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Uma Revista criada em 2001
pelo jornalista, músico e poeta paraibano
Antônio Carlos da Fonseca Barbosa.

Serginho Barreto – All Roots

Serginho Barreto
Serginho Barreto

O cantor, compositor, percussionista, violonista, guitarrista, pesquisador Serginho Barreto tocou com artistas consagrados do reggae: Julian Marley, Gregory Issacs, Awen Gray, Honey Boy, Eric Donaldson, Banda Culture, Norrys Colle, George Dekker, Tribo de Jah, entre outros.

É pesquisador do reggae no Brasil com show que recupera elementos da sua história musical, como contribuição a influência do reggae na sua cultura, na sua vida de mais de trinta anos de música com a participação na estruturação de várias bandas em São Luís, exemplo da Tribo de Jah, de 1980 a 1993, banda Guetos de 1995 a 2007 e também colaborar com os discos das bandas maranhenses, Filhos de Jah, Banda Legenda, Manu Banto, Santa Cruz, Zé Lopes.

Graduado em Economia pela UFMA em 2004 e com mestrado (PPGS) em Sociologia em 2014 pela UFPE. Especialização na UFPE / IPESPE em Estatística de Pesquisa Social para ONGs, em 2007. Curso de Teoria Musical, Solfejo e Percussão – EMEM / Escola de Música do Estado do Maranhão em 1990.

Participação como percussionista em gravações de CDs, DVD e Shows: CD – “SERGINHO BARRETO PERCUSSÃO IN CONCERT” em 2002. CD – “Lida” e “Outra Realidade” com a banda Guetos, em 2001 e 2005. DVD de BRYAN MACKNIGHT: Acoustic In Maranhão, Brasil, São Luís/MA, Nova York, EUA. junho a dezembro de 2004. Trabalho indicado ao Grammy Americano em 2004. CD de XUXA MENEGUEL: “De bem com a vida”, em 2000. Show “Peace In Concert”, com ERIC DONALDSON, ONU, Burkina Faso / AFRICA, em 1998. CD da Tribo de Jah: “RUÍNAS DA BABILÔNIA”, em 1997. CD Instrumental de CHIQUINHO FRANÇA, em 1997. CD – “ROOTS REGGAE DA TRIBO DE JAH”, em 1996. CD – MÚSICA POPULAR MARANHENSE de Cara Nova 2, coletânea da Prefeitura de São Luís, em 1996. FESTIVAL DE REGGAE SUNSPLESH, com a Tribo de Jah, MONTEGOBÊ/JAMAICA, em 1996. Serginho Barreto no Festival Internacional de Reggae em São Luís, em 2005. E Festival Conexão Reggae/Recife em 2008.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Serginho Barreto para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 08.02.2021:

Índice

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e cidade natal?

Serginho Barreto: Curiosamente, eu sou o filho caçula do meu pai e o primogênito de minha mãe. Fui filho único por mais de dez anos. Eu nasci às 11:45 do dia 29 de novembro de 1964, numa sexta-feira na comunidade Salva Terra em Rosário no leste do Maranhão. E meio dia teve uma salva de foguetes feita pelo meu Bisavô materno, Domingos, recebendo o seu primeiro bisneto. Minha mãe dizia sempre que eu fui um filho muito esperado. Nesta salva de foguetes, caiu uma faísca de foguete no paiol de arroz e pegou fogo. Aumentando a correria do meio dia. Foi muita festa e muita correria logo na minha chegada; segundo minha avó materna, Violeta Justina. Fui registrado como Francisco Sérgio Barreto.

02) RM: Conte como foi o seu primeiro contato com a música.

Serginho Barreto: Minha informação musical tem três estágios distintos e muito marcantes. Primeiro: o fato de ter nascido numa comunidade animada onde acontecia religiosamente as festas de colheitas e as festas de Santos. Festejos Juninos e Carnaval, os famosos Festejos à Nossa Senhora do Carmo e São Benedito de quem as mulheres de minha geração. Minha mãe, Maria do Carmo “Carmina”; minha avó, Violeta Justina e minha bisavó, Úrsula Vitória, eram Devotas. No Salvaterra, eu escutei muitas músicas num rádio valvulado (ABC a voz de ouro), sob um armário antigo chamado (ptisqueiro), cuja a antena eu ajudei a colocar nas arvores mais altas do sitio, para melhorar a recepção da frequência das rádios: Nacional de Montevideu, Nacional de Cuba, entre outras. E nas festas: Merengues, Cumbias, Mambos, Boleros, Tangos, entre outras músicas. Tive o prazer de ver descer do “Trole”; veículo utilizado na via férrea para cargas menores, o motor da Radiola do Radioleiro, “Carne Seca” a famosa Radiola “Trovão Azul”, que nesta época, tocou alguns reggaes no meio da festa, neste festejo em homenagem à Nossa Senhora do Carmo. Este acontecimento mereceu registro no meu terceiro livro que escrevi e lancei. Este sobre a História da minha Comunidade e a formação da Economia da Região Leste Maranhense: “O caminho se Fez ao caminhar”.

Segundo com a vinda de Rosário, para estudar em São Luís – MA, fui morar com os avós maternos João Barreto e Laura Barreto no bairro do Apicum. E na cidade junto aos tios Aurino e Avelino, com os quais eu sempre ouvi músicas diferenciadas, como: Pink Floyd, Genesis, Emerson Lake Palmer, o tecladista Rick Walkman, João do Vale, Luiz Gonzaga, Frank Sinatra, Michael Jackson, Jackson do Pandeiro, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Djavan, Emílio Santiago. Tive acesso ao famoso vinil “Kaya” de Bob Marley, o qual fomos buscar no Porto de Itaqui, escondido numa caixa de biscoito, pois se tratava de um disco proibido no Brasil, somente assim, eu entendi o que era a “Ditadura”. Tive um convite para participação no bloco organizado “Cem Komentários”, próximo de minha casa, nesta agremiação, tive acesso a todos os instrumentos de uma bateria de Escola de Samba as primeiras informações da profissionalização musical pelas orientações do mestre de Bateria, “Welington Boré”, bem como o primeiro cachê por uma apresentação sob produção do saudoso Joaquim Maia “Arruda”.

