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Uma Revista criada em 2001
pelo jornalista, músico e poeta paraibano
Antônio Carlos da Fonseca Barbosa.

Ulisses Rocha

Ulisses Rocha
Ulisses Rocha

O violonista, compositor e arranjador carioca Ulisses Rocha é um dos violonistas mais influentes de sua geração. Lançou 14 álbuns.

Dono de um estilo inconfundível, transita entre os mundos da música brasileira, da música erudita e do jazz, sendo reconhecido principalmente pela sua versatilidade, evidenciada nas apresentações como solista, em pequenas formações como duos ou trios, ou ainda ao lado das principais orquestras sinfônicas do País. Em sua discografia fica clara a busca pela ruptura das fronteiras determinadas pela tradição do instrumento, pesquisando timbres, experimentando a relação entre o violão na forma acústica e associado a recursos eletrônicos, fundindo influências e redimensionando sua utilização.

Em suas frequentes turnês internacionais, reveza-se nas as funções de solista e professor, apresentando-se em recitais e master classes nos Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Bélgica, Holanda, Polônia, Rússia, França, Suiça, Croácia, Lituânia, Síria, Kwait, Japão, Paraguay, Zimbabwe dentre outros.

Além do trabalho próprio já participou de concertos e gravações ao lado de artistas como Al Di Meola, Cesar Camargo Mariano, Eliane Elias, Egberto Gismonti, Hermeto Pascoal, Margareth Menezes, Gal Costa.

Ulisses foi indicado para o prêmio Brazilian Press Awards 2016, dedicado aos artistas brasileiros mais destacados no cenário artístico Americano. Além de sua atuação como artista, desempenha importante trabalho na área didática como professor Doutor do Departamento de Música da Unicamp, e como professor convidado na University of Florida, onde residiu por 5 anos.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Ulisses Rocha para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 05.03.2021:

Índice

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Ulisses Rocha: Eu nasci no dia 23.11.1960 no Rio de Janeiro – RJ.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Ulisses Rocha: Meu primeiro contato com a música aconteceu mais ou menos aos 8 anos de idade. Morávamos em Pirassununga – RJ e era hábito das famílias colocarem as cadeiras na calçada para conversar e numa dessas noites um dos vizinhos apareceu com um violão. Eu fiquei meio vidrado com aquilo e pedi para ele me ensinar algumas notas. Ele me passou uma pequena sequência melódica que eu consegui reproduzir prontamente. Minha mãe se impressionou com aquilo e me deu um violão de aniversário. Mudamos para São Paulo logo depois disso, e no meu primeiro aniversário em território paulistano ganhei meu primeiro violão e um livro do Paulinho Nogueira.

03) RM: Qual a sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical?

Ulisses Rocha: Minha formação musical é bem variada. Ainda menino fiz aulas de violão popular por alguns meses, mas ao conhecer o professor Antônio Manzione, migrei para o clássico. Isso aconteceu aos 10 anos de idade. Na adolescência veio o interesse pela guitarra e o rock. Foi um período autodidata muito produtivo já que eu passava o dia inteiro tirando músicas e solos de ouvido. Aos 16 anos fui estudar no CLAM – Centro Livre de Aprendizagem Musical, a famosa escola do Zimbo Trio. Foi a fase em que me aproximei da música brasileira e do jazz. Bem mais tarde, aos 33 anos, peguei meu diploma de Bacharel em Música e por fim cheguei ao doutorado em processos criativos pela Unicamp.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Ulisses Rocha: Minhas influências são incontáveis. Vêm de todas as épocas e estilos, mas algumas foram mais marcantes. Pra começar eu gostaria de mencionar o rock progressivo. Tudo o que eu sei de forma musical vem daí. Eu ouvi quase tudo de Emerson Lake and Palmer, Yes, Gênesis, King Crimson e Gentle Giant. Ouvia rock pesado também como Deep Purple, Led Zeppelin, mas o rock progressivo foi mais determinante. Vem dessa época a admiração pelo Jeff Beck, que é o guitarrista que mais me encanta até hoje. Na sequência descobri o Jazz Rock, através da Mahavishnu Orquestra sob o comando de John McLaughlin e Chick Corea, dos gênios que me continuam me influenciando. Comecei então a me interessar pela harmonia e a improvisação e então reconheci na música brasileira uma fonte inesgotável de inspiração. Milton Nascimento, Elis Regina, Tom Jobim, Cesar Camargo Mariano, Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti, Baden Powell e tantos outros. Daí para o interesse pelo jazz foi um pulinho. Como se pode perceber, tem muita gente para mencionar. E ainda nem falei da música clássica. Ou seja, é uma lista enorme.

