Rangel Júnior


Antonio Guedes Rangel Júnior, professor universitário, poeta-cantador paraibano, do cariri, sim senhor. Conheci nos anos 90 Rangel Júnior discursando nos palanques em Campina Grande-PB, em prol das causas sociais. Na época um professor universitário, sindicalista e filiado ao PC do B.

Um filho de homem do campo, que cresceu na periferia de uma cidadezinha interiorana, chegou à universidade e fez carreira acadêmica. Só por isso, já tinha meu respeito e admiração. Com seu discurso árido, crítico e politizado, para os ouvidos conservadores e provincianos, deixava muita gente de cabelos em pé. Poucos anos após, conheço no palanque o Rangel Júnior, dessa vez como poeta – cantador.

Rangel Junior desde muito cedo tomou contato com a música em casa, pois o pai Tonito Guedes trabalhou como músico na juventude e junto com sua mãe sempre estavam cantando ou ensinando os primeiros filhos a cantar. A igreja, o colégio, os conjuntinhos musicais na infância, a descoberta de talento para criar instrumentos e tocar, inclusive percussão na banda marcial do colégio. Aos 14 anos de idade iniciou a prática ao violão e nunca mais parou. É autodidata e descobriu ainda na adolescência a capacidade para fazer versos, criar letras de canções e poesia. O avô paterno José de Fontes Rangel era poeta e cordelista.

Aos 17 anos tocou em bandas de baile e logo depois, já residindo em Campina Grande, ingressou no curso de Psicologia da (hoje) UEPB – Universidade Estadual da Paraíba e travou contato com músicos, artistas e participou de festivais, tocou e cantou em barzinhos até o final dos anos 80. Daí tornou-se professor de Psicologia na mesma universidade em que estudou.

Na segunda metade dos anos 90, realizando mestrado na UFC – Universidade Federal do Ceará, em Fortaleza, foi estimulado a retomar com a música, participando de festivais, compondo e cantando. Fez apresentações solo e em parceria com os músicos cearenses Lifanco e Eugênio Leandro gravou seu primeiro CD com metade de canções autorais.

O seu primeiro CD também era árido como a terra seca do semiárido do Cariri. O verdadeiro poeta canta a alegria, a dor e os sonhos do seu povo. Um disco de compositor-cantador, com voz de cantador, cantada pela afinação do coração. Um disco sertanejo (com forró, toadas, bregas), que mostra que acima de tudo somos fortes. Depois vieram os discos de Forró. Neste gênero o compositor se encontrou em plena harmonia com o cantor. Pra cantar Forró tem que ter afinação, ritmo, tendência, ser forjado com o barro do sertão. É um misto de aboiado de gado com violeiro. O Rangel Júnior com o forró, xote, baião estava em casa e a vontade. Seus versos telúricos, sertanejos ou sociais vão ponteando sua obra. Ele compõe em diversos gêneros, mas naturalmente suas origens do campo gritam mais alto nos gêneros genuinamente nordestinos. Com isso ele quebra um estereótipo, que pessoa letrada não canta forró, xote e baião. Já tivemos letrados escrevendo forró. Mas fazendo as duas funções criando e cantando o Rangel Júnior está sendo pioneiro e com maestria.

Lançou os CDs “Coração de Aroeira”, “Nordestino Cantador” e “Rangel Junior & O Cangaço” e até o ano de 2008 fez shows na Paraíba, Pernambuco, Ceará, Sergipe e Rio de Janeiro. Depois fez uma longa pausa apenas do palco, pois continuou compondo, inclusive para cinema e teatro, enquanto se dedicava a atividades acadêmicas, quando concluiu seu doutorado na UERJ – Universidade Estadual do Rio de Janeiro, e administrativas na UEPB, ocupando diversos cargos. Por fim, como 8 anos exercendo mandato como reitor daquela instituição de ensino superior.

Em 2020 com o final da carreira administrativa, se preparando para encerrar carreira acadêmica e retomar o voo pelas artes. Rangel Junior tem projetos musicais de curto, médio e longo prazo, projetos na literatura, poesia e ficção, projetos para o rádio, lançamento de novos singles em plataformas digitais, incluindo todas as canções já gravadas. Tudo isso pra já, pois o tempo é hoje. Muito Forró e outras canções estão por vir. Resta esperar pra ver o que de surpresa desta fonte.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Rangel Júnior para a www.ritmomelodia.mus.br , entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 15.03.2021:

Índice

01) RitmoMelodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Rangel Júnior: Abri os olhos pela primeira vez em Juazeirinho – Paraíba, na noite de 16 de novembro de 1962. Registrado como Antonio Guedes Rangel Junior.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Rangel Júnior: Meu pai Tonito Guedes (Antonio Guedes Rangel) recebia em casa, vez por outra, um violão para afinar. Meu avô promovia cantorias de viola e algumas delas eu via na feira de Juazeirinho – PB. Minha tia Beatriz tocava harmônio na igreja. Minha mãe, apesar de não tocar nenhum instrumento, era afinadíssima e gostava muito de cantar. Esse foi o ambiente em que cresci.

