Makely Ka

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Makely Ka
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Makely Ka nasceu em Valença do Piauí no ano de 1975. Primeiro de cinco irmãos, mestiço de árabe, negro, índio e português, filho de mãe mineira e pai nordestino, com menos de três anos foi com a família para o interior de Minas Gerais, onde viveu até o início da adolescência.

Na metalúrgica Barão de Cocais começou a se interessar pela música, ouvindo através do pai os aboios e as histórias de vaqueiros e aprendendo os primeiros acordes de violão com o tio. Foi através do tio materno que estabeleceu também os primeiros contatos com outras linguagens artísticas como a pintura, o desenho, a escultura e, principalmente, a literatura: filosofia e textos sagrados. Nietzsche, o Mahabarata, Freud, o Ptah-Hotep, Marx, a Bíblia. Nessa fase leu também muito quadrinho da gibiteca fabulosa do tio.

Seguiu para Belo Horizonte antes de completar os 15 anos de idade para cursar Eletrônica Industrial no CEFET, antiga Escola Técnica. Na capital do estado começou a freqüentar o circuito alternativo, acompanhando os shows e eventos culturais da cidade. Começou a ler poesia e mergulhou de cabeça na Beat Generation. Nesse período descobriu também o prazer das viagens, aproveitando os finais de semana e feriados prolongados para conhecer as diversas regiões do estado, sempre de carona, no melhor estilo On the Road. Foram também a época da primeira Bienal de Poesia e dos primeiros grandes shows com o BH Rock Independente na Praça da Estação.

Terminou o curso técnico e foi fazer estágio na Cia. Vale do Rio Doce, onde trabalhou por quase dois anos na área de automação industrial e telecomunicações. Nesse período morou em Mariana e começou a freqüentar o Festival de Inverno da UFMG, que acontecia em Ouro Preto. Conhece o poeta marginal e performer Renato Negrão. Vem dessa época o interesse pelos movimentos de vanguarda do início do século XX. Dos poetas beats chega a Blake, Rimbaud e Lautréamont.

Saiu da Vale do Rio Doce para prestar vestibular, iniciando um curso de Geologia e outro de Física, até optar pela Filosofia, ao mesmo tempo em que se aproxima do teatro e da performance. Realizou também nesse período vários vídeos experimentais e montou uma rádio livre que transmitia clandestinamente de um casarão histórico no centro de Ouro Preto (MG). A abertura de um dos programas semanais era feita ritualisticamente com a leitura do Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade. Nessa época era um discípulo aplicado dos concretos e ouvia muito punk rock e música eletroacústica. Assiste a um show solo do compositor baiano Tom Zé, na Casa da Ópera de Ouro Preto, que definiria sua opção artística dali em diante.

Durante o curso de filosofia aprofunda seu interesse pelo estudo de mitologia grega e desenvolve a pesquisa de Iniciação Científica “Da Grécia Arcaica ao Sertão Mineiro” através do CNPq, onde faz um estudo comparativo entre a obra de Homero e Guimarães Rosa. Começa a estudar grego antigo. Nesse mesmo período se  envolve com política estudantil e funda o Centro acadêmico do curso de Filosofia, realizando diversos saraus e incitando greves na Universidade Federal de Ouro Preto.

