Os Mutantes I

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Os Mutantes I
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Ando meio desligado, sem prestar atenção ao mundo em volta, escutando depois de muitos anos o primeiro disco dos Mutantes (calma, fãs-de-caderneta-em-punho, sei que a música citada no início é do terceiro).  Esse disco bouleversou meu juízo assim que saiu, em 1968.  Lembro que numa mesma semana eu comprei um LP de Sidney Miller e outro de Baden Powell, e meu irmão Pedro comprou o primeiro de Caetano e o primeiro dos Mutantes.  (Como se vê, eu era MPB tradicional, e o Tropicalismo se infiltrava através dos mais jovens).

Eu gostava dos Mutantes, mas implicava com o excesso de referências aos Beatles.  O riff de guitarra distorcida em “Minha Menina” remetia aos Rolling Stones (“Satisfaction”) e aos Beatles (“Think for yourself”). O vocal de “Le premier bonheur du jour” lembrava “Michelle”; o “Senhor F” me parecia um equivalente ao “Mr. Kite”. A cítara de “Bat Macumba” vinha diretamente de George Harrison, assim como o trumpete em “Panis et Circensis” era citação de “Penny Lane”.  E por aí vai.  Eu nada tinha contra os Beatles, mas demorei a perceber, por trás da obviedade das citações, o que o trio paulista tinha de criativo e novo.

Meus brios patrióticos foram arrefecendo. Eu tinha quase a mesma idade dos Mutantes, gostava dos Beatles tanto quanto eles.  Resolvi considerar que a música deles, por excêntrica que fosse, não vinha para extinguir a música de Baden e Sidney Miller, mas para ficar ao lado dela.  Eu poderia ouvir as duas sem remorsos.  E é o que tenho feito nos últimos trinta anos.

Os Mutantes faziam versão para John Philips (dos “Mamas and Papas”) e cantavam Françoise Hardy em francês.  Tinham canções surrealistas como “Ave Gengis Khan” e “Senhor F”.  Sua gravação de “Baby” era melhor que a de Gal Costa, e sua gravação de “Batmacumba” era melhor que a de Gil.  E canções como “O Relógio” e “Trem fantasma” não se pareciam com nada que eu já tivesse ouvido.  Eu escutava cada faixa conscienciosamente e ficava riscando alternativas: “Samba, não é.  Bolero, não é.  Marcha-rancho, não é.  Baião, não é.  Rock, não é.  Tango, não é.”  Meu repertório de ritmos mostrava-se inútil para definir aquilo, e foi nessa época que eu comecei a desconfiar dessa mania de definir as canções pelo nome de um “ritmo”.

Os Mutantes faziam furor, mas não eram unanimidade.  O pessoal do “Pasquim” caía de pau em cima deles, dizendo que faziam um humor “ginasiano”.  Outros diziam que as melhores coisas nos discos deles não eram deles, eram do arranjador Rogério Duprat.  Seus três primeiros discos (para mim os melhores) não se assemelhavam a nada que já tivesse aparecido na música brasileira, e mesmo dentro da novidade maior que era o Tropicalismo eles eram diferentes.  O Tropicalismo era sério, era ideológico, tinha crítica social, tinha ambições vanguardistas, dialogava com os intelectuais.  Os Mutantes, não.  Sua música não era Jovem Guarda, era uma espécie de Jovem Vanguarda, onde conviviam o Humor, a Diversão e a Invenção.

 

*Bráulio Tavares  – Jornalista, escritor e compositor paraibano. Este texto foi editado em 17/08/2008 na sua coluna diária no Jornal da Paraíba – Campina Grande – PB (http://jornaldaparaiba.globo.com).

Contatos: E-mail: [email protected] / http://mundofantasmo.blogspot.com

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor Responsável pela revista Ritmo Melodia desde 2001, músico, letrista e poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, sempre se preocupou em divulgar a música (popular, regional, instrumental e erudita) com entrevistas e artigos sobre os músicos e artistas brasileiros.