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Um poema pode ser uma canção e uma letra não tem obrigação de ser um poema


Por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa

Poesia é uma forma de expressão artística que usa as palavras como uma manifestação de beleza e estética na construção de textos (poemas). É o gênero literário lírico. Na poesia, a imaginação do autor e a do leitor dependem uma da outra, para que a viagem poética aconteça. A letra de música segue a linha melódica, rítmica e a métrica de uma composição já existente ou podem nascer simultaneamente com a ideia, linha melódica, rítmica e a métrica.

Chico Buarque, afirmou que nunca escreveu uma letra que não fosse baseada em uma melodia e como romancista lançou: Estorvo (1991), Benjamin (1995), Budapeste (2003), Leite Derramado (2009), O Irmão Alemão (2014). Mas suas letras de música foram lançadas em livro como “poemas”. Gilberto Gil, comentou que já escreveu poemas, mas que nunca pensou em criar melodias para os mesmos. Contudo, suas letras de música foram lançadas em livro como “poemas”. A ABL – Academia Brasileira de Letras elegeu Gilberto Gil (aos 79 anos) como novo imortal da casa em novembro de 2021, com 21 votos. Ele, substitui o jornalista Murilo Melo Filho, morto em maio de 2020.  Citei esses dois gênios da música brasileira e torcedores do tricolor carioca, por terem canções que as letras, para muitos, se sustentam como poemas e chamá-los de poetas não ofende a classe.

No passado a função de letrista e de poeta eram distintas, mas, Vinícius de Moraes, lançou livros como poeta e canções como letrista. Alguns poetas, recriminavam a sua atuação como letrista, não por questionarem a qualidade das suas letras, mas por acharem superior a função de poeta em relação a de letrista.

Alguns poetas, querem seus poemas em livros com o status de literatura e não autorizam os compositores a criarem melodias para seus poemas. Um poema pode ter várias melodias, igualmente, uma melodia pode ter várias letras e todas as criações podem existir ao mesmo tempo. Outra lenda, é afirmar que existe poema que não tem como se tornar uma canção. Declamar é uma forma de cantar.

Uma melodia, quando nasce livre da gaiola de uma sequência de acordes pré-estabelecida, tem mais possibilidades criativas para os voos da imaginação. Não é necessário um violão, um piano, etc, para criar uma melodia para um poema, o compositor pode cantar o poema à capela e depois encontrar os acordes se baseando nas notas da melodia criada. Nas palavras dos versos já existem várias possibilidades rítmicas e melódicas, cabe ao melodista sair da sua zona de conforto.

Toda essa mentalidade de distinção entre poema e letra de música tem a ver com a necessidade da indústria cultural que embalava poemas dentro do produto livro e canções dentro do produto discos. Os profissionais de rádios criaram o termo música comercial, a separação da música de fácil assimilação melódica e das letras em relação a canções mais complexas e profundas. Os poetas, músicos, compositores, cantores se moldavam aos ditames, tendências e regras do mercado que estavam inseridos. Uns focavam na qualidade da criação da melodia e letra e outros focavam em um produto descartável para atender o modismo.

Existem poemas perfeitos na forma, na erudição, mas vazios de alma e secos de emoção. Existem letras que falam direto ao coração e como fogo amolecem as emoções nos tiram o ar e lavam nossos olhos. Em meio a tantas turbulências do stress cotidiano, as pessoas querem se expressar e ter suas emoções, aflições, queixas e demandas escutadas no século XXI.

Um poema pode ser uma canção e uma letra de música não tem obrigação de ser um poema. No entanto, algumas canções são poesias.


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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor responsável pela revista digital RitmoMelodia desde 2001, jornalista, músico, poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, propaga a diversidade musical brasileira através de entrevistas e artigos. Jornalista formado pela Universidade Estadual da Paraíba - UEPB (1996 a 2000) que lançou um livro de poesia em 1998 e seus poemas ganharam melodias gravadas em três álbuns concluindo a trilogia "reggae baseado em poesia" no seu projeto musical Reggaebelde. Unindo a sensibilidade do poeta, músico com o senso crítico do jornalista e pesquisador musical colocado em prática em uma revista que Canta o Brasil.

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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

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