Mauro Marcondes

Mauro Marcondes

O cantor, e compositor, violonista carioca Mauro Marcondes criado em Copacabana na época da Bossa Nova foi influenciado por este estilo e também por compositores da MPB que surgiam nos anos 60 e 70 – Edu Lobo, Caetano Veloso, Chico Buarque, Milton Nascimento, Ivan Lins, Dori Caymmi entre outros.

No apartamento da rua Raimundo Correia a música corria solta e o violão era o instrumento que ali reinava. Nesse clima, os primeiros acordes foram ensinados pelo velho amigo da família, Vicente Saboya, posteriormente aperfeiçoados por outro amigo, Luiz Roberto, vocalista e baixista do conjunto de Bossa Nova “Os Cariocas” e grande violonista.

As primeiras composições surgiram da parceria com o poeta e letrista Caito Spina. Nessa época foram feitas músicas que levaram a participações nos festivais estudantis que proliferavam naqueles anos de muita criatividade para a MPB. Em 1971, foi o compositor mais jovem a participar do IV Festival Universitário da Canção Popular, realizado pela TV TUPI, no qual também concorreram, Belchior, vencedor com “Hora do Almoço”, Alceu Valença e muitos outros. No verão de 1971/72 participou de um festival de música internacional, o VI Festival de “Costa a Costa”, em Piriápolis, no Uruguai.

A música corria por um trilho e no outro seguia a construção de uma carreira musical distinta, que o levou a formar-se em Química pela UFRJ e pós graduar-se em Economia, na UNICAMP.

Ainda em 1977, o trem da música prosseguia. Com arranjos e o apoio de Antonio Adolfo participou de um show para revelação de novos talentos, no teatro do MAM – Museu de Arte Moderna. Posteriormente, pelas mãos da produtora, Solange Böeke, começava a ver algumas de suas músicas gravadas por novas cantoras da MPB, entre elas Sandra de Sá (“Receio de Errar”) e Fhernanda Fernandes (“Palavras Perdidas”). Nessa fase teve a música “Como se fosse” classificada no Festival MPB-80 da TV GLOBO, que recebeu um belo arranjo da maestrina Celia Vaz e foi defendida pela cantora baiana Jace. 

Nos anos seguintes, a linha da vida puxou mais forte para o outro lado e a música, meio que adormecida, seguiu uma trajetória mais retraída, através das composições que brotavam com as letras de antigos e novos parceiros.

Em 2003, novamente Solange Böeke entra em cena e produz o primeiro álbum autoral do cantor e compositor: “Perfil de Sal”. Gravado no Rio de Janeiro, com arranjos e direção musical de Wilson Nunes, foi lançado na casa de shows “Rio Scenarium”, no primeiro semestre daquele ano. Logo depois a vida o leva para longe. Desembarca em Washington onde passa a viver e trabalhar.

Segue compondo com seu parceiro de sempre, Caito, e outros parceiros e amigos, como Guto Marques, Paulo César Feital, Éle Semog, Eliza Maciel, Marcia Toledo e Arnoldo Medeiros. Conhece, em Washington-DC, o músico brasileiro Leonardo Lucini. No início de 2009, decide gravar nos EUA um novo CD autoral “Mar Azul” e convida Leonardo para fazer os arranjos e a direção musical. O álbum fica pronto em dezembro de 2009.

Depois de um período de pouca produção musical, retorna ao Brasil e reencontra, em 2014, um amigo e parceiro bissexto, Zéjorge, autor de várias e belas músicas em parceria com Ruy Maurity, entre elas “Serafim e seus filhos” e “Nem ouro nem prata”, que fizeram muito sucesso. Foi uma enxurrada de novas composições em estilos os mais diversos da nossa MPB.

Em 2017, Mauro Marcondes grava um novo álbum, “Cantoria de Bazar”, só com músicas dessa parceria revigorada. Com arranjos e direção musical do Maestro Leandro Braga, o CD é lançado no final daquele ano no “Blue Note Rio” e passa a estar disponível, também, nas plataformas digitais.

