: Música Brasileira.

09) RM: Como você se define como cantor/intérprete?

Tabajara Assumpção: Não tenho uma definição de como canto ou interpreto, só sei que gosto de fazer, me dá muito prazer, prefiro deixar essa função para quem está me assistindo e ouvindo.

10) RM: Quais os cantores e cantoras que você admira?  

Tabajara Assumpção: João Gilberto é para mim um dos grandes ícones da música brasileira. Surgiu em uma época em que para cantar era necessário ter vozeirão, influência da tradição trazida pelo bel canto das óperas italianas que tínhamos como grande representante Vicente Celestino. Mas eis que de repente surge um jovem sentado num banquinho e um violão que veio revolucionar a música brasileira tanto na forma de cantar como na de tocar, a voz no tom da voz falada, aveludada, afinadíssima, o violão também nunca antes tocado daquela forma com acordes dissonantes, com grande simplicidade, elegância e sofisticação, e gosto também das vozes do Gilberto Gil e Caetano Veloso. Das cantoras admiro Elis Regina, Gal Costa, Céu e Roberta Sá.

11) RM: Você compõem? Quem são seus parceiros musicais?

Tabajara Assumpção: Sim. Considero-me mais cantor e compositor e meus parceiros musicais são todos os músicos que tocaram e que tocam comigo, do meu primeiro CD fizemos arranjos coletivos de todas as músicas e do segundo também. E atualmente os meus parceiros musicais, são: Vinicius Almeida, Neto Monteiro, Vitor da Trindade, Marcelo Castilha, Filipe Dourado e Gustavo Diez. 

12) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Tabajara Assumpção: Acho que o músico se torna independente não por opção, mas porque o mercado te coloca nessa condição. E acho o termo independente um pouco irônico porque o músico “independente” depende de várias coisas para viabilizar seu trabalho, se eu for descrever todas elas, não caberia na tela do computador e fundamentalmente precisa de dinheiro, por mais que nos dias de hoje a produção de um disco tenha barateado. Mas produzir todo um trabalho com CD, shows, distribuição, assessoria de imprensa, etc, custa caro. Leis de incentivo de Incentivo a Cultura, eu tive duas aprovadas pela Lei Rouanet, o problema é captar os recursos, as empresas estão interessadas em quantidades, se o artista tem um grande público, as suas chances de ser patrocinado são grandes. E outra coisa bastante atraente para as empresas é se o artista está envolvido em algum trabalho social que tenha alguma projeção, portanto, não basta só ser músico.

13) RM: Como você analisa o cenário musical brasileiro? Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Tabajara Assumpção: Acho que para fazer uma análise do cenário musical brasileiro é complexo, porque também é necessário fazer uma análise do momento histórico em que vivemos. Penso que a arte de um modo geral está ligada a política, a economia, as condições sociais, a forma como os cidadãos se reconhecem dentro da sociedade, acho que existem diversos fatores. Bertold Brecht dizia que o ser humano é um ser político por natureza, que qualquer ato é um ato político e que o pior analfabeto é o analfabeto político. Fazer música é também fazer política. Mas me atrevo a fazer uma análise bem rasa: eu acho que assim como no mercado, tudo hoje em dia está sendo produzido para ter vida curta, acabar logo para que tenhamos que comprar novamente e desse modo fazer com que aumente o consumo (a alma do capitalismo), penso que na música não seja diferente, artistas são criados em laboratórios pela indústria da música para durarem pouco, fazer muito sucesso, ganharem muito dinheiro, depois desaparecerem e caírem no esquecimento. E esse não é só um fenômeno que acontece na música brasileira é na música mundial, os ídolos de hoje são os mesmos de antigamente, não há mais espaço para ídolos ou músicas que perdurem e se tornem clássicos, tudo acaba sendo descartável, efêmero, por outro lado a internet veio para democratizar as formas de exibição e divulgação da música, nela tem espaço para todo mundo e acredito que se esteja criando nichos de mercado musical na internet onde o consumidor tem um grande leque de ofertas. As revelações das duas últimas décadas, para mim foram: Roberta Sá e Céu. Aqueles que permaneceram são os clássicos da MPB, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Noel Rosa, Cartola, Tom Jobim, João Gilberto, Elis Regina entre outros. Quando se fala em avanço ou regressão na produção artística, vejo uma linha evolutiva que eu acredito que não exista na arte, podemos nos desenvolver tecnicamente, aumentar nosso conhecimento, mas quando criamos uma obra, ela é única como expressão estética, ela é representação de um determinado momento onde aquele artista está inserido, não existe o antes ou o depois.

