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Uma Revista criada em 2001
pelo jornalista, músico e poeta paraibano
Antonio Carlos da Fonseca Barbosa.

O Reggae no Brasil é uma caricatura do reggae internacional?

reggae no brasil
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Por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa

Celso Moretti, Edson Gomes, Dionorina, Tribo de Jah e Cidade Negra foram os primeiros a fazerem exclusivamente a música reggae no Brasil. Em maio de 2011 fez 30 anos de morte de Bob Marley. Natural que muitos músicos, principalmente negros, buscassem nos anos 80, conscientemente ou inconscientemente, preencher a “lacuna” deixada pelo rei do reggae mundial.

Após 1982 começaram a surgir músicos brasileiros que assumiram o reggae como música de carreira. Edson era o “Tim Maia” de sua cidade (Cachoeira – BA), cantava Soul e Black music e foi convencido por Nengo Vieira a passar suas músicas para o ritmo de reggae. O Celso Moretti era dançarino, artista plástico e enveredou pelo reggae. Nasceu em São Luís – MA a banda Tribo de Jah (Zé Orlando – vocalista; Frazão – tecladista; Aquiles Rabelo – baixista; Netto Enes – guitarrista; João Rodrigues – baterista), liderada pelo cantor e compositor Fauzi Beydoun, radialista e roqueiro, um branco, mas, a banda composta por deficientes visuais negros. Dionorina, o regueiro mais velho da turma nordestina, fazia outros estilos musicais e tem formação em música clássica, mas também adotou o reggae. Fora as bandas de rock nacional dos anos 80 que tocavam alguns SKA e Reggae nos seus discos.

A cena reggae no Brasil já passou da maioridade e está na maturidade, mas, infelizmente, não tem a mesma importância e o respeito que o reggae já conquistou pelo mundo. O reggae nos EUA, Inglaterra, Europa, Jamaica é cena de “gente grande”, com produções de shows de alto nível e gravações de discos com alta qualidade técnica, profissional e criativa. No Brasil, a música reggae em geral parou no tempo, mais precisamente anos 80 e 90. Estagnou-se, mantendo-se à margem do mercado musical. Os músicos regueiros sobrevivem pegando carona, como subproduto musical, da cena rock, pop rock e RAP.

No Brasil todos os estereótipos do reggae são reforçados como sendo: “a música feita por e para maconheiros”, “música feita por e para religiosos fanáticos, poucos afeitos à higiene pessoal”. Como se em shows de outros gêneros musicais, algumas pessoas não usassem drogas. Todos esses preconceitos levam o reggae nacional para o fundo do poço. O reggae nacional só é bem visto e respeitado quando gravado por músicos da MPB e do pop rock. Enfim, o reggae não teve a mesma pujança que o rock nacional dos anos 80.

O reggae como um movimento musical no Brasil ficou preso aos clichês do reggae jamaicano e da personificação do Bob Marley. O Bob se tornou maior que o reggae. E surgiu “as viúvas do Bob e/ou os Ras Falsos/Fraudes” que imitam seu som, sua postura em palco, seu vício, sua religiosidade e sua imagem. O reggae foi criado por Lee “Scratch” Perry, mas Bob levou o som ao máximo de visibilidade no mundo. Vejam este vídeo para entender o que falo clique nesse link: http://g1.globo.com/videos/globo-news/arquivo-n/v/morte-de-bob-marley-completa-30-anos/1519004/ .

As bandas e músicos brasileiros optaram pelo reggae por ser uma música em que as letras têm como ênfases à crítica e justiça social, à conscientização política, o protesto, à denúncia, a religiosidade (rastafári), o amor e à paz. Mas, a maioria, deixa os conceitos defendidos presos aos discursos das letras tendo uma postura incoerente com o que escreveu ou cantou. Não existe união entre os músicos regueiros em prol de um fortalecimento do cenário reggae no Brasil.

A fogueira da vaidade queima a cena, têm os que se sentem “iluminados e escolhidos por Jah”, os que têm o Ego maior que o talento e o egoísmo, individualismo tão combatidos nas letras são práticas comuns entre a maioria dos regueiros. Em outras cenas musicais também existem estas pragas. Mas no reggae, uma cena musical que opta em conscientizar o público para o verdadeiro papel do cidadão, a postura individualista dos músicos é incoerente com o discurso coletivo das letras.

Esta postura egocêntrica fortalece o “cada um por si” da “Babilônia – CAPETAlista”, tão combatida nas letras dos regueiros. E meia dúzia de regueiros são os escolhidos por produtores magnatas para manter um cenário reggae nacional tabajara e hipócrita, em que a música reggae só serve de pano de fundo para alguns “malucos” “fumarem unzinhos” e balançarem as tranças e a pança. Qual a diferença do show de música descartável? Nenhuma. A música reggae como meio de conscientização, paz, harmonia e arte continua presa ao discurso e não faz parte de uma prática diária combativa.

Os ícones do reggae se isolam para preservarem a “imagem combativa” e conservarem a minguada agenda de “show museu”. Não combatendo de fato os magnatas, que só querem a grana, e ignoram o reggae e os regueiros. Os ícones não se falam entre si, não mobilizam nem lideram uma cena reggae séria, profissional e consciente. Os músicos e bandas desconhecidas seguem com baixa autoestima, na areia movediça da mediocridade, da alienação e da falta de espaço pra show. A cena reggae nacional continua sendo uma caricatura do reggae feito fora do Brasil. Até quando?

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