Madan

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Conheci o Madan em uma prova de fogo musical. Ele estava se apresentando no terminal Rodoviário do Tietê em São Paulo através de um projeto cultural.

Madan com uma voz agradável e original cantando as suas composições de letras cultas e melodias orientais. As pessoas de varias idades, cor, credo, sexo e gosto musical paravam para ver e escutar aquele musico impávido e seguro. Cada canção inédita para a platéia parecia familiar pela verdade que expressava. As letras são pura poesia e as melodias mágicas. As pessoas compravam os seus CDs e não saiam do local a não ser para seguirem viagem. Eu vi em Madan a imagem do RaulDylan empunhando seu violão de cordas de aço de som hipnótico. Esse paulista nascido em Rio Preto que veio para capital Paulista no final dos anos setenta despertou para música através da influência do pai. E ainda criança aprendeu tocar bandolim e a acompanhar seu pai em regional do Choro. Mas a morte do pai, quando Madan tinha quatorze anos, fez ele largar o bandolim que trazia saudades do pai. Aos dezoito anos voltou a se envolver com a música aprendendo violão um conservatório na capital paulista.

Madan trilhou os caminhos dos Festivais de Música e ganhou prêmios e muitas experiências. Ele lançou dois CDs solos: Madan e Opera do Rinoceronte e um CD em parceria com: Kléber Albuquerque, Helio Camargo e Luiz Garoto. Tem alguns trabalhos registrados em Fitas K7. Esse paulista mostra toda sua influência do Rock, Chorinho, New Age, MPB nos seus trabalhos e tem a particularidade de musicar poemas, entre os poetas que tiveram seus poemas transformados em músicas estão: Haroldo Campos e José Paulo Paes. Madan mobiliza os músicos independentes através da Rede Solidária da Musica Brasileira grupo de debate pela internet.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Madan para a www.ritmomelodia.mus.br , entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 01.10.2001:

01) Ritmo Melodia: Qual a data e cidade nascimento? E o seu primeiro contato com a música?

Madan Neves: Eu nasci no dia 10.03.1961 em Rio Preto – SP e fui registrado como Pedro Luiz das Neves. O meu primeiro contato com a música foi na infância através do meu pai Alberto que tocava Bandolim, eu tinha entre oito a nove anos. Depois comecei a tocar bandolim com ele, nós tocávamos valsas, choros, fados. Eram as músicas antigas e minha mãe cantava com ele também. Foi nesse ambiente que fui despertando para música, toquei com ele até os quatorze anos, foi quando ele faleceu. Depois que ele morreu, eu parei com a música. Não peguei mais no bandolim, porque o Bandolim era como se fosse ele. Foi um trauma quando ele morreu. Só aos dezoito anos foi quando voltei me envolver com a música. A minha família no final dos anos 70 mudou-se de Rio Preto para São Paulo. E comecei aprender Violão e quando ouvi o Elton John passei ouvir música internacional. Veio à fase da discoteca e logo em seguida conheci um amigo do Ceará, a gente estudava no Conservatório da Vila Matilde – SP comecei a ter contato com a música nordestina. Antes estava curtindo o rock progressivo. Comecei a ouvir: Elba Ramalho, Zé Ramalho, Ednardo, Fagner, Belchior. O pessoal de Minas Gerais: Beto Guedes, Renato Teixeira, Milton Nascimento. E vanguarda paulistana: Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção. E minha primeira composição foi encima de um poema de um irmão de uma amiga do Conservatório. Foi que comecei a musicar letras e poemas. Esses foram os meus primeiros passos com a música.

02) RM: Quando você iniciou a sua carreira musical?