 14) RM: Quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Tabajara Assumpção: Qualquer forma de expressão para mim não é qualificável, todos nós nos expressamos como sabemos e como podemos e isso tem que ser considerado. Mas vendo profissionalismo e qualidade artística como produção de um espetáculo artístico eu acho que Ivete Sangalo, Claudia Leitte e algumas duplas sertanejas. 

15) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical?

Tabajara Assumpção: Uma que me marcou foi quando fomos tocar em uma cidade do estado do Maranhão. As apresentações seriam em um Bar todos os finais de semana sendo que a última seria uma comemoração de final de ano em uma fazenda. Contrataram-nos com parte do pagamento adiantado, com estadia, transporte. Isso era meado da década de 80 estávamos vivendo um processo de abertura política no Brasil, mas ainda tínhamos resquícios da ditadura. Foram duas semanas de quarta a domingo e conquistamos um público que ia frequentemente às nossas apresentações. Desse público fizemos várias amizades e uma delas era de uma moça que frequentemente vinha conversar com os rapazes da banda. No último dia da nossa apresentação fomos levados à fazenda que íamos tocar e para nossa terrível surpresa, logo na entrada da fazenda tinha uma enorme placa escrita UDR – União Democrática Ruralista, que na época eram os maiores patrocinadores do Governo Militar. Criou-se um clima perturbador na banda, não queríamos mais nos apresentar, mas não tínhamos como voltar atrás e pela nossa integridade física ou pela nossa vida, resolvemos fazer a apresentação. Foram duas horas intermináveis e para agravar ainda mais a situação, no intervalo de uma entrada para outra, um dos rapazes que frequentava as nossas apresentações e que era amigo da tal moça veio nos falar que o namorado dela queria prestar contas com a banda porque ele achava que pudesse estar havendo um caso entre ela e um dos músicos, o que não era verdade. Esse rapaz nos disse que o tal namorado era filho de um dos coronéis mais truculentos e poderosos da cidade e nos aconselhou que depois da apresentação, saíssemos atrás do palco que ele estaria esperando com uma pick up. Terminamos, colocamos os instrumentos dentro da caçamba, entramos na caçamba, muito apertados com os instrumentos e fomos para um hotel do lado da rodoviária, ninguém dormiu. No dia seguinte pegamos o primeiro ônibus que saiu para o Estado do Piauí, aliviados, nem pegamos o pagamento da última apresentação, se essa história do rapaz foi verdade ou não, nós não iriamos ficar para saber.  

16) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Tabajara Assumpção: “Cantando eu mando a tristeza embora” como diria Caetano Veloso, não há tristezas, há conquistas e quando a tristeza aparece, em qualquer situação, a gente a transforma em música. E o que me deixa mais feliz é saber que tem pessoas que apreciam o meu trabalho.

17) RM: Você inscreve as suas músicas em Festivais de Música?

Tabajara Assumpção: Já inscrevi.

18) RM: O que acha da importância dos Festivais de Música para lançar novos talentos?

Tabajara Assumpção: Todas as formas de exposição artística são importantes.

19) RM: Você acredita que as suas músicas tocarão nas rádios sem pagar o jabá?

 Tabajara Assumpção: Elas já tocaram sem jabá.

20) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Tabajara Assumpção: Vá em frente. 

21) RM: Quais os seus projetos futuros?

Tabajara Assumpção: Atualmente fazer as apresentações do meu último CD – “Sampa Samba”. Para projetos futuros tenho algumas coisas engavetadas, mas nada formatado.

25) RM: Quais os seus contatos para show e para os fãs?

Tabajara Assumpção: (11) 3739 – 4459 | 97366 – 0442 | tabajaraassumpçã[email protected] | https://www.facebook.com/sampasamba


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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor Responsável pela revista Ritmo Melodia desde 2001, músico, letrista e poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, sempre se preocupou em divulgar a música (popular, regional, instrumental e erudita) com entrevistas e artigos sobre os músicos e artistas brasileiros.