Ras Ayam

Ras Ayam

Desde criança a música sempre se fez presente na vida de Ras Ayam, além da família ouvir muita música, seu pai tinha um violão; que ele mesmo nem tocava e o filho sempre ficava com o instrumento na mão experimentando os sons.

Ras Ayam começou a se envolver com a música, mas ficou um bom tempo sem se dedicar de verdade à arte. Mesmo gostando muito, não dava chance para a música ser sua profissão. Mas tudo mudou depois que ele se juntou a conhecidos na intenção de promover eventos de reggae em Goiânia – GO, já que queriam ouvir músicas que gostavam e não havia movimentação de reggae na cena local. Já esbarraram no primeiro problema, a falta de artistas na cidade para que os eventos ocorressem, ficando sempre limitados a poucos; o que mudou apenas em partes de lá pra cá.

E com o tempo acabou se aventurando como toaster nos bailes de Sound System que faziam, amplificados pelo Trindade S.S. Passou a se dedicar à cultura até que se viu na necessidade de começar registrar as músicas que ele e outros amigos cantavam nos bailes, já que não conheciam ninguém em Goiânia que trabalhasse de fato com o reggae.

Ras Ayam está mais focado no áudio e na produção musical do que na trajetória como vocalista. Ele acha que esse trabalho com o áudio é uma das melhores formas que pode contribuir para que a cena reggae local cresça, para que mais pessoas conheçam a cultura reggae e para que a mensagem chegue a cada um.

Apesar de estar mais focado na produção de áudio, não abandonou nenhuma das outras atividades, continua escrevendo novas músicas e assim que acabar o caos da pandemia do Covid-19 estará de volta nas pistas com muito Sound System para tremer a city.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Ras Ayam para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa 17.02.2021:

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Ras Ayam: Nasci no dia 06 de junho de 1996, em Goiânia – GO. Registrado como Arthur Yan Amaral Mruk.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Ras Ayam: Minha família sempre se envolveu de alguma forma com a arte, o que a fazia presente na minha vida de diversas maneiras. Vendo primos que se aventuravam na música, ainda que de forma amadora, comecei a me interessar. Meu pai Waldir da Silva Mruk tinha um Violão Di Giorgio, mais velho que eu, que ficava guardado. Ainda com 6 anos comecei a brincar com esse violão, ficava tentando tocar, experimentando os sons que saiam.

Índice

03) RM: Qual a sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical?

Ras Ayam: Formei-me em Geografia, inclusive foi por lá que despertei a vontade de me dedicar de fato à música, com influências de novas amizades e vivências. Ao final do curso já estava tão concentrado no estudo do reggae music, que fiz o trabalho de conclusão de curso sobre a espacialização da cultura Sound System pelo mundo e, principalmente, no eixo Goiânia, Anápolis, Distrito Federal. Tanto durante quanto após a conclusão do curso de Geografia, me dediquei a estudar o áudio e um pouco sobre teoria musical. Fiz cursos de formação em montagem e alinhamento de sistemas, além de técnicas de mixagem.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Ras Ayam: Quando era mais novo tinha muita influência da minha família. Rock nacional, Samba, MPB, Reggae (especialmente The Wailers) e outros gêneros regionais como o Coco de Roda. Hoje minhas influências estão muito relacionadas ao reggae, principalmente os jamaicanos dos anos 70, e às produções nacionais. Mas também escuto muito dance hall, ritmos que influenciaram o reggae, como o Jazz e o R&B. Acho que nenhuma dessas influências perderam sua importância, todas tiveram seu papel fundamental naquele momento de minha formação musical. Durante toda minha caminhada escutei mais determinados gêneros ou músicas que outras, e cada uma delas contribuiu para minha compreensão do que é a música!

05) RM: Quando, como e onde você começou a sua carreira profissional?

Ras Ayam: Comecei minha carreira meio que por acaso, no ano que 2016. Junto com outros amigos, começamos a produzir eventos para tentar movimentar a cena reggae em Goiânia – GO. E na falta de atrações para participar, eu e outros (as) começamos a nos aventurar. Tive minhas experiências nos bailes da equipe do Trindade Sound System e com o tempo fui me inserindo na cena regional, me aproximando de outros sistemas de som como o Boom Clap, o Marreta, o Primatas Sound System.