05) RM: Quando, como e onde você começou a sua carreira musical?

Ulisses Rocha: Iniciei minha carreira musical assim que abandonei a Faculdade de Agronomia de Botucatu – SP a qual frequentei por apenas dois meses até entender que aquele não era meu habitat natural. Voltei para São Paulo, fui tocar em barzinhos e dar aulas no CLAM – Centro Livre de Aprendizagem Musical. Foi um ótimo começo. Na noite e no CLAM, conheci todos os músicos da minha geração, fiz um network importante. Foi no CLAM que conheci os membros do D’Alma, trio de violões do qual vim a participar um pouco mais tarde e que foi o primeiro grande passo da minha carreira. A partir do D’Alma as oportunidades de luxo começaram a aparecer.

06) RM: Quantos CDs lançados? Cite alguns CDs que já participou, tocando ou como arranjador?

Ulisses Rocha: São 14 CDs solo, 2 com o D’Alma, 1 com o Trio 202, onde assino o trabalho como solista ou membro de grupo. Ainda não contei os trabalhos de outros artistas dos quais participei, mas foram muitos, sem falar na época em que trabalhei para produtoras de música para publicidade. Minhas gravações figuraram também em muitas coletâneas nacionais e internacionais. Enfim tem sido bastante coisa.

Em ordem de lançamento: Em 1981 – D’Alma I. Em 1983 – D’Alma II. Em 1986 – “Alguma Coisa A Ver Com o Silêncio”. Em 1989 “Casamata”. Em 1992 “Caminhos Cruzados”. Em 1993 “Contemporary Instrumental Music from Brazil”. Em 1993 “Songbook Dorival Caymmi vol. 1”. Em 1993 “Songbook Dorival Caymmi vol. 2”. Em 1994 “Música Viva”. Em 1995 “Banco do Brasil Musical”. Em 1995 “Songbook Tom Jobim Instrumental”. Em 1997 “Planeta Nova Era”. Em 1998 “Ar”. Em 1998 “Moleque”. Em 1999 “Genuinamente Brasileiro”. Em 2000 “Álbum”; “Acreditando na Vida”; “Música do Novo Milênio”. Em 2002 “Acoustic Lounge Café”. Em 2003 “Fractal”. Em 2005 “Estudos e Outras Idéias”. Em 2006 “10º Festival de Violão de Guarantinguetá Dilermando Reis”. Em 2007 “Trio 202 Ao Vivo SP_NY”. Em 2008 “Melodia das águas”. Em 2008 “Silêncio Interior”. Em 2009 “Brazilian Birds”. Em 2010 “Só”. Em 2013 “Hotel Deluxe”; “Music and Nature – Hope”; “Music and Nature – Romance”; “Music and Nature – Rest”; “Music and Nature – Memories”; “Music and Nature – Tranquility”; “Brazilian Chill”. Em 2014 “Soul Colors”; “Formentera”. Em 2015 “Clássico”. Em 2017 “O Quinteto”. Em 2018 “Violab”.

07) RM: Como você define o seu estilo musical?

