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Categorias: Entrevistas

Tonho Matéria


Tonho Matéria descobriu que seu caminho era a música, aos quinze anos de idade, quando ouvia nas rádios alguns artistas da época.

Foi num Carnaval da Bahia, enfrentando multidões junto com sua mãe Eufrosina que na época era vendedora de acarajé, durante as festas de largo e manifestações populares, que Tonho foi convidado a participar de um arrastão de rua, logo após esse convite ele já estaria no palco montado em um dos cartões postais de Salvador e experimentando sua primeira composição escrita em um caderno de escola. Outro momento que marcou o início de sua trajetória, foi cantar no trio elétrico do Camaleão, junto com Luiz Caldas (um dos percussores do movimento Axé-Music), numa época em que homens negros e de gêneros do Samba-Reggae não puxavam blocos privados. Desde então, toda festa barroca das multidões era a oportunidade perfeita para aperfeiçoar e renovar suas expressões artísticas. Em suas turnês e apresentações internacionais, tornou-se uma espécie de “Autodidata” da música e da cultura brasileira. Artista de personalidade forte, que se preserva pela criatividade, responsabilidade e engajamento social, a fórmula de excelência das inovações de seus trabalhos, Tonho Matéria é reconhecido por sua diversidade musical.

Em 1989, Tonho Matéria, sai da banda percussiva Olodum e lança seu primeiro álbum, com música “Desejo Egotismo”, conhecida como “Tchau Galera” que se tornou um grande hit no final da década de 80. Nesse trabalho, começaram a acontecer algumas premiações como Prêmio Imprensa e Troféu Caymmi. Em um dos seus shows, no ano de (1992) Tonho Matéria cantou no Fest in Bahia, em pleno dia de quinta-feira, Teatro Castro Alves – Concha Acústica, atraindo mais de (3) Três mil pessoas que se espalharam pela arquibancada e interagindo com o artista.

Seu segundo álbum solo “Tá na cara” (1994), lançado pela Continental, deu início a um fenômeno. A música “Tchaco”, tornou-se o maior sucesso das rádios baianas e mais tarde de todo o Norte e Nordeste, se espalhando pelo Brasil inteiro. Sua interpretação, hoje antológica, do samba-reggae – gêneros originados dos blocos afro do carnaval da Bahia, exemplo Olodum, com influência direta dos tambores típicos, provocaram a iniciação do pagode baiano no país.

O álbum “Rum Bragadá” (1995), surgiu no momento em que o Brasil vivia o encantamento da descoberta de uma nova estrela. Com a música que deu nome ao disco, o artista chegou ao primeiro lugar nas paradas de todo o país. O álbum bateu todos recordes de venda, fazendo com que Tonho Matéria recebesse disco de Platina pela vendagem de 250 mil cópias. Especial na Rede Globo, apresentações pela Europa, capas de revistas, centenas de entrevistas para todos os meios de comunicação: o “Rum Bragada” teria seu sucesso coroado por shows em todo o Brasil com recordes de público, atingindo mais de dois milhões de espectadores em apresentações por todas as capitais.

O álbum “Marechal da Alegria” (1996), provou que o cantor não era um fenômeno passageiro: aumentaram as suas turnês pelo Brasil e pelo exterior. Esse trabalho mostrou sua versatilidade como compositor e arranjador. Fazendo parte do mega festival de Montreux, na suíça, onde milhares de brasileiros e europeus dançaram ao ritmo da Bahia.

Em (1997), com álbum “Aldeia Tribal”, Tonho continuou o seu sucesso de público, conquistando definitivamente a crítica que, sob o impacto do seu sucesso popular, (Ah, Tô maluco minha gente), reconheceu a consistência musical do artista. Um álbum que passeia pelas mais diversas linhas musicais de África, Samba-Reggae – MPB, homenageando as raízes musicais e étnicas, com arranjos modernos. Esse trabalho foi um grande marco na carreira do artista, principalmente no mercado internacional.

Em 1999, lança o álbum “100% Energia”, o seu primeiro álbum gravado ao vivo, atendendo e satisfazendo o desejo dos seus fãs de ter, em disco, o clima eletrizante dos shows. Nesse trabalho, o artista mistura a guitarra baiana, frevo, samba-reggae e o seu lado romântico, típico dos trios elétricos do Carnaval. Com um repertório marcante que contém todos os sucessos de seus álbuns solo, a exemplo de “Rum Bragadá, “To Maluco”, “Na boca do Povo”, “Melô do Tchaco”, entre outras canções que marcaram sua trajetória, a artista gravou músicas que cantava nos shows e que nunca havia registrado em disco.

De 2000 a 2002, sem gravar disco de carreira, ele reafirma a paixão pela arte da capoeira e resolve lutar pela responsabilidade social, assim criando uma ONG, sem fins lucrativos para ensinar a arte da capoeira e usar o mesmo como auto resgate de transformação social do indivíduo, ensinando aos jovens: cultura, cidadania e responsabilidade. Ao final de (2002) Tonho Matéria retorna ao grupo afro Olodum, onde permaneceu de 2002 a 2008, onde pode participar de diversos festivais na Europa, Estados Unidos, Canadá, África e Austrália. Gravou com o grupo Olodum dois CDs e um DVD.

Em 2009 Tonho Matéria retoma sua carreira artística solo e em meados de junho do mesmo ano é convidado a participar de uma turnê de 13 Shows na Europa, assim gravando mais um CD/DVD Ao vivo, fruto de uma apresentação do cantor no festival de Coburg na Alemanha, onde atraiu cerca de 85 mil pessoas. No repertório, grandes sucessos do Axé music, Samba-Reggae e MPB. Esse trabalho marca uma nova fase do artista que opta por sua independência frente às indústrias fonográficas.

Ainda em 2009, faz grandes espetáculos Percussivos e com elementos da cultura popular brasileira por várias cidades da África, Alemanha, Argentina, Austrália. Misturando o vibrante e contemporâneo, o trabalho mistura samba-reggae, MPB, frevo, galope e até mesmo música eletrônica. Em seguida Tonho grava um álbum importantíssimo na Itália, produzido pelo artista em parceria com Gabrielle Dandrea e Adson Santana, O disco intitulado “Pop-Afro-Elétrico”. Com esse trabalho, Matéria foi buscar fatores diferenciados das batidas eletrônicas e do Black-music. Na ida para Grécia, Tonho participa de alguns eventos e logo na rota grava mais um Disco denominado “Black and White”, gravado pelo produtor Pimentão em parceria com a banda percussiva Paranauê, misturando sons gregos, turco e árabe.

Em 2011 é ovacionado por multidões de brasileiros e americanos na edição do Brazilian Day de San Diego na Califórnia (EUA). Independência artística A necessidade de expressar suas ideias, opiniões, sentimentos e musicalidade fizeram com que Tonho Matéria se revelasse como compositor, publicitário, mestre de capoeira e produtor cultural. Tonho também é responsável pelos arranjos da grande maioria das músicas presentes em seus discos e shows, elaborando-os sozinho ou em processo de criação coletiva ao lado dos músicos de sua banda e/ou produtores de seus álbuns. Essa participação nos arranjos faz com que ele defenda cada obra com a alegria de um cantor coerente com a sua identidade artística.

Tonho também assina a direção artística dos shows onde aproveita para colocar em prática um estilo original, que mistura sua formação em Capoeira e dança moderna com a sua vivência nas danças de rua, de expressão afro, típicas de Salvador. A consagração de Tonho Matéria no Brasil com o “Tchaco – Rum Bragadá – To Maluco”, teve forte repercussão em outros países projetando o artista. Primeiro foi à Guiana Francesa em 1987, quando pertenceu a Banda Araketu, onde o artista alcançou o primeiro lugar nas rádios e começou a se tornar um fenômeno em composições. Decidido a ampliar ainda mais as fronteiras de sua música, o artista fez uma turnê internacional com o show: Tonho Matéria “Trifásico”, aumentando o número de países e multiplicando o público conquistado em relação às turnês anteriores à frente do Olodum. Desta vez, sozinho, bateu o recorde de público do Festival de Coburg, na Alemanha, tendo lotação esgotada. A imprensa desses países registrou sua passagem com estímulos e sobre tudo com sucesso.