No bloco organizado “Cem Komentários”, eu conheci um instrumento que após uma compra grande, veio de complemento ao valor, quase como um troco: uma Cuíca! Único instrumento que ninguém tocava. Eu me senti desafiado. Pedi autorização para a diretoria do bloco e levei o instrumento para estudar em casa. Primeiro dia, passei o dia inteiro com ela: roc…roc…roc. Completou três dias, minha mãe fez minha “trouxa de roupas” e me enviou para a casa de minha outra avó na Cohab-Anil, ela não aguentou aquele som horrível. Meses depois eu passei numa banca de discos usados na “Feira do João Paulo” e ouvi um som de cuíca com agudos e todas as notas, os trinados e todos os seus sons. Foi o vinil da novela Pecado Capital, que tinha a “Melô da Cuíca”, gravada pelo Azimuth, que representou a minha liberdade com aquele instrumento. Adquiri naquele instante, o vinil que continha o som que eu precisava extrair do instrumento. A partir daí, muitas outras oportunidades de contatos na participação do “Cem Komentários” junto a G.R.E.S Flor do Samba, ainda na sede no bairro São Pantaleão e o contato com o maestro João Carlos Nazareth, pai da cantora Alcione Nazareth. mestre da banda da Policia Militar, que lecionava de forma gratuita as primeiras aulas de leitura musical aos participantes dos ensaios da escola de samba.

Terceiro, após orientação para inscrição no curso de música da Escola de Música do Maranhão, ganhei um violão de presente do Tio Avelino, que era músico profissional e Disc-jóquei. Tio Avelino me ensinou as primeiras posições das notas no Violão. Na semana seguinte toquei uma música com três notas. Logo comecei a comprar meus instrumentos (todos usados), vendi muito alumínio velho e toquei muita Timba (emprestada por mestre Gut) com vassourinha nos barzinhos, para adquirir um trio de Tumbadoras, estantes de Pratos, Cowbel, comprado de Luís Cláudio, Timbales comprado de Jeca Pereira. Os pratos comprados de Fleming Sands, um pandeiro comprado de Arlindo Carvalho. Este foi meu primeiro set de percussão, todo comprado de músicos que já dominavam a cena musical e muito me ajudaram neste momento.

03) RM: Qual a sua formação musical e acadêmica fora música?

Serginho Barreto: Minha formação acadêmica, sou Bacharel Economia pela Universidade Federal do Maranhão, especialista em Estatística pelo (IPESPE) Instituto Pernambucano de Estatística de Pesquisa da UFPE – Universidade Federal de Pernambuco, onde também fui aluno especial do (PPGS/UFPE) Programa de mestrado Sociologia, também na Universidade Federal de Pernambuco. Na música, fiz o curso de formação musical a nível médio, oferecido pela EMEM – Escola de Música do Estado do Maranhão.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente? Quais deixaram de ter importância?

Serginho Barreto: João do Vale, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Pink Floyd, Genesis, Milton Nascimento, Michael Jackson, Gilberto Gil, Djavan, Bob Marley, Jimmy Cliff. Todos estes artistas continuam me influenciando.

05) RM: Quando, como e onde você começou a sua carreira musical?

Serginho Barreto: O momento do início. A estreia da carreira profissional, hoje eu vejo que foi em grande estilo, foi no Teatro Arthur Azevedo como percussionista no “Show Olhos de Lince” do cantor e compositor Marcos Dualibe, onde substitui o percussionista Arlindo Carvalho, neste trabalho a banda foi: Henrique Duailibe nos Teclados, Bateria de Fleming Sands (padrinho de meu casamento), Claudio Ribeiro no Contrabaixo, Edinho Bastos na Guitarra, com Backvocal de Plinio Fontenele, Ritinha (Rita Benedito / Rita Ribeiro). Depois deste show, veio a era do Barzinho, onde acompanhei muita gente: Djalma Chaves, Ronald Pinheiro, Jorge Henrique, Costa Neto, inauguramos o Caneco Bar (hoje ele toca Violão sete cordas), Kinza de Aquino, Jô Santos, Ana Claudia & Paulo Trabulci, Zeca do Cavaco, Zeca Baleiro com quem toquei no famoso Bar de Jorge Capadócia na praia da Ponta D’areia.

E neste amadurecimento profissional, veio o primeiro contrato como músico profissional. Percussionista da banda “Melodia” que era a banda oficial do Hotel Quatro Rodas do Nordeste em São Luís – MA. Esta banda tocava com todos os artistas nacionais e internacionais que vinham se apresentar em São Luís. Acompanhamos: Billy Paul, Waldick Soriano, Amelinha, Antônio Carlos & Jocafi, Cauby Peixoto, Nana Caymmi, Pery Ribeiro, entre outros.

06) RM: Quantos discos lançados?

Serginho Barreto: Nunca parei pra contar, perdi a noção quando passei a frequentar mais os estúdios de gravação e gravar com todo mundo. De grupos de Bumba meu Boi a outros trabalhos diversificados como a Orquestra do Theatro Arthur Azevedo.

07) RM: Fale do seu trabalho com Reggae em Pernambuco.

Serginho Barreto: Estive em Olinda, Pernambuco e região em grandes shows da banda Tribo de Jah de 1996 até 2006, em que fiz contatos com todas as grandes figuras do reggae pernambucano: Marcelo Santana, Gildo e Banda Braafrica, Favela Reggae, Telmo Anum, Baseados na Lei, Tathy Veloz, Bando do Reggae, entre outros. E quando chegou 2008, me inscrevi numa bolsa de mestrado em Sociologia, para estudar a violência em Recife – PE.

Então fui procurado pelos “Cabeças do Reggae” de Recife, Marcelo Santana, Gildo & Banda Brasáfrica, Ívano & Banda Rebeldia, Banda Neurônio Nuclear, Banda Alipe Roots (Cabo de Santo Agostinho), Bantus Reggae, Banda N’Zambí, Favela Reggae. Que me convenceram a assumir o cargo de coordenador presidente. Em Recife, no 27 de agosto de 2008.

Houve a assembleia de criação da ASCPER – ASSOCIAÇÃO CULTURAL PERNAMBUCANA DE REGGAE, através de uma assembleia no Auditório do Sitio da Trindade. Montamos a “Chapa Ascper” formada por Francisco Sergio Barreto“Serginho Barreto”,(Economista, Músico, Radialista, Pesquisador Musical e Professor), Hildelarques Alves da Silva, “Will Bantus Reggae”(Professor de Educação Física, Produtor Cultural e Músico da Banda Bantus Reggae), George Henrique M. de Sousa “George Roots” (Sociólogo, Músico da Banda N’Zambí), Fernando A. Serpa (Artista Plástico, Produtor da Banda Neurônio Nuclear), Djair Benjamim (Produtor Cultural), Aldemir Simões da Hora Junior “Demir Simões” (Produtor Cultural, Músico da Favela Reggae) e Ana Patrícia de Sena (Produtora Cultural).

