Ivan Santos

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Ivan Santos sempre afirma que nasceu duas vezes; uma em Pernambuco e outra na Paraíba.

Na primeira, em Recife, estavam por perto as La ursas, os caboclinhos, a vitrola eclética do pai, o rock’n’roll no rádio das vizinhas, a mãe cantando a trágica “Farrapo humano” para ele dormir. A cultura do calor urbano.

Aos 11 anos de idade, em João Pessoa, aconteceu o segundo nascimento: um mergulho na província, no universo rural dos repentistas, na mitologia das feiras. E nos quadrinhos e livros de aventuras – monitores trazendo outros mundos para dentro da cidade pequena.

No entanto, entre esses dois nascimentos houve uma pausa marcante, um entreato radical: dois anos em São Paulo. A metrópole fria com seus homens de gabardine e chapéu de aba caída – que até hoje ele lembra em preto e branco – como se a cidade fosse um gibi noir.

Em 1969 toca em um conjunto de iê-iê-iê da Escola Técnica Federal da Paraíba. Repertório: versões dos Beatles, Jorge Ben e músicas de São João. Ivan tocava contrabaixo.

Sopa de Bruxa é seu segundo grupo, formado por ele, Zé Wagner e Diniz. O trio com músicas próprias, com letras do parceiro Nando. Adoram harmonias vocais, tocam violão ritmo em uníssono e ganham festival de música de escola secundária.

Aí veio a contracultura, o underground em João Pessoa-PB, o contato com as coisas do inconsciente, os filmes da sessão de arte, os shows de artistas nacionais no Teatro Santa Roza. O encontro com Pedro Osmar, Alex Madureira, Mozart, Jarbas Mariz, Bráulio Tavares, Fuba, Aranha, Zé Ramalho. Depois veio o pessoal de Recife: Paulo Rafael, Zé Rocha, Lenine.

Em 1979 assume o aventureiro papel de músico-cantor-compositor, e até ator, na cidade do Rio de Janeiro – RJ. A viagem levou oito meses, um longo Circuito Universitário com o Show Falando Música. Ele, Tadeu Mathias e o percussionista Firmino.

Nos primeiros seis anos no Rio de Janeiro dividiu música e casa com os parceiros e amigos Alex Madureira, Lenine e o escritor Júlio Ludemir. Pouco depois entra em cena Lula Queiroga. Junto com ele, Bráulio Tavares e Lenine, Ivan formou o grupo de compositores – cantores Wolf Gang (a gang do lobo). Hoje esses amigos ocupam posições significativas na cultura brasileira contemporânea e as parcerias musicais continuam ativas. Nos CDs de Lenine, com as músicas: “É mais além”, “Do it”, “Ninguém faz ideia”, “Sonhei”, “Magra”, “Amor é pra quem ama”, “Seres estranhos”. E “Do it”, inclusive, foi uma das três indicadas ao prêmio de “melhor canção” no “Prêmio Tim de Música” de 2005.

Ney Matogrosso e Elba Ramalho gravaram composições de Ivan.

Em 1992 a ida para a Alemanha é uma espécie de desconstrução cultural e artística a lá Miró. Uma extrema insatisfação e o chute no pau da barraca. É reaprender a falar, reaprender a ser visto e escutado. É se vê de outro ponto de fuga. É o corte do cordão umbilical pela terceira vez na tentativa de corrigir o foco do quadro do mundo. Da Alemanha, parte da França e Suiça, Bélgica, Turquia, Croácia. Tocou para quase todos os tipos de palco e público. Colegas da África, Balcãs, Caribe, os ingleses, os asiáticos, os russos. E mais as viagens pela Turquia e por outras culturas dando sequência às viagens pelo Brasil. Fazer música em todos os lugares é meio como fazer música em lugar nenhum, a exata localização geográfica perde sua grande importância.

Os Grammys. No dia 3 de novembro de 2005 a canção “Ninguém faz ideia”, parceria com Lenine, ganhou em Los Angeles o Grammy Latino de “Melhor canção brasileira em língua portuguesa”. Nesse dia muita gente leu pela primeira vez seu nome em muitos jornais brasileiros e alguns da América. Mas Ivan Santos tem atrás de si uma longa carreira, que começou nos anos 70 na Paraíba, Nordeste do Brasil.

Em 2012 novamente uma parceria com Lenine, “Amor é pra quem ama”, é indicada para o Grammy Latino na mesma categoria que em 2005.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Ivan Santos para a em 01.02.2015:

01-) Ritmo Melodia – Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Ivan Santos – Dois de julho de 1953, essa é a versão da minha mãe. Quando já tinha idade e curiosidade para olhar minha certidão de nascimento, vi que lá estava escrito: “zero hora do dia 1º de julho”. Dou mais crédito à minha mãe.

Sou de Escada, Zona da Mata de Pernambuco. Quando eu tinha sete anos minha família mudou-se para São Paulo e quando eu tinha 9 fomos morar na Paraíba, onde fiquei até os 25, por isso falo que sou paraibano.

02 -) RM – Fale do seu primeiro contato com a música?

Ivan Santos – Na minha lembrança, o meu primeiro contato com a música é pedir à minha mãe que cante Farrapo humano, para me ninar na rede. Eu devia ter uns três anos de idade. A letra desta canção é uma tragédia, um alcoólatra confessando sua decadência. Eu gostava da palavra humano, gostava do som, não tinha idade para enxergar o drama. Esta é a primeira lembrança. Mas meu pai sempre teve um toca disco em casa e, certamente, eu pedia esta canção à minha mãe porque já conhecia a gravação.

Com treze anos comprei do amigo Wallace, uma gaita Hering usada. Com 14 ganhei o meu primeiro violão, um velho Giannini de tampo cintilante, comprado pelo meu pai na barbearia. Música era a brincadeira da temporada e iê-iê- iê o que estava no ar. Wallace, o garoto da gaita, me mostrou os primeiros acordes.

03 –) RM – Qual a sua formação musical e\ou acadêmica fora da área musical?

Ivan Santos – Na Paraíba eu frequentei a Escola Técnica, uma escola profissionalizante e me formei em técnico de estradas. Com o que aprendi de topografia e desenho técnico consegui meu primeiro trabalho. Depois, já na universidade, paguei muitas matérias de Arquitetura, mas não concluí o curso. Nessa época vivia de desenhar projetos para alguns arquitetos da cidade; plantas de residências e de urbanismo. Meu traço era limpo e eu era rápido, mas não acho que fosse um super desenhista.

Violão eu comecei aprendendo na rua, na época da Jovem Guarda. Toquei contrabaixo no conjunto de Ié Ié Ié da Escola Técnica e durante 10 anos cantei em diferentes corais.

Ainda adolescente me matriculei no Conservatório de Música para aprender teoria musical e piano. Mas eu não tinha nenhum colega com quem me identificar. A maioria eram meninas bonitinhas que estavam ali para aprender um instrumento por necessidade de agradar os pais. Por outro lado, os professores, muito tradicionais, não estavam preocupados em me mostrar a importância, para a minha vida, de ler música. Sentia-me perdendo tempo, eu queria tocar música popular. Como o diretor gostava de mim, consegui permissão para entrar no Conservatório à noite e estudar minhas lições de piano. Mas aquilo era muito chato e eu ficava transpondo para o Teclado o que sabia no violão, tentado tocar as coisas do The Beatles. Não durou muito para eu desistir do Conservatório.

04 -) RM – Quais as suas influencias musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Ivan Santos – A primeira música que me bateu com impacto foi The Beatles, que inicialmente me foi apresentada pela Jovem Guarda. Mas no final da década de 50, morando no interior, ouvi muito do que tocavam no rádio e nas festas de rua e isso faz parte da minha formação, ou da minha sensibilização para a música.

Luiz Gonzaga, Carlos Galhardo, Jackson do Pandeiro, Dilermando Reis, Augusto Calheiros. Depois, já em Recife – PE, os grupos de carnaval (caboclinhos, orquestras de frevo), os Boleros de Anísio Silva, o Rock’n’roll de Carlos Gonzaga, Cely Campelo, NielSedaka, Demetrius. Algumas dessas músicas, eu posso identificar claramente na música que faço. Outras, se ainda me influenciam é lá do inconsciente.

Não foi a Bossa Nova que me levou a tocar Violão, isto aconteceu por causa de uma música ingênua e de baixa qualidade: o Ié Ié Ié. Aquela sonoridade, geralmente mal copiada, das bandas inglesas e norte americanas, ganhou totalmente meu coração. As letras, falando de paixões adolescentes, diziam justamente o que eu estava precisando ouvir naquela minha idade. E aquelas histórias engraçadas que se passavam em uma terra de fantasia – o Rio de Janeiro – deixavam o garoto suburbano nas nuvens. Eu não percebia que a maioria das melodias era balada italiana melosa. Para mim aquilo ali era puro Rock.

De todas aquelas estrelas sobrou Erasmo Carlos. Roberto Carlos teve inegável importância durante muitos anos, mas há décadas mumificou-se.

Acho que vi todos os shows de Gilberto Gil da década de 70 e 80. Os meus prediletos eram aqueles em que o seu violão ficava mais evidente, em que tocava: Oriente; 2222; O Sonho acabou. Mas gostava de quase tudo. Numa certa fase, adorava suas letras relativizando os conceitos, usando imagens e seus contrários pra no fim dizer que o mundo é yin e yang e que tanto faz. Durante certo tempo algumas das minhas letras foram por esse caminho, depois isso começou a me incomodar e me senti meio enganado por esta influência. Caetano Veloso me influenciou muito, sim, mas eu não sei identificar em minha música essas influências. Ele continua uma espécie de cúpula, de rede, de claridade.

