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Uma Revista criada em 2001
pelo jornalista, músico e poeta paraibano
Antonio Carlos da Fonseca Barbosa.

Wilson Dias

Violas de Minas – Projeto com os violeiros, Chico Lobo, Pereira da Viola e Wilson Dias. Parque Lagoa do Nado, Belo Horizonte MG. 04/06/2019. © Copyright Élcio Paraíso/Bendita – Conteúdo & Imagem | Todos os direitos reservados | All rights reserved

Quando a vida legitima a arte. Muitos elementos contribuem para a formação e o desenvolvimento de um artista, para forjar as características do seu trabalho e definir seu relacionamento sua cultura, bem como traçar o perfil de seu público. É o conjunto destes elementos, articulados dialeticamente ao longo de toda uma carreira, que garante o nome que carrega e sustenta suas conquistas em termos estéticos e de mercado. É este o caso do cantor, compositor e violeiro Wilson Dias, mineiro de Olhos D’Água, no Vale do Jequitinhonha, lugar especial, porque é ponto de partida de uma trajetória de sucesso.

Foi desse pequeno celeiro cultural que Wilson Dias herdou e trouxe para a arte as benéficas influências da vida em comunidade, da cultura e da arte popular, em suas manifestações tanto religiosas, quanto profanas. Enriquecido pelo berço onde nasceu, o artista cresceu aberto para a vida e livre para experimentar e se enriquecer ainda mais culturalmente, com todas as influências e experiências oriundas do folclore e da seresta mineira.

E mais, pode, sem perigo de contaminação negativa, ouvir de tudo – do samba ao bolero, do rock ao Jazz – e de tudo extraindo o que é a essência de um músico profissional: o amor e o gosto pela música e o conhecimento de seus princípios fundamentais, como ritmo, harmonia, melodia, sem se fechar, sem se limitar a um só estilo ou forma de realizar suas composições. Graças a sua dedicação, ao seu empenho e ao seu profissionalismo Wilson Dias teve condições de há mais de vinte e cinco anos viver exclusivamente de seu trabalho musical.

Não é por acaso que dois de seus dois filhos, Wallace Gomes (violão) e Pedro Gomes (baixo), estão seguindo a força de seu carisma e de seu exemplo, dividindo com ele os desafios e as alegrias do palco em quase todas as suas apresentações. Esteticamente, além da diversidade de ritmos da Música Popular Brasileira, o artista vem direcionando sua carreira para o encontro entre a tradição e o urbano com um viés especial para a cultura popular brasileira.

Sensível e atento às coisas da terra e da vida, Wilson Dias conta que “certa vez, quando eu ainda era criança, fiquei observando um pequeno bicho que carregava uma carga imensa em suas costas”. Eu quis tocá-lo, mas meu pai me interrompeu dizendo para ter muito cuidado, pois se tratava do “bichinho da fartura”, anunciando tempo bom e colheita abundante para aquele ano. Pois bem, se eu pudesse soprar no ouvido de cada filho dessa pátria, eu diria que a cultura popular é exatamente esse bichinho.

Ela é a locomotiva que conduz o trem da vida. Está presente em tudo. Canto, dança, crença, fala, livros, cores, soluções para os problemas. É passado e presente apontando o futuro. Propõe que nos encontremos e nos reconheçamos uns nos outros, afirmando a nossa história de gesto e rastro. Através dela, cantamos e contamos nossa aldeia na esperança de, ao menos, tangenciar essa misteriosa construção chamada ser humano. Viva o povo brasileiro!” Este é Wilson Dias, cantor, compositor e violeiro que canta com alegria e compromisso a terra, a arte e, a cultura e alma de sua gente. E seu canto é legítimo e forte porque tem suas raízes fincadas no mesmo chão onde vive e canta o seu povo.