Antonio Carlos Gomes Conceição, desde os oito anos de idade estabeleceu um vínculo com a arte, quando começou a frequentar as aulas de capoeira nas manifestações populares da Bahia, ministradas pelo saudoso mestre Caiçara, no (Mercado Modelo) em Salvador – Bahia. Sua vida sempre foi influenciada pela cultura de sua cidade. Com 15 anos iniciou sua carreira de cantor, começando a cantar nas entidades de blocos afros de Salvador, no mesmo ano formado em Técnico de contabilidade, deixou sua missão de ser funcionário contábil, para se tornar Tonho Matéria, um artista do povo. Filho de Eufrosina Maria do Santos, vendedora de acarajé, e de Agripino Gomes da Conceição, vendedor de laranja e fabricador de ladrilhos, Tonho passou a infância numa casa muito pequena com todos os seus irmãos, numa rua tranquila do bairro do Pau Miúdo, em Salvador. A vida de classe baixa, humilde foi levada entre o gosto pelas brincadeiras, pela arte e responsabilidade nos estudos.

Artista, cidadão e pai de Allan e Raysson, Tonho tem a inquietação como uma de suas principais características, que influenciou e moveu seu todo seu trabalho até os dias atuais. Tonho é um cantor que, além dos cuidados com a voz, supervisiona arranjos, pesquisa timbres e valoriza o conceito de cada trabalho. O samba-reggae foi sua escolha e reflete a influência que a cidade do Salvador e sua cultura exercem na vida e carreira. Porém, não há limites para o artista que não se inibe ao mesclar samba-reggae com World Music. Cidadão pós-moderno, ciente e comprometido com seu papel social, Tonho possui sua própria ONG – Associação Sociocultural e de Capoeira, Bloco Carnavalesco Afro Mangangá, além de colaborar com Campanhas de interesse público, principalmente, voltadas para crianças e adolescentes.

Com onze CDs gravados e dois DVDs, Tonho Matéria é hoje um cantor brasileiro com respaldo internacional, com 36 anos de carreira e 12 anos de turnês fora do Brasil. Tonho não economiza nas formas de se comunicar, faz isso através do canto, dos seus discursos sempre pertinentes, da Capoeira, de sua energia inigualável que mantém em cima de um trio elétrico por vários dias consecutivos, seis horas diários e ininterruptos, durante o carnaval de Salvador. Gravado em 2013 o álbum “Cantando História” – remixado e remasterizado e lançado em 2018. É um projeto muito especial na carreira artística e vida de Tonho Matéria, que retomou em 2018 à carreira solo, após representar por três anos os vocais da banda Ara Ketu.

O Disco recuperado nos HD’S da WR Discos Bahia, do saudoso Wesley Rangel, é uma relíquia que vale a pena mostrar ao mundo. Recheado de super participações especiais de quem mais prestigiou o artista interpretando suas composições, tais como: Bell Marques, Durval Lelys, Marcia Freire, Lucas Di Fiori, Dado Brazzawilly, Reinaldo Nascimento, Beto Jamaica e Negão Jamaica, Saulo Fernandes etc, é um presente ao seu público, para aqueles que gostam dele.

Hoje, Tonho Matéria possui mais de 500 canções gravadas, onze CDs gravados (Solo), quatro CDs (institucionais), dois DVDs e milhões de discos vendidos em todo o mundo. É também o primeiro artista a levar a Capoeira aos palcos em Shows, único artista brasileiro convidado para a exibição de shows na África do Sul durante a Copa do Mundo de 2010, fez parte por diversos anos do Festival de Jazz de Montreux. Já cantou com os grandes nomes da música brasileira como: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Ziggy Marley, Nelson Rufino, Jair Rodrigues, Leci Brandão, Beth Carvalho, em Oslo, na entrega do Prêmio Sharp Music, onde disputou com Martinho da Vila e Prêmio Qualidade do Brasil.

A vitalidade artística das obras de Tonho Matéria, fez com que vários artistas vendessem milhões de cópias e conquistasse resultado notório no cenário musical, podendo ser comprovada pelo fato de todos os álbuns do cantor ter apresentado hits nacionais e por ter tido suas canções compondo trilhas em trecho de novelas, filmes e programas brasileiro, até os dias de hoje. E assim, Tonho Matéria continua perseguindo seu sonho de ver o mundo cantar, pular e dançar suas composições.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Tonho Matéria para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 12.05.2021:

Índice

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Tonho Matéria: Nasci no dia 12 de maio de 1964 em Salvador – Bahia. Era dia das mães. Sou filho de Eufrosina Maria dos Santos e Agripino Gomes da Conceição. Batizado como: Antonio Carlos Gomes Conceição. Por parte de minha mãe sou descendente dos povos Fula da Guiné Bissau e os povos Temne de Serra Leoa, e por parte do meu pai sou dos povos Bantos vindos da região de Angola.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Tonho Matéria: Acredito que todos os jovens têm como primeiro contato musical, sua família, ouvindo seu pai, sua mãe, tias e tios cantarolarem. Na minha infância, como era na minha geração, as rádios tocavam muitas músicas americanas e algumas brasileiras. Os artistas brasileiros que eu ouvia muito, eram: Luiz Gonzaga, Agnaldo Timóteo, Roberto Ribeiro, Waldick Soriano, Pixinguinha, Dolores Duran, Noite Ilustrada, Jackson do Pandeiro, Genival Lacerda, Clemilda, Genival Santos. Já na minha adolescência já passei a ouvir outros artistas como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Moraes Moreira, Djavan, Gal, Paulo Diniz, Benito Di Paula, Belchior, Elza Soares, Batatinha, Ederaldo Gentil, etc. E dos artistas internacionais lembro muito de Luis Calaff, Miriam Makeba, James Brown, Billy Paul e The Jackson 5. Tenho todos na minha memória. Fora do rádio, as músicas que me prenderam foram a da capoeira dos mestres Caiçara e Suassuna por meio de um vizinho “Seu Popó” que sempre colocava para tocar na sua vitrolinha, além dos terreiros de candomblé de dona Regina, dona Tide, seu Henrique e dona Bibi. Ou seja, sou um resultado de tudo isso.

03) RM: Qual sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical?

Tonho Matéria: Sou um autodidata na música. Aprendi tudo que sei por necessidade e luta de sobrevivência. Vi na música o lugar que me cabia, e quem me acordou para a música foi a capoeira. Sim, a música da capoeira me chamou a atenção e aí me descobrir parte inteira desta arte. Então fui me dedicando a entender o processo do que é ser músico e comecei a militar nos afoxés, blocos afro, bloco de índio, grupos de samba junino. Minha formação academia é Comunicação Social com ênfase em Publicidade e Propaganda com habilidade em Marketing cultural.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Tonho Matéria: Todos os artistas supracitados na segunda pergunta fazem parte desta influencia que carrego até hoje no que produzo. Hoje mais maduro, fui buscar na África novos ídolos. Além de Miriam Makeba, conheci e adquirir material de: Oumou Sangaré, Papa Wemba, Salif Keita, Angélique Kidjo, Cheb Khaled, Youssou N’Dour, Cesaria Evora, Yuri da Cunha, Pérola, Manu Dibango, Alpha Blondy, Stewart Sukuma, Paulo Flores, Filipe Mukenga, Fela Kuti e tantos e tantos. A África vive em mim. Estes último, tenho até uma canção que digo “Mesmo que você não me curte, escute Fela Kuti”. Pra mim, um dos artistas africanos “Nigeriano” mais revolucionário que existiu. Foi o grande criador e difusor do Afrobeat. Por tanto, continuo buscando aquilo que me dá razão de sentido e não abro mão de ouvir músicas com conteúdo. No Brasil existem artistas e bandas maravilhosos que estão distantes dos holofotes, mas que estão próximos da nossa consciência. Dão, Olodum, Banda Didá, Aloisio Menezes, Netinho De Paula, Dado Brazzawilly, Ilê Aiyê, Bloco da Capoeira, Margareth Menezes, Lazzo, Marcia Short, Emicida são exemplos disso tudo. Todos para mim, são de grande importância. Na capoeira as minhas influências musicais estão nos mestres: Caiçara, Suassuna, Gato Preto, Eziquiel, Paulo dos Anjos, Canjiquinha, Waldemar, Limão, Leopoldina, Nacional, Silvo Acarajé, Bimba, Pastinha, Arueira, Joel, Ananias, Besouro Mangangá.

05) RM: Quando, como e onde você começou sua carreira musical?

