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Categorias: EntrevistasForró

Vanu Rodrigues


Cantora, compositora, pesquisadora do cancioneiro brasileiro e da circulação da música brasileira no estrangeiro, a baiana Vanu Rodrigues, radicada em São Paulo há mais de duas décadas, tem como marcas importantes de seu trabalho musical uma voz personalística, além de expressiva presença de palco, acrescentando charme, graça a suas apresentações.

Fez parte do Coral da Escola Técnica Federal da Bahia e da USP sob regência do maestro Alberto Cunha e integrou a Orquestra Experimental do SESC Consolação, coordenada por Ricardo Zohio, baixista alinhado à concepção musical de Hermeto Pascoal que valoriza a cultura nordestina. Com esse grupo, apresentou-se no próprio SESC e em espaços diferenciados como teatros e escolas de arte, aperfeiçoando seus conhecimentos musicais, por meio de técnicas de instrumentos de sopro na execução de seu canto, o que tornou sua expressão sonora mais rica e diversificada. Também no SESC Consolação trabalhou com o grupo de Choro e Canção, sob coordenação de Bob Souza.

Tem como principal foco de seu trabalho a música para dançar, como o samba, o forró, o samba rock, o xote, os ritmos brasileiros. Busca imprimir seu trabalho em novos arranjos. Participou do show de estreia de Joquinha Almeida no Canto da Ema. Apresentou shows especiais em homenagem a Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Jackson do Pandeiro, Dorival Caymmi, Noel Rosa, Chico Buarque, figuras importantes de nosso cancioneiro.

Concluiu o doutorado, tendo como foco de sua pesquisa as notícias da música popular e dança coreográfica do Brasil nos jornais americanos, no século XX.

Tem desenvolvido novas pesquisas, a fim de investigar a participação da mulher na criação da música brasileira, onde figuras como Chiquinha Gonzaga, Anastácia, Rita Lee, Carmem Miranda se destacam. Em 2018 fez uma série de shows através da Secretaria de Cultura, no âmbito do Estado de São Paulo. Atualmente está produzindo seu segundo CD.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Vanu Rodrigues para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistada por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 24.03.2021:

Índice

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Vanu Rodrigues: Nasci no dia 16.05.1969 em Euclides da Cunha, sertão da Bahia, lugar que pode presentear as pessoas com estrelas, tão límpido é o céu à noite. Registrada como Vanúzia Almeida Rodrigues.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Vanu Rodrigues: A música sempre foi parte importante do meu cotidiano em família. Era uma prática ouvir os novos lançamentos e discutir sobre a qualidade dos projetos artísticos, principalmente os trabalhos de artistas brasileiros, sempre muito festejados em casa. Por outro lado, eu não tive nenhum músico da família em quem pudesse me inspirar. A descoberta de que eu trabalharia com música foi pessoal, algo que eu percebi em mim, não foi uma ação incentivada.

É difícil identificar precisamente esse primeiro contato com a música, talvez as batidas do coração de minha mãe, quando eu ainda estava mergulhada em seu universo, mas a lembrança desse momento parece volátil. No fundo, essa pergunta remonta ao momento em que tivemos consciência da música em nossa vida pela primeira vez, porque estamos sempre em contato com ela no cotidiano, mas nem sempre nos damos contato desse processo.

Vou pontuar os que foram mais marcantes e estão mais vivos em minha memória. Lembro-me de minha mãe, dona Lindaura, cantando sempre que estava envolvida nas tarefas de casa ou quando trabalhava em suas costuras, e associo essa imagem à da cigarra – o som de sua voz se imiscuía ao da máquina de costura. Essa lembrança é preciosa para mim!

É uma canção só minha e dela. Em minha cidade, tinha também seu Edmundo, um homem muito carismático, dono de uma loja de presentes finos e que era autodidata na música, dominando diferentes instrumentos de corda como violão, bandolim e cavaquinho. Aos domingos executava peças de chorinho, veiculando na rádio difusora de Euclides da Cunha. Sempre ficávamos atentos e esperávamos ansiosamente por esse momento.

