Felipe Ávila

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O instrumentista, guitarra, violonista, compositor, arranjador e professor paulistano Felipe Ávila  começou a tocar aos 10 anos de idade, e aos 17 começa estudar música para entender o que fazia. Achava as suas composições diferentes do convencional, queria buscar novos e maior número de elementos para continuar compondo. Tinha aulas de piano e era autodidata na guitarra e violão.

Três professores o marcaram de forma expressiva: Luiz Roberto Oliveira, apresentou à música brasileira (Felipe só queria tocar rock!) e com quem desenvolvi o conceito de disciplina e o conhecimento da música eletrônica e do sintetizadorCláudio Leal com o trabalho de harmonia e improvisação foi essencial para o Felipe queria e buscava. Ele que sempre foi um músico de forte intuição e ousadia considerava muito importante ter a consciência do que está acontecendo. E o Félix Wagner com quem desenvolveu a percepção. Contribuiu muito para aprendizado: “do quê e como ouvir”, além de ensinar a escrever solos – Felipe analisava e tocava – era um estudo complexo que a princípio parecia impossível. Descobriu músicos e trabalhos que não conhecia – além dele (o professor) que é um grande instrumentista – sem falar em grandes solistas, mesmo aqueles cujos instrumentos eram diferentes do meu, como Charlie Parker, Baden Powell e outros.

Ele teve poucas influências de guitarristas brasileiros. Nessa época, não havia material, quase sempre o que era disponível referia-se a guitarristas americanos ou europeus. Hoje isto mudou, comenta feliz Felipe. Suas referências musicais na música e na guitarra: Helio Delmiro, Heraldo do Monte, Wes Montgomery, George Benson, Django Reinhardt, Joe Satriani, Steve Morse, John MacLaughlin, Barney Kessel, e no violão: Baden Powell, João Bosco, Leo Browell, Teo de Barros, além de outros músicos como Hermeto Pascoal e o Grupo Um. 

Felipe já se apresentou no Brasil e no exterior, no contato com tantas pessoas e lugares diferentes que conviveu e compartilhou os resultados, sua maior felicidade foi  de tocar com grandes músicos como: Felix Wagner, Lelo Nazário e Zé Eduardo Nazário, Teco Cardoso, Itamar Collaço, Vinícius Dorin, entre outros. E de participações e da criação de vários grupos instrumentais – Sexo dos Anjos, Casa 3, Orquestra Estranho Hábito, e mais recentemente, Os Cinco, e o Power Trio “Percussônica”. E como uma criança que ganha sua primeira bicicleta ele conta da sua guitarra dos sonhos: “Sempre quis ter uma Ibanez GB10, tanto por sua beleza como pela qualidade do som. Foi desenhada para o George Benson, um dos meus maiores ídolos. Semi-acústica, ela possui dois captadores IBZ GB Special (braço e ponte), braço de ébano, tampo de spruce e lateral e fundo de maple. No início dos anos 1990, uma cantora e violonista recém-chegada do Japão me procurou para que lhe fizesse arranjos de seu próximo disco. Quando passei o orçamento do meu trabalho, ela me propôs pagar com uma das guitarras que havia trazido do Japão, que eram uma Joe Pass acústica e uma Ibanez GB10 semi-acústica. Não acreditei que essa oportunidade estava batendo à minha porta. Mal consegui escrever os arranjos, contaminado pela ansiedade de receber logo o meu ‘cachê’. Foram muito trabalhosas as gravações e criação dos arranjos, mas valeu a pena”.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Felipe Ávila   para a www.ritmomelodia.mus.br , entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 05\05\2007: 

01) Ritmo Melodia: Qual a sua cidade de origem e data de nascimento?

Felipe Ávila: Nasci em São Paulo, capital, no dia 27 de maio de 1957.

02) RM: Como foi o seu primeiro contato com a música. 

