Mozar Syqueira

Mozar Syqueira

O compositor, cantor e violonista pernambucano Mozar Syqueira, natural de Recife-PE. Residiu em São Paulo – SP entre 1993 e 2013, voltou ao Recife, onde ficou até junho de 2020 e, atualmente está radicado novamente em São Paulo.

O envolvimento com a música começou em sua terra natal, por volta dos 15 anos de idade, quando se interessou pelo violão de seu pai, que tocava por hobby. Junto com a música veio o teatro e a ideia de musicar uma peça, escrita por um amigo, acabou levando aos festivais de música, onde arrebatou diversos prêmios, no final dos anos 70 e início da década de 80 (venceu também um festival em São Paulo, no início dos anos 90). Apresentou-se em diversas casas noturnas, festivais e projetos culturais, em Recife, interior de Pernambuco e, por duas vezes, no interior do Pará. Gravou também um vinil autoral e independente.

Até que, em 1993, mudou-se para São Paulo e continuou sua trajetória, sempre exercendo outras atividades profissionais, além da música. A veia artística sempre falou alto e Mozar continuou se apresentando em casas noturnas e projetos culturais, na capital e interior de São Paulo. Projetos como Arte nas Ruas, Música na Biblioteca, Festival de inverno de Paranapiacaba, etc. Em 2008, foi convidado para fazer a abertura de dois shows do pianista pernambucano Vítor Araújo, nos teatros Adamastor e Padre Bento, em Guarulhos-SP. As apresentações de Mozar despertaram interesse nos patrocinadores de dar um empurrãozinho no seu trabalho e assim aconteceu a gravação do primeiro álbum, “Ofício”, com dez músicas de sua autoria, uma delas em parceria com Pedro Sossego, músico paulista e outra com Zeh Rocha, compositor pernambucano.

Em junho de 2012, fez uma maratona de sete shows em cidades do interior de Pernambuco, por ocasião das comemorações do São João, com um repertório focado em algumas músicas próprias e na obra de Luiz Gonzaga. Um ano depois, voltava a morar em Recife e continuou sua caminhada musical. Em 2014, por conta de sérios problemas de saúde, teve que se afastar de todas as suas atividades, por, mais ou menos, 3 anos. Deu a volta por cima, retomou a jornada e, em junho de 2020, um mês antes de voltar a residir em São Paulo, foi para o estúdio e gravou mais um álbum autoral e inédito. Sempre fiel às suas raízes nordestinas, Mozar não esconde uma certa influência de outros estilos, como a bossa nova, por exemplo. Essas influências estão bem claras nesse novo álbum que traz duas parcerias com o poeta pernambucano Gilvandro Filho, uma com Lysias Ênio, irmão e parceiro do grande João Donato e, de quebra, tem a participação de Marcelo Melo, líder e fundador do Quinteto Violado, cantando com Mozar. Um trabalho que merece ser conferido.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Mozar Syqueira para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 04.07.2021:

Índice

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Mozar Syqueira: Nasci no dia 21.11.1958, em Recife-PE. Registrado como Mozar Siqueira de Melo.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Mozar Syqueira: Eu tinha uns 13 ou 14 anos de idade, quando minha mãe Severina Siqueira de Melo comentou com alguém que uma vez o violonista Canhoto da Paraíba tinha ido na minha casa, que meu pai Manuel Ferreira de Melo o conhecia e tal. A partir desse dia eu comecei a mexer no violão do meu pai e a me interessar cada vez mais.

03) RM: Qual sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical?

Mozar Syqueira: Estudei música dois anos e meio no Conservatório Pernambucano e tive aulas esporádicas com alguns violonistas de Recife – PE. Mas acho que minha formação é muito intuitiva e de observação. Uma escola boa foi tocar na noite. Além disso tenho um curso superior incompleto de Comunicação Social.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Mozar Syqueira: Acho que vou esquecer algumas, mas vamos lá: Nelson Gonçalves, Noel Rosa, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Dominguinhos, Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Elis Regina, Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Lenine, Quinteto Violado, Banda de Pau e Corda, Luiz Melodia, Milton Nascimento, Chico César e sai por aí. Acho que todos, de alguma forma, continuam tendo importância.