03) RM: Qual a sua formação musical e sua outra formação acadêmica?

Rangel Júnior: Nosso pai Tonito Guedes nos ensinava a cantar (eu e mais dois irmãos mais velhos) em casa, cantando à noite antes de dormirmos. Aprendi a cantar e ouvia muito rádio. Ajudava minha mãe na feira e com uns trocados que ela me dava, comprava revistas de música usadas para aprender as letras. Daí, como não sabia inglês ficava criando letras; compondo (risos) em português para algumas músicas. Aos nove anos de idade construí um instrumento que, depois descobri, era uma espécie de marimbau. Uma ripa de telhado, uma lata de leite vazia que sustentava um arame de caderno esticado entre uma ponta e outra da vara da ripa. Daí eu percutia o lado menor com uma vareta de pau e deslizava uma faca de mesa na parte maior do arame tirando notas.

Eu tocava de ouvido: “Noite Feliz”, “Parabéns” e “Asa Branca”. Nesta época eu já participava de grupinhos musicais formados no colégio. Tocávamos com instrumentos fabricados por nós mesmos (não tinha música – risos) a gente batia lá naquilo e cantava coisas como “criança feliz / que vive a cantar…” Fazíamos até show nas festas do colégio. Era um sucesso! Depois fui aprendendo percussão na banda marcial do colégio. Toquei Surdo, Caixa-repique e Bumbo. Tentei com a Corneta, mas não fui feliz. Antes dos 15 de idade (após a morte de meu pai), um amigo me emprestou seu violão e me ensinou as noções básicas: Tonalidade, primeira, segunda, preparação, terceira. Tons maiores, menores… E por aí vai, sempre fui autodidata depois disso. Sempre tive facilidade pra memorizar canções. Entrei em vários cursos de Violão, mas nunca passei do primeiro mês de aula.

Sou formado em Psicologia pela UEPB – Universidade Estadual da Paraíba e com mestrado e doutorado. Eu fui Vice-Reitor da UEPB de 1996 a 2000 e Reitor de 2012 a 2020.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Rangel Júnior: Ouvia de tudo o que tocava no rádio e os sambas que meu pai me ensinava. Depois em casa, já com uma radiola – toca disco (nessa época eu já tinha uns 15-16 anos), ouvia de tudo: Demônios da Garoa, Roberto Carlos, Nelson Gonçalves, Sambas em geral e no rádio, tudo da Jovem Guarda e o internacional que aparecia na moda. Creio que fui fortemente influenciado pelo romantismo ingênuo da Jovem Guarda e muito pela literatura. Lia de tudo, mas principalmente os românticos, parnasianos. Creio que todas as influências dessa época estão vivas ainda. Musicalmente, me aproximei mais da Bossa Nova e do Samba quando descobri Chico Buarque, Vinícius de Moraes, Toquinho. Todos têm seu lugar ainda no meu imaginário musical.

05) RM: Quando, como e onde você começou a sua carreira musical?

Rangel Júnior: Cantei pela primeira vez para um público desconhecido num programa de calouros promovido pela Rádio Rural de Caicó – RN, em Santa Luzia – PB, num concurso chamado “A mais bela voz do sertão”. Fiquei em terceiro lugar cantando “Gosto de Maçã”, do Wando. Logo depois comecei aprender Violão. Fui classificado em três etapas numa Gincana Cultural do Mobral, até nos apresentarmos em João Pessoa – Paraíba, eu, Zominho, meu irmão Zé Neto. Aos 17 de idade eu fazia participação em um conjunto de bailes, em que o meu professor de Violão, Zominho (Antonio Dantas, que havia me emprestado o Violão antes), cantava e tocava guitarra. Eu segurava a barra dele depois do intervalo, tocando algumas músicas enquanto ele ia para paquera.

