Ricardo Verocai


Ricardo Verocai a partir de 1987 trabalhou no Studio V, no Rio de Janeiro, como produtor de trilhas e jingles, arranjador, músico e diretor musical ao lado do seu pai Arthur Verocai e de Alceu Maia. 

Ricardo Verocai, no Studio V atuou na produção e gravando com artistas como: como Milton Nascimento, Robertinho Silva, Beth Carvalho, Neguinho da Beija Flor, Alceu Maia, Velha Guarda da Portela, Wilson das Neves, Nico Assumpção, Luizão Maia, Sizão Machado, Paulinho Black, Bidinho, SerginhoTrombone, Lucinha Lins, Ary Fontoura , Raul Cortez, Arthur Maia, Paulinho Trumpete, Claudio Jorge, Jorjão  Barreto, entre outros.

Ricardo Verocai acompanhou artistas internacionais: Andrew Tosh (Jamaica), Pato Banton (EUA) e Mad Professor (Inglaterra). Em 1998 criou a Banda Movimento e no ano 2000, como diretor musical, arranjador e pianista criou o MUV (Movimento Uniformemente Variado) ao lado da cantora Kátia Drumond. Em 2002 integrou as bandas de salsa Orquestra de Salsa de Chico Batera e Son Clave, do percussionista panamenho Agustín Flores, no Rio de Janeiro. De 2003 a 2005 integrou a banda do compositor e intérprete inglês Pato Banton em seus shows no Rio de Janeiro e São Paulo. De 2005 a 2007 integrou a banda Djambi, em Curitiba (PR), com a qual entre outras apresentações realizou turnê por três meses na Europa por ocasião do ano do Brasil na França, onde realizou vários workshops sobre a MPB e trabalhos com artistas locais e internacionais na França e Suíça.

No ano de 2007, participando do MUV (Movimento Uniformemente Variado), como arranjador, pianista e compositor, lançou o CD – “Os movimentos”. O disco contou com produção executiva de Kátia Drumond e Isidoro Diniz, no qual foram incluídas 14 composições autorais de artistas do movimento ou a ele agregado, tais como Macau, Lupper, Nina Fola, Paulo Cima, Leonardo Zapatta, Hélio de Assis e Keba Ubiratan. O trabalho também contou com as participações especiais do maestro, arranjador e guitarrista Arthur Verocai; do cantor de reggae Pato Banton (Jamaica/Inglaterra); e dos músicos paranaenses Glauco Sölter, Chiris Gomes, Paulinho Branco e Neno Silva.

Em 2010 realizou a turnê no Brasil, Perú e Argentina com o cantor e compositor jamaicano Andrew Tosh, filho de Peter Tosh. Neste mesmo ano criou e realizou a oficina “História da Música Moderna da Periferia Urbana”, no Educandário São Francisco, Piraquara, no Paraná. Em 2011, integrando como arranjador e pianista o MUV (Movimento Uniformemente Variado), lançou o CD – “Minha gente brasileira”, no qual o coletivo focou na musicalidade do samba-soul e do jazz, mesclados com grooves de funk, com produção musical e arranjos de sua autoria, mixado e masterizado pelo produtor inglês David Brinkworth e com produção executiva de Kátia Drumond em parceria com Luiz Roberto Meira. O disco contou com a participação especial de Carlos Dafé na música “Maré” (Ricardo Verocai / Kátia Drumond), do compositor Macau na composição “Tô atento” (Ricardo Verocai / Macau e Kátia Drumond) e do maestro Arthur Verocai na guitarra e nos arranjos de metais para a composição “Samba da Dona Odete” (Ricardo Verocai / Katia Drumond, Luiz Felipe Leprevost, Alexandre França e Reka Ross Kloss). Também foram incluídas de sua autoria “Torta de chocolate”, “Simonice”, “Zênite” (Ricardo Verocai / Denis Nunes, Ruan de Castro e Ian Giller Branco), “Respirar” (Ricardo Verocai / Kátia Drumond e Jahir Eleutério), “Muito prazer” (Ricardo Verocai e Dado) e “Modula a solidão” (Ricardo Verocai / Kátia Drumond e Chris Gomes), além de “Interurbano”, “Entre as cores”, “Me diga” e “Kaingang”, todas em parceria com a cantora Katia Drumond. Neste mesmo ano de 2011 tocou no show de relançamento do disco homônimo de Arthur Verocai no SESC Pinheiros (SP), apresentando-se ao lado de Robertinho Silva, Nivaldo Ornellas, Luis Alves, Paulo Braga, Itamar Assiére, Walmir Gil, com uma orquestra de 36 músicos, que contou com a participação de Danilo Caymmi, Célia, Carlos Dafé, Clarisse Grova e Marcelo Jeneci. Ainda em 2011 fez shows em Portugal, Espanha e Ilhas Canárias, com a banda Real Coletivo Dub, de Curitiba (PR). No ano de 2013 lançou o CD “Acordes daqui – Música feita em Curitiba”, em parceria com Kátia Drumond, no qual recebeu diversos convidados. Neste mesmo ano atuou como arranjador, diretor musical e pianista no show em homenagem ao centenário de Vinicius de Moraes, “Mulheres Cantam Vinícius”, realizado pelo Sesc Paço da Liberdade, em Curitiba (PR).

Segue abaixo entrevista exclusiva com Ricardo Verocai para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 04.08.2020:

Índice

Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal? Seu nome de batismo e nome artístico?

Ricardo Verocai: Nasci no dia 02 de janeiro de 1974, no Rio de Janeiro – RJ. Registrado como Ricardo Maia Verocai.

01) RM: Fale do seu primeiro contato com a música. 