Participa também do projeto Vivaviola, que reúne seis nomes da autêntica viola caipira de dez cordas em Minas Gerais: Pereira da Viola, Bilora, Joaci Ornelas, Gustavo Guimarães – lançado com sucesso em outubro de 2008 no Teatro Alterosa – Belo Horizonte, resultando no CD homônimo lançado no grande Teatro do Palácio das Artes em agosto de 2009, e Turnê pelas cidades de São João Del Rei, Diamantina, Paraty, Ouro Preto, Congonhas, patrocinado pela Natura Musica, com grande aceitação do público e da mídia.

Toda a força deste talento mineiro, toda a riqueza de sua arte musical está bem representada nos seus discos, gravados ao longo de vinte e cinco anos de trabalho e de muita estrada. Neles estão presentes sua visão de mundo, seu respeito à natureza, seus valores éticos e seu compromisso socioculturais, dos quais Wilson Dias, sempre coerente com o que pensa e canta, não abre mão.

O novo álbum “Ser(tão) Infinito”, lançado nas plataformas digitais em outubro/2021 e lançamento previsto para 03 dezembro de 2021. Neste trabalho, Wilson lança sua música ao espaço na certeza de que ela soará sempre e, ao soar, dará sentido e renovará as esperanças de quem a escutar. Nesse disco, Wilson apresenta sua música vestida com arranjos primorosos confeccionados, em grande parte, por seus filhos Wallace e Pedro Gomes. A verdade da vida de um cantador também se manifesta quando seus passos musicais imprimem sons no caminhar de seus filhos. Seu caminho como compositor não se resume à sintaxe de sua viola, cria além do que seu espaço oferece, vê adiante. Em gêneros e estilos diversos Wilson cria com os pés fincados no chão de tal maneira que algumas de suas músicas parecem brotar do povo, quais cantigas folclóricas.

Um dos 12 violeiros escolhidos como destaques para representar os mais de 400 violeiros e violeiras do Festival Voa Viola e selecionado para se apresentar na cidade de Recife – PE, Teatro de Santa Izabel. Ainda no Festival, premiado na categoria “Canção” entre as cinco modalidades que assinalaram a diversidade das expressões ligadas à viola no Brasil.

Os prêmios que coroam a sua trajetória: em setembro 2020 premiado com o Arte-Salva – Prêmio da Música Popular Mineira – Rádio Inconfidência -Área Regional – Melhor Intérprete. Em agosto de 2019 recebeu o Prêmio Grão de Música 2019, ano VII com o disco “Nativo” um espaço de valorização e promoção da música brasileira de todas as regiões do país e, especialmente, dos/das artistas que a representam. Em janeiro de 2011, recebeu o Prêmio Rozini de Excelência da Viola. Projetos realizados: Na Ponta da Língua (Teatro Gregório de Matos – Salvador/BA); “Vale, Vozes e Visões” (com show no Palácio das Artes), na Feira Nacional de Artesanato de Belo Horizonte (Expominas); na Feira de Música Independente de Fortaleza/Ceará; Música Independente (Sala João Ceschiatti/Palácio das Artes); Conexão Vivo (Parque Municipal – BH/MG); “Causos e Violas das Gerais” desde 2008, realização Sesc MG; 1º e 2º Festival Internacional de Cultura Popular “Vozes de Mestres” no Centro Cultural Lagoa do Nado e Ouro Branco-MG (homenagem à Zé Coco do Riachão); Viola de Feira, 2018 e 2019. 2021 – Carnaviola virtual, 4ª edição do projeto Viola de Feira, III Mostra Internacional de Violas D’Arame do Brasil — Edição Especial MG/PT, Festival Tradições; Sabiá Edição Junina – Correio do Amor; II Encontro Longeviver, dentre outras apresentações online. 2020 – Show do violeiro Wilson Dias no 2º encontro de folia e pastorinha de Diamantina; 29ª Festa Nacional do Pequi em Montes Claros; show Café no Bule – Prosa e Viola – teatro Raul Belém Machado-BH-MG.

“Viajei escutando o seu som. Você canta com o coração e a nossa alma agradece. Mande-me uma música para que eu possa por uma letra e assim participar mais do seu trabalho” (Paulinho Pedra Azul).

