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Categorias: Entrevistas

Nelson Faria


O mineiro Nelson Faria é um dos mais expressivos músicos brasileiros, contando em seu curriculum  a edição de oitos livros, sendo dois editados nos EUA, Japão e Itália, quinze CDs, um DVD, uma vídeo-aula Toques de Mestre e coordenador pedagógico do curso online Fica a Dica Premium – https://www.ficaadicapremium.com.br/.

Nelson Faria participou em mais de 200 CDs de diversos artistas nacionais e internacionais como músico, arranjador ou produtor. Ele assina o modelo de guitarra Condor Nelson Faria Signature (JNF-1), desenvolvido pelo artista em parceria com a renomada fábrica de instrumentos.

Iniciou seus estudos com Sidney Barros (Gamela), professor responsável por despertar seu gosto pelo estilo chord melody, e em 1983, mudou-se para Los Angeles, Estados Unidos, onde cursou o G.I.T. (Guitar Institute of Technology) e teve o privilégio de aprender com os mestres Joe Pass, Joe Diorio, Frank Gambale, Scott Henderson, Howard Roberts, Ron Eschete e Ted Greene. De volta ao Brasil tornou-se um dos instrumentistas brasileiros mais requisitados para gravações, shows e workshops, desenvolvendo paralelamente trabalhos no exterior como instrumentista e arranjador.

Dentre os artistas com quem trabalhou, nos palcos ou em estúdios, destacam-se João Bosco, Cassia Eller, Gonzalo Rubalcaba, Ivan Lins, Till Broenner, Zélia Duncan, Ana Carolina, Milton Nascimento, Toninho Horta, Tim Maia, Leila Pinheiro, Nico Assumpção, Gilson Peranzzetta, Paulo Moura, Wagner Tiso, Edu Lobo, Fátima Guedes,  Karolina Vucidolac, Josee Konning, Lisa Ono, Baby do Brasil, Pascoal Meirelles, Antonio Adolfo, Nivaldo Ornelas, Mauro Senise, Maurício Einhorn, entre outros, acumulando apresentações no Brasil, Japão, Estados Unidos, Canadá, Israel , Argentina, Portugal, Espanha, França, Alemanha, Áustria, Macedônia, Itália, Turquia, Suécia, Noruega, Dinamarca, Lithuania, Estônia, Finlandia,  Suíça, Holanda, Slovênia, Bósnia, Inglaterra, Malaysia, Indonesia, Ilha de Malta, República Dominicana, Colômbia, Ilhas Canárias, Ilha da Madeira, Martinica e República Checa.

Destacam-se em seus trabalhos como arranjador o CD – “Malabaristas do Sinal Vermelho” e o DVD – “Obrigado Gente”, de João Bosco, ambos indicados ao Grammy Latino.

Apresentou-se nos mais importantes festivais de internacionais de Jazz, como North Sea Jazz Festival (Holanda), Montreal Jazz Festival (Canadá), Montreaux Jazz Festival (Suiça), San Francisco Jazz Festival (USA), Miami Festival (USA), Jazz a Vienne (França), Marcelle Jazz Festival (França), Tel Aviv Jazz Festival (Israel), Sarajevo Jazz Festival (Bósnia), Free Jazz Festival (Brasil), Kaunas Jazz Festival (Lithuania), Skope Jazz Festival (Macedonia), Malta Jazz Festival (Malta), Funchal Jazz Festival (Madeira), Frascatti Jazz Festival (Itália), Java Jazz Festival (Indonésia), Pennang Jazz Festival (Malasia), Vicenza Jazz Conversations (Itália), entre outros…

Em 2001, agraciado com a Bolsa Virtuose, concedida pelo Ministério da Cultura, participou do programa BMI Jazz Composers Workshop, em Nova York – USA, tendo como professores os músicos Manny Albam, Jim McNeely e Michael Abene. Durante os meses em que esteve na cidade americana participou de várias gravações com músicos nova-iorquinos e brasileiros, apresentando-se em vários clubs de Jazz e no Kennedy Center, em Washington DC – USA.

Como educador Nelson Faria acumula muitos projetos bem-sucedidos. Entre 1987 e 1999 lecionou disciplinas de arranjo, harmonia, improvisação e guitarra na Faculdade de Música da Universidade Estácio de Sá, e no curso CIGAM (Curso Ian Guest de Aperfeiçoamento Musical), ambos no Rio de Janeiro – RJ.