Eu gostava muito de Zé Rodrix, na fase do Sá, Rodrix & Guarabira e no início de sua carreira solo. Quando comecei a compor tentei fazer umas coisas parecidas com as dele. Eu adorava Jorge Bem na fase de Rita Jeep e Se manda. Bob Dylan, até Jockerman, atiçou muito minha imaginação. Na época do meu projeto com Berna Ceppas, A Banda chamada Cavallo, eu ouvia muito Clash; gosto até hoje. Ouvia Lou Reed. Do pessoal da minha turma, fortes influências vieram de Pedro Osmar, Alex Madureira, Bráulio Tavares, Lenine e muito Lula Queiroga. Na época em que Geraldo Azevedo compunha coisas como Caravana, eu era um grande fã. Alceu Valença também exerceu em mim muita influência.

Antes de vir para a Alemanha trabalhei com a banda de rock João Penca e seus Miquinhos Amestrados. Oficialmente eu era roadie, mas eu era mais um daquela turma de moleques amorosos e através deles entrei no universo do Rockabille e fui apresentado aos Beach Boys. Juntos nós compusemos até alguns pequenos hits. Também por causa deles recuperei um bom humor que lentamente havia sumido da minha vida e da minha música. Mesmo as influências que eu, há muito tempo, já não escuto, continuam importantes. É a tal da dívida de gratidão.

05 –) RM – Quando, como e onde  você começou sua carreira profissional?

Ivan Santos – Em 1979, já conhecido na pequena cena musical paraibana e um pouco na de Recife – PE, larguei o trabalho de desenhista e fui embora para o Rio de Janeiro. Embora fosse dificílimo viver da música naquela cidade estranha, eu não tinha nenhuma outra fonte de renda. Quer dizer, me profissionalizei e automaticamente fiquei desempregado.

06-) RM – Quantos CDs lançados, quais os anos de lançamento(quais os músicos que participaram nas gravações)? Qual o perfil musical de cada CD? E quais as musicas que entraram no gosto do seu público?

Ivan Santos – O primeiro CD que gravei foi o da banda de baile na qual tocava e cantava quando cheguei à Alemanha: House of Samba. Fui o produtor, arranjador, músico, cantor e desenhei o nome da banda para a capa. Era um CD quase só de covers, mas sem tentar copiar os arranjos originais. Eu tinha pouquíssima experiência no que estava fazendo, mas o dono da banda me deu crédito e depois de pronto o resultado geralmente agradava a quem ouvia. Mas não era minha música.

Em 2002 gravei Songs from Nowhere, produzido por mim e Geovany da Silveira e quase totalmente gravado em seu Mühlberg Studio. Todas as canções eu escrevi aqui na Alemanha. É um CD Pop com influências de Samba, Funk e alguma coisa de Reggae. Claramente nordestina apenas uma composição: a instrumental Acorda Maria Bonitinha. Também gravei neste CD a canção mais triste que escrevi até hoje: Lady Multimelancólica. A parte rítmica do CD é quase inteiramente de samplers e em apenas duas faixas aparece um baterista.

Esse é um CD totalmente editado e com arranjos muito limpos. Durante uns três anos, eu e Geovany gravamos e editamos quase tudo, depois convidamos alguns músicos para participarem em alguma faixa.

Ficha técnica de Songs from Nowhere

Ivan Santos: Vozes, violão, guitarra, percussão, gaita, keyboard, rabeca, craviola, cavaquinho, edições.

Geovany da Silveira: Contrbaixo, percussão, coro, edições.

Convidados

Márcio Tubino: saxofones e flauta

Rosanna Tavares: voz e coro

Alessa Pedrotti: voz

Lenine: voz e percussão

Celso Alvim: percussão

Mário Moura: Contrabaixo e percussão

Antoine Fillon: bateria

Zé Bruno: hi hat

Nélio Costa: Contrabaixo e repenique

Afred Mehnert: percussão

Foguete Suburbano e Go-en-Lai são as mais queridas do CD.

Em 2009, novamente com Geovany da Silveira e em seu estúdio, iniciei a produção e gravação de Grampeado. A partir de um ponto determinado assumi a produção e fiz o restante das gravações em meu quarto.

Grampeado seria o meu CD nordestino-carioca. O ritmo e a forma do Baião estão muito presentes, mas tem também um Samba e uma Bossa Nova. Além de canções que não se encaixariam em um ritmo definido. Os meus arranjos tornaram-se um pouco mais complexos. Como no outro CD, a procura de uma sonoridade Pop também está presente e nisso pedi ajuda a dois produtores do Rio de Janeiro: Marcos Kuzka e Plínio Profeta. Cada um deles produziu uma faixa do CD.

Gravações adicionais foram feitas na Áustria, Rio de Janeiro e Recife – PE.

Ficha técnica de Grampeado

Ivan Santos: vozes, coro, violões, guitarra, baixo, cavaquinho, violão com arco, guitarras ebow, piano, violão bottleneck, gaita, keyboard, percussão, edições
Geovany da Silveira: Contrabaixo, percussão, loop de percussão, edições.

Márcio Tubino: flautas, saxofone, flauta egípcia, kalimba, guitarra, mangueiras, leque chinês, percussão.

Andreas Neubauer: bateria.

Lenine: voz.

Silvério Pessoa: voz e coro.

Marcos Kuska: violas, clavinette, baixo, loops, coro, efeitos, vocoder, idéias.

Plínio Profeta: baixo, efeitos, edições, samplers, viradas de loop fx, guitarra ebow, percussão fx.

Jam da Silva: pandeiros, sementes, vibrafone.

Flávio Guimarães: gaita.

Bruno Giorgi: guitarras.

Tostão Queiroga: zabumba, tamborim e pandeiro.

Luciano Queiroga: violão, piano, coro.

Jongui: percussão, bateria.

Celso Alvim: caixa, balde, caxixis, lataria lateral.

Sidon Silva: pandeiro, tamborim, lataria lateral.

C.A. Ferrari: surdo, repeniques, reco-reco, lataria lateral.

Ronaldo Saggiorato: contrabaixo.

Christoph Aupperle: vibrafone.

Fabiano França: mixagem, edição de bateria.

Ruth Santos: fala em alemão.

David Zandberg: fala em iídiche, hebráico.

Maria Valcanova: fala em búlgaro.

Orhan Toprak: fala em turco.

Federico Bettaglio: fala em espanhol.

Elmira Huseynova: fala em russo.

Lucas Poppinga: grito.

Grampeado, Ninguém faz ideia, Rio Mississippi Blues e Imperador da Borborema são as preferidas do público.

07 – ) RM – Como você define seu estilo musical?

Ivan Santos – Como não sou apegado a nenhum estilo específico, sempre fica difícil rotular o que faço. Por sugestão de um amigo comecei a usar o termo World Pop para definir minha música. Antes que me joguem no gueto da World Music – que não deixa nada claro – eu crio meu próprio gueto, que também não explica, mas sugere.

08-) RM – Você estudou técnica vocal?

Ivan Santos – Não, mas em um dos corais em que eu cantava o regente Pedro Santos se exasperava com as vozes que saiam espremidas da garganta e nos dava esporros e muitas dicas. Na época eu entendia o que ele falava, mas não conseguia sentir, ou visualizar, o diafragma a que ele tanto se referia. Cantar relaxado e usar a cabeça como caixa de ressonância era outra dificuldade.

Algumas dessas dicas, eu só vim aproveitar quando cheguei na Europa e virei cantor. No Brasil eu era só um compositor que interpretava suas composições. Aqui comecei a ensaiar muito, a subir no palco várias vezes por semana, a fazer shows de música dançante que duravam horas. Nesse pique, se você não se cuida, a rouquidão ataca e a voz desaparece.

Eu cuido dos meus instrumentos e a voz é um deles. Não sou nenhum cantor técnico, mas comparando com os tempos antigos, vejo que dei uma melhorada. Hoje em dia afino um pouco mais, articulo melhor as sílabas e aprendi certas coisas de interpretação cantando músicas dos outros. Minha técnica vem do que Pedro Santos me falava e da prática, da observação. Sempre fui muito preguiçoso pra fazer exercícios diários, prefiro repetir a mesma canção até resolver seus problemas.

09 -) RM – Qual a importância do estudo de técnica vocal e cuidado com a voz?

Ivan Santos – Alguns cantores simplesmente têm essa técnica, outros têm que aprender. Se você não tem, pelo menos, as noções básicas, pode acabar destruindo as cordas vocais pelo mau uso. É possível aprender a emitir um som mais rico em harmônicos, a gritar sem se ferir, a respirar melhor. Se a voz é seu instrumento, você tem que tentar manuseá-lo da melhor forma possível.

10 -) RM – Quais as cantoras(es) que você admira?