Ulisses Rocha: Eu defino apenas como música. Não tenho um compromisso firmado com um gênero em específico e procuro deixar as portas abertas para me aventurar. Procuro obedecer ao meu gosto pessoal. Gosto de gostar da música que eu faço, seja no violão, na guitarra, tocando solo, em grupos, música erudita ou popular, instrumental ou cantada. Busco fazer a música que eu gostaria de ouvir. Quando eu faço gosto dela como se não fosse minha, acabo gravando. Muita coisa me agrada e faz parte de minha produção direta ou indiretamente. Já ouvi dizer por aí que eu não tenho estilo (risos), o que é compreensível já que procuro me manter flexível. O meu estilo aparece não através do gênero que escolho, mas das preferências harmônico-melódicas que são bem reincidentes nas minhas escolhas.

08) RM: Como é o seu processo de compor?

Ulisses Rocha: Muito variado, mas com uma forte preferência pela criação intuitiva. Gosto de cantarolar uma melodia, imaginar uma harmonia, nos moldes mais populares mesmo e depois trabalhar o arranjo para definir imagens musicais mais sutis. Acontece também de eu compor a partir de um exercício musical que pode acabar me inspirando e levando a um desenvolvimento mais complexo, distante da perspectiva da melodia cantável. Gosto de compor também a partir de uma proposta externa, pré-estabelecida. Trabalho mais neste viés na área do arranjo, mas já compus por demanda também.

09) RM: Quais são seus principais parceiros de composição?

Ulisses Rocha: Tive muito poucos parceiros de composição. Essas parcerias aconteceram dentro de conjunturas bem específicas, mas 99% das vezes componho sozinho. Sinto a composição como um ato muito íntimo e profundo. Não consigo compartilhar esses momentos com facilidade. Não tenho vontade de dividir a decisão sobre um caminho melódico, um acorde, uma passagem ou uma estrutura com alguém que possa discordar de algo que na verdade é muito representativo para mim. Por esse motivo evito as parcerias. Sou bem individualista nesse aspecto.

10) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Ulisses Rocha: Prós: você é livre para criar, não tem que dar satisfações a nenhum produtor, não depende de intermediários para distribuir sua obra. E determina com qual público você quer dialogar, escolhe seu figurino, seus instrumentos e ter o domínio sobre todos os processos de sua produção.

Contras: Sua liberdade para criar pode te afastar de tendências estéticas e/ou comerciais relevantes no sentido profissional. Não pode contar com um produtor experiente para te indicar caminhos mais interessantes tanto no aspecto musical quanto no comercial. Não tem profissionais capacitados para distribuir seu material musical de forma mais ampla e eficaz. Não tem alguém que tenha uma leitura consciente do público potencial para o seu trabalho. Não tem uma equipe profissional para te ajudar com o seu figurino. Tem mais dificuldade em firmar acordos de patrocínios com empresas fabricantes de instrumentos, enfim, tem que cuidar artesanalmente de todas as etapas do processo de produção.

Observe que são os mesmos pontos abordados em ambos os casos. Eu sou independente, mas adoraria ter equipes profissionais das áreas afins para me ajudar. A música independente não é exatamente uma escolha, mas uma consequência de uma tendência de mercado. É independente quem atua numa área onde o público não é muito numeroso e, portanto, não desperta o interesse de profissionais que queiram se associar ao trabalho, como acontece na música de massa.

11) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

Ulisses Rocha: Eu me baseio em três ações bem distintas. O primeiro passo é nortear meu trabalho pela excelência fazendo a música da melhor forma que eu posso. O segundo é a divulgação desse trabalho, processo que varia de acordo com a época. Antigamente tínhamos a TV, o rádio e o jornal, hoje temos as redes sociais. Tudo muda muito rápido e temos de ficar atentos às mudanças. O terceiro é a venda do produto, em forma de música para ser ouvida e na forma de concertos ao vivo (ou virtualmente ao vivo), como forma de angariar retorno financeiro para o trabalho. Costumo dizer aos meus alunos que a gente faz a música trancados num quarto e depois a gente tem que sair vendendo-a para quem tem interesse. É uma visão pragmática que me ajuda muito na minha organização pessoal, evitando que eu me perca em reflexões filosóficas cíclicas e aprisionastes, muito comuns na vida de alguém que tem compromisso com a arte.

12) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira musical?

Ulisses Rocha: Eu componho minhas próprias músicas, fugindo do pagamento de direitos autorais à terceiros, criando uma identidade musical, e desenvolvendo um acervo que espero que seja perene. Produzo meu próprio trabalho evitando gastos com intermediários. Organizo minhas próprias turnês de forma consciente e prática, viabilizando uma maior abrangência com custo adequado. Desenvolvo carreira acadêmica na Unicamp, produzo meu próprio material didático e mantenho meu trabalho sempre visível nas redes sociais. Além disso também me envolvo em projetos maiores, como por exemplo o VIOLAB, que busca dar maior visibilidade ao mundo do Violão. Essas ações em conjunto têm dado certo para mim.

13) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento da sua carreira musical?

Ulisses Rocha: A internet só ajuda. Ela democratizou o acesso do artista à visibilidade pelo seu público em potencial. Ela, tirou de cena a figura do curador, que afunilava os caminhos dando espaço apenas a alguns que atendiam a uma expectativa específica de uma tendência de época. Hoje qualquer um pode aparecer. Permanece quem realmente é competente.

14) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)?

Ulisses Rocha: A vantagem é você pode produzir de uma forma bem mais prática e barata. A desvantagem é que normalmente perde-se muita qualidade nesse processo, levando-se em conta que estúdios profissionais normalmente têm melhores equipamentos e instalações mais adequadas do que temos de forma geral em um home studio. Claro que você pode ter um home studio de alto nível, mas tem que entender de tecnologia e aí você se divide entre ser músico e engenheiro de áudio. No fim, há um custo a ser pago em ambos os casos, mas eu gosto de ter meu home studio e manter tudo sob meu controle.

15) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo. Mas, a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Ulisses Rocha: Eu faço a minha música da forma mais sincera possível assim não preciso ser melhor do que ninguém. Preciso apenas ser eu mesmo. Dessa forma se é único, e ser único garante um lugar único, onde não se há de competir com ninguém.

16) RM: Como você analisa o cenário da música instrumental no Brasil. Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Ulisses Rocha: Acho que a música instrumental só evoluiu. Hoje temos músicos competitivos internacionalmente falando. Sinto, no entanto, falta de protagonistas, gente que tenha uma proposta própria, uma linguagem fresca e diferente. Quando iniciei minha carreira tínhamos Egberto Gismonti, Hermeto Paschoal, Cesar Camargo Mariano, todos muito influentes e com estilos muito diferentes que determinaram tendências seguidas até os dias de hoje. Com a multiplicação das escolas de música especialmente as de nível superior. O acesso à informação musical consistente se democratizou, mas também produziu músicos em série, muito bem formados, mas nem sempre positivamente normatizados. Acho que estamos no meio de um processo que ainda vai desabrochar em uma música mais artísticas. Por enquanto, tenho sentido a música instrumental muito mais compromissada com a competência do que com a criação.

17) RM: Quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Ulisses Rocha: São muitos. Eu diria que todos aqueles que são conhecidos e reconhecidos atingiram esse patamar. Essa visibilidade é consequências direta do profissionalismo, assiduidade e organização.

18) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical (falta de condição técnica para show, brigas, gafes, show em ambiente ou público tosco, cantar e não receber, ser cantado etc)?

Ulisses Rocha: Já passei por todas essas situações citadas na pergunta e cada uma delas me fez entender que eu precisaria de estratégias específicas para evitar a repetição desses fatos. A falta de condições técnicas razoáveis me levou a adquirir meu próprio equipamento de palco e manipulá-los com propriedade. Aprendi a prever e evitar embates mais acalorados, observando previamente as características do ambiente com o qual vou lidar. Aprendi a reconhecer o caloteiro e o assediador, enfim fui ficando safo. Tenho muitas histórias para contar, mas como envolvem outras pessoas, prefiro não mencionar detalhes. Aliás tenho aprendido a ser mais reservado na era do poderoso e insano tribunal das redes sociais.

19) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Ulisses Rocha: O que me deixa mais feliz é a própria música, que alimenta a alma. O que me entristece é o músico que com sua sede de reconhecimento e sua falta de consciência de classe, destrói as perspectivas profissionais razoáveis. Sei que essa colocação parece meio dura demais. O mercado que se utiliza da música é enorme e rico. Há fábricas de instrumentos, emissoras de rádio, emissoras de TV, cinema, teatro, publicidade, lojas, editoras, escolas, etc. Muitos desses segmentos geram muitos recursos com a música. O problema é que a parcela merecida desse ganho não chega na mão do músico que abre mão do dinheiro em troca do reconhecimento, criando um ambiente muito propício à exploração. Profissionalmente, o músico é um hábil atirador onde o alvo é seu próprio pé.

20) RM: Você acredita que sem o pagamento do Jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Ulisses Rocha: Se você se refere às rádios que tocam música de massa, eu diria que sem jabá não tem jogo. Esse é um esquema clássico e estabelecido. Há, no entanto, emissoras de rádio e tv que se utilizam de uma prática mais democrática e de finalidade educativa, como a RTC, a rádio USP, Eldorado, sem falar em emissoras privadas que se dedicam à música de uma forma mais cultural. Há estradas de escoamento para outras músicas que não sejam compromissadas com a cultura de massa.

21) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Ulisses Rocha: Seja profissional. Encare sua arte como sua forma de sobrevivência. Respeite a si mesmo e aos seus colegas. Faça música com seriedade e com a noção de que ela é útil e importante aos outros. Seja realmente competente, caprichoso e detalhista. A arte está nos detalhes. Tome cuidado com o jargão “arte pela arte”.

22) RM: Quais os violonistas que você admira?

Ulisses Rocha: Muitos. Baden Powell, Paco de Lucia, Raphael Rabello, Yamandu Costa, Julian Bream, John Williams e tantos outros maravilhosos instrumentistas da nova geração daqui e de fora.

23) RM: Quais os compositores eruditos que você admira?

Ulisses Rocha: Admiro muitos, mas tenho uma predileção pelos impressionistas, em especial pelo trabalho do Debussy. Gosto também do frescor da música minimalista de Steve Reich, Phillip Glass.

24) RM: Quais os compositores populares que você admira?

Ulisses Rocha: Gosto de muita gente, mas vou citar alguns pela representatividade e tamanho da obra. Dentre os mais importantes estão aqueles que ficaram nas listas de quase todo mundo: Tom Jobim, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Chico Buarque, Ivan Lins, Paul McCartney, Steve Wonder, Michel Legrand e mais um monte de gente.

25) RM: Quais os compositores da Bossa Nova você admira?

Ulisses Rocha: Sempre me identifiquei muito com a Bossa Nova, mas minha lista não apresenta novidades. Meus preferidos são Tom Jobim, João Donato, Roberto Menescal, e a dupla Marcos e Paulo Sergio Valle, que não fizeram apenas Bossa Nova, mas deixaram grandes sucessos no estilo.

26) RM: Quais os compositores do Jazz?

Ulisses Rocha: Gosto de uma gama bem grande de compositores mais tradicionais do Jazz, mas tenho uma enorme admiração pelos ícones da minha geração como Chick Corea, Pat Metheny, Herbie Hancock, Jaco Pastorius.

27) RM: Quais as diferenças técnicas entre o Violão Erudito e Popular?