Paralelamente ministrou inúmeros cursos e workshops em todo o país, dentre os quais destacam-se o Primeiro Seminário Brasileiro de Música Instrumental (Ouro Preto – MG), o Curso Internacional de Verão de Brasília – DF, o Festival de Música da Universidade do Rio Grande do Norte, Oficina de Música de Itajaí – SC, EM&T (Escola de Música e tecnologia – SP), Conservatório Souza Lima (SP), Festival Internacional de Domingos Martins – ES, Festival de Ibiapaba e a Oficina de MPB de Curitiba – PR.

No exterior Nelson também atuou como professor convidado nas Universidades Manhattan School of Music (NY – USA), New School of Music (NY-USA), Berklee College of Music (Boston – USA), University of South California (LA-USA), Stockholm Royal College of Music (Suécia), Göterborgs Universitet (Suécia), Sibellius Academy (Finlandia), University of Miami (USA), San Francisco State University (USA), Malmo Universitet (Suécia) e nos conservatórios de Amsterdam e Rotterdam (Holanda).

Realizou também workshops na International Association of Jazz Educators (IAJE) em Nova Iorque – USA além de, como arranjador e compositor, participar de apresentações com a CODARTS Big Band (Holanda), KMH Jazz Orquestra (Suécia), UMO Jazz Orchestra (Finlândia), Frost Jazz Orchestra (USA), Hr-Bigband (Alemanha), 2 O’clock Big band (Amsterdam), Brass & Fun Bigband, Orquestra Bons Fluidos e Orquestra Jazz Sinfônica (SP).

Desde janeiro de 2010 mora na Suécia onde trabalha como professor convidado na Örebro Universitet, Ingesund Universitet e KMH.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Nelson Faria para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 12.04.2020:

Índice

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Nelson Faria: Nasci no dia 23 de março de 1963 em Belo Horizonte, Minas Gerais.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Nelson Faria: Nasci numa família bastante musical. Sou o filho mais novo de seis irmãos e irmãs, e todos lá em casa sempre tocaram e cantaram, em especial minha mãe Nathália Faria que tem uma linda voz até hoje aos 89 anos! Comecei assim, em família, aprendendo com meus irmãos os acordes da Bossa Nova que era a música que mais se ouvia e cantava na minha casa. Comecei pelo Piano, e aos poucos fui passando para o Violão, tudo em casa, no aconchego da família, ensaiando umas harmonias bacanas e arranjos a duas vozes que meus irmãos faziam.

03) RM: Qual a sua formação musical e\ou acadêmica fora da área musical?

Nelson Faria: Fiz meu vestibular aos 17 anos de idade para a UnB – Universidade de Brasília, já morando em Brasília – DF. A primeira opção: Economia, a segunda opção: Música. Estava torcendo pra não passar em economia e “ter” que fazer música! Mas passei pra Economia e acabei cursando dois anos de Faculdade antes de me decidir pela música e mudar meus rumos, graças a Deus!

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Nelson Faria: Influencias musicais não te deixam nunca, essa é a minha experiência. Coisas que aprendemos na infância, na adolescência, ficam gravadas em nós pra sempre, na nossa memória afetiva. Comecei ouvindo bossa nova. João Gilberto, Jobim, Menescal, Carlos Lyra, Os Cariocas, MPB-4, Quarteto em Cy etc…

A época da Bossa Nova já tinha passado, mas pra minha sorte, era isso que ouviam na minha casa e foi isso que comecei ouvindo e tocando. Aos poucos fui migrando pra MPB: Elis Regina, Ivan Lins, João Bosco, Milton Nascimento. Lembro ainda do disco MINAS. Meu irmão comprou e chegou lá em casa com aquele disco e ouvimos aquilo juntos umas 1000 vezes. Eu era novo… lembro-me bem.

Tinha 12 anos de idade e meu irmão 14 anos. Aquele disco era a modernidade em forma de som! Foi o primeiro disco que eu me interessei muito pela ficha técnica. Queria saber quem estava tocando, quem era o saxofonista, o baterista, percussão, guitarra, baixo, tudo! As cordas! Lembro que foi a primeira vez que me dei conta que existia um guitarrista chamado Toninho Horta.