06) RM: Quantos CDs lançados?

Ras Ayam: Ainda não lancei nenhum álbum, apenas dois singles que produzi na Aksum Records. Quando comecei a querer gravar meus sons percebi a ausência de produtores e gravadoras interessadas na cena do reggae, então mergulhei no estudo do áudio para montar a gravadora e acabei deixando um pouco de lado a concentração no vocal.

07) RM: Como você define seu estilo musical?

Ras Ayam: Reggae Music, com forte influência do Ragga e do Dance hall.

08) RM: Você estudou técnica vocal?

Ras Ayam: Apenas algumas técnicas de respiração e controle do diafragma, o resto foi acompanhando vocais em que eu me espelhava.

09) RM: Qual a importância do estudo de técnica vocal e cuidado com a voz?

Ras Ayam: Muito importante! A voz é um instrumento, você precisa aprender como toca-lo, saber quais sons ele pode produzir. O raciocínio é o mesmo para o cuidado, se você não dá as devidas manutenções e cuidados durante o uso, certamente ele não durará.

10) RM: Quais as cantoras(es) que você admira?

Ras Ayam: Johnny Osbourne, Abyssinians, Horace Andy, Dennis Brown, Martin Campbell, Errol Dunkley. Laylah Arruda, Yabba Tutti, Guux, Ualê Figura e outros(as) mais.

11) RM: Como é o seu processo de compor?

Ras Ayam: Geralmente vem um verso na cabeça que eu gosto, então vou para o papel e começo a desenvolver a ideia. Geralmente os assuntos vêm de influências externas, textos que li, histórias que ouvi, situações que observei, etc.

12) RM: Quais são seus principais parceiros de composição?

Ras Ayam: Geralmente componho sozinho, salvas exceções de quando estou fazendo um trabalho com mais cantores. Mas mesmo em parcerias as composições acabam sendo individuais, cada um compõe sua parte e pensamos juntos num refrão (se houver).

13) RM: Quem já gravou as suas músicas?

Ras Ayam: Já passei por alguns estúdios para tentar gravar, mas não tinham as mesmas referências que eu, acabava não dando certo. Trabalhos concretizados de fato, só na Aksum Records.

14) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Ras Ayam: Com certeza o maior contra é a falta de recursos, principalmente no início. Nossa educação com relação à indústria da música é zero; falo da posição de quem nunca fez um curso superior de música ou nada do tipo, mas me arrisco a dizer que entre os formados não deve ser muito diferente. Então é complicado entender como tudo isso funciona. Como viver da música? Quais profissões existem dentro dessa indústria? Qual delas me interesso? Onde encontro formação em determinadas áreas? Quando você leva sua carreira de forma independente, acaba tendo que estudar sobre tudo sozinho, e muitas vezes fazer tudo dessa forma também, o que não é o melhor. Mas nada que o tempo não ensine! A cena independente tem conseguido se organizar muito melhor, e conquistar espaço na indústria da música. Ser um artista independente é o melhor caminho, apesar do esforço ser dobrado, você estar no controle da sua jornada na música não têm preço!

15) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

Ras Ayam: Dentro dos palcos vou continuar fazendo o que sempre fiz, indo aos bailes e me apresentando onde conseguir. Fora dos palcos vou gravar músicas novas, sozinho e com participações. Mas meu foco principal no momento é conseguir promover e expandir a cena reggae de Goiânia. Estou muito focado no estúdio, produzindo os artistas que já estão e os que vão entrar na cena Sound System de Goiânia e de Goiás. No momento o melhor fortalecimento que eu posso dar pra nossa cena é esse, ajudar ela e os artistas que a fazem serem vistos e ouvidos!

16) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira?

Ras Ayam: As principais são o estúdio e os eventos que ajudo a organizar, que permitem que eu e outros artistas se apresentem, e que o público possa ouvir reggae music em Goiânia. Além disso também invisto na divulgação digital, ainda mais nesses tempos de quarentena em que conseguimos ter uma maior visibilidade por lá.

17) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira?

Ras Ayam: Até o momento ela não prejudica em nada, o que prejudica é não saber mais para usa-la com maestria. A internet sempre me ajudou a encontrar público, divulgar eventos, divulgar meus trabalhos e a obter informação. A maior parte do que sei hoje no mundo da música devo à internet.

18) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)?

Ras Ayam: A vantagem sem dúvida é a facilidade para conseguir gravar, basta um computador, uma placa de áudio e um microfone. Mas aí que está a questão, com essa facilidade veio a desvalorização do papel do produtor, que é essencial! É como um produtor mineiro que acompanho chamado Lisciel Franco, diz: “o que faz uma gravação profissional são os profissionais envolvidos nela, com o conhecimento que eles detêm”. Eu entendo que a grana curta faz com que as pessoas optem por gravar suas próprias músicas em home studio, mas isso não substitui o trabalho ou a vivência de um estúdio.

19) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo. Mas, a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Ras Ayam: Quando falamos de Goiânia, só de estar fazendo reggae já é diferenciado! Aqui não tem muito artista disposto a está trabalhando com reggae, mesmo dentro do underground. Mas busco aprender e me superar, focar no meu desenvolvimento, eu sendo eu, não existirá alguém igual a mim!

20) RM: Como você analisa o cenário musical brasileiro. Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Ras Ayam: Eu diria que essa nova geração do Sound System no Brasil é a maior revelação das últimas duas décadas, toda ela começa a dar as caras a partir dos anos 2000.

21) RM: Quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Ras Ayam: Monkey Jhayam e a equipe África Mãe do Leão com certeza é um exemplo de como se faz um business bem feito na cena Sound System.

22) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Ras Ayam: Mais feliz é eu fazer o que eu realmente gosto, trabalhar com o que de fato acredito. A pior parte é a falta de reconhecimento e de investimento em nossa profissão.

23) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Ras Ayam: Não mesmo! Pelo menos não nas rádios daqui de Goiânia – GO.

24) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Ras Ayam: Mete bronca, vai pra cima sem medo e não seja egoísta! Trabalhar junto é mais difícil, mas assim vamos mais longe.

25) RM: Como você analisa a cobertura feita pela grande mídia da cena musical brasileira?

Ras Ayam: Fraca. A grande mídia está focada na galera do mainstream, não tem espaço para o que de fato é a música brasileira.

26) RM: Qual a sua opinião sobre o espaço aberto pelo SESC, SESI e Itaú Cultural para cena musical?

Ras Ayam: Fundamental! Investir em cultura é a principal forma de melhorar as possibilidades para quem trabalha com música, e com a arte de uma forma geral. Sem ter como receber, ninguém consegue de fato ser um profissional.

27) RM: Como você analisa o cenário do reggae no Brasil. Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Ras Ayam: Acompanho muito a cena de São Paulo, tenho muita influência dessa cena quando se fala de reggae nacional. Por lá gosto demais do trabalho do Jah Knomoh, fundador do Quilombo Hi-Fi e do Dancehall no Morro. Ele produziu os (as) maiores artistas dessas bandas. Também gosto muito dos trampos do Jah Tallawah, com os irmãos Guux, Mr. Ites, bem como os do Michel Irie; tanto na produção quanto no vocal.

28) RM: Você é Rastafári?

Ras Ayam: Yes, graças a SelassiEu, o primeiro!

29) RM: Alguns adeptos da religião Rastafári afirmam que só eles fazem o reggae verdadeiro. Como vocês analisam tal afirmação?

Ras Ayam: O reggae é um gênero que se desenvolveu com a influência do movimento rastafári, então é inevitável que suas letras e seus artistas flertem com o movimento. Existe de fato um reggae comercial, como em toda cena. Babylon invade por todos os meios, mas eu não estou aqui pra determinar o que é ou o que deixa de ser reggae.

30) RM: Na sua opinião quais os motivos da cena reggae no Brasil não ter o mesmo prestígio que tem na Europa, nos EUA e no exterior em geral?

Ras Ayam: Não sei ao certo, mas tenho duas suposições: o idioma, os grandes clássicos não estão em português o que dificulta a compreensão do que se fala, as pessoas então ficam naquela de “ahh, reggae é tudo igual, muito repetitivo”. Outra é que o Brasil é um país muito moralista, em sua grande maioria comandada por coronéis que mandam e desmandam em tudo há séculos, as coisas por aqui são mais complicadas…

31) RM: Existe o Dom musical? Como você define o Dom musical?