Ulisses Rocha: Não vejo diferença nas técnicas do Violão Erudito e o Popular. Diferentes são os violonistas e as formas que eles usam a técnica dentro de suas buscas estéticas. Os eruditos tem um foco maior na qualidade sonora e os populares buscam mais arroubos de efeitos, levadas rítmicas e a improvisação. Os fundamentos técnicos são precisamente os mesmos. As novas gerações têm atestado esta minha afirmação. Tenho visto cada vez mais violonistas fazendo um potente “crossover” entre o Violão Erudito e o Popular, mantendo repertórios híbridos, atuando nas duas áreas e aplicando a mesma técnica.

28) RM: Quais as principais técnicas que o aluno deve dominar para se tornar um bom Violonista?

Ulisses Rocha: O que você está chamando de técnica eu chamo de fundamentos. A técnica, ao meu ver é um conjunto de fundamentos. Eu acho que um violonista deve buscar desenvolver todos os fundamentos com propriedade, principalmente hoje em dia. Não existe mais violonista mal formado. Se você busca um espaço, tem de ser bom mesmo.

29) RM: Quais os principais vícios e erros que devem ser evitados pelo aluno de Violão?

Ulisses Rocha: Um violonista não deve se seduzir por atalhos. Em música o caminho mais curto é o mais longo. Não aconselho a pular etapas. Devemos aprender música com profundidade e calma, até que ela realmente atinja o status de linguagem.

30) RM: Quais os principais erros na metodologia de ensino de música?

Ulisses Rocha: Não sei olhar para a metodologia pela lente do erro. Já vi muitos métodos improváveis funcionarem muito bem para alguns e muito mal para outros. Acredito que um professor deveria ser flexível o suficiente para reconhecer a melhor estratégia para cada aluno especificamente. Pessoas têm mecanismos muito particulares na aquisição da informação. Não há método totalmente bom ou totalmente ruim. No entanto não gosto usar a teoria como o alicerce principal no aprendizado musical. Gosto de incentivar o aluno com atividades mais intuitivas e prática de repertório. Gosto de ter a teoria apenas como um elemento organizador.

31) RM: Existe o Dom musical? Como você define o Dom musical?

Ulisses Rocha: O termo “dom” é altamente discutível. Há correntes que não acreditam em “dom”. O senso comum parece enxergar a habilidade musical como algo geneticamente transmissível entre alguns premiados por Deus. Eu não penso assim. Sou da corrente que acredita que qualquer um pode desenvolver uma habilidade específica desde que realmente se interesse por ela, de preferência desde os primeiros momentos da infância. Esse interesse seria responsável pela aquisição da compreensão intuitiva de uma linguagem, o que levaria ao que chamamos de “dom’. Pude observar na prática, pessoas percebidas como não portadoras de um “dom” se desenvolverem surpreendentemente a partir do incentivo à percepção e vivência musical.

32) RM: Qual é o seu conceito de Improvisação Musical?

Ulisses Rocha: Aquele estritamente ligado ao termo. Improvisação musical é muito mais do que improvisação jazzística, gênero específico que normalmente se apropria do termo como se fosse o unicamente legítimo. A improvisação engloba todo o tipo de ação momentânea, de variação de um texto musical original, seja rítmico, melódico, harmônico ou interpretativo.

33) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre Improvisação musical?

Ulisses Rocha: Prós: Apresentam o material organizado e analisado com propostas de aplicação e exercícios, o que sem dúvida alguma encurta o caminho de acesso à prática da improvisação enquanto instituição musical.

Contras: tudo que mencionei acima. Acho que esse caminho pré-moldado leva a um resultado pré-moldado e gera músicos muito bem treinados e pré-moldados. Aqui está um dos problemas que citei em uma das perguntas desta entrevista em que assinalo a competência e contraponto à criatividade. Métodos de improvisação expõem o estudante ao risco de trocar a escolha pessoal de possibilidades pela memorização de clichês. Quando me iniciei na prática da improvisação tive a oportunidade de usar a metodologia mais convencional sobre o assunto e não me adaptei. Eu acabei desenvolvendo um “approach” mais pessoal para este estudo, menos baseado em frases prontas ou padrões melódicos característicos.

34) RM: Existe improvisação musical de fato, ou é algo estudado antes e aplicado depois?