Além dele tocar no disco, tinha uma composição dele lá: “Beijo Partido”. Deus meu…. pirei com aquilo. Passei a comprar TODOS os discos que na ficha técnica tinham o nome “Toninho Horta”. O nome dele tinha virado uma chancela de música boa. Eu tinha apenas 12 anos.

Foi assim que tudo começou e essas foram minhas primeiras influências. Depois descobri o Hélio Delmiro e o Jazz: Joe Pass, Joe Diorio, Pat Martino, George Benson… E os pianistas? Bill Evans roubou minha alma! Fiquei completamente embevecido com o disco Affinity de Bill Evans e Toots Thiemans. Nessa época eu tinha já meus 16 anos e estava começando a me aprofundar nos estudos da música, ao mesmo tempo que fazia a escola tradicional, claro!

05) RM: Quando, como e onde você começou a sua carreira musical?

Nelson Faria: Com 17 anos de idade comecei a tocar na noite. Eu era menor de idade e tinha que estar ou com um responsável ou sozinho mesmo, pronto pra me esconder caso o juizado de menores chegasse (risos). Na época tinha um Duo com a Zélia Duncan, fazíamos voz e violão e a Zélia era mais nova ainda… talvez 15 ou 16 anos.

Tocávamos de quinta a domingo direto! Era um lugar chamado “Barzinho” no lago sul, em Brasília – DF. Ali aprendi o que era repertório para tocar na noite, o que era segurar o som no barzinho das 8, 9 da noite até as 2 da madrugada. Eu e Zélia ralamos essa fase juntos. Foi muito bacana.

Depois abandonei o curso de Economia que fazia e fui estudar música nos EUA. Fui para Hollywood, na California estudar no GIT (Guitar Institute of Technology). Lá eu dei o “ponta pé” inicial. Quando voltei pro Brasil, em 1983, voltei totalmente decidiu a viver de música.

06) RM: Fale da sua experiencia de estudar na GIT (Guitar Institute of Technology) nos EUA.

Nelson Faria: Quando eu resolvi trancar a matricula do curso de Economia na UnB para estudar música, eu comuniquei à família e meus pais apoiaram e meu pai pagou um ano de curso GIT (Guitar Institute of Technology) nos EUA. Quando comecei as aulas percebi que o nível de conhecimento dos alunos era alto e fiquei preocupado se eu conseguiria acompanhar as aulas.

Dediquei-me aos estudos, mas não vi resultado nas aulas. Percebi que o processo de aprendizado tem seu próprio tempo e não é de forma linear. Ao passo que estudava me dava a sensação que eu estava “piorando”. Você acha ultrapassado o que já aprendeu e ainda não acompanha as informações novas. Por isso, a sensação de regredindo ou piorando no processo que estuda o que ainda não conhece.

Eu estava a dois meses estudando alucinadamente. O pagamento da anuidade do curso era à vista, mas se eu desistisse antes dos seis primeiros meses do curso eu podia pegar uma quantia do valor pago. Eu comecei achar que não tinha talento para a música e ainda ia desperdiçar a grana investida pelo meu pai. Fiquei desesperado e chorava. Falei com meu pai e ele era mais coração mole, falou para eu voltar e não me preocupar.

A minha mãe me falou que eu já tinha chegado a uma fase de minha vida que ela não podia mais decidir nada por mim e eu que tinha que decidir sobre a minha vida e assumir as consequências. Ela falou que iria apoiar a minha decisão de ficar ou voltar. Essa fala foi muito importante e determinante. Eu resolvi desistir e eu estava ando na rua ao me encontrar com “um anjo” Rebeca que era porto-riquenha e casada com o dono da Escola.

Ela que acompanhava os alunos latinos. Ela viu minha expressão de desespero e perguntou se andei chorando e tal. Falei para ela que estava desistindo do curso e ela perguntou se estava maluco. Ela me levou para tomar um café e me explicou que eu estava passando por um momento de estresse. Você está estudando muito e não estar vendo resultado, mas o resultado demora aparecer.