“Em seu 3º CD “Picuá”, Wilson Dias conseguiu fazer um disco com marca própria e que, embora esteja plantado no Jequitinhonha de origem, alcança voos próprios. Canções como Martin Pescador, na qual celebra o amor, e Canção de Siruiz adaptada do poema homônimo que está no Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa são poesia pura” (Carlos Herculano Lopes do Jornal Estado de Minas).

Wilson Dias achou de ser poeta e garimpeiro. E, às vezes, mistura os dois ofícios. É como caçador de esmeraldas do tempo que recolhe cantigas e temas de sua região. Como compositor de novos veios de sentido, acha canções tão lindas que parecem vindas de outras regiões da memória. Picuá traz um Vale do Jequitinhonha que se reconhece na primeira música e ecoa em todo o disco” (João Paulo Cunha, editor do caderno de Cultura do Jornal Estado de Minas).

“As histórias e o som de Minas dão o tom da viola caipira tocada por Wilson Dias. Em cada música, a dança, os ritmos, as festas religiosas, o folclore e as lendas. É a nossa melhor tradição atualizada pela mão do artista” (jornalista Patrícia Palumbo).

Wilson Dias é um expressivo exemplo da cultura mineira, ele não é só um violeiro; é um violeiro-poeta que canta através do instrumento as coisas e causos que compõe a identidade do verdadeiro mineiro. Quando Wilson Dias está no palco ele nos confunde de tal maneira que não sabemos onde começa o seu corpo e termina a madeira da viola. A viola é seu terceiro braço, é a extensão de seu corpo. Wilson Dias é um homem que tem por alma uma viola… e é por isso que ele é grande! Wilson Dias é o Chico Buarque do sertão!” (admiradora Paula do Vale).

“Natural do Vale do Jequitinhonha, o violeiro, cantor e compositor, Wilson Dias trouxe para a arte as influências da vida em comunidade, da cultura popular, em suas manifestações tanto religiosas, quanto profanas. Suas canções revelam o encontro entre a tradição e o mundo contemporâneo, com força e verdade. O Voa Viola, premiando Wilson Dias, rende homenagem ao cantador das Gerais, ao caminho “roseano” de fazer arte“ (Paulo Freire e Roberto Corrêa).

Segue abaixo entrevista exclusiva com Wilson Dias para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 17.11.2021:

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Wilson Dias: Nasci no dia 08.09.1963, na Comunidade de Bamburral, Olhos D’água, no Vale do Jequitinhonha, norte de Minas Gerais. Filho de Antônio Graciano de Jesus (Tonim) e Terezinha de Jesus Dias e fui registrado como Wilson Nativo de Jesus.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Wilson Dias: Costumo dizer que aprendi meu ofício de violeiro cantador ainda no ventre de minha mãe Terezinha, escutando meu pai Tonim tocar sua violinha para acompanhá-la nos cantos de ladainha.

03) RM: Qual sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical?

Wilson Dias: Sou autodidata, filho de um folião. Aprendi com meu pai Antônio Graciano de Jesus (Tonim) os primeiros acordes da viola, criando laços com o fazer, enquanto ele fazia. Assim, esse olho d’água se tranformou em ribeirão dentro de mim.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Wilson Dias: Nasci num berço cultural chamado Vale do Jequitinhonha e tive o privilégio de não precisar ir longe para encontrar meus ídolos, meus mestres. Muitas vezes eles estavam muito próximos e, no meu caso, dentro da minha própria casa: meus pais. Outros artistas que me influenciaram: Rolando Boldrin, Milton Nascimento, Pereira da Viola, Renato Teixeira, Almir Sater, Zé Coco do Riachão, Rubinho do Vale, Coral Trovadores do Vale, Dércio Marques. Todos são importantes para mim.

 

05) RM: Quando, como e onde você começou sua carreira musical?