Grande parte da família dele era muito musical e filhos e sobrinhos tinham vocação para instrumentos de corda, o que lhe permitia fazer uma espécie de clube da música em Euclides da Cunha. Desde muito pequena o debate sobre a música brasileira era intenso em minha casa e meu tio Salomão, que viveu conosco como irmão, foi uma grande influência na formação do meu gosto musical. Entre os medalhões da música, Elis Regina foi uma importante referência pra mim e antes mesmo da adolescência eu me propunha a interpretar músicas cantadas por ela, sempre que tinha oportunidade. Mexia com minha alma!

Outro contato que destaco foi o canto coral em que estive durante sete anos de minha vida, primeiro em Salvador – BA e depois nos anos 2000 para São Paulo. Por tudo isso, eu considero difícil falar de primeiro contato, mas é possível falar de momentos que marcaram minha interface com a música e dos quais tenho consciência.

03) RM: Qual a sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical?

Vanu Rodrigues: Eu estudei música, incialmente, participando de corais. Primeiro foi o da Escola Técnica Federal da Bahia e o segundo, na USP. Além disso, fiz aula de canto com professores particulares. Com Fabíola Medeiros; preparadora de voz no teatro, Lyba Serra,  Sandra Espirez, Wagner Barbosa.

No que diz respeito à formação acadêmica, eu fiz Ciências Sociais, mestrado em Sociologia e doutorado em História Social na USP, um grande aprendizado na área de ciências humanas. Minha tese de doutorado em História Social intitulada “Música popular e dança de salão: o maxixe nos jornais norte-americanos do início do século XX” foi o resultado dessa rica experiência que ajudou a entender a simbiose entre a música e a dança de caráter popular. Ficou evidente que esta relação de interação, eu diria de casamento entre música e dança, foi essencial para a difusão e penetração da música popular nos meios sociais no início do século XX, já que ela era “mal vista”, condenada pelas classes sociais abastadas.

A dança popular abriu caminho para a música popular, e esse movimento simbiótico foi um ponto de distinção entre a expressão musical de caráter “popular” e a música clássica, ou de concerto naquele contexto de início do século XX. Ainda hoje percebo esse casamento entre coreografia e música popular como um mecanismo de difusão da expressão musical e ambas expressões artísticas se beneficiam no que diz respeito à popularização. Curioso é que naquele tempo, as coreografias eram tidas como lascivas, vulgares e hoje, guardadas as devidas proporções, isso também acontece.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância? 

Vanu Rodrigues: Esta é uma pergunta difícil porque a gente corre o risco de esquecer alguém. Felizmente temos muitos artistas incríveis. No passado antigo e presente estão: Luiz Gonzaga, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Chico Buarque, Elis Regina, Gal Costa, Maria Betânia, Dominguinhos, Alceu Valença, Zé Ramalho, Elba Ramalho, Anastácia, Geraldo Azevedo, Vinícius de Moraes, Baden Powell, Moraes Moreira, João Bosco, Eduardo Gudin, Nação Zumbi, Jorge Benjor; Petrúcio Amorim, atualmente Bicho de pé, Bahiana System, Chico César, Lenine, Duda Beat, Liniker, Tulipa Ruiz, Otto, as Bahias e a cozinha mineira, Criolo, Johnny Hooker, Luedji Luna.

Quando reflito sobre as influências que me marcaram em termos musicais o que me vem à cabeça é um mosaico ou uma colcha de retalhos ou ainda um caldo cultural feito de diversas especiarias. Sons, imagens, aromas e sabores se combinam. Sou muito ligada à produção cultural brasileira e não é à toa que estou estudando identidade musical de nosso país. A música produzida no “Brasil de Norte a Sul” ecoa forte em mim.