Falei para ela que a parte financeira estava me preocupando além da dúvida se eu conseguiria me formar. Ela falou para eu ficar até a metade do curso e caso eu não visse resultado eu receberia o valor uma parte do valor pago de volta. Ela me deu a chave da casa de campo dela para eu passar quinze dias de férias sem estudar e poderia levar até dez pessoas. Levei uns amigos e o lugar era lindo nas montanhas perto de Los Angeles. Passei uns dez dias e voltei com a certeza de ser músico e seguir uma carreira musical.

07) RM: Quantos CDs você lançou? Cite alguns CDs que você participou como arranjador e guitarrista?

Nelson Faria: Gravei em centenas de CDs. mais de 200. Como guitarrista, violonista, arranjador, produtor. Fiz muita coisa. CDs meus, onde eu sou o “artista”, digamos assim, tenho 15 CDs lançados… Meu primeiro CD foi o “Ioiô”, onde tive como participações especiais a Cassia Eller, Zélia Duncan, Nico Assumpção entre outros. Foi um CD basicamente instrumental e saiu por uma gravadora, na época Perfil Musical. Depois a gravadora se desfez e eu lancei o CD de forma independente.

Trabalhei muito tempo com o João Bosco e gravei, fui arranjador, diretor musical e produtor de alguns de seus trabalhos. O CD – “Malabaristas do Sinal vermelho” foi indicado ao Grammy e o DVD – “Obrigado Gente” talvez tenha sido o trabalho mais aplaudido do João Bosco. Todo lugar do mundo que eu passo alguém vem me parabenizar por aqueles arranjos. O DVD ficou mesmo incrível e o João Bosco é um artista excepcional!

Fiz também em duo com a Leila Pinheiro o CD – “Céu e Mar”, com a Big Band da rádio de Frankfurt o CD – “Nelson Faria” e HR Bigband LIVE in Frankfurt, fiz os CDs: “Cassia Eller” e “Marginal” da Cassia Eller, gravei nos primeiros CDs da Ana Carolina, em muitos dos CDs: “Songbook” produzidos pelo saudoso Almir Chediak, fora do Brasil gravei com muita gente também, basicamente da música instrumental e do Jazz. Fiz a produção de um CD com a minha mãe Nathália Faria cantando e meus irmãos participando.

08) RM: Quais os artistas que você já trabalhou?

Nelson Faria: Se contar entre show e estúdios, Cassia Eller, Zélia Duncan, Leila Pinheiro, João Bosco, Ivan Lins, Milton Nascimento, Cauby Peixoto, Emilinha Borba, Ângela Maria, e por aí vai…

09) RM: Como é o seu processo de compor?

Nelson Faria: Gosto quando a composição vem “pronta”. Acontece as vezes. Eu sento com o violão e a música vem como se fosse alguém soprando no meu ouvido. Mas muitas vezes a música não vem pronta. Eu preciso elaborar, experimentar, mudar a tonalidade.

É como montar um quebra cabeça. Gosto de cantar ideias no celular quando me vem uma ideia na cabeça. Fica ali um monte de pequenas ideias que depois eu desenvolvo. Também gosto do desafio de compor algo na hora. tipo: num workshop eu peço três notas quaisquer para a plateia e componho ali algo, na hora. As vezes fica ótimo e eu guardo. As vezes fica só legal, e uso ali e depois esqueço.

10) RM: Quais são seus principais parceiros de composição?

Nelson Faria: Não tenho muitos parceiros. Minhas músicas são normalmente instrumentais e faço sozinho. Tive o caso de uma música que uma amiga Maria Ines Boabaid, me mandou uma poesia e musiquei, foi a música “Lets be happy Together”. Já era uma poesia em inglês. Segue o link: https://open.spotify.com/track/05Ym8EwDrtmnDvvrWhBmeM?si=pDvpGeuhSTG7Bg6PhwRKew .

Depois tive outros parceiros, o Gustavo Baião letrou temas umas quatro ou cinco músicas minhas e as letras acertaram em cheio! Ele é extremamente talentoso. Segue um link para um EP que ele gravou só com músicas minhas e letras dele: https://open.spotify.com/album/2eFSK08T9zDgMtDVE78kGH?si=HcoEuuPQRZKT7JjvCeOiQw

11) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Nelson Faria: Os prós são a liberdade de se fazer a música que você acredita, sem a interferência de mercado. Os contras são exatamente estar a margem do mercado musical.

