MC’s Júnior e Leonardo

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A Ritmo Melodia tem o desafio de “cantar o Brasil” pesquisando o que tem de melhor qualidade em todos os gêneros musicais brasileiros ou desenvolvidos no país. E nesse intuito faltava entrevistar uma dupla de MC’s. Os irmãos cariocas: Júnior e Leonardo são a bola da vez.

A dupla em 15 de estrada coleciona sucessos cantados por multidões nos bailes Funk e em campos de futebol: Endereço dos bailes, “Rap do centenário do Flamengo” e “Rap das armas”. O “Rap das Armas” ganhará a partir do dia 12 outubro 2007 as telas dos cinemas pelo Brasil e exterior através do polemico filme “Tropa de Elite” (Bope). Esse filme mostra sem máscara que a corrupção, o tráfico de drogas e de influência, a miséria são o gatilho da “guerra civil” não declarada no Rio de Janeiro. Esses dois jovens nascidos na favela da Rocinha conhecem essa historia e realidade desde que nasceram. Eles driblaram o tráfico e foram saindo da realidade de miséria cantando o próprio cotidiano nos bailes Funk. A música popular no país sempre passou primeiro pela barreira do preconceito. O maxixe, o samba, o choro, o forró (xote, baião e xaxado) passaram pela fase marginal tendo os músicos e apreciadores sendo perseguidos pela polícia e pela burguesia e só depois de muitas surras terem a aceitação dos donos do poder. Com o FUNK não foi diferente. Primeiro não liberavam os bailes dentro nem fora das favelas. Mas como na favela o alvará para funcionar um baile não era rígido o FUNK se desenvolveu e cresceu. E os MC’s cresceram juntos. O FUNK tem várias vertentes e discursos nas letras, mas a maioria das pessoas só identifica o FUNK como só tendo temas: sexuais, violências urbanas e policiais. A única unanimidade é que as letras falam do cotidiano da favela, temas positivos ou negativos. Como gênero musical é bem simples, uma batida e um canto falado. São poucos os MC’s com formação musical ou que tocam um instrumento musical. Gravar música FUNK e RAP são formas simples, diretas e baratas de se fazer música e viver dela. Para colocar para dançar um baile FUNK são necessários caixas de som, microfones e um sample para soltar a batida e claro os MC’s. O Júnior e Leonardo começaram na carreira através dos Festivais de FUNK, quando tiveram uma música vencedora abraçaram uma possibilidade profissional.

Segue abaixo a entrevista exclusiva com os MC’s Júnior e Leonardo para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistados por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 01.10.2007:

01) RitmoMelodia: Qual a cidade de origem e data de nascimento do MC Júnior e Leonardo?

MC Júnior e Leonardo: Nascemos no Rio de Janeiro (Morro da Rocinha), primeiro o Francisco de Assis Mota Júnior, no dia 11.11.1973 (Júnior) E Eu (Leonardo Pereira Mota), no dia 21.07.1975.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música de vocês.

MC Júnior e Leonardo: Temos o Forró (Xote, Baião e xaxado) como o primeiro contato musical, através do nosso pai Chico Mota, Cantor, compositor e tocador de triângulo paraibano. Em meado dos anos 80 descobrimos o Samba (Partido Alto, Pagode e Samba de Roda). Mas em 1989, ouvimos os tais “Melôs” de FUNK em Português, era o começo do “FUNK Brasil”. No início dos anos 1990 já trabalhando e podendo sair de casa começamos a ir para os Bailes que tinham perto da nossa casa. Nascemos e fomos criados na maior favela do Rio de Janeiro, a Rocinha. E lá existiam vários concursos de RAP. E fizemos o nosso RAP e acabamos ganhando. Entramos em muitos concursos no Rio de Janeiro. E nós nem sabíamos, mas estávamos começando uma carreira que completou 15 anos celebrados com a gravação de um DVD.

03) RM: Qual a sua formação escolar e musical?

MC Júnior e Leonardo: Tivemos uma infância dura. Criados sem pai e uma mãe sozinha para sustentar quatro filhos, e tivemos que trabalhar muito, desde cedo. Nossa historia não é diferente da de milhões de brasileiros que vivem sem acompanhamento nenhum de nenhuma esfera do Governo. Assim, estudamos muito pouco, só temos o primeiro ano do ensino médio. A formação musical é somente a de ter ouvido muita música, o que nos tornou cantores e compositores. Não tocamos nenhum instrumento musical para valer. Eu (Leonardo) faço solo no Teclado de ouvido e o Júnior “arranha” no Cavaquinho.