Em 1998 lança seu primeiro livro de poemas, “Objeto Livro”. O caráter inovador e iconoclasta do livro rende uma calorosa acolhida no meio cultural e as primeiras críticas na imprensa. Participa de diversos saraus e eventos culturais. No mesmo ano de lançamento de seu primeiro livro parte numa viagem pelo Norte e Nordeste do país. Leva na bagagem seu violão, duas dúzias de canções e quase nenhum dinheiro. Volta quase seis meses depois mais moreno e com saudades do Brasil. Depois dessa viagem decide fazer uma imersão na obra dos grandes intérpretes do Brasil e destrincha “Casa Grande e Senzala”, “Raízes do Brasil” e “Os Sertões”. Pede transferência para a Universidade Federal de Minas Gerais e se muda novamente para Belo Horizonte (MG). Na capital começa a trabalhar como assistente de direção do videoartista Chico de Paula, seu antigo professor nas oficinas dos Festivais de Inverno em Ouro Preto (MG). Nessa época pensava em se tornar videoartista, mas depois de um show do compositor Itamar Assumpção decide viver de música. Monta em seguida uma banda para executar suas canções e se apresenta em diversas cidades do interior do estado. O grupo, que chegou a ter 11 integrantes, entre eles o DJ e produtor musical Lucas Miranda, mais conhecido como Osciloide, as percussionistas Alcione Oliveira e Daniela Ramos e a cantora Sílvia Gommes, alternava performances musicais e poéticas com grandes doses de improvisação e experimentalismo. Foi o período em que mergulhou no cubo-futurismo russo e incorporou o Ka ao seu nome em homenagem ao poeta Velimir Khlébnikov. No bairro Paraíso, zona leste de Belo Horizonte (MG), divide uma casa com outros artistas em início de carreira, entre eles o poeta Renato Negrão, o cineasta Sérgio Borges, o músico Kristoff Silva, a atriz Eva Queiróz e o performer Daniel Costa. O espaço se torna uma referência na cidade, virando palco de shows, performances, instalações e eventos por quase dois anos. Nesse período inicia uma parceria musical com a cantora Cristina Brasil e conhece o escritor e compositor Jorge Mautner e os poetas Chacal e Nicolas Behr.

Realiza em 1999 o “Tributo a Paulo Leminski” que conta com a presença dos poetas Alice Ruiz, Carlos e Afonso Ávila. Na ocasião conhece Estrela Leminski, que se tornaria sua parceira. Conhece a cantora Maísa Moura com quem inicia uma longa e frutífera parceria musical. Ao seu lado parte em turnê pelo Nordeste, levando um disco demonstrativo na bagagem. O convívio desperta seu interesse pela Antropologia, que marcaria uma mudança radical na sua concepção artística no futuro. Nesse período dá aulas de literatura e filosofia em cursos pré-vestibulares e coordena atividades culturais na Casa do Movimento Popular de Contagem. Apresenta ainda um programa semanal na Abóboras FM, rádio comunitária da região metropolitana de Belo Horizonte. De volta a Belo Horizonte inicia as articulações para a realização do Reciclo Geral – Mostra de Composições Inéditas. O evento faz história e se torna um marco na trajetória recente da música mineira. Nesse mesmo ano inicia a parceria musical com os compositores Kristoff Silva e Pablo Castro, que resultariam na gravação do disco-manifesto “A Outra Cidade”. O disco é considerado pela crítica um dos melhores lançamentos do ano e frequentemente é citado como um dos trabalhos de referência da música produzida em Minas nos últimos tempos. Nessa época o curso de filosofia já agonizava e o golpe de misericórdia foi uma turnê pelo interior de São Paulo, impossibilitando definitivamente a conciliação da carreira artística com as atividades acadêmicas. Decide definitivamente se tornar um não especialista e estudar somente e tudo aquilo que o interessa. Cria a Selo Editorial e publica mais de vinte livros de poemas, contos, ensaios e memórias de diversos escritores.

