Elizabeth Christina de Andrade Lima

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Tempo de Leitura: 10 minutos

Comecei a ler o livro da doutora em Sociologia Elizabeth Christina de Andrade Lima com enorme curiosidade e conclui a leitura com indescritível satisfação. A tese que em 2002 virou o livro – “A Fabrica dos Sonhos – A invenção da festa junina no espaço urbano” – Editora Ideia – João Pessoa – PB.

O tema trata da festa junina da minha cidade natal, Campina Grande – PB. Aos 11 anos de idade fui levado pelas mãos dos meus pais para abertura oficial do São João em 1983 e em 1986 estava na inauguração do Parque do Povo. Gastei muita sola de sapato no Forró de Campina Grande.

Agora o caro leitor entende minha curiosidade de ler sobre um assunto que vivencie como participante ativo. Mas esse livro chegou as minhas mãos quando já há alguns anos tinha despertado do sonho. Então foi uma leitura com saudosismo e libertação. Tinha uma comprovação cientifica (tese) das minhas desconfianças empíricas que a festa que tanto me divertiu passou de ao longo dos anos de uma manifestação espontaneamente popular para o mercantilismo turístico com sua faca – peixeira de dois gumes.  Após o poder publico toma para si a organizar e logística das festas juninas, algo que no inicio parecia fundamental foi tomando rumos que  só privilegiaria os que estão no poder e em sua órbita em detrimento da espontaneidade popular. Saiu o pano de chita e entro o cetim no corpo da donzela festa. O estereotipo do matuto e sua vida rural foi levada à exacerbação no meio urbano. O matuto se estilizou para ser aceito pela cidade e pelos turistas numa visão mercadológica duvidosa.

A música (Forró, Xote, Baião) típica dos primórdios da festa foi ficando ao longo dos anos e com a popularização da festa a nível nacional foi se tornando coadjuvante da sua própria festa. No ápice da popularização da festa com o discurso de modernidade os organizadores levaram para o palco principal do Parque do Povo passou todos os estilos musicais sempre com mais evidencia que os forrozeiros  autênticos locais e da região. Então essa tese – livro mostra que podemos nos divertir da forma mais lúdica possível em uma festa popular, mas atentos as manobras do poder local. E se possível os agentes da festa (Os cidadãos) não deixarem perder a autenticidade de suas manifestações populares. Tendo o poder publico local a legitima função de organizador da festa, mas diminuindo o desejo de transformar em pão e circo as manifestações genuinamente populares.

Em muitas regiões do Brasil muitas festas populares atraem turistas sem perderem sua autenticidade. É inconcebível em uma festa de tradição gaúcha comer pizza e dançar Axé Music, Pagode e Forró. As festas de tradições populares não devem modernizar sua essência pelo simples motivos que sua função social e antropológica é mostrar para as novas gerações como se divertiam seus antepassados. O que é legitimo é adequação da logística do evento ao tempo moderno. Não é porque o Forró era iluminado a lampião de gás, dançado no chão de barro batido, com a sonorização acústica que o evento urbano na atualidade traga essa cena social. Cabe a nova geração criar nova expressão popular, mas não em nome da modernidade alteramos drasticamente a essência das festas populares. Que a tese – livro da doutora Elizabeth seja reeditado por uma editora de grande distribuição e lido pelas novas gerações locais e de outras regiões do nordeste e do Brasil. Que possamos sair da nossa Caverna de Platão sem perder o encanto lúdico de dançamos um legitimo Forró, comemos as comidas típicas das festas juninas e aplaudimos as quadrilhas juninas.

Segue abaixo entrevista exclusiva com a doutora Elizabeth Christina de Andrade Lima para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 01.07.2006:

01) RM: Qual a sua data e local de nascimento e formação acadêmica?.

Elizabeth Lima: Meu nome completo é Elizabeth Christina de Andrade Lima, nasci no dia 03 de Julho de 1964, na cidade de Santa Cruz – Rio Grande do Norte. E sou formada no curso  Ciências Sociais, com área de concentração em Antropologia, pela UFPB, Campus II, Campina Grande-PB – atual UFCG, Campus I, Campina Grande – PB –. Mestre em Sociologia Rural, pela UFPB, Campus II, C. Grande – PB – atual PPGS – base Campina Grande – E Doutora em Sociologia, pelo PPGS da UFC – Universidade Federal do Ceará. Atualmente sou Professora de Antropologia da Universidade Federal de Campina Grande.