Na função de coordenador presidente, constituímos e administramos a ASCPER – Associação Cultural Pernambucana de Reggae que iniciou com 54 bandas registradas na instituição por um período de dois anos e renovamos por mais dois.

Nunca fiz nada sozinho. E na administração da ASCPER, não foi diferente. Tivemos muitas parcerias, entre elas a Groovin Produções, com a qual montamos a realização de várias edições do projeto FESTIVAL PRÉ NO REGGAE, projeto este que obteve grande sucesso de público e que temos orgulho em citar realização exitosa da programação: ASCPER, Groovinn Produções, Prefeitura do Recife com o Festival Pré no Reggae 2008 a 2012, eventos que realizamos levou cerca de 8 mil pessoas a rua da moeda em dois dias de evento, com a presença de um grande nome do reggae nacional: a Tribo de Jah (minha ex – banda, que tinha um público fenomenal).

Essa proposta, como também, o crescente aumento do público regueiro pernambucano, sempre lotando os shows nacionais, internacionais, serviu para alavancar as Bandas “Locais”. Ao final de nossa gestão, tínhamos registros de quase 70 bandas, de Fernando de Noronha com Cinco Bandas de Reggae atuantes, à Petrolina, onde catalogamos mais duas, afora os outros trabalhos que passaram pela cidade que já era considerada ponto de passagem obrigatório paras os grandes artistas do gênero em turnê pelo Brasil. A ASCPER construiu uma saudável interação, com a Prefeitura de Recife, que apoiou e reconheceu a demanda que o movimento do reggae necessitava, mostrando-se antenada aos benefícios que o apoio ao movimento trouxe para o mercado produtivo da música pernambucana.

08) RM: Como você se define como cantor/intérprete?

Serginho Barreto: Ainda não consegui me definir. Até porquê, iniciei como instrumentista e acompanhando um monte de gente, acabamos contaminados pela osmose do aprendizado. Acabei fazendo um curso de composição, e a partir daí, comecei criar letras acompanhadas de melodias. Minhas primeiras toadas foram gravadas pelo Boi Pirilampo, um fui Diretor de Percussão, o Pirilampo é uma companhia de Teatro de Rua. E sobre o trabalho de intérprete, veio a partir de um incômodo de um resultado de uma gravação com um outro intérprete, que não gostei do resultado e a partir daí, passei a mostrar minhas músicas já gravadas com a melodia que eu tinha concebido.

09) RM: Quais os cantores e cantoras que você admira?

Serginho Barreto: Gosto do trabalho de todos. Alguns realmente marcantes, Milton Nascimento, Elis Regina, Emilio Santiago, Michael Jackson, Alcione, entre outros.

10) RM: Como é seu processo de compor?

Serginho Barreto: Nunca segui uma linha de conduta nem método, porquê compor é o momento ou a necessidade, de acordo com a encomenda. Você faz a leitura e já aparece a melodia e a letra, ou somente a melodia, ou ainda somente a letra. Tenho parcerias que recebi a melodia, tenho outros que recebi a letra, e tenho outros que um chegou com a ideia, e aí sentamos e terminamos. Hoje com ajuda da tecnologia do WhatsApp fiz uma música com o parceiro Gil Estrela, conversando e compondo. Foi quase instantâneo.

11) RM: Quem são seus parceiros de composições?

Serginho Barreto: Tem muita gente, até porquê, hoje eu componho de música de campanha política a temas comerciais, propagandas, músicas de espetáculos teatrais, músicas para CDs, seguindo a temática que me é encomendada, etc. É um time bom: Oberdan Oliveira, Gil Estrela, Eulálio Figueiredo, Natan Souza, Renato Godoy, Djalma Chaves, Moza Raimundo, Taty Veloz, Augusto Bastos, Chico Viola, Gerude, Beto Pereira, Augusto Tampinha, Mestre Gut, Samy du Cavaco, Vovô, Cacá, Amós, Henrique Duailibe, Denniz Pell, Ed Candido, Joaquina Salazar, Paulinho Oliveira, Paulinho Akomabú. Estou fazendo um esforço para não esquecer de citar ninguém. Mas, me perdoem se eu errar. Tenho certeza que se eu deixar de citar um parceiro aqui. O tempo vai fechar. Eles são todos muito ciumentos, iguais a mim.

12) RM: Quais as ações empreendedoras que você sempre pratica para o desenvolvimento da sua carreira?

Serginho Barreto: Tenho uma preocupação que está relacionada à criação de novos produtos e a entrada em novos mercados. Tenho procurado criar uma letra um pouco mais comercial que caia no gosto das rádios FM em todo o Brasil, bem como tenho procurado as redes sociais para aumentar o portfólio de divulgação e alcance de novos mercados.

13) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento da sua carreira musical?

Serginho Barreto: Ajudar ou prejudicar?! Depende de ponto de vista. Para uns a falta de costume com a internet, prejudica. Para outros que conseguiram se adaptar mais rapidamente, segue como sendo uma ferramenta de divulgação muito poderosa.

14) RM: Como você analisa o cenário reggae brasileiro?

Serginho Barreto: Eu vou tentar dar aqui alguns flashs que considero como divisor de águas no REGGAE BRASILEIRO. O reggae é um gênero musical que tem suas origens na Jamaica. O auge do reggae ocorreu na década de 1970, quando este gênero se espalhou pelo mundo. É uma mistura de vários estilos e gêneros musicais: música folclórica da Jamaica, ritmos africanos, o Mento, SKA, Calipso. Apresenta um ritmo dançante e suave, porém com uma batida bem característica. O Contrabaixo e a Bateria, Percussão, seguido da Guitarra, são os instrumentos musicais mais utilizados.

As letras das músicas de reggae falam de questões sociais, principalmente dos jamaicanos, além de destacar assuntos religiosos e problemas típicos de países pobres, os quais já foram também chamados de terceiro mundo. Isto facilitou muito a identificação em São Luís – MA, nos bairros considerados por mim como quilombos urbanos, como a Liberdade, a Camboa, o Monte Castelo e o Coroadinho e região, além do acontecimento das Festas de colheitas, acontecendo sempre na zona rural da cidade: Estiva, Maracanã, Quebra Pote, Maioba, Rio dos Cachorros, Taim, entre outras localidades. E sempre servindo de mercado para divulgação das músicas que vinha do Caribe e região, entre elas o Reggae.