Ulisses Rocha: Essa é uma discussão antiga e ao meu ver meramente semântica. A linguagem musical é proporcional à linguagem falada. Para falar bem devemos conhecer gramática, ter um bom vocabulário e dominar a ortografia. E mesmo enquadrados em tanto conhecimento estrutural, em uma conversa podemos ser perfeitamente criativos e improvisadores, não de formas linguísticas, mas de ideias e expressões absolutamente circunstanciais. Na música é igual. Dominar a linguagem da improvisação não significa que você não esteja realmente improvisando, pois o verdadeiro improvisador reorganiza a informação de infinitas maneiras, mesmo que o vocabulário seja o mesmo. Ou seja, existe SIM improvisação de fato.

35) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre o Estudo de Harmonia musical?

Ulisses Rocha: Todo método pode ser bom ou ruim dependendo de quem o use. Acredito que estudar música deva ser um processo consciente de aquisição de informação organizada, mas apenas isso. A aplicação de tal material deve deixar uma porta aberta à experimentação. Estruturas pré-moldadas geram uma música pré-moldada, portanto eu diria que o prol é ter o método, e o contra é usá-lo como opção musical.

36) RM: Fale do seu trabalho com o grupo D’Alma.

Ulisses Rocha: O D’Alma era um trio de violonistas (Cândido Serra, Rui Saleme, André Geraissati) formado no final da década de 1970. Eu entrei em 1981 quando Cândido Serra foi tentar uma carreira de guitarrista em Nova Iorque – EUA e gravei dois discos, em 1981 – D’Alma I e 1983 – D’Alma II. No trio ganhamos prêmios e tocamos em vários festivais de Jazz no exterior. Tive sorte de ter entrado no D’Alma, pois sai do “nada” para um grupo que já tinha uma história e respeito no cenário da música instrumental.

37) RM: Fale do sobre o corte umbilical da sua influência musical com Egberto Gismonti.

Ulisses Rocha: O D’Alma foi convidado para abrir o show do Egberto Gismonti no Festival de Águas Claras nos anos 80. Depois do almoço o Egberto nos convidou para tocarmos um pouco juntos no quarto dele. Na época Egberto era talvez o meu maior ídolo e eu tocava tudo dele. Ele ia puxando as músicas e eu tocava junto uma após a outra. Ao término desse encontro eu percebi que eu ainda não tinha minha própria linguagem musical e que tudo o que eu fazia era copiar meus ídolos. Foi uma constatação dolorosa, mas de imensa importância, pois a partir daí comecei um processo de busca de minha identidade musical. Não foi uma busca infrutífera pois acabei por ocupar um espaço muito particular dentro do cenário da música brasileira, e tudo começou ali naquela tarde.

38) RM: Fale sobre o convite do Lulu Santos para participar da banda dele nos anos 80.

Ulisses Rocha: Não sei ao certo, mas acho que foi em 1984 ou 1985, recebi um convite para ser o guitarrista da banda do Lulu Santos, que estava na época no auge de sua carreira artística. Eu fiquei super entusiasmado com o convite. Era uma de minhas metas participar de um grande projeto pop como guitarrista, e aquela era a melhor das oportunidades. Era uma turnê grande e terminaria com a gravação de um CD. Era um projeto importante que teria grande impacto, inclusive financeiramente, em minha carreira recém iniciada.

O problema é que o D’Alma estava agendando uma turnê na mesma época, muito menor, mas não menos importante por tratar-se do meu próprio grupo. Achei por bem ser fiel aos meus companheiros do D’Alma e recusei o convite do Lulu. Uma semana depois veio a notícia que a turnê do D’Alma não aconteceria mais e isso me abalou fortemente, pois abri mão de um projeto de luxo por um compromisso que não se realizou.