Tonho Matéria: Aonde morei na minha adolescência no bairro do Pau Miúdo, lugar onde nasci, no final da década de 70 para início de 80 existia o bloco Amigos de Alah. Mas eu era muito novo e o pessoal não deixava a gente tocar e nem cantar, mesmo assim fiz uma música para a entidade, em parceria com meu compadre Chiquito e uma amigo Gilmar. O nome da música é Olorum Babá Ô. Agora, em 1983 o pontapé inicial foi no Bloco Afro Ébano, no bairro de Cidade Nova aqui em Salvador, quando resolvi escrever uma composição para concorrer ao festival de músicas temáticas. Fiquei em 2° Lugar com a “Em Busca de Um Novo Deus”. Inspirada no poema Vozes D’África de Castro Alves. O tema do Ébano para o carnaval de 1984 era Quigali ou Kigali que é a capital de Ruanda. Que por incrível que pareça, foi fundada em 1907 sob domínio colonial alemão, tendo-se tornado capital de Ruanda após a independência em 1962. Um país que todo mundo sabe do genocídio brutal que ouve em 1994 com milhares de povos tutsis assassinados. Participei da ala de canto de várias entidades carnavalescas: Amante do Reggae, Olodum, Ara Ketu, Afreketê, Commanches do Pelô, Ilê Oyá, Muzenza, Filhos do Congo, Oyá ilê. E grupos juninos como: Oba Oba, Coruja Junina, Obatalá, Ganzá, Ayrô Samba Angola, Pagode dos Fias, Semeadores do Samba, Afrisamba.

06) RM: Quantos CDs lançados?

Tonho Matéria: Até 2021 são 17 obras, incluindo meus trabalhos artísticos e os culturais: Em 2019 assinei contrato com a gravadora Atração para distribuir em plataformas as obras: CD – “Capoeira das Antigas no eco da Revolta dos Búzios”. CD – “Festival de Samba Reggae Zumbi eternamente vivo”. CD – “Capoeira a Dança da Malandragem uma Conjuração Baiana”. CD – “Afrologia, Tradição e Memória todo menino é um Rei”. CD – “Histórias Nossas do Brasil uma alusão a Revolta dos Alfaiates”. CD – “Vida de um Capoeira”.

Em 1989 o LP – “Tonho Matéria” pela BMG Ariola com destaque para as músicas: “Desejo Egotismo (Tchau Galera)” e “Goró do Seu Dão”. Em 1994 o LP e CD – “Tá na Cara” pela Continental com destaque para a Música: “Melô do Tchaco”. O “Tchaco” foi uma espécie de hino nos carnavais e micaretas, em vários estados do Brasil.

Em 95/96 o LP e CD – “Rum Bragadá” pela Warner Continental com destaque para: “Carcacinha”, “Rum Bragadá”, “Vem Morena”. Foi a obra que me levou a participar em 1996 do Festival de Montreux, na Suíça, onde cerca de 4.000 pessoas dançaram freneticamente sob o ritmo de TONHO MATÉRIA. Esta obra fez tanto sucesso que em outubro/96, fui convidado para realizar um show acústico no Teatro ACBEU, em Salvador, e fui acompanhado de alguns dos maiores músicos da Bahia, como Hadamés, Guimo Mogoya, Letieres Leite, Adson, Péu, Luciano Calazans, sob a direção musical e arranjos de Saul Barbosa, e com a participação especial do coral do maestro Keiler Rêgo. Neste momento tive a oportunidade de mostrar pela primeira vez o meu lado mais, suave, mais intimista, num show que trouxe no repertório, canções próprias e de nomes como, Djavan, Gonzaguinha, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Chico Buarque, Cartola, entre outros.

Em março de 1997, repeti o sucesso que me consagrou no Teatro ACBEU, desta vez em um show intimista no Bar CANOA, do Hotel MERIDIEN com a presença de Alcione e Lenine. Ainda em 1986 gravei pela Warner Continental, o álbum “Marechal da Alegria”, usei a descontração como estratégia, e a música que despontou no mercado, foi a “Dança do Tortinho”, primeira faixa de trabalho, que mexe tanto com o gogó como com as cadeiras, imprimindo o meu balanço característico. Fiz também neste CD, uma releitura para “Sangue Latino”, sucesso há muitos anos na voz do grupo Secos & Molhados. Em “Cocotinha”, presta uma homenagem a Carla Perez na época, do grupo “É o Tchan”. As surpresas ficaram a pôr conta de “Ói eu, véia”, em parceria com Carlinhos Brown e “Iza Tonelada” contando também com a parceria de Carlinhos Brown e Vevé Calazans; “Marechal da Alegria”, título ao disco, entre outras.

Em março de 1997 assinei contrato com a POLYGRAM, iniciando assim a gravação de seu mais recente CD, intitulado “Aldeia Tribal”. Este novo CD já é sucesso em todo Brasil com os hits: “Tô Maluco Minha Gente”, “Corpo Excitado”. Além desses hits, outras músicas foram com sucesso no álbum “Aldeia Tribal”, a exemplo de “Treme a Bundinha”, “Leva essa Moçada”, “Rei Nagô”, “Aldeia Tribal”, contém regravações de sucessos que certamente serão lembradas e cantadas pelo público, como “Cume da Memória”, “Selva Branca”, “Trenzinho”, ”Apague a Luz Aí”, “Ê Lá Poeira”.

Em maio 1999 gravei o CD – “100% ENERGIA” ao vivo no Espaço MOENDA, em SALVADOR–BA, incentivado pela recente assinatura de contrato com a ABRIL MUSIC. Uma obra que me rendeu os grandes hits, “Gabriela”, “Sem Camisa”, Saí Daí”. Em seguida fui gravando mais obras com produção independente como: CD – “Rei Nagô”, CD – “Axézaço Cantando História”, CD – “A Força de Zumbi”, CD – “Kilombolas Mangangá”, CD – “Sou Mangangá”.

07) RM: Como você define seu estilo musical?

Tonho Matéria: Na verdade sou eclético e componho de tudo. Mas como negro, sigo aquilo que me deu oportunidade de escuta e de me enxergar, que é a música negra do bloco afro. Então me considero um afro brasileiro musical. Por tanto, quando estou encima do trio elétrico sou todas as misturas musicais no qual denominam como Axé Music, que por sua vez o Axé Music não é um estilo e sim, um movimento artístico surgido na década de 80 e que teve alguns artistas protagonistas como: Luiz Caldas, Sarajane, Marcionilio, Laurinha, Lui Muritiba, Ademar da Furta Cor, Zé Paulo, Virgílio e outros. E em 1986 eu me inserir neste processo cantando com Luiz Caldas no Bloco Camaleão. Por este caminho, me denomino um pouco de cada coisa, claro com foco no meu afro. Componho e canto e por isso sou tudo: forrozeiro, sertanejo ou afronejo,

pagodeiro, sambista, samba regueiro, reggae, samba afro, bolsa nova, funk e como dizia o mestre Pastinha, sou “tudo que a boca come”.

08) RM: Você estudou técnica vocal?

Tonho Matéria: Sim. Estudei na década de 1980 no Olodum com o professor Mario Gusmão e depois fui para o Coral da Fundação Cultural sobre a Regência do maestro Keiler Rêgo e seus assessores Ângelo Rafael e Maura e hoje dou continuidade com a fonoaudióloga Valeria Leal.

09) RM: Qual a importância do estudo de técnica vocal e cuidado com a voz?

Tonho Matéria: A voz é um instrumento poderoso, se você não cuidar, não terá um futuro brilhante em sua carreira como: cantor, professor, locutor, comentarista, etc. É importante que quem trabalha com a voz tenha conhecimento das técnicas que possam ser utilizadas para melhores resultados. Os exercícios de relaxamento, respiração são importantes para que o profissional da voz faça um bom uso da caixa de ressonância. Para o cantor, melhor para entender mais das articulações, respiração e saber empostar melhor a voz ganhando mais extensão. Importante lembrar que a voz também envelhece e para que você a mantenha brilhante, é preciso cuidar melhor dela.

10) RM: Quais as cantoras (es) que você admira?