Felipe Ávila: Foi em casa mesmo, através dos meus irmãos e minha mãe que estudavam e tocavam piano. Aos 9 anos de idade, comecei a tocar o violão e aos 11 anos ganhei uma bateria que era a minha grande paixão, mas logo tive que voltar a tocar violão, meus irmãos perderam minha bateria na rua, na comemoração do terceiro título mundial do Brasil no futebol. Eu morava no bairro de Perdizes, quase em frente à minha casa, aconteciam os ensaios de um grupo de Rock com músicos uruguaios e brasileiros que tocavam na Jovem guarda da época, acho que o grupo chamava Bitniks. Eles deixavam que eu ficasse assistindo os ensaios diários deles e, nos intervalos, eu podia tocar a bateria. Isso foi muito bom pra mim, poder observar como acontecia um ensaio, a dinâmica do trabalho deles além de ter recebido algumas dicas que eles me deram em função do meu interesse pela música.

03) RM: Quais foram as suas influências musicais? Quais as que permaneceram? E, quais são as atuais?

Felipe Ávila: Aprendi a tocar o violão tocando a música do Beatles, mas já curtia ouvir outras coisas como: Jimi Hendrix, Alvin Lee, Yes, e também a música brasileira do Edu Lobo, Tom Jobim e Baden Powel. Comecei muito cedo a compor e cedo, também, percebi a necessidade de estudar para poder entender como aquela engrenagem funcionava. Compunha coisas diferentes, mas queria mesmo era tocar rock. Mas quis o destino, que eu fosse estudar música com o Luiz Roberto Oliveira, um grande professor e maestro da nossa música. Passei então a conhecer muitos instrumentistas e compositores brasileiros como Tom Jobim, Hermeto Pascoal, Vitor Assis Brasil entre muitos outros. Penso que minhas influências, e mesmo as que permanecem até hoje, é um pouco de tudo isso que mencionei que se somou aos músicos e compositores que tive a oportunidade de ouvir e conhecer mais tarde, como: Grupo UM, Felix Wagner, Heraldo do Monte, Hélio Delmiro, Nelson Aires, Roberto Sion, Weather Report, Wes Montgomery, George Benson, Miles Davis, Django Reinhardt entre muitos outros.

04) RM: Qual a sua formação musical (Teórica) e a sua formação escolar?

Felipe Ávila: Minha formação escolar é o segundo grau completo, naquela época não havia curso superior que pudesse acrescentar muita coisa para um músico da área “popular”. Na área musical, pude ter diversos professores particulares, incluindo especialmente o Luiz Roberto Oliveira, com quem estudei teoria e harmonia, em seguida o Cláudio Leal, harmonia e improvisação, o Roberto Sion com quem estudei improvisação e, com o Felix Wagner, trabalhei percepção e improvisação. Tecnicamente, sou autodidata – meus professores não tocavam o violão ou guitarra – eles utilizavam, na maioria das vezes, o piano.

05) RM: Quando começou a sua carreira musical?

Felipe Ávila: Comecei muito cedo a dar aulas. Com 14 anos de idade já tinha alguns grupos que se apresentavam em festas e nas escolas. Foi nessa época que ganhei meu primeiro cachê, tocando num Sanatório (risos). É sério!. Como foi um grande sucesso nossa apresentação, muitas portas se abriram depois (risos). Mas acho que o primeiro trabalho profissional com expressão mesmo, foi em 1979, tocando com a cantora Maria Alcina no auge da carreira e dos sucessos dela. Era uma banda grande com metais, arranjos do maestro José Briamonte, e a base, era um grupo o Casa 3 que tocávamos músicas instrumentais nossas. Foi importante pra mim, no sentido de perceber como um grande show acontecia, a responsabilidade em tocar certo, de ter contato com uma grande produção, TVs, mídia, viagens (minha primeira viagem de avião) e, contato com um grande público.

06) RM: Quais foram os primeiros obstáculos no início da sua carreira?

Felipe Ávila: Penso que a falta de uma condição financeira mais privilegiada por parte da minha família, que me possibilitasse ter acesso ao estudo diversificado de forma mais freqüente e que a falta de equipamentos de som com qualidade, discos, e instrumentos, foi o lado mais chato do início. Havia uma dificuldade muito grande em conhecer outras pessoas da minha idade e com vontade de se tornarem músicos e que tocassem outros instrumentos para que pudéssemos ter um grupo. Um cara que tocasse Baixo, por exemplo, era muito difícil. Também tentei por várias vezes arrumar um professor de guitarra em vão.  Os bons guitarristas daquela época que procurei para ter aulas como o Aires, Antenor, e Domingos, não tinham tempo para dar aulas em função de muitas gravações e trabalhos diversos. Para estes músicos da época, era um mercado muito privilegiado em termos de trabalho. Acabei por estudar um pouco de violão clássico num conservatório. Foi legal, mas não era o que eu queria.