A cantora Alda Rezende grava e lança em 2001 suas primeiras canções no álbum “Samba Solto”. São três composições, inclusive a que dá nome ao disco. A partir daí seria gravado por outras dezenas de intérpretes como Titane, Noriko Yamamoto, Ná Ozzetti, Carol Saboya, Aline Calixto, Regina Spósito, Mariana Nunes, Leopoldina, Júlia Ribas, Elisa Paraíso, Flavia Enne, Ana Paula da Silva, Carol Ladeira, Dani Gurgel, Juliana Perdigão, Paula Santoro, Irene Bertachinni e Laura Lopes, entre outras. Publica em 2003 seu segundo livro de poemas, “Ego Excêntrico”, acompanhado do CD Poemas de Ouvido. O livro é lançado em Belo Horizonte durante três dias de debates, shows e apresentações. Nesse período já conta com diversos artigos e poemas publicados em jornais e revistas do país. Assume nesse mesmo ano a direção musical da casa de shows Reciclo Asmare Cultural, onde realiza diversos projetos. Lança em 2006 o álbum Danaide, ao lado da cantora Maisa Moura, somente com suas canções. Com o disco realizam uma série de shows em Curitiba, São Paulo, Salvador, Recife e Fortaleza. O álbum é reconhecido pelo público e pela crítica como um dos trabalhos mais originais da cena mineira. Começa a ser requisitado por outros músicos e inicia parcerias com diversos compositores. Entre eles Chico Saraiva, Mário Sève, Flávio Henrique, André Mehmari, Estrela Leminski, Flávio Renegado, Natan Marques, Leo Minax, Kiko Klaus, Marku Ribas, Ná Ozzetti, Pedro Carneiro, Chico Amaral e Benji Kaplan entre outros. Ainda em 2006, em enquete realizada pelo jornal Estado de Minas é eleito o letrista mais representativo da sua geração. Ao lado do parceiro Bruno Brum começa a editar um periódico de poesia, a Revista de Autofagia, que traz referência explícita à publicação modernista editada na década de 20 por Oswald de Andrade. Faz a direção artística e a curadoria do Expresso Melodia, um projeto da Fundação Clóvis Salgado que circula pelo interior do estado de Minas realizando shows num caminhão-palco. Percorre durante seis meses mais de quarenta cidades. Começa a se envolver com as discussões sobre políticas públicas para a cultura e é eleito representante do estado para as Câmaras Setoriais do Ministério da Cultura no início da gestão de Gilberto Gil. Nesse mesmo ano de 2005 participa da fundação do Fórum Nacional da Música com representantes de 17 estados brasileiros.

Funda em 2007 a COMUM – Cooperativa da Música de Minas e atua como presidente por quatro anos. Viaja o país inteiro levando o germe do cooperativismo e da contra indústria, ajudando a implantar cooperativas na Bahia, Alagoas, Rio Grande do Norte, Piauí, Pará, Acre e Espírito Santo. Primeira viagem à Europa nesse mesmo ano, quando conhece as casas de Fado em Lisboa e as tabernas de Flamenco em Sevilha. Entra em contato com os galegos, no norte da Espanha, que se tornariam parceiros e alimentariam seu interesse pelos trovadores medievais. Lança “Autófago”, seu primeiro disco solo produzido pelo parceiro Renato Villaça em 2008 e realiza shows em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, Fortaleza e excursiona pela primeira vez por Portugal. O disco com pegada roqueira, ritmos nordestinos e discurso afiado traz trechos de depoimentos de Glauber Rocha, Subcomandante Marcos e Maiakóvski, entre outros. Participa da criação do Fórum da Música de Minas e atua como articulador político e gestor de ação internacional. Ele participou de atividades em Nova York, Copenhague, Sevilha, Pontevedra, Bogotá, Buenos Aires e Barcelona entre outras cidades. Em 2011 desenvolve um aplicativo para móbiles e realiza uma turnê nacional de lançamento com shows em Salvador, Maceió, Natal, Recife, Rio Branco, Cuiabá, São Paulo e Rio de Janeiro. Faz shows também na Cidade do México, além de Copenhague e Lisboa. Além disso, assinou as letras das “Canções para Voz e Quarteto de Cordas” com música de Kristoff Silva apresentada pelo “Quarteto de Cordas da OSESP”. Em 2012 realiza a expedição “Cavalo Motor pelo Grande Sertão”, quando percorre de bicicleta os caminhos do personagem Riobaldo Tatarana no romance “Grande Sertão: Veredas”, do escritor João Guimarães Rosa, para registrar em gravações de áudio, vídeo e fotos as paisagens sonoras e visuais que vão integrar o disco e o show Cavalo Motor. O percurso compreendeu 1.680 Km e pôde ser acompanhado em tempo real através de ferramentas de geolocalização espacial no seu site. O disco tem participação de Arto Lindsay, Suzana Salles, Maísa Moura, Sérgio Pererê e dos músicos gregos Dimitris Vasmaris e Kostas Scoulas. Neste mesmo ano é eleito representante do setor musical para o Conselho Estadual de Cultura do Estado Minas Gerais. É também um dos selecionados para se apresentar na edição 2012 da WOMEX – World Music Expo, a maior feira de música independente do mundo, realizada em Tessalônica na Grécia. Em 2013 recebe o patrocínio da Natura Musical para finalizar seu novo disco e realizar uma série de shows de lançamento. Realiza também nesse ano uma turnê com diversos concertos na Lituânia (Vilnius e Kaunas) e Grécia (Ilha de Creta), com grande sucesso de público e da crítica. Inaugura uma exposição com fotos, mapas e vídeos no Museu Casa Guimarães Rosa em Cordisburgo que está aberta para visitação. Em 2014 realizou shows de lançamento do disco “Cavalo Motor” em São Paulo e no Rio de Janeiro, além de diversas cidades do interior de Minas. Assinou também os textos da peça sinfônica Suíte Onírica com música de Rafael Martini apresentada com a Orquestra Sinfônica, Coral Lírico de Minas Gerais e sexteto no Grande Teatro do Palácio das Artes durante o Savassi Festival. Em 2015 realiza o show de gravação do DVD – “Cavalo Motor no Grande Sertão” em Belo Horizonte (MG), com participação das cantoras Ná Ozzetti, Suzana Salles e Titane e do percussionista Décio Ramos (UAKTI). Em seguida parte para uma nova turnê pela Europa com shows e palestras na Dinamarca (Holstebro / Odin Teatret) e Turquia (Istambul). Compôs ainda a música original do espetáculo teatral “Por de dentro” do Grupontapé de Teatro (Uberlândia) e publicou o livro “Retorno de Saturno” pela Coleção Leve um Livro, distribuído gratuitamente em diversos pontos de Belo Horizonte. Recebe em São Paulo o prêmio Grão da Música pelo disco “Cavalo Motor”. Em Budapeste, onde foi participar da WOMEX, conhece o luthier Nagy Balázs e adquire um tekerő, instrumento europeu medieval conhecido em Portugal como viela de roda. Inicia os estudos de forma autodidata buscando referências da música modal e da poesia provençal. Após uma visita à Terra Indígena do Xingu onde participa de um Kuarup na aldeia dos Kuikuro, começa a compor as músicas de seu próximo trabalho, intitulado “Triste Entrópico”. Prepara um disco de poesia sonora e um livro infantil a serem lançados em 2019.