Tonho Matéria: Nossa. Muitas cantoras me inspiram: Margareth Menezes, Marcia Short, Wil Carvalho, Jô Santana, Nadjane, Sandra de Sá, Paula Lima, Daniela Mercury, Leci Brandão, Ivete Sangalo, Gilmelandia, Sarajane, Alobened Airam, Marcia Freire, Hosit Salles, Baby do Brasil, Rita Lee,

Ella Fitzgerald, Graça Onisilê, Maria Bethânia, Billie Holliday, Gal Costa, Alaide Costa, Nina Simone, Clemilda, Dolores Duran, Sarah Vaughan, Elba Ramalho, etc. São inúmeras. Olha que nem falei de mais algumas africanas, americanas, latinas e as mais novas como Iza por exemplo. Mas em especial, esta é a minha cantora, Diane Schuur. Os Cantores também são inúmeros: o meu predileto Gilberto Gil, Dão, Lazzo, Djavan, Milton Nascimento, Gonzaguinha, João Bosco, Emilio Santiago, Dado Brazzawilly, Xandy de Pilares, Péricles, Saulo Fernandes, Zé Honório, Jorginho Commancheiro, Norberto, Beto Jamaica, Tatau, Lenine, Pierre Onassis, Jau, Caetano Veloso, Xangai, Elomar, Vital Farias, Benito Di Paula, Almir Guineto, Carlos Dafé, etc.

11) RM: Como é seu processo de compor?

Tonho Matéria: Não tenho um ritual. Componho de acordo o que vejo ou sinto pelas ruas ou em algum lugar que eu possa estar no momento.

12) RM: Quais são seus principais parceiros de composição?

Tonho Matéria: São vários parceiros como: Beto Correa, Cabral, Rey Zulu, Lazarro, Edybinho, Silvo Almeida, Gilson Nascimento, Ana Livia, Patricia Gomes, Hosit Salles, Nanny Assis, Savilar, Sandoval Melodia, Gilson Babilônia, Alain Tavares, Carlinhos Brown, Tadeu Nogueira, Pierre Onassis, Marquinhos Marques, Wil Souto, Jó Vieira, Beto Fera. 

13) RM: Quem já gravou as suas músicas?

Tonho Matéria: Tenho músicas gravadas por grandes intérpretes e bandas da música popular baiana brasileira como: Leci Brandão, Daniela Mercury, Ara Ketu, Olodum, É o Tchan, Beth Carvalho, Terra Samba, Harmonia do Samba, Psirico, Beto Jamaica, Rosy e Banda, Beto Correa, Mano Walter, Claudia Leite, Daniela Mercury, Beto Babosa, Banda Mel, Asa de Águia, Chiclete com Banana, Bell Marques, Ivete Sangalo, Banda Chamego da Gente, Silvano Junior, Banda Frutos Tropicais, Banda Eva, Banda Coisa Nossa, Saulo Fernandes, Serginho e Banda Pimenta N’ativa, Marcia Freire, Aline Rosa, Margareth Menezes, Virgílio, Meninos do Pelô, Virginia Rodrigues, Banda Soul Tambor e Lucas Di Fiori, Savilá, Banda Lança Perfume, Noélia Marcell, Firmino de Itapuã, Banda Revolução, Banda Água de Cheiro e Hosit Salles, Banda Laranja Mecânica, Cid Natureza, Rogério, De Boca Em Boca, Grupo Bagunça, Bruno Nunes, Cheiro de Amor, Banda Beijo Apimentado, Celso Bahia, Banda Me Leva, Banda Bragadá, Viviane Tripodi, Simone Moreno, Curta Metragem, Braga Boys, Gente Brasileira, Sarajane, Zé Paulo, Zé Wilson, Saul Babosa, Banda Palov, As Meninas, Tiete Vip’s, Carlinhos Axé, Cassia, Baiana System, Bandabah, Robson Morais, Nina Catarina, Marcionílio, Mara Maravilha, Jô Santana, Dado Brazzawilly, Companhia do Pagode, Grupo Cafuné, Banda Terceiro Mundo, Axé Bond, Jair Rodrigues, Tania Alves, Banda Kebradeira, Banda Patrulha, Beto Kauê, Grupo Coisa de Bamba, Raízes do Pelô, Banda Mulekada, Wil Souto, Lara, Banda Face a Face, Banda Reflexus e Sergio Vargas, Alobenedi Airam, Kikão, Kako, Wil Carvalho, Banda Fuzuê, Banda Ouriço, Rose Marie, Irene Loose, Banda Tomalira, Daudete, Banda Drop’s, Swingue da Cor, Banda Canta Mais Eu, Madame Beatriz, Banda Levada da Breka, Raquel Nancy, Banda Águias, Rosa Morena, Gera Samba, Swingue Moleque, Rey Zulu, Banda Bróder, Elaine, Gang do Samba, Xexéu, Banda Baianada, Bom Balanço, Carla Perez, Banda Ello, Gilson Babilônia, Conversa Fiada, Capilé, Bloco Muzenza, Silvinha Torres, Banda Pinote, Banda Doce Malicia, Sandro Becker, Banda Tapajós, Banda Patrulha do Samba, Cabral e Banda, Banda Muvuca, Gená, Banda Caviar Com Rapadura, Banda Gula, Nagib, Ramon Andrade, Banda Avatá, Rosy, Banda Luzes Neon, K Entre Nós, Martinha, Renato Fechine, Banda Vitrine, Noeme Bastos, Banda Requebra, Lui Muritiba, Cabelo de Fogo, Banana e Rick, Nando Parisi, Banda Novo Tom, Novos Bárbaros, Trio Armandinho, Dodó e Osmar, Banda Uskaraí, Grupo 30/60, Grupo Viola de Doze, Tchakabum e Djalma Oliveira que além de um grande artista, foi o maior comprador de discos de todos os artistas da Bahia e do Brasil e muitos outros.

14) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Tonho Matéria: Tudo é dinheiro, se você tem em caixa tudo acontece, se não tem, tudo, todos e todas desaparecem.

15) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

Tonho Matéria: Usei e continuo usando estratégias a vida inteira. São diversas formas para tentar sobreviver neste mundo cheio de preconceitos, racismo e de pessoas cruéis que fingem que seu trabalho existe, mas que não deixam você seguir. Portanto, hoje em dia as estratégias que uso são as redes sociais onde mantenho minha carreira ativa e quando há um sinal positivo, planejamos da forma que podemos seguir. Temos um Plano de negócio anual e é como falei, se temos apoio financeiro as coisas acontecem mais fáceis.

16) RM: Quais as ações empreendedoras que você prática para desenvolver a sua carreira?

Tonho Matéria: Temos a Mangangá e o Bloco da Capoeira que são instrumentos sociais em que realizamos cursos profissionalizantes e oficinas diversas. Criamos o programa Artes em Movimento que por meio de editais oferecemos oportunidades diversas para as pessoas das comunidades de Salvador – BA. Nestas ações propomos e realizamos oficinas de saber artísticos; a Noite de Gala da Capoeira; o Festival de Samba Reggae e o Encontro e Intercâmbio Internacional de Capoeira, onde reunimos além do público local, turistas de diversas partes do mundo. E com a parceria de algumas entidades e empresas, realizamos shows corporativos para empresas e público em geral. Muitas destas ações já fazem parte do pacote para os ensaios musicais e desfile do Bloco da Capoeira no período do carnaval.

17) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira?

Tonho Matéria: Hoje em dia com o avanço tecnológico da internet, todo artista oferece em seus blogs, sites ou redes sociais, seu produto ou serviço. No meu caso não é diferente. Cada postagem que faço é para atingir um público seguidor e atrair novos seguidores. Isso ajuda muito quando o conteúdo tem um proposito e confiabilidade no profissionalismo. A parte negativa que vejo nisso tudo é que tiraram dos eventos presenciais e trouxeram para o campo virtual, que foi a quantidade de seguidores que você precisa ter. Antes, o artista era considerado o tal, se lotasse qual quer evento. Hoje em dia se uma postagem não conseguir atingir milhões de visualizações e seguidores, você é ignorado. Ou seja, você passa é ser um invisível em todos os sentidos. O processo do racismo estrutural é tão grotesco, que se alguém postar em uma rede social algo que não tenha conteúdo e formação, isso ganha milhões de visualizações. Mas se você postar algo informativo, poucos irão se pronunciar sobre o assunto. E o que me parece é que a mediocridade é maior do que a informatividade com os seus minuciosos leitores com perfis e acessos determinados para o texto exposto. O mundo está doente.

