O Forró do chão de barro à indústria cultural.

Forró do Chão

Por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa

O Forró não é um ritmo musical, é o nome dado ao local onde acontecia a festa, que poderia ser na residência, na rua, no sítio ou local de show. As músicas que tocavam no Forrobodó eram as populares dos programas de rádio e as regionais. No For All os discos eram tocados na Radiola/Vitrola ou quem animava a festa eram os músicos tocando o violão, cavaquinho, pandeiro, acordeon, sanfona de 8 baixos, etc.

Nos primórdios a festa de Forró era frequentada por boêmios, valentões, “mães solteiras” em lugares “pouco familiares”. Aos poucos as festas particulares foram se popularizando sob o comando e olhos do dono da casa. E se ele percebesse um rapaz dançando de forma mais atrevida, ousada com as moças; o tempo fechava com socos, pontapés, faca e tiro. Por ser uma dança de par era comum mulher dançar com mulher e homem com homem mantendo o distanciamento dos corpos. O machismo era presente e se uma moça recusasse dançar com um valentão; ou a moça iria embora, ou não dançava mais com ninguém ou o Forró acabava em briga.

Em 1941, Luiz Gonzaga estreia em disco como o marco zero dos ritmos Baião, Xote, Arrasta pé. É possível que outros artistas tenham registrado antes um desses ritmos, mas o rei do Baião levantou essa bandeira e abriu espaços para outros entrarem nesse nicho de mercado sazonal do disco, como um produto na indústria cultural. Mestre “Lua” também popularizou o Trio Pé de Serra: Sanfona, Zabumba e Triângulo. O mercado sazonal das festas juninas era o calcanhar de Aquiles dos artistas; já que após as festas de Santo Antônio, São João, São Pedro, as gravadoras passavam a divulgar outros artistas nas rádios. Mais uma vez, Luiz Gonzaga foi o pioneiro no empreendedorismo. Ele pegou a estrada, seguindo o rastro dos Circos em todas as cidades do interior e no intervalo dos espetáculos, se apresentava no formato de Trio Pé de Serra. Fazia contatos nas cidades, nas rádios, com jovens talentos e seguia formando o seu público e trabalhando o ano todo até parar no carnaval para montar o repertório do próximo disco e começar a saga de novo. Gonzagão percebeu que tinha que montar sua tropa de forrozeiros e foi apadrinhando artistas e Trios pelo caminho.

O mercado musical na época vivia de tendências e movimentos. Em 1959, João Gilberto lançou seu primeiro disco e a Bossa Nova toma conta do mercado. Em 1963, Roberto Carlos lançou seu segundo álbum – “Splish Splash” e começou o movimento da Jovem Guarda. O mestre Luiz Gonzaga viu que o roçado que plantou por mais de 10 anos começou a dar bichos e pensou em largar a bandeira do Forró. Mas começava a era dos Festivais de Música na TV e os baianos Gilberto Gil, Caetano Veloso, Tom Zé se destacam entre os primeiros colocados. Em 1968 foi lançado o disco “Tropicália ou Panis et Circencis”, pelo grupo formado por: Torquato Neto, Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil, Os Mutantes, Tom Zé. Esse movimento antropofágico fez um mix da música Pop, MPB e Regional.

Dos anos 70 a 80 Luiz Gonzaga viveu no olho do furacão em altos e baixos da sua carreira, mas muitos apadrinhados e seguidores começaram a somar no front de batalha e consolidar carreiras e belas obras. Em dois de agosto de 1989 em Recife – PE, o mestre Gonzagão se torna uma estrela no céu e deixa um legado extraordinário e muitos herdeiros musicais.

Nos anos 90, as bandas de Forró disputam espaços com bandas de Axé Music pelo Brasil e algumas se tornam empresas e o que passa a valer são nome/marca/repertório, ou seja, no mesmo dia e horário a mesma marca poderia estar em cidades ou Estados distintos com músicos distintos cantando as mesmas músicas. O Forró Pé de Serra começou a se arrastar para sobreviver. Só os artistas famosos contemporâneos de Luiz Gonzaga não sentiram tanto a concorrência com as bandas.

Em 2000 ganhou popularidade em São Paulo, o movimento do “Forró Universitário” e dessa forma, o Forró Pé de Serra ganhou aliados com a reverência desses grupos aos mestres herdeiros musicais de Gonzagão. Esse movimento ganhou força em outras cidades do Sudeste e ficou uns 10 anos em evidência, mas foram perdendo a visibilidade na grande mídia.

Em 2021, oitenta anos após o primeiro disco de Luiz Gonzaga, o Forró Pé de Serra e suas vertentes se reinventam. Muitos dos herdeiros musicais do Rei do Baião também se tornaram estrelas no céu. Os forrozeiros vão mantendo o fôlego em um mercado sem gravadora e vão tateando as plataformas digitais, redes sociais, editais de incentivo à cultura e o mercado no exterior. O Forró é, antes de tudo, para os fortes.


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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor responsável pela revista digital RitmoMelodia desde 2001, jornalista, músico, poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, propaga a diversidade musical brasileira através de entrevistas e artigos. Jornalista formado pela Universidade Estadual da Paraíba - UEPB (1996 a 2000) que lançou um livro de poesia em 1998 e seus poemas ganharam melodias gravadas em três álbuns concluindo a trilogia "reggae baseado em poesia" no seu projeto musical Reggaebelde. Unindo a sensibilidade do poeta, músico com o senso crítico do jornalista e pesquisador musical colocado em prática em uma revista que Canta o Brasil.