Ivan Santos – São inúmeros, não caberiam aqui. Vou falar alguns que lembro e, claro, deixar de fora outros que também ouço com o maior prazer:

Sérgio Sampaio, João Gilberto, Chet Baker, Jackson do Pandeiro, Lupicínio Rodrigues, St. Vincent, Luis Melodia, Billie Holiday, James Brown, Dominguinhos, Pete Tosh e Bob Marley, Elza Soares, Nusrat Fateh Ali Khan, Shane MacGowan (do Pogues), Jorge Benjor, Camarón de la Isla, Araci de Almeida, Arone Dyer (do Buke and Gase), Olho de Gato, Lula Queiroga, Otis Redding, Zack de la Rocha, Caetano, Rickie Lee Jones, Bob Dylan (de antigamente), Lenine, Ali Hassan Kuban, Aretha Franklin, Milton (do Clube de Esquina), Angela Maria, Aaron Neville, Joe Strummer, Smokey Robinson, Beck, Marisa Monte (nem sempre), Pedro Luis, Clementina de Jesus

11 -) RM – Como é seu processo de compor?

Ivan Santos – Varia muito. Compondo sozinho, normalmente faço a melodia e depois vou colocando a letra. Eu gosto desse desafio, desse joguinho de sair tentando assentar palavras em um espaço já delimitado.

Ideia para letra vem a toda hora e eu vou anotando. Às vezes é um refrão, às vezes um tema, às vezes um verso, às vezes uma palavra. Depois vem o trabalho de ver o que é que presta e o que é lixo. E depois disso o trabalho de escrever a letra.

Não uso nenhuma fórmula fixa para fazer melodias. Às vezes aparece uma ideia enquanto estou brincando com o violão ou quando estou ouvindo música ou quando estou no meio de um ensaio. Outras vezes sento e me digo que tenho que fazer uma música e faço. Gosto de gravar um groove de percussão, juntar uma sequência de acordes e em cima disso ficar improvisando melodias até chegar a alguma coisa que me agrade. Em todos os casos, depois desse primeiro momento em que a ideia aparece, começa o trabalho braçal de desenvolver ou de burilar essa ideia.

Depois da canção pronta, ela fica em um estaleiro durante um bom tempo sendo testada. Aí vai sendo polida, algumas palavras ou frases são trocadas, a harmonia vai mudando, eu vou experimentando e descobrindo como ela deve ser cantada.

Quando escrevo para parceiros, tanto boto letra em suas melodias quanto mando letras para eles musicarem. Com Lenine, por exemplo, sempre sou eu quem dá o start. Sou eu que escolho o tema, escrevo e mando para ele a letra já fechada e Lenine faz a melodia. Quase sempre escuto o resultado quando a canção já está no seu CD.

Com Zé Renato já rola diferente; ou ele me manda melodias sem letra ou eu mando-lhe letras sem música. Em 2012 escrevi para ele duas letras que tratavam da crise da água no planeta. Ele me mandou as melodias e o tema das letras, era uma encomenda específica. Às vezes é divertido e mais fácil escrever assim, você já sabendo o assunto. Mas essa limitação também pode tornar as coisas complicadas.

Com Pedro Luís, até agora nossas parcerias começaram pelas minhas letras. Com Marcos Kuzka Cunha, sempre começaram pelas suas melodias. Com Phillipe Baden Powell, também.

12 -) RM – Como você se define como compositor?

Ivan Santos – Eu nunca fui um compositor regional e sempre gostei de experimentar formas de canções que não são obrigatoriamente brasileiras. Mas os meus ouvidos e meu coração sempre estiveram impregnados de música nordestina. Com certeza porque essa era a música que estava no ar no meu tempo de criança e de adolescente, mesmo na época em que me interessava muito mais pela cultura musical norte-americana e inglesa.

A partir do momento em que me voltei para a música dos repentistas, dos cantadores de rua, dos sanfoneiros, etc., descobri que o “feeling” dos cantores de blues, que me arrepiava tanto, tinha sua equivalência nos rabequeiros (violinistas populares) nordestinos. Que a mesma energia do rock’n’roll podia estar acumulada em um baião. Nunca paro de aprender coisas com essa música, mas quando fui para o Rio esse “reencontro” já havia se dado.

13 –) RM – Quais são seus principais parceiros de composição?

Ivan Santos – Sem dúvida Lenine é o mais conhecido deles e o que mais gravou nossas parcerias. Mas Lula Queiroga, Alex Madureira, Pedro Luis, Marcos Kuzka e Zé Renato estão entre os principais.

14 -) RM – Você é um compositor vinculado a alguma gravadora?

Ivan Santos – Não. Em 1980, exatamente quando o mundo do disco começou a vir abaixo, eu havia assinado um contrato com a Polygram (a Phillipps no Brasil) e estava no início da produção do meu primeiro LP quando eles voltaram atrás. Daí pra frente, eu fui assumindo minha independência.

15 -) RM – Quais os cantores(as) já gravaram as suas músicas?

Ivan Santos – Dos conhecidos, Ney Matogrosso, Zé Renato, Pedro Luís, Silvério Pessoa, Lenine, Elba Ramalho. Aqui na Europa outras pessoas também gravaram minhas composições: Eli Goulart, Rosanna & Zélia

16 -) RM – Quais das suas canções que o Lenine já gravou?

Ivan Santos – Princípio da culpa (Ivan Santos – Lenine)

É mais além (Bráulio Tavares – Ivan Santos – Lula Queiroga – Lenine).

Sonhei (Ivan Santos – Bráulio Tavares – Lenine).
Ninguém faz ideia (Ivan Santos – Lenine).

Do it (Ivan Santos – Lenine).

Magra (Ivan Santos – Lenine).

Amor é pra quem ama (Ivan Santos – Lenine).

Seres estranhos (Ivan Santos – Lenine).

17 -) RM – Como você define o seu texto?

Ivan Santos – Sou poeta que usa palavras para imprimir emoções que de outra forma não conseguiria. Um exemplo é a letra de Lady Multimelancólica; canção usada pela coreógrafa alemã Pina Bausch no seu espetáculo Água, que poderia ser lida como filme, um curta, em que em apenas oito versos eu descrevo o impacto e as divagações que me provoca a entrada de uma mulher de aparência enigmática em um bar, de onde eu já estava indo embora.

18 -) RM – Como você define o seu show?

Ivan Santos – Entretenimento bem humorado e novas informações são os ingredientes básicos da receita do meu show. Ao vivo a banda toca, além das canções dos meus CDs, outras composições minhas e algumas recriações de músicas tradicionais. O baião e o Coco, os ritmos do Nordeste estão na base de quase tudo, mas acontece muito mais do que isso. O rimto do Funk, do Reggae e do Rock pode ser percebido, naturalmente misturado aos ritmos brasileiros.

Minha banda não tem um “som próprio”, mas “vários sons próprios”. Ao vivo os músicos se revezam em diferentes instrumentos conduzindo o público através de várias atmosferas sonoras. É um espetáculo ritmicamente muito rico que nunca cai na monotonia. Este é meu show nas apresentações por quase toda Alemanha e países como França, Suíça, Áustria, Turquia, Croácia. É um repertório bem humorado de música para se ouvir com todas as partes do corpo. A cabeça incluída.

19 -) RM – Você conseguiria produzir música sem a memória brasileira?

Ivan Santos – Não. Minha música pode ter influências muito distintas, mas o centro, o miolo é brasileiro. Eu me preocupo muito com isso. Eu sempre falo que pra mim seria uma espécie de morte artística tocar no Brasil e notar que as pessoas me escutam como estrangeiro.

Na época em que soube que uma das minhas novas parcerias com Lenine “Do it” estava tocando muito no rádio e que pouco depois foi indicada para o prêmio de melhor canção do ano no “Prêmio Tim de Música”, fiquei muito feliz. Não pela possibilidade da premiação, mas pelo fato de depois de tanto tempo fora do Brasil eu ter escrito uma letra que fez muita gente me mandar e-mails, ou telefonar pra dizer que aquilo era exatamente o que elas estavam precisando ouvir. E não é uma letra que conta uma história de amor, é sobre atitudes. Aí eu vi como é gratificante essa preocupação constante em continuar no Brasil, mesmo de longe.

20 -) RM –  Comente sobre a repercussão da canção Acorda Maria Bonitinha?

Ivan Santos – Essa é uma marchinha despretensiosa, que compus de improviso no estúdio, para completar o CD, que estava muito pequeno. Como faltava tempo para elaborar um arranjo para mais uma canção, eu compus essa “quadrilha de São João”. Eu não sou um tocador de harmônica, mas é um instrumento que toco de vez em quando e tiro muito prazer disso. Logicamente devido às minhas limitações o que consigo é muito desprovido de sofisticação. É como se fosse um “eu menino” tocando.

Acho que o que faz as pessoas gostarem dessa a música é a sua sinceridade e despojamento. É básica. A gente só tocou essa música uma vez e fez isso pelo meio do público. A reação foi ótima. Por algum motivo nunca mais fizemos isso, mas tenho certeza de que vamos repetir.

21 -) RM – Qual a sua relação pessoal e profissional com Lenine?

Ivan Santos – Nós tínhamos um conhecido em comum. Um cara de Recife – PE que estava sempre visitando uma amiga em João Pessoa – PB e que passava o tempo inteiro falando do “garoto de 17 anos” que no palco era um incendiário.

Logo em seguida fomos apresentados, viramos admiradores um do outro e em pouco tempo estávamos dividindo o palco em pequenos shows. Ele com a sua banda e eu com a minha. Recife e João Pessoa são cidades que apesar de estarem a 110 km uma da outra, têm características físicas e culturais muito diferentes e nessa época quase nenhum músico fazia uma ponte entre elas – Zé Ramalho era um dos poucos.