Eu acompanhava o conjunto nas festas como um agregado e um dia surgiu uma oportunidade, então passei uma semana treinando no Contrabaixo e ainda toquei algumas festas acompanhando com este instrumento. Depois tive que parar, porque minha mãe reclamava muito, já com 18 anos e na Universidade cursando Psicologia. Ela dizia que aquilo não era trabalho “de homem de bem” (risos) e eu acabei largando. Depois continuei os estudos, me graduei em Psicologia. Tentei Sociologia uma época, mas segurei mesmo em Psicologia. A partir dos anos 80, já morando em Campina Grande – PB, eu tocava muito Violão nas festinhas e eventos na Universidade, participava de festivais, dava canjas em barzinhos e não parei mais. Ainda cantei profissionalmente em diversos bares nos anos 80: Aplauso, Charriot, Nossa Cervejaria, Visual, Bom Baiano, Cave…todos em Campina Grande.

06) RM: Quantos CDs lançados?

Rangel Júnior: Depois de 1994 eu estava fazendo mestrado na UFC, em Fortaleza – CE, e como já havia participado de muitos Festivais de Música nos anos 80, fiz contatos com músicos de lá, comecei a cantar também e tinha algumas músicas compostas, mas que muita gente nem conhecia. Conversando com Eugênio Leandro e Lifanco (cearenses), eles me propuseram gravar um CD com minhas canções e outras de compositores cearenses. Comecei em 1997 e só fui concluir em 2000. Lancei o primeiro CD – “Coração de Aroeira”. Gravado no EDS Estúdio, em Juazeiro do Norte – CE, com arranjos do Lifanco e direção de Eugênio Leandro. Era um CD meio indeciso (risos) com Forró, Toadas, uma Guarânia de minha autoria e uma regravação da “Tropeiros da Borborema” (Rosil Cavancanti e Raymundo Ásfora). Esta célebre música que fala de Campina Grande-PB foi imortalizada por Luiz Gonzaga. Deste CD, o maior destaque ficou para “Armadilha da Paixão”, que ganhou um prêmio nacional, promovido pelo Sindicato Nacional de Docentes das Universidades. Com o dinheiro do prêmio concluí o trabalho e repliquei mil cópias do CD.

Depois gravei o CD – “Nordestino Cantador”, com arranjos de Lifanco e produzido entre o Crato-CE e Campina Grande-PB. Uma parte dos músicos era do Crato e a outra de Campina Grande. Lifanco tocou a maior parte dos instrumentos. Teve ainda a participação de Biliu de Campina e Oliveira de Panelas. O trabalho é quase totalmente autoral e mistura Forró com Glosas e Cordel. Depois lancei o CD – “Rangel Junior e o Cangaço” (era o nome do grupo que me acompanhava nos shows). Quase ao vivo, semi acústico e meio “desplugado”. Na verdade, foi quase ao vivo mesmo, mas no estúdio. Depois lancei uma coletânea com Forrós, incluindo uma música inédita, “Florbela”. Que fez certo sucesso na região. Inclusive foi gravada por Santanna, o Cantador, sendo sua música de trabalho entre 2008 e 2009.

07) RM: Como você define o seu estilo musical?

Rangel Júnior: Considero-me um compositor que leva a sério a poesia e a mensagem de sua música. Sou romântico e componho desde Forró a Samba, Toadas, Bolero, e não me prendo a um estilo específico para compor. Como intérprete de minhas músicas, fiquei mais com o forró. Por contingências e por ter a maior parte de minhas composições nesse estilo. Um Forró comprometido com as raízes, mas fazendo uma “ponte” entre o rural e o urbano. Falando do mundo atual e dos sentimentos e relações entre as pessoas. Busco fazer uma espécie de crônica do cotidiano.

08) RM: Como é o seu processo de compor?

Rangel Júnior: Tenho me saído melhor quando componho caminhando. A melodia e letra nascem juntas. Geralmente uma ideia, um tema, com uma frase musical e vou trabalhando. Gravo no celular ou direto no computador e vou trabalhar depois. Raramente utilizo o Violão a não ser quando estou para finalizar a composição. Se eu começar com o Violão, me sinto atrapalhado, preso (risos). Não tenho domínio pleno sobre harmonias e as diversas escalas. É um trabalho mais intuitivo mesmo.

09) RM: Quais são seus principais parceiros?

Rangel Júnior: Fiz poucas parcerias: Luiz Amorim, Lifanco, Jessier Quirino, Edmundo Gaudêncio, um amigo, professor universitário como eu e psiquiatra. Grande poeta. Mais recentemente, Efigênio Moura (escritor e publicitário), Cidoval Morais (jornalista, poeta e professor universitário), Acrízio de França (repentista e compositor paraibano).

10) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Rangel Júnior: Creio que caminhamos para uma situação em que quase todo mundo será independente, mais no aspecto da produção e criação. Quase tudo já é assim hoje, mesmo produções de artistas muito famosos. A arte ganha com isto. Ao menos a independência na hora de construir um projeto, um conceito de disco. A grande dificuldade para os independentes é a distribuição, divulgação. Os que têm grandes estruturas por trás se garantem nas rádios, seja pelo nome que construíram, seja pelo jabá. O que é a gritante realidade das rádios, principal meio de difusão da música. Claro que agora a internet está aí para mudar isso. Já está mudando, mas num ritmo ainda lento para atingir grandes massas, que formam opinião pelo rádio e TV. O YouTube, as redes sociais e as plataformas de streaming de música de modo geral vêm mudando essa realidade de maneira radical.

11) RM: Como você analisa o cenário musical brasileiro. Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Rangel Júnior: Creio que vivemos uma fase muito boa em termos de criação. O grande problema ainda é a circulação. Quanto às revelações creio que é muita coisa pra falar sobre duas décadas e ainda posso ser injusto na citação de nomes, mas considero Lenine, Zeca Baleiro, Maciel Melo, Ana Carolina, Adriana Calcanhotto, Vander Lee, Socorro Lira, Chico César, Targino Gondim, Roberta Sá, Dudu Nobre, tantos outros… E Sandra Belê, de quem ainda muito se falará. Creio que essa turma que citei veio pra ficar.

12) RM: Quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Rangel Júnior: Chico Buarque, Paulinho da Viola, Dominguinhos e Flávio José.

13) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical?

Rangel Júnior: Tem piada de sobra nesse campo aí. Num show do Parque do Povo em Campina Grande – PB, noite de São Pedro e eu abri o show de Zé Ramalho. Ele demorando a chegar e eu já estava concluindo o show quando o sujeito da produção fez sinal para mim com os dedos: SETE. Pensei… “Sete minutos, eu canto um pot-pourri de Luiz Gonzaga e encerro o show”. Quando me despedi o cara gritou de lá: Não, eu falei sete músicas… Zé Ramalho no Hotel e eu aparecendo no São João do Nordeste pela TV Globo, pois o horário era fixo e estava reservado para Zé Ramalho. O meu amigo e humorista Shaolin (Francisco Jozenilton Veloso, nascido em Coremas, dia 8 de maio de 1971 e infelizmente falecido em Campina Grande, no dia 14 de janeiro de 2016), fazia as vezes de apresentador e “enchia a minha bola” de lá dos camarotes e eu mandando ver para todo o nordeste ao vivo. Gargalhamos muito disso depois.

Bêbados pedindo música que não tem nada a ver com meu repertório. Outros pedindo para oferecer música no meio do show. Já “levei cano” de muitos shows feitos, inclusive de prefeituras importantes como a de Campina Grande no Maior São João do Mundo. Muita coisa engraçada, mas muito aperto também. Algumas não são declaráveis (risos).

14) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Rangel Júnior: A felicidade maior é poder cantar e oferecer ao público a oportunidade de ouvir algo diferente da moda das rádios. Quando o público tem empatia, entra no clima, viaja junto com você. É o clímax, é o grande pagamento pro artista. Tristeza de ver tanta coisa boa, uma infinidade de boas músicas, bons artistas que não são “tocados” no rádio nem na TV. Infelizmente, o jabá é um câncer no meio artístico e degenera tudo. Faz rebaixar o gosto musical, faz vender a cada dia “produtos” de baixa qualidade, para girar rápido, para manter o comércio aquecido. Tudo pela transformação da música em pura mercadoria. A lógica é perversa neste sentido. Quem não entra nessa lógica tem que se virar nos movimentos de resistência cultural. Felizmente, há muita gente fazendo isto, mesmo com uma carência enorme de organização.

15) RM: Nos apresente a cena musical paraibana e campinense.

Rangel Júnior: Na Paraíba há muita coisa boa acontecendo em termos musicais. Em João Pessoa principalmente a cena se movimenta muito e há um verdadeiro boom musical, orquestras, músicos, festivais de música, shows com um calendário muito bom de eventos e um equipamento cultural que se mobiliza, tem ocupação.

Em Campina Grande e na maior parte do interior, infelizmente, há muito espaço físico e pouca política cultural. A “farra” tomou o lugar da festa popular e o rebaixamento do nível das escolhas tem piorado a cada ano que passa. Muitos compositores, muitos cantores novos, mas que não encontram na cena oficial nem alternativa o espaço adequado para mostrarem seu trabalho. A meu ver, está muito longe de ficar regular, numa escala de péssimo a ótimo. Campina Grande é o São João. Mesmo assim, com uma espécie de “modismo multicultural” ignorante, que vai de sertanejo ao gospel, de conformidade com os interesses comerciais. Fora disso, não há espaço para a música de raiz. O forró, especialmente.

16) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Rangel Júnior: Não! Definitivamente, não! Tocará uma vez ou outra, numa entrevista, num lançamento de CD, num ou noutro programa fora do horário nobre. Uma vez ou outra, raramente, na programação regular das rádios. O jabá é a regra, portanto, sem ele, a esperança de ver sua música executada pra que possa ser entendida, gostada, é mínima. Somente a democratização efetiva dos meios de comunicação mudaria esse quadro perverso. A internet já se popularizou, mas ainda está longe de ser democrática de verdade, atingindo a grande massa da população. Especialmente pelo conteúdo cada dia mais banalizado. É como se a ignorância estivesse vencendo a luta.

17) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Rangel Júnior: Acredite nos seus sonhos. E, se puder, se ainda for tempo e você acreditar no que faz. Se lance de corpo e alma nos seus projetos. Seja honesto com os seus, com sua história, com sua arte. Não espere facilidades, nem sucesso efêmero. Sucesso mesmo é você viver da sua arte, independentemente de fazer sucesso comercial ou não. Afinal, ser artista é ser um trabalhador como tantos outros e tem sua importância na sociedade tanto quanto a tem o pedreiro que ergue casas (o médico, o engenheiro, o juiz, o motorista…) e a medida do seu sucesso é ver a casa de pé, resistindo e acomodando bem as pessoas.

18) RM: Como você administra sua vida entre a carreira acadêmica como professor e pesquisador com a carreira musical? Quais as portas que se abriram e se fecharam por desenvolver estas duas carreiras?

Rangel Júnior: É difícil e o artista sempre sai perdendo. Na verdade, há um professor universitário que sustenta o artista materialmente. Atrasei bastante os dois lados quando fiquei indeciso. Após o meu doutorado, tenho uma participação muito efetiva na vida política da Universidade Estadual da Paraíba onde trabalho há 32 anos. A produção acadêmica é deficitária também por conta desta atividade. Nunca percebi nenhuma vantagem por ser um acadêmico ou gestor da UEPB. Percebo um tratamento gentil por parte da imprensa em geral, mas isso por conta das relações que construí, independente de cargos. A cada dia o artista fica mais prejudicado pelo professor, mas um não fica com raiva do outro. São dois na mesma pessoa. Ainda tem lugar para mais. Está próximo o dia em que apenas o artista trabalhará.

19) RM: Você acredita que por ser um intelectual reflete positivamente em uma carreira musical consciente do seu papel de cidadão?

Rangel Júnior: Isso faz um diferencial enorme. A participação política, a militância e o estudo da política me deram uma consciência social muito sólida e isso me compromete a ser como sou. Sou feliz em poder honrar o meu nome naquilo que faço, seja como professor, gestor ou artista e as pessoas me respeitam por isso. Entretanto, o fato de ser assim fecha também muitas portas, mas já estou preparado para isto. Muitas referências positivas de respeito também por estas razões.

20) RM: Você acredita que se encontrou como cantor e compositor nos CDs de Forró?

Rangel Júnior: Creio que sim, mas não estou satisfeito. Tenho um CD praticamente pronto com músicas em outros estilos. E, na hora certa, essas músicas virão ao público pra que as pessoas conheçam esse outro lado. Pois até hoje, quase tudo que escutaram de minha criação foi ligado ao Forró. Como compositor eu me sinto mais reconhecido e feliz. Na verdade, sou um compositor que, por não ter quem cantasse suas músicas, resolveu ser cantor, intérprete de si mesmo. Tem dado certo. Não tenho queixas.

21) RM: Você se sente mais seguro na condição de cantor ou de compositor?

Rangel Júnior: Sinto-me bem nas duas funções, mas a composição tem seu lado de prazer que a interpretação não dá. Ouvir sua música interpretada por outros é sempre uma sensação muito gostosa. Como meu tempo é pouco para atividade de cantor. Limitado até mesmo para viajar, tento não me frustrar com isso e tocar em frente o meu trabalho. Assim como a vida me foi oferecendo oportunidades e sei que ainda surgirão muitas outras.

22) RM: Como você analisa o cenário do Forró?