04) RM: Quando e por que vocês escolheram a profissão de músico?

MC Júnior e Leonardo: Não programamos nada, foi o FUNK que nos puxou para dentro dele, quando demos conta estávamos vivendo disso. Ver a música no Brasil como profissão é muito complicado, e ao mesmo tempo você tem que se profissionalizar. Mas é melhor levar tudo na brincadeira para não fazer muitos planos e arrumar espaço para decepções.

05) RM: Quais foram os primeiros obstáculos no início da carreira de vocês?

MC Júnior e Leonardo: Com certeza era a visão marginal que a sociedade organizada e opinião pública tinham do FUNK, não que hoje não tenha, mas há 15 anos atrás era absurdo o preconceito.

06) RM: Por que vocês escolheram o gênero musical FUNK (batidão) como música de trabalho?

MC Júnior e Leonardo: Tínhamos melodias guardadas em nossa mente e nem sabíamos disso, quando o FUNK apareceu em nossas vidas foi que descobrimos isso. Estava, mas acessível, era só subir no palco e cantar sem passar som, sem ensaio, sem banda, sem nada, e já com público. Nunca pensamos em ter gênero musical nenhum como trabalho, foi coisa do destino mesmo.

07) RM: Quais as diferenças e semelhanças entre o FUNK (batidão), o RAP e o Hip Hop?

MC Júnior e Leonardo: O Funk carioca tem várias vertentes, entre elas estão o FUNK Melody (são as músicas românticas), as Montagens (são os samples) e o RAP (são os poemas cantados em ritmo de FUNK). Já o Hip Hop é outra batida, mas ligada a Black Music. O FUNK carioca é derivado do Miami Bass e o RAP de São Paulo vem do Hip Hop. O RAP carioca é uma vertente do FUNK. Tanto no Rio de Janeiro como em São Paulo o MC (mestre de cerimônia) canta RAP. Só que um, é uma vertente do FUNK e o outro , é do Hip Hop. O que o FUNK (batidão) e o RAP de São Paulo tem em comum é o cantar na forma de RAP (o canto falado). Mas o FUNK canta um RAP (batidão) mais suingado. Enquanto o RAP paulistano é mais falado e lento.

08) RM: Os bailes FUNK no início tocava o FUNK, Black Music, Soul Music ou o FUNK batidão?

MC Júnior e Leonardo: O FUNk era chamado de Miami Bass e era mais lento, mas o batidão que você diz é a mistura disso tudo, só que depois de uma grande evolução.

09) RM: Quando e como começou a distinção entre o FUNK e o Batidão?

MC Júnior e Leonardo: Não vejo distinção, vejo só evolução.

10) RM: Como é para os MC’s ficarem no “fogo cruzado” entre a polícia e os traficantes que vivem e atuam na comunidade?

MC Júnior e Leonardo: Nada diferente das pessoas simples que vivem na comunidade (Favela).

11) RM: Quais as principais vertentes do FUNK batidão (Funk proibido, Funk Romântico e Funk Social)? E qual o estilo de batidão de vocês?

MC Júnior e Leonardo: Em nossa visão todos os ritmos no Brasil tinham que ter uma visão social, pois o nosso país precisa se comunicar para podermos ter informação e opinião crítica entre outras coisas. Mas o FUNK tem o tema social como obrigação, pois vem de um lugar carente de coisas básicas para um ser humano viver. Por isso defendemos o FUNK consciente.

12) RM: No início os bailes FUNK na comunidade era visto pela sociedade como palco livre para o consumo de drogas, excitação da violência, promiscuidade  sexual e outras subversão. O que tem de lenda, o que real e o que mudou nos bailes atualmente?