Cresci vendo e ouvindo sons bem diversos, que abarcam desde o folclore, passando por ritmos como coco, afoxé, maracatu, embolada, carimbó, entre outros. A própria literatura de cordel, a execução das bandas de pífanos, música religiosa – romarias, rezas entoadas em latim, procissões -. Mais do que som, tudo isso é um cenário ou poderia compor a trilha sonora de minha vida até a pré-adolescência, quando ouvi abundantemente Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Elomar, Xangai, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Ednardo, João Bosco, Milton Nascimento, Alceu Valença, Trio Armorial, Jackson do Pandeiro, Chico Buarque, Tom Jobim, João Gilberto, Moraes Moreira, Hermeto Paschoal, Rita Leem, Amelinha.

Cada vestígio de som que descubro faz crescer ainda mais minha admiração pela riqueza de nossa música. Da adolescência em diante, passei a ter mais contato com a música internacional, no Jazz e Blues, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Areta Franklin, foram muito importantes, no rock e pop – The Beatles, John Lennon, Janis Joplin, Led Zeppelin, Pink Floyd, Queen/Fred Mercury.

05) RM: Quando, como e onde você começou a sua carreira musical?

Vanu Rodrigues: O início de minha carreira está ligado ao grupo de música experimental do SESC Consolação, sob a batuta de Ricardo Zohyo. Com ele subi ao palco do SESC pela primeira vez, isso deve ter sido em 2002 /2003. A noite paulistana foi uma grande escola para eu me exercitar no palco. Produzi shows em homenagem a Dorival Caymmi, a Eduardo Gudin, neste último dividindo o palco com Shirley Espíndola. 

A experiência de produção também é muito importante porque ela exige que se olhe o todo. Você é obrigada a ter clareza sobre o conceito artístico que está por trás do trabalho, precisa escolher repertório, reunir músicos, ensaiar, saber com quais recursos você conta e é fundamental que aprenda a comunicar o trabalho artístico que desenvolveu. Estar no palco é expressão primeira desta comunicação, fazer com que saibam sobre o espetáculo, sobre sua arte é a outra parte. “O show não pode parar”! 

Eu canto há mais de 20 anos, mas entendo que meu ingresso no meio profissional aconteceu quando, em 2012, lancei meu primeiro álbum – “Baú de Quimeras”.

06) RM: Quantos CDs lançados?

Vanu Rodrigues: Meu primeiro álbum – “Baú de Quimeras”, lançado em 2012, foi um marco para mim. É interessantíssimo perceber como a biografia de um artista vai se inscrevendo de maneira gradual no desenvolvimento de sua obra, é o que ocorre com a feitura de um álbum. São seus desejos, sonhos, sua personalidade musical, sua maneira de pensar, sentir, perceber, agir, as principais influências sonoras que teve.

Está tudo lá, sem que, ao longo do processo, você se dê conta que tudo isso estava acontecendo, e eis que ele nasce!  Não gostaria de enquadrar minha música em um perfil, prefiro estar envolvida no “fazer”, na “realização do trabalho”, faço música brasileira, e por isso passeio por vários gêneros musicais. A faixa título “Baú de Quimeras” que tematiza o papel dos sonhos em nossa vida “de carne e osso” é sempre muito bem recebida e é bastante destacada nos lugares onde tocamos, assim como as músicas “Beijo”, que é jocosa, tem um tom de descontração e brincadeira, “Maria Moderna”, que fala das novas formas de amar, do novo papel da mulher e da internet e “Meu analista”, que aborda o fim de um amor.

Meu primeiro álbum tem a direção musical de Edu Malta e a maior parte dos arranjos leva sua assinatura. Rodolfo Stocco, que escreveu os arranjos de duas músicas e a produção musical é minha e do Edu Malta. Os músicos que fizeram parte desta produção foram: Alessandro Ribeiro, André Gomes, Angela Coltri, Claudio Oliveira, Franklin, Edu Camargo, Edu Malta, Edu Salmaso, Franco, Humberto Ziegler, Lael Medina, Leo Costa, Lucas Silva, Marcílio Zarpelão, Rodolfo Stocco, Thadeu Romano.

