Jorge Mello

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O cantor, compositor, arranjador e produtor piauiense Jorge Mello que iniciou a sua carreira musical como mentor intelectual dos principais músicos e artistas do movimento do Pessoal do Ceará.

Enfrentou os dias difíceis no sul maravilha (Rio de Janeiro) em 1971 com: Belchior, Fagner, Cirino e Piti eram como ele diz: “Uns Pobres” que dormiam no chão do kit net. Nesse período o Fagner foi “adotado” por um casal de franceses que eram amigos de artistas como: Elis Regina, Ronaldo Bôscoli, Cidinha de Campos. Sendo a ponte da aproximação da música desses músicos com a cantora Elis Regina que proporciono os primeiros reconhecimentos musicais para Belchior e Fagner. Jorge era o mais centrado e como era arranjador e maestro conseguiu emprego em programas musicais no Rio. Mas São Paulo seria a próxima parada para a continuidade dos trabalhos e organização pessoal e profissional. Em 1972 lançou um compacto com a música: “Felicidade Geral”, vencedora de um festival universitário de música. Em 1976 lançou: “Besta Fera”, disco aclamado pela mídia e critica especializada. Em 1977 lançou: “Jorge Mello Integral” pela Warner. Em 1978 lançou: “Coração Rochedo” pela Continental. Na década de oitenta lançou: “Trovador Eletrônico Vol. I e II” pelo seu Selo Paraíso Disco. Jorge Mello e Belchior formaram uma parceria musical e profissional que durou vinte anos. Abriram uma gravadora na década de oitenta: Paraíso Disco. A sociedade foi desfeita em 1990. Com Jorge Mello abrindo seu próprio selo e produtora.

Além de ser um excelente músico, compositor, arranjador e pesquisador na área musical e de literatura de Cordel. Ele apresenta uma palestrar sobre a literatura de cordel e o repente fazendo um show intercalado com a fala, ou seja, mostra na teoria e pratica suas informações. Está atuando desde 2002; quando se formou em Direito, como advogado na área de direitos autorais. Ele encontrou na área burocrática (Advogado) e pesquisador (Cordel e Repente) uma forma digna de sobreviver sem ter que baixar a qualidade do seu trabalho para poder vender seus shows. Lançou na década noventa os CDs: “Mais que de Repente” pela Brasidisc, que é uma amostrar do seu show. E o CD – “Rima” pelo seu selo que são músicas suas gravadas por outros artistas e fora do Brasil. Em 2002 lançou o CD – “Claramente” pela CPC UMES que reunir músicas suas e que marcaram época.

Jorge Mello sempre esteve à frente do seu tempo, os seus discos não foram infelizmente lançados em CD por uma questão de mercado, mas quem tem a oportunidade de escutar os seus três discos tem uma breve apresentação e pode prever a sua evolução musical e como arranjado futurista. Um compositor nordestino que não deixou as amarras do regionalismo exótico imposto pelas gravadoras impregnar a sua arte. Ele faz o melhor som nordestino com a liberdade de expressão, musical e de criatividade para trazer à luz dos nossos olhos e ouvidos novas informações musicais. Canta com a força vocal vulcânica que denuncia a sua origem nordestina e canta o que acredita não atendendo o modismo mercadológico que conhece bem as suas armadilhas quando era empresário de uma gravadora. Respeitado pelos seus contemporâneos e pelas novas gerações que reconhecem seu talento híbrido e puro na sua arte.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Jorge Mello para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 01\10\2002:

01) Ritmo Melodia: Fale do seu primeiro contato com a música.

Jorge Mello: Eu nasci no interior do Piauí na cidade de Piripiri. Até os quatorze anos os circos foram à primeira escola artística e eram armados ao lado do muro da minha casa possibilitando conhecer e ser amigo dos artistas que o público em geral só conhecia fantasiados, o que me tornava importante na cidade por se amigos dos artistas. A partir dos sete anos de idade comecei a trabalhar na mercearia do meu pai que vendia de tudo, inclusive Violão e Acordeon. Comecei tirar algumas notas do Acordeon para animar os clientes e aos dez já era um músico como a cidade só tinha uns três músicos, quando precisava de mais músicos para fazer uma festa pediam ao meu pai para eu ir tocar e comecei a ganhar dinheiro a partir dos onze anos. No nordeste existiam três formas de seguir uma carreira fora da própria origem que eram: O Circo, O Seminário e O Exército. Eu passei pelas três experiências. Aos quatorze anos fui embora com um circo, voltei para entrar no seminário para estudar e comer de graça, e depois fui para o exército. O cosmo conspirava para eu sair da minha cidade, obedeci à lei de Newton, tudo que está em cima tem que descer. O nordeste está em cima e o sudeste em baixo.