18) RM: Quais as vantagens e desvantagens do fácil acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)?

Tonho Matéria: Se em casa, você tem todo material necessário para tornar sua gravação competidora para o mercado, acho fantástico e mais prático, pois você não precisa se expor nas ruas o tempo todo, além de não se estressar com o trânsito. Porém, é importante salientar que ainda prefiro está em estúdio, porque acho o poder criativo mais propicio. É você tem uma obra realizada por vários sentimentos e energias boas. Eu no meu caso, produzo muitas coisas em casa, mas não deixo de ir ao estúdio WR Discos para terminar de construir a percepção da obra. Mantenho a tradição e legado deste estúdio criado por Wesley Rangel, um dos responsáveis pelo fenômeno da Axé Music.

19) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo. Mas, a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Tonho Matéria: Tanto antes como agora, gravar um disco sempre foi, e é um processo difícil, pois não se grava um disco em dois, três dias. Uma obra precisa ser pensada, bem planejada, bem arranjada, bem programada. E algumas mesmo sendo de apelo popular precisa além de virar hit, ser eterna e permanecer no top of mind do seu público. Dentro do segmento que atuou que é a música afro, temos um nicho muito pequeno em proporção ao que se executa nas rádios populares no Brasil a fora. Porém, procuro fidelizar este público e sempre fazer com que novos públicos sintam interesses na minha música. Sou muito Raiz, e isso cria muita resistência no público geral. Os desafios são inúmeros.

20) RM: Como você analisa o cenário da música Popular Brasileira? Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Tonho Matéria: Não quero aqui dar nomes para não fazer o papel do crítico. Mas vou falar de um sentimento que me deixa super triste na música popular brasileira. Estamos na U.T.I, isso, a cultura e a arte estão na U.T.I. Precisamos fazer arte de verdade neste país. Muita gente querendo ocupar um lugar que não é de pertencimento. O que vejo são tomadas de poder sobre uma coisa que pertence a nós negros. Os verdadeiros protagonistas e donos desta cultural ancestral, estão sendo a cada dia coadjuvantes dos coadjuvantes, porque estão fazendo apropriação cultural em tudo.

Na música, na literatura, nas artes plásticas, na moda, na capoeira, em tudo. No que focamos aqui que é a música, na década de 70 até a de 90, todos os artistas que surgiram deixaram e ainda deixam um legado, estão no imaginário popular. Muitos não estão mais nas grandes mídias e continuam lotando seus shows. Da década de 2000 para cá, poucos sobreviveram. A música virou produto de diversão de pai e mãe que acha seu filho bonitinho e aí dá para ele um brinquedo e a música passou a ser um parque de diversão. Muitos estão ocupando o lugar e espaços de quem de fato é arte. E quem permaneceu com obras constantes, só teremos esta resposta daqui a 30 anos.

21) RM: Quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Tonho Matéria: Aqui no Brasil conheço vários músicos supercompetentes e de grande profissionalismo. Mas vou citar os que convivo diariamente: Radamés Venâncio, maestro Letieres Leite, Giba Gonçalves, Gabi Guedes, Ivanzinho, Raysson Lima, Carlinhos Brown, Gigi, Luciano Calazans, Gerson Silva, Luciano Silva, Caio Fonseca, Nestor Madrid, Peu Meurray, Marcelo Brasil, Cesinha, Guimmo, Mestre Jackson, Bira Jackson, Guiga e Ronnie Scoot, Mestre Memeu, Téo Lima, Fernando Nunes, Ferreirinha, Joatan Nascimento, Elpídio Bastos, Codó, Riquinho Soares, Gilberto Sampaio, Jonas, Tiganá, Buiu Smurf, Jaguar, Carlinhos Marques, Alfredo

Moura, Nino Moura, Davi Cerqueira, Orlandinho, Adson Santana, Renan, Bruninho, Bira Monteiro, Paulo Tré, Samim, Leonardo, Dendê, Marivaldo, Tarcisio, Gustavo de Dalva, Wilson Café, Dainho Xequerê, Ratinha, Lan Lan, Lui Rabello, Dani Spielmann, Vera Figueiredo, Ilca Leanza, Gê Côrtes, Graça Cunha, Leilah Moreno, Jaqueline Ribas, Ana Mameto, Joelma Silva,

Tita Alves, Eli Alves, Renan Ribeiro, Paulinho Caldas, Dalmo Medeiros, Ângela Loppo, Silvinha Torres. Aqui na Bahia são inúmeros.

22) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical (falta de condição técnica para show, brigas, gafes, show em ambiente ou público tosco, cantar e não receber, ser cantado etc)?

Tonho Matéria: Tudo citado na pergunta já aconteceu inúmeras vezes (risos). Até hoje temos cheques sem fundo. Já fui cantado várias vezes; chegar para fazer o show e não ter nem palco, muitas vezes o som simplesmente duas caixas de PA. Não ter lugar para nem tomar banho. Trio elétrico quebrar, sem gasolina, motorista embriagado. Já passei por muitas provações nesta vida. Já briguei e já brigaram por mim. Muitas coisas aconteceram e de vez em quando acontecem mesmo hoje a vida sendo mais cuidada. Já troquei nome de prefeito; nome de cidade (risos). anunciar patrocinadores que não estavam no evento. Só Jesus na cura (risos). Sinto-me um sobrevivente e tenho direito a um livro, um filme e um lugar digno neste cenário musical.

Mas conseguir chegar em um determinado espaço de lugar na música, pela determinação e pelo meu empenho e profissionalismo. No começo da carreira, no período do carnaval cantei em blocos de trio elétrico em Salvador – BA como: Sabor de Mel, Jóia, Pré-Datado, Tiete Vip’s, Traz a Massa, Tetê Vitória, Simpatia Quase Amor, além de fez várias participações em shows de artistas e bandas já consagrados como: Luiz Caldas (no Camaleão), Chiclete com Banana, Banda Made In Bahia. 

23) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Tonho Matéria: Saber que passei por diversas dificuldades e conseguir ser reconhecido como difusor de uma cultura e estilo musical que é a nossa música afro, em especial o samba reggae, isso me deixa feliz por demais. Já me apresentei em vários programas da televisão Brasileira. Recebi vários prêmios como: – Campeão Baiano de Capoeira em dupla com o mestre King Kong em 1985 no Ginásio Antonio Balbino pelo Instituto Baiano de Medicina Desportiva; recebi o troféu Jornada de Cultura e Educação da Capoeira pelos Grupos: Capoeira Regional (Cabeça) e Porto da Barra (Porco Espinho capoeira) em 2005; recebi o troféu das mãos do grupo de capoeira Stella Mares pela participação popular no mundo da capoeira em 21/11/2005; recebi o troféu das mãos do grupo Engenho (mestre Baiano e Mestre Grandão) em homenagem pelo serviço prestado a capoeira em 2004; recebi das mãos do grupo Calabar (Mestre Malvina) uma placa pela participação no evento do mesmo em 2003; foi homenageado pelo grupo Zumbi (mestre Zoinho) em Palermo (Itália) pelo curso administrado na cidade em 2004.

Fui homenageado pelos alunos do grupo Mangangá em 2003; recebi um troféu pela presença marcante no evento do grupo Topázio (mestre Dinho) em 2002/2003/2004/2005; recebi um troféu no III Encontro dos Artistas Catuenses pela valorização dada a capoeira em 2003; fui homenageado pelo projeto ACASA pelo serviço prestado às comunidades carentes da cidade do Salvador em 2003; recebi a Medalha Zumbi dos Palmares entregue pela Câmara Municipal de Salvador pelo vereador Laudelino ConceiçãoLau em 17 de novembro de 2006; recebi o troféu Capoeira Guerreira do Grupo Topázio em 2007; criei o Bloco da Capoeira em 2001, mas só realizou o desfile em 2008 quando comandou a capoeira que foi o tema do carnaval de Salvador; fui homenageado na Austrália em 2009 pelo Grupo de Capoeira Filhos da Bahia pela sua participação ativa com a capoeira. Em 2010 participei como jurado no Festival de Coburgo na Alemanha, e fui homenageado no projeto Abrasa na Áustria representando a capoeira; em 2011 participei e ganhei o Troféu Jacobina Arte na Grécia pelo mestre Pit Bull por reconhecer os serviços prestados a capoeira.