07) RM: Como você define seu estilo musical?

Vanu Rodrigues: Sou uma cantora dedicada à música dançante, especialmente Forró e Samba, que são os gêneros que eu mais canto. Mas isso não significa que eu só cante músicas agitadas, dançantes, muito menos que eu não posso cantar baladas musicais. Eu acredito que o cantor deve ampliar ao máximo as possibilidades do trabalho vocal e se arriscar.

08) RM: Você estudou técnica vocal?

Vanu Rodrigues: Sim, nos Corais da Escola Técnica Federal da Bahia e, como disse antes, fiz aula de canto com professores particulares. Alguns dos professores foram: Fabíola Medeiros; preparadora de voz no teatro, Lyba Serra,  Sandra Espirez, Wagner Barbosa.

09) RM: Qual a importância do estudo de técnica vocal e cuidado com a voz?

Vanu Rodrigues: Todo trabalho artístico exige persistência para que se adquira consistência e a técnica vocal é de extrema importância para um resultado de boa qualidade da voz cantada. Além disso, considero a voz uma ferramenta de autoconhecimento.

10) RM: Quais as cantoras(es) que você admira?

Vanu Rodrigues: Elis Regina, Gal Costa, Maria Betânia, Elba Ramalho, Anastácia, Monica Salmaso, Teresa Cristina, Marisa Monte, Mariene de Castro, Roberta Sá, Daniela Mercury, Ivete Sangalo, Nina Simone, Ella Fitgerald, Whitney Huston, Amy Whinehouse, Adelle, Beyoncé,.

11) RM: Como é o seu processo de compor?

Vanu Rodrigues: Meu processo começa sempre por um caminho intuitivo. Em geral, escrevo a letra e busco encontrar uma melodia que conte aquele enredo. Mas, já aconteceu de surgir uma melodia para depois eu colocar a letra. Ao final, a música encontra seus próprios caminhos.

12) RM: Quais são seus principais parceiros de composição?

Vanu Rodrigues: Bráu Mendonça, Elio Camalle, Márcio Policastro.

13) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Vanu Rodrigues: Os prós têm a ver com a questão da liberdade e da autonomia. O conceito de um álbum, por exemplo, é inteiramente do artista e a personalidade artística se desenha no processo de escolha do estilo, dos gêneros, dos ritmos presentes neles, das influências musicais contidas, sem que uma gravadora interfira. Isso é naturalmente um processo de descoberta, envolve uma questão de construção de identidade, se articula aos nossos pares e se conecta com os artistas com os quais nos identificamos e é de extrema relevância para qualquer trabalho de natureza artística.

Os contras têm a ver com o fato de, em determinados momentos, esse trabalho ser solitário. As estratégias para construir uma trajetória artística podem ser certeiras ou não. Quando há erros, você tem de buscar alternativas aos passos dados inicialmente e os custos são só seus. Ter projeção é um capítulo à parte. Há artistas incríveis, admiráveis, exímios no que fazem, com limitada projeção, e artistas cujo trabalho não é tão bom e que conquistam projeção nacional. No meio de tudo isso há um certo mistério. Porque alguns artistas conquistam popularidade e outros não? Há também a situação de sucesso momentâneo, ou seja, um artista pode ser popular em um momento, e esquecido em pouquíssimo tempo. O excesso de informação colabora para que essa seja a tendência atual. Hiper-realidade, tudo agora ao mesmo tempo.

14) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

Vanu Rodrigues: Eu sempre vejo que um álbum ou EP são duas maneiras mais comuns de apresentar um novo trabalho. O artista conta uma história que está acontecendo e que ele deseja mostrar para seu público. Estar no palco, em geral, tem a ver com o momento pelo qual passa o artista, quais ideias o estão provocando, o que ele está produzindo, o que o inspira, o que o sensibiliza e se transforma em criação. Fora do palco tradicional, as redes sociais têm contribuído para a construção de público, que é um pilar importante e pode ser visto como estratégia para construir o caminho para o palco. Mas, no atual contexto de isolamento, as redes sociais também podem ser vistas como palco virtual.

15) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira?

Vanu Rodrigues: Fazer pontes, estudar novas formas de estar e se conectar com o público. E dialogar com outros artistas e fazer eventos, reinventar as formas de aparecer para o público.

16) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira?

Vanu Rodrigues: A internet é um dos mecanismos de divulgação do trabalho de um artista. Vejo como oportunidade, mas é preciso aprender a usar essas ferramentas.

17) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)?

Vanu Rodrigues: O home estúdio é uma forma de criar uma cadeia de produção do trabalho artístico. Quem tem o home studio faz uma parte em casa, mas precisa passar pelas mãos de um estúdio profissional para finalizar. Quem não tem um Home Studio pode demandar de alguém que tenha, mas terá de pagar pelo trabalho realizado e levar para um Studio profissional para finalizar. Esse processo pode baratear, mas precisa estar em um planejamento eficiente.

18) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo. Mas, a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Vanu Rodrigues: Acredito que o grande aprendizado para um artista é criar um diálogo contínuo com o público. Falo da condição de quem está aprendendo e não de quem tem certeza. Creio que a distinção é uma junção de elementos: uma comunicação que gere impacto, um trabalho interessante e a visibilidade do trabalho. É importante ter profissionais de comunicação para dar suporte ao trabalho do artista e fazer com que seu trabalho apareça.

19) RM: Como você analisa o cenário do Forró?

Vanu Rodrigues:  O Falamansa e Trio Virgulino fizeram sucesso estrondoso. Eu acredito que o Forró está renascendo como música urbana de entretenimento, é possível que venha uma nova fase que pode se equiparar ou superar a fase do “Forró Universitário” nos anos 2000.

20) RM: Quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Vanu Rodrigues: Gilberto Gil, Caetano Veloso, Chico César, Monica Salmaso, Elba Ramalho, Mestrinho, Roberta Sá, Marisa Monte, Daniela Mercury, Ivete Sangalo.

21) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical (falta de condição técnica para o show, brigas, gafes, show em ambiente ou público tosco, cantar e não receber, ser cantado etc)?

Vanu Rodrigues: Acho que todo artista passa por situações desafiantes e eu já vivi isso. Já aconteceu comigo e também já fui a shows de ótimos artistas em grandes palcos, teatros, em que só tinha eu e mais 5 pessoas na plateia. Já aconteceu comigo e com artistas conhecidos.

22) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Vanu Rodrigues: A coisa que mais me faz feliz é cantar em um palco onde há uma estrutura bacana e com um público que vibra a música que eu estou cantando. O processo de criação também traz muita felicidade junto com apreensão, ansiedade, tudo junto e misturado. O que traz tristeza é falta de oportunidade de expressar minha arte.

23) RM: Qual a sua opinião sobre o movimento do “Forró Universitário” nos anos 2000?

Vanu Rodrigues: Acredito que o “Forró Universitário” foi o momento em que o público jovem redescobriu o Forró. Isso começou em São Paulo e depois se espalhou por todo o Brasil. Um momento de renovação e auge do Forró como expressão musical, naquele período a banda Falamansa foi o maior fenômeno do Forró, quando se pensa o mercado fonográfico.

24) RM: Quais os grupos de “Forró Universitário” chamaram sua atenção?

Vanu Rodrigues: Falamansa, Farinha Seca, Trio Virgulino, mais recentemente a banda “Bicho de Pé”. 

25) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Vanu Rodrigues: Acho que as chances são restritas, mas acredito que tudo que não parece crível pode acontecer.

26) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Vanu Rodrigues: Acredite em seu sonho e siga em frente. Sonhar traz a responsabilidade de levar o sonho adiante, mas envolve uma decisão. E para a maioria dos artistas o caminho é longo.