A cena autônoma acontecida em São Luís que alimentou o reggae histórico de Gilberto Gil. Conforme ele mesmo contou a um repórter em 2010, embora tivesse conhecido o gênero musical “Reggae” em Londres – Inglaterra, foi somente em 1973, na Praia do Calhau, na capital maranhense, que atentaria para a potência globalizante do gênero. “Ouvi “No Woman, No Cry” (Vincent Ford) sucesso com Bob Marley numa barraca de praia e perguntei ao dono quem estava cantando, lembrou que ele me disse que era Jimmy Cliff, um músico que eu conhecera em Londres.” Em 1979, Gil fez e gravou a versão que ele fez “Não Chore Mais”, sucesso gravado por Bob Marley, em 1974.

O reggae originário da Jamaica desde os anos setenta do século XX, instalou-se em São Luís do Maranhão como um fenômeno sócio – cultural diversificado. Popularizado, inicialmente, entre as classes sociais menos abastadas, sendo marginalizado por setores das elites, sem incentivo governamental ou apoio da grande mídia. O reggae conquistou adeptos na Ilha através de um processo de identificação e ressignificação, tornando-se uma opção de lazer importante, principalmente, para a juventude urbana da periferia.

Com a adesão de segmentos das classes médias e a organização dos donos de Radiolas, comprando espaços para programas e divulgação de suas festas, a partir de meados dos anos oitenta. Esse estilo musical assumiu novas proporções e significados, sendo o único ritmo com mais de cinquenta programas de reggae no rádio executado no Maranhão. Estimulando o surgimento de bandas e bares voltados para esse novo público e despertando o interesse dos veículos de comunicação de massa e dos órgãos governamentais ligados ao turismo.

Uma vez que o reggae se mostrou, também, um forte elemento de identificação da capital maranhense, que passou a ser denominada “Jamaica Brasileira”. Isto tudo coincide com o momento onde apareceram os convites para as bandas locais: Tribo de Jah é convidada a tocar em um Festival Internacional de Surf na Praia de Maracaípe no litoral pernambucano e durante esta cobertura jornalística, aparece numa reportagem do esporte ao meio dia, tocando “Babilônia em Chamas”, que caiu logo no gosto do grande público. A partir daí vieram os convites e contratos para a estrada do reggae no Brasil e no mundo.

Por outro lado, a banda Guetos criada no CCN – Centro de Cultura Negra do Maranhão, e com grande público criado nas comunidades negras, foi convidada para o primeiro grande Festival de Reggae do Parque dos Igarapés, com sucesso de público e bilheteria, também ganhou a estrada. Chegando a tocar na abertura do Fórum Social Mundial e fazer tournée com os cantores Jamaicanos: Eric Donaldson, Awim Gray. E lançou seu primeiro CD – “Lida”, no Teatro Arthur Azevedo. A banda Mistical Roots, emplacou uma música na novela da Globo “Da cor do pecado”, que foi gravada em São luís. Outras bandas como a “Filhos de Jah” foram servindo de base para alguns artistas jamaicanos: Norris Colly, Desmond Dekker, Dona Mary, entre outros que vieram se apresentar e não trouxeram bandas, por saberem da qualidade e do conhecimento do músico maranhense.

Na minha visão, a saída das bandas para praticamente viverem no aeroporto e ou rodoviária, fortalece e muito os donos de Radiolas que veem aí a oportunidade de buscarem artistas jamaicanos que vieram fazer “músicas exclusivas “para as respectivas Radiolas. Este evento teve duas faces distintas: fortaleceu as Radiolas que puderam dominar a cena musical, organizarem festivais, trazerem grandes nomes do reggae mundial, bem como, encomendar e divulgar músicas de qualidade duvidosa, como sendo grandes sucessos. Por outro lado, por não tocar as músicas das bandas locais nas festas das Radiolas, em virtude da ausência desta “exclusividade”. As bandas locais já tinham a experiência de tocar fora e para grandes públicos, não toparam fazer músicas exclusivas para as tocar nas “caixas de pau”, somente quando o Dj da referida Radiola, achasse conveniente.

Isto até hoje é uma grande rusga mal resolvida entre as radiolas e as Bandas. Poucos são os DJs que executam as produções locais em suas Radiolas. No cenário nacional, muita coisa está sendo produzida de boa qualidade. Porém, eu quero destacar aqui o aparecimento da ASCPER – Associação cultural Pernambucana de Reggae que revolucionou o reggae pernambucano e incentivou o aparecimento de outras instituições similares, pelo Brasil afora, como associação de bandas de Porto Alegre – RS, associação de bandas de Reggae do litoral Sul de São Paulo, associação de reggae de Florianópolis – SC, entre outras.

Não podemos esquecer que quando a Tribo de Jah, nos anos 90 começa sua peregrinação na tentativa de viver de arte, encontramos pela estrada do reggae brasileiro: Gilberto Gil, Edson Gomes, Dionorina, e já exista grupo Karetas de Pernambuco com o primeiro reggae “Vento Norte”, bem como a banda Trepydantes que também acabou gravando alguns sucessos.

Em São Paulo, alguns nomes de referência, em Fortaleza – CE muitas bandas a exemplo da “Rebel Lion”, “DonaLeda”. Em Porto Alegre – RG a banda “Produto Nacional”, a banda “Diretoria”, todas tocando o mais puro reggae roots.

Penso que o reggae brasileiro, é um resultado de tudo isto, e que agora com as instituições apoiando as bandas, tem uma forte tendência de fortalecimento e crescimento dos produtos e do público. O Reggae continua vivo!

15) Em sua opinião quem foram às revelações musicais no reggae nas quatro últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Serginho Barreto: As grandes revelações: Still Pulse, Morgan Heritage, Etana, Tarrus Hiley, Gerson da Conceição, entre outros. Não vejo nada e nenhuma carreira musical como regressão, pois, penso que tudo tem seu ciclo: nascer crescer e morrer. Ciclo natural!

16) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (Home Studio)?

Serginho Barreto: Acesso à tecnologia, é sempre para evolução de qualquer área, e não seria diferente na música. Ter acesso a um home estúdio, melhorou e deu condições de fazermos os arranjos ainda em casa, quando se chega no estúdio, tudo já está resolvido.