A partir de 2018, passa a concentrar-se na produção e divulgação de vídeos com suas músicas. Cria sua webpage (www.mauromarcondes.com.br) e uma página oficial no Facebook. Mais adiante, lança seu canal no YouTube e uma página no Instagram (links em destaque). Também, coloca seus álbuns e singles no Spotify e em várias outras plataformas digitais de música. No mesmo ano participa do Festival de Música da Radio MEC e teve classificada a música “Mar Aberto”, composição sua em parceria com Caito Spina.

Um caminho interessante trilhado nessa fase foi o de realizar vídeos com outros artistas. O clipe do blues “Love Forecast”, parceria de Mauro Marcondes com Guto Marques, foi gravado na casa de espetáculos Manouche, no Rio de Janeiro, em um dueto com a cantora Leila Maria e com a participação do Leandro Braga Trio e do saxofonista Marcelo Martins. 

Outro trabalho conjunto foi o desenvolvido com o grupo instrumental Quarteto Geral. Uma combinação perfeita para gravar os três movimentos da “Suíte Roseana”. Gravada no auditório Radamés Gnattali da Casa do Choro, no Rio de Janeiro, a suíte é uma incursão do compositor e seu parceiro Zéjorge na música regional e no universo do escritor brasileiro João Guimarães Rosa.

Ainda na linha desse olhar urbano para o interior e para a cultura regional, foram gravadas e filmadas na Casa do Choro, três composições autorais que fazem parte do álbum “O Interior da Gente”. A primeira delas foi composta em castelhano e se chama “El interior de la gente” e é uma música influenciada pela cultura argentina e uruguaia e homenageia Milton Nascimento. A segunda, “O rio e a canção”, mais uma parceria com o poeta e letrista Zéjorge, que se inspirou no conto “A terceira margem do rio” do escritor João Guimarães Rosa para escrever a letra. E a última se chama “Personagem” e se baseia na história fictícia de um sertanejo revendo sua trajetória de vida. A gravação contou com os músicos André-Pinto Siqueira, nos arranjos e violão, Marcos Nimrichter, no acordeon e Thiago Kobe, na percussão.

Gerar conteúdo de qualidade para as mídias sociais tem sido a base da agenda de trabalho do cantor e compositor Mauro Marcondes, nos últimos anos, e é parte fundamental da estratégia de divulgação de sua obra e de seus parceiros. Neste sentido, foram gerados mais dois vídeos aproveitando as gravações realizadas em estúdio de duas de suas composições em parceria com o Zéjorge: “Caça ao Tesouro” e “Além do Cais”. De todas as suas atividades a mais prazerosa é compor e manter viva a vontade de compor. E vai seguindo em frente com o projeto que sua alma lhe confiou.

Segue abaixo entrevista exclusiva como Mauro Marcondes para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 18.11.2020:

Índice

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal? 

Mauro Marcondes: Nasci no dia 1 de outubro de 1953 no Rio de Janeiro, Brasil.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Mauro Marcondes: No apartamento da rua Raimundo Correia, em Copacabana, onde fui criado, a música corria solta e o violão era o instrumento que ali reinava. Meus pais eram muito festeiros e os amigos e tias todos os sábados iam lá em casa cantar e tocar. Pequenos, meus irmãos e eu, ficávamos escondidos no corredor dos quartos (supostamente dormindo) e ouvíamos um pouco de tudo que se escutava no Rio de Janeiro nas décadas de 50 e 60: Modinhas, Sambas-canções, Boleros, Tangos, Fados e Bossa Nova. Mas um compositor, em particular, marcou meu gosto pela música: Hekel Tavares, tocado ao violão por meu pai e cantado pela minha mãe.

03) RM: Qual sua formação musical e\ou acadêmica fora da área musical?

Mauro Marcondes: Não tive educação formal em música, aprendi os primeiros acordes no Violão com um querido amigo da família, ”Tio” Vicente Saboya, posteriormente aperfeiçoados por outro amigo, Luiz Roberto, vocalista e baixista do conjunto de