Rangel Júnior: Sobre o cenário atual do Forró e o desenvolvimento nas últimas décadas. Sempre analiso os fenômenos humanos e sociais em movimento. Considero um equívoco o ato de ficar olhando para trás com saudosismo ou nostalgia, como se o tempo pudesse dar marcha à ré. As coisas estão sempre em movimento e em relação. Tudo muda o tempo todo e as coisas que mais se transformam são aquelas que envolvem o fenômeno da criação, movidas pela inquietude humana, pelo desejo de crescer, mudar, do autodesenvolvimento e autossuperação. Os artistas, de modo geral são movidos por esta força.

Daí entra em cena outro conjunto de fatores, principalmente os ligados ao mundo do mercado, do negócio da cultura, da arte, do entretenimento e da diversão. O mercado, originalmente identificado com os fundamentos do capitalismo, tem uma necessidade de mudar permanentemente e muitas mudanças são forjadas para assegurar a rotatividade das mercadorias. Tudo se transforma em mercadoria num mundo orientado pelo mercado. O problema consiste no fato de tentarem transformar também as pessoas em mercadoria. “Eu não estou à venda/ Não tenho código de barra em minha cara/ Eu posso ser um ‘beradeiro’, pau-de-arara/ Mas tenho a coragem de lutar/ Para mudar…” diz um trecho de uma canção de minha autoria, Madeira de Lei.

Vejo com muita preocupação a falta de resposta adequada do universo das pessoas identificadas com o forró, desde compositores/compositoras e intérpretes a toda a cadeia produtiva da economia criativa do Forró. Não quero demonizar os donos da indústria do entretenimento, pois em sua maioria estão na atividade em busca de resultados econômicos e são guiados por outros valores, não necessariamente os da preservação da cultura, fortalecimento das raízes, distribuição solidária dos ganhos, socialização dos espaços…a indústria é predatória por natureza. Porém, no caso específico do forró eu vejo muito uma espécie de cultura da lamentação, da crítica ao sistema, à pasteurização de conteúdo para massificação e multiplicação exponencial dos lucros. Essa é a lógica deste modelo de sociedade e por isso sou alinhado com a luta anticapitalista. Entretanto, para resistir, sobreviver e até se destacar nesta lógica as pessoas precisam compreender que não basta ter talento.

O mercado é cruel com muitas pessoas talentosas. Respeito quem curte, gosta, canta, produz e enriquece cantando e produzindo banalidades de todo tipo. É a vida! Cada um se vira como pode e escolhe. Pessoalmente, continuo acreditando na força da música de raiz, no respeito à tradição e na busca de renovar esta tradição. Acredito que somente uma forte articulação que envolva um enorme contingente de pessoas identificadas com essa estética, essa cultura, no sentido não somente de sua defesa retórica, mas da organização da cadeia produtiva em todas as suas vertentes. Precisamos aprender com o capitalismo e os capitalistas. Todas as grandes correntes e movimentos ou “ondas” musicais que se formaram ao longo de mais de um século de música no brasil foram resultantes de movimentos coletivos, organização coletiva, ação coletiva. É nisso que acredito e é isso que proponho. Umas pessoas sempre se destacam mais que outras, se transformam em ícones, atingem o pico, mas nesse movimento existe uma espécie de “arrasto” enorme que puxa grandes contingentes. É isso que falta, sob a minha ótica de interpretar a conjuntura.

Valores não faltam, desde a composição à interpretação, instrumentistas e todo o restante que envolve essa cadeia produtiva. Existem artistas e mais artistas jovens criando e fazendo maravilhas. Falta achar o veio, a fenda, construir o caminho que transformará isso em movimento, em onda, em força social. Eu acredito que isso acontecerá mais dia, menos dia.

23) RM: Como você analisa as bandas de Forró que gravam mais letras apelativas?

Rangel Júnior: É puro apelo comercial, muito pouco ou quase nada de música de verdade, de arte. Mas é assim a lógica do mercado musical, a lógica do produto no capitalismo. As pessoas confundem o fato de precisarem vender suas músicas e acabam se vendendo. Depois isso é um caminho sem volta. Fica o vício, o gosto pelas facilidades. O dinheiro entrando fácil. Mas acaba, pois a fórmula esvazia, se exaure. Cada dia vai ficando mais apelativo, mais baixo nível até que atinja um estágio de fadiga auditiva, um esgotamento, uma espécie de “pré-sal” das tendências mais escatológicas dos sujeitos.

24) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

Rangel Júnior: Venho trabalhando sempre minhas composições, estudando, buscando aperfeiçoar o trabalho de criar canções e preparando material suficiente para quando puder encerrar este atual ciclo de atividades políticas e administrativas poder voltar com uma boa reserva de canções para ir trabalhando aos poucos. Está bem perto agora, início de 2021.Venho investindo também em estudos de luthieria, escrita ficcional e poética, inclusive literatura infantil.

25) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira musical?

Rangel Júnior: No momento não tenho desenvolvido ações específicas voltadas para a carreira, além de compor, mas ainda no primeiro semestre de 2021 pretendo voltar aos palcos (se a pandemia de covid-19 deixar) e inserir novamente meu trabalho autoral no mercado musical, especialmente no período junino. Planejando gravações para lançar ao menos dois singles ainda em março de 2021 e no segundo semestre lançar singles também com sambas, além de disponibilizar todas as minhas canções nas plataformas digitais, investir um pouco nas redes sociais com planejamento e profissionalização da divulgação.

26) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira?

Rangel Júnior: Creio que ajuda em todos os sentidos. O mais importante é saber usar este importante instrumento de democratização da comunicação. Considero fundamental profissionalizar o trabalho especificamente voltado para divulgação. Claro que cada um individualmente pode ir sempre fazendo sua parte, em redes sociais, grupos de amigos, etc, mas sempre considero fundamental o trabalho de especialistas na comunicação e publicidade.

27) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)?

Rangel Júnior: A tecnologia de gravação multipista no formato digital permitiu que uma gama enorme de pessoas entrasse no mercado da produção musical. Como tudo na vida, todo processo de expansão do acesso a bens de consumo também promove certa vulgarização do consumo e até mesmo certo rebaixamento da qualidade dos produtos. Com a música não vejo muita diferença, no que se refere aos resultados. Ou seja, se por um lado os equipamentos mais simples estão à disposição de grande parte da população e dos músicos, ter um home studio ajuda aos processos criativos e pré-produção. Além do que, a tecnologia tornou possível gravar e editar uma música hoje inteiramente por um smartphone. Basta dominar os meandros do seu uso.

Acho que os melhores trabalhos musicais, em geral, continuam saindo de estúdios em que seus produtos são resultado do trabalho de produtores musicais, técnicos e engenheiros de som, acústica adequada, equipamentos melhores, etc. claro que dos pequenos lugares e equipamentos, vez por outra também nascem bons produtos, mas não se configura como regra. Eu uso para registro e mesmo pré-produção os recursos de gravador digital multitrack, smartphones, tablets, mas não subestimo as competências dos profissionais que dominam cada uma das áreas envolvidas, incluindo a direção musical e arranjadores.

28) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar o disco não é mais o grande obstáculo. Mas, a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Rangel Júnior: Gravei trabalhos em estúdio sempre me valendo do conhecimento técnico e profissional de gente da área. O maior desafio para qualquer forma de expressão artística, após o advento do mundo moderno, sempre foi a divulgação, a colocação do produto no mercado e fazê-lo chegar o mais longe possível e ao maior número de pessoas. Ou seja, criar não é problema.

Transformar arte em produto e colocar no mercado é o grande desafio. De certo modo, as atribuições são bem divididas nos setores em que artistas da música conseguiram grandes públicos, grandes vendas, destaque em todos os veículos de divulgação. Para estes a cadeia produtiva da música, por exemplo, acontece com a divisão do trabalho feita em todos os níveis. Para o artista independente, ainda é tudo muito artesanal e para ser visto de fato, há que se apostar em relacionamentos, persistência, qualidade e mesmo muito sorte. Aliás, qualidade, do ponto de vista de uma estética musical mais elaborada, refinada, tecnicamente próxima aos chamados padrões culturais mais tradicionais, há muito deixou de ser um requisito importante para transformar uma canção (ou algo parecido) em produto de sucesso comercial. Às vezes um refrão pegajoso com uma batida eletrônica pronta se transforma em viral na internet, vira hit nacional e mesmo internacional…claro que da mesma forma que aparecem eles também somem.

29) RM: O que lhe motiva fazer letras relevantes em tempos que as músicas que tocam nas rádios e TV são de letras descartáveis?

Rangel Júnior: Meu compromisso com a música é uma questão de compromisso com a vida. Só faz sentido compor algo que seja relevante, que leve uma mensagem, que traduza um sentimento bacana, que outras pessoas possam sentir aquilo, se identificar, tomar para si a recriação da canção; sem mudar a letra, claro (risos). Digo isso no sentido da ressignificação que cada pessoa faz ao adotar uma canção como parte do seu repertório de vida. Eu componho e canto por uma necessidade interior. É como uma voz dizendo que você tem que expor aquilo, aquelas ideias, aquela sonoridade, aquelas melodias e harmonias. No dia que isso não for sentido, pra mim não há sentido em compor e cantar.

