Zé do Norte


Em 1980, José Lásaro Rodrigues Santos deixou Madalena, para vir a Fortaleza estudar no Conservatório de Música Alberto Nepomuceno. Filho de acordeonista, Zé do Norte transformou gosto pelo instrumento em carreira.

Em sua trajetória, o sanfoneiro acompanhou artistas como Fagner, Amelinha, Belchior e Dominguinhos. Tornou-se produtor musical e assessorou mais de mil artistas na produção de discos pelo País. Acumula viagens pela Europa, trabalhos solo e participações em festivais de música. Tem dois discos gravados: “Entre amigos” e “Zé do Norte do Ceará Instrumental”. Atualmente é maestro da Orquestra Sanfonas do Ceará onde rege 16 músicos com muita desenvoltura. José Lásaro Rodrigues nasceu na cidade de Madalena no estado do Ceará em Filho de Maria José Rodrigues e Abdon Lobo dos Santos agricultor e sanfoneiro. Lásaro conhecido entre amigos e familiares por Zé do Norte, aprendeu a tocar sanfona aos nove anos, vendo seu pai e irmãos (Antonio lobo, Francisco Lobo, Wilson Lobo) tocarem. Em 1980 já com 17 anos de idade vem para Fortaleza – CE onde inicia sua carreira musical tendo aulas de piano, fez até o quinto ano de piano no Conservatório de música Alberto Nepomuceno, pertenceu a várias bandas tocando na noite de Fortaleza e em outros estados. Acompanhou vários artistas de renome nacional entre eles: Fagner, Ednardo, Belchior, Amelinha, João do Vale, Miúcha, Dominguinhos e outros artistas da terra, Eugênio Leandro, Calé Alencar, Dílson Pinheiro, Kátia Freitas, Davi Duarte, Marcos Café, Chico Pessoa, Falcão, Mano Alencar e Isaac Cândido, e Edmar Gonçalves.

Em 1986 começou a gravar profissionalmente, em 2000 tornou-se produtor, com mais de 2000(dois mil) títulos produzidos, Zé do Norte fez músicas para a novela das seis (Tropicaliente) com parceria com Chico Pessoa, gravou som Brasil na Rede Globo com Ednardo, Belchior, Amelinha. Produziu cerca de 1000(mil) artistas populares e da MPB, fez catálogos para BMG, Ariola, Som Zoom, Foral Music, Ultra Music. Participou do DVD Sanfonas Brasileiras em homenagem a Sivuca, produziu o CD com as inéditas de Luiz Gonzaga e João Silva.

O instrumentista bebeu de diversas fontes sonoras e técnicas para explorar a diversidade de recursos da sanfona e assim passear pelas linguagens que vão do erudito ao popular. No país de Sivuca, Mestre Chiquinho e Dominguinhos, a sanfona é claramente um instrumento que faz uso da dinâmica de improvisação jazzística para dialogar dentro de uma linguagem popular brasileira.

Há tempos começou a se pensar a arte se desapegando de conceitos que desviavam a música clássica para um caminho que só alcançava uma dita elite intelectual, em detrimento de uma grande parcela da população. Zé do Norte ao trazer a sanfona, instrumento, que no Brasil tem uma origem popular, e um histórico baseado na memória, na oralidade e na intuição, fortalece o movimento contrário que prioriza uma cultura intangível de grande valor sociopolítico que dá base para compreensão da diversidade dos processos culturais da música cearense.

Um poutpourri dedicado à Luiz Gonzaga, interpretado pela Orquestra de Sanfonas do Ceará, que é regida por Zé do Norte, e que permeia de forma tão harmoniosa entre erudito e popular a ponto de não sabermos identificar os limites de cada uma. Ao transitar sua sensibilidade com tanta naturalidade entre peças de Bach e seu repertorio autoral popular, Zé do Norte firma suas raízes regionais enquanto populariza a música clássica, alcançando o objetivo de mostrar ao público uma sanfona universal.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Zé do Norte para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 06.05.2021:

Índice

01)RM: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Zé do Norte: Nasci no dia 01.01.1962 em Madalena na época distrito de Quixeramobim – Ceará. Registrado como José Lásaro Rodrigues dos Santos.

