João Ninguém

João Ninguém 1 Entrevista - Música - Revista Ritmo Melodia
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Tempo de Leitura: 9 minutos

Após passar por muitas bandas de pouco ou nenhum destaque na cena rock do leste-fluminense, João Ninguém se meteu a tocar suas músicas contando apenas com a companhia cúmplice de seu violão-psicólogo. E tem se divertido.

Dessa diversão, nasceu “ÉPré”: o seu pretenso álbum experimental orgânico de MPB (Música Própria Berrada), lançado em maio de 2019. Em suas apresentações, o artista vem mostrando – com raiva, deboche e emoção a flor da pele – suas letras que intercalam as esperanças e desesperos da vida contemporânea dos grandes centros.

Sem virtuosismo instrumental ou vocal. Totalmente dependente das coisas que escreve e precisa botar para fora. Apenas ele e mais ninguém.

Segue abaixo entrevista com João Ninguém para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 05.08.2019:

01) RitmoMelodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

João Ninguém: Nasci no dia 27.12.1978 em Niterói – RJ. Registrado como João Paulo da Silva Lopes.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música?

João Ninguém: Sou o mais novo de quatro irmãos. Meus pais e meus irmãos sempre ouviram muita música em casa e esse hábito me contaminou. Daí, eu tenho lembranças remotas de que gostava de batucar na mesa durante as refeições. Acho que esse foi meu primeiro contato com a música.

03) RM: Qual a sua formação musical e\ou acadêmica fora da área musical?

João Ninguém: Cursei Educação física e Comunicação, mas não me formei em nenhuma. Trabalhei uns cinco anos em academias de musculação e natação. Depois passei dez anos entre agências de publicidade e departamentos de marketing de empresas. Hoje em dia, sou dogwalker (serviço de levar os cães para passear) e faço hospedagens de cães em casa. Nunca estudei música de forma contínua e disciplinada, embora tenha feito aulas de bateria por um tempo, além de ter cursado um ano de Escola Portátil de Música, uma escola de Choro, onde tentei aprender um pouco de flauta transversa e pandeiro. Também passei um tempo na oficina de maracatu do Rio Maracatu e na oficina de música da Sinfônica Ambulante.

04) RM : Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

João Ninguém: Sempre tenho muita dificuldade em responder essa pergunta. Tudo o que me afetou e que gostei de ouvir até hoje me influenciou e tem a sua importância no que eu escrevo e componho. Mas costumo dizer que sou cria da banda Legião Urbana. Foi graças a eles que eu peguei no Violão pela primeira vez. Além deles, gosto pensar que minha arte bebe nas fontes de Belchior, Raul Seixas, Gonzaguinha, Novos Baianos, BNegão, Chorão, Lenine, Nando Reis, Moska, Arnaldo Antunes, Otto e Emicida, entre outros, por mais inusitada que essa mistura possa parecer.

05) RM: Quando, como e onde você começou a sua carreira musical?

João Ninguém: A minha carreira profissional ainda não começou. A música ainda está longe de ser algo que faço profissionalmente, no sentido de poder contar com ela como fonte de renda. Até hoje, a música é minha catarse, diversão, terapia. Sempre digo que não vivo de música (do ponto de vista profissional-financeiro), mas sem a música não vivo. Gosto de escrever, compor e apresentar minhas criações para as pessoas. E isso pra mim é diversão.

06) RM : Quantos CDs lançados, quais os anos de lançamento (quais os músicos que participaram nas gravações)? Qual o perfil musical de cada CD? E quais as músicas que entraram no gosto do seu público?

João Ninguém: Tenho três trabalhos de estúdio. Um EP (acho que de 2002) e um álbum (acho que de 2004) com uma antiga banda, a “Dia Joe” e, agora, o “ÉPré”, gravado em 2018 e lançado em maio de 2019, já como João Ninguém e mais ninguém. Só eu, minhas letras, voz e violão. Sempre tive bandas e sempre fui associado ao rock. Do trabalho atual, com 17 faixas, percebo que as pessoas estão sendo afetadas por músicas distintas. As músicas mais comentadas costumam ser: “Gente”, “Primeiro de abril”, “Levanta”, “Aproveite o caminho” e “Ela disse”.