27) RM: Quais os prós e contras do Festival de Música?

Vanu Rodrigues: Um festival de música pode revelar grandes talentos, pode ser um divisor de águas. Não saberia dizer quais são os contras.

28) RM: Hoje os Festivais de Música revelam novos talentos?

Vanu Rodrigues: Os festivais de música são momentos importantes de interação com o público e podem abrir portas. Muitos artistas foram projetados assim. Mudou o peso, porque hoje existem outras formas de exposição que concorrem com os festivais.

29) RM: Como você analisa a cobertura feita pela mídia da cena musical brasileira?

Vanu Rodrigues: Acho que a cobertura feita pela grande mídia passa por interesses de mercado e a gente não tem muito por onde escapar. Faz parte do sistema e nós precisamos saber o melhor modo de lidar com isso e participar de forma que nos beneficie. Tem uma frase do Gilberto Gil: “O povo sabe o que quer, mas também o povo quer o que não sabe”. As forças do mercado alteram o jogo e produzem efeito sobre o gosto das pessoas, sobre o público e sobre o quere delas. Alguém pode dizer que existem injustiças quando se pensa em arte de qualidade elevada, mas eu suponho que muitas coisas são invisíveis. Ignoramos muitos dos interesses que atravessam esses processos e o que é usado para interferir no que circula no mercado. Ao fim e ao cabo, todos nós vivemos um pouco no conhecimento e um pouco na ignorância.

30) RM: Qual a sua opinião sobre o espaço aberto pelo SESC, SESI e Itaú Cultural para cena musical?

Vanu Rodrigues: O SESC é um dos principais espaços de democratização e popularização da arte, especialmente em São Paulo. Estas instituições oferecem estrutura, remuneração justa e colaboram para a difusão e projeção dos trabalhos artísticos.

31) RM: Qual a sua opinião sobre as bandas de Forró das antigas e as atuais do Forró Estilizado?

Vanu Rodrigues: Acho que a arte se renova sempre, nós não temos como aprisioná-la e é melhor que seja assim, pois creio que nenhum de nós gostaria de ser aprisionado, por que com a arte deveria ser diferente? Às vezes as mudanças podem parecer favoráveis à melhora da expressão artística, às vezes temos a impressão de que provocam uma piora. Seja como for, essas transformações estão em simbiose com a dança, porque é assim que elas se relacionam no campo popular, são siameses.

32) RM: Nos apresente a cena musical na cidade que você mora.

Vanu Rodrigues: São Paulo é um caldeirão cultural, recebe arte de todo tipo e artistas de origens diversas. Muita gente vem pra cá lutar por espaço, isso nos faz perceber como o Brasil é “muitos brasis”, a riqueza de nossa arte. Mas há também artistas internacionais ligados a gêneros diferentes como o Jazz, o pop, o Soul, Rock, entre outros.

Círculo em muitos lugares, mas não frequento todos os pontos culturais, certamente não sei de tudo que tá acontecendo e muita coisa vai escapar. Entre os artistas com carreira consolidadas, posso falar de Gilberto Gil, Eduardo Gudin, Ná e Dante Ozzetti, Titãs, Nando Reis, Arnaldo Antunes, Virgínia Rosa, José Miguel Wisnik, Vander Lee, Rita Ribeiro, Marisa Monte, Chico Buarque, Gal Costa, O Rappa, Maria Rita, Paulinho da Viola, Lulu Santos… 

Cantores mais recentes: Marina de la Riva, Fabiana Cozza, Jussara Freire, Céu, Tatiana Parra, Verônica Ferriani, Dona Inah, Marcelo Pretto, Tulipa Ruiz, Izabel Padovani, Mateus Sartori, João Macacão, João Borba, Juçara Marçal, Bruna Caram, Andréia Dias, Adriana Moreira, Giana Viscardi, Lia Cordoni, Luciana Alves, Juliana Amaral, Bia Goes, Cris Aflalo, Karina Ninni, Karine Telles, Barão do Pandeiro, Celso Sim, Mariana Aydar, Ana Cañas, Juliana Kehl. 