17) RM: Quais os músicos já conhecidos do público que vocês têm como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Serginho Barreto: Jimmy Cliff, Gilberto Gil, Morgan Heritage, Djavan, Milton Nascimento, Zeca Baleiro.

18) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na carreira musical (falta de condição técnica para show, brigas, gafes, show em ambiente ou público tosco, cantar e não receber, ser cantado etc)?

Serginho Barreto: Não irei dizer os lugares por ética e autoproteção profissional ao meu trabalho. Os nomes dos lugares dos acontecimentos ruins, haja vista, hoje eu estar na estrada com o meu trabalho Serginho Barreto All Roots. Temos um repertório variado, que vai desde locais onde não tinha a bateria e na hora do improviso, amarraram o prato de corte (o maior da bateria) numa corda pendurada feito um pêndulo no telhado do clube; substituindo a estante do prato. Como o nosso baterista João Rodrigues é um deficiente visual, então eu fiquei parte do show, sendo a estante, esperando a volta do prato, evitando acidentes, após os cortes nos finais das frases das músicas.

Noutro lugar, acho que eles souberam do nosso repertório antes do show iniciar, pois na penúltima música, todas as luzes da bilheteria foram desligadas, e um motoqueiro saiu com outra pessoa numa moto, levando toda a renda do show.

Tocamos noutro show com um instrumento; um par de tumbadoras, que trocaram o couro “verde”, na manhã que antecedeu ao show. Fiquei surpreso com receptividade numa exposição agropecuária no Crato – Ceará, ambiente da música Sertaneja, onde a Tribo de Jah, foi aplaudida de pé, com pedidos de bis, após o show.

Contudo, posso dizer que teve momentos bons e ruins… Inesquecíveis, aquelas reportagens na manhã seguinte, você saído do show da noite anterior, morto de cansado, fome e sono com a cara cheia de pó compacto para aparecer no primeiro programa da TV, logo pela manhã, para credibilizar a produção local contratante do próximo compromisso. Junto disto… Aquelas produções que mal esperam acabar o show e querem te jogar no primeiro aeroporto ou rodoviária; se livrando de ti.

19) RM: O que deixa você mais feliz e mais triste na carreira musical?

Serginho Barreto: Fico feliz em escutar e ver, as nossas obras, arranjos e letras sendo executadas, sendo comentadas, mostrando que nossa mensagem chegou e cumpriu seu papel. Claro que fico inquieto, chateado com aquelas produções que mal esperam acabar o show e querem nos jogar no primeiro aeroporto ou rodoviária; se livrando de nós. Achando que você deixou de ser uma pessoa, um artista e passou a condição de estorvo. Eu não aceito. Deixa-me profundamente triste.

20) RM: Você acha que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocaram nas rádios?

Serginho Barreto: Na atualidade, a internet, as opções tecnológicas e seus complementos está fazendo isto cair por terra. Basta ver as redes sociais. Minhas músicas tem tocado mundo afora, sem precisar pagar o jabá.

21) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Serginho Barreto: Estude muito, tenha paciência, seja persistente e resiliente. Sua hora vai chegar!

22) RM: Como você analisa a relação que se faz do reggae com o uso da maconha?

Serginho Barreto: Na verdade, se fizermos uma análise comportamental, iremos ver tribos utilizando-se de produtos que incentivam os rituais, sejam eles, quaisquer um. A maconha hoje, está num patamar de discussão com comprovações médicas. E saindo de um simples uso enquanto erva com propriedades alucinógenas, passando por um poderoso inibidor de situações dolorosas para cancerígenos, bem como, de tranquilizantes para os autistas. O Reggae tanto quanto o Rock, trouxe esta discussão para o meio da cena musical. Em alguns lugares, foi incorporado seu uso, noutros foi rechaçada e combatida com os porretes da polícia.

Enfim… Acho que chegou a hora de deixarmos misto de “crença errada com discriminação ao uso”, independente de qual finalidade. Para finalmente fazermos uma grande discussão a partir de dados científicos que realmente esclareçam a grande população, os usuários beneficiados, através da grande mídia. Tudo ainda é uma grande discussão.

23) RM: Como você analisa a relação que se faz do reggae com a religião Rastafári?

Serginho Barreto: O rastafarianismo, ou religião rastafári, ou ainda movimento rastafári, foi um fenômeno da segunda metade do século XX que misturou elementos religiosos, políticos e musicais em torno da figura de Haile Selassié I (1892-1975); imperador da Etiópia entre os anos de 1930 a 1974. Para mim, foi a maior mancada de Bob Marley, acreditar em um “Déspota”, mas, está perdoado por ser humano e estar sempre podendo errar. Com alguns elementos emprestados do judaísmo e do cristianismo, a crença prega a adoração do Deus / Jah. É uma crença nascida na Jamaica na década de 30, popularizada pelas músicas de Bob Marley e atualmente seguida por cerca de 1 milhão de pessoas no mundo. O Reggae ou qualquer outra vertente musical que Bob Marley escolhesse, seria o hino, a música, o som deste movimento, com certeza!

24) RM: Você é adepto a religião Rastafári?

Serginho Barreto: Não sou rastafári, apesar de usar o cabelo dreadlock e gostar muito de utilizar este visual. Apenas respeito e admiro a não alimentação de carne vermelha nem de porco, o respeitar o tempo de menarca das esposas. Enfim, existem muitos preceitos úteis em todos os lugares. O Rastafarianismo, tal qual o Protestantismo, o Cristianismo, As Religiões de Matriz Africanas, etc… São Religiões conducentes de seus seguidores e devem ser respeitadas de forma igual.

25) RM: Os adeptos a religião Rastafári afirmam que só eles fazem o reggae verdadeiro. Como você analisa essa afirmação?

Serginho Barreto: Esta Religião prega o vegetarianismo e o orgulho da raça negra. É uma crença nascida na Jamaica na década de 30. Com alguns elementos emprestados do judaísmo e do cristianismo, ela prega a adoração do Deus / Jah, que teria reencarnado no século 20 como o imperador etíope Haile Selassie I. Seus seguidores, os rastas, seguem um modo de vida longe do capitalismo ocidental: se vestem à sua maneira, não cortam o cabelo e evitam aparar a barba, seguem uma dieta quase vegetariana, preferem tratamentos com ervas medicinais e abdicam de qualquer droga – a não ser a maconha, usada em rituais de meditação. Um dos nove princípios da religião prega o vegetarianismo, abrindo rara exceção para o uso de certas peles animais. É proibido o consumo de carnes suínas, peixes de concha, peixes sem escamas e caracóis. Dessa forma, os adeptos comem apenas “I-tal” (termo que significa puro, natural e/ou limpo), como Jah haveria ordenado. Para beber, preferência aos chás herbais.