O encontro com Lenine foi de certa forma o início de um relacionamento maior entre os músicos da nossa geração, provenientes dessas duas cidades. Nos seis anos que dividimos apartamento no Rio de Janeiro – RJ nos anos 80, nossa casa funcionava como uma base estratégica e albergue anarquista para os músicos recém-chegados dessas duas cidades. Anos depois esse encontro veio dar, por exemplo, em coisas como a produção de um CD de Chico César por Lenine.

22 -) RM – Quais os prós e contras de ter desenvolvido uma carreira musical de forma independente nos anos 80 no Rio de Janeiro – Brasil?

Ivan Santos – Os prós: o contato com um grande centro urbano e suas contradições, armadilhas, estímulos, desafios, informações. A descoberta de artistas, do Rio de Janeiro e de outras regiões, em uma situação semelhante à minha. A Grande Aventura vivida com alguns desses amigos artistas. As trocas de influências musicais e comportamentais. A descoberta de outros públicos, outra imprensa, outra polícia. Os encontros e, às vezes, convivência com alguns dos meus ídolos. Encontro com outras mulheres. Início de novas e grandes amizades. A visão mais completa de um Nordeste visto de longe e de um Rio de Janeiro visto de dentro. Ver o meu nível de provincianismo ir lentamente baixando. Começar a me sentir mais brasileiro do que nordestino, ao mesmo tempo em que o lado nordestino ganhava mais consistência.

Os contras: o maior deles foi o vazio deixado na cena musical paraibana quando o pessoal da minha geração, quase ao mesmo tempo, foi embora. Quem estava surgindo ficou abandonado, tendo que reiniciar tudo do zero. Isso foi um prejuízo para a cena musical da cidade.

Os outros problemas que eu enfrentei faziam parte dessa mudança e não sei se poderiam estar ligados a esse contra da sua pergunta. Eram eles: o choque cultural inicial, a dificuldade de entender os novos códigos e de ser entendido. A dificuldade de entender a cidade fisicamente. Solidão ao me perceber um bicho exótico. A falta de trabalho, de contatos, de grana. A falta que faziam os amigos e a família deixados no Nordeste. Com o tempo essas questões foram se resolvendo e então as novas dificuldades eram as mesmas enfrentadas por qualquer cantor-compositor: dificuldade em formar um público, dar prosseguimento à carreira, gravar um disco, conseguir shows…

23 -) RM – Quais os prós e contras para os músicos nordestinos que vinham para o eixo Rio – São Paulo nos anos 80 após o grande sucesso de outros músicos nordestinos com Gilberto Gil, Caetano Veloso, Alceu Valença, Zé Ramalho, Geraldo Azevedo, Elba Ramalho, Fagner, Belchior e Djavan?

Ivan Santos – Gilberto Gil e Caetano Veloso não eram identificados com o grupo dos nordestinos. Eles eram Os Baianos e aí existe uma sutileza. Depois de ter começado fazendo Samba, Djavan agora fazia música Pop e esteticamente também não era visto como nordestino. O resto do pessoal que você citou, sim.

Acho que o mercado estava meio saturado de música nordestina, por mais diferentes que umas fossem das outras. A nossa turma chegou em um momento não muito propício. Hoje nos vejo como uma entressafra. Uma geração de músicos ainda não totalmente desligada da geração imediatamente anterior à sua.

A gravadora CBS tinha um núcleo nordestino e a Polygram tentou criar o seu. Eu, Lenine e Bubuska fazíamos parte desse novo núcleo, mas veio a crise da indústria e o projeto foi abortado. Pouco tempo depois explodiu com força o Rock Brasil e passaram-se uns 15 anos até o Nordeste ficar novamente em evidência, com a chegada do movimento Manguebeat.

24 -) RM – Qual a sua relação pessoal e profissional com Bráulio Tavares?

Ivan Santos – Bráulio Tavares – assim como Lula Queiroga – é genial no uso de palavras que traduzem ideias originais. Suas poesias e antigas canções me marcaram muito. Textos intelectuais, porém com uma clareza de forma surpreendente, além de um humor finíssimo e incrivelmente popular. O “entertainer” que minimizava sua erudição, por humildade ou por puro truque de cena, me influenciou bastante na procura de temas que também interessassem ao público. Bráulio me emprestou e recomendou muitos livros e isso ajudou a ampliar meu gosto pela literatura. E vivia me incentivando a escrever prosa.

Fizemos juntos vários shows de voz e violão. Juntos nós escrevemos uma versão de uma canção do The Beatles e sou seu parceiro em Mais Além. Anos depois ele completou a letra de Sonhei, que eu havia iniciado e que posteriormente Lenine musicou e gravou. Mas é como se a gente tivesse muito mais parcerias. Amigo que eu raramente encontro, mas sempre presente.

25 -) RM – Qual a sua relação pessoal e profissional com Pedro Osmar?

Ivan Santos – Pedro Osmar possuía uma musicalidade muito especial; lírica e selvagem. Além de um senso rítmico e melódico únicos. Um crossover de Índia e Brasil. Seus projetos na Paraíba da década de setenta eram político – musicais. Pedro era um provocador. E o meu primeiro contato com a música experimental, eu devo não só ao compositor Pedro Santos, mas também à música de Pedro Osmar. Sua síntese do ritmo do maracatu, na viola, influenciava muita gente – eu, por exemplo.

Apesar de nossas intenções serem bem diferentes, colaborávamos um com o outro e fizemos shows em que eu me juntava à sua banda Jaguaribe Carne para tocarmos as suas e as minhas composições. Lembro-me dele queixando-se quando tinha que tocar alguma música minha que ele considerava muito leve ou comercial. Pedro era um radical e no palco podia trocar tudo que havia sido ensaiado por uma performance em que a sua banda ficasse lendo bulas de remédio. Eu tinha atração pelo experimentalismo, mas em um nível que não destruísse a canção. Já no Rio de Janeiro, Pedro Osmar era hóspede frequente da Casa 9.

26 -) RM – Qual a sua relação pessoal e profissional com Jarbas Mariz?

Ivan Santos – Jarbas Mariz era um cara extremamente organizado naquele nosso meio amador e um lutador. Tocava em um dos grupos de baile da cidade e vivia disso, apesar de ter uma família enorme. Só por isso, eu já o admirava, além de invejá-lo por tocar nos Selenitas. Nunca criamos nada juntos, mas o primeiro show do meu trio Sopa de Bruxa no Teatro Santa Roza, em João Pessoa – PB, foi uma produção dividida com ele. Nós fazíamos a primeira parte, acústica, e Jarbas fechava, tocando suas composições com sua banda eletrificada. A gente sempre se entendeu muito bem. No Rio de Janeiro chegamos a morar algumas semanas no mesmo apartamento.

27 -) RM – Qual a sua relação pessoal e profissional com Zé Ramalho?

Ivan Santos – Quando eu tinha uns 20 anos de idade; através de um LP de Bob Dylan, conheci Zé Ramalho. Isso foi bem antes da gravação do disco dele Avohai. Nessa época ele fazia Rock’n’roll e seu show Atlântida, um marco, na minúscula cena underground paraibana, me desconcertou. Naquela província, um show com banda trajando figurino temático, voz em off fazendo narrações e o cantor com a cara prateada era uma grande novidade. No meio dos anos 1970 essas coisas básicas de produção e direção eram desconhecidas para mim. Zé Ramalho era um artista de carisma e aquela apresentação me marcou muito.

Durante algum tempo, aproveitando certa admiração que ele tinha por mim, frequentei sua casa, acompanhando de perto o que fazia, vendo o folk americano ir tomando o lugar do rock na sua fusão com a música brasileira e, inclusive, aprendendo com ele algumas técnicas de composição usadas pelos repentistas. Eu adorava Country Rock, a música da Califórnia e foi ele que me mostrou que a música nordestina poderia sair do gueto regional e tornar-se Pop. Zé Ramalho influenciava grande parte da rapaziada que fazia música na Paraíba naquela época. Eu era um deles e certa vez um amigo comum me contou que Zé Ramalho, com seus gestos bíblicos, havia proferido na sua presença: Ivan Santos é meu discípulo. Eu achei meio engraçado porque nessa época eu já estava indo em outra direção. Agora vejo que faz muitos anos que não sei mais o que ele anda fazendo.

28 -) RM – Qual a sua relação pessoal e profissional com Elba Ramalho?

Ivan Santos – Quando chegamos ao Rio de Janeiro, depois de 8 meses rodando pelo centro do Brasil, Tadeu Mathias foi morar com sua amiga Elba, que dividia com Geraldo Azevedo um apartamento em Ipanema. O apartamento era um ponto de encontro de artistas, eu ia muito lá e às vezes apenas para atacar secretamente a geladeira. Elba ouvia minha música naqueles encontros em sua sala, ou nos K-7 que eu lhe mandava e uma vez me falou que gostava, mas achava tudo muito pessoal e por isso não gravava. Ela tinha razão. Passaram-se trinta anos até ela gravar uma parceria minha com Pedro Luis, Os Beijos. Conhecemo-nos, é uma colega talentosa que respeito, mas nunca fomos amigos.

29 -) RM – Qual a sua relação pessoal e profissional com Lula Queiroga?