Segue entrevista exclusiva com para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 14.01.2019:

01) RitmoMelodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Makely Ka: Nasci no dia 26 de junho de 1975 em Valença – PI.  Fui registrado como Makely Oliveira Soares Gomes. 

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Makely Ka: Foi em casa com os discos de música nordestina do meu pai e com meu tio que me ensinou os primeiros acordes no violão.

03) RM: Qual a sua formação musical e\ou acadêmica fora da área musical?

Makely Ka: Sou autodidata, não tenho formação em música. Estudei Filosofia Universidade Federal de Minas Gerais.

04) RM: Quando, como e onde  você começou sua carreira profissional?

Makely Ka: Em meados de 1999, quando abandonei a universidade para viver de música.

05) RM: Quantos CDs lançados, quais os anos de lançamento (quais os músicos que participaram nas gravações)? Qual o perfil musical de cada CD? E quais as músicas que entraram no gosto do seu público?

Makely Ka: O meu primeiro trabalho fonográfico lançado profissionalmente foi o disco coletivo “A Outra Cidade”, realizado em parceria com os compositores Kristoff Silva e Pablo Castro em 2002. Nesse disco-manifesto reunimos mais de 70 músicos e convidamos diversos intérpretes para cantar as nossas canções. É um disco em que prestamos homenagem à longa tradição da música mineira, com suas harmonias intricadas, suas melodias introspectivas. Em 2006 lancei o trabalho experimental “Danaide”, ao lado da cantora Maísa Moura. Foi um disco acústico gravado só com cordas, violões, guitarras, bandolim, dobro, sem bateria ou percussão, com muito processamento de som no estúdio. Depois em 2008 veio o meu primeiro trabalho solo, o “Autófago”. Esse disco tem uma pegada roquemroll, com muita guitarra distorcida, baixo e bateria quase cobrindo meu violão, um discurso mais agressivo nas letras pontuado por falas entrecortadas de personagens históricos.  Em 2015, depois de uma longa imersão literal e literária no universo do Grande Sertão roseano (Guimarães Rosa), eu lancei o álbum “Cavalo Motor”; que é um disco em que eu de alguma forma conciliei minha origem nordestina com minha criação mineira, em que eu pretendi fazer a simbiose do sertão com o cerrado. Esse disco que contou com a participação do guitarrista Arto Lindsay, com arranjos do grupo de música experimental “O Grivo” e com a programação eletrônica da dupla M-ut e Osciloid me levou para muitos palcos pelo mundo afora como Portugal, Espanha, Grécia, Turquia e Dinamarca.