Wilson Dias: Com aproximadamente sete anos de idade (1970), eu já trabalhava com meu pai Antônio Graciano de Jesus (Tonim) na lida diária da roça. Vez em quando, dava um jeitinho de escapulir e pegar a violinha dele escondido. Tinha que deixá-la do mesmo jeito para ele não perceber, ou fingir que não percebia. Aos onze anos, me mudei para Bocaiúva – MG, onde tive contato com João do Lino Mar, Mestre da Guarda de Catopês da cidade. Ficamos amigos e isso foi impactante na minha formação musical. Em 1981, já morando em Belo Horizonte – MG com um primo chamado Itamar Lima, que também é músico, e que, na época, estudava na “Música de Minas Escola Livre”, eu aproveitava seu material de estudos para estudar um pouco e criar conexão com a música que eu já fazia quando aqui cheguei. Comecei a trabalhar profissionalmente com a música tocando violão, contrabaixo e cantando nos bares e bailes da vida. Em 1994, fui ao Festivale – Festival de Cultura Popular do Vale do Jequitinhonha, na cidade de Carbonita e assisti pela primeira vez um show do Pereira da Viola. Eu nunca imaginei que a viola tivesse aquele som todo que ele trazia junto a uma banda maravilhosa, porque até então, o contato que eu tinha com esse instrumento era no ambiente mais acústico, sagrado e com as duplas caipiras. Daquele dia em diante, decidi que iria tocar aquele instrumento. De volta a Belo Horizonte, peguei uma violinha emprestada com o poeta Gonzaga Medeiros e comecei a brincar com o instrumento, tirar um som, e foi uma experiência fantástica; ele foi remontando imagens daquela criança que nasceu e cresceu neste ambiente mágico, chamado cultura popular. Fui fisgado pelo som da viola e minha carreira consolidou como violeiro. Foi como se eu tivesse reencontrado o meu primeiro amor.

06) RM: Quantos CDs lançados?

Wilson Dias: Nos meus vinte e quatro anos de carreira fonográfica lancei: o álbum “Pequenas Histórias” (1997).

“Outras Estórias” (2002), um álbum que foi patrocinado pela Egesa Engenharia, através da Lei Rouanet, assim como o projeto “Outras Estórias na Estrada”, que viabilizou uma turnê de lançamento do disco em onze cidades mineiras: Montes Claros, Carbonita, Bocaiúva, Ipatinga, Ouro Preto, Tiradentes, Diamantina, Governador Valadares, Juiz de Fora, Uberlândia e Belo Horizonte, com ampla repercussão perante o público e a imprensa.

“Picuá” (2007), um álbum patrocinado pela Cemig Cultural, através da Lei Rouanet, Wilson Dias finaliza uma trilogia que trabalha o universo roseano, o sertão, com a musicalidade matuta do povo do Vale do Jequitinhonha, causos das Minas várias, dentro do universo brasileiro. São batucões, folias, tira-versos, lundus, calangos, vindos da rica cultura popular da região, fonte constante de pesquisas realizadas pelo cantor. Desse modo, o artista encerra vivências em deslumbrante viagem de volta às terras de sua infância, que mostra o que de mais tradicional se toca e se canta às margens do Rio Jequitinhonha.

“Vivaviola – 60 cordas em movimento” (2009).

“Pote – A melodia do chão” (2010), um álbum independente e inédito, criado em parceria pelos violeiros e cantadores, Pereira da Viola e Wilson Dias, e o poeta e jornalista João Evangelista Rodrigues. Três mineiros de águas fortes e confluentes, vindos, respectivamente, do Vales do Mucuri, do Jequitinhonha e do São Francisco. Três vertentes com raízes comuns no que diz respeito à cultura popular, ao sentimento de religiosidade e às convicções políticas, fundada na amizade e na defesa da cidadania.