Fazer Reggaes bem feitos não dependem somente do uso da maconha ou do “Ser” Rastafári… Fazer bons Reggaes, dependem também do sentimento e do conhecimento musical. Penso, faço e sinto o meu reggae tão verdadeiro como o de qualquer Rastafári. Então, eu discordo desta afirmação.

26) RM: Na sua opinião porque o reggae no Brasil não tem o mesmo prestigio que tem na Europa, nos EUA e no exterior em geral?

Serginho Barreto: Uma questão básica: Conhecimento, Evolução e Valorização. Na Europa, Nos Estados Unidos… enfim, onde a informação, a educação e a informação, evoluiu primeiro. Isto influenciou diretamente em todos os outros comportamentos e conhecimentos adquiridos. E o Reggae, esta música do terceiro mundo, que se torna acessível a partir da divulgação, primeiro pelos sound system, na própria Jamaica. E depois pela absorção e envolvimento de outros grandes artistas pelo mundo, como alguns roqueiros.

Fortaleceram sobremaneira o Reggae, criando possibilidades do aparecimento dos grandes festivais pelo mundo: Rototom Sunsplash, International Dub Gathering na Espanha, Médoc Sun Ska; anteriormente conhecido como Reggae Sun SKA na França, Uprising Festival na Eslováquia, Summerjam na Alemanha. Acontecem na Jamaica: Reggae Sumfest, Reggae Sunsplash, festival mais tradicional do ritmo em todo o mundo. O mais famoso. O que acaba batizando os trabalhos de reggae pelo mundo.

Eu tive a honra de tocar no maior festival de Reggae do mundo: SUNSPLASH REGGAE FESTIVAL em 1996, com a Tribo de Jah (Zé Orlando, Fauzi Beydoun, Serginho Barreto, Alessandro Neto, Achiles Rabelo, Joãozinho Rodrigues, Francisco Guilherme “Frazão”), participação do guitarrista pernambucano Taty Veloz e auxilio do camarada faz tudo: Aurimar Baldez (Pepeu), sob produção do saudoso amigo Geraldo Carvalho. A banda foi convidada mesmo sem patrocínio e gravadora, a abrir a noite do Reggae Roots. Simplesmente, o maior feito de um trabalho musical maranhense até agora na história desse Estado.

No Brasil, existe um fenômeno, que chamarei de “setorização musical”. No Ceará Forró. Em São Paulo, o Rock. No Rio de Janeiro, Samba enredo. No Pará, o Brega. Existe ainda e resiste a falsa influência da má fama criada pela ausência de conhecimentos sobre o tema “droga”. É engraçado. Você toma vacina, medicamentos, refrigerantes, produtos industrializados, bebidas, etc. Tudo é droga ou contém drogas. Mas, afinal?! Qual motivo que não sofrem preconceito quanto ao seu consumo? Simplesmente por falta de informação! Isto influência tudo. inclusive o prestígio do Reggae no Brasil.

27) RM: Nos apresente a cena musical reggae de São Luís?

Serginho Barreto: Existem atualmente em São Luís, os artistas da exclusividade, da caixa de pau, produtores dos melôs, com aqueles trabalhos de qualidade duvidosa, diretos para dentro do mato. Vão proliferar as cidades menores com suas “exclusividades”. Eles servem para reafirmar uma frase da qual tenho certeza: de tanto tocar, a música de qualidade duvidosa se torna moda e nos mostra que não existe música feia! Existe música que não toca.

E os artistas, que não estão preocupados em produzir melôs para as Radiolas, que procuram fazer um reggae decente e bem produzido no Maranhão, pronto para tocar em qualquer lugar do mundo, que vez por outra, belisca uma premiação lá fora, num Festival de Música. Abre a capa do caderno de cultura de um importante jornal, mesmo tocando somente nos programas: “Coisa Nossa” do camarada Zé Raimundo, no programa de William Rio Branco ou programa Santo de Casa da Rádio Universidade FM. Tem espaço para todos. E todos vão para Rosário… Uns vão para Rosario, minha cidade no interior Maranhão. Isto quando passam do Estreito dos Mosquitos. E outros passam de Rosário (Argentina) e ganham o mundo.

28) RM: Quais as diferenças das Radiolas de São Luís?

Serginho Barreto: Umas tem dinheiro e controlam tudo. Elegem Vereadores, Deputados Estaduais, Deputados Federais e Senadores. E mandam buscar artistas e produtores Jamaicanos que fazem suas canções exclusivas, compram os horários de rádio e tvs que acham necessário. Organizam Festivais, influenciam diretamente no calendário de eventos da cidade, criam leis, ditam modas a partir do que eles querem e tem para mostrar nas suas festas ou nos seus programas. Outras compram as músicas os (as) melôs “batidas e conhecidas” de outras Radiolas, de menor poder. Radiolas de menor poder, quando muito, conseguem um horário numa rádio de média audiência para a divulgação de suas festas e eventos. Vivem das festas e eventos, que as grandes Radiolas não querem mais fazer. Mas, entre elas, existe um código: “um por todos e todos por um”. Não é declarado, mas visivelmente notado.

29) RM: Nos espaços ou clubes que tocam as Radiolas tem espaço para banda tocar?

Serginho Barreto: Já foi bem pior. Em uma época em que as bandas locais, viviam na rodoviária ou no aeroporto. Realmente, nada tocava por São Luís, quando muito, na rádio da Universidade Federal, que por ter uma política de divulgar o que é produzido na cidade. No programa Santo de Casa, nunca deixou de tocar. Este movimento está querendo ficar mais forte, haja vista, que aquelas “músicas exclusivas” já se difundiram, já deram lucro e agora, os donos de clubes e Radiolas se deparam também com o público que acompanha as bandas.

Um público jovem que tem acesso direto aos outros artistas e não se contenta mais na escuta do “reggae robozinho”. Os reggaes da caixa de pau. É lógico que a partir deste movimento, eles passam a tocar uma ou duas músicas das bandas que vão tocar no evento, como forma de mostrar conhecimento dos trabalhos. Mas, ainda existem DJs que não tocam o trabalho e ficam tirando de onda do trabalho, dizendo que não recebeu, ou dando outras desculpas para não tocar. Existe, também a questão do preço. Um DJ é sempre mais barato, toca em média quatro horas de festa e pode, de acordo com o público frequentador daquela Radiola, ou do tempo de mídia daquela festa?! Dar um lucro maior para o espaço, do que uma banda local, que toca somente duas horas de espetáculo.