Ricardo Verocai: Meu primeiro contato foi desde que nasci com meu pai Arthur Verocai, que é maestro, violonista, guitarrista, compositor, produtor musical e conhecido arranjador da MPB. Minha mãe tocava Piano também e logo que tive contato com o Piano já comecei a compor. Sempre fui influenciado pelo disco de 1972 (Arthur Verocai, misturando jazz, bossa nova e música experimental) de meu pai e da sua banda que era formada por lendas da música brasileira como Robertinho Silva, Luizão Maia, Helinho Delmiro, Toninho Horta, Wagner Tiso, Raul de Souza, Luiz Alves, entre outros.

Eu frequentava alguns shows e ensaios e me fascinava com o ambiente musical dos anos 70. Entrei nas aulas de Piano antes de aprender a ler, pois com quatro anos já havia composto um minueto no Piano e minha professora, Helena Paracampo Blaha, abriu uma exceção para me lecionar aulas de Piano Clássico em junho de 1979.

02) RM: Qual a sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical?

Ricardo Verocai: Estudei o Piano Clássico de 1979 a 1994, me apresentando todos esses anos no Teatro IBAM, no Humaitá (RJ). Toquei peças de compositores como Beethoven, Haydn, Brahms, Schubert, Mussorgsky, Tchaikovski, Chopin e principalmente J.S. Bach. 

A partir de 1984, comecei a praticar música popular influenciado por bandas de Rock progressivo como Queen e Pink Floyd. Nesse mesmo ano fui convidado pra tocar em minha primeira banda no colégio. Já no ano seguinte toquei Piano com essa banda em um sarau no Hotel Nacional (RJ), no mesmo Piano e no mesmo palco do Free Jazz Festival.

Em 1986 conheci a música de Bob Marley através de um amigo da escola, que me mostrou o disco Rebel Music, sendo este, o primeiro disco de reggae que eu comprei. A partir desse momento, fiquei completamente apaixonado pelo reggae e pelo swing da música jamaicana, passando a pesquisar e colecionar os discos. Os timbres dos diferentes instrumentos de teclas que eram usados, como Órgão, Piano, Piano elétrico, Clavinete, Moogs e outros Teclados analógicos também me fascinavam demais e assim, comecei a pesquisá-los.

A primeira vez que utilizei um Piano elétrico fender rhodes em um show no Scala Rio (RJ), foi em 1988, quando  passei a idolatrar esse instrumento, que depois fui reconhecer na banda The Wailers, principalmente nos discos Live, Babylon by Bus e na faixa Pass it On do disco Burning, de Bob Marley. Assim, fui me especializando nos timbres da soul music e do reggae.

Por influência de meu pai Arthur Verocai, que é músico de Jazz, eu sempre escutava com ele discos de Jazz e assistia os Festivais desse estilo musical. Para mim, o reggae sempre tinha algo de Jazz invisível dentro dele, o que é uma percepção muito particular. Trabalhei por muitos anos no estúdio do meu pai Arthur Verocai, desde músico, office boy, assistente técnico, técnico de som, até produtor musical de singles, trilhas e jingles.

Em 1994 recebi o prêmio de melhor arranjo da Associação de Colunistas e Marketing do jornal O Globo, com um reggae que produzi para a empresa Aquafresh, cantado pelo ex cantor da banda “Black Rio” e tecladista de Luiz Melodia, Jorjão Barreto.  

Cursei design na Faculdade da Cidade (RJ) nos anos 90 e trabalhei como designer na produtora de vídeo Blue Light, em Santa Tereza (RJ) por quatro anos.

03) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Ricardo Verocai: Minhas maiores influências musicais no passado foram J.S.Bach, Ravel e Mussorgsky  no estilo erudito. Queen e Pink FLoyd no rock. Herbie Hancock, Bill Evans, Ray Charles, Sarah Vaughn, Wes Montgomery, Dizzy Gillespie, no jazz. Tom Jobim, Baden Powell, Milton Nascimento, Tânia Maria, Leny Andrade e Chico Buarque, na MPB. James Brown, Michael Jackson, Marvin Gaye, Gil Scott Heron, Carlos Dafé, Banda Black Rio e Tim Maia, na soul music. No estilo reggae: Bob Marley, Peter Tosh, Jimmy Cliff, Steel Pulse, Alpha Blondi, Dennis Brown, Gregory Isaacs e Hugh Mundell.

Hoje em dia, gosto de escutar jazz antigo, no erudito “Debussy”, soul music dos anos 70 e 80 e reggae em geral, principalmente o estilo militante do final dos anos 70 e começo dos anos 80 além do estilo rockers do mesmo período.

04) RM: Quando, como e onde você começou a sua carreira musical?

Ricardo Verocai: Iniciei minha carreira musical em 1980, no Rio de Janeiro, tocando Piano Clássico e partir de 1984 toquei com diversas bandas de diferentes estilos musicais.

Em 2000 criei um projeto musical ao lado da minha parceira, a cantora, compositora e atriz Kátia Drumond, chamado MUV (Movimento Uniformemente Variado), no Rio de Janeiro e que em 2005 migrou para Curitiba – PR, no qual sou produtor musical, arranjador, diretor musical, compositor, pianista e tecladista.