“Mucuta” (2011) instrumental, um álbum independente. As delicadezas presentes nesse disco não as são por acaso; são buscadas, testadas e, quando o mestre violeiro as encontra, elas encantam como o cheiro da terra molhada. É urgente que se guarde essas delicadezas. Mucuta é o depositório no qual eu estou guardando e, ao mesmo tempo, compartilhando conosco suas memórias do cerrado. É claro que a terra em que viveu está presente em sua música, não poderia ser diferente já que a música que faz é fruto de seu contato com essa terra, essas flores, esses pequis. Talvez a coisa mais impressionante nesse novo trabalho de Dias seja a unidade que ele consegue em suas músicas e a forma como a violinha canta suas lembranças. Músicas que aprendeu com seus velhos mestres e que ecoaram em sua memória durante anos, até serem paridas na forma que aqui se encontram. Esse nascimento não pode ser apenas fruto de uma intuição descompromissada; ele pertence a outro nível de elaboração, deveras sofisticado simplesmente porque genuíno. Essa é a grande contribuição que esses homens rurais podem dar à nossa música: deixar que ela fale por si mesma e que, assim falando, nos ensine qual a melhor forma de cuidá-la, de cultivá-la, e por fim, de guardá-la no único lugar possível, nosso coração.

“Vivaviola – viva a cantoria” (2013).

“Lume” (2013), Música é Lume. Som e silêncio. Harmonia que brilha e eleva o sentido da voz. Canção em um tempo de ensurdecedores conflitos e confusões estéticas. Mais do que nunca as artes dialogam entre si e se influenciam. Poesia e música, a despeito de todas as distinções e discussões históricas, andam

juntas desde a antiguidade grega. Lume é essencialmente um disco de canção. Por isso, nele, valoriza-se a sonoridade da palavra, chegando-se assim, à melodia, com o desejo de que o ouvinte pare e ouça a letra que, neste caso, é signo constitutivo do trabalho do compositor.

“Nativo”, um álbum duplo (instrumental + canção), comemora mus 20 anos de carreira, lançado no Sesc Palladium em setembro/2018 e coroa a minha maturidade. Na época eu tinha 56 anos, eu artista do mítico Vale do Jequitinhonha, confirma o pensador português Boaventura de Sousa Santos: sabe de sua própria existência, aprendeu a partir de si e para consigo mesmo. Cancioneiro e instrumental, “Nativo” é um álbum duplo cuja sonoridade nos oferece as memórias mais profundas de nossa ancestralidade.

“Ser(tão) Infinito”, lançado nas plataformas digitais em outubro/2021 e lançamento previsto para 03 dezembro de 2021.Neste álbum lanço minha música ao espaço na certeza de que ela soará sempre e, ao soar, dará sentido e renovará as esperanças de quem a escutar. Apresento minha música vestida com arranjos primorosos confeccionados, em grande parte, por meus filhos Wallace e Pedro Gomes. A verdade da vida de um cantador também se manifesta quando seus passos musicais imprimem sons no caminhar de seus filhos. Seu caminho como compositor não se resume à sintaxe de sua viola, cria além do que seu espaço oferece, vê adiante. Em gêneros e estilos diversos eu crio com os pés fincados no chão de tal maneira que algumas de minhas músicas parecem brotar do povo, iguais as cantigas folclóricas.

07) RM: Como você se define como Violeiro?

Wilson Dias: Minha forma de tocar Viola está muito mais próxima das tradições e das manifestações da nossa cultura popular brasileira. Sempre que tenho que explicar a música que eu faço, minha forma de compor, de tocar, ou seja, minha relação com a arte, preciso fazer uma viagem imaginária e buscar os vários personagens, especialmente os mestres violeiros que encontrei pelo caminho e criei laços com o fazer, enquanto eles faziam. Assim, essa transmissão de saberes perpetua. Para mim, a música é um “Ser” infinito. Uma entidade.

08) RM: Quais afinações você usa na Viola?

Wilson Dias: Cebolão (A, D, F#, A, D ou B, E, G#, B, E), Rio abaixo (G, D, G, B, D), e uma afinação muito especial que denominei de “afinação sagrada” (G, C, E, C, D), por que era a afinação que meu pai Antônio Graciano de Jesus (Tonim) tocava para acompanhar minha mãe nos benditos, nas ladainhas, no ofício sagrado.

09) RM: Quais as principais técnicas o violeiro tem que conhecer?

Wilson Dias: A Viola é um instrumento tão interessante que cada violeiro tem uma forma, uma técnica particular de tocar este instrumento. Talvez porque até pouco tempo, não existia o ensino formal nas escolas de música pelo Brasil afora.