Mas essa realidade tem mudado muito depois das redes sociais. Hoje, como artista independente, temos as mesmas ferramentas das grandes gravadoras ao nosso dispor. Tocamos nossa música na mesma plataforma e divulgamos na mesma rede social.

Não são poucos os casos de artistas de YouTube que alcançaram uma plateia gigantesca e que quando saíram dos seus quartos para o palco, conseguiram levar esse mesmo público para lotar os teatros. Dois exemplos que eu conheço de perto são Camille Bertault, cantora francesa e Matheus Asato, guitarrista brasileiro.

12) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

Nelson Faria: Sempre pensei em “abrir o leque”, colocar meus ovos em diversas cestas… ou seja, desde o começo entendi que deveria atuar em várias frentes. Tocar com artistas renomados como sideman, ter meu próprio trabalho e gravar meus discos, dar aulas, escrever livros, etc.

E fiz minha carreira assim. Hoje tenho mais de uma dezena de alguns discos lançados, mais de uma dezena de livros escritos, já toquei com vários artistas de renome, gravei e produzi centenas de discos, tenho meu curso online para aulas não presenciais, trabalhei por 20 anos como professor Universitário, 12 anos no Brasil e 8 anos na Suécia  e por ai vai…

13) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira musical?

Nelson Faria: Atualmente o foco são as redes sociais. Como disse o Milton Nascimento, “Todo artista tem de ir aonde o povo está”. E onde estão as pessoas nesse momento? Todas perto de seus celulares, procurando informação e entretenimento. Meu foco é dar a essas pessoas o que elas procuram.

14) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento da sua carreira musical?

Nelson Faria: Acredito que a internet, como concepção, só ajuda. O que precisa é desenvolver de forma melhor os sistemas de remuneração digital. Hoje, se colocamos um novo álbum para distribuir nas plataformas digitais, para se ter um rendimento minimamente razoável, é preciso ser tocado como Michael Jackson na época das rádios!

Ou seja, só com milhões de streamings, conseguimos algum numerário razoável. Então é mais difícil viver da venda de discos ou da sua música, mas em compensação, sabemos cada vez que a nossa música é tocada. Temos controle total. Só falta pagarem melhor e, para o bem das novas gerações, disponibilizarem fichas técnicas nos álbuns. Isso foi a maior perda, talvez.

15) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)?

Nelson Faria: Hoje, todo músico precisa ter um set up (equipamentos) mínimo de gravação em casa. Tanto para produzir seus trabalhos quanto para colaborar no trabalho de outras pessoas. Muito trabalho hoje se faz a distância. Tendo uma estrutura mínima em casa, vicie abre as possibilidades de tocar com o mundo inteiro.

16) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo. Mas, a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que um músico precisa fazer efetivamente para se diferenciar dentro de um nicho musical?

Nelson Faria: Acredito que o antigo ditado continua valendo: “Quem não é visto não é lembrado”. Acredito que todos nós, independente da música que fazemos, temos um público em potencial que está espalhado pelo planeta. Cada um de nós precisa “encontrar sua turma”, pessoas que gostem daquilo que você faz. Mas como as pessoas vão saber o que você faz, se você não mostra? Então a formula é a mesma. A boa notícia é que com um celular na mão você pode mostrar seu trabalho para o mundo inteiro.

17) RM: Como você analisa o cenário musical brasileiro. Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Nelson Faria: Muita gente boa tem aparecido. Citar nomes é perigoso, pois posso esquecer muita gente, mas tem me chamado atenção o grupo vocal Ordinarius, a cantora Julia Vargas e uma molecada de Brasília tocando Choro de forma moderna como Ian Coury, Marcio Marinho e Victor Angeleas essa rapaziada está trazendo um som novo e lindo!

18) RM: Quais as técnicas semelhantes e diferentes do Violão Popular e da Guitarra?

Nelson Faria: As digitações são as mesmas, porém cada instrumento traz suas peculiaridades do timbre e de execução. Tecnicamente também é diferente. o peso das cordas, tocar com os dedos ou de palheta. São detalhes que fazem uma grande diferença.

19) RM: Quais as técnicas semelhantes e diferentes do Violão Popular e Erudito?