02) RM: Quando você começou a sua carreira musical? 

Jorge Mello: Primeiro em Fortaleza – CE, conheci o pessoal do Ceará: Belchior, Fagner, Ednardo, Petrucio Maia, Amelinha. Fui diretor musical do programa musical de TV mais importante da cidade: Gente Que A gente Gosta e que virou: Porque Hoje é Sábado. Lá foi a incubadora do embrião do movimento maravilhoso: O Pessoal do Ceará. Comecei a estuda música e cursar Direito. Tornei-me o arranjador aos 20 anos e ler partitura era um diferencial em relação aos músicos que não sabiam teoria musical. Montei uma peça teatro com texto de: Eduardo Campos; que era diretor da Tupi local, e com quarenta atores da universidade Federal. Mobilizamos a sociedade, foi o maior acontecimento teatral da cidade possibilitando nos inscrever no Festival Internacional de Teatro Amador em São José do Rio Preto – SP em 1971. Chegamos ao sul maravilha: Eu, Teca Mello, Fagner, Belchior. Estava no último ano do curso de Direito. Ganhamos seis dos oito prêmios oferecidos, dividimos os prêmios entre todos e não voltei com a companhia para Fortaleza. Fui para o Rio de Janeiro, onde estava o Belchior. Fui produtor musical da Tupi dos programas de: Ivan Curi, Cidinha, Edna Savager, Flavio Cavalcante. Fazia arranjos para os cantores que se apresentavam no programa como: Emílio Santiago. Sai da Tupi no final de 1971 para participar do Festival Universitário de Música que lançou: Ivan Lins. Minha musica: “Felicidade Geral” ganhou esse último Festival Universitário.

03) RM: Fale dos seus Discos e o perfil de cada um.

Jorge Mello: Gravei em 1972 o compacto disco: “Felicidade Geral”. Depois montei a banda: “Besta Fera”, com meus alunos da Universidade e fiz meu primeiro LP em 1976: “Besta Fera”, que marcou muito na época e ganhei prêmios dos melhores meios de comunicações e excelente aceitação pela critica especializada. Fizemos shows performáticos com base na cultural nordestina por várias cidades brasileiras. A gravadora Warner contratou cinco artistas no Brasil: Eu, Belchior, Hermeto Pascoal, Zezé Motta, Frenéticas com um investimento maravilhoso fizemos shows por todo Brasil. Lançou em 1977 o disco: “Jorge Mello Integral”. Mas eles queriam que eu usasse chapéu de couro e gravasse só música nordestina nos outros discos, eu não aceitei e fiz um LP com elementos da música eletrônica em 1978 não toparam lançar e a Continental lançou: “Coração Rochedo”, um disco eletrônico louquíssimo. A banda seguiu carreira solo: “Ponte Aérea”. Na década de oitenta lancei outro LP pela Continental: “Dengo, Dengo”. Cada Disco é como um filho com um signo diferente. O disco: “Besta Fera”: É bem nordestino.  O disco: “Jorge Mello Integral” com milongas, MPB, com muita ironia e humor. O Disco tem uma capa interessante: Eu tomando um refrigerante no qual sou o rotulo, auto-antropofagia. “Coração Rochedo”: Eletrônico. “O Dengo, Dengo” tinha uma musicalidade latina com: Rumba, Bolero, que foram precursores dos ritmos da Lamba, do Axé do final da década de oitenta. Eu fiz uma música chamada: “Fricote” com o mesmo balanço e mais elaborada nos arranjos dos metais que a música “Fricote” do Luiz Calda, dez anos antes. Lancei pelo meu selo na década de oitenta: “Trovador Eletrônico” e depois “Trovador Eletrônico Vol. 2” foi um sucesso por todo o Brasil, nos shows era eu, o percussionista e um monte aparelhos eletrônicos.