30) RM: Qual a sua relação pessoal e profissional com os músicos paraibanos?

Rangel Júnior: Tenho com todos os artistas paraibanos que conheço uma boa relação pessoal e profissional. Acompanhei Gabimar Cavalcanti quando vivo, e Kátia Virgínia desde tempos áureos do conjunto “Ogírio Cavalcanti”. Alexandre Tan, eu acompanho a carreira de perto. Talvez pelos estilos musicais distintos nunca tenhamos estabelecido parcerias musicais e mais afinidades. Biliu de Campina e Ton Oliveira sempre acompanho de perto suas histórias de vida e profissionais. Inclusive Biliu já participação em CD meu e Ton já gravou música de minha autoria. Amazan, eu conheço e temos bons laços de amizade desde os tempos em que ele tocava e cantava no Grupo Folclórico Tropeiros da Borborema e eu estudante de psicologia. Pepysho Neto e Emerson Uray somos da mesma geração dos barzinhos. Eles seguiram em frente na carreira musical e eu com muitas interrupções e escolhas profissionais segui outro caminho, com menos foco na carreira musical e mais na psicologia e na docência universitária. Alquimides Daera conheço ainda dos tempos de Ivo Daera (rsrsrs). Da mesma época, Capilé eu conheço desde os tempos dos bares: Boião, O Galeto, Cave, Panela da Arte, Aplauso, todos dos anos 80 em Campina Grande. Capilé também já gravou música composta por mim. Arthur Pessoa (Cabruêra), Edglei Miguel, Júnior Cordeiro, Heloísa Olinto, todos artistas que vi nascer para a música aqui em Campina Grande. Tenho uma relação de mais afinidades políticas, pessoais e também musicais com Fredi Guimarães e mais fraterna, próxima, cotidiana, parceira, com Jorge Ribbas, com quem já dividi muitas experiências e aprendizados para a música e a vida. Muito mais eu aprendendo com ele (risos).

31) RM: Rangel Júnior, Quais os projetos futuros?

Rangel Júnior: Os projetos são muitos e com frentes de ação distintas. Quase todos previstos para realização em médio e a longo prazo, pois com minha aposentadoria, provavelmente ainda em 2021, pretendo me dedicar exclusivamente à música e à literatura. Na literatura são vários “na cabeça”, por enquanto, com alguns já iniciados: Um livro de poesia, um infantil (já pronto e impresso), outro de memórias romanceadas do mundo do trabalho. Na sequência devem vir um livro de contos, um de poemas nos estilos da tradição nordestina de métrica e rima, um de crônicas. Mais adiante, num plano mais ousado, talvez um romance. Devo começar como colaborador num portal de notícias, uma coluna semanal de crônicas e retomar com regularidade as publicações em meu www.rangeljunior.blogspot.com.

Na música também são muitos os projetos. Devo gravar e lançar dois singles de forró ainda em março de 2021. Já gravei 4 sambas de minha autoria e devo reativar meu canal no YouTube, com música e prosa sobre música e vida. Serei psicólogo a vida inteira. Devo iniciar ainda em março um programa semanal numa emissora de rádio em Campina Grande, sobre Forró e cultura nordestina…Cansei só de falar (risos). Tenho saúde, energia, vitalidade, força interior, garra e muitos sonhos guardados numa espécie de embornal que é o coração. Acredito muito em mim e nas coisas que faço, por isso não tenho pressa de chegar. O bom mesmo não é o lugar aonde se quer chegar, mas a caminhada, o caminho sendo construído. Sou apaixonado por isso. Isso é vida!

32) RM: Quais os seus contatos?

Rangel Junior: (83) 99121 – 5678 | [email protected] | www.facebook.com/rangeljroficial| www.instagram.com/rangeljroficial

| www.palcomp3.com.br/rangeljunior

|www.twitter.com/rangeljroficial

|www.youtube.com/user/nordestinocantador

 

 

 

 


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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor responsável pela revista digital RitmoMelodia desde 2001, jornalista, músico, poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, propaga a diversidade musical brasileira através de entrevistas e artigos. Jornalista formado pela Universidade Estadual da Paraíba - UEPB (1996 a 2000) que lançou um livro de poesia em 1998 e seus poemas ganharam melodias gravadas em três álbuns concluindo a trilogia "reggae baseado em poesia" no seu projeto musical Reggaebelde. Unindo a sensibilidade do poeta, músico com o senso crítico do jornalista e pesquisador musical colocado em prática em uma revista que Canta o Brasil.