Nelson Faria: Tecnicamente é muito parecido, porém no Violão Popular temos que criar os ritmos e as levadas, e estamos sempre improvisando, seja no acompanhamento ou no solo. No Violão Popular cada vez que tocamos uma música fazemos de uma forma diferente e no Violão Erudito está tudo escrito na partitura, então se você não é o compositor, você como executante tem muito pouco espaço para criação.

20) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Nelson Faria: A música só me deu alegrias por toda a vida. Criei meus três filhos com ela. Não tenho nada a reclamar. Acredito que ser músico foi uma benção que ganhei da vida!

21) RM: Você acredita que sem o pagamento do Jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Nelson Faria: Acredito que não. As rádios comerciais funcionam com o pagamento para tocar música na programação já faz um bom tempo e não vejo nenhum movimento no sentido contrário. Na real tem ficado mais profissional o sistema do pagamento, aluguel de tempo etc. Apenas as rádios públicas podem fazer um trabalho sem o compromisso comercial ou sem precisar de cobrar o jabá.

22) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Nelson Faria: A música é uma benção, uma maravilha, mas ela exige muito de nós. Tempo e dedicação. E quando sua carreira vai bem, você viaja muito e fica muito tempo longe da família. Não é preciso ter a música como profissão. Não acredito que seja pra todos. Conheço muito músico bom que tem uma profissão paralela. Não vejo problema nisso. Para mim, não foi possível porque a música me exigiu tempo integral. Isso é uma opção.

23) RM: Quais os guitarristas que você admira?

Nelson Faria: No Brasil meus preferidos da geração antes da minha são Toninho Horta, Hélio Delmiro e Heraldo do Monte. Da minha geração gosto muito do Lula Galvão, do Leo Amoedo e do Alexandre Carvalho, dos novos, Pedro Martins, André Niere e Mateus Asato.

24) RM: Quais os compositores eruditos que você admira?

Nelson Faria: Rachmaninoff talvez seja meu preferido. Mas Adoro Chopin e os impressionistas Debussy e Ravel.

25) RM: Quais os compositores populares que você admira?

Nelson Faria: Nossa… são tantos! Jacob do Bandolim, Pixinguinha e Tom Jobim são, para mim, a Santíssima Trindade da música brasileira. E na mesma estrada vem Guinga, Toninho Horta, Milton Nascimento, Cartola, Nelson Cavaquinho, Roberto Menescal, Carlos Lyra.

26) RM: Quais os compositores da Bossa Nova você admira?

Nelson Faria: Tom Jobim, Roberto Menescal, Carlos Lyra. Mas não posso deixar de falar de uma dupla que emplacou música pra músico! Ou seja, aquelas músicas que todo músico gosta de tocar. Estou falando de Mauricio Einhorn e Durval Ferreira.

27) RM: Nos apresente seus métodos de Guitarra?

Nelson Faria: Comecei na verdade com uma vídeo – aula lançada pela Giannini em 1991 chamada “Toques de Mestre”. Foi uma coleção que a Giannini lançou que tinham três vídeos-aulas a minha, de guitarra, a do Arthur Maia de baixo elétrico e a do Ulisses Rocha, de violão. Foi por aí que eu comecei as minhas publicações.

Em 1993 lancei o livro “A arte da Improvisação” para todos os instrumentos, pela Lumiar editora, do saudoso Almir Chediak. Esse livro foi um tremendo sucesso. Até hoje vendo entre 1 e 3 livros por dia em alguma loja de alguma cidade ou via internet. Em seguida lancei o livro “The Brazilian Guitar Book”, em 1996.

Fiz contato com a editora americana Sher Music Co. e eles compraram a ideia de fazer o livro de cara. Lembro ainda que para minha surpresa depois de enviar uma proposta do livro, recebi em casa o contrato para assinar e um cheque de U$1,000.00 como advance, pra começar a escrever o livro. É um livro que cataloga várias levadas da música brasileira, como samba, bossa-nova, baião, choro e frevo.