04) RM: Fale da sua experiências de shows, trilha sonora e jingles.

Jorge Mello: Comecei fazer shows em 1972 nas boates para marinheiros no Rio de Janeiro e depois outras cidades brasileiras. Fiz uma trilha sonora para a novela: João da Silva da TV Cultura. Em 1973 fiz a trilha do filme: A Noite do Espantalho de Sergio Ricardo e com direção musical de Geraldo Azevedo. Alceu Valença fazia o papel do espantalho. Eu e Teca Mello (minha esposa) fazíamos papel de atores. Foram seis meses de filmagem no interior de Pernambuco. Depois dessa experiência escolhi morar em São Paulo e passei seis meses na casa do amigo Marcus Vinícius. Aqui estavam Ednardo, Rothe, Teti que formaram o conjunto: O Pessoal do Ceará e gravaram um Disco. Na oportunidade fomos contra o nome do conjunto, por que O Pessoal do Ceará era um movimento da arte cearense mais ampla e não só musical. Foi um fim pouco nobre para arte do Ceará com núcleo no Rio de Janeiro. São Paulo organizou a minha vida nos aspectos profissionais e pessoais. Trabalhei como maestro da: Editora Embi; RCA Victor; Continental e professor de música na: Faculdade Instituto Musical de São Paulo; Faculdade Paulista de Arte; Mozartel, alguns maestros hoje foram meus alunos como: Sergio Sá. No final da década de setenta comecei a fazer jingles para várias empresas e virei um rato de estúdio e a gravadora Continental me contratou para produzi: Anastácia, Vicente Barreto, Belchior e outros artistas.  Fiz muitos shows pelo Brasil na década de oitenta, com tudo pago pela empresa Sul Vinil.

05) RM: Fale da sua parceria musical e empresarial com Belchior.

Jorge Mello: São mais de vinte composições gravadas. Com a explosão da música independente no final da década de setenta, eu era muito requisitado para produzir novos artistas lançamos a primeira gravadora independente do Brasil: Paraíso Discos com distribuição pela Continental, além da nossa, na época só tinha uma outra gravadora pequena: Mocambo em Recife-PE. Lançamos artistas maravilhosos que estavam no breu das docas sem ter oportunidade no mercado musical. Artistas que estavam em gravadoras conceituadas saíram para gravar com a gente e criamos também em sociedade a Constelações Editoras. Lançávamos de oito a dez artistas por ano na década de oitenta. Lançamos a banda “Performática”, hoje Titãs. Em 1990 terminei minha sociedade com Belchior.

06) RM: Você permaneceu como produtor?

Jorge Mello: Abria a minha empresa JMT produções para atender o mercado de trilha de cinema e publicidade política ou comercial.  Dividimos os lançamentos da gravadora Paraíso Discos, optei por ficar com os discos com valor estético e não comercial como, por exemplo, o disco: Benedito, de Bené Fonteles com participação de Gilberto Gil, Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Eguiberto Gismonti. O arranjo da música do Gil: “Som do Corpo”, os instrumentos são: A Barriga de Gonzaga, O Sovaco do Gil. Escrevi a célula rítmica para cada um fazer no próprio corpo. Comecei tudo do inicio com essa filosofia de trabalho. Fiz uma Coletânea com Bandas de Brasília chamado: Pra Pira Brasília, Pira é um peixe que só tem lá. Fiz trabalhos: instrumental, Jazz, Blues e comecei a lançar meus novos trabalhos.

07) RM: Seus Discos já foram lançados em CDs?

Jorge Mello: Não, por pertencerem às gravadoras. Mas no final da década de noventa com intervalo de um ano, lancei três CDs: Mais Que de Repente, que era a essência do meu show. O CD: Rima era canções minhas gravadas fora do país. O ultimo CD: Claramente, foi um convite do produtor e amigo: Marcus Vinicius para gravar metade com minhas composições e outra com clássicos da musica brasileira.  Nesse CD gravei: valsa, repente, canções, seresta, embolada, forró.

08) RM: Fale da sua experiência como advogado na área de direitos autorais.