Ivan Santos – Da nossa turma, Lula Queiroga é o que mais admiro. É o que tenho como a maior figura. É o que melhor compõe e quem escreve as melhores e mais originais letras. É o que se sai melhor nesta dedicação. Apesar de não termos um grande número de parcerias, durante muito tempo fomos parceiros de ideias, de procuras, de aventuras estéticas. Na época do projeto Falange Canibal, escrevemos juntos muita prosa nonsense, absurdos, algumas letras de música e até jingle para a Impecável Maré Mansa. Essa convivência mudou minha maneira de compor, aguçou minha crítica, me mostrou a necessidade da clareza das ideias. Lula tem o dom da forma; meu professor e querido amigo.

30-) RM – Qual a sua relação pessoal e profissional com Tadeu Mathias?

Ivan Santos – Conheci Tadeu Mathias um garoto de 17 anos com uma voz assombrosa e duas enormes bolas de gude azuis no lugar dos olhos. Subia no palco apenas com seu violão e impressionava qualquer plateia. Suas performances eram muito seguras, como as de um profissional experiente. Ele também viu em mim alguma coisa e por isso, quando descobrimos em uma conversa que nós dois estávamos querendo ir para o Rio de Janeiro, gostou da ideia de juntar nossos trabalhos no palco. Para completar o time convidamos o percussionista Firmino, que também estava precisando sair da cidade para desenvolver sua carreira e montamos o show Falando Música.

O mundo harmônico de Tadeu era novo para mim, eu só usava harmonia tradicional. Foi utilizando uns tipos de acordes que Tadeu usava que escrevi Fogo Terno, uma música que cantávamos juntos no show e que virou um pequeno hit local, nos bares da cidade. Essa foi minha primeira composição usando acordes dissonantes. Nos quatro meses de concepção e ensaios diários de Falando Música, experimentamos muito e o aprendizado foi enorme. Aí estreamos o que considero meu primeiro trabalho profissional.

Por desistência do produtor, o cara que mais havia nos estimulado a iniciar este projeto, fui forçado a atuar também como produtor e isso também me ensinou muita coisa.

Depois da estreia e de algumas apresentações em Recife – Olinda – PE, Campina Grande – PB e (talvez) Natal – RN, iniciamos uma turnê por algumas cidades universitárias de Minas Gerais. Também estavam no roteiro Vitória – ES, Brasília – DF, Goiânia – GO e Rio de Janeiro – RJ. Aquela era uma época de tempo distendido e morávamos um pouco em cada lugar que tocávamos, além de viver aventuras amorosas, fazer novas amizades e cruzar com muitos outros artistas. Levamos oito meses até chegar ao Rio de Janeiro, depois de mais de 50 apresentações, mas com uma coleção de histórias, novos amigos e contatos. E já um pouco menos provincianos.

No Rio de Janeiro fizemos o que já estava planejado no início da turnê: dissolvemos o trio e cada um foi cuidar da sua carreira. Parceria musical com Tadeu, eu tenho apenas uma: ele musicou uma letra minha “O seu Haver“.

31-) RM – Qual a sua relação pessoal e profissional com Alex Madureira?

Ivan Santos – Metade da grande aventura que foi morar no Rio, vivi com Alex. Eu, ele e Lenine, nós moramos por seis anos juntos. Na Paraíba a gente já se conhecia e de vez em quando estava junto, mas só no Rio de Janeiro é que ficamos amigos.

Esse prazer em conviver com um instrumento, em ver ali um companheiro, herdei dele. Sou um grande fã dos seus riffs de guitarra, uma original fusão de rock com as cadências nordestinas. Acho suas letras redondas, claras e sinceras. Tocamos muito tempo juntos, em shows, estúdios ou no seu quartinho.

Alex é muito bem informado, mas repele tudo que seja afetação intelectual; seus comentários irônicos, quando a gente compunha, me ajudaram a vê a importância do vocabulário adequado quando se escreve uma letra. Apesar das nossas origens, formação e personalidades serem muito diferentes, temos um lado muito parecido, além de muitas histórias compartilhadas. Daquela antiga turma, Alex é com quem tenho um contato mais constante. É meu irmão.

32-) RM – Qual a sua relação pessoal e profissional com Cátia de França?

Ivan Santos – Conheci Cátia de França ligeiramente, ainda na Paraíba, quando ela dava aulas de acordeom e violão, mas já participava dos festivais de música da cidade. Ela era amiga, da irmã do primo de um primo de um primo meu. Daí o contato. Eu estava bem no iniciozinho da minha ligação com a música e não tinha assunto pra levar um papo como ela. Quando cheguei ao Rio de Janeiro, Cátia já estava começando a gravar seu primeiro LP e aí nos conhecemos. A gente se frequentava e chegamos a participar de um show coletivo no Parque Lage, cada um tocando suas próprias coisas – juntos nunca fizemos nada. Depois, por sermos de turmas diferentes, nós, naturalmente, fomos nos afastando. Eu gostava muito de certas composições dela: Cucucaia, Ponta de Seixas. E da sua presença de palco. Há séculos não nos vemos.

33-) RM –  Fale do seu contato pessoal e profissional com Jaques Morelenbaum?

Ivan Santos – Eu era amigo de Xangai de jogo de botão, em 1982, 1983. Nessa época resolvi tocar zabumba falei que quando houvesse necessidade eu toparia tocar com ele. Xangai falou que não, que eu tinha meu próprio trabalho e não ficava bem eu acompanhar outros músicos, etc. Logo depois, Xangai foi convidado para fazer uma temporada de duas semanas na Sala Funarte e me aceitou como percussionista. Além de tocar percussão, eu cantaria com ele alguma coisa do meu repertório.

Jaquinho fazia parte da banda e era aquela figura simpática e tranquila que nos intervalos escrevia arranjos, ao mesmo tempo em que conversava com a gente. Nunca tinha tocado com um solista tão melódico e seguro como ele e aquelas foram duas semanas cheias de novidades e ensinamentos para mim.

34-) RM –  Fale do seu contato pessoal e profissional com Oberdan Magalhães?

Ivan Santos – Quando eu morava no bairro Botafogo no Rio de Janeiro – RJ,  Oberdan era meu vizinho e eu ia muito em sua casa. Nessa época a Banda Black Rio já não existia e ele estava em evidência como músico de estúdio. Seus solos de sax e arranjos de metal apareciam nas gravações de inúmeras estrelas. Eu gostava de ficar ali escutando enquanto ele ensaiava na flauta peças clássicas olhando a TV sem som.

Às vezes eu tocava alguma coisa minha e ele fazia comentários. E me carregava com ele para assistir sessões de gravação nos estúdios da Som Livre, em Botafogo. Vivia me perguntando se eu não tinha um baião que a gente pudesse tocar como Funk. Sua casinha de vila era frequentada por Robertinho Silva, Tim Maia.

Uma vez ele me falou com sua voz grossa e carregada de sotaque Zona Norte: “Ivan, se você só souber tocar uma nota, toque essa nota bem. Excesso de notas não significa boa música”. Isso, vindo dele, confirmou uma coisa que eu já suspeitava. Pouco tempo depois Oberdan se foi. Tenho saudades dele.

35-) RM – Fale do seu contato pessoal e profissional com o percussionista Firmino?

Ivan Santos – Conheci Firmino quando interpretei um pequeno papel na excelente montagem de Fernando Teixeira do Alto da Compadecida. Essa montagem incorporou o Grupo Folclórico (de Dona Dadá) da Paraíba, onde ele tocava percussão. Lembro que logo que retornamos de uma turnê bem sucedida pelo sul e leste do Brasil, rapidamente Firmino foi se tornando um dos percussionistas mais solicitado da nossa pequena cena musical. Naqueles tempos, ir para o Rio de Janeiro era um salto no escuro quase obrigatório para quem queria viver de música. E quando eu e Tadeu Mathias resolvemos montar o show Falando Música e dar o salto, descobrimos que Firmino tinha as mesmas intenções e naturalmente ele entrou no projeto.

Nós três tínhamos backgrounds bem diferentes; uma mistura de MPB, Folk, Blues, ritmos latino americano e a Música do Nordeste. Firmino, vindo de um grupo folclórico, era uma autoridade nesses beats de zabumba e contribuiu enormemente com sua segurança e carisma para esse show ser sempre bem aceito pelo público. Na época, por influência dos meus professores na Arquitetura, eu ouvia muito Violeta Parra, Victor Jara, Tarancón. E ficava pedindo para Firmino imitar um bombo leguero na zabumba, e ele fazia. Mas também tinha uma balada onde ele tocava um tubinho de Cebion com uma enorme baqueta e o resultado era ótimo de se ouvir, mas também de se ver. Passamos oito meses convivendo diariamente e além de fazermos algumas loucuras juntos, aprendi muita música com ele. Isso foi antes de Firmino tornar-se um músico de estrelas (MPB 4, Chico Buarque, Gilberto Gil, Elba Ramalho, Gal Costa, Alceu Valença…), mas até hoje é um grande amigo.

36-) RM – Qual a sua relação pessoal e profissional com Chico César?