Esse livro é até hoje o meu best selar e inicialmente escrito em inglês, hoje já tem publicações em Japonês, Russo, Italiano e Português. Em 1999 escrevi “Acordes, arpejos e escalas”, outro livro bem sucedido, pela Lumiar editora. É um livro que mapeia o braço do violão e da guitarra por completo e era uma falha nas publicações existentes até o momento que eu o lancei. 2002 lancei pela Sher Music novamente, em parceria com o pianista Cliff Korman o livro “Inside the Brazilian Rhythm Section”. Que são demonstrações de como a secão rítmica funciona na música brasileira. Violão, piano, baixo, bateria e percussão.

Depois, em 2008, lancei pela Lumiar editora a coleção “Toque Junto Bossa Nova”, com meus parceiros de palco Kiko Freitas e Ney Conceição. O livro vem com um CD em play along com arranjos para violão acompanhado de baixo e bateria de músicas do Tom Jobim. Em 2009 lancei o livro “Harmonia Aplicada ao violão e à guitarra”, com prefácio de Hélio Delmiro, esse livro lancei inicialmente de forma independente, fazendo um tipo de “crowdfunding” que na época nem era comum no Brasil. Vendi 2000 cópias antes do livro ir para a gráfica.

Trata de chord melody, principalmente. Depois lancei o livro “Exercícios de Leitura para guitarristas e violonistas”. Nós guitarristas temos essa “pecha” de sermos péssimos leitores e não é por acaso. A guitarra tem muitas especificidades e a mesma nota se repete em muitos lugares diferentes. Existem procedimentos que facilitam nossa vida. Esse livro trata disso. Depois lancei o livro Música Brasileira pra Violoncelo e Violão que são transações dos arranjos que eu e o Gustavo Tavares fizemos para nosso CD – “Na esquina de Mestre Mignone”. Todos os métodos citados estão à venda.

28) RM: Quais as principais técnicas que o aluno deve dominar para se tornar um bom Guitarrista?

Nelson Faria: Divido o estudo em seis partes: Conhecimento do braço (Escalas, Arpejos, Acordes); Técnica; Harmonia; Improvisação; Leitura; Repertório. Acrescento: Teoria e Percepção.

29) RM: Quais os principais vícios e erros que devem ser evitados pelo aluno de Guitarra?

Nelson Faria: O erro mais comum que vejo é o aluno tocar algo sem ter a mínima ideia do “som”. Tocar uma escala porque o “dedo” já sabe tocar, mas o som não é um reflexo de uma melodia que ele tem na cabeça. O dedo toca sozinho e normalmente o resultado é pobre musicalmente falando.

30) RM: Quais as principais técnicas que o aluno deve dominar para se tornar um bom Violonista?

Nelson Faria: Divido o estudo em seis partes: Conhecimento do braço (Escalas, Arpejos, Acordes); Técnica; Harmonia; Improvisação; Leitura; Repertório. Acrescento: Teoria e Percepção.

31) RM: Quais os principais vícios e erros que devem ser evitados pelo aluno de Violão?

Nelson Faria: O erro mais comum que vejo é o aluno tocar algo sem ter a mínima ideia do “som”. Tocar uma escala porque o “dedo” já sabe tocar, mas o som não é um reflexo de uma melodia que ele tem na cabeça. O dedo toca sozinho e normalmente o resultado é pobre musicalmente falando.

32) RM: Quais os principais erros na metodologia de ensino de música?

Nelson Faria: Dissociar o estudo da teoria, dos arpejos e escolas do SOM. A pessoa as vezes sabe tudo. Sabe dizer que o acorde tal é o subV7 do outro, que tem função subdominante. Mas quando você toca, ele não “percebe” isso. Ou seja, é tudo feito muito no papel.

33) RM: Existe o Dom musical? Como você define o Dom musical?

Nelson Faria: Sim, acho que tem pessoas que desenvolvem mais o dom musical que outras. principalmente porque tem acesso a ouvir música que ajuda nas ligações neurais. Existe um estudo científico que mostra que uma hora por dia de música complexa na primeira infância desenvolve várias habilidades no cérebro, não só na música, mas também na matemática na rapidez de raciocínio etc…

34) RM: Qual é o seu conceito de Improvisação Musical?

Nelson Faria: Improvisar é a mesma coisa que falar. Todos nós improvisamos quando estamos falando, a não ser que estejamos fazendo um discurso decorado ou lendo um texto.

35) RM: Existe improvisação musical de fato, ou é algo estudado antes e aplicado depois?

