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Uma Revista criada em 2001
pelo jornalista, músico e poeta paraibano
Antonio Carlos da Fonseca Barbosa.

Baião, Xote, Arrasta-pé, Marcha são sazonais até no berço materno


Por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa

Os ritmos baião, xote, marcha, arrasta-pé e xaxado animavam as festas juninas e os bailes de Forró. Luiz Gonzaga ao lançar seu primeiro disco em 1941 colocou no mercado mais um produto sazonal: vendido em algumas datas ao longo do ano. Nos meses de janeiro, fevereiro, março; época do Carnaval, o samba, a marchinha, o choro, os sambas enredos das Escolas de Samba eram o que se escutavam nos rádios. E em novembro e dezembro eram as músicas natalinas e de final de ano.

Nesses meses citados, os forrozeiros estavam selecionando o repertório para gravar o disco a ser lançado a partir de abril para as gravadoras divulgarem nas rádios em maio, fazendo uma prévia das festas e quadrilhas juninas. A partir de agosto os ouvintes só escutavam os sucessos do ano inteiro: Bolero, Rock, Jazz, músicas Românticas em geral ou algum modismo musical. Os forrozeiros colocavam a sanfona, o zabumba, o triângulo no saco até o próximo janeiro. Era a sina de quem fazia música sazonal. Luiz Gonzaga era um empreendedor nato, logo fez contato com donos de Circos e começou a se apresentar pelo interior do Nordeste no formato de trio, nos intervalos das apresentações circenses. Ao passo que foi se tornando o rei do baião passou a fazer shows pelo interior do Nordeste em Clubes e no Rio de Janeiro na Feira de São Cristóvão e em Salão de Forró. Em São Paulo fazia show no Salão de Pedro Sertanejo, na rua Catumbi, 183 no bairro Belenzinho, próximo ao Brás, que era um ponto de encontro dos nordestinos nos anos 40, 50, 60, 70, 80. Além de serem ritmos sazonais, as músicas regionais enfrentavam a concorrência dos “modismos musicais” de cada época (Valsa, Jazz, Bolero, Rock, Bossa Nova, Jovem Guarda, Brega, Sertaneja, etc), mas os forrozeiros continuavam resistentes e não desistiam da bandeira do Forró e procuravam mantê-lo vivo o ano inteiro nas cidades do interior e nas capitais.

Nos anos 60 até o rei do baião quis aposentar a sanfona de guerra. Mas foi convencido por fãs, amigos e artistas a continuar na resistência, mas a sua carreira foi declinando até o final dos anos 70. E como acontece com a maioria dos poetas que só escutam elogios e ganham prêmios quando estão “no bico do corvo”, os anos 80 foi a década das homenagens ao legado do Gonzagão até ele virar estrela no céu, no dia dois de agosto de 1989 em Recife – PE. O seu filho Gonzaguinha gravou um álbum com o pai e fizeram alguns shows e outros artistas seguiram o mesmo exemplo. Nos anos 90 surgiram as bandas de Forró criadas por empresários. Eles criaram uma gravadora no Ceará e as bandas se multiplicaram. As mesmas apareceram nos programas de TVs de grande audiência. Seguiram um modelo de negócio parecido com do Axé Music e as letras das músicas eram parecidas com as dos sertanejos e pagodeiros famosos. Ou seja, copiaram um modelo de negócio que estava dando lucro nos anos 90; bastava pagar para as músicas serem tocadas nas rádios e também pagar para seus artistas aparecerem com periocidade na grande mídia. Dessa vez os forrozeiros tradicionais perderam espaço para um canibalismo dentro dos mesmos ritmos. Alguns forrozeiros tradicionais se tornaram empresários de bandas e seguiram esse modelo de negócio que estava no auge. Ganhavam dinheiro com as bandas para investir em suas carreiras como forrozeiros tradicionais. Usaram o modismo em benefício próprio.

Em 2000 o movimento do “Forró Universitário” e o sucesso do grupo Falamansa, colocaram mais uma vez os ritmos: baião, xote, arrasta-pé em evidência quase o ano inteiro. Mas esses ritmos não têm o mesmo investimento financeiro do Sertanejo e Pagode que saíram do lugar de regional se tornando popular nacionalmente a base do pagamento para tocar nas rádios e estarem na grande mídia. Eles reinam até no Norte e Nordeste.

São 80 anos de Baião, Xote, Marcha, Arrasta-pé e Xaxado, estes ritmos têm a mesma sina da lavoura que tem um ano de colheita farta e depois anos de secas. Não reinam o ano inteiro nem no Nordeste, mesmo já se destacando no exterior. A monocultura musical no Brasil enfraquece os outros ritmos e não mostra a diversidade musical tão elogiada fora do país.


Comments · 4

  1. Muito bacana, amigo Antônio Carlos. Parabéns e muito obrigado pela contribuição à nossa Cultura Musical, particularmente, à Nordestina! Um forte abraço e muito sucesso!

  2. Traduziu, ipsis litteris o fenômeno da monocultura musical. A ânsia da mercadoria em se tornar monopólio nega os princípios da constituição do próprio mercado.

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Uma Revista criada em 2001
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Antonio Carlos da Fonseca Barbosa.