Madan Neves: Eu comecei nos Festivais de Músicas no final dos anos setenta. Foi minha primeira escola musical profissional. Que é diferente dos músicos que começam tocar em Bar ou os que são eruditos. Os Festivais de Música tem uma vantagem que é se apresentar em Ginásio Esportivo com muitas pessoas para assistir e ser acompanhado por uma banda formada por excelentes músicos. Continuei participando de Festivais de Música e hoje não consigo decorar repertório de outros cantores. Eu toco lendo a letra e os acordes das músicas dos outros músicos, por só tocar as minhas composições. Eu admiro compositores como: Adolar Marin, por exemplo, que cantam músicas de outros cantores no seu show. E chegam a memorizar mais de cem músicas. Tocar em Bar acabaram não rolando para mim. Tentei tocar, mas realmente tem que se especializar em Bar. Os Festivais de Músicas foram muito importantes para eu adquiri experiência de palco e mostrar as minhas músicas. Tem um site super interessante sobre festival: www.festivaisdobrasil.com.br . Os Festivais são importantes para os cantores e compositores poderem mostrar o seu trabalho, mesmo sem ter gravado o primeiro Disco.

03) RM: Quantos Discos lançados?

Madan Neves: Lancei o primeiro CD em 1997 chamado: Madan, pela Dabliú Discos. Nesse disco tive a honra de contar com a participação de Haroldo de Campos em três músicas. Teve textos do Haroldo e do José Paulo Paes falando sobre meu trabalho e teve a participação de músicos de São Paulo como: Kiko Moura (Violão, Guitarra), Jica (Percussão), Prata (Flauta, Bandolim). Tenho dois discos que não foram lançados em CD. Um foi lançado em 1990 em fita K7 – “Aum – Canções Místicas” que foi a minha fase oriental e new age. Em seguida em 1991 morando no Rio de Janeiro gravei em fita K7: “Arqueiro”. Nesse trabalho com sete músicas mesclei MPB pop com new age. O Tecladista Luiz Antonio fez os arranjos.  Um disco com super qualidade que não foi lançada em CD. Em 1995 eu produzi um CD de um poeta, tinha musicado alguns poemas dele. Em 1997 lancei o primeiro disco que é totalmente MPB, não que os temas esotéricos não estejam presentes, mas estão sutilmente. Em 1999 lancei o CD – Ópera do Rinoceronte com a participação do poeta José Paulo Paes. Que é um disco temático e conceitual. Tem uma ideia do Mundo Novo, tem alguns questionamento sobre a Ópera no sentido da cultura, da civilização e o rinoceronte do sentido animal e selvagem. Penso que dentro do ser humano existe essa coisa do ser selvagem com o ser social. É um CD Folk – Rock-Jazz-Samba. No final de 2000 na passagem para o novo milênio, eu, Kleber Albuquerque, Hélio Camargo e Luiz Garoto tivemos a ideia de lançar um CD ao vivo dentro de um estúdio. Estávamos fazendo uma temporada na casa de show KVA-SP e usamos o estúdio do KVA para fazer essa gravação com sessenta convidados à luz de velas. Por problemas no mercado fonográfico em 2001 nas grandes gravadoras, por conta da pirataria oficial e pela internet. A gravadora Dabliús Discos que é uma pequena gravadora não ficou imune. E o mais agravante foi que a Eldorado Discos que distribuía mais de cinqüentas Selos no Brasil fechou as portas para os selos. O José Costa Netto dono da Dabliús resolveu deixar para o segundo semestre de 2001 e lançamos em Fevereiro 2002.

04) RM: Você organiza pela internet o RSMB (Rede Solidária de Músicos Brasileiros) no portal www.grupos.com.br. Qual o objetivo do grupo?

Madan Neves: A ideia surgiu vendo as dificuldades que o músico sozinho encontra em conseguir um espaço para mostrar e divulgar o trabalho para um público mais amplo. E como tinha alguns amigos músicos que entravamos em contato através de e-mail. Foi quando montei o grupo RSMB dentro do portal Grupos e convidei-os para participar, discutir e achar caminhos. Houve uma recepção muito legal, entraram no grupo: jornalistas, críticos, produtores, artistas, compositores, cantores e admiradores da música. Começou em março de 2001 e em abril escrevi um manifesto dando os parabéns à rádio Nova Brasil FM por tocar MPB e vendo a possibilidade deles abrirem espaço para os músicos independentes. Muitos artistas e produtores assinaram o manifesto. Teve repercussão na mídia falada e escrita. Foi aumentado o números de participantes no grupo e participamos do evento para comemorar os vinte e cinco anos da rádio USP FM. O evento foi realizado no Memorial da América
Latina em Outubro de 2001. Voltamos a mobilizar o grupo em janeiro de 2002.