07) RM: Como você define seu estilo musical?

João Ninguém: Venho dizendo que acabei de lançar meu pretenso álbum experimental orgânico de MPB: Música Própria Berrada. Criei esse meu autogênero musical justamente por não saber dizer em qual estilo me enquadro atualmente.

08) RM: Você estudou técnica vocal?

João Ninguém: Fiz aula de canto por um tempo, mas nunca fui muito disciplinado. Ajudou-me muito, mas tenho certeza de que poderia ter aproveitado mais se fosse um cara menos boêmio na época em que tive esse acompanhamento profissional.

09) RM: Qual a importância do estudo de técnica vocal e cuidado com a voz?

João Ninguém: Acredito que o maior benefício deva ser aprender a cuidar da voz, que é o instrumento do cantor. E eu uso meu instrumento de uma maneira meio displicente. Acho que grito mais do que canto e não me preocupo muito com a escolha dos tons das músicas que faço. Acho que um dia vou me prejudicar com essa postura.

10) RM: Quais as cantoras(es) que você admira?

João Ninguém: Muitos. Vou citar Renato Russo, Belchior, Gonzaguinha, Chorão, BNegão, Emicida, Elis Regina, Tulipa Ruiz, Liniker, Anelis Assumpção, Lenine, Marcelo Jeneci e Lott, um amigo de longa data, que é um dos artistas que mais ouço.

11) RM: Como é o seu processo de compor?

João Ninguém: Normalmente eu “vomito” algo que está na minha cabeça. Começa com uma frase que fica repetindo insistentemente. Quando eu vejo já tem uma estrofe. Duas. Três. Vem uma harmonia. Eu pego o violão e a coisa nasce. Depois eu aparo aresta, acerto uma coisa e outra no texto e fico testando a música até entender/sentir que ela está pronta.

12) RM: Quais são seus principais parceiros de composição?

João Ninguém: Eu sempre compus sozinho, em 99% das vezes. Recentemente comecei a fazer parcerias com os meus amigos: Velho Oliveira e Cassiano Pedroza. Mas isso ainda é algo raro pra mim. Gosto de criar sozinho.

13) RM: Quem já gravou as suas músicas?

João Ninguém: Só eu, eu mesmo e tal de João Ninguém.

14) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

João Ninguém: Tenho tentado focar nos prós. Sou livre pra fazer o que eu quiser, da maneira que eu quiser, quando eu quiser. Esse é um dos “salários” do artista independente.

15) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

João Ninguém: Não tenho um planejamento. Sigo na vibe do Martinho da Vila e “deixo a vida me levar”. Sou um cara preguiçoso e desorganizado, que pensa muito e age pouco. Tenho estado orgulhoso dessa minha fase ativa, em que tenho criado bastante, tocado bastante e, agora, com um álbum na praça e nas plataformas de streaming. Estou curtindo esse momento e aproveitando as oportunidades que estão surgindo.

16) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira musical?

João Ninguém: Gravo vídeos com estética duvidosa e divulgo nas minhas redes sociais. Como disse, não tenho me empenhado em estratégias específicas para alavancar minha carreira musical. E tenho gostado dessa levada low profile.

17) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira?

João Ninguém: Tenho tentado focar no ponto positivo. Hoje em dia, qualquer pessoa de qualquer parte do mundo pode, potencialmente, ouvir e/ou ver o trabalho de qualquer artista, em qualquer parte do mundo também, desde que ambos tenham conexão com a internet (e os trabalhos estejam disponibilizados na “nuvem”). Isso é muito bom, do ponto de vista da distribuição da arte independente.

18) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso a tecnologia  de gravação (home estúdio)?

João Ninguém: Continuarei focado no ponto positivo: eu gravei em um home estúdio. Se não fosse por isso, talvez eu não tivesse a possibilidade de gravar, principalmente pela questão da grana/custo. Acredito que a tecnologia ajudou a arte independente nesse sentido. Democratizou ou pelo menos facilitou o acesso aos artistas menos favorecidos financeiramente.

19) RM : No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo. Mas, a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

João Ninguém: Tento escrever as melhores letras que posso/sinto e, ao me apresentar, sou o mais verdadeiro possível. Tenho pouca técnica como instrumentista e cantor, mas percebo que minha emoção tem afetado as pessoas. A minha única chance de me diferenciar do que os outros artistas fazem é ser verdadeiro. Eu sou 100% o que escrevo/canto/toco.

20) RM: Como você analisa o cenário rock brasileiro. Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

João Ninguém: Acho que o rock autoral independente está onde ele é, potencialmente, mais útil: no underground. Onde ele pode ser livre para ser questionador como na sua origem. Parece-me que o mainstream engessa os artistas. E acho que isso aconteceu com a maioria das bandas de rock que surgiram desde a década de 80 no Brasil, gradativamente. Mas prefiro não citar nomes.

21) RM: Quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

João Ninguém: Quero exaltar três das minhas paixões mais recentes: Tulipa Ruiz, Liniker e Anelis Assumpção. Além de BNegão e Emicida.

22) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical?

João Ninguém: Putz! Essa entrevista pode nunca ter fim! (risos). Eu já fui tocar num Festival de Metal com uma banda pop e não sei como sai vivo. Já toquei numa casa que tinha show de strip-tease e os organizadores pediram para banda alongar o show, pois o Juizado de Menores havia chegado ao recinto; presumi que a casa estava fazendo algo errado. Foi uma situação meio tensa. Já tive que parar uma apresentação porque alguém do público estava tendo uma convulsão; prefiro acreditar que não fui o causador dessa síncope. Toquei bateria em uma Festa à Fantasia com uma banda formada por amigos chamada “Putz” que rolou dentro de um barco e eu fantasiado de pintinho (a ave). A gente tocava e bebia o cachê. O objetivo da banda era meramente alcoólico. Eu estava bêbado e dentro de um barco; na baía da Guanabara, que não parava de balançar. Eu mal conseguia me sustentar no banco da bateria. A sorte que no local tinha um amigo que também era baterista e me substituiu e voltei a beber cerveja. Já toquei em Bar em São Gonçalo – RJ um show inteiro só de músicas minhas e, ao final, fui interpelado por um cara que tinha adorado meu repertório de “Raul Seixas”. Eu sorri, agradeci e informei que não havia tocado Raul. Ele perguntou de quem era àquelas músicas. Eu falei que era do João Ninguém. Ele perguntou quem é esse cara? Eu disse: Sou Eu. Olha, tem muita história. Algumas impublicáveis.

23) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

João Ninguém: Continuarei focado no lado positivo. Não vivo de música, mas sem música não vivo. E isso é a coisa mais feliz da música para mim. Sinto-me vivo. Muito vivo.

24) RM: Nos apresente a cena musical da cidade que você mora?

João Ninguém: Preciso ser justo e mencionar os artistas que estão comigo nessa jornada. São essas pessoas que me incentivam a continuar a fazer arte/música: Velho Oliveira, Helton Alves e Novos Boêmios, Alexandre Mundim, Dive, Frogslake, Ned Eckhardt, Iolme Lugon, Paulo Beto e Lott e tantos outros artistas e bandas do eixo São Gonçalo-Niterói-Itaboraí e adjacências.

25) RM: Quais os músicos, bandas da cidade que você mora, que você indica como uma boa opção?