Compositores (canções): Cacá Machado, Chico Saraiva, Rodrigo Campos, Gui Amabis, Dani Black, Bluebell, Chico Pinheiro, Karina Buhr, Kiko Dinucci, Marcelo Jeneci, Rodrigo Campos, Fabio Cadore, Regina Machado, Tata Fernandes, Danilo Moraes, Ricardo Teté, Anelis Assumpção, Iara Rennó, Caê Rolfsen… 

Grupos/bandas: Clube do Balanço, Nô Stopa, Bixiga 70, Choro Rasgado, A Banda Mais Bonita da Cidade, Afro Electro, Nó em pingo d´água, Ó do Forró, Sandália de Prata, Projeto Vinagrete, André Marques e Vintena Brasileira, Cochichando, Sambanzo, A Barca, Pitanga em pé de amora, Vento em Madeira, Mawaca, Quinteto em Branco e Preto, Grupo Quatro a Zero, Banda Glória, Barbatuques…

Compositores (música instrumental): Danilo Brito, Ricardo Herz, Zé Barbeiro, Alessandro Penezzi & Alexandre Ribeiro, Thiago Espírito Santo, Movimento Elefantes, Comboio de Cordas, Projeto Coisa Fina, Arismar do Espírito Santo.  Casas descoladas: Ao Vivo Music, Café Paon, Grazie a Dio, Casa de Francisca, Casa do Núcleo, Stúdio SP, Centro Cultural Rio Verde, Sala Crisantempo, Jazz nos Fundos. Teatros: SESCs, Tom Jazz, Via Funchal, Teatro Alpha, Credicard Hall, HSBC. 

33) RM: Quais os prós e contras de desenvolver a sua carreira musical em São Paulo?

Vanu Rodrigues: Como o meu trabalho artístico foi desenvolvido em Sampa, não sei como seria em outros lugares que funcionam como centros repercutem a cultura brasileira como Salvador ou Rio de Janeiro. Cada região tem seus códigos e uma maneira muito própria de desenvolver a programação e criar espaços pra arte. São Paulo é um polo gigantesco e aqui conhecemos músicos de todas as regiões do Brasil e diferentes partes do mundo. Isso é muito estimulante, pode proporcionar a troca entre os cantores e compositores. Por outro lado, essa diversidade torna mais desafiante para o artista encontrar seu espaço.

34) RM: Vanu Rodrigues, Quais os seus projetos futuros?

Vanu Rodrigues: Lançar meu segundo álbum e viajar com ele.

35) RM: Quais seus contatos para show e para os fãs?

Vanu Rodrigues: vanurodrigues@gmail.com 

| https://web.facebook.com/vanu.rodrigues

| https://web.facebook.com/vanurodriguesarte

|https://www.instagram.com/rodriguesvanu/ 

Canal: https://www.youtube.com/channel/UCN3-Aeh9W3KoU75oljyxdlw 

 

 

 

Para baixar a Tese de Doutorado Música popular e dança de salão: o maxixe nos jornais norte-americanos do início do século XX: https://teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8138/tde-27032018-171249/pt-br.php


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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor responsável pela revista digital RitmoMelodia desde 2001, jornalista, músico, poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, propaga a diversidade musical brasileira através de entrevistas e artigos. Jornalista formado pela Universidade Estadual da Paraíba - UEPB (1996 a 2000) que lançou um livro de poesia em 1998 e seus poemas ganharam melodias gravadas em três álbuns concluindo a trilogia "reggae baseado em poesia" no seu projeto musical Reggaebelde. Unindo a sensibilidade do poeta, músico com o senso crítico do jornalista e pesquisador musical colocado em prática em uma revista que Canta o Brasil.

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