10) RM: Quais os violeiros que você admira?

Wilson Dias: A minha admiração maior é pelos os mestres violeiros, vou citar alguns aqui: os Mestres Zé Coco do Riachão, Zé Padre, Eraldo do Monte, Tião Carreiro, Renato Andrade, Almir Sater, Ivan Vilela, Roberto Corrêa, Paulo Freire, Levi Ramiro, Pereira da Viola, Zé Mulato, Inezita Barroso, Helena Meireles, Tavinho Moura e dos violeiros mais jovens posso citar: Neymar Dias, João Paulo Amaral, Fernando Sodré, Bilora, entre outros.

11) RM: Como é seu processo de compor?

Wilson Dias: Talvez a grande composição de um artista seja a conquista da simplicidade e a convivência tranquila com a própria alma e memória. É o que permite, sem esforço, que a comunicação se dê em outro nível. Meu trabalho é uma mescla entre temas da cultura popular e canções autorais. Claro que uma composição não pode ser fruto de uma intuição descompromissada, ela pertence a outro nível de elaboração: o olhar e a escuta.

12) RM: Quais as principais diferenças técnicas entre a Viola e o Violão?

Wilson Dias: As diferenças básicas entre os dois instrumentos são: A Viola tem a caixa acústica (corpo) menor que o Violão e por isso tem um timbre agudo, quase metálico. Possui cinco pares de cordas de aço, enquanto o Violão tradicional possui seis ou sete cordas de nylon. Em um Violão as cordas são tocadas individualmente e na Viola são tocadas aos pares.

13)RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Wilson Dias: Eu sempre digo que esta denominação “independente” é quase que incompreensível para mim, porque estamos sempre dependendo de alguma coisa. O bom de ser um artista independente é que temos total liberdade no processo criativo, uma vez que não precisamos nos enquadrar em um nicho mercadológico. No meu caso, quando faço uma canção, fico torcendo que ela encontre abrigo no coração das pessoas, como um lavrador que planta sua roça e pede à Deus tempo bom e colheita farta. Quando conseguimos isso, o papel se inverte. O público começa a lhe procurar como um diamante raro. O ato de registrar e publicar faz parte do compromisso com outra história, a da humanidade.

14) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

Wilson Dias: Produção de shows: Neste caso eu deixo a cargo da produção de minha carreira artística, a Picuá Produções. A produção é responsável em enviar meu material para os espaços culturais, afim de fechar shows, elaborar projetos culturais e cuidar de todas as demandas para realização de um evento. Fora do palco: A vida diária de um artista é uma extensão do palco. São estudos diários, aperfeiçoamento na execução do instrumento, criação e ensaios solo e com a banda. Palco: O palco se torna uma extensão de minha casa/vida, de minha carreira. Ali eu dou o máximo de mim para que o show aconteça da melhor forma possível.

15) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira?

Wilson Dias: Acredito que para se desenvolver uma carreira, a primeira coisa que devemos ter é disciplina, criar o hábito de estudar o instrumento e estabelecer conexões com outros artistas que tenham relação com a música que você faz.

16) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira?

Wilson Dias: Pontos positivos: Hoje em dia, a internet se tornou uma ferramenta importante para divulgação dos trabalhos dos artistas. O que a tempos atrás estava ao alcance somente da grande mídia, hoje se tornou um facilitador para a popularização da música nos smartphones e no ambiente digital, sempre ao alcance de muitos. Isso faz com que o nosso trabalho chegue a um diversificado público, o que antes era possível apenas em shows presenciais. Não posso dizer que há um ponto negativo, ou que prejudique minha carreira, mas algumas plataformas que utilizamos para disponibilizar e divulgar nossa música ainda não remunera os artistas como eu acho que deveriam. Mas como este ainda é um processo novo, espero que isso seja revisto e que a gente encontre uma maneira de resolver esta equação.

17) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)?