Jorge Mello: Quando eu percebi que meu trabalho poderia cair no nivelamento por baixo que está acontecendo com a música popular brasileira, busquei outra alternativa de sobrevivência e paralelamente surgiu em 1998, depois de doze anos, uma nova lei para o Direito Autoral. Eu que nunca tinha vestido um terno ou posto uma gravata e usava cabelos longos. Então para não ter que cantar música que não acredito para não perder um show. Voltei em 1998 para Faculdade para fazer o curso de Direito, conclui em 2002 e passei na OAB coloquei terno, gravata, cortei o cabelo e tirei o brinco para começa uma luta que conheço bem a matéria que é o direito autoral. Hoje com aprovação da Lei de numeração de obras musicais e literária que é muito importante, mesmo não sendo do interesse das gravadoras que dizem que vão ter mais trabalho. Mas na verdade essa lei vai permitir uma aproximação da venda real dos discos produzidos pelas mesmas. Cantor que “vende” antecipadamente mais de cem mil copias para efeito de gerar mídia, as gravadoras vão ter que prestar contas reais.

09) RM: Fale da sua convivência com os músicos do Ceará na década de setenta.

Jorge Mello: Nós éramos uns pobres: Eu, Belchior, Cirino, Piti, Fagner, morávamos em um kit net, dormíamos no chão, eu casado com Teca. Fagner era o mais novo e tratado como filho ou irmão mais novo. Uma família de franceses convidou Fagner para morar com eles, que topou na hora. A gente sempre passava na casa deles para comer alguma coisa e o Michel conhecia a Elis Regina, Ronaldo Bôscoli, Manoel Carlos, Cidinha Campos.  Em uma ocasião o Fagner conheceu a Elis e mostrou algumas músicas nossas e começamos a freqüentar a casa dela e mostrar músicas e as que ela gostou gravou como: Mucuripe, Como Nossos Pais e outras.

10) RM: Fale do panorama musical da década de sessenta e setenta.

Jorge Mello: É interessante, em sessenta no interior do Piauí eu tinha acesso à música popular brasileira e estrangeira igual a quem morasse no sudeste. Quando conheci O Pessoal do Ceará, eu tinha composições com as influências do que ouvia.  Fazíamos uma música por dia e mostrávamos uns para os outros na beira do mar. Eu morei seis meses na praia com minha esposa.  No sudeste eu tive dezenas de músicas censuradas no regime militar. Escondemos colegas que participavam dos movimentos estudantis e políticos no apartamento do Rio de Janeiro, como exemplo, o Gemiro Neto que foi guerrilheiro no Araguaia.  Não fomos perseguidos diretamente, mas absorvemos as experiências dos cantores e compositores exilados: Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso e outros.  Ficamos para fechar essa lacuna musical junto com Geraldo Azevedo e Alceu Valença.

11) RM: Fale de sua experiência como pesquisador na área musical e de Cordel.

Jorge Mello: Eu sou um apaixonado pela expressão espontânea popular. Eu guardo essas memórias do povo e me tornei com o tempo um pesquisador. Tenho libretos de Cordel do inicio do século passado. Tenho partituras de bandas do século XVIIII. Gravei mais de quarenta bumba – meu – boi para posteridade.  Na música popular brasileira são muitas informações de cantores e compositores brasileiros.  Faço palestras sobre essas experiências. Como produtor não tenho ambição de produzir que vende um milhão, mas sim quem tem valor artístico e estético. Gravei um CD só com índios: Etnias. Gravei um CD com seringueiros: Dez Anos sem Chico Mendes. Gravei um CD chamado: Trilhas das Águas. Com vários artistas interpretando músicas sobre os rios brasileiros.  Gravei um CD de uma senhora de noventa e quatro anos: Íris de Carvalho tocando piano, com as canções interpretadas por Gil. Gereba, Morais Moreira, Almir Sater. Vejo a produção fonográfica brasileira com muita tristeza por ser regido pelo mercado que visa só o lucro abre mais espaço para o besteirol e música de baixa qualidade.

Contatos: 11 –  5611 – 5947 \ 99311 – 0497 \ 98937 – 8012 |  www.jorgemello2.hpg.com.br \ [email protected]


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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor Responsável pela revista Ritmo Melodia desde 2001, músico, letrista e poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, sempre se preocupou em divulgar a música (popular, regional, instrumental e erudita) com entrevistas e artigos sobre os músicos e artistas brasileiros.