07) RM: Quais os fatos inusitados que você já passou algum show?

Felipe Ávila: AH! Essas coisas acontecem aos montes (risos). Ter tocado em um grande show internacional, na inauguração de um cemitério foi uma coisa estranha (risos). Mas acho que a coisa mais maluca mesmo, foi ter tocado num show-comício, na cidade de Assis – SP no início dos anos 80, com o cantor Waldick Soriano. Ele cantava em cima de um caminhão-palco, junto com o prefeito e autoridades locais, e a banda que o acompanhava, num outro caminhão do outro lado da avenida, muito distante mesmo. O atraso do som era enorme. Ele acabava de cantar a música uns 5 minutos antes da banda, era muito louco aquilo. E, depois deste show, continuamos em cima do caminhão, tocando pela cidade como se fossemos um trio-elétrico. O motorista do caminhão se empolgava com o som e corria (Risos). Ninguém conseguia seguir o caminhão, as pessoas também corriam e os galhos das árvores iam derrubando tudo que estava em cima do caminhão, inclusive os músicos e os instrumentos. Só vendo para crer!

08) RM: Quantos CDs lançados?

Felipe Ávila: Já gravei muitos discos e CD’s para artistas diversos e vou focar naqueles que são mais expressivos e artísticos: 1-) No Lago do Olho (Cid Campos ) 2001.  2-) Fala da Palavra (Cid Campos ) 2003; São dois CD’s do Cid Campos – um trabalho de poesia com música. Cid é filho do poeta Augusto de Campos e tem vários parceiros nas músicas dele como: Walter Franco, Péricles Cavalcanti, Augusto de Campos, Adriana Calcanhoto e Arnaldo Antunes entre outros. Uma música Pop-contemporânea com poesia. 3-) Percussônica (Zé Nazário, Lelo Nazário e Felipe Ávila) em 1998. Este CD foi gravado ao vivo no espaço Domus (SP) durante o Zildjian Day Brasil. Uma fusão de jazz de vanguarda com ritmos brasileiros e música contemporânea, misturando timbres acústicos e eletrônicos com muita energia e improvisação. 4-) Janela (Felipe Ávila) 2003. Meu primeiro CD autoral, onde pude contar com as participações de grandes músicos como: Zé Nazário, Lelo Nazário, Itamar Collaço, Vinícius Dorin, Daniel D ‘Alcântara e Marinho Andreotti. Este CD resgata algumas músicas minhas mais antigas que tocávamos no Grupo “Sexo dos Anjos” e também outras mais atuais.  Um jazz brasileiro. 5-) Percussônica ao Vivo – Hoje (Zé Nazário, Lelo Nazário e Felipe Ávila) 2002. Gravado em 15/10/98 no Zildjian Day Brasil no espaço Domus, São Paulo, e em 22/10/02 no projeto Jazz em Harmonia Brasileira, no Centro Cultural do Banco do Brasil, em São Paulo. Neste CD registramos um concerto diferente com músicas novas que adaptamos para este “Power Trio” e algumas músicas do CD anterior. 6-) Beatles Brasil (Felipe Ávila) 2005. Neste CD, reuni 12 músicas dos Beatles, algumas mais conhecidas e outras menos conhecidas do grande público, com uma interpretação bem brasileira. Zé Nazário, Lelo Nazário, Itamar Collaço e Nando Miranda são os músicos que gravaram comigo. 7-) AFRICASIAMERICA (Lelo Nazário) 2006. Lelo Nazário é meu amigo-irmão, e que considero um dos maiores músicos do mundo. Neste CD, têm uma música da Léa Freire e outra do Benjamin Taubkin. Todas as outras são de autoria do Lelo. Tive a oportunidade de gravar 4 faixas neste belíssimo CD.

09) RM: Por que você optou pela música instrumental?