02)RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Zé do Norte: Nasci numa família de músicos, meu pai Abdon Lobo dos Santos.

e meus irmãos Antonio lobo, Francisco Lobo, Wilson Lobo eram acordeonistas.

03) RM: Qual a sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical?

Zé do Norte: Sempre fui músico, como plano “B” e trabalhei como construtor de casas.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Zé do Norte: Minha influência no passado e no presente: Dominguinhos, Luiz Gonzaga, Hermeto Paschoal, Egberto Gismont, Gilberto Gil, Tom Jobim, Chico Buarque e muitos outros da MPB. Atualmente me influencio pelo Jazz, música clássica e pela música francesa, nenhuma deixou de ter importância até hoje, meus mestres continuam a me influenciar.

05)RM: Quando, como e onde você começou a sua carreira profissional?

Zé do Norte: Aos dezoito anos de idade (1980) em Fortaleza, tocando os bailes e tertúlias dos clubes da sociedade.

06) RM: Quantos CDs lançados?

Zé do Norte: Dois CDs e um DVD.

07) RM: Como você define seu estilo musical?

Zé do Norte: Puramente Nordestino e brasileiro com influências da música do mundo.

08) RM: Você estudou técnica vocal?

Zé do Norte: Não. eu nunca cantei, sou instrumentista e arranjador.

09) RM: Qual a importância do estudo de técnica vocal e cuidado com a voz?

Zé do Norte: Como produzi muitos álbuns e muitos artistas e aconselho sempre o pessoal a procurar professor de técnica vocal e de música para não haver um desgaste à toa das cordas vocais e aprimoramento das técnicas para cantar melhor.

10) RM: Quais as cantoras(es) que você admira?

Zé do Norte: Elis Regina, Ella Fitzgerald, Nina Simone, Sarah Vaughan e etc.

11) RM: Como é o seu processo de compor?

Zé do Norte: Aguardo o momento de inspiração, quando vem naturalmente ou quando sonho com alguma melodia.

12) RM: Quais são seus principais parceiros de composição?

Zé do Norte: Quando componho instrumental faço sozinho, se for música com letra, meu parceiro é Chico Pessoa.

13) RM: Quem já gravou as suas músicas?

Zé do Norte: Chico Pessoa, Elba Ramalho, Waldonys Menezes.

14) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Zé do Norte: Ser independente sempre é bom, mas antigamente nos tempos das gravadoras era melhor. O artista era patrocinado tinha uma certa segurança, apesar de ser muito explorado também pelo mercado fonográfico.

15) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

Zé do Norte: Considerando a pontualidade responsabilidade zelo sempre com instrumentos atualizados, trabalhei sempre com pesquisas de novos ritmos, novos conceitos, visão musical aberta para novos conceitos, outras pluralidades culturais e diariamente estudando música.

16) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira?

Zé do Norte: Pesquisa de mercado no meu seguimento e reuniões constantes com outros empreendedores e de projetos culturais.

17) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira?

Zé do Norte: Ainda estamos aprendendo com esse novo momento da música nas redes sociais. Não temos uma definição clara de como vender nossos produtos, como shows, CDs, etc. Mas para divulgação a internet é bom, mas para vender não é. A música está sofrendo com a modernidade da internet.

18) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação de gravação (home estúdio)?

Zé do Norte: As vantagens são a rapidez como enviamos música pela internet, e divulgamos. A desvantagens são pessoas desqualificadas que invadem as redes sociais fazendo produtos de baixa qualidade, gerando um prejuízo cultural e influenciando pessoas.

19) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo. Mas, a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Zé do Norte: Eu produzi uma média de oitocentos CDs de vários artistas do Brasil, a musicalidade, os arranjos, os músicos, um bom estúdio foram os meus nichos e parceiros. O grande nicho, é uma grande sacada de arranjos com a escolha da música certa.