30) RM: Existe rivalidade profissional entre os donos de Radiolas e as bandas e cantores(as) de reggae em São Luís?

Serginho Barreto: Claro que ainda existe! Quem disser que não existe, ou ganhou algum para mentir ou omitir, ou mesmo quer sair bem numa foto para o movimento de donos de Radiolas. Estar bem menor… principalmente pela perda de qualidade do produto “exclusivo” das Radiolas. E tudo isto se iniciou por uma cultura maluca da tal “exclusividade de uma música” e começou muito lá atrás. Conheço Radiolas que se vangloriam de nunca ter tocado um trabalho de um artista do reggae local; somente os que gravam músicas para eles.

A quem eu chamo carinhosamente: “os artistas da caixa de pau”. Os que nunca vão tocar para duzentas mil pessoas, nunca tocarão num Sunsplash! Existe uma clara percepção de que existem segmentos dentro de cada segmento. Desta maneira, aquilo, por exemplo, que eu estava querendo chamar de reggae de Radiola, como se fosse, metaforicamente, um pano liso só, na verdade é uma colcha de retalhos, pedaços de reggae roots, executados num computador. Um grego do bairro São Cristovão, tentando cantar inglês, um jogo de interesses entre seus agentes, que ora se conflitam, ora confluem, engendrando um universo variado de gostos duvidosos, arranjos e melodias de baixíssima qualidade, caracterizando outros interesses.

Comecei a enxergar no reggae em São Luís, os milhões de pedaços de outras canções, com os quais se compõem os “robozinhos”. Aliás, passei a pensar em reggae, de uma outra forma, dentro de uma noção de identidades ou mesmo a partir da categoria identificação, que indica uma constante construção e reformulação. Mas descobri que em nenhum momento existe preocupação em recuperar a qualidade perdida, até por que “as radiolas” acham que sempre vão fazer suas músicas para proliferar a zona rural. E que nesta os ouvintes, “ou vão, ou vão” para as suas festas, por não terem outras opções.

31) RM: Na letra Magnatas e Regueiros da Tribo de Jah. É relatado que os Magnatas, que são os donos de Radiolas, só pensam em Dinheiro, ou seja, no lucro do baile e não estão se importando com o regueiro nem com o reggae. O que você me diz dessa realidade local?

Serginho Barreto: Fato Verdade, relatado e prolatado, sem nenhuma virgula a mais!

32) RM: O que justifica São Luís ser conhecida como a Jamaica Brasileira?

Serginho Barreto: Não concordo, por discordar da lógica de funcionamento! Na Jamaica o sound system era utilizado para divulgar os trabalhos dos artistas locais e em São Luís acontece exatamente o contrário. Poucos e demarcados, são os DJs e Radiolas que tocam as produções das bandas locais. E já foi bem pior.

33) RM: O reggae em São Luís é dançado agarradinho. Quais os motivos que levaram a essa característica local? Seria a semelhança do ritmo reggae com o Xote?

Serginho Barreto: Sim. Todos os ritmos executados no Nordeste são dançados a dois, Xote, Xaxado, Baião e Forró. O Reggae dançado na Jamaica nunca teve esta característica. Eu achei bem estranho, na Jamaica dançar reggae parecia aula de ginástica. Porém, ao ser executado na zona rural do estado do Maranhão, o reggae foi introduzido num ambiente onde as pessoas dançavam boleros e outras canções, todos cada qual com seu casal. E quando o reggae era executado, apenas uma hora em cada festa… Estes casais não se desgrudavam, a partir daí, aparece este estilo, dançar agarradinho. Claro que todos os outros estilos de dança a dois, exerceram fortíssima influência.

34) RM: O show de reggae no sudeste a presença maior é de jovens e em São Luís tem pessoas de várias idades. Quais os motivos levaram a essa característica local?

Serginho Barreto: Ir ao Clube de Reggae, ao Show de Reggae, em São Luís, representa um movimento de identidades, e por isto “todos” querem ir, jovens, adultos e também idosos, até para ouvirem mais uma vez e relembrar sua vida e as canções que embalaram suas vidas até aqui. No Sul, Sudeste. ir a um clube de Reggae é bem mais raro. Ir a um show de Reggae é moda. E acontece com maior frequência. E sendo moda, tem maior representatividade no público jovem.

35) RM: Qual a receptividade dos regueiros de São Luís para com os músicos jamaicanos?

Serginho Barreto: Sempre a melhor possível com tratamento de estrela de quinta grandeza. Sempre! Alguns artistas jamaicanos, já mudaram para São Luís.

36) RM: A receptividade dos regueiros de São Luís é a mesma para com os músicos e bandas de reggae de outro Estado/Cidade?

Serginho Barreto: Depende da grande mídia, da produção e da Radiola. Assim como já teve shows com público de encher estádio a exemplo de Jack Brow, onde tivemos o prazer de fazer parte da banda. Tivemos o desprazer de participar de um show com Joe Higs numa casa de Show chamada “Equator” para 32 pagantes. O pior público de minha vida como profissional de música.

37) RM: A impressão para quem não mora em São Luís é que a cena reggae local é diferente das outras cenas reggae do Brasil. Essa impressão procede?

Serginho Barreto: Procede… Para começar! Caixas de pau ou Radiolas, somente determinam gosto musical no Maranhão. E se você ver ou ouvir falar de Radiola em qualquer outro lugar! Pode ter certeza, que tem maranhense envolvido. Noutros lugares o público vai por causa da sua banda. As bandas tem seus públicos e seus fã clubes, e estes acabam realizando as produções, os eventos.

38) RM: Qual a sua relação pessoal e profissional com os membros da Tribo de Jah?

Serginho Barreto: Maravilhosa. Meu atual maestro é Guilherme Frazão ex -tecladista da Tribo de Jah, quando preciso, tenho todos os músicos à disposição. A Tribo de Jah era e continua uma família (https://www.ritmomelodia.mus.br/entrevistas/tribo-de-jah) .

39) RM: Qual a sua relação pessoal e profissional com Zé Orlando (Pedra Rara), ex membro da Tribo de Jah?

