Reynaldo Bessa

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Reynaldo Bessa
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O cantor e compositor potiguar Reynaldo Bessa, nasceu em Mossoró-RN , mas se criou em Fortaleza e absorveu a influência direta “do Pessoal do Ceará”, movimento musical que pariu: Jorge Mello, Belchior, Graco, Fagner, Caio, Ednardo e outros músicos e compositores que se destacam no cenário musical a partir de 1975.

Nos quinze anos de carreira em São Paulo lançou três discos independentes com intervalo de cinco anos : “Outros Sois”; “O Beco das Frutas” e “Angico”. Cada disco mostrar um pouco da alma do artista e as suas influências. O primeiro tem atmosfera nordestina no ritmo e temas. A canção que se destacou foi: “Uma Canção Bucólica”. O segundo mostra seu lado mais romântico e intimista, tendo como música de destaque: “Lamento Urbano”. O terceiro é sua essência em imagem, semelhança ritmo e rima, tendo como canção de destaque: “De dentro Pra Fora”, que é vencedora de vários Festivais de Música.  Reynaldo faz parte da galeria dos artistas respeitados por muitas estrelas da MPB, mas ainda pouco conhecido pelo povo brasileiro.  Mas a arte que traz verdade tarda, mas não deixa de ser reconhecida um dia. Ele está no caminho certo e têm articulação necessária para levar sua arte todos os dias a outros ouvidos e corações.

É idealizador e colaborador do jornal informativo musical: O Toque. O Rio Grande do Norte está bem representado por esse filho pródigo, mas que não esquece a origem.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Reynaldo Bessa para a www.ritmomelodia.mus.br , entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 02.06.2002:

01) Ritmo Melodia: Como foi o seu primeiro contato com a música e de sua origem?

Reynaldo Bessa: Sempre que alguém toca nesse assunto, logo remeto a um cego que vi tocando na feira de Fortaleza. Eu tinha uns nove anos de idade. Não que isso tenha sido o motivo de tudo, mas com certeza me ajudou a despertar para a música e impressionou-me muito. Era um desses cegos bem típicos da região Nordeste. Olhos totalmente brancos, quer dizer, sem pupilas. Muito queimado de Sol. Suando as bicas e tocando feito o diabo. A sanfona parecia dizer o quanto à vida dele era doída. Era a música dialogando comigo. Fiquei abismado. Num misto de medo e admiração. Depois disso peguei o gosto pela coisa. Estudei canto, fiz o Conservatório de música: Violão Erudito e Popular. E passei a tocar na noite. Nunca me esqueci do bendito cego. Hoje o trago como a um amuleto. Nasci numa cidadezinha chamada Mossoró-RN. Com mais de 200.000 habitantes. Já viveu do sal. Depois do petróleo e hoje vive de um pouco desses dois, além da fruticultura, principalmente o melão e a acerola. Fica a quatro horas de Fortaleza; para onde minha família se transferiu, quando eu tinha apenas dois anos de idade e a cinco horas de Natal –RN. O Rio Grande do Norte é o solo de um dos meus maiores ícones “O mestre Luis da Câmara Cascudo”.

02) RM: Fale do início da carreira musical.

Reynaldo Bessa: Acho que demorei muito tempo na noite, mas gostava disso. Aí pintaram as primeiras composições e com isso à vontade de mostrá-las. Isso é um Mistério, Não? Ouvi muita coisa. Discos e mais discos. Apaixonei-me pelo movimento “do  Pessoal do Ceará”, que na época era o maior sucesso. Ainda gosto. Faziam uma música rica, com muito ritmo e poesia. Fui ouvindo e tocando. Só em 1994, já em Sampa (São Paulo), é que gravei meu primeiro disco. “Outros Sóis” (independente) e daí não parei mais.

03) RM: Quantos CDs lançados? Qual o perfil de cada um deles? E quais as músicas de destaque? 

Reynaldo Bessa: Durante esses quase 15 anos de São Paulo, gravei três CDs. Uma média de um CD a cada cinco anos. Tempo que acho bom, legal, para se trabalhar um disco independente. Se não entorna o caldo. O primeiro ; “Outros Sóis”. Disco, em que boa parte das músicas trouxe na bagagem quando vim do nordeste. Músicas muito influenciadas pelos ares da região ou compostas lá. Com a óptica de um nordestino puro. É ritmado e totalmente regional. Já possui muito de mim, mas não estou todo ali. É o primeiro né? Comercialmente falando, esse disco ainda vende muito. Uma música que toca bastante em Sampa e pelo Brasil á fora é: “Uma Canção Bucólica”, um xote em homenagem a Visconde de Mauá. A balada: “Bel’atriz”, estourou no nordeste. O segundo disco : “O beco das frutas”.  Esse foi um projeto de um selo de São Paulo. É mais intimista. Mais pro lado do romântico. Também contém algumas pérolas. A canção: “Lamento Urbano”, também toca muito em São Paulo e até já fez parte de uma tese da USP, sobre a nova óptica da cidade. Mas o último: “Angico”;  lancei no SESC Pompéia, me tem por completo. É um disco com temas fortes, muito ritmo, cores, pulsação. Uma poesia  mais madura, mais segura. Um disco com certeza, mais a minha cara. Até me arrisquei na utilização (sutil) de alguns recursos eletrônicos (programação e ruídos) e gostei do resultado. A canção: “De dentro pra flora”, foi vencedora de inúmeros Festivais de Música. Mas o próximo é sempre o meu maior xodó.

04) RM: Fale de sua experiência com Festivais de Música.