Nelson Faria: É igual a falar. Quando falamos improvisamos o texto, mas usamos palavras do nosso vocabulário. Não ficamos criando as palavras na hora que estamos falando. Na música é igual.

36) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre Improvisação musical?

Nelson Faria: O prol é quando mostra que a improvisação se dá pela construção do vocabulário. O CONTRA é quando se esconde essa informação e o aluno fica estudando as escalas e achando que sairá criando ideias geniais a partir daí. Ensine o alfabeto a uma criança e nunca uma palavra e veja se ela conseguirá sair falando sozinha. Não é assim que funciona.

A criança precisa imitar, aprender as palavras e seus significados. O que ela vai dizer depois, isso é com ela, mas as palavras, serão as mesmas em todas as pessoas que falam a mesma língua, com um vocabulário um pouco maior para os letrados e menos para os não letrados…

37) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre o Estudo de Harmonia musical?

Nelson Faria: Acho que o contra é sempre dissociar a teoria da prática. Se estamos falando de MÚSICA o ouvido é o mais importante.

38) RM: Quais os métodos que você indica para o estudo de leitura à primeira vista?

Nelson Faria: Indico o meu. É um método que leva o estudante a evoluir por meio de exercícios que vão aos poucos aumentando o grau de dificuldade e tenho tido devolutiva incrível de pessoas me agradecendo, que finalmente estão conseguindo ler música!

39) RM: Como chegar ao nível de leitura à primeira vista?

Nelson Faria: Prática diária! Costumo dizer que dominar o instrumento e a leitura é como subir uma escada rolante que está descendo. Para ficar no mesmo lugar precisa fazer um esforço X, se quiser evoluir, 2X e se parar, volta pro térreo… ou seja, começa do zero novamente.

40) RM: O que o motivou a criar e apresentar o programa Café lá em Casa?

Nelson Faria: Tenho muitos amigos músicos e já toquei com metade da MPB. Gosto de conversar e tocar… Os ingredientes já estavam lá. O estopim foi uma visita que o João Bosco me fez. Ele me ligou e disse: Nelsinho, estou aqui perto da sua casa; posso passar pra tomar um café? Pronto… nasceu a ideia do programa! Pois, o café era um pretexto para conversarmos e tocarmos e mostrar nossas músicas…

41) RM: Quais os seus projetos futuros?

Nelson Faria: Atualmente estou super dedicado ao meu curso online: www.ficaadicapremium.com.br . Acredito que estarei super dedicado a isto por um bom tempo ainda. Todo dia tem novo desafio e isso tem sido muito bacana. Minha ideia é levar a informação ao maior número de pessoas possível de forma democrática e com uma excelência que só se consegue tendo professores que são músicos atuantes no mercado.

Hoje temos como professores músicos como Toninho Horta, Joyce Moreno, Kiko Freitas, Ney Conceição, Filó Machado, Chico Chagas, Adriano Giffoni, Rogério Caetano… ou seja, todos músicos experientes compartilhando informação alí sob a minha coordenação pedagógica. Estamos aumentando o número de aulas e professores a cada dia e isso por si só, já é um grande desafio. Obrigado pela oportunidade de ser entrevistado pela RitmoMelodia.

42) RM: Nelson Faria, Quais seus contatos para show e para os fãs?

Nelson Faria: nossamusica.nelson@gmail.com  | www.nelsonfaria.com/music

| www.umcafelaemcasa.com.br | https://www.ficaadicapremium.com.br e o CANAL que tenho no Telegram, onde quase que diariamente posto notícias, dicas etc: https://t.me/joinchat/AAAAAFi_jSyAWTft2xdU4A


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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor responsável pela revista digital RitmoMelodia desde 2001, jornalista, músico, poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, propaga a diversidade musical brasileira através de entrevistas e artigos. Jornalista formado pela Universidade Estadual da Paraíba - UEPB (1996 a 2000) que lançou um livro de poesia em 1998 e seus poemas ganharam melodias gravadas em três álbuns concluindo a trilogia "reggae baseado em poesia" no seu projeto musical Reggaebelde. Unindo a sensibilidade do poeta, músico com o senso crítico do jornalista e pesquisador musical colocado em prática em uma revista que Canta o Brasil.

Publicado Por
Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa
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