Ivan Santos – Nosso primeiro encontro foi na casa de Pedro Osmar. Ele devia ter uns 17 anos de idade; havia acabado de chegar do sertão, da cidade Catolé do Rocha e eu já estava começando a morar no Rio de Janeiro. Acho que a gente não trocou nenhuma palavra. Depois, através de Pedro, conheci a canção Profano. Uma canção originalíssima que foi a primeira mostra do seu talento e que me mostrou que a formação musical de Chico César abrangia muito mais coisas do que apenas a música nordestina. Já no Rio de Janeiro, eu, Lula Queiroga, Bráulio Tavares e Lenine (a Wolfgang) ensaiamos a canção Profano para um show que não chegamos a fazer. O arranjo era só de vozes, cada um começava a cantar no tom que quisesse e cada vez a polifonia resultante deixava a gente babando. Um arranjo semelhante foi usado por Lula Queiroga quando gravou esta canção no seu primeiro CD.

No nosso segundo encontro, Chico César já era sucesso no Brasil inteiro. Ele soube que eu estava em São Paulo, na casa de amigos comuns e carinhosamente foi lá me visitar. Olhou para mim e falou de um jeito engraçado que eu não era tão grande quanto ele havia me visto uns 20 anos antes. Depois disso, só fomos nos encontrar em uma entrega do Prêmio Tim e, anos depois, no Quanta Ladeira. Nossos encontros sempre foram encontros de velhos amigos, ainda que a gente quase não se conhecesse. É que o que temos em comum é muita coisa. São muitos amigos, influências, um pouco das origens, uma admiração recíproca (do meu lado eu garanto). Mas a única vez que cantamos juntos foi em 20 de janeiro de 2015 no seu show em Karlsruhe na Alemanha. Eu estava lá só para assistir e ele me convidou para cantarmos alguma coisa juntos. Foi tão bom…

37-) RM – Quais as estratégias de planejamento da sua carreira musical dentro e fora do palco?

Ivan Santos – Não sei se o que faço poderia ser chamado de estratégia de planejamento. Eu nunca fui um grande estrategista, minha energia é mais dirigida à criação. Tudo é meio orgânico, apenas vou suprindo as necessidades. Eu componho minhas diferentes canções, depois de um tempo gravo um CD e tento fazer shows para apresentar essas canções. Vez por outra tenho que tomar alguma decisão que poderá ajudar minha carreira e tento pensar logicamente.

Eu faço os meus shows sozinho, em duo, em trio ou com o grupo completo – um quarteto. Esta flexibilidade tem vários motivos. Um deles é que minha banda não é exclusiva; cada músico está também envolvido com seu próprio projeto, ou projetos de outros músicos e nem sempre está disponível quando eu preciso. Outro motivo é a grana; nem sempre existe dinheiro para se contratar um quarteto, ou mesmo um trio. Aí eu vou e tento resolver a parada com um time reduzido, ou sozinho.
No momento estou fazendo, com meu baterista, shows em lugares pequenos.

É uma forma de ir afiando uma parte da seção rítmica da banda (tocando e mesmo cantando eu me considero ritmista) e de ir espalhando minha música por onde passamos.

38-) RM – Qual foi a reação dos torcedores alemães com a goleada dada no Brasil e ser campeão do mundo no Brasil em 2014?

Ivan Santos – Foi uma vitória ridiculamente fácil que não teve absolutamente qualquer valor de conquista. Os alemães, pelo menos os com quem convivo, não são de ficar tirando a casca dos adversários derrotados e muitos deles me pediram até desculpas pelo massacre. Aqui o futebol é muito popular, mas não tem essa história de deitar nos louros. Ganhou essa, mas o trabalho continua porque daqui a pouco tem outra. Foram campeões, mas você não se defronta constantemente com essa lembrança. Quer dizer, não é uma coisa ostensivamente usada na propaganda. Com certeza é usada, mas de uma forma sutil. Mas isso tudo é só minha visão, o que observo nos lugares por onde ando. Outra pessoa possivelmente terá uma opinião diferente. Agora, na mídia, o Brasil deixou de ser o país do futebol.

39-) RM – Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira musical?

Ivan Santos – O que eu faço não são bem ações empreendedoras, existem procedimentos diários que geram outros procedimentos e compromissos. Exemplo: depois de gravar um CD, eu preciso atualizar o design do meu website, providenciar novos cartazes, fotos, releases etc. Aí mando o CD e um press release para a imprensa, algumas agências, rádios, casas de espetáculos, amigos que têm programas de rádio na internet, amigos bem relacionados com alguém do meio musical. Algumas pessoas entram em contato comigo e, dependendo do que elas queiram, começa outra parte do trabalho. Pode ser combinar uma entrevista, uma reunião para discutir uma possível apresentação, a organização de uma viagem para tocar em alguma cidade distante.
A certa altura começam os ensaios para o show de lançamento do CD. Enquanto isso, eu procuro alguma firma que tenha interesse em comercializar este CD. Depois de algum tempo disponibilizo o CD para audição no Soundcloud ou no meu site. É mais ou menos assim.

40-) RM – O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira musical?

Ivan Santos – Claro que depois da internet a venda de CDs caiu drasticamente, mas eu nunca vivi da venda de CDs. De uns anos pra cá o acesso à música do planeta ficou facilitado e isso é muito bom. Minha música está acessível pra qualquer pessoa, ainda que more no Japão, Kiev, Samoa ou Gurinhém. A dificuldade é a minha oferta se sobressair entre outros milhões de ofertas, mas ela está lá. As regras do jogo mudaram e estão mudando rapidamente. Os independentes agora têm mais chances, mas não existe apenas um caminho e nenhum deles dura muito tempo. Diariamente você tem que se ligar no que se passa neste universo digital e descobrir, ou inventar, uma maneira da sua música se beneficiar dentro dele.

A questão dos direitos autorais, da utilização indevida das músicas, ainda precisa ser regulamentada. Filosoficamente é lindo falar que toda criação artística tem que ser liberada e estar disponível para toda a humanidade. Para quem vive apenas da criação a questão não é assim tão simples.

41-) RM – Quais as vantagens e desvantagens do fácil acesso à tecnologia  de gravação (home estúdio)?

Ivan Santos – Para mim só vejo vantagens neste fácil acesso. Você mesmo pode fazer boas gravações das suas demos, esboçar seus arranjos antes de ir para um estúdio e até gravar seu CD em casa, se for talentoso no manuseio dessa tecnologia.
Agora, para a indústria do disco, que durante décadas lucrou trilhões, essa vantagem traduziu-se em desvantagem.

42-) RM – No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente uma carreira musical. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo, mas a concorrência se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Ivan Santos – Eu não penso em invadir o mundo com minha música. Eu tento ir ampliando um círculo de pessoas que se interessam pelo que eu faço. Parece um paradoxo: eu tenho que motivar o público a ir ver meu show para que ele perceba que vale a pena ir ver meu show! Mas minha música é diferente e desconhecida e como adjetivá-la? Como aguçar a curiosidade das pessoas? Bem, isso eu só consigo se for conquistando aliados; pessoas que me ajudem a disseminar o que eu faço. Às vezes são jornalistas, promotores de shows, colegas músicos. Às vezes alguém que faz parte do meu público.

Tem um dado que aqui me diferencia: eu ganhei um Grammy Latino de melhor canção brasileira em 2005. Eu e Lenine. Em 2013 fomos indicados novamente, na mesma categoria – perdemos para Chico Buarque. É engraçado, e compreensível, que as pessoas achem incrível um brasileiro morando em Frankfurt ganhar esse prêmio. Isso estimula a curiosidade de certas pessoas e quando a gente toca elas vão lá conferir.

43-) RM – Como você analisa o cenário musical brasileiro. Em sua opinião quem foram as revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Ivan Santos – Apesar de tentar me manter informado, estou longe do Brasil e acabo perdendo muita coisa. O que sei vem de determinadas fontes e a gente sabe quantas inúmeras fontes existem no Brasil.

Entre o que vi como revelações das duas últimas décadas estão Chico Science e a Nação Zumbi, que foi o que mais me tocou e deu esperanças. Teve Cássia Eller, Arnaldo Antunes, Lula Queiroga, Chico César, Seu Jorge (como cantor), Céu, Pedro Luis e a Parede, Jam da Silva, Lenine, Lucas Santanna, Rodrigo Amarante, o surgimento dos beats baianos, Zélia Duncan. Com certeza deve ter mais gente, mas, assim de repente, eu tenho dificuldade de lembrar. Como quando alguém me pede para contar uma piada; nunca lembro uma boa, apesar de conhecer centenas.

Surgir e permanecer: é difícil, o normal é ir sumindo. Mas desses aí, alguns continuam fortes.

44-) RM – Qual ou quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Ivan Santos – Têm vários: Caetano Veloso, Arnaldo Antunes, Spock Frevo Orquestra, Paulinho da Viola, Marisa Monte, Bethânia, Lenine

45-) RM – Quais as situações mais inusitadas que aconteceram na sua carreira musical?

Ivan Santos – São muitas histórias, não caberiam numa entrevista. Apenas dois exemplos:

Uma vez, tocando na festa de uma empresa aqui na Alemanha, chegou uma brasileira abusada perto do palco e o diálogo foi mais ou menos este:

– Toca música de Joaquim que todos gostam.

– Joaquim?

– Sim, o de Garota de Ipanema.

– Ah, Tom Joaquim.

– Isso mesmo.