Inclusive com entrada no grupo desse que está me entrevistando agora (Antonio Carlos) para nos honrar com seu conhecimento e com as suas idéias. E difícil organizar o Grupo, porque são muitas mensagens, são muitas ideias, mas há a dificuldade de colocá-las em prática. E a dificuldade de unir a classe de artistas e músicos. No virtual todo mundo quer uma união, mas no mundo real a vaidade de alguns dificulta a união. Mas vamos continuando sempre acreditando que a organização e a união nos dará condições plenas de trabalho para os artistas e músicos. Existe pessoas importantes do meio musical e cultural no Grupo que vão enviando as suas mensagens e vendo a importância do trabalho em grupo. Temos que fazer “barulho” para mostrar importância do nosso trabalho, não adianta procurar o espaço na grande mídia de forma isolada. Não é necessariamente ser contra alguém ou algumas coisa, mas buscar novas possibilidades de mostrar nossa arte, celebrando a música popular brasileira e vivendo da nossa arte. Temos que minar a individualidade dos produtores que não querem abrir espaço nos seus projetos culturais para outros artistas que não seja de sua ligação pessoal ou de determinado segmento musical. E o egocentrismo de alguns artistas que não participam de determinado projeto por achar que os outros participantes não estão no mesmo nível que o seu. E com essa briga de egos e de expectativas profissionais e artísticas divergentes que muita coisa deixe de ser feita pelo progresso da arte popular. Estou pensando em colocar propostas dentro do grupo para que cada artista escolha qual o projeto ele se encaixa e se não quiser participar fica assistindo.

05) RM: Como você vê a pirataria de CD.

Madan Neves: Eu não concordo com a pirataria. Agora o que acontece é que os CDs estão com o preço muito alto. Isso é um reflexo da política das grandes gravadoras que pegam poucos artistas e investem muito dinheiro. Eles gastam muito, vende muito e ganham muito. E a pirataria só acontece com os artistas que estão na grande mídia, não vão piratear o disco de um Madan. Isso tem o lado positivo para as gravadoras repensarem a estratégia de não investir milhões em um, mas  investir em mais em uns dez músicos. Para dar condições de todo mundo trabalhar e manter o preço justo de um CD.

06) RM: Como você vê o panorama musical em São Paulo?

Madan Neves: Houve um declínio em 2001. Mas em 1998, 1999 e 2000 alguns artistas que vinham na batalhar a tempo como: Chico César, Zeca Baleiro, Rita Ribeiro, Ná Ozzeti, Paulo Lima, Itamar Assumpção tiveram mais destaque. Mas 2002 promete muito, muitos artistas vem crescendo em popularidade. O crítico musical Mauro Dias comentou que com a quantidade de Selos que tem no Brasil, mais de quatrocentos. Se cada selo lançar um artista muita coisa boa sairia do anonimato, mas não haveria espaços nos jornais, nem nas lojas de discos. É preciso segmentar e buscar uma maior profissionalização com qualidade musical e cultural. É preciso que os artistas popularize mais o seu som sem cair na banalização para poder atingir um número maior de ouvintes na periferia. Projetos culturais estão sendo desenvolvidos nos bairros populares em São Paulo. E o Sesc também contribui muito em São Paulo para manter um nível cultural apurado.

07) RM: Como você vê a centralização do mercado fonográfico e artístico no eixo Rio -São Paulo?

Madan Neves: Uma das coisas que a Rede Solidária da Musica Brasileira está buscando alcançar, é ter uma equipe em cada pólo cultural do Brasil. E essa equipe se comunicariam e se alto divulgariam pela rede. Essa é uma proposta que está engatinhando através do RSMB. Em São Paulo é difícil um trabalho desse devido as várias culturas musicais desenvolvida aqui. E preciso começar uma trocar de parceria que envolvam músicos, produtores musicais, selos independentes, meios de comunicações, lojas de CD, estúdios, casas de show e etc. Há mercado em todos os cantos do Brasil, mas é preciso organizar parcerias para MPB e os ritmos regionais poderem crescer quantitativa e qualitativamente.