Felipe Ávila: Não sei se a música instrumental foi uma questão de opção. Naturalmente, desde que comecei a tocar, não sentia prazer em cantar, gostava mesmo era de tocar. Hoje, durante meus estudos, gosto de cantar os solos dos diversos instrumentistas que ouço. Percebo que cantando, a assimilação é muito maior.

10) RM: O mercado para a música instrumental melhorou ou piorou nos últimos anos?

Felipe Ávila: Acho que continua a mesma coisa (risos), sempre foi muito difícil e continua sendo. Esta é uma questão muito complexa que envolve educação, cultura, espaços específicos para podermos tocar, as pessoas saberem e quererem ouvir etc…

11) RM: Fale um pouco da sua experiência como professor. Quais são suas dicas para um aluno se dá bem nos estudos musicais?

Felipe Ávila: A princípio, comecei a dar aulas por necessidade, preferia mil vezes ter uma agenda cheia de shows, claro. Mas com o passar do tempo, comecei a gostar de dar aulas. O relacionamento que se cria com os mais jovens é muito legal. Eu me organizei de tal maneira, que hoje tenho todo o material escrito no computador, um estúdio onde gravo CD’s para o aluno tocar junto com as músicas originais e também com playbacks, para desenvolver solos. Para os alunos interessados, que estudam e querem se tornar um profissional, não tem segredo, digo a eles: Estudem muito, procurem tocar e conhecer todos os gêneros musicais sem preconceito e tenham bons equipamentos. Também digo para se relacionarem com outros músicos, que tenham disciplina e sejam perseverantes. Nada vem fácil e de graça.

12) RM: Na sua opinião, o que é pior. Tocar com um músico de pouca experiência/conhecimento ou tocar com músico que seja “estrela” demais? 

Felipe Ávila: Nunca tive a oportunidade de tocar com um músico “estrela” demais. Conheci e toquei com grandes músicos muito exigentes, mas não “estrelas”. Para mim, o grande músico também envolve a pessoa, o ser humano. Mas por algumas vezes, toquei com músicos com pouca experiência. É difícil, o som não rola, parece que tem um caminhão de uma tonelada em cima de você (risos). Quando este músico de pouca experiência e conhecimento está aberto a sugestões e dicas, maravilha, da para levar a situação com mais humor e com o pensamento de que a coisa vai melhorar (risos). Mas quando este músico ruim se acha ótimo e cheio de ideias e é um líder, aí a coisa fica feia. Então, me tira daqui!(risos).

13 ) RM: Com você se define como guitarrista? 

Felipe Ávila: Sou autodidata, como disse e nunca tive um professor de guitarra. Não que eu quisesse ser um, mas naquela época que resolvi começar a estudar música, os poucos guitarristas que tinham no mercado não tinham tempo para dar aulas ou não eram professores. A guitarra é um instrumento de muitos atalhos e truques e, sozinho, perde-se muito tempo para descobrir essas particularidades do mesmo. Mas, voltando à sua pergunta, me considero um guitarrista versátil e estudioso. Adoro tocar guitarra.

14) RM: Com você se define como violonista?

Felipe Ávila: Sempre gostei muito de tocar o violão e já estudei muita coisa da música erudita. Mas, chegou um momento da minha vida profissional que tive que optar em estudar e tocar mais a guitarra. Era mais requisitada para shows e gravações. O violão é outro instrumento, outra técnica. Eu utilizo muito o violão para compor e nas gravações que é requisitado. Sou um violonista que toca violão (risos).

15 ) RM: Com você se define como compositor?  Você tem parceiros para compor? Você compõe canções fora do ambiente da música instrumental (letra e música)?

Felipe Ávila: Nunca tive parceiros para compor, tipo, um músico faz a primeira parte e o outro a segunda. Não sei fazer isso e não me arrisco (risos). Gosto de compor quietinho aqui no meu estúdio e sozinho. E sempre só fiz música instrumental. O que acontece no Power Trio “Percussônica”, Eu o e o Lelo, é uma intimidade e concepção musical tão próximas que, as improvisações simultâneas parecem temas escritos muitas vezes. Muito ensaio, também pode fazer um grupo chegar neste estágio de entrosamento, que é maravilhoso. Procuro ser um compositor original, buscando idéias diferentes, criando sons e timbres diferentes nos equipamentos.