Os principais shows do MUV (Movimento Uniformemente Variado) que realizei foram: 18º e 24º Festival de Inverno da UFPR / Festival de Antonina (2008 e 2014), Nujazz Festival (abertura do show de Arthur Verocai e Azymuth/ 2010), Uandá – Africanidades Sul-Brasileiras,  (Porto Alegre/ 2010), Festival Lupaluna (2012), Fifa Fan Fest Curitiba(2014), Virada Cultural do Paraná (2010 a 2013), De Alegria Raiou O Dia – MUV convida Carlos Dafé, Teatro Paiol(2013) e  Teatro do SESI SJP (2014), MON + Música “A Alma do Groove Brasileiro” com: MUV, Karol Conka e Michele Mara (2013), Ilha do Mel  Jazz Festival  (2014 e 2015), MUV Nas Ruas da Cidade (12 shows em praças, ruas e terminais de Curitiba no foi realizado com o apoio do PAIC – Programa de Apoio e Incentivo à Cultura, da FCC – Fundação Cultural de Curitiba e Prefeitura Municipal de Curitiba (2014 a 2015), Saul Trumpet Jazz Festival (2018), Curitiba Jazz Festival (2018) e Shows de circulação do projeto “MUV 20 Anos” em 2019.

Fui diretor musical, tecladista e compositor do Projeto do MUV, o show cênico “Eu Acho Curitiba Bem Legal”, com os parceiros de composição: Luiz Felipe Leprevost, Kátia Drumond, Chiris Gomes e Octávio Camargo. Espetáculo com 14 integrantes (cantores, músicos, atores e bailarinos) – temporada 29 de fevereiro a 05 de março de 2020, no Teatro José Maria Santos em Curitiba. Realizado com recursos públicos através do Programa de Apoio e Incentivo à Cultura da Fundação Cultural de Curitiba e da Prefeitura Municipal de Curitiba.

Em 2011 integrei a banda do meu pai e maestro Arthur Verocai, ao lado de grandes nomes da música brasileira como: Robertinho Silva, Nivaldo Ornellas,Luis Alves, Paulo Braga, Itamar Assiére, Walmir Gil, com a qual  realiza concertos com orquestra de 36 músicos – SESC Pinheiros (SP), o qual contou com a participação de Danilo Caymmi, Célia, Carlos Dafé, Clarisse Grova e Marcelo Jeneci. 

Em 2015 fui pianista do projeto “Elis, Essa Mulher”, em homenagem à Elis Regina, no + Música, no Museu Oscar Niemayer, em Curitiba – PR. Acompanhei os cantores americanos Obey Jah (2007), Mishka e Harrison Stafford (2016) em turnê pelo Brasil.

Em 2017, fui convidado como tecladista da banda do cantor e compositor Carlos Dafé no show “7 Décadas de Dafé”, que teve a participação de Lady Zu e Rappin Hood, realizado no Sesc Pompeia (SP). Participei dos shows da Carbien Jazz Band no Festival de Jazz de Curitiba, Festival Gastronomix, Festival Jazz na Ilha, na Ilha do Mel (PR), entre outros (2017 a 2019). Em 2019 toquei no show do meu pai e maestro Arthur Verocai e Orquestra de Köln, Week-End Festival, em Köln na Alemanha e no show da banda canadense “BADBADNOTGOOD convida Arthur Verocai”, no Audio, em São Paulo.

05) RM: Fale do seu trabalho com artistas na cena reggae.

Ricardo Verocai: Dentro do estilo reggae toquei com: Ras Bernardo (RJ), Vell Rangel (RJ), Jahir Soares (BA/RJ), Rio Reggae Banda (RJ), Dom Luiz Rasta (RJ), Bira Rasta (RJ), Alma Reggae (RJ), Onda R (RJ), Dread Lion (RJ), Nabby Clifford (RJ),  Zé Orlando (MA), Dionorina (BA), César Nascimento (MA), Gerude (MA), Seda Fina (RJ), Bagabalô (RJ),  Namastê (PR), Real Coletivo Dub (PR), Sweet Sativa Dub (PR), Paulinho Ganaê (BA), Monte Zion (RJ), Caribean Jazz Band (PR) entre outras bandas de Curitiba, Rio de Janeiro e Niterói – RJ. 

Fiz duas turnês com Pato Banton e produzi duas músicas para o disco “Escravos da Babilônia” da banda Monte Zion, com participações de Pato Banton e Andrew Tosh.

Sou um dos fundadores da banda Original Marley Cover, e tecladista da banda Bob Marley Cover, que desde 2000 dividimos o palco com muitas bandas de nacionais e internacionais como Natiruts, Tribo de Jah, Edson Gomes, Steel Pulse, Israel Vibration, O Rappa, Gabriel O Pensador, Pato Banton, entre outras, na Fundição Progresso, Clube Mourisco, Circo Voador, Cantareira, Malagueta, no Rio de Janeiro. 

Fui convidado pelo guitarrista Diego Bueno para integrar de 2008 a 2016 a “Tosh Band”, como o tecladista de Andrew Tosh em suas turnês pela América do Sul, na Argentina, Uruguai, Chile, Peru e todo Brasil.

Em 2004 a Kátia Drumond me apresentou à banda de reggae curitibana Djambi e fui convidado para gravar seu quinto álbum e participar de sua sétima turnê na Europa, por três meses pela França e Suíça.

Em 2011 integrei a banda “Real Coletivo Dub”, em turnê pela Espanha, Portugal e Ilhas Canárias.

Em 2013 fui convidado por Aston Familyman Jr. e Keith Sterling para participar de um show da banda The Wailers, em Curitiba – PR, onde tive a honra de conhecer pessoalmente Aston Familyman, baixista de Bob Marley.

Em 2014 Acompanhei o cantor o jamaicano Al Griffiths, filho de Albert Griffiths, do The Gladiators no Festival Estação Pedreira. 

Em 2018 integrei a banda americana Groundation , na “Groundation South America Tour 2018, substituindo o tecladista solo, convidado pessoalmente por Harrison Stafford.