Ras Ayam: Eu não acredito nisso de dom. Para mim uns têm mais facilidade que outros, talvez porque tiveram contato com a música desde criança, com um instrumento ou algo do tipo, que dão mais intimidade com a música. O que existe de fato é experiência, tocar muito, treinar muito. Isso faz um bom artista: conhecimento e treino.

32) RM: Quais os prós e contras do Festival de Música?

Ras Ayam: Nunca me apresentei em festivais, então não tenho opinião formada sobre. Mas acredito que seja uma possibilidade de movimentar um público maior, unindo o público de cada artista.

33) RM: Festivais de Música revela novos talentos?

Ras Ayam: Festival de Música dá uma oportunidade de maior visibilidade para quem está começando na carreira musical.

34) RM: Quais os pros e contras de se apresentar com o formato Sound System?

Ras Ayam: O sound system torna mais fácil a mobilidade para a realização de eventos. O custo é menor e permite uma maior rotatividade de atrações. Não vejo lados negativos, apenas são características desse formato de evento.

35) RM: Quais as diferenças de se apresentar com banda em relação ao formato com Sound System?

Ras Ayam: Nunca me apresentei com banda, mas o reggae com banda permite algumas possibilidades únicas, um groove diferenciado.

36) RM: Tecnicamente quais os prós e contras do formato dos paredões das Radiolas do Maranhão?

Ras Ayam: Não conheço tão a fundo as Radiolas, mas pelo contato que tive posso dizer que os prós são vários! As Radiolas do maranhão são únicas, e apresentam características próprias que a diferem dos outros formatos de sistemas de som que tocam reggae. Isso se apresenta de diversas formas, seja na estética, na interação do/com o público ou no sucesso que o reggae lovers têm entre os amantes das Radiolas. Não diria que falta, mas se têm algo que diferencia a dinâmica dos bailes de Radiolas para o Sound System jamaicano é a presença do toaster e o uso do Dub e das versões (lado B).

Eu já ouvi o pessoal comentando sobre a separação de vias das caixas nas Radiolas, costumam mandar paras caixas em uma só via. No Sound System usa três vias (Agudo, Médio, Grave), pelo menos, as vezes quatro vias para separar o grave e o sub. Geralmente o Sound Systems usam um Preamp para administrar tudo. Nele já fica conectado todos os componentes para performance e de lá sai para os amplificadores, separados pelo crossover do próprio preamp. Aqui no Brasil, até onde eu sei só o pessoal da Guerrilha Preamp que faz esse equipamento. Ele é feito sob encomenda para cada Sound, atendendo à demanda específica do sistema de som. Mas é o que geralmente acontece, pois muitos Sounds, principalmente aqui do centro-oeste usam os equipamentos padrões de áudio: mesa de som, processador, etc. Eu mesmo nunca vi um preamp pelos sounds de Goiás e Distrito Federal.

37) RM: Quais os seus projetos futuros?

Ras Ayam: Aumentar o público e a frequência de bailes da cultura Sound System em Goiânia – GO.

38) RM: Quais seus contatos para show e para os fãs?

Contato: (62) 98290 – 7616 | [email protected]

| [email protected]

| https://web.facebook.com/ArthurJequitinhonho

| www.instagram.com/ayampondimic

| www.instagram.com/aksumrecords

Canal Aksum Records: https://www.youtube.com/channel/UC4GlgalcMGoynFlGpCEDwDA

TCC – A Rota 153 e o Atlântico Negro: A cena Sound System entre Jamaica/Brasil, São Paulo e Centro-Oeste por ARTHUR YAN AMARAL MRUK: https://drive.google.com/file/d/1KG2D08IEkEz2-wZRfkKumtWnwz6W1fls/view?usp=sharing


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor responsável pela revista digital RitmoMelodia desde 2001, jornalista, músico, poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, propaga a diversidade musical brasileira através de entrevistas e artigos. Jornalista formado pela Universidade Estadual da Paraíba - UEPB (1996 a 2000) que lançou um livro de poesia em 1998 e seus poemas ganharam melodias gravadas em três álbuns concluindo a trilogia "reggae baseado em poesia" no seu projeto musical Reggaebelde. Unindo a sensibilidade do poeta, músico com o senso crítico do jornalista e pesquisador musical colocado em prática em uma revista que Canta o Brasil.