Em 2012 representei a capoeira nos países: França, México, Cingapura, Austrália, Moçambique, Argentina, Estados Unidos, Portugal, Holanda; em que fui homenageado nestes países pelo reconhecimento e divulgação da capoeira no mundo; ganhei o troféu Oriaxé em 2013 cedido pelo mestre Marcos Gytauna pelo reconhecimento do mestre Tonho Matéria na difusão da capoeira na Argentina; em 2013 fui homenageado na festa de 40 anos do Grupo de Capoeira Kilombolas por sua participação durante esta trajetória; em 2013 prêmio de reconhecimento pelo trabalho prestado através da culturalidade cedido pela Câmara dos Vereadores de Salinas das Margaridas; em 2013 recebi o Troféu Berimbau de Ouro pela produção do melhor CD de capoeira “Capoeira das Antigas no eco da Revolta dos Búzios”.

Em 2013 Prêmio cedido pela ONU como Embaixador da Paz por meio da Abrasa Internacional pelo papel prestado a cultura da Bahia através da música negra e da capoeira; em 2014 fui certificado pela Academia de Letras, Música e Artes de Salvador – ALMAS como membro fundador sendo seu nome vitalício a cadeira de n° 65 desta entidade; em 2014 fui certificado pela African Ancestry Hereby Certifies That como pertencente aos povos Fula da Guiné Bissau e os Povos Temne de Serra Leoa, referente a ancestralidade materna; em 2015 recebi o prêmio Berimbau de Ouro pelo tema Afrologia Tradição e Memória Todo Menino é um Rei realizado pelo Bloco da Capoeira; em 2016 recebi o prêmio Berimbau de Ouro na categoria melhor Bloco de carnaval. Em 2017 recebi a Medalha Mérito Professor João Fernandes da Cunha; em 2018 recebi a medalha 2 de julho como comendador da Bahia; em 2020 recebi a comenda Amigo da Marinha do Brasil. Tudo isso não tem preço. Mas o que me deixa triste é não ser reconhecido da forma que deveria ser, principalmente pelos meios de comunicação brasileiros e pelos dirigentes do meu Estado e cidade. Ser negro é ser guerreiro e resistente a vida inteira.

24) RM: Existe o Dom musical? Como você define o Dom musical?

Tonho Matéria: Sim, existe e para nós seres humanos é indefinível. Só Deus pode definir.

25) RM: Qual é o seu conceito de Improvisação Musical?

Tonho Matéria: A improvisação é um veículo sentimental que mora dentro do além imaginário do músico. Não basta somente querer improvisar, é necessário saber a hora e momento deste ato acontecer. Semelhante chegar em lugares como Sibéria, Escandinávia, Groenlândia, Canadá e ver a Aurora Boreal. É o que acontece quando você vai a um show e um músico realiza o seu belíssimo improviso. É um fenômeno que só os deuses explicam. Mas é preciso estudar para melhor aplicar.

26) RM: Existe improvisação musical de fato, ou é algo estudado antes e aplicado depois?

Tonho Matéria: Depende da ação e razão do músico. Tem músicos que criam algo para uma parte de uma música que se pode ser notado como improvisação, mas na verdade foi algo ensaiado pelo músico para aquele momento do show. A improvisação na sua essência não se repete fórmulas e nem formas, mas obedece a uma regra dentro dos campos harmônico e melódico. Assim eu entendo. Mas quando você estuda a rítmica na improvisação melódica fica mais fácil para aplicar a improvisação. Um grupo de músicos tocando e chega um outro músico, pega seu instrumento e segue a escala ou sequencia hormônica que estar sendo executado e em um determinado momento acontece as improvisações. Em alguns momentos são desafios e em outros, inspiração.

27) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre Improvisação musical?

Tonho Matéria: Eu não estudei música, e por tanto não entendo muito sobre campos harmônicos, mas acredito que só tem três espécies para desenvolver uma estrutura musical. A improvisação livre; a sobre a forma, e nessa temos músicos geniais como Miles Davis e Hermeto Pascoal que realizam improvisações precisas e emocionantes. E a que pode ser por variação melódica assim como as improvisações geniais de Egberto Gismonti. A improvisação sempre foi uma ação intuitiva do músico.

Os estudos de Nelson Farias explicam muito sobre os métodos de improvisação por meio de acordes, arpejos e escalas, por tanto, creio que se o músico estudar a fundo o método criado pelo Farias, pode se tornar um grande músico. Agora, além da improvisação harmônica, temos também a improvisação rítmicas e melódicas que são atos completamente diferenciados. Na rítmica é importante saber a altura e velocidade que você possa realizar seus sentimentos e isso pode estar sendo proposto de acordo o campo harmônico que você esteja tocando dentro de uma escala ou arpejo. Salve salientar que toda improvisação tem seus intervalos com notas em colcheia, semicolcheia e por aí vai. Importante também é quem estuda música, já se dedicar ao uso do metrônomo.

28) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre o Estudo de Harmonia musical?

Tonho Matéria: Como falei, nunca estudei música, mas sinto a harmonização no meu ouvido. Quando estou cantando e um dos músicos inserir um acorde em uma escala da qual minha voz não consegue alcançar a nota, eu pergunto que harmonia ele está usando. Em qual grau do campo harmônico ele está executando, para que eu possa inserir a voz dentro da escala ou campo harmônico. Meu ouvido me rege.

29) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Tonho Matéria: Em determinados momentos sim, em outros não. Quem manda no mundo é o dinheiro.

30) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Tonho Matéria: Coragem, resistência, calma, lucidez, compromisso, profissionalismo, fidelidade, honestidade e acima de tudo paciência.

31) RM: Quais os prós e contras do Festival de Música?

Tonho Matéria: Todo festival de música é importante para revelar compositores, interpretes e a canção. Acho de extrema importância. O que não é bom neste fato é que ninguém lembra do segundo lugar.

32) RM: Hoje os Festivais de Música revelam novos talentos?

Tonho Matéria: Sendo promovido e realizado com decência, acho que sim. Em Salvador – BA, os blocos afro mantém os festivais e é muito bom, pois muitos artistas terminam gravando as músicas que se tornam popular e o compositor passa a ser conhecido em outro segmento. Além e garantir o sustento e a manutenção de sua família.

33) RM: Como você analisa a cobertura feita pela grande mídia da cena musical brasileira?

Tonho Matéria: Na maioria das vezes a cobertura feita para a grande mídia, é uma vergonha. Quando tem um artista que está no seu momento áureo, tem todas as atenções e holofotes. Quando é um artista que está começando ou outro que passou seu momento de sucesso. A luz apaga, câmara vira de lado, repórter inventa que está coçando o pé ou que alguém está falando com ele no ponto. No carnaval de Salvador – BA, por exemplo, parece que só existem quatro artistas e que o restante não serve para nada, não tem valor nenhum.

34) RM: A grande mídia, empresários e produtores deixaram de lado o Axé Music?

Tonho Matéria: Se você for fazer um estudo sobre ritmos e melodias na música popular brasileira atual, você vai perceber que movimento Axé Music que foi abandonado pelos grandes empresários e produtores, virou elemento simbólico para alguns gêneros musicais como o FUNK, Sertaneja e até o novo Samba. Ao longo dos tempos venho percebendo que em cada gênero musical citado, foi escolhido um ou dois artistas negros para camuflar o racismo. E quando você assiste a um programa musical na TV, você percebe que o efeito do colonialismo. Não estou falando de negros de pele clara, e sim, dos brancos que se comportam como negros para usufruírem da nossa herança cultural. São ali tratados como identidade racial e que o conceito fenótipo é como se todos fossem iguais, e isso não é verdade.

Perceba que em cada gênero, existem no máximo dois artistas negros em destaques e o restante destes, são artistas brancos exercendo o papel da apropriação cultural. Venha para carnaval de Salvador e suba num andar de um prédio ou num camarote e tente ver quantos artistas negros passam no desfile puxando um bloco ou com um trio elétrico patrocinado por uma megaempresa? Você vai, no mínimo ver dois. O restante fica dependendo da contratação do poder público para te oferecer um trio elétrico que muitas vezes vem sem iluminação, sem condições técnicas.