Foi convidado em 2019, pelos fundadores da banda Cidade Negra, o cantor e compositor Ras Bernardo e o guitarrista e compositor Paulo Da Ghama, para participar como tecladista do show em homenagem aos dois primeiros álbuns da banda, em Brasília – DF. 

Atualmente estou produzindo e tocando em singles para o cantor Jahgun, residente em Los Angeles, com participação de músicos jamaicanos como Fully Fullwood, entre outros. 

06) RM: Fale dos seus trabalhos em Curitiba – PR.

Ricardo Verocai: Em 2005, quando vim morar em Curitiba – PR conheci excelentes músicos daqui que me identifiquei, instintivamente fui compondo um repertório inspirado no Paraná, com músicas como “Aranha Marrom”, “Guarani do Paraná”, “Araucária”, “Zênite” e “Kaingang” (premiada no Festival da Canção de Paranavaí). E a partir de 2019 iniciei meu projeto de música instrumental, “Ricardo Verocai Quartet”, acrescentando neste repertório algumas grandes obras de meu pai. Realizo shows no projeto “Vale da Música”, no Parque das Pedreiras em Curitiba e toquei no palco principal do Festival Jazz na Ilha, na Ilha do Mel (PR).

07) RM: Cite os CDs que você já participou tocando teclado? 

Ricardo Verocai: Com o MUV (Movimento Uniformemente Variado) temos três álbuns lançados: Em 2006 o CD – “Os Movimentos”. Em 2011 o CD – “Minha Gente Brasileira”. Em 2013 o CD – “Acordes Daqui” e vamos lançar em 2020 o EP – “Guardiões do Groove”.

Participei dos CDs: “No Vôo do Urubu” (Arthur Verocai); “O Sol Nasce Para Todos” (Namastê); “Escravos da Babilônia” (Monte Zion); “Alma” (Onda-R); “Rio Reggae Banda” (Rio Reggae); “Pode Crer” (Djambi); “Forma”(Jahir Elutério); “UbunTupiniquim” (Luiz Henrique Borges); Nomad Magush” (Nomad Magush); “Estamos em Groove” (Central Sistema de Som); “Seres Humanos” (Raavi Santana); “Real Coletivo Dub” (Real Coletivo Dub); “I 9” (Gegê Félix);  “CriaCanção” (José Navarro); “Quintal da Serra” (Arnaldo Soares); Sete Cicatrizes” (Adri Grott); “A Luta Continua” (Vell Rangel); “Let It Be A Long Time” (Vell Rangel feat. Jahgun); “Good Sensi” (Jahgun); “Pra Tocar No Seu Aparelho” (Comboio23); “Tempo Bom” (Daio Baroni); “Sobre os Pontos” (Dow Raiz); “Mixtape Champions” (Mixtape Champions); “Concreto Orgânico” (Sergio Penna Laskowski); “Naína” (Naína Carvalho); “Hora de Cantar” (Namastê);  “Caburé” (Rimon Guimarães); Riddim Sessions para cantores jamaicanos na França, entre outros. Minhas canções: “Entre as cores” (c/ Katia Drumond); “Interurbano” (c/ Katia Drumond); “Kaingang” (c/ Katia Drumond); “Maré” (c/ Katia Drumond); “Me diga” (c/ Katia Drumond); “Modula a solidão” (c/ Katia Drumond e Chris Gomes); “Muito prazer” (c/ Katia Drumond e Dado); “Respirar” (c/ Katia Drumond e Jahir Eleutério); “Samba da Dona Odete” (c/ Katia Drumond, Luiz Felipe Leprevost, Alexandre França e Reka Ross Kloss)

“Simonice” (Ricardo Verocai); “Tô atento” (c/ Katia Drumond e Macau), “Torta de chocolate” (Ricardo Verocai); “Zênite” (c/ Denis Nunes, Ruan de Castro e Ian Giller Branco).

08) RM: Como é o seu processo de compor?

Ricardo Verocai: Depende muito do estilo e da ocasião. Na maioria das vezes eu componho a melodia, depois a harmonia e pôr fim a letra. Mas também já fiz de todas as maneiras, como a linha de baixo ou a harmonia primeiro e também já iniciei fazendo a letra. Acho que não existem fórmulas para as inspirações, tento prezar a liberdade para que as ideias e a criatividade possam fluir facilmente, sempre com um “brainstorm” grande.

09) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente? 

Ricardo Verocai: Primeiramente, os contras são que os independentes terão que lutar não só contra a indústria fonográfica, mas contra todo um sistema cruel e bem arquitetado. A indústria musical não investe pesado em arte, e sim em produto rentável. Esta batalha é muito árdua, cruel e arriscada.

Mas quanto aos prós, devo salientar que vale à pena desde que sua música venha do coração e seja verdadeira, além de ter qualidade, terá também liberdade para exprimir a essência da sua própria arte. E sem a obrigação de ser apenas um produto descartável da moda momentânea ou com o objetivo apenas de vender. O verdadeiro artista depende de sua criação para seguir em frente com a sua obra, independente de vender ou não. Ele sentirá sempre a necessidade de praticar sua música, mesmo que seja por satisfação própria.

10) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco? 

Ricardo Verocai: Dentro do palco, sempre com ética e respeito aos profissionais envolvidos. Desde aqueles no “backstage”, que não aparecem para o público em geral, como aqueles que dividem o palco. Respeitando sempre os parceiros de composição, divulgando seus nomes, dando espaço e oportunidade para os novos artistas que estão surgindo, fortalecendo a classe.

Fora do palco, é preciso estar envolvido em todos os projetos que puder se encaixar, desde que tenha disponibilidade e vocação para isso. Sem preconceitos, pois a música não é apenas um estilo ou outro e sim um todo. E como músico profissional, temos que ser completos e capacitados para sobreviver da música em um país tão atrasado culturalmente como o Brasil, que não valoriza as profissões artísticas. Estudar diariamente por no mínimo quatro horas o seu instrumento é a base para começar sua carreira musical. 

11) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira musical? 

Ricardo Verocai: Criei, desenvolvi e pratiquei em presídios o curso “História da Música Moderna da Periferia Urbana”, onde mostro a música tribal jamaicana como início até influenciar outros ritmos contemporâneos como Reggae, Ragga, RAP, Miami beat e o FUNK carioca.

Fui criador e colaborador do “Núcleo Reggae do Sítio Cercado” (na periferia de Curitiba – PR), em que capacitava músicos de reggae sem nenhum incentivo governamental ou institucional, apenas pela militância, integrando-os ao movimento reggae local.

Sou produtor musical e contrato vários músicos da cidade em projetos que sou convidado, além de dirigir, tocar, arranjar e compor. Também acompanho vários deles em seus projetos, atuando como músico ou diretor musical.

Sou criador e compositor do MUV (Movimento Uniformemente Variado), projeto musical que tem 20 anos, com músicas do segundo álbum que tocam em rádio no Brasil e em vários países, como a música “Samba da Dona Odete” que traz arranjos do meu pai Arthur Verocai que já tocou em países de todos os continentes. Sou produtor musical e músico de estúdio também, realizando diversas gravações de trabalhos variados, desde jingles, trilhas, álbuns, etc. 

12) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento da sua carreira musical?

Ricardo Verocai: A internet ajuda os independentes a divulgarem seus trabalhos, tanto como compositores, artistas e como músicos também.  Auxilia muito os professores de música, como também estudantes de música. Hoje podemos pesquisar quase tudo que nos interessa, mas também nada tem a profundidade da pesquisa de campo. O problema da internet é que também dá muita visibilidade aos oportunistas que não são da área e por questões de poder financeiro, conseguem aumentar a visibilidade em relação aos verdadeiros artistas, nivelando todos ao mesmo patamar.

O maior problema, é que a classe dos curadores e produtores de Festivais de Música online está selecionando os artistas por um critério de “números de visualizações”, o que não traduz a qualidade dos trabalhos. Estão propagando um método vazio e sem fundamentos artísticos, incapacitando o valor fundamental das próprias profissões de curador e produtor cultural, que é o de reconhecer e apoiar os artistas de qualidade musical. Um erro banal de mensurar a quantidade do público de cada artista através de um dado fictício que pode muito bem ser manipulado e pago para aumentar suas visualizações.

13) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)?

Ricardo Verocai: Home estúdio serve para produzir pré-produções, produções de nível eletrônico, produções independentes caseiras ou produções de qualidade de publicidade. Uma produção mais artística e orgânica deve ser feita em um estúdio com a estrutura necessária para atingir este nível de qualidade. Com microfones potentes, salas preparadas acusticamente, instrumentos acústicos, área para orquestras ou bandas que possam gravar a base em conjunto. O que demanda um alto investimento e profissionais especializados como técnicos, arranjadores, produtores musicais e diretores musicais.

No Brasil valoriza-se pouco os profissionais como arranjadores e diretores musicais, por uma questão cultural e financeira. Em outros países é mais comum uma banda contratar um diretor musical para dirigir a banda, por exemplo, o que difere do produtor musical.

14) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo. Mas, a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Ricardo Verocai: Não tenho essa preocupação, pois acredito que cada verdadeiro artista tem uma identidade própria e não precisa imitar outros artistas. O problema, como disse, é que a grande mídia em geral tem um alto preço e os espaços são comprados por uma indústria musical que não podemos competir, pois pagam pesado para divulgar seus produtos e muitos artistas acabam se preocupando em criar produtos na intenção de se inserir neste contexto. Não acho nem certo, nem errado. Depende da necessidade de cada um. O sistema está aí, é isso mesmo! Nós é que precisamos saber mudar ou o que queremos.

15) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical (falta de condição técnica para show, brigas, gafes, show em ambiente ou público tosco, cantar e não receber, ser cantado e etc)?

Ricardo Verocai: (risos)… Passei por muitas situações citadas na pergunta! Nem sei como me lembrar de todas! No reggae é mais comum ainda. Já fiz uma turnê nacional inteira e no final, tomei um grande calote de um produtor de Salvador – BA.

Teve uma ocasião em especial, que o cantor de uma banda nacional, então produtor do evento, recebeu os cachês e não pagou, mas como eu estava acompanhando um cantor inglês, este ficou sabendo e pagou a gente do próprio bolso.

Condições técnicas de baixíssima qualidade são muito comuns no Brasil, mas no Peru também foi parecido. No “Cannabis Expo Festival”, em Montevidéo (Uruguai), o equipamento parecia excelente e tudo deu certo na passagem de som, mas na hora do show, um dos teclados alugados não funcionou.

Em 2011 fui tocar em um Festival internacional nas Ilhas Canárias, Costa Africana, e tudo no evento foi perfeito, mas quando fomos pegar o avião para Espanha, o vulcão teve uma erupção!  A nossa sorte é que nosso voo decolou bem na hora e quando chegamos em Madrid, ficamos sabendo que a cidade que estávamos foi evacuada e todos os seus voos, suspensos. Quase que ficamos presos em um abrigo na ilha (riso).

16) RM: Você acredita que sem o pagamento do Jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Ricardo Verocai: Tenho algumas músicas que tocam na rádio daqui de Curitiba PR (Rádio Educativa, Rádio Cultura e Mundo Livre) e outras que tocam em rádios online pelo mundo. Acredito que existem Rádios e “rádios”, as culturais são um belo exemplo. Mas as rádios privadas são muito mais difíceis, pois os jabás são realmente milionários, inviabilizando os artistas independentes.

17) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Ricardo Verocai: Fazer minha obra e deixar um legado para quem vier a descobrir. Faço o que acredito e me satisfaz, como compositor e artista. Não me preocupo em criar um produto que entre em algum nicho de mercado, pois meu foco é arte e não fortuna. Mas entendo que cada um tem sua necessidade. Prefiro ter prazer em tocar minha obra e, através da música, difundir minha mensagem. Acho que o dinheiro é consequência do trabalho e que o sucesso depende de fatores extramusicais e articulações políticas. Não creio que é a música quem define e sim a mensagem e a luta.

18) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Ricardo Verocai: Eu digo para o candidato a músico se perguntar se realmente ele tem essa necessidade. Se ele for dependente de fazer música, então é o caminho da felicidade, pois o espírito precede a matéria. Tem que saber que este é o caminho profissional mais cruel de todos e financeiramente é muito arriscado e depende de muitos fatores externos para o músico sobreviver.

19) RM: Quais os Pianistas e Tecladistas que você admira?

Ricardo Verocai: Do reggae são: “Jackie Mittoo”, “Keith Sterling”, “Earl Lindo”, “Sidney Mills”, “Selwyn Brown”, “Tyrone Downie”, “João Fera”, “Marcus Uranis”, “Robbie Lynn” e “Ansel Collins”.

Outros ídolos são: “Herbie Hancock”, “Patrice Rushen”, “César Camargo Mariano”, Tânia Maria, “Rubén González”, “Axel Tosca”, “Kenny Kirkland”, “Richard Wright”, “Itamar Assiére”, “Nelson Freire” “Jeff Sabbag” e “Luiz Eça”.

20) RM: Quais as principais técnicas que o aluno deve dominar para se tornar um bom Tecladista?

Ricardo Verocai: Piano Clássico e estudar música de negros em geral como Reggae, Samba, Soul e Jazz.

21) RM: Quais os principais vícios e erros que devem ser evitados pelo aluno de Teclado?

Ricardo Verocai: Tocar usando a força, pulso duro, não utilizar todos os dedos e se viciar em usar dedos de forma errada é um grande erro. Tocar com o pulso abaixo das teclas e estudar escalas com velocidade também é prejudicial. Ficar preso a um único estilo musical também é prejudicial. É primordial desenvolver as Escalas, o Ritmo e a Harmonia. Muitos tecladistas de reggae têm dificuldade em colocar as notas dissonantes: sétimas, nonas, décimas terceiras ou diminutas. Música temos que estudar! Não há espaço para preguiça na música, pois estudando já é bem difícil, imagine sem estudar…

22) RM: Quais as principais diferenças técnicas para tocar Piano e Teclado?

Ricardo Verocai: Quem toca Piano desenvolve a técnica para tocar todos os instrumentos de teclas, pois sua dinâmica pesada e orgânica prepara para isso. Quem só pratica no Teclado não consegue desenvolver a técnica apurada para tocar em um Piano ou Piano elétrico. Já o órgão são outra história também. O importante é ter contato com o máximo de instrumentos de teclas possível.

23) RM: Quais os principais erros na metodologia de ensino de música?

Ricardo Verocai: Muitos métodos trazem na teoria elementos para nos embasar. O mais importante na questão da técnica é o clássico. Mas muitas faculdades de música utilizam métodos que “enjaulam” os estudantes dentro de um sistema limitado. Não pode “isso” ou não pode “aquilo” …

Digo que na música vale tudo! Aprenda a desenvolver o ouvido e tudo ficará mais nítido. Use os métodos para entender a teoria e a visualização mental da música, mas não os deixe limitar. Nada é proibido desde que soe bem e agrade aos ouvidos.

24) RM: Existe o Dom musical? Como você define o Dom musical?

Ricardo Verocai: Sim. E a vocação também. Assim como no Basquete ou no Futebol.  Podemos nascer com o Dom para cantar, por exemplo como “Michael Jackson” ou “Hugh Mundell”. Eu, por exemplo; jamais poderia sobreviver cantando, pois nasci com uma voz feia e desafinada (risos).  Mas com um belo ouvido, o que me ajudou no meu instrumento de Teclas.

25) RM: Qual é o seu conceito de Improvisação Musical? 

Ricardo Verocai: Criar melodias originais que venham de dentro do coração, um sentimento próprio, sem imitar outros ou decorar frases. Para isso precisamos estudar muito as Escalas, mas entender muito mais da Harmonia. Não é necessário ser virtuoso, mas é primordial que seja bonito. Tom Jobim dizia sobre as “poucas e boas”.  Um solo com frases rápidas repetidamente fica muito chato e técnico. O importante é o sentimento que traduz em música e toca as pessoas que estão escutando.

26) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre Improvisação musical?

Ricardo Verocai: Só vejo prós. Expressão musical, comunicação sonora, dividir um sentimento puro e compartilhar vibrações com outras pessoas. Conversar em nível musical e espiritual com os outros seres que se aprimoraram para dividir o mesmo palco sagrado é indescritível.

Acredito que o mantra é mais importante que o ego virtuosista e devemos colocar a música acima dos músicos. Respeitar sempre a música que é maior.

27) RM: Existe improvisação musical de fato ou é algo estudado antes e aplicado depois?

Ricardo Verocai: É algo que só se atinge em um nível muito alto. Só para Jedis! Para dominar o instrumento em um nível em que pensamos na melodia e em tempo real executamos com maestria é uma coisa que demora uns 30 anos de estudos árduos (alguns levam 50). Por isso não é fácil.

28) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre o Estudo de Harmonia musical?