08) RM: Qual a sua visão de artista e música independente no Brasil?

Madan Neves: É um assunto muito importante. No inicio de julho de 2001 a RSMB organizou o primeiro encontro da música independente na cidade de Avaré-SP e o segundo encontro foi na segunda quinzena de julho em Porto Alegre. Em Porto Alegre estavam os Selos Independentes. E tinha um representante de uma Associação Independente que me chamou para uma reunião que falou que o independente é o artista que faz, produz, distribui e divulga seu CD. Foi criada em São Paulo uma associação dos selos independentes que são os principais selos do Brasil. E uma grande gravadora chegou a declara na Folha de São Paulo que era realmente independente, porque não dependia de ninguém. É muito polemico esse assunto.

09) RM: Você quebrou o preconceito de que letra profunda ou poema não pode ser uma boa canção com uma boa melodia?

Madan Neves: Eu comecei a musicar poema, depois texto (um texto do Frei Beto) e letra. A letra é mais fácil musicar por ser ritmicamente leve e ter uma linguagem mais simples. O Poema é mais condensado, cada palavra tem o seu peso, a sua função. Não é como a música popular que tem umas seis frases que falam a mesma coisa, e no poema uma frase identifica muito coisa. E quando você coloca melodia em poemas da mais velocidade a palavra. Por esses motivos alguns poemas são muito difíceis de ser musicados. No meu primeiro disco fiz melodias de: Bossa Nova, Folk, Baião, Rock, Caipira. E tem poetas de estilos diferentes como: Haroldo e Augusto de Campos que são do concretismo. Ademir Assumpção que é da linha do Paulo Lemisk e do concretismo. José Paulo Paes concretismo. Adélia Prado e Olga Savary que são outras historias. Fiz uma Bossa Nova com o poema do Haroldo. No encontro dos letristas  que acontece todos os anos em Avaré – SP no Festival de Música. Letristas como: Paulo César Pinheiros, Costa Neto, Sergio Natureza, Abel Silva. Eu perguntei para eles se um poema pode virar música e se uma letra pode ser um poema? O Paulo falou que tem um poeta no Rio de Janeiro que diz que uma letra de música não é poema. Eu penso que um poema pode funcionar como letra de música e continuar com a profundidade de um poema. E tem letra, como do: Chico Buarque pode ser um poema e uma boa música. Agora se você pega uma  letra do Djavan e do Carlinhos Brown você nota que a letra é escrava da melodia pré – estabelecida. E essa letra não se sustenta como poema.

10) RM: Quais são as suas influências musicais?

Madan Neves: As minhas influências da adolescência são bastante forte com o rock progressivo. Hoje é musica brasileira em geral, pós Tropicália e música mais antigas pela influência do meu pai que as tocava no Bandolim. Resumindo seria o Rock progressivo, o Country, a música caipira, new age, world music.

11) RM: Quais são os projetos musicais em 2002?

Madan Neves: Inicie um projeto que é realizar um CD via internet. O arranjador está lá em Curitiba ele pega pelo site através MP3 a melodia, lá ele faz no seu home estúdio o arranjo e manda para meu site. Em outro lugar põem a voz. Esse projeto iniciei e parei, vou retomar. Com depoimentos dos participantes de como está sendo realizado o trabalho.

Madan Neves (Pedro Luiz das Neves) após ter um surto psicótico infartou na madrugada de 13 de setembro 2014 em São Thomé das Letras (MG) aos 53 anos de idade.
honda.ua


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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor Responsável pela revista Ritmo Melodia desde 2001, músico, letrista e poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, sempre se preocupou em divulgar a música (popular, regional, instrumental e erudita) com entrevistas e artigos sobre os músicos e artistas brasileiros.