Serginho Barreto: Saudades do camarada Zenga (carinhoso apelido do Zé Orlando). Ele optou por ir morar em São Paulo, com a mudança de estrutura da Tribo de Jah, alguns músicos venderam tudo por aqui e seguiram, outros não fizeram esta opção. E formou sua banda Pedra Rara (https://www.ritmomelodia.mus.br/entrevistas/banda-pedra-rara).

40) RM: Qual a sua relação pessoal e profissional com Edson Gomes?

Serginho Barreto: Eu e Edson Gomes (https://www.ritmomelodia.mus.br/entrevistas/edson-gomes) estivemos sempre bem próximos, no final dos anos 90, quando a produtora África Produções de Olinda de Pernambuco, esteve contratando os trabalhos da Tribo de Jah junto com apresentações de Edson Gomes para eventos no Nordeste. Foi uma época muito proveitosa, as duas bandas fizeram muitas viagens juntas.

41) RM: Qual a sua relação pessoal e profissional com Gerson da Conceição?

Serginho Barreto: Fomos, somos e seremos irmãos, aqueles especiais, que mamãe nem pariu, mais o mundo nos presenteou. Fomos amigos de infância, adolescência e vida adulta. Tocamos com time grande de estrelas jamaicanas, que já chegavam nos procurando, pois alguém falou do nosso trabalho: Awim Grey, Dona Mary, Eric Donaldson, Honey Boy, Jack Eduard, Norris Collin, Jack Brown, entre outros. Infelizmente ele nos deixou em 22.04.2019 após um infarto (https://www.ritmomelodia.mus.br/entrevistas/gerson-da-conceicao).

42) RM: Qual a sua relação pessoal e profissional com Dionorina?

Serginho Barreto: Eu e Dionorina (https://www.ritmomelodia.mus.br/entrevistas/dionorina) estivemos próximos nalgumas produções pelo Nordeste. Pouco tempo, mas, o suficiente para convivência harmoniosa.

43) RM: Qual a sua relação pessoal e profissional com os músicos da Raiz Tribal?

Serginho Barreto: Eu vi todos da banda Raiz Tribal (https://www.ritmomelodia.mus.br/entrevistas/raiz-tribal/) ainda garotos. O filho de Aquiles (Leo Rabelo), que também é baixista e os filhos de Neto Enes, o tecladista e intérprete (Keké e Gil) esta é a base da formação. Sou padrinho musical da Banda.

44) RM: Qual a sua relação pessoal e profissional com Tony Tavares?

Serginho Barreto: Tony Tavares, o homem de Guimarães – MA. Era um parceiro de primeira ordem, gente boa. Andou fazendo umas coisas boas. Era um DJ, que fazia questão de levar e tocar reggaes das bandas locais nos seus programas.

45) RM: Qual a sua relação pessoal e profissional com Santa Cruz?

Serginho Barreto: Santa Cruz é parceiro de guerra, muitos anos de luta em prol da música autoral, aquela que algumas Radiolas rechaçam. Mas, devagar se vai ao longe!

46) RM: Qual a sua relação pessoal e profissional com Henrique Veras?

Serginho Barreto: Henrique Veras (https://www.ritmomelodia.mus.br/entrevistas/henrique-veras/), um grande parceiro, lutando também pelo Reggae Autoral. Hoje existe um time de Compositores: Paulinho Akomabú, Henrique Veras, Thadeu de Obatalá, Ed Candido, Serginho Barreto, George Gomes, Fabinho de Jah, Célia Sampaio, Santa Cruz. Compositores que estão engrossando o coro em prol da divulgação dos Reggaes produzidos em São Luís.

47) RM: Qual a sua relação pessoal e profissional com os regueiros jamaicanos que fazem show em São Luís?

Serginho Barreto: Sou amigo de todos, trabalho com todos os que me procuram, tenho contatos, principalmente com os que moram atualmente em São Luís ou no Brasil. Nabbir Clifford, Norris Colly, Edie Grant, Honei Boy. Quando estive pela Jamaica, fui muito bem recebido, indicado inclusive para outros trabalhos. Continuo amigo do camarada Eric Donaldson. Todas as vezes dos encontros casuais, se transformam em festas e afagos efusivos.

48) RM: Quais as diferenças entre a cena reggae em São Luís e o sudeste do Brasil?

Serginho Barreto: Basicamente em São Luís, o comando das Radiolas sobre a maioria dos eventos de Reggae existentes na cidade e zona rural. O público da Radiola vai para ouvir aquela música bonita chamada de “pedra” que somente aquela Radiola tem. A “musica exclusiva”. No Sudeste o público vai pôr se identificar com a banda ou artista e monta-se até fã clube.

49) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical independente?

Serginho Barreto: É difícil, mas, é possível, com uma organização mínima e um grau de profissionalização cada dia mais exigente. Já foi mais difícil tocar uma carreira musical. As redes sociais facilitaram muito esta divulgação e exposição dos trabalhos.

50) RM: Quais os projetos futuros?

Serginho Barreto: Divulgar o Trabalho de Serginho Barreto no litoral Brasileiro e nos picos de Reggae Autoral em nosso país. O CD – “All Roots” precisa ser visto e ouvido pela maior quantidade de ouvintes. Retornar e fechar temporada do Verão Catarinense, celebrado com a produtora Miriane de Jah (https://www.regueirosguerreirosdejah.com.br/), que em 2020 foi suspenso por causa de pandemia do Covid-19.

51) RM: Quais os seus contatos para show e para os fãs?

Serginho Barreto: (98) 98319 – 3339 | [email protected] | [email protected]

| https://web.facebook.com/barretoeconomista

Canal de Serginho Barreto: https://www.youtube.com/channel/UC16rB1s6L_44TptYeu3cO0A

Sérgio Barreto e Banda – Apresentação para Lei Aldir Blanc: https://www.youtube.com/watch?v=kABZI73DVQU

Serginho Barreto – Justiça Ao Vivo em Rosário – MA: https://www.youtube.com/watch?v=BUKfShxDidw

Serginho Barreto: https://www.youtube.com/watch?v=22Oj9LaIIMU

Conexão Cultural – Serginho Barreto: https://www.youtube.com/watch?v=PXvJO8svqBE

Pátio Aberto 2018 – Show Guetos nos Guetos – Banda Guetos: https://www.youtube.com/watch?v=G8p1rqO6ctk

AO VIVO | #CoisaNossa entrevista o Cantor e Compositor, Serginho Barreto: https://www.youtube.com/watch?v=GqVC92YQsgE


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Uma Revista criada em 2001
pelo jornalista, músico e poeta paraibano
Antônio Carlos da Fonseca Barbosa.