Além de jogar você em horários que não tem mais mídia para registrar seu show, e muitas vezes não tem mais gente nas ruas para te ovacionar. Além disso, as chamadas do carnaval nas emissoras, você não consegue ver os artistas negros e quando ver, passa numa velocidade. Por tanto, o Bloco da Capoeira, mesmo desfilando um dia, que é a quinta-feira de carnaval, sei que posso passar em horário nobre e ser visto por milhões de pessoas. Essa é uma das estratégias que encontrei para sobreviver como artista no meu Estado e na minha cidade.

35) RM: Qual o impacto da pandemia do covid-19 na sua carreira musical?

Tonho Matéria: Em 2020 não fui contratado para tocar no Carnaval de Salvador nem pelo Estado e nem pelo Município, e se não fossem outros Estados que me convidaram para a realização de shows, não saberia o que seria de mim na pandemia do Covid-19. Até a Lei 14.017 de 29 de junho de 2020 Aldir Blanc para auxílio financeiro ao setor cultural, como artista não fui comtemplado. Por isso muitos artistas estão sofrendo com depressão, com uso de drogam ou se suicidam matam! É preciso repensar de que forma faremos para ocupar de fato o nosso lugar de destaque. Somos os donos de tudo que está aí. 

36) RM: Qual a sua opinião sobre o espaço aberto pelo SESC, SESI e Itaú Cultural para cena musical?

Tonho Matéria: Super importante, revela muita gente boa, além de oportunizar que os artistas emergentes possam apresentar seus trabalhos. Eu sou doido que uma dessas empresas me convide para promover um projeto. Eu vivo em constante recomeço. Como falei, tudo para o artista negro é dificultoso. Mas não desisto de fazer arte e cultura.

37) RM: O circuito de Bar na cidade que você mora ainda é uma boa opção de trabalho para os músicos?

Tonho Matéria: Para alguns músicos sim. Temos muitos músicos que não são fixos em bandas ou com artistas e que sobrevivem se apresentando nos Bares. Apesar de não receberem dignamente como deveriam, mas pelo menos trabalham e levam o sustento para casa.

38) RM: Como você analisa o cenário do Axé Music nos anos 80 e 90? Em sua opinião quem foram as revelações musicais nas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Tonho Matéria: Não é uma resposta simples, mas vamos lá. Na década de 80 o manifesto da música negra em Salvador – BA começou com as entidades de matriz africana e indígenas como os afoxés, os blocos afro e bloco de índio. Além de grupos de samba duro nas festas de largo da cidade, nas praias, praças, ruas, dentro dos transportes coletivos e o movimento dos sambas juninos nas comunidades periféricas como Engenho Velho de Brotas, Nordeste de Amaralina, Santa Cruz, Vale das Pedrinhas, Pero Vaz, Pau Miúdo, Cidade Nova, Bom Juá, Fazenda Grande, Cajazeiras e tantos outros bairros.

Tudo isso se transformou em um grande caldeirão musical e fez da vida da cidade um verdadeiro celeiro de bambas. Por tanto, com o crescimento dos ensaios de quadra do Olodum, Ara Ketu, Ébano, Amantes do Reggae, Afreketê, Ilê Aiyê, Puxada Axé, Badauê, Filhos do Congo, Os Negões, Filhos de Gandhy, Commanches, Apaxés e outros, os compositores começaram a ganhar espaços com suas músicas sendo executadas nestas entidades. O fenômeno começou de boca em boca.

Os radialistas Manolo Pousada e Cristovão Rodrigues, assim como Baby Santiago foram os caras que entenderam estas músicas, a ponto de leva-las para serem veiculadas nas rádios FMs, que naquele momento não tocavam nada de música da Bahia a não ser aquelas já gravadas por artistas nacionais e que não faziam parte deste movimento afro. Surge em 1985 o fenômeno Luiz Caldas, que impulsionou o movimento chamado de Axé Music com seu disco Magia. O termo Axé Music foi criado pelo jornalista e crítico musical Hagamenon Brito, como termo pejorativo, que terminou sendo abraçado por todos os artistas do movimento.

Alguns por entenderem que Axé que vem de Asè em yorubá significa força, poder, energia, realização. É a luz vital de um corpo em movimento. Já o termo Music é a tradução da palavra música em inglês que naquele momento Axé Music se classificava em um novo gênero de música que poderia ganhar o mundo, como ganhou. E aí, outros artistas como Gerônimo, Sarajane, Zé Paulo, Marcionílio, Índio, Ricardo Chaves, Jorge Time, Tania Luz, Laurinha, Jota Morbeck, Norberto, Zé Honório, Ademar e Banda Furta Cor, Lui Muritiba, Djalma Oliveira, Margareth Menezes, além das bandas Reflexu’s e Mel também deram os seus primeiros acordes.

Sendo que, Djalma Oliveira com Margareth Menezes e as bandas Reflexu’s e Mel foram os protagonistas das primeiras e legitimas músicas do bloco afro, que tomam conta do Brasil se transformando em grandes hits: “Faraó”, “Madagascar Olodum”, “Ginga e Expressão”, “Lua de Cetim”, “Diga Que Me Ama”, etc. E daí então, novos grupos foram mudando de estilo e se inserindo no Axé Music. Estou falando de bandas classificadas como estilo rock ’n’ roll, pop rock, lambada, etc, como: Eva, Cheiro de Amor, Chiclete com Banana, Asa de Águia, Novos Bárbaros e tantas outras mais.

É bom lembrar que o Axé Music não é um estilo único na Bahia. O Olodum é samba reggae que se divide em vários ritmos e claves criado pelo mestre Neguinho do Samba com a colaboração do mestre Jackson, o Ilê Aiyê, Ara Ketu, Bloco da Capoeira, Malê Dibalê, Cortejo Afro, Bankoma, Muzenza, são samba afro, batida mais relentada sendo o contrário da batida das grandes escolas de samba como Diplomata de Amaralina, Bafo da Onça, Ritmista do Samba, Filhos do Tororó, Juventude do Garcia que tinham seus ritmos acelerados. Vale destacar que cada entidade tinha seus ritmos próprios como sinal de identificação.

Além dos blocos afro e afoxés que não são Axé Music, os grupos de Pagode, os quais chamam de Pagode baiano, são oriundos do samba chula e samba de roda. Axé Music é tudo que se canta encima de um trio elétrico, mas nem todos os artistas e bandas que tocam no trio elétrico são do movimento Axé Music.

É neste mesmo período, em 1987, que eu sou inserido no primeiro trio elétrico que foi o bloco Sabor de Mel depois no Joia, Tiete Vip’s, Camaleão, Traz a Massa, Simpatia Quase Amor, Pré-Datado. Mas, foi no Camaleão em 1988 que provoquei a revolução dos tambores travada na Bahia, porque um homem negro de periferia cantando num bloco de elite! Isso era impossível. E eu abri as portas para muitos cantores e cantoras negros e negras. Todos os artistas deste período estão atuantes até hoje.

Na década de 90 o Carnaval de Salvador passa a ser industrializado. Por conta da invasão das gravadoras ainda na década de 80, que contrataram artistas e blocos afro e gravaram os seus primeiros LPs, mas que depois viraram coadjuvantes. Vários artistas foram surgindo e ressurgindo como Carlinhos Axé, Jô Santana, Hosit Sales Maximus, Edson Gomes, Sine Calmon, Harmonia do Samba, É o Tchan, Coisa de Bamba, Cassia, Ivete Sangalo, Daniela Mercury, Simone Moreno, Marcia Short, Marcia Freire, Tatau, Beto Jamaica, e outros tantos. Neste mesmo período, os empresários e produtores de música passaram a olhar o carnaval com novas estratégias e aí o carnaval começa a sofrer suas modificações, com bandas formadas por filhos, amigos, etc; ocupando os espaços dos verdadeiros artistas.

Chega à onda das explorações dos camarotes e o carnaval de rua começa a sofrer as suas primeiras ameaças e de um novo modelo de apartheid. Artistas que apareciam na mídia local e nacional, começam a perder os seus espaços para uma nova onda industrial que passa a trazer artistas de outros estados, e principalmente aqueles que estavam nos programas de auditório nacional, e hoje o carnaval de Salvador é esta lastima que estamos assistindo. E poucos artistas e bandas dos anos 90 sobreviveram. As glamorosas fantasias passaram a ser substituídas por blusas e camisetas denominadas de Abadá, criação do design Pedrinho da Rocha.