02) RM: Como surgiu o interesse em escrever uma tese sobre o São João de Campina Grande?

Elizabeth Lima: Surgiu um pouco como obra do acaso. Quando estamos em processo de construção de Projetos de Pesquisa e Capacitação a primeira questão que comumente vem à tona é a necessidade de definição de um objeto de estudo. Deparei-me com esta questão no momento em que decidi deixar as minhas atividades docentes e me capacitar no Doutorado. Assim, indaguei: o que estudar? Que pesquisa devo fazer? Convêm acrescentar que no Mestrado a minha linha de pesquisa e meus interesses de investigação nem de longe passavam pelo tema da festa, e muito menos da festa junina. Pois como dissertação de mestrado; estudei uma comunidade rural de negros denominada de Pedra D’Àgua, localizada no município de Ingá – PB. Portanto, os meus estudos eram marcadamente étnicos e sobre identidade e fronteiras étnicas. No entanto, ao observar, na qualidade de frequentadora da festa do “Maior São João do Mundo”, surgiu à curiosidade de entender aquele fenômeno, não a festa em si, mas a sua instituição enquanto um fenômeno importante para a cidade de Campina Grande e para os seus habitantes. A partir de então o trabalho foi exatamente como tornar possível tal investigação e de fato, me apaixonei por esse tema e pelo estudo das festas no Brasil.

03) RM: Quais foram as principais dificuldades na pesquisa de dados para a tese?

Elizabeth Lima: Sem dúvida, o de encontrar materiais, documentos, registros sobre a história do chamado “Maior São João do Mundo”. Por incrível que pareça, não há uma preocupação dos setores culturais locais em “contar” a história do evento. Você não encontra um espaço no qual algum tipo de material, seja fotográfico, documental e outros, possa ser pesquisado e que minimamente reconstitua a referida história. A grande saída que encontrei para viabilizar a minha pesquisa foi recorrer aos arquivos dos Jornais locais: Jornal da Paraíba e Diário da Borborema.

04) RM: Quais foram às fontes utilizadas para a pesquisa e qual volume de material catalogado?

Elizabeth Lima:  A pesquisa realizada foi principal e fundamentalmente bibliográfica e documental. Para investigar a construção da festa junina na cidade de Campina Grande, consultei os arquivos do Jornal da Paraíba, nas décadas de 70, 80 e 90, cobrindo os meses de maio, junho e julho. Complementei os dados com a consulta nos arquivos de um outro jornal local, Diário da Borborema, nos anos de 1998 e 1999, nos meses mencionados. Consultei ainda os arquivos do Jornal Folha Junina, no período de 1989 a 1999. Convêm acrescentar que a Folha Junina é distribuída gratuitamente nos espaços da festa do“Maior São João do Mundo”, durante o mês de junho. Igualmente utilizei como fonte de coleta de dados a participação intensiva no próprio evento. Conheci todas as atrações previstas para trinta dias ininterruptos de festa e fiz anotações sobre elas, bem como diversas imagens fotográficas. Um outro conjunto de dados tais como: informações sobre as festas juninas no Nordeste e no Brasil, foram coletadas via Internet e toda uma pesquisa bibliográfica sobre as festas juninas na perspectiva folclórica e dos cientistas sociais, também foi realizada. A visão cristã ou sagrada da imagem de São João Batista. Foi investigada através do Antigo e Novo Testamento, contidos na Bíblia Sagrada. Um último recurso à coleta de dados foi uma rápida incursão pela Literatura de Cordel e pela Música que tratam das festas juninas, de maneira geral e do “Maior São João do Mundo”, em particular. Assim, como pode ser observado, consegui reunir um expressivo, denso e importante material sobre a instituição da festa do “Maior São João do Mundo”, na cidade de Campina Grande.

05) RM: Como a tese virou livro?

Elizabeth Lima:  Na verdade não houve um convite de uma instituição ou de uma editora. Foi uma iniciativa que tomei a partir da possibilidade que observei do referido trabalho vir a ajudar e suscitar questões aos interessados no tema das festas no Brasil e das Festas Juninas. É tanto que arquei com todas as despesas necessárias à edição do livro.