16) RM: Quais músicos, dos que vêm te acompanhando na carreira, você passou a admirar?

Felipe Ávila: O Brasil é um país-celeiro de muitos músicos de alto nível e, em várias oportunidades, pude conhecer, tocar e trabalhar com muitos deles. Mas, no meu trabalho, procuro me cercar de amigos e pessoas que tenham prazer em tocar a minha música, como também de ótimos músicos. Assim, tudo fica mais fácil. Vou citar alguns que trabalham comigo hoje: Zé Nazário e Nenê (Bateria-percussão), Itamar Collaço e Marinho Andreotti (Baixo acústico e elétrico), Lelo Nazário e Moisés Alves (Teclado), Vinícius Dorin e Vitor Alcântara (Sax/Flauta). Com destaque para os trabalhos do Lelo que, além de tocar também, faz toda a mixagem e masterização dos CDs.

17 ) RM: De quais grupos musicais você participou? Qual o(s) motivo(s) que levou ao fim das formações?

Felipe Ávila: Na década de 80: Grupo Casa 3, Sexo dos Anjos, Patif  Band, Sexteto do Félix Wagner e Orquestra Estranho Hábito, Grupo Velocípede. Nos anos 90: Os Cinco, e o Power Trio Percussônica. Os motivos para o fim dessas formações são diversos, e no nosso caso, não me lembro de problemas específicos de relacionamento, brigas por ganância, ou mesmo conflitos de valores e interesses – que são a causa de boa parte das separações – nos diversos grupos nos quais eu curti muito tocar, os fatores de interferência foram desde a vontade de se fazer outro tipo de música, até problemas com agenda dos músicos ou falta de perspectiva e falta de espaços para tocar. Hoje, acho que do jeito que a coisa vai… Falta até público que exija música de qualidade.

18) RM: Você participou, na década de 80 do movimento Lira Paulistana e das vanguardas da MPB de São Paulo. Conte como foi essa experiência. 

Felipe Ávila: Foi um momento muito criativo dos músicos e de um mercado aquecido da música em São Paulo. Muitos grupos e trabalhos com qualidade surgiram naquela época. E, talvez o fato mais significativo, foi o de termos um público grande que nos acompanhava em todo este momento histórico da nossa música.  O Lira Paulistana e também o programa da TV Cultura Fábrica do Som, os Circos montados pela cidade, o Metrô, e os bares com música ao vivo, como o “Lei Seca” e “Penicilina”, foram pontos expressivos daquele momento. Por outro lado, a confecção de um disco, ainda era uma ideia de alto custo no sentido do investimento e eram poucas as gravadoras que se interessavam por aquele tipo de música. Então, surgiu o disco independente.  O “Grupo UM” lançou “Marcha Sobre a Cidade” que foi o primeiro disco independente do Brasil, em 1979, Era muito bom participar dos Festivais de Música e dos programas culturais, onde podíamos reunir os trabalhos mais significativos desta época como: Arrigo Barnabé, Grupo Um, Grupo Rumo, Vânia Bastos, Suzana Salles, Virginia Rosa, A Divina Increnca, Banda Metalurgia, Sexo dos Anjos, Sossega Leão, Itamar Assumpção e tantos outros. Eram trabalhos artísticos de alto nível que sempre traziam novidades.

19) RM: Você acha que este movimento serviu como uma forma do público tomar contato com a música regional de São Paulo?

Felipe Ávila: Foi um momento mágico e com uma série de coincidências, desde as pessoas responsáveis pelas programações de espaços culturais que estavam a fim de fazerem coisas boas, passando por um momento muito criativo da música e, claro, com o público consumindo tudo isso.

20) RM: Como você analisa o panorama musical de São Paulo no passado e nos dias atuais?