João Ninguém: Ouçam o álbum “Mar Salgado” do Lott e o álbum “O Cantador de Calçada” do meu chefe Velho Oliveira (eu brinco o chamando de “chefe”, pois sou baixista da banda dele, “Os Agregados”).

26) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

João Ninguém: Nunca. Acho que nem com pagamento do jabá as minhas músicas vão tocar na rádio “mainstream”. E isso não me incomoda.

27) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

João Ninguém: Divirta-se. Sem diversão não rola.

28) RM: Quais os prós e contras do Festival de Música?

João Ninguém: O pró dos Festivais de Música é a oportunidade potencial de mostrar sua música/arte para mais pessoas. O contra é o lado competitivo. Pra mim, arte não deveria ser competição.

29) RM: Na sua opinião, hoje os Festivais de Música revela novos talentos?

João Ninguém: Não acredito que hoje Festival de Música revele novos talentos. Mas espero estar errado.

30) RM: Como você analisa a cobertura feita pela grande mídia da cena musical brasileira?

João Ninguém: A grande mídia, a meu ver, dificilmente vai dar espaço para a arte autoral independente. E, quando dá esse espaço, é em ações pontuais. Mas essa é a regra geral do jogo. Mídia grande vai dar espaço pro que dá audiência. Se eu não dou audiência, não estarei nessa grande mídia. Por outro lado, tenho percebido que há muitos veículos alternativos, como sites e blogs independentes, rádios comunitárias e webrádios, que prestigiam os artistas do underground. Esse apoio tem sido fundamental para que possamos nos sentir vivos e vistos. E eu me sinto muito grato por ter esse espaço na mídia alternativa.

31) RM: Qual a sua opinião sobre o espaço aberto pelo SESC, SESI e Itaú Cultural para cena musical?

João Ninguém: Apresentei-me uma vez em um SESC e trabalhei durante um tempo na FIRJAN, responsável pelo SESI no estado do Rio de Janeiro. Pela experiência/vivência que tive com ambos, acredito que são iniciativas que possuem a missão de criar público e o fazem de melhor maneira possível, dentro de suas possibilidades burocráticas e financeiras, num país que, aparentemente, não valoriza arte e cultura. São espaços que, até onde eu sei, sempre oferecem uma estrutura técnica de boa qualidade. Algo raro para artistas autorais independentes. Sobre o Itaú Cultural, não tenho conhecimento para poder opinar.

32) RM: O circuito de Bar na sua cidade é uma boa opção de trabalho para os músicos?

João Ninguém: Para músicos autorais independentes, não. Para músicos de Baile e/ou Voz e Violão cover, acredito que seja.

33) RM: Quais os seus projetos futuros?

João Ninguém: Conquistar o mundo. Tô zoando (risos). Só quero ser feliz. Se possível, fazendo música e arte, ao lado de quem amo e me faz bem. Isso é sucesso. Isso é riqueza.

34) RM: Quais seus contatos para show e para os fãs?

João Ninguém: Eu uso as redes sociais para divulgar minhas criações, agenda de apresentações e interagir com o público, composto basicamente de amigos. E sou muito grato por todo incentivo e carinho que tenho recebido por meio dessas plataformas. Cada clique, cada comentário, cada compartilhamento de publicação tem sido um “vai em frente, cara!” que eu recebo do meu pequeno público. Pode parecer algo bobo, mas num tempo em que tudo é pago/patrocinado, ganhar de presente essa interação voluntária tem sido um grande incentivo. Sendo assim, quem quiser falar comigo, conhecer minha arte ou me convidar para uma apresentação, pode me encontrar em www.facebook.com/joaoninguemoficial | e no Instagram como @joaoninguemoficial. Ou enviando um email para: [email protected]

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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor Responsável pela revista Ritmo Melodia desde 2001, músico, letrista e poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, sempre se preocupou em divulgar a música (popular, regional, instrumental e erudita) com entrevistas e artigos sobre os músicos e artistas brasileiros.