Ricardo Verocai: A Harmonia é a essência da música evoluída. É a arte de trabalhar com diversas melodias simultaneamente. É a parte mais profunda da música. Aliada com o ritmo e a melodia principal teremos uma música. Para ser considerada música precisamos de melodia, harmonia e ritmo.

29) RM: Quais os métodos que você indica para o estudo de leitura à primeira vista? 

Ricardo Verocai: Solfejos. Tem um livro muito bom chamado “Bona” do Paschoal Bona. 

30) RM: Como chegar ao nível de leitura à primeira vista? 

Ricardo Verocai: Prática apenas, com muita disciplina diária. Uma hora por dia é o ideal, não tem nenhum mistério. A leitura serve apenas para auxiliar e não é para nos intimidar, é como uma cola na prova. Mas eu não gosto de músicos lendo no show. Acho que a leitura é para passar informação e o músico deve praticar a memória musical também. Tocar com repertório decorado é mais prazeroso e permite um melhor desempenho. Mas há ocasiões em que não temos tempo hábil para isso, então temos que desenvolver a leitura à primeira vista também.

31) RM: Quais os prós e contras do uso de VST e VSTi (Virtual Studio Technology e Virtual Studio Technology Instruments) pelo Tecladista?

Ricardo Verocai: VST é uma grande ferramenta, principalmente para gravações. Equipamentos e Teclados são muito caros e principalmente inviáveis em turnês. Se for tocar com um artista que não seja muito famoso, com certeza não poderá exigir nos palcos um Fender Rhodes ou um Hammond, por exemplo. Meu setup de Teclado sempre precisa de pelo menos um Rhodes, um Hammond e um Clavinete, coisas que são muito caras ou pesadas. Às vezes o VST se faz necessário, mas para usar nos palcos é meio complicado. Problemas de conexão inesperados ou travar no meio do show é sempre um risco a mais.

Eu particularmente não gosto de usar, mas quando uso em shows, sempre uso em um Teclado só, dividindo o setup com timbres de outros Teclados, nunca apenas dependendo dos VSTs. Procuro usar geralmente timbres que não comprometam o show caso travem.

32) RM: Quais são os melhores Teclados para tocar música reggae?

Ricardo Verocai: Os analógicos e orgânicos. Piano, Piano elétrico fender Rhodes, Hammond, Clavinete honner-D6, Moog, Oberheim e alguns vintage dos anos 80 como DX7 ou M1. O Tokai é um grande organ simulator fabricado no Brasil.  O Tyrone Downie, tecladista do The Wailers adorou usar o meu aqui em Curitiba – PR.

33) RM: Como você analisa o cenário do reggae no Brasil. Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Ricardo Verocai: Complicado falar disso, até porque tenho muitos amigos no meio do reggae. Acho que o reggae foi muito prejudicado quando foi mesclado com músicas “lovers” no Brasil, pois a língua portuguesa é limitada para este estilo de reggae e acaba ficando muito brega. Eu prefiro o reggae militante com as mensagens de protesto ou de filosofia como Ras Bernardo, Ponto de Equilíbrio, Banda Rio Reggae, Vell Rangel, entre outras.  Existem muitas bandas boas no Brasil, mas os produtores querem fazer dinheiro e se apropriar do reggae, contratando e dando os espaços para o reggae romântico, que na língua portuguesa soa mais brega. Isso acabou misturando o público e afastando os fiéis seguidores do reggae, pessoas que só escutam reggae.

Antigamente nos shows de reggae o público era mais exclusivo e isso está voltando agora. Fiquei muito feliz em ver 30 mil seguidores de reggae em Salvador – BA, em 2018, quando toquei com o Groundation. O reggae pode até ter algumas canções românticas, mas não é instrumento para apenas burgueses e surfistas utilizarem nas suas músicas e sim uma música de protesto contra o sistema racista, imperialista, opressor e escravagista. Assim ele cresceu. O estilo “lovers reggae” é interessante na língua inglesa, pois ela dá mais oportunidade na construção melódica e é bem mais versátil. Em português as letras românticas se limitam a repetidas comparações com a natureza para não soar brega, como comparar com o céu, o sol, a lua, o mar… Limitando muito as letras.

34) RM: Você é Rastafári? 

Ricardo Verocai: Não sou. Já pratiquei algumas filosofias por anos, como o Nayabingui, a Ganjah, os exercícios, a arte, o reggae, podendo ser considerado um Rasta não ortodoxo. Mas fui dreadlocks por 11 anos, o que não quer dizer ser rastafári. E para ser Rasta, não precisa necessariamente usar dreads.

Hoje não uso mais dreads por uma questão de me encontrar em outra fase da vida. Usei dreads muito tempo eram bongodreads que pesavam demais, incomodando meu pescoço. 

35) RM: Alguns adeptos da religião Rastafári afirmam que só eles fazem o reggae verdadeiro. Como vocês analisam tal afirmação?

Ricardo Verocai: O reggae não surgiu com os rastafáris. Foram os rastafáris quem utilizaram o reggae. O reggae surgiu em KingstonJamaica quando começaram a usar o Hammond para substituir o ritmo das guitarras de SKA, que passaram a tocar o “skunk”. O chamado “bubble” na Jamaica era chamado “reggae” porque o som parecia com a palavra. Nessa época diziam que só era reggae se tivesse o Hammond tocando “reggae reggae reggae” no fundo. A associação com o Rastafári veio depois disso. Não podemos misturar a história musical com a religiosa, mas a religião sempre utilizou música para seus cultos. E também sabemos que a música veio antes da religião no mundo.

36) RM: Na sua opinião quais os motivos da cena reggae no Brasil não ter o mesmo prestígio que tem na Europa, nos EUA e no exterior em geral?