06) RM: Como você define o seu estilo musical?

Makely Ka: Faço música brasileira com influência de ritmos populares, de música pop, de rock, tradições de matriz africana, ameríndia, ritmos latino-americanos como a cumbia e o tango. Em cada período a antena sempre em movimento capta frequências diferentes.

07) RM: Você estudou técnica vocal?

Makely Ka: Fiz um tempo de canto lírico com a professora Neyde Zivianni e foi muito importante para eu aprender a domar minimamente a minha voz.

08) RM: Qual a importância do estudo de técnica vocal e cuidado com a voz?

Makely Ka: Eu não cuido muito da minha voz, não tenho nenhum cuidado especial, mas não fumo e bebo muito pouco.

09) RM: Quais as cantoras(es) que você admira?

Makely Ka: Milton Nascimento é a voz mais sublime, sempre me emociono quando o escuto cantar, desde pequeno. Maria Bethânia sempre me impressiona ao escutá-la vivo, é uma força da natureza. Como performance, sempre fui fascinado pelo Ney Matogrosso, acho que ele é o mais constante, se manteve atual no decorrer dos anos. Gosto muito da forma como Tom Zé se impõe no palco, sua incrível vitalidade, sua perspicácia.

10) RM: Como é o seu processo de compor?

Makely Ka: Minha relação com a música é totalmente estruturada a partir do ato de compor. Na verdade eu não sou necessariamente um músico, sou um compositor que toca e canta as próprias músicas. Raríssimas vezes eu subi num palco para apresentar músicas que não fossem de minha autoria. Meu processo de composição é frenético e constante. Eu estou sempre trabalhando em letras para melodias que recebo de parceiros ou para minhas próprias melodias, buscando frases, reescrevendo, encaixando palavras em frases musicais ou buscando melodias para palavras. Algumas vezes as canções surgem com letra e melodia já pronta. Mas geralmente estou lidando com o trabalho árduo, mas prazeroso de encaixar uma na outra, seja andando pela rua, no trânsito, de bicicleta, em casa mesmo dormindo muitas vezes acordo com uma ideia na cabeça e preciso anotar.

11) RM: Quais são seus principais parceiros de composição?

Makely Ka: Tenho mais de trinta parceiros, entre eles Kristoff Silva, Pablo Castro, Chico Saraiva, Mário Seve, Leo Minax, Renato Negrão, Leoni, Estrela Leminski, André Mehmari, Flávio Henrique, Dudu Nicácio, Luiz Henrique Garcia, Mestre Jonas, Téo Ruiz, Sérgio Andrade, Ná Ozzetti, Natan Marques, Fernanda Cabral, Maísa Moura, Rodrigo Torino, Rafael Macedo, Du Oliveira, Rafael Azevedo, Alda Rezende, Marku Ribas, Vítor Santana, Antônio Santanna, Benji Kaplan, Guilherme Castro, Avelar Jr., Tabajara Belo e Pedro Carneiro, entre outros.

12) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Makely Ka: Tenho total e completa autonomia. A dificuldade maior é de financiamento e continuidade para os projetos. Falta de entendimento da opinião pública do que seja o trabalho de um artista independente tem sido uma preocupação cada vez maior no meio artístico.

13) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

Makely Ka: É difícil estar em cima do palco e ao mesmo tempo pensando na produção do show, na bilheteria, na luz, no transporte, no camarim. A estratégia é estabelecer parcerias, criar condições de trabalho adequadas e dividir as tarefas com pessoas que acreditam na sua proposta musical.

14) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira?