Outra vez, na passagem de som de um show num cinema de Itabaiana, na Paraíba, vimos que não havia pedestais de microfone. Eu tive a brilhante ideia de esticar um cabo de nylon de um lado ao outro do palco e amarrá-lo nas duas partes, meio escondidas, da pesada cortina. Seria uma espécie de varal em que poderíamos pendurar os microfones. Fizemos o teste com um microfone e funcionou. Na hora do show penduramos mais três ou quatro microfones e começamos a tocar. Depois de alguns minutos notamos que o peso dos microfones puxavam as duas partes da cortina, que foi se fechando e os microfones se aproximando do chão; tudo muito lentamente. Em pânico a gente ia cantando e se abaixando, para continuar com as bocas próximas aos microfones. E a plateia morrendo de rir.

46-) RM – O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Ivan Santos – Existem muitas e diferentes maneiras da música me fazer feliz: terminar uma canção e sentir que ficou legal, fazer um bom show, tocar com músicos que puxam de mim uma música que não imaginava ser possível, a possibilidade de conhecer gente e lugares interessantes, ver o público cantando as coisas que escrevi, as grandes amizades que sem a música não existiriam.

O que me deixa mais que triste – muito puto – é a falta de ética, de gente que pega carona na sua ideia e não cita a fonte. Aquela mão fingida no ombro, aquele abraço de interesse, aquele email efusivo e saudoso de quem só quer que eu lhe consiga um contato para shows.

Na nossa profissão o ego inflado e o mau-caratismo desempenham um papel importantíssimo. É como se fossem ferramentas para serem usadas e muitos usam mesmo. O que acontece de mesquinharias não é pouco. Eu sou muito receptivo, mas já nos primeiros encontros “scaneio” os colegas que vou conhecendo.

47-) RM – Você acredita que as suas músicas tocarão nas rádios sem pagar o jabá?

Ivan Santos – Em uma rádio mainstream, não. Só se acontecesse um fenômeno, se por algum motivo minha música antes se tornasse popular. Se tocasse numa novela, como já aconteceu algumas vezes – com João Penca e com Lenine. Certas rádios aqui na Alemanha tocam algumas das minhas músicas, mas em determinados programas com intenções culturais. Já cheguei a entrar na programação musical de alguns voos da Lufthansa, que não deixa de ser uma espécie de rádio comercial. E não paguei o jabá.

Na Alemanha existe uma grande quantidade de rádios alternativas. Rádios livres com uma programação feita por pessoas da comunidade. São programas de ciência, de literatura etc. e de muita música de diferentes partes do planeta. Em algumas dessas rádios tocam meus CDs. Não só aqui, também na Holanda, Portugal, USA, Itália, França, Argentina.

48-) RM – O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Ivan Santos – Você está me perguntando que conselho eu daria, não é? Não me vejo em condições de dar conselho a ninguém. Cada história é outra história. Trilhar uma carreira musical é uma direção com dezenas de caminhos que podem ser seguidos. Uns querem fazer música; outros querem apenas fazer sucesso; outros querem fazer música que faça sucesso; uns pagariam qualquer coisa para conseguir o que perseguem; outros são mais honestos. Se uma dessas pessoas um dia me pedir uma dica específica, talvez eu tenha alguma resposta, talvez não.

49-) RM – Quais os motivos que levaram você a trabalhar com música na Alemanha? Qual a cidade que você mora?

Ivan Santos – Eu moro em Frankfurt desde 1992. Nesses 22 anos morei alguns meses em Karlsruhe – bem perto da fronteira com a França – e cerca de dois anos na Renania Palatina, em uma Vila produtora de vinho de 700 habitantes. O resto do tempo, uns 20 anos, em Frankfurt, a cidade onde vivi mais tempo em minha vida.

Eu vim para a Europa porque estava cansado do Brasil, cansado de mim no Brasil, querendo recomeçar tudo – de preferência, do zero. A Alemanha seria esse zero; cheguei aqui sabendo pronunciar errado eu e farmácia. Se você não sabe falar, não sabe dizer o que sente ou pensa, você já não é mais aquele “você a quem estava acostumado. Isso já foi um interessante e sofrido recomeço e bem parecido com o que eu havia planejado.

50-) RM – Nos apresente a cena musical da cidade que você mora?

Ivan Santos – Eu não conheço tudo, mas sei de algumas coisas. O jazz conta com bons músicos e a HR Big Band, da TV e rádio estatal, é de altíssimo nível.

Aqui também tem a Ensemble Modern, uma finíssima orquestra de câmera que se dedica à música contemporânea. O último trabalho de Frank Zappa foi uma composição encomendada, e interpretada, por este grupo.

No auge da Tecno Cultura, Frankfurt, ao lado de Berlim, era um dos polos do movimento e o DJ Sven Väth sua figura principal. Existe a música dos turcos, dos gregos, dos Senegaleses, dos ciganos – romenos, tem um finlandês que é mestre do ukulelê e líder de uma banda anarquista, tem algumas bandas de garotos de brit e indie Rock, tem a banda de um cantor italiano que toca uma espécie de Ska, tem um argentino que escreve Tangos meio sinfônicos, outro que toca bandoneon, um egípcio que toca oud já se afastando do tradicional…

Conheço ótimas cantoras alemãs, mas todas com forte sotaque de Soul ou de jazz, sem muita personalidade própria. Tem outros brasileiros cantando e tocando, mas nada autoral. Tem alemão que faz música brasileira, mas mesmo quando eles são bons músicos, não acrescentam nada. A parte de formação é muito bem servida pela universidade de música, conservatórios e inúmeros cursos.

Zoom e Batschkapp são dois locais para shows com uma programação interessante de música Pop. Na Brotfabrik a programação vai mais à direção das músicas ligadas à tradição dos seus países de origem – o que se convencionou chamar World Music. O Jazzkeller é um tradicional clube de jazz, mas onde os brasileiros são bem vindos. Tem o auditório do Centro de Convenções e a Festhalle, ambos tem capacidade para umas 4.000 pessoas.

No auditório da rádio HR cabem 700 pessoas e lá eu vi apresentações da música louca dos pigmeus, de um grupo do Laos e até Zélia Duncan; também já toquei lá durante uma noite latino-americana. O Alter Oper é o teatro municipal daqui e a programação fica entre música clássica e alguns dos grandes nomes do Jazz. Tem alguns locais mais alternativos para pequenos públicos e um ou outro bar oferece música ao vivo. No verão acontecem as festas de rua, sempre com uma grande quantidade de palcos e uma enorme quantidade de bandas de cover.

Falta uma cena underground, em que você possa se surpreender de uma maneira mais profunda, não apenas com o virtuosismo técnico de quem se apresenta.

51-) RM – Quais foram os motivos que levaram você escolher morar na Alemanha? Qual idioma que você fala na Alemanha? Quais foram as dificuldades de adaptação?

Ivan Santos – Eu falo alemão e até tem gente que diz que eu falo bem, mas eu acho que falo mal. Sempre comparo meu desempenho nesse idioma complexo com meu português. Assim sempre vou estar insatisfeito. Quando toco em outros países que não sejam Áustria e Suíça, meu inglês dá para improvisar uma conversa com o público e até para aparecer em programas de TV.

No início, mesmo sem falar a língua, o contato com as pessoas não era o maior dos problemas. Eu tocava em uma banda alemã de música brasileira dançante, música facilitada para fazer o pessoal feliz. As pessoas gostavam e eram elas, muitas delas, que me procuravam querendo fazer contato. Aí se dava sempre um jeito de conversar as amenidades de sempre.

Essa época mais dura, que é a inicial, não doeu tanto porque eu estava tocando todo final de semana e no tempo livre me enfurnando, sozinho, em um porão para ensaiar e ter ideias. Eu tinha motivos imediatos para ensaiar, tinha obrigações de músico e de arranjador.

A gente viajava muito e tocava em situações e lugares estranhíssimos. Mas tudo era desconhecido e novo e eu via uma riqueza enorme naquelas experiências. Depois de certo tempo comecei a achar incômodo não conhecer pessoas que dividissem comigo uma visão crítica ou estética das coisas que eu estava vendo, vivendo. Essa foi minha primeira solidão.

Outra coisa que doeu é que eu, que no Brasil era todo saído, amarguei os primeiros quatro anos sem namorada. Eu não sabia se entendia as alemãs, não sabia interpretar seus olhares, não sabia se aquele sorriso era de flerte ou de cumprimento. O jogo da sedução parecia ser outro – deve ser, mas hoje eu já não noto as diferenças.

Essas minhas dificuldades foram normais, o país me recebeu muito bem e esse tratamento permanece até hoje. Não tenho nenhum trauma de rejeição.

52-) RM – Quais os prós e contras de um cantor estrangeiro trabalhar no mercado musical Alemão?

Ivan Santos – Isso é meio clichê, mas vai como regra geral: Se você está querendo fazer uma música que ainda não foi feita, vai ter problema com certo público brasileiro. No Brasil, de alguma forma, as pessoas percebem as mudanças que a música vai sofrendo. Mesmo que não gostem do que ouvem. Já a tendência de quem vem morar na Alemanha é parar no tempo. Depois de alguns anos vivendo aqui, as pessoas começam a ter uma ligação nostálgica com a música e só estão preparadas para ouvir o que já conhecem. Pouca gente está bem informada sobre o que existe de novo no Brasil. Mesmo com a internet.