06) RM: Como foi recebido o livro no meio acadêmico e público em geral?

Elizabeth Lima: O livro, para minha satisfação, foi muito bem recebido. Para se ter uma ideia, de uma tiragem inicial de 300 livros, lançado no ano de 2002, a edição já está esgotada e a procura pelo mesmo perdura ainda hoje, fato que me anima e têm promovido à realização de encontros, palestras e discussões no ambiente acadêmico que me deixam muito feliz.

06) RM: Qual a repercussão no meio político e formador de opinião local?

Elizabeth Lima:  Sinceramente não sei. Não busquei divulgar o meu livro junto aos poderes políticos locais. Tentei ao máximo, direcioná-lo para as discussões estritamente acadêmicas, se não, do contrário, ele poderia se transformar em uma espécie de “moeda política” para certos grupos políticos prepostos ou opositores. Mesmo tendo dedicado um capítulo da tese para analisar os usos e apropriações da festa pelos políticos locais, não quis e continuo não querendo, alianças ou proximidades com interesses que não sejam estritamente acadêmicos. A mesma ideia se estende para os formadores de opinião locais.

07) RM: Em que sentido o seu trabalho veio a contribuir para a compreensão dos bastidores de uma Festa Junina, que é apontada como o grande acontecimento turístico no mês junino?

Elizabeth Lima:  Eu tentei ao longo de toda a tese mostrar como a festa do “Maior São João do Mundo” é inventada na cidade, ou no espaço urbano. Para tanto, tive que apresentar os bastidores do evento e mostrar o que estava “por trás das cortinas”, ou seja, os vários interesses econômicos, políticos e culturais para transformar a cidade de Campina Grande em uma espécie de “empresa junina”. Assim, o meu trabalho buscou construir a interpretação de que na sociedade nada acontece ao acaso ou sem intencionalidades. A festa de São João é um empreendimento que visa à continuidade de interesses e à sua apropriação, que se pretende grandioso, destrói àquela visão romântica propalada pelos folcloristas de que a festa junina é uma “festa do povo”, ou uma manifestação da “cultura popular”. Em seu modelo urbano, a festa junina adquire novos sentidos e novas intenções para além dessa visão ingênua.

08) RM: Até que ponto seu livro expõem e choca os cidadãos locais, como no conto da Cinderela, mostrando a criação do São João em Campina Grande. Da gata borralheira (A espontaneidade da festa), A princesa (A festa como turismo nacional) e a volta a ser abóbora (o cotidiano da cidade)?

Elizabeth Lima: Gostaria de esclarecer que a minha intenção ao escrever sobre o “Maior São João do Mundo” não foi o de chocar, muito pelo contrário. E espero sinceramente não chocar ninguém com as minhas ideias e/ou interpretações. O que quis demonstrar é que a Festa, como qualquer outro ritual social, possui às suas intencionalidades, seus confrontos e divergências de interesses, mas também tem e deve ter as suas linhas de fuga, de fantasia e de desejo. Se a festa não fosse esse momento de eclosão da libido e dos prazeres e alegrias mais variadas, ela não teria sentido de existir e nem teria a audiência que possui. Assim, para além das intenções e interesses políticos e econômicos que circundam a festa, ela também é o momento do “conto de fadas”, de tantas “Cinderelas” que se enfeitam à “moda caipira” para se exibirem nos espaços do “Parque do Povo”.

09) RM: Seu livro mostra que após a manifestação espontânea das festas juninas locais, muitos políticos se apoderam da festa em benefício próprio?.

Elizabeth Lima:  Sim, eu tento demonstrar os mais variados usos da Festa, dentre eles, os usos políticos. Todo político, por exemplo, quer ser o “pai da criança”, o pai do “Maior São João do Mundo”, pois sabe que a apropriação da Festa significa dividendos para si. Pois desde o tempo de Maquiavel, no livro O Príncipe, que este já aconselhava ao monarca a realização regular de Festas a serem oferecidas para o povo, juntamente com o pão, para lhes ocupar o estomago vazio pelas injustiças sociais. O pão e o circo foram e continuam sendo a grande força tática e estratégica do político na construção de sua imagem.