Makely Ka: Eu já desenvolvi um aplicativo para aparelhos celulares, fundei associações e cooperativas, criei e geri programas musicais em parceria com o governo, participei de conselhos federais e estaduais representando a sociedade civil, ajudei a formular leis e decretos para o setor cultural.  E ministro cursos, oficinas e palestras sobre gestão de carreira, política cultural, escrita criativa e produção de canção a partir da relação da palavra com a música. Colaboro regularmente com artigos e textos para jornais e revistas. Eu escrevi libretos para movimentos sinfônicos e música de câmara, criei trilhas para teatro e dança, participei de bancas curatoriais, eu faço consultoria na área de cultura para instituições e governos.  Mas recentemente venho tentando aplicar o conceito de música orgânica que agrega outras ideias que vim desenvolvendo com outros parceiros nos últimos anos, como o princípio dos pequenos palcos, a contra indústria e a autoprodução cultural. Música orgânica é toda a produção musical que não utiliza aditivos, que não usa veneno na sua produção. Qualquer tipo de monocultura precisa de agrotóxicos, pois a redução da diversidade fragiliza o meio e facilita a proliferação de pragas. Na música é a mesma coisa, para tornar um gênero hegemônico é necessário um aditivo agressivo, o que ficou conhecido como jabá (pagamento as rádios para tocar uma música na programação). Então, quem faz música sem aditivo faz música orgânica, ajudando a preservar o meio musical. A natureza de qualquer cultura é a diversidade. Tenho pensado que as pessoas precisam entender isso para valorizar a música produzida nessas condições da mesma forma que cada vez mais gente valoriza e reconhece a importância do alimento produzido de forma orgânica, inclusive até pagando mais caro por isso. Precisamos certificar de alguma forma essa música produzida em pequena escala, manualmente, de forma caseira, mas uma música feita com amor, uma música saudável. Hoje grande parte da música comercial produzida em larga escala repete modelos e fórmulas de sucesso, é uma música produzida por máquinas de acordo com frequências e beats para atenderem a demandas dos logaritmos das plataformas digitais. ​

15) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira?

Makely Ka: A internet é uma ferramenta. Ela não prejudica. Quando bem utilizada ela possibilita alcançar um público que não teria acesso ao meu trabalho de outras formas.

 16) RM: Quais as vantagens e desvantagens do fácil acesso a tecnologia  de gravação (home estúdio)?

Makely Ka: Eu faço gravações caseiras sem maiores pretensões. Até tenho um bom gravador portátil que utilizo acoplado à minha câmera para fazer registros audiovisuais nas viagens que costumo fazer. Todavia, quando vou gravar um trabalho que exige áudio profissional prefiro contar com um técnico e um espaço de minha confiança. Eu gravei meus trabalhos mais recentes no Engenho Estúdio, comandado pelo André Cabelo em Belo Horizonte (MG). É ele que faz meu som quando tenho um show maior, que envolve um sistema de som mais complexo. A masterização, eu tenho feito com o Carlos Freitas em São Paulo no estúdio Classic Master.

17) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar o disco não é mais o grande obstáculo. Mas concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Makely Ka: Eu faço uma música que dialoga com a longa e densa tradição musical brasileira, mas sempre busco alguma inovação harmônica, um achado poético, uma melodia inspirada. A maioria das pessoas reconhece o diferencial das letras que eu rabisco, mas, nos últimos anos, eu estou sofisticando as minhas harmonias e busco outros caminhos melódicos, principalmente a partir das influências de dois compositores que me inspiram muito como cancionistas, o carioca Guinga e o baiano Elomar. A minha maneira de tocar violão tem uma forte influência do João Bosco e do Roberto Mendes. Aquele violão do Gilberto Gil tocado principalmente no disco “Expresso 2222” e no disco “Ao Vivo” de 1974 e o Egberto Gismonti do disco “Nó Caipira” e do disco “Dança dos Escravos” também me influenciaram muito. A viola do Tavinho Moura é uma influência decisiva na minha maneira de tocar; principalmente nos discos “Diadorado” e “Caboclo D’água”. Do ponto de vista rítmico eu tenho me interessado muito pela música africana, principalmente as polirritmias subsaarianas e as levadas caboverdianas. Poeticamente aprofundei os estudos dos versos dos provençais do sul da França, dos trovadores galaico-portugueses e de toda tradição ibérica nordestina, com suas métricas e esquemas de rimas complexos e fascinantes. Então a minha música é um pouco disso tudo.