Wilson Dias: O home estúdio hoje já não é uma novidade. O que acontecia de maneira esporádica virou uma grande oportunidade de trabalho e renda para todo o seguimento da produção de áudio e vídeo. Com o período de isolamento social, o home estúdio virou a grande ferramenta para muita gente começar a produzir bons vídeos, áudios e até fazer transmissões ao vivo sem precisar sair de casa. Penso eu que este é um caminho sem volta, pois os grandes eventos já trabalhavam de forma híbrida. Hoje, isso é uma realidade para os eventos de médio e pequeno porte também. Não vejo nenhuma desvantagem em se ter um home estúdio.

18) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar o CD não é mais o grande obstáculo. Mas concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Wilson Dias: A primeira coisa é não se preocupar com a concorrência. A viola é um seguimento da música brasileira que tem um público bem fiel. Se você contar a sua história e cantar a sua verdade, você acaba conquistando seu espaço no coração das pessoas.

19) RM: Como você analisa o cenário da música Sertaneja. Em sua opinião quais foram as revelações musicais nas últimas décadas e quais permaneceram com obras consistentes e quais regrediram?

Wilson Dias: Parece até mentira, mas eu conheço muito pouco a música sertaneja atual, por isso prefiro não opinar. Muita gente até diz que a música que eu faço não é sertaneja, assim como outros violeiros reclamam a mesma coisa, e aí a gente cai em uma discursão eterna. Quando queremos que a nossa música toque no rádio ou TV, qual o programa de música devo buscar? Não é o sertanejo, porque nossa música não é sertaneja. Os programas de MPB também dizem que a nossa música não é MPB. Mas tem um lado positivo: isto demonstra que estamos inovando o instrumento na maneira de tocar e de compor. Acho que podemos chamar de “música de viola”. O disco mais recente de viola que eu ouvi foi o disco “Caipira” da Mônica Salmaso, com violas do Neymar Dias. A música que eu mais escuto vem das manifestações populares. Das folias de reis, dos batuques, do congado, ou seja, eu ainda prefiro os Mestres. Tenho ouvido alguns violeiros dos mais jovens: Neymar Dias, João Paulo Amaral, Gustavo Guimarães, Rodrigo Delage, dentre outros.

20) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Wilson Dias: Um sertanejo filho de um lavrador folião, que grava oito discos ao longo de sua caminhada e vive dignamente de sua carreira musical até aqui e têm dois filhos Wallace Gomes (violão), Pedro Gomes (baixo) que são músicos maravilhosos, não pode ter motivos de tristeza. Amo de paixão o que eu faço.

21) RM: Quais os outros instrumentos musicais que você toca?

Wilson Dias: Quando iniciei minha carreira, eu cheguei a tocar um pouco de contrabaixo e violão. Mas hoje eu me dedico exclusivamente à viola caipira.

22) RM: Quais os vícios técnicos o violeiro deve evitar?

Wilson Dias: Não tenho embasamento técnico para analisar esta questão. Apenas acho a Viola é um instrumento muito generoso que tem o som maravilhoso e deve ser explorado ao máximo. Eu procuro evitar os acordes em que se prende todas as cordas, porque muitas vezes o som do instrumento, que é tão bonito, não soa como se deve com as cordas presas.

23) RM: Quais os erros no ensino da Viola?

Wilson Dias: Como eu não sou professor, e não tenho uma didática para o ensino da Viola.

24) RM: Tocar muitas notas por compasso ajuda e prejudica a musicalidade?

Wilson Dias: Como a Viola é um instrumento de cordas duplas, os harmônicos soam dobrados. Neste caso, menos é mais.

25) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Wilson Dias: Para os meus filhos, por exemplo, eu disse para estudarem bastante. Eu acredito que quando você imprime um ritmo de estudo diário e começa mais cedo, tudo fica mais fácil. Para quem quer ser violeiro, meu conselho é que busque espiar os Mestres bem de perto, pois eles são nossa grande escola.

26) RM: Existe o Dom musical? Qual a sua definição de Dom musical?

Wilson Dias: Acho que existem pessoas que têm mais facilidade no aprendizado e o ambiente onde a gente vive faz uma grande diferença. A convivência transforma.