Reynaldo Bessa: Como costumamos sempre dizer, Festival de Música é uma “caixinha de surpresa” realmente imprevisível. Se ganha e Perde-se e assim a coisa vai. Durante o ano acontecem dezenas deles nas cidades: Tatuí, Avaré, Santa Rosa, Ilha Solteira, Rio Pardo, entre tantos outros. E já ganhei alguns com uma canção que depois gravei no meu último disco. São espaços onde o artista selecionado tem a oportunidade de cantar para milhares de pessoas e se dê sorte, levar um dos prêmios. Festival quer dizer festa. Então tem que se divertir. Ganhou, ganhou. Perdeu, perdeu. O que não pode é chorar.

05) RM: Como você vê o mercado musical de São Paulo?

Reynaldo Bessa: Tem muita gente, né? Com o avanço da tecnologia qualquer pessoa pode gravar. Fica-se com a voz lindíssima, afinal de contas às máquinas são poderosas. Como tudo, da quantidade sai à qualidade e no fim o que fica mesmo é a essência, a verdade, a criatividade. Não adianta inventar. O CD é o livro cantado, e o livro tem que ser bom, se não for, mofa na estante, quer dizer no porta CDs. Eu aposto no independente.

06) RM: Fale da cena musical independente.

Reynaldo Bessa: A cena musical independente (de qualidade) é a grande promessa, como já disse acima. As maiores novidades saíram do celeiro independente. Esse rótulo no Brasil já foi muito repudiado. Ser independente era sinônimo de falta de qualidade. Hoje a coisa já não é bem assim. Ninguém pode ficar na ponta dos pés por muito tempo. Aparece muita coisa ruim, isso é certo. É preciso garimpar. Pois nesse imenso limbo existe uma grande leva de cantores, compositores, intérpretes e instrumentistas fazendo trabalhos de deuses. São guerreiros. Vivem da arte para a arte. Muitos até, são idosos, como é o caso da violeira do Mato Grosso, Helena Meireles, descoberta com 70 anos de idade.  Os prós e os contras são inúmeros. Posso citar aqui alguns. Como prós: A liberdade, o compromisso com a verdade, a real satisfação do artista, enfim. E os contras: A dificuldade de fazer com que o trabalho chegue até as pessoas, Pois o independente não consegue muito espaço para divulgação, não consegue distribuir, não toca nas rádios, justamente por ser independente, ou seja, não tem vínculo com nenhuma companhia (gravadora), mas como já disse, tudo isso está mudando. Algumas produtoras, distribuidoras estão se estruturando para lidar somente com trabalhos alternativos. É preciso atentar que o independente na Europa sempre foi o grande lance. O título de melhor disco da Europa foi arrebatado por uma banda chamada “radiohead”, por sinal independente.

07) RM: Você tem parcerias com nomes de destaque da MPB?

Reynaldo Bessa: Componho muito. Toco Violão, faço harmonias e também sou letrista, então não espero muito. Sou meio solitário nisso. Mas mesmo assim tenho algumas “amizades musicais” com o gaúcho Zé Luiz Marmou, com Graco, Paulo LemisnkiRicardo Moreira e o Tavinho Limma, Enfim uma constelação de estrelas super brilhantes, porem quase desconhecidas. Com exceção do Leminski e do Graco.

08) RM: Como você vê a cena musical Brasileira?

Reynaldo Bessa: Depende do tempo. No presente, um caos e não vou ficar aqui gastando tempo e espaço falando de coisa ruim. No futuro, nas mãos do independente. É evidente que isso ainda demora um pouco. Tenho me deliciado com discos que me caem ás mãos. São de músicos de quem nunca ouvimos falar, mas com coisas lindíssimas. Tudo está tomando forma. Quando a coisa estiver pronta, aí é que são elas. O Brasil possui a melhor música do mundo e como disse no jornal “O toque”, desse imenso disco chamado Brasil, só foi tocado o lado “B”.

09) Quais são os projetos em 2002?

Reynaldo Bessa: Em setembro 2002, começo a gravar meu quarto disco por um selo aqui de São Paulo. Continuo com a turnê de “Angico”. Começo pelo sul de minas, nordeste, Rio de Janeiro e depois volto para são Paulo. Novembro Lanço Meu livro de poemas, esse é um projeto que alimento desde minha adolescência. Depois me dedico com unhas e dentes ao meu mais recente filho com a Marília: O informativo da música Brasileira :O toque, um filhinho musical, né?

10) Como você vê a importância da música nordestina?

Reynaldo Bessa: Sem dúvida alguma o Nordeste nos deu uma tremenda contribuição. Na Bahia: Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa, Maria Bethânia, Tom Zé. Na Paraíba: Os Ramalho, e Elba. No Ceará: O movimento do pessoal do Ceará com: Ednardo, Belchior, Fagner, Graco. Em Pernambuco: Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Antonio Nóbrega. Tá vendo Rio Grande do Norte? Enfim, seria escrever sem parar. Mas tem também a música mineira, a gaúcha, a do Mato Grosso, a do sudeste. É a riqueza desse imenso e efervescente caldeirão chamado Brasil. Não importa quem ou onde, o que importa mesmo, é a musica Brasileira.

Contatos : [email protected] \www.reynaldobessa.com.br  \ 11 – 3263 – 1182 \9392 – 7793

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor Responsável pela revista Ritmo Melodia desde 2001, músico, letrista e poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, sempre se preocupou em divulgar a música (popular, regional, instrumental e erudita) com entrevistas e artigos sobre os músicos e artistas brasileiros.