MC Júnior e Leonardo: Quem jogou o FUNK para dentro das Favelas foi o Governo, proibindo e negando as documentações necessárias para acontecer os bailes nos clubes interessados em promover os chamados ”Festivais de galera”. Quando permitia não dava nenhum tipo de segurança. Era lógico que iria sair algum tipo de confusão. Onde existe um número muito grande de pessoas não precisa nem de música para sair confusões, ainda mais jovens sem perspectiva de vida ouvindo um som excitante e totalmente sem segurança. Os bailes foram para Favela, e acabaram se fortalecendo por si só. Na Favela não precisa de alvará, nem de segurança do Estado, por isso foram inventadas várias coisas para que os jovens que não eram favelados não subissem os morros para curtir o FUNK. Mas uma vez erraram, pois depois do samba, o FUNk é o maior responsável pela integração entre morro e asfalto. O artista tem como inspiração tudo aquilo que ele vive, sente e vê. O que esperar das inspirações dos MC’s que vivem dentro da violência no dia a dia. Temos orgulho em dizer que em nossa trajetória artística nunca subimos no palco para excitar e nem propagar nenhum tipo de violência. Mas sabemos que o FUNK não tem nada a ver com a violência, mas para onde ele teve que ir para continuar existindo, a violência é constante.

13) RM: Como vocês que vivem na comunidade vêem o Funk Batidão ganhar espaço no bailes dos bacanas do asfalto? Até que ponto é modismo e até que ponto é avanço contra o preconceito? Quem mudou o Batidão ou os playboys?

MC Júnior e Leonardo: Sabemos que o modismo ajuda a quebrar alguns preconceitos. Mas o FUNK é feito dentro das Favelas, vira sucesso nas Favelas, usa a linguagem das Favelas e os chamados “Playboys” escutam e gostam, assim como o Samba, o FUNK vai ganhando seu espaço lá embaixo (no asfalto).

14) RM: Como vocês vêem músicos de outros estilos participarem do show de vocês?

MC Júnior e Leonardo: Para nós é muito importante essa aproximação, gravamos uma participação no DVD do Monobloco (Bloco de muito sucesso no Rio de Janeiro). Tivemos o prazer de cantar uma música nossa com a Fernanda Abreu, ela fez uma participação no nosso DVD que está para sair. Há pouco tempo gravamos uma paródia do “RAP das Armas” para a abertura do show do Lulu Santos (Long Play é o nome do show que está em turnê). Aliás, um forte abraço a todos os artistas de dentro e de fora do FUNK, que nos consideram e nos apoiam.

15) RM: Quais os fatos inusitados que vocês passaram em alguma apresentação de seu show?

MC Júnior e Leonardo: Já erramos nome de cidade, e quando isso acontece é um Deus nos acuda.

16) RM: Quantos CDs lançados? 

MC Júnior e Leonardo: Só lançamos um único CD – “De baile em baile”, em 1995, mas o número de coletânea nós já perdemos as contas. O nosso CD é o primeiro disco de um único artista de FUNK no Brasil, antes da gente só tinha coletânea.

17) RM: Quais as principais músicas de sucessos de vocês?

MC Júnior e Leonardo: “Endereço dos bailes”, “RAP do centenário do flamengo”, “RAP das armas”.

18) RM: Qual o futuro do batidão?

MC Júnior e Leonardo: Invadir as rádios do mundo inteiro.

19) RM: Fale do programa Furacão 2000.

MC Júnior e Leonardo: No inicio de 1995 o FUNK ganhou espaço na TV. Com o programa “Furacão 2000”, liderado por Rômulo e Verônica Costa. E nós tivemos o prazer de participar. Hoje tem o programa Big Mix, todo os Sábados as 18:30 na CNT Rio. E que nós já gravamos o piloto que vai ao ar nesse sábado (29/09/2007). Acho que o FUNK merece mais espaço na TV e estamos batalhando para isso.

20) RM: Como é ter uma música no filme Tropa de Elite (BOPE)? E o filme na opinião de vocês é mais real ou mais ficção?

MC Júnior e Leonardo: É muito maneiro poder ajudar a contar uma historia no cinema, seja ela qual for. Mas contar o que a gente vê no nosso dia a dia, e que ninguém tem a mínima noção de como é, aí é mais maneiro ainda.

21) RM: Quais os projetos futuros de vocês?

MC Júnior e Leonardo: Viajar com o filme “Tropa de Elite” do qual fazemos uma pequena participação, e fazemos parte da trilha com o “Rap da armas”.

22) RM: Quais os seus contatos?

MC Júnior e Leonardo: [email protected] | [email protected]


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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor Responsável pela revista Ritmo Melodia desde 2001, músico, letrista e poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, sempre se preocupou em divulgar a música (popular, regional, instrumental e erudita) com entrevistas e artigos sobre os músicos e artistas brasileiros.