Se você toca para um público alemão, há o problema das letras. O português é um idioma definitivamente pouco popular. Tudo que eu canto é ouvido apenas como um som, desprovido de sentido. Uma pena porque a maioria das minhas letras trata de assuntos que interessam aos alemães. Ao vivo, o que dá para ser explicado; eu explico rapidamente, para o show não perder o ritmo. Mas eles não têm como apreciar a construção dessas letras, os jogos de palavras, as sutilezas, as referências, as brincadeiras. A canção tem que convencer muito mais pela melodia, pelo ritmo, pelo arranjo. Embora a sonoridade das palavras também seja muito importante na comunicação. Mas apesar da maioria do meu público não ser de brasileiros, escrevo pensando no Brasil, em um público imaginário que um dia talvez venha a me assistir.

Aqui, se você fala que faz música brasileira, a maioria das pessoas lhe imagina tocando o que elas têm como referência: Bossa Nova, Aquarela do Brasil, Axé, Baden Powell, Gilberto Gil, Marisa Monte. Mas quando eu toco minha música, cheia de elementos da música Pop internacional que eles já ouviram, os alemães ficam surpresos e agradecidos por se identificarem com aquela coisa desconhecida. A grande dificuldade é oferecer minha música. Como descrevê-la? Esta é a parte mais difícil. As minhas referências brasileiras mais fortes são os ritmos do Nordeste e isso aqui ainda é pouquíssimo conhecido. Mesmo os músicos brasileiros são bastante desinformados desse assunto.

53-) RM – Existe algum tipo de preconceito contra músicos estrangeiros atuando com música na Alemanha?

Ivan Santos – Meu ex-sogro, que tocava em uma orquestra sinfônica, uma vez me contou que havia músicos lutando por uma reserva de mercado, já que os asiáticos, extremamente bem formados, estavam ameaçando tomar as vagas de muito alemão nas orquestras. Mas estes músicos não são artistas, são operários bem treinados, desprovidos de personalidade. Isso faz tempo e atualmente não sei como anda esta situação.

Talvez também aconteça coisa parecida na música Pop, mas nunca experimentei esse tipo de preconceito.

O Brasil tem uma imagem muito simpática e o exótico ainda funciona como ingresso para este outro mundo. Ainda que música brasileira raramente toque em estação de rádio convencional. Tenho vários colegas alemães com quem já colaborei ou que colaboraram comigo. Vários alemães tocaram na minha banda, meu baterista é alemão… Também a música brasileira aqui não é uma coisa tão forte que chegue a ameaçar as outras músicas. Mas já senti essa discriminação, esse olhar torto, vindo de músicos brasileiros que me viam como a concorrência.

54-) RM – Quais as diferenças do mercado musical alemão para o brasileiro?

Ivan Santos – Não sei. Há anos estou fora do Brasil e aqui eu sou independente. Eu atuo em uma área bem delimitada. Eu não faço shows para milhares de pessoas nem apareço semanalmente em programas de TV. Eu não tenho uma gravadora por trás, promovendo meus CDs. Eu sou meu próprio empresário, assessor de imprensa, tour manager, designer, web master, produtor.

Uma coisa digna de nota, neste circuito onde atuo, é a seriedade. A palavra ainda vale. Grande parte dos meus shows é acertada na confiança, sem contrato, sem outra garantia que não seja o compromisso que cada um assume. Nunca levei um calote.

De vez em quando leio sobre enormes sujeiras no circuito dos super stars. Quer dizer, quando o jogo é alto a sujeira é a mesma em qualquer parte.

55-) RM – Quais as dicas para um músico brasileiro ter um bom desenvolvimento de carreira na Alemanha?

Ivan Santos – Não sei se minha carreira na Alemanha é bem desenvolvida. Sair dando dicas pode ser irresponsabilidade. Talvez pudesse dizer o que sempre digo para mim mesmo: nunca faça tudo o que o público espera de você, mas também não frustre completamente suas expectativas.

56-) RM – Você trabalha com música nos países vizinhos da Alemanha?

Ivan Santos – Logo que cheguei aqui tocava com frequência na Suíça. Nos últimos anos toquei muito na Croácia e cheguei até a aparecer na revista Playboy, dando entrevista. Também já toquei na França, Bélgica, Holanda, Áustria, Turquia, Inglaterra. Mas a maior parte do tempo, eu fico na Alemanha.

57-) RM – Você pensa em voltar a trabalhar com música no Brasil?

Ivan Santos – Eu já trabalho. Eu tenho meus principais parceiros aí. Quando faço meus CDs sempre dou um jeito de gravar uma parte no Brasil. De vez em quando recebo um convite e vou até aí participar de algum projeto ou de algum show. Acho isso bom e muito necessário para mim. Mas morar no Brasil não está nos meus planos.

58-) RM –  A sua maneira de lidar com a palavra possibilita ao público de qualquer país a se inserir no contexto sugerido. Como você vê ou vivencia as diferenças culturais ao pensar no texto para uma canção?

Ivan Santos – Quando eu cheguei à Alemanha, notei de cara que o lado que eu considerava mais forte em minhas canções, a letra, havia acabado de ser deixado de lado pelo público. Isso me levou, inicialmente, tanto a virar mais músico como a começar a pensar mais no som da palavra e um pouco menos no seu sentido.

Um exemplo é a canção Go-En-Lai, em que as palavras, ou as frases, podem não ter sentido, mas com certeza carregam muito sentimento. Como quase nunca trato de temas regionais, minhas letras podem ser traduzidas e ganhar o interesse de alguém que não seja brasileiro. Quando escrevo uma letra eu quase sempre estou pensando no Brasil e em mim. Acho que uso o Brasil como uma miniatura do mundo e a mim como um arquétipo do cara que está sempre pulando de um lado para o outro. Isso me lembra daquela história antiga de conhecer bem sua aldeia como meio de se tornar universal.

É possível que as diferenças culturais penetrem nos temas e nos textos sem que eu ao menos note. Uma letra como a de Lady Multimelancólica, que não foi planejada, acho que nunca conseguiria escrever no verão do Brasil. Por mais que eu permaneça como era antes, muita coisa mudou em mim. Pessoas são permeáveis e é pra mudar que a gente se muda.

59-) RM – Se o idioma português é uma barreira para os alemães entenderem as suas letras, por que você não escreve as letras em inglês para ser melhor entendido pelo público local?

Ivan Santos – Meu objetivo, quando escrevo, é equilibrar a forma e o tema-conteúdo. Embora a forma possa ser mais importante que o assunto, o contrário nunca acontece: para mim o assunto nunca é mais importante que a forma.

Escrevendo em inglês esta intenção poética seria frustrada. A comunicação seria mais fácil, claro, mas como o meu caso é com a língua brasileira, o nível iria cair muito. Mas tenho algumas parcerias com amigos que de vez em quando escrevem para mim alguma letra em inglês.

60-) RM – Morar na Alemanha foi uma forma de auto exílio?

Ivan Santos – Sim, às vezes você só enxerga melhor alguma coisa quando se afasta dela. Ou quando, pelo menos, muda o ponto de observação.

61-) RM – Morar na Alemanha funciona como não se tornar “carne de vaca” no mercado musical independente do Brasil?

Ivan Santos – Dificuldades existem lá e cá, só que diferentes. No Brasil você corre o risco de ser “mais um”, aqui você corre o risco de ser sozinho, de fazer parte de grupo nenhum. São duas situações incômodas, eu optei pela que tem mais a ver com meu tipo.

62-) RM – Qual o papel social do artista no Brasil?

Ivan Santos – Acho que o papel do artista brasileiro é igual ao do artista de quase todos os países ocidentais. O que muda é a intensidade com que toca em um ou outro ponto. Eu admiro muito mais os artistas que transgridem, mas acho que ser apenas um animador já pode ser muito, desde que sua criação tenha alma.

Mas como o Brasil é um país em que ainda se lê muito pouco, a poesia, as posturas filosóficas, comportamentais e políticas sempre foram muito mais popularizadas pelas canções do que pelos livros – especialmente a partir dos anos 60. E não só no meio dos jovens. Por isso esse papel de “educador”, de “missionário” me parece muito mais intenso – e necessário – no Brasil do que nos países desenvolvidos.

Não que eu ache que o artista tenha que sacrificar sua estética em função de uma “mensagem educadora”. Educação estética é imprescindível, mas quando as duas coisas caminham juntas, ele ganha um lugar especial na nossa história.

Só pra citar os clássicos, é o caso de Noel Rosa, Luiz Gonzaga, dos Tropicalistas, de Chico Buarque, que contribuíram de uma maneira mais completa com a música brasileira. Animadores, músicos revolucionários e ao mesmo tempo cantando textos que diziam “coisas” a que a sociedade naquele momento dificilmente teria acesso por outros meios.

Eu tento ir mais por essa linha, mas tenho um grande respeito pelos artistas “alienados”. O iê-iê-iê, com seu instrumental inglês, suas melodias italianas e suas letras sobre namoros inocentes e personagens engraçados, entre outras coisas introduziu a guitarra elétrica no Brasil e motivou milhares de adolescentes a tocarem um instrumento. E um desses garotos era eu.

63-) RM – Quais os seus projetos futuros?

Ivan Santos – Fazer o mesmo que venho fazendo só que cada vez mais diferente.

64-) RM – Quais seus contatos para show e para os fãs?

Ivan Santos –  – www.ivansantos.de[email protected]

 

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor Responsável pela revista Ritmo Melodia desde 2001, músico, letrista e poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, sempre se preocupou em divulgar a música (popular, regional, instrumental e erudita) com entrevistas e artigos sobre os músicos e artistas brasileiros.