Ricardo Verocai: Por motivos políticos e socioculturais. Nosso país é muito grande e diverso, contendo vários estilos musicais, folclóricos e culturais enraizados há séculos. O Brasil é um grande celeiro rítmico e musical. Além disso, durante a ditadura nos anos 70, período de ouro do reggae, os discos de reggae encontravam uma resistência para entrar no país e serem vendidos, pela militância e atitude dos artistas jamaicanos e também pelo preconceito e associação com a maconha e muito pelo racismo que existe aqui.

37) RM: Festivais de Música revela novos talentos? 

Ricardo Verocai: Sempre revelaram, mas agora com essa questão de os produtores/curadores julgarem os artistas por quantidade de “views” para entrar nos Festivais de Música online, a coisa tende a ficar feia e retroceder.

38) RM: Quais os pros e contras de se apresentar com o formato Sound System?

Ricardo Verocai: O Sound System difundiu a música jamaicana dentro da própria Jamaica, numa época em que apenas os hotéis de luxo contratavam as bandas de Jazz e SKA, deixando o povo pobre sem ter acesso aos grandes shows. Ele foi o maior salvador da música jamaicana e seus compositores, se tornando uma cultura que até hoje é apreciada no mundo inteiro. Ainda mais quando muitos cantores, compositores e artistas não tem espaço garantido para trabalhar e mostrar sua obra ou condições de bancar uma banda.

A única desvantagem que vejo é que não é um show com músicos tocando de verdade, mas aprecio muito os Sound Systems. Não podemos confundir as coisas e sabemos que tem espaço para todos, pois um show é muito diferente do Sound System.

39) RM: Quais as diferenças de se apresentar com banda em relação ao formato com Sound System?

Ricardo Verocai: O Sound System é um ambiente menor e mais íntimo, onde a música é discotecada. Originou os Selektahs e os DJs além de permitir vários cantores a difundirem suas composições em cima desses riddims ou escutar diferentes riddims feitos por diferentes produções. Apenas ouvir ou dançar e curtir outras vibes que não sejam focar a atenção em um determinado palco.

O show é um ambiente mais artístico em que podemos apreciar os músicos tocando e ver seus arranjos serem executados ao vivo. Sentir a vibração da música sendo tocada na hora e escutar também uma versão original, exclusiva daquele momento, que não aquela que foi gravada em um estúdio muito antes, e que já conhecemos dos discos.

40) RM: Quais os pros e contras de fazer música usando riddim?

Ricardo Verocai: O riddim serve para ser usado por vários artistas e tem grande probabilidade de ficar conhecido por estar em várias gravações, mas também perde originalidade e exclusividade, por ser utilizado em diversas versões.

41) RM: Qual a sua relação pessoal e profissional com seu pai Arthur Verocai?

Ricardo Verocai: Muito próxima. Ele é meu mentor e meu mestre. Além disso, é meu maestro e tenho muito orgulho de ter conseguido tocar na sua orquestra, após 38 anos. Como ele conta com os maiores músicos, tive que correr muito atrás durante essas décadas, para poder merecer um lugar. Sempre foi meu sonho tocar com ele e com o The Wailers e consegui realizar ambos os sonhos, mesmo achando quase impossível, sempre acreditei que um dia conseguiria. Nunca desista de seus sonhos!

42) RM: Quais os seus projetos futuros?

Ricardo Verocai: Continuar o legado do meu pai e o meu pelo mundo e talvez, produzir uma banda de reggae brasileira que faça sucesso no exterior, cantando em inglês (por ser a língua universal atualmente) e representando a luta anti-imperialista e o antirracismo, as classes desfavorecidas e o povo, com músicos especialistas em reggae e com muita ética. Aprecio os músicos que estudaram o reggae quase a vida inteira e são realmente conscientes do que estão representando.

43) RM: Quais seus contatos para show e para os fãs?

Ricardo Verocai: https://web.facebook.com/ricardo.verocai |Instagram: @ricardoverocai 

Para shows:  [email protected] e [email protected] 

Canal: https://www.youtube.com/user/ricardoverocai/videos 

| Ricardo Verocai Quartet – Dedicada a ela (Arthur Verocai)

https://www.youtube.com/watch?v=AXgdA3TNGGY 

| MUV na FIFA FAN FEST CURITIBA dia 17.06.2014 – 18:05, após jogo do Brasil, Chega mais!

https://www.youtube.com/watch?v=9H8ZaUhu-kE 

| Kátia Drumond & Ricardo Verocai – Madalena – EletroBossa

https://www.youtube.com/watch?v=udhlYDEQlyU 

| Com a banda jamaicana “The Wailers” no Master Hall em Curitiba.

https://www.youtube.com/watch?v=eDteUwmZx2w 

| Tocando com “Original Marley Cover” no Bob’n Wine em Curitiba.

https://www.youtube.com/watch?v=SE4-xKdQWRA 

| “A Pé” em Toulouse – Ricardo Verocai com Djambi no festival Rio Loco na França.

https://www.youtube.com/watch?v=PYu6RuAf9u0

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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor responsável pela revista digital RitmoMelodia desde 2001, jornalista, músico, poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, propaga a diversidade musical brasileira através de entrevistas e artigos. Jornalista formado pela Universidade Estadual da Paraíba - UEPB (1996 a 2000) que lançou um livro de poesia em 1998 e seus poemas ganharam melodias gravadas em três álbuns concluindo a trilogia "reggae baseado em poesia" no seu projeto musical Reggaebelde. Unindo a sensibilidade do poeta, músico com o senso crítico do jornalista e pesquisador musical colocado em prática em uma revista que Canta o Brasil.