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Uma Revista criada em 2001
pelo jornalista, músico e poeta paraibano
Antonio Carlos da Fonseca Barbosa.

Moreno Overá


O cantor, compositor, violeiro paulista Moreno Overá é multi-instrumentista, mas a viola ganhou sua alma e predileção.

Ivan Vilela comenta sobre Moreno Overá: “sou professor de Viola Brasileira e de História da Música Popular Brasileira na Faculdade de Música da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Entre os anos de 2018 e 2021 estive ligado à Universidade de Aveiro, Portugal, dirigindo uma pesquisa no Instituto de Etnomusicologia (INET) sobre trânsitos e relações sociais criadas pelas violas e cavaquinhos (ambos instrumentos de origem portuguesa) ao logo do Atlântico lusófono. Em função deste trabalho consegui manter contato com a imensa maioria dos tocadores de viola atuantes no Brasil e em Portugal. Em 2018, fui curador do selo SESC na série de CDs – “VIOLA PAULISTA”, volumes 1 e 2 onde pude conhecer com mais profundidade a obra do violeiro Moreno Overá, que participou desta coletânea lançada em CD e nos streamings. O violeiro Moreno Overá representa hoje uma das mais avançadas pontas que ligam o universo da tradição à uma leitura dos acontecimentos contemporâneos. Penso que o trabalho desenvolvido pelo músico Moreno Overá seja, dentro de sua geração, um dos mais importantes trabalhos de viola que existem hoje no Brasil. O uso de formas tradicionais do universo caipira, são por ele, usadas como base para uma leitura contemporânea da nossa história unindo assim pontas que, aparentemente distantes, precisam estar sempre ligadas para que as pessoas não entrem em um estado de desenraizamento cultural. Moreno, além de grande compositor e poeta, é um exímio instrumentista de viola”.

O Show – Viola, causo e prosa. É um dos muitos projetos realizados por Moreno Overá. Aqui se propõe um passeio descontraído e artístico mostrando vários elementos da cultura caipira: A Festa do Divino, a nossa viola e sua chegada às terras brasileiras, simpatias do violeiro, o folclore profano, o Saci: o lobisomem e outras lendas. A história do encontro entre o compositor Elpídio dos Santos e Amácio Mazzaropi, a cultura de paz inserida na arte popular brasileira, o Vale do Paraíba e sua musicalidade e a valorização cultural do homem do campo. Uma vivência permeada por músicas, causos e fatos históricos. O real se confunde com o irreal e vice-versa… Humor, poesia, ecologia e valores humanos são a tônica deste trabalho.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Moreno Overá para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 17.08.2022:

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Moreno Overá: Nasci no dia 11/12/1970 em Campinas – SP. Registrado como Marcelo Guedes.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Moreno Overá: Meu primeiro contato com a música, foi com minha mãe, Dona Marta. Ela cantava na missa da igreja católica e minha lembrança é de com 5 anos idade cantar ao lado dela no coral dessa igreja. Já com instrumentos, lembro-me do meu avô, João Guedes, tocando viola e contando suas histórias de assombração.

03) RM: Qual sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical?

Moreno Overá: Minha formação foi primeiramente aulas de violão aos 13 e 14 anos de idade com Doriva Oliveira, conceituado baixista campineiro. Depois aulas de guitarra com Nelsinho da banda de jazz Anacruse, depois segui como autodidata. Eu, peguei gosto pelo violão de 12 cordas aos 22 anos de idade, já sonhava com arranjos de viola caipira, fiz algumas vivências com o mestre Ivan Vilela, arranjei uma viola e fui viver em Pirenópolis-GO, onde participei de grupos de folia de reis e catira.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Moreno Overá: Na infância minhas influências foram: Tonico e Tinoco, Pena Branca e Xavantinho, Tião Carreiro. Na adolescência foram: Roberto Carlos, Raul Seixas, Caetano Veloso, Clube da Esquina, Led Zeppelin, Jimi Hendrix. Depois dos 20 anos de idade foram: Ravi Shankar, Geraldo Azevedo, Almir Sater, Paco de Lucia, Luis Perequê, Paranga, Ivan Vilela. A obra de Roberto Carlos deixou de ter importância. Todos os outros artistas, vez em quando ainda escuto.