18) RM: Como você analisa o cenário musical brasileiro. Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Makely Ka: Eu acho que o cenário se diversificou e se segmentou. A grande revelação nessas últimas décadas talvez tenham sido os rappers. Chama atenção também o surgimento de centenas de compositoras, o que era relativamente raro até meados dos anos 90. E claro, não dá para ignorar a hegemonia do sertanejo universitário, um fenômeno que ocupou praticamente todo o espaço musical na última década. Tenho estudado como surgiu esse fenômeno, desde Milionário e José Rico, passando por Chitãozinho e Xororó até Michel Teló e cia. É preciso entender o que aconteceu nas últimas décadas para projetar o futuro e pensar onde estaremos.

19) RM: Quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Makely Ka: Eu me inspiro muito em alguns artistas que estão de alguma forma próxima de mim como Titane, Ná Ozzetti, Suzana Salles, Maurício Pereira, Vítor Ramil, Chico César. Admiro todos esses artistas porque eles desenvolvem uma carreira independente e sustentável, com autonomia e excelência artística.

20) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical?

Makely Ka: Uma das coisas mais engraçadas foi quando um sujeito exigiu que tocássemos alguma coisa que ele conhecesse. Bom, em meus shows eu toco exclusivamente minhas músicas e a de meus parceiros, não costumo fazer concessões.  Então eu parei o show no meio e recomeçamos desde o início. Assim, todas as músicas que havíamos tocado até ali já eram conhecidas do público. Mas isso faz muito tempo, hoje as pessoas que vão aos nossos shows costumam conhecer nossas músicas. Acontecem muitas situações inusitadas quando estamos tocando fora do país. Quando cheguei a Vilnius, a capital da Lituânia; aonde tocamos em 2013, o produtor me recebeu no aeroporto e perguntou quais as drogas eu e meus músicos preferiam. Eu disse pra ele que a gente só tomava cachaça, mas tinha que ser padrão mineiro de qualidade. Além disso, expliquei que um dos músicos era ovolactovegetariano e o outro vegano. Ele não entendeu nada.

21) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Makely Ka: O que me deixa mais feliz é compor, tocar e mostrar meu trabalho. A tristeza é saber que talvez minha música não chegue aos ouvidos de pessoas que poderiam gostar de ouvi-la se tivessem a oportunidade. Por isso luto todos os dias para fazê-la chegar.

22) RM: Nos apresente a cena musical da cidade que você mora?

Makely Ka: Belo Horizonte (MG) hoje é uma cidade com uma das cenas musicais mais efervescentes do país. Há uma diversidade de linguagens e de estilos musicais em constante diálogo. Talvez a cena mais forte hoje seja a do hip hop, com os rimadores que se criaram nos duelos de MCs como o do viaduto Santa Tereza. No universo da canção também temos uma cena muito forte e representativa. Eventos como o Festival Cantautores incentivam e também servem como plataforma de apresentação dessa produção. Mas o que torna tudo ainda mais interessante é que existe, desde as últimas duas décadas pelo menos, um diálogo constante entre diferentes estilos e linguagens musicais. Isso é realmente instigante e acontece numa intensidade e profusão que tornam essa cena provavelmente a mais rica e diversa do país.

23) RM: Quais os músicos, bandas da cidade que você mora, que você indica como uma boa opção?

Makely Ka: Gosto muito e acompanho há muitos anos o trabalho da Juliana Perdigão, do Luiz Gabriel Lopes, do César Lacerda, da Maísa Moura, da Érika Machado, do Sérgio Pererê, da Leopoldina, do Leandro César, do Rafael Martini, do Thiago Delegado, do Rodrigo Torino, do Alexandre Andrés, do Antônio Loureiro, do Maurício Ribeiro, do Gustavo Amaral, da Luíza Brina, do Rafael Macedo, da Laura Lopes. Mais recentemente tenho acompanhado com interesse o trabalho da Laura Catarina, do Tales Silva, do Matheus Brant, da Irene Bertachinni.  Tenho ouvido também a Bárbara Sweet, a Tamara Franklin, o Roger Deef, o Vítor Delatorvi, o Fabrício FBC, o Matéria Prima.

24) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Makely Ka: Nas rádios comerciais não há possibilidade de entrar na programação sem pagamento da famigerada “verba publicitária”. Embora seja uma prática ilegal ela continua ocorrendo. Minha música toca nas rádios públicas e universitárias, como a Inconfidência, a UFMG, a Cultura de São Paulo, as rádios comunitárias e as rádios livres.

25) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Makely Ka: Eu costumo dar oficinas e cursos de gestão de carreira para músicos iniciantes no país todo. O principal é saber que não há regra, não há receita, cada um encontra uma forma de gerir sua carreira. A dica que eu poderia dar é o artista entender com qual o público ele quer se relacionar, qual a expectativa ele tem para sua carreira e como ele planeja alcançar seu objetivo.

26) RM: Nos apresente a COMUM – Cooperativa da Música de Minas? Quem pode se associar além de músicos?

Makely Ka: A COMUM – Cooperativa da Música de Minas está inativa. As tarifas e impostos inviabilizaram as cooperativas de cultura.

27) RM: Quais as frentes de atuações da COMUM – Cooperativa de Música de Minas?

Makely Ka: As cooperativas atuaram no vácuo da cadeia musical criado pela informalidade.

28) RM: Quais os prós e contras das leis de incentivo a Cultura?

Makely Ka: As leis de incentivo fiscal e os fundos são fundamentais para fomentar a produção cultural do país, dos estados e dos municípios. Além disso, é um direito fundamental o acesso à produção cultural. O artigo quinto da Constituição Federal prevê o investimento em cultura. É fundamental a revisão dos mecanismos, que promoveram nos últimos anos uma concentração absurda dos recursos em poucos produtores e o dirigismo das empresas patrocinadoras através do marketing cultural promovendo suas marcas com dinheiro público.

29) RM: Quais os prós e contras de Festival de Música?

Makely Ka: Eu participei apenas uma vez de um Festival de Canção, portanto não poderia fazer essa avaliação. Foi em Extrema, no sul de Minas e não fui sequer classificado para a etapa final. Tenho a impressão que minha música não talvez não fosse ser muito bem acolhida nesses Festivais de Música.

30) RM: Nos apresente seus livros de Poesia?

Makely Ka: O primeiro é um livrinho lançado em 1998 foi “Objeto Livro”. O segundo “Ego Excêntrico” foi em 2003. Em 2015 eu lancei “Retorno de Saturno”, um pequeno livro de bolso pelo projeto Leve Um Livro. Estou preparando um novo livro para 2019.

31) RM: Qual a sua relação pessoal e profissional com Kristolff Silva?

Makely Ka: Kristoff é um dos meus principais parceiros. Gravamos nosso primeiro disco juntos, numa parceria com o cantor e compositor Pablo Castro. Músico excepcional, de uma sensibilidade impressionante, eu aprendi muito com ele e ainda aprendo nesses anos todos de convívio.

32) RM: Quais os seus projetos futuros?

Makely: Estou gravando meu próximo disco, que vai se chamar “Triste Entrópico”, preparando dois livros e rodando um filme em parceria com o cineasta Cao Guimarães que deverá ser lançado ano que vem.

33) RM: Quais seus contatos para show e para os fãs?

Makely Ka: No meu site estão reunidas as principais informações sobre a minha carreira, com todos os discos que lancei e as músicas gravadas por outros artistas disponíveis para audição. Lá também estão os textos, vídeos, fotos, notícias, artigos, reportagens e diversas atividades que desenvolvi nos últimos anos: www.makelyka.com.br . Tenho uma atividade regular também nas redes sociais, principalmente no Facebook e no Instagram. Um pouco menos no Twitter. Minhas músicas e a discografia, além do site onde podem ser adquiridos os CDs físicos, podem ser encontradas nas plataformas digitais como Spotify, Deezer, iTunes, Grooveshark, Soundcloud, Youtube, Vimeo, etc.

Link: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa407584/makely-ka

| http://pt.wikipedia.org/wiki/Makely_Ka | http://www.dicionariompb.com.br/makely-ka

 

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor Responsável pela revista Ritmo Melodia desde 2001, músico, letrista e poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, sempre se preocupou em divulgar a música (popular, regional, instrumental e erudita) com entrevistas e artigos sobre os músicos e artistas brasileiros.