05) RM: Quando, como e onde você começou sua carreira musical?

Mozar Syqueira: Mais ou menos na metade da década de 70, eu comecei a fazer umas músicas, em parceria com meu vizinho/amigo Roberto Borges e hoje meu compadre. Começamos a participar de festivais de música e sempre rolava um prêmio. Aí começamos a fazer apresentações em colégios, cursinhos, etc. Posso dizer que, profissionalmente, foi mesmo no início dos anos 80, quando eu comecei a cantar e tocar na noite recifense para completar o orçamento; eu já estava casado, com dois filhos. Daí não parei mais. Só que a música sempre foi coadjuvante, profissionalmente. Era um sonho que ajudava nas despesas. Eu não tinha coragem de tentar viver só da música, tendo uma família pra sustentar.

06) RM: Quantos CDs lançados?

Mozar Syqueira: Em 1993 eu lancei um LP (vinil), em Pernambuco e, uma das músicas, o “Trem do Forró”, acabou fazendo um certo sucesso por lá, principalmente nas festas juninas. Logo depois mudei para São Paulo e, só em 2008 gravei o primeiro CD, que também teve uma de suas músicas, “Água de Coco”, fazendo um ôba, ôba, relativamente modesto.

07) RM: Como você define seu estilo musical?

Mozar Syqueira: Apesar das influências diversificadas, eu diria que é MPB com sotaque nordestino.

08) RM: Você estudou técnica vocal?

Mozar Syqueira: Estudei um pouco no Conservatório, em Recife – PE e depois, já em São Paulo, fiz um curso rápido.

09) RM: Qual a importância do estudo de técnica vocal e cuidado com a voz?

Mozar Syqueira: O estudo de técnica vocal e cuidado com a voz são fundamentais para um resultado final de qualidade da voz e para preservar essa qualidade. Embora eu reconheça que, nesse aspecto, eu sou um pouco indisciplinado.

10) RM: Quais as cantoras (es) que você admira?

Mozar Syqueira: Elis Regina, Milton Nascimento, Nelson Gonçalves, Caubi Peixoto, Cláudia, Jane Duboc, Luiz Melodia, Emílio Santiago, Alceu Valença, Caetano Veloso, Geraldo Maia, Airton Montarroyos, Ed Motta, Renato Braz, João Bosco, Flaira Ferro.

11) RM: Como é seu processo de compor?

Mozar Syqueira: Eu não tenho fórmula definida. Faço só a letra, ou só a melodia, ou as duas juntas, ou mando a letra para um parceiro. Depende do momento em que a cria quer chegar.

12) RM: Quais são seus principais parceiros de composição?

Mozar Syqueira: Nos anos 70 era Roberto Borges, que hoje é jornalista aposentado. Depois fiz muita coisa sozinho. Aí veio Gilvandro Filho, poeta pernambucano, parceiro de Marcelo Melo, do Quinteto Violado, do saudoso Tavito e muitos outros. Zeh Rocha, também pernambucano, parceiro de Lenine, Vicente Barreto entre outros. E, recentemente, Lysias Ênio, grande poeta, irmão e parceiro da lenda viva, João Donato.

13) RM: Quem já gravou as suas músicas?

Mozar Syqueira: Além de mim, quase ninguém (risos). Uma banda de Recife – PE, chamada Cia. Groove, que não existe mais, Bento Rezende, grande cantor pernambucano e, no meu mais recente trabalho, Marcelo Melo, líder e fundador do Quinteto Violado.

14) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Mozar Syqueira: Acho que o principal prol, é que você pode decidir tudo sozinho. E o principal contra, é que você tem que fazer, praticamente, tudo… ou quase tudo.

15) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

Mozar Syqueira: As coisas mudaram muito. Eu venho tentando criar o máximo de intimidade com essa tecnologia toda, redes sociais, plataformas digitais e não sei mais o que. E continuo compondo, praticando, fazendo contatos com músicos e pensando em estratégias de divulgação.

16) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira?

Mozar Syqueira: Divulgar meu trabalho onde for possível e estratégico, e continuar antenado, absorvendo as novidades tecnológicas desse novo mercado.

17) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira?

Mozar Syqueira: Ajuda na medida em que abre um espaço muito maior para gente aparecer do que se tinha antes. Prejudica ou atrapalha, pois como sempre foi, quem tem mais grana, aparece mais.

18) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)?

Mozar Syqueira: Eu vejo mais vantagens. Hoje qualquer um pode gravar um trabalho profissional sem muita dificuldade. Talvez a desvantagem seja a falta de conhecimento, talento e sensibilidade, de algumas pessoas, para se produzir um trabalho de alta qualidade.

19) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo. Mas, a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Mozar Syqueira: Acho que o meu diferencial é ser fiel ao meu propósito. É fazer o que me realiza como artista, principalmente como compositor e não me ligar em modismos comerciais ou coisa parecida. Tentar fazer uma música honesta e com conteúdo.

20) RM: Como você analisa o cenário musical brasileiro. Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Mozar Syqueira: As pessoas dizem que a gente tem que respeitar todos os gostos. Na música, eu tenho uma visão diferente, acho que tem a música honesta, com conteúdo, e tem a música produzida pra faturar, que não tem qualidade, nem conteúdo, nem nada. Já faz um bom tempo que isso vem acontecendo e piorando cada vez mais. Talvez por isso eu não me sinta confortável para falar de revelações. Não tenho acompanhado muito. Mas tenho visto muita gente fazendo música de qualidade e que não aparece, porque os espaços estão muito disputados e cada um vai fazendo seu público, sem aparecer na grande mídia. Eu poderia citar Airton Montarroyos, Ana Cañas, Mariana Aydar, Nando Diniz, mas tem muito mais gente. Trabalhos consistentes, Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Geraldo Azevedo, Alceu Valença, enfim, grandes nomes. Quem regrediu, é complicado. Talvez seja mais fácil dizer quem não é, porque nunca foi (risos).

21) RM: Quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Mozar Syqueira: Já falei alguns, mas o primeiro que eu cito, até porque conheci e acompanho, é Geraldo Azevedo. Elis Regina, Chico Buarque, João Bosco, Lenine e muitos outros.

22) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical (falta de condição técnica para show, brigas, gafes, show em ambiente ou público tosco, cantar e não receber, ser cantado etc)?

Mozar Syqueira: Vou resumir: todas essas situações citadas na pergunta já aconteceram comigo e também etc.

23) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Mozar Syqueira: O que me deixa mais feliz é quando a minha música toca a emoção de alguém. O que me deixa mais triste é a falta de caráter de muita gente que trabalha com algo tão sublime como a música.

24) RM: Existe o Dom musical? Como você define o Dom musical?

Mozar Syqueira: Sim. Tem gente que diz que o negócio é muito mais transpiração do que inspiração. Eu acho que você nascer com o dom, as coisas fluem melhor, mais rápido e transpira menos.

25) RM: Qual é o seu conceito de Improvisação Musical?

Mozar Syqueira: Baseia-se em conhecimento técnico e talento/dom.

26) RM: Existe improvisação musical de fato, ou é algo estudado antes e aplicado depois?

Mozar Syqueira: Existe. É dentro do que eu falei na resposta anterior.

27) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre Improvisação musical?

Mozar Syqueira: Não é muito minha praia, mas dentro do que eu já vi, acho que alguns querem engessar demais, teorizar demais.

28) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre o Estudo de Harmonia musical?

Mozar Syqueira: Talvez a minha formação mais intuitiva me leve a pensar que a teoria é importante, mas não deve amarrar a criatividade.

29) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Mozar Syqueira: Se eu tiver um amigo na rádio, elas tocam (risos).

30) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Mozar Syqueira: Tenha certeza do que você quer, mantenha o foco e os pés no chão.

31) RM: Quais os prós e contras do Festival de Música?

Mozar Syqueira: Em geral, Festival de Música é uma boa vitrine. O problema, às vezes, são os requisitos exigidos e os julgamentos sem pé nem cabeça.

32) RM: Hoje os Festivais de Música revelam novos talentos?

Mozar Syqueira: Não dá pra comparar com os festivais do passado (nos anos 60,70,80) que, realmente, impulsionaram carreiras importantes. Mas, alguns ainda tem sua relevância.

33) RM: Como você analisa a cobertura feita pela grande mídia da cena musical brasileira?

Mozar Syqueira: A cobertura feita pela grande mídia da cena musical brasileira é desastrosa, corrompida, comprometida com a mediocridade e a pobreza cultural, social e política que assolam o Brasil.

34) RM: Qual a sua opinião sobre o espaço aberto pelo SESC, SESI e Itaú Cultural para cena musical?

Mozar Syqueira: Acho que, apesar de alguns entraves para o artista novo entrar na agenda desses espaços SESC, SESI, Itaú, Caixa, B.B Cultural, são iniciativas que deram certo e que contribuem de forma relevante para a arte e a cultura em geral, principalmente em São Paulo.

35) RM: O circuito de Bar na cidade que você mora ainda é uma boa opção de trabalho para os músicos?

Mozar Syqueira: Eu fiz muito o circuito de bares em Recife – PE e São Paulo. Ainda é uma opção, mas já foi bem melhor, quando o cenário musical era outro.

36) RM: Quais os seus projetos futuros?

Mozar Syqueira: Enquanto durar a pandemia do Covid-19, o foco principal é no meu novo trabalho autoral. Em 26 de março, lancei a primeira música, nas plataformas digitais. É um trabalho que diz muito das minhas influências musicais e foi produzido com muito carinho. No mais aguardar a pandemia passar p\ra cair na estrada e voltar aos palcos.

37) RM: Quais seus contatos para show e para os fãs?

Mozar Syqueira: (81) 99519 – 2430 | [email protected]

| https://www.instagram.com/mozar_syqueira

| https://web.facebook.com/MozarSyqueiraOficial

| https://web.facebook.com/mozar58

Canal: https://www.youtube.com/user/MozarCompositor

“Pedro” – Mozar Syqueira: https://www.youtube.com/watch?v=PYgGckVEhyM

Playlist: https://www.youtube.com/watch?v=sNULDZggW4Y&list=FLnhRfmbyHIGKf_K0g0vyvMA

“Pedro” – Mozar Syqueira: https://open.spotify.com/album/0NU1bBPZnEa8MxvhcCwxrP?si=6_w405qsQp6vszNUQYrFLA&utm_source=whatsapp&dl_branch=1&nd=1


2 Comments on “Mozar Syqueira”

  1. Mozar Syqueira é um dos meus compositores favoritos!
    Acompanho e conheço sua obra desde os festivais do final da década de 1970, no cenário cultural efervescente do Recife. Ele mudou pra São Paulo e eu continuei em contato com seu trabalho. Tenho a honra de ter gravado algumas de suas belas canções…

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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor responsável pela revista digital RitmoMelodia desde 2001, jornalista, músico, poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, propaga a diversidade musical brasileira através de entrevistas e artigos. Jornalista formado pela Universidade Estadual da Paraíba - UEPB (1996 a 2000) que lançou um livro de poesia em 1998 e seus poemas ganharam melodias gravadas em três álbuns concluindo a trilogia "reggae baseado em poesia" no seu projeto musical Reggaebelde. Unindo a sensibilidade do poeta, músico com o senso crítico do jornalista e pesquisador musical colocado em prática em uma revista que Canta o Brasil.