20) RM: Como você analisa o cenário do Forró. Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Zé do Norte: O forró depois que Dominguinhos partiu teve uma baixa no que diz respeito a bandeira do Forró, houve um isolamento e um individualismo, cada um no seu quadrado, por conta disso se infiltrou no mercado outros estilos e ritmos, até chamam de Forró, mas não traz a marca do Nordeste. Não temos apoio financeiro do governo para preservação das raízes e matrizes.

Falamansa, Bicho de Pé e outros grupos se destacaram fizeram um bom trabalho, ousaram com uma levada nova e uma visão moderninha atraindo jovens da alta sociedade e universitários, mas não houve uma grande consistência, acho que não foi por culpa deles universitários, mas não houve uma grande consistência, acho que não foi por culpa deles, mas por falta de unidade do movimento e apoio do governo.

21) RM: Quais os músicos já conhecidos do público que você têm como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Zé do Norte: Yamandu Costa, Hamilton de Holanda, Toninho Ferragutti, são exemplos de músicos bem resolvidos.

22) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical (falta de condição técnica para o show, brigas, gafes, show em ambiente ou público tosco, cantar e não receber, ser cantado etc)?

Zé do Norte: Já aconteceu de tudo que foi citado na pergunta. Tocar cinco horas seguidas e o proprietário do ambiente não deixar a gente se retirar, forçando todo grupo tocar mais uma hora. Brigas enormes forçando o fim do evento. Uma vez viajamos para o interior para tocar em uma formatura dos alunos; uma festa esperada o ano todo, na segunda música eu apaguei, caí e acordei no hospital. Tocar a noite toda e as pessoas nem olhar e pedir para baixar o som, etc.

23) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Zé do Norte: Deixa-me alegre a resposta do público no teatro quando executamos uma determinada peça, ou quando gravamos uma música e vemos nas novelas ou nas FMs estourada. E quando vamos a um lugar público e encontramos fãs que chegam e falam, parabéns pelo seu trabalho.

24) RM: Qual a sua opinião sobre o movimento do “Forró Universitário” nos anos Universitário” nos anos 2000?

Zé do Norte: Achei maravilhoso e inteligente o movimento do “Forró Universitário” nos anos Universitário”. Uma estratégia bem pensada e que tirou um pouco a imagem de que o Forró é uma música para gente sem instrução e formação escolar.

25) RM: Quais os grupos de “Forró Universitário” chamaram sua atenção?

Zé do Norte: Falamansa, Bicho de Pé, Forróçacana, Rastapé, Trio Virgulino, Fabiano Santana (uma pessoa da melhor qualidade que conheci em Lisboa – Portugal) entre outros.

26) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Zé do Norte: Pouco improvável que sem o pagamento do jabá a música tocar em rádio de grande audiência. Esse costume já é velho conhecido dos artistas que sempre sofreram com essa prática. Muita gente exploradora ficava de olho no dinheiro dos artistas e o melhor método seria explorá-lo com a paga do jabá, ainda bem que os rádios e tv perderam capacidade com a chegada das redes sociais.

27) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Zé do Norte: Tenha um plano “B”, a música não é uma profissão reconhecida por nossas autoridades, não lhe oferece segurança aposentadoria digna, plano saúde etc. Estudar paralelamente, tendo outra atividade, uma boa faculdade não impede você de ser músico, auxilia no know-how e no suporte financeiro.

28) RM: Quais os prós e contras do Festival de Música?

Zé do Norte: O festival só tem benefícios à música sem a exploração comercial, sem ser vista como mercadoria ou apenas um ritmo para dançar. Nos remete aos bons tempos dos festivais de MPB e uma visibilidade artística, principalmente a composição.

29) RM: Hoje os Festivais de Música revelam novos talentos?

Zé do Norte: Com a facilidade de divulgação nas redes sociais, hoje o Festival de Música apenas contribui para divulgação. O know-how pelo fato de a música passar em uma banca de júri que dar mais credibilidade ao compositor.

30) RM: Como você analisa a cobertura feita pela grande mídia da cena musical brasileira?