27) RM: Qual a sua definição de Improvisação?

Wilson Dias: Improvisação, para mim, é conhecimento acumulado.

28) RM: Existe improvisação de fato, ou é algo estudado antes e aplicado depois?

Wilson Dias: Sim, existe. Mas acho que para improvisar bem é preciso estudar muito.

29) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre Improvisação musical?

Wilson Dias: Eu nunca estudei métodos de improvisação e nem sei improvisar. Mas convivo com músicos que improvisam muito bem, fruto de muito estudo.

30) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre o Estudo de Harmonia musical?

Wilson Dias: Estudei um pouco de harmonia já na minha fase adulta e profissional, mais para entender a música que eu fazia como compositor autodidata. E para isso fui buscar professores particulares.

31) RM: Como chegar ao nível de leitura à primeira vista?

Wilson Dias: Antes de me tornar violeiro, eu fui contrabaixista e cheguei a tocar lendo partitura. Acredito que a leitura é prática e como não tenho praticado, hoje não leio mais.

32) RM: Como você analisa a cobertura feita pela grande mídia do cenário musical brasileiro?

Wilson Dias: A verdadeira música feita no Brasil hoje não está na grande mídia. Talvez seja meu gosto pessoal, mas a música que eu mais escuto está nas mídias alternativas e, com raríssimas exceções, em alguns programas de TV e rádio. Ex: Sr. Brasil, com Rolando Boldrin, Rádio Inconfidência – em Minas Gerais, Brasis, com Teca Lima da Rádio Cultura de São Paulo, Programa RevoredoRádio USP, Talentos BR Rádio Sudeste, e vários aplicativos de música, dentre outros.

33) RM: Qual a importância de espaço como SESC, Itaú Cultural, Caixa Cultural, Banco do Brasil Cultural para a música brasileira?

Wilson Dias: A importância do setor cultural é hoje bem reconhecida, estudos de impacto econômico têm sido usados há anos por defensores dos investimentos em artes. Estes estudos têm fornecido justificação econômica e financeira, oportunidade de emprego e renda, provando que são particularmente úteis na argumentação contrária aos cortes de gastos para o setor. Iniciativas como estas onde a nossa arte encontra abrigo, foi, é, e sempre será de suma importância.

34) RM: Quais os seus projetos futuros?

Wilson Dias: Dia três de dezembro estarei lançamento meu oitavo cd de carreira “Ser (tão) infinito” e pretendo circular com shows de lançamento. Se Deus nos permitir, em 2022 vamos botar o pé na estrada novamente.

35) RM: Quais seus contatos para show e para os fãs?

Wilson Dias: (31) 98515 – 7122 | [email protected] – Picuá Produções/Nilce Gomes

Instagram: https://www.instagram.com/wilsondiasvioleiro

Facebook: https://www.facebook.com/wilson.diasvioleiro.1

Spotify: https://open.spotify.com/artist/4TBAVvWeWqR7vfzrGA5SE7?si=ohnzYGtuRjykkKr3kwoibQ

Canal do Youtube: https://www.youtube.com/WilsonDiasvioleiro

Playlist CD – Picuá: https://www.youtube.com/watch?v=6eZPQobsBbE&list=PLTCWeOiJKFiG1zXX6-yVSzW2UmTT5DaRU

Playlist CD Mucuta: https://www.youtube.com/watch?v=9W2jPteCXj4&list=PLTCWeOiJKFiGMhvXMfXGwugMGl3wfu0JJ

Playlist CD Lume: https://www.youtube.com/watch?v=ZMVkif_Wz8U&list=PLTCWeOiJKFiEPKPnWrw_3TkzGHQcSQD8S

Playlist CD Nativo: https://www.youtube.com/watch?v=-k_6a0crGAE&list=PLTCWeOiJKFiG1mqHa3GthewXA0Ii9hi4x

Live Violas de Minas – 09 de maio 2021: https://www.youtube.com/watch?v=nPDm0e5J1Lc


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Uma Revista criada em 2001
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