Para lidar com a enorme frustração causada por esse episódio, eu tinha que ocupar meu tempo e minha cabeça. Foi então que resolvi gravar meu primeiro CD solo – “Alguma coisa a ver com o silêncio”. Na verdade, devo a esse capítulo meio traumático o incentivo para desenvolver carreira solo e colocar meu próprio trabalho à frente de tudo.

39) RM: Conte o episódio que você foi confundido como “ventríloquo de guitarrista”.

Ulisses Rocha: Certa vez nos anos 90, em uma das paradas de uma turnê dentro do projeto “Banco do Brasil Musical”, durante um workshop em João Pessoa – PB que oferecíamos às tardes na hora da passagem de som. Eu estava demonstrando o funcionamento de meu violão sintetizador, que gerava sons sintetizados como se fosse um teclado. Viajávamos em dois grupos, o meu trio e o grupo do Paulo Moura, do qual o Benjamim Taubkin participava como pianista.

Enquanto eu fazia minha demonstração o Benjamim, um pouco mais ao fundo do palco, aproveitava para aquecer os dedos no teclado dele, sem volume, usando apenas fone de ouvido. Subitamente uma mulher levantou-se da plateia e falou em voz alta: “Isso é uma farsa! O som não vem do violão, mas sim do teclado aí atrás!”. Ela estava tão indignada que eu tive que convidá-la a subir ao palco para que ela mesma tocasse nas cordas do meu violão enquanto o Benjamim ficava em posição de mãos ao alto. Só assim ela se convenceu que aqueles sons variados eram mesmo gerenciados pelo meu violão. Anos mais tarde resolvi abandonar esse instrumento, pois realmente levantava suspeitas em relação à veracidade da minha performance.

40) RM: Quais os seus projetos futuros?

Ulisses Rocha: Meu projeto presente/futuro mais importante é mesmo o VIOLAB, que deve se desenvolver bastante depois da pandemia do Covid-19. Paralelamente a isso estou em fase final de mixagem de meu próximo CD, com composições inéditas.

41) RM: Quais seus contatos para show e para os fãs?

Ulisses Rocha: O meu contato mais prático é acessando meu site https://www.ulissesrocha.com , que além de ter uma área para mensagens e até bate papo, reúne uma amostra de uma grande parte do meu trabalho, inclusive partituras da maioria do meu repertório solo. E meu [email protected]

Canal: https://www.youtube.com/channel/UCjEQtizdke3r4NC-hAmCS_Q

Playlist Só: https://www.youtube.com/watch?v=Wol-KGfMj9U&list=OLAK5uy_l2uP0KaU3_BCD68hPQeakVUDqJ4Y2q2Q8

Playlist O Quinteto: https://www.youtube.com/watch?v=CTq156OpFHQ&list=OLAK5uy_mBOpPOsJY6VYKE62zhB2AieRq142RAM0k

Playlist Instrumental CCBB: https://www.youtube.com/watch?v=JOC5289MLRk&list=OLAK5uy_lbwwLhhbMoijCbHVn9c1jfFQBsZJnBvL4

Playlist Ulisses Rocha Live Concerts: https://www.youtube.com/watch?v=G7iidMYgFAs&list=PLlx3HSPrImYBoHQvbqOrz6ZuE4PI3lXq-

Playlist Ulisses Rocha Music: https://www.youtube.com/watch?v=Uy4n_W7RwrM&list=PLlx3HSPrImYBaabNoVsSr2a9UD1wXbNWW

Playlist Ulisses Rocha Tips: https://www.youtube.com/watch?v=HjUCQSUAnuQ&list=PLlx3HSPrImYD5uHYqpTQ4r_4EqLYDBqwt

Canal VIOLAB: https://www.youtube.com/channel/UCGryVfdoqayJnmg2c-7FFVg

Playlist da VIOLAB: https://www.youtube.com/watch?v=8KYLvCnlsIc&list=PL-L0amefjujTGa_OONep5dm588lHON-xB

Ulisses Rocha Trio – Uberaba – 1995: https://www.youtube.com/watch?v=G3T7uR4RpD8

 

 

 


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