05) RM: Quando, como e onde você começou sua carreira musical?

Moreno Overá: Aos 15 anos de idade (1985) tocando guitarra em Campinas – SP, depois dos 21 anos fui para os instrumentos acústicos. Em Pirenópolis-GO, aos 30 anos de idade, assumi a viola brasileira (Caipira) como instrumento de expressão, vivi em São Lourenço – MG, Paraty – RJ. E faz 17 anos que estou em São Luiz do Paraitinga-SP, atuando junto a Folias de Reis, Congadas, Calangos, narradores de histórias e violeiros tradicionais da Região, bem com músicos de variados estilos.

06) RM: Quantos CDs lançados?

Moreno Overá: Cinco CDs oficiais: “A Nave III Milênio” (1998) em parceria com Henrique dos Anjos. “ANAVE Oberá – solo” (2020). “Brasil Viola – solo” (2012). A Coletânea “Viola Paulista” (2018), com a música “Brasil Viola” (Moreno Overá) pelo selo SESC e produzido por Ivan Vilela e Tarancón de Todos os Tempos – como integrante do grupo.

07) RM: Como você se define como Violeiro?

Moreno Overá: Sou fascinado pela cultura popular de forma geral, manifestações, lendas, religiosidades e instrumentos. Também sou eclético sobre estilos musicais, mas, é muito importante a mensagem que se transporta via cultura, através de um instrumento. Encontrei na viola um meio no qual consigo me comunicar com vários mundos. O mundo das pessoas simples e dos eruditos, do camponês ao professor de universidade do Brasil ou de qualquer outro país. Sem sequer saber o idioma, tenho a certeza absoluta de que consigo me comunicar pelas 10 cordas de minha viola…

08) RM: Quais afinações você usa na Viola?

Moreno Overá: Afinações: Cebolão em Ré (D, A, F#, D, A) e em Mi (E, B, G#, E, B), 4 pontos, Natural e Paraguaçu, são minhas conhecidas, mas eu toco mesmo em Rio Abaixo (D, B, G, D, G).

09) RM: Quais as principais técnicas o violeiro tem que conhecer?

Moreno Overá: Basicamente o violeiro deve conhecer bem uma afinação de sua preferência, saber as escalas duetadas, conhecer uma diversidade de ritmos de viola, principalmente os de sua região. Se possível, cantar afinado, ou ao menos se comunicar bem. Sempre observar os violeiros mais velhos e os mestres da cultura popular, com reverência e sem questionar o quanto toca um ou outro, mas saber que de toda experiência algo se aprende. Se existem técnicas para ser violeiro, essas são as que eu conheço. A parte disso: Estudar é sempre bom!

10) RM: Quais os violeiros que você admira?

Moreno Overá: Poxa vida! São muitos, mas o maior de todos é Ivan Vilela. Gosto de Helena Meireles, Renato Andrade, de Tião Carreiro, Almir Sater, Leticia Leal, Adriana Farias, Paulo Freire, Roberto Correia, Levi Ramiro, Bruno Sanches e tantos, e outras, que nessa entrevista não caberia na folha…

11) RM: Como é seu processo de compor?

Moreno Overá: Quando eu encasqueto com algum tema, me debruço sobre ele e não paro até que termine. Pode ser em 7 minutos, 7 dias, 7 anos… Instrumental, canção ou simples poema. Gosto de parcerias e de desafios. Como por exemplo, quando alguém me propõe um tema… Pudesse eu, sempre estaria compondo, mas existem outras necessidades, como comer, beber água, etc… Então limito-me um pouco.

12) RM: Quais as principais diferenças técnicas entre a Viola e o Violão?

Moreno Overá: São bem parecidas, a principal diferença, são os desenhos de escalas e das harmonias, pela diferença de afinações. Impossível por exemplo fazer o ritmo recortado goiano, ou pagode de viola, sem uma afinação aberta. Isso causa muita diferença e percebe-se que a viola é outro instrumento.

13) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Moreno Overá: A minha maior dificuldade é não ter uma equipe: Produção, assessoria de imprensa e venda do espetáculo. No meu caso, tenho que ser o artista, o compositor, o arranjador, o músico, o produtor artístico, o produtor-executivo, o burocrata e o assessor de imprensa. As vezes tenho ajuda de prestadores de serviço nessas áreas. Principalmente quando existem projetos e apoios financeiros, via editais ou leis de incentivo. Talvez se eu fizesse “Sertanejo Universitário”, ou aceitasse propinas, isso seria mais fácil. No entanto, a ética em mim, ecoa rumo ao eterno…

14) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

Moreno Overá: Sempre estou compondo, não somente músicas, mas formatos e espetáculos distintos. Penso sempre em estar com minha equipe de músicos prediletos completa, mas a dura realidade, me fez criar possibilidades de fazer tudo que planejo em quinteto, quarteto, trio, duo e solo. Estou sempre em contato com centros culturais, outros artistas de minha área e outras. Atento as oportunidades e sempre buscando ações coletivas, sempre que possível. Minha arte, não é minha, ela pertence ao mundo, assim como todos os recursos que está pode gerar.

15) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira?

Moreno Overá: Estou sempre atento a editais, chamamentos, tenho minhas músicas em várias plataformas e mantenho um canal Youtube. Onde divulgo minha obra e tenho um quadro de entrevistas ao vivo e online com uma diversidade de artistas….

16) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira?

Moreno Overá: A internet ajuda na possibilidade de divulgar e alcançar o público certo, mas ao mesmo tempo, exige uma rapidez sobre os conteúdos que destoam da calma desse violeiro.

17) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)?

Moreno Overá: Essa parte é a que eu mais gosto, só vejo vantagens em poder tocar e gravar com pessoas de várias partes do Brasil e do mundo.

18) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar o CD não é mais o grande obstáculo. Mas concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Moreno Overá: Tento não ser concorrente, quero ser parceiro, me esforço o máximo pelas ações coletivas, como bem já falei. Tenho a certeza de que o que faço é único. Pois em meu trabalho não me distancio do humano que sou, quero estar perto do público, sem formalidades. Quando estou triste não escondo, quando contente idem. Assim, o que busco é simplesmente, que as pessoas que acompanham o meu trabalho e sintam afinidades com meu singelo fazer artístico, possam realmente conhecer o tal Moreno Overá.

19) RM: Como você analisa o cenário da música Sertaneja. Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Moreno Overá: A música Sertaneja se divide em aquilo que é midiático, que não fortalece as raízes sertanejas regionais e os que se mantiveram firmes em sua história. Acredito que o termo sertanejo deva ser reavaliado. Duas referências de estilos diferentes, mas que sinto como legítimos em sua história: Zé Mulato e Cassiano e Marília Mendonça. Poderia citar inúmeros outros no sentido de regressão, mas me abstenho para não ser indelicado.

20) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Moreno Overá: Mais Feliz é a possibilidade de compartilhar o momento presente e festa da existência, mais triste é que toda festa tem fim…

21) RM: Quais os outros instrumentos musicais que você toca?

Moreno Overá: Charango, Violão, Tiple, Guitarra Elétrica, Bandolim, Contrabaixo, Cavaquinho, Ukulele. Mas me dedico 100% a Viola Caipira.

22) RM: Quais os vícios técnicos o violeiro deve evitar?

Moreno Overá: No sentido de técnica no manusear o instrumento. O violeiro deve se atentar a boa digitação da mão esquerda e utilizar todos os dedos aptos e evitar o famoso vicio do uso dos dois dedos, o que faz com que um solo se torne 10 vezes mais difícil do que realmente é. Buscar um bom professor, nunca é tarde.

23) RM: Quais os erros no ensino da Viola?

Moreno Overá: Vejo que assim como no ensino de outros instrumentos, guitarra, violão, bandolim, etc… O maior erro é exigir de forma demasiada a velocidade e técnicas avançadas na execução das escalas e harmonias. Quando esquecemos o lado lúdico, tocar qualquer instrumento pode se tornar uma ação fria. Importante lembrar que é de arte que tratamos e o que destaca um instrumentista do outro, é sua sensibilidade ao executar. “Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar… os que não se fazem amar e os inumanos” Charlie Chaplin.

24) RM: Tocar muitas notas por compasso ajuda e prejudica a musicalidade?