Zé do Norte: Existem planos nas agendas do planeta por parte dos políticos, de acabarem com a boa música, pois ela é um dos maiores veículos de informação política e instrução do povo. Os artistas persuadem com rapidez e precisão, por isso que retiraram das grandes mídias os grandes artistas. Nos anos 80 tinha o programa Globo de Ouro na Rede Globo, com as melhores músicas da semana por todo Brasil com: Djavan, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Dominguinhos, Beto Guedes, Roupa Nova, Maria Bethânia, Milton Nascimento, etc. É o mesmo fato nos Estados Unidos: acabar com a boa música, pois faz parte de uma agenda global. É um desastre a cobertura da grande mídia, um crime contra as crianças, as famílias, um atentado aos nossos ouvidos.

31) RM: Qual a sua opinião sobre o espaço aberto pelo SESC, SESI e Itaú Cultural para cena musical?

Zé do Norte: Maravilhoso, ainda existe quem se preocupe com a arte. E parabenizo essas instituições pela iniciativa, já me apresentei por várias vezes, achei muito bom. Eu, sugiro que melhorem os cachês, pois são muito abaixo da realidade das despesas que temos para fazermos uma apresentação, mas agradecemos aos idealizadores desses espaços.

32) RM: Qual a sua opinião sobre as bandas de Forró das antigas e as atuais do Forró Estilizado?

Zé do Norte: Acho que todas estão numa contra mão da boa música. Forró das antigas, posso citar Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Trio Nordestino, Marinês, Dominguinhos. Não existe modernidade na música, ela não tem idade, é um dom, um presente de Deus, é a temporal. Não podemos manipular a música ou trazer conceitos comerciais como fuga. Agora não podemos ser injustos com a empresa que gera empregos e o movimento do mercado. Eu, já trabalhei em empresa e produzi muitas bandas, umas 500. E por muito tempo tentei mudar o conceito com meus arranjos e tirando quando podia letras pejorativas. E quando percebi que não venceria o sistema sozinho, saí de perto e mudei de estilo. É preciso uma força cultural nacional para lutar contra esse sistema que tenta destruir a boa música, o verdadeiro Forró e que introduziu esse falso Forró como uma verdade musical nordestina.

33) RM: Quem você gostaria de agradecer pelo apoio e incentivo na carreira musical?

Zé do Norte: Agradeço a Deus por guiar nessa caminhada, minha esposa Amilca Alves pelo apoio nos momentos difíceis. Aos meus filhos Sarah e Isaac Lobo, meus colaboradores. Ao senhor Lauro Costa, Nogueira, Salviano Lobo pelo primeiro acordeon. Ao meu pai Abdon Lobo pelo incentivo e Dominguinhos por participar dos nossos projetos sempre com alegria. E a família Carloto.

34) RM: Zé do Norte, Quais os seus projetos futuros?

Zé do Norte: Estou preparando um novo álbum e pretendo trabalhar mais com projetos culturais e festivais de música. E criar um mercado para artistas de bom gosto, de boa música e empreender nessa área da cultura.

35) RM: Quais seus contatos para show e para os fãs?

Zé do Norte: (85) 98892 – 3241 | [email protected]

| [email protected]

| https://web.facebook.com/lasaro.lobo

| https://www.instagram.com/zedonortedoceara

Canal do Zé do Norte: https://www.youtube.com/user/ZedoNorteDoCeara

Waldoneando: https://www.youtube.com/watch?v=tEy46dJYt-A

Zé do Norte e Amigos – Live: https://www.youtube.com/watch?v=lkG9JYJySgw

Maestro Zé do Norte no Sanfonas do Brasil: https://www.youtube.com/watch?v=sPKpD8K3kWA


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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor responsável pela revista digital RitmoMelodia desde 2001, jornalista, músico, poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, propaga a diversidade musical brasileira através de entrevistas e artigos. Jornalista formado pela Universidade Estadual da Paraíba - UEPB (1996 a 2000) que lançou um livro de poesia em 1998 e seus poemas ganharam melodias gravadas em três álbuns concluindo a trilogia "reggae baseado em poesia" no seu projeto musical Reggaebelde. Unindo a sensibilidade do poeta, músico com o senso crítico do jornalista e pesquisador musical colocado em prática em uma revista que Canta o Brasil.