10) RM: Você não citou a paradoxal programação musical que colocam artistas que não são forrozeiros, mas por serem famosos se apresentam nos melhores dias e em locais especiais. Em detrimento dos forrozeiros locais que continuam coadjuvantes da sua própria cena musical e cultural?

Elizabeth Lima:  Não foi o meu objetivo na pesquisa esgotar toda a complexidade de atrações e facetas da festa junina presentes no “Parque do Povo”. Essa sua questão/sugestão, pode ter certeza, daria uma outra tese. O que posso no momento afirmar é que a festa do “Maior São João do Mundo”, quando se transforma em um espetáculo turístico – em fins da década de 80 – vai procurar produzir novos sentidos que agenciem exatamente esse modelo do espetáculo, assim se abre as portas para as grandes atrações nos palcos do Parque do Povo. A questão é chamar o turista e o citadino (Cidadão) para frequentar esse espaço. E quem não quer sair de casa, para assistir, por exemplo, o cantor Leonardo (Que fez dupla com Leandro já falecido), mesmo em uma festa junina? A propósito, convêm acrescentar que uma das fortes características das modernas festas urbanas é o seu hibridismo e sincretismo culturais. Então, parece não ser ilegítimo juntar a música sertaneja à música de forró, pois existe nesse espaço, condição para tal. A questão está lançada para novos estudos que versem exatamente sobre esta problemática.

11) RM: Comente as outras situações que estão no livro que mostram que com o passar dos anos a festa virou algo para turista vê e não se espantar com os costumes dos nativos?.

Elizabeth Lima: A festa junina, em sua versão urbanizada, é cada vez mais uma festa para ser vista. Assim, o que temos é um verdadeiro leque de possibilidades de visibilidades, desde as atrações previstas na programação oficial, até as imagens cenográficas dos espaços da festa. O que se observa é uma mistura do tradicional com o moderno, do antigo com o novo, a partir de um jogo de luzes, de cenografias que tentam instituir na cidade um imagético arraial junino.

12) RM: Quais os pontos principais tocados no seu livro?.

Elizabeth Lima: Eu tento mostrar como a festa do “Maior São João do Mundo” é inventada na cidade de Campina Grande, através de uma tríade entre povo – cidade – festa. Para tentar demonstrar como essa tríade permite a explicitação não só do evento como um espetáculo turístico, mas a sua montagem que tenta a todo tempo aliar e ligar a cidade, a festa e o seu povo como se fosse uma coisa só. Ou fonte de uma única realidade, ajudando, portanto, na construção de uma identidade citadina. Tento, por fim mostrar que a festa do “Maior São João do Mundo” é uma invenção, uma apropriação e uma conservação da chamada tradição junina.

13) RM: Você acredita que a sua tese abriu o caminho para outra dissertação sobre o assunto focando outros ângulos, como exemplo o São João antes da década de 50. Quais outros temas podiam nascer após seu pontapé inicial?.

Elizabeth Lima:  Sem dúvida, e espero sinceramente que o meu trabalho possa servir de inspiração e motivação para um outro conjunto de estudos sobre o fenômeno das festas no Brasil. Tema este ainda tão pouco investigado pelas Ciências Sociais ou afins.

14) RM: Quais outras considerações importantes tratadas no livro. E quantos exemplares foram lançados, se já esgotou os livros e terá reedições?.

Elizabeth Lima:  O livro tenta propor uma determinada interpretação, dentre tantas outras possibilidades, das festas juninas no Brasil, tomando como caso para investigação, o “Maior São João do Mundo”. É uma tentativa de inserir o fenômeno das festas dentro do contexto de uma sociedade globalizada, mas que continua a cultuar ou festejar as suas festas mais localizadas, mais micro. É uma tentativa de encontro do local com o nacional, do micro com o macro, do sagrado com o profano, do moderno com o tradicional, etc. Na primeira edição foram produzidos 300 exemplares. Atualmente o livro está esgotado e pretendo reeditá-lo em um futuro próximo.

14) RM: Quais os seus contatos?

Elizabeth Lima: (83) 3343 – 1704 | [email protected]

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor Responsável pela revista Ritmo Melodia desde 2001, músico, letrista e poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, sempre se preocupou em divulgar a música (popular, regional, instrumental e erudita) com entrevistas e artigos sobre os músicos e artistas brasileiros.