Moreno Overá: Essa capacidade é válida para a aprendizagem, no entanto, aquilo que mais me impressiona na música são os silêncios. A mente equilibrada não se perturba com os silêncios, mas compreende que todo movimento necessita de pausas. Uma nota musical bem colocada, que é capaz de inspirar a alma humana, certamente tem mais intensidade que velocidade…

25) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Moreno Overá: Se fazer música em sua vida, for como respirar, siga em frente… Se não, pense e outro caminho, pois não é fácil essa estrada.

26) RM: Quais os principais erros na metodologia de ensino de música?

Moreno Overá: É acreditar que exista apenas um caminho para a aprendizagem.

27) RM: Existe o Dom musical? Qual a sua definição de Dom musical?

Moreno Overá: Acredito no Dom, não como algo mágico, mas como uma aptidão. Dom é um desejo profundo e amoroso, que estimula a ação direcionada e que nos leva certeiramente a realização do objeto desejado, ou seja, tocar determinado instrumento. 10% de inspiração e 90% de transpiração, como dizia Paco de Lucia.

28) RM: Qual a sua definição de Improvisação?

Moreno Overá: É a liberdade de trilhar caminhos conhecidos e diversos, chegando à um objetivo artístico sublime.

29) RM: Existe improvisação de fato, ou é algo estudado antes e aplicado depois?

Moreno Overá: Existem caminhos, mas na improvisação, você utiliza de forma livre, trilhas que ligam um caminho a outro, sem perder a essência do movimento.

30) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre Improvisação musical?

Moreno Overá: Devem ser experienciado, mas o que é bom para um musicista, não é precisamente bom para outro.

31) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre o Estudo de Harmonia musical?

Moreno Overá: Todo estudo é bem-vindo, mas nada é absoluto. Se alguma teoria te engessa, liberte-se!

32) RM: Como você analisa a cobertura feita pela grande mídia do cenário musical brasileiro?

Moreno Overá: A cobertura feita pela grande mídia do cenário musical brasileiro é friamente calculada. Cartas marcadas e obras efêmeras. Poucas exceções! A grande mídia faz um desfavor da nossa verdadeira pluralidade cultural.

33) RM: Qual a importância de espaços como SESC, Itaú Cultural, Caixa Cultural, Banco do Brasil Cultural para a música brasileira?

Moreno Overá: São de extrema importância, por sua autonomia e sua profunda pesquisa sobre verdadeiros agentes culturais.

34) RM: Quais os seus projetos futuros?

Moreno Overá: Vou lançar brevemente o EP – Viola, Causo & Prosa, show que já venho realizando. Tenho o projeto Pop Florestal, uma música pop de viola e o Projeto – Brincando em Rio Abaixo, projeto instrumental de viola caipira.

35) RM: Quais seus contatos para show e para os fãs?

Moreno Overá: (12) 99703 – 5241 (para ligações) | (19) 98433 – 6416 (para WhatsApp)

Facebook: https://web.facebook.com/morenoovera

Canal: https://www.youtube.com/c/morenoovera

Milonga Para una Triste: https://www.youtube.com/watch?v=keJ6Jl0IayA

O Rei da Corrupção – Moreno Overá & Lampião e Lamparina: https://www.youtube.com/watch?v=iwWyVsiLKJ4

Viola Causo & Prosa Show: https://www.youtube.com/watch?v=fjrsTNH-TOY

Programa Rio Abaixo – Moreno Overá: https://www.youtube.com/watch?v=0SzK20gwvTE&list=PLsm4PoD8qpRq7ohkICz3u1KPfeVbmCLWV&index=2

Playlist “A Nave III Milênio”: https://www.youtube.com/playlist?list=PLFv-PuNCu9_kKEdDvJiGtKNpFmqPxjAUp

Viola Paulista | Álbum Completo | Selo Sesc: https://www.youtube.com/watch?v=Ljdd87ta3dM

A PLAYLIST – ZUZA HOMEM DE MELLO: https://www.youtube.com/watch?v=B4dM3ZOzGnY

Frutíferas Quânticas – Moreno Overá no Sr. Brasil (20/07/14): https://www.youtube.com/watch?v=d9LljiYeGEw


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