Felipe Ávila: Acho que no passado, as opções de casas noturnas, teatros, Festivais de Música e eventos culturais, as ofertas eram maiores. Penso também que a intenção de se fazer um trabalho artístico,  com originalidade e não comercial, era o principal. Ser original  e poder mostrar alguma coisa nova era o que importava.  Hoje temos os Sescs, alguns poucos centros culturais de grandes empresas, e alguns poucos museus, onde acontecem alguns poucos eventos. E ainda podemos contar com uma infra-estrutura de som, luz, divulgação e um cachê razoável (já foi melhor) para as apresentações. E, o público que frequenta estes lugares é bom, gostam de ver e ouvir coisas novas. Há muitos grupos novos surgindo com qualidade, e que precisam utilizar estes espaços disponíveis. Mas, uma coisa que tenho observado, é que estes espaços têm sido utilizados por artistas já famosos e consagrados pelo grande público, artistas que poderiam enfiar a mão no bolso e bancar as suas apresentações nos grandes teatros e, com certeza, teriam o retorno do investimento. Além do que, os grandes patrocinadores, só patrocinam os grandes artistas.  Então, os espaços de hoje acabam ficando pequenos para tantos trabalhos a serem mostrados.

21) RM: Como você analisa o fato de a música erudita ser colocada em posição de superioridade à música popular? 

Felipe Ávila: Ah! Isso para mim é ridículo. Só existe a música boa e a música ruim. Antigamente, o que chamamos de música erudita hoje, era a música popular da época. Os músicos faziam parte da corte nos castelos e compunham para as festas da burguesia. Era música para dançar, ouvir, etc. E, paralelo a isso, também tinha a música “mais popular” que acontecia fora dos castelos, nas ruas. Tudo é música!

22) RM: O que você sugere para que a música , seja erudita ou instrumental, possa alcançar a camada mais popular?

Felipe Ávila: Primeiro. Acho muito importante que, as pessoas que detém o poder de decidir o que pode ser tocado e mostrado para o público, sejam abertas e cultas, para poderem oferecer variedade e qualidade nos eventos. A grande mídia, não divulga nada, só quer criticar (risos). O papel da mídia não é esse! Jornais e revistas deveriam, ambos, divulgar os novos trabalhos e deixarem o público decidir o que é bom ou ruim. Quando o público tem a opção de comparar as coisas, saberá avaliar o que gosta mais. Eu mesmo já tive a experiência de tocar em lugares distantes, para pessoas simples que nunca tiveram a oportunidade de ouvir aquele tipo de som-instrumental, e que adoraram poder ver e ouvir. Quando um trabalho é feito com o coração e é verdadeiro, as pessoas gostam. Claro que o bom senso deve estar sempre presente. O grande público consome o que toca nas rádios e também o que assiste na TV. É a referência que eles têm do que é bom ou ruim. Se a música instrumental ou erudita não acontece nestes importantes veículos da mídia, o grande público não terá acesso a poder ouvir, gostar, ou não, deste tipo de música. E, não vai assistir e nem comprar o CD.

23) RM: Quais são seus projetos futuros? 

Felipe Ávila: No momento, estou começando a produção de um novo CD com músicas novas e algumas mais antigas e inéditas. Tenho um projeto de escrever um livro, mas o tema é segredo (risos). E venho atuando num outro território, que é um trabalho dirigido ao mercado e público empresarial. Minha esposa, Maria Rosa, tem uma empresa de consultoria muito interessante que trabalha “resultado” e assim, ela e a equipe de consultores, trabalham todos os elementos que possam implicar neste resultado.  Onde entra a música?  No desenvolvimento de equipes de vendas e no desenvolvimento de liderança e, aí, em parceria, faço workshops que desenhamos para empresas.  É um trabalho interessante onde, através da música, trabalhamos o dia-a-dia dos executivos das empresas, olhando a sustentabilidade dos resultados: a diversidade, na solução de problemas, a flexibilidade para “tocar” como time, a interdependência a partir da abertura dos espaços para improvisos, a reciclagem e a parceria representada pelo apoio ao solista e, finalmente, trabalhando a consciência ecológica onde reconhecer a interdependência como fundamental de todos os fenômenos para o perfeito entrosamento dos indivíduos e das sociedades nos processos cíclicos da natureza, pode significar a continuidade e a perpetuação do sistema. Continuar estudando, dando minhas aulas e tocar, tocar e tocar.

Felipe Ávila: Meus contatos: www.felipeavila.com \ [email protected]

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor Responsável pela revista Ritmo Melodia desde 2001, músico, letrista e poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, sempre se preocupou em divulgar a música (popular, regional, instrumental e erudita) com entrevistas e artigos sobre os músicos e artistas brasileiros.