Abadá é termo de origem africana, era as vestes dos povos hauçás e mandingas adeptos do islamismo no período da Revolta dos Malês aqui na Bahia em 1835. E o engraçado nisso tudo é que além das fantasias performáticas de alguns foliões dos blocos tradicionais, muitas agremiações e entidades desfilavam nos blocos com mortalhas, e isso aconteceu da década de 60 a 80. Da década de 90 para cá, Pedrinho da Rocha não só inventou o abadá para os foliões dos blocos como também criou várias marcas para os blocos além de mudar nome de bandas como por exemplo: Scorpius que virou Chiclete com Banana, além de criar a pata do bloco Camaleão.

Quando chega o século XXI ano 2000, a partir daí o Carnaval de Salvador virou palco de exibição das grandes marcas que se fundiam e fundem com artistas contratados por estas marcas e que ajudavam e ajudam a segregar ainda mais o carnaval. É o que acontece nos dias atuais. Um carnaval segregacionista, onde um ou dois artistas são os antropocentristas dentro deste espetáculo e universo popular.

A resposta longa é para desmistificar um pouco o que muita gente fala do Carnaval de Salvador sem ter embasamento e nem convivido diariamente aqui. Quem vem para cá não deixa nenhum legal cultural. Acende e apaga a luz sem pagar a conta. Por tanto, não esqueçam que quem sustenta a arvore é a raiz. Por tanto, todo mundo sabe que o trio elétrico foi uma invenção de seu Osmar e Dodó, mas muitos não sabem que o maio construtor e engenheiro deste palco andante foi seu Orlando do trio Tapajós, responsável pela revolução do trio elétrico. Palco que virou lugar sagrado dos artistas da Bahia e que fez do Axé Music um mix de ritmos, um fenômeno da música brasileira que nunca terá fim.

39) RM: Fale da sua atuação no cenário do Axé Music nos anos 80 e 90?

Tonho Matéria: Como disse antes, comecei nos blocos afro como Ébano, Olodum Amantes do Reggae, Ara Ketu, Commanches, Afreketê. São as minhas escolas, e depois fui para o trio elétrico. Escrevi diversas canções para vários artistas e bandas, não só da Bahia como artistas do Brasil. Sinto-me um artista realizado e feliz por pertencer a várias matrizes da música da Bahia. Entre os anos 80 e 90 escrevi a metade das canções que alimentou este mercado e ajudei a construir carreiras de muitos artistas e bandas, a ponto de ser considerado o compositor das estrelas. Mas isso para mim não tem muita significância, porque o que eu quero mesmo, é fazer da minha obra um veículo de construção social, cultural e cidadã.

Ainda quero ver minhas músicas servindo de conteúdo para estudos nas escolas públicas do Brasil. Tenho muitas letras que relato coisas, fatos, histórias de povos, lugares, pessoas de várias partes do mundo e que os jovens não vão encontrar na íntegra nas salas de aula convencionais. Mas enquanto o Brasil teme em acreditar na educação, eu vou seguindo com meu berimbau, meu tambor e violão nas mãos, escrevendo, tocando, tecendo linhas imaginarias e reais para fazer do Bloco da Capoeira o espaço aonde eu possa desaguar o que penso. Minha arte é viva assim como meus deuses. Axé.

40) RM: Fale sobre o Prêmio Internacional Ibero-Americano de Arte e Cultura pela Paz Brasil 2021.

Tonho Matéria: Sou presidente da Associação Cultural Bloco de Capoeira Mangangá e receberei o Prêmio Internacional Ibero-americano de Arte e Cultura pela Paz Brasil 2021 pelas minhas contribuições em prol da nação.

O Festival Ibero-americano Intercâmbio de Arte e Cultura pela Paz é a união da arte e a cultura dos cidadãos latino americanos e europeus, permitindo a participação de toda e qualquer pessoa que trabalhe com eixos e segmentos de arte e cultura.

O objetivo deste projeto é valorizar profissionais que se dedicam à arte e ações multiculturais, visando associar atitudes que buscam reconhecer a necessidade de preservação de suas histórias como patrimônio (material e imaterial) desenvolvendo-se a compreensão do que seja a cidadania plena.

À medida que se estreitam os contatos e diálogos com a sociedade, estreitam-se também os laços intelectuais e afetivos que permitem o desenvolvimento de atitudes valorativas e respeitosas àquilo que forma a identidade artística e promove a multiculturalidade.

O produtor Sayder SDR é o diretor da “Fibac pela Paz Brasil 2021″ e está no comando das homenagens junto com a sua coordenadora geral, Zenaide dos Santos SA em âmbito nacional. Coordenação Geral de Rulo Ortubia- Argentina.

Devido às restrições contra Covid-19 a produtora cultural Luzia Moraes será a apresentadora do Festival na série “Entrega Virtual”, sendo da Coordenação do Prêmio na Bahia.

41) RM: Tonho Matéria, Quais os seus projetos futuros?

Tonho Matéria: Novo CD, uma carreira internacional, e tocar no rádio para apresentar minha obra nas TVs. Quem não é visto não é lembrado. Quando você não estar na grande mídia, você não existe para o meio artístico.

42) RM: Quais seus contatos para show e para os fãs?

Tonho Matéria: ALDEIA TRIBAL EDITORA E PRODUÇÕES ARTISTICAS LTDA

Produção Executiva – Allan Talismã (+ 55 71) 98146 – 3161 | 99185-  8789 | 99641-8896 | shows@tonhomateria.com  | allantalisma@hotmail.com 

Avenida Otávio Mangabeira N° 1683, Multi Empresarial Nossa Senhora da Luz, Salas 105 / 106, Cep 41.830.050, Pituba – Salvador – Bahia – Brasil

https://web.facebook.com/TONHO-MAT%C3%89RIA-198287356921073/ 

https://www.instagram.com/tonhomateria 

@tonhomateria

https://www.palcomp3.com.br/TONHOMATERIA/ 

Canal Tonho Matéria: https://www.youtube.com/channel/UC4sBpwC4HRDWuzWF7w6VHlA 

Tonho Matéria – Capoeira Das Antiga – Álbum Completo: https://www.youtube.com/watch?v=rFtnvAqCEs8 

Tonho Matéria – Capoeira – Nossas Histórias do Brasil – Álbum Completo: https://www.youtube.com/watch?v=oF_e-OvIh_w 

Tonho Matéria – Afrologia – Álbum Complet: https://www.youtube.com/watch?v=e7Lto3Fj1p0 

Tonho Matéria – Capoeira – A Dança da Malandragem – Álbum Completo: https://www.youtube.com/watch?v=hH3q-Kmu76Q 

Tonho Matéria – Zumbi – Eternamente Vivo – Álbum Completo: https://www.youtube.com/watch?v=gggyyljeSbg 

Mestre Tonho Matéria CD Full HD Acústico com qualidade de som melhorada: https://www.youtube.com/watch?v=JoaRPRVc4rM 

Tonho Matéria – Cantando história 2014: https://www.youtube.com/watch?v=kRlg6cxTG6c 

Tonho Matéria no Programa Ensaio TVE (São Paulo) – 2001: https://www.youtube.com/watch?v=LBpvUC5eJ24


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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor responsável pela revista digital RitmoMelodia desde 2001, jornalista, músico, poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, propaga a diversidade musical brasileira através de entrevistas e artigos. Jornalista formado pela Universidade Estadual da Paraíba - UEPB (1996 a 2000) que lançou um livro de poesia em 1998 e seus poemas ganharam melodias gravadas em três álbuns concluindo a trilogia "reggae baseado em poesia" no seu projeto musical Reggaebelde. Unindo a sensibilidade do poeta, músico com o senso crítico do jornalista e pesquisador musical colocado em prática em uma revista que Canta o Brasil.

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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa
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Rosemere do Acordeon, aos sete anos de idade quando ganhou seu primeiro acordeom, ingressou na…

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Roberto Lins

O cantor, compositor pernambucano Roberto Lins um dos mais expressivos músicos que mantém o legado…

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Rafael Beibi

O cantor, compositor, multi-instrumentista paulista Rafael Beibi mistura Forró com tudo, dando movimento e melodias…

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Canal Reggae Brasileiro

Canal Reggae Brasileiro: https://www.youtube.com/channel/UCtyE3sTzdIT7ZMk3B8zYw1Q Teve sua construção movida pelo mais puro sentimento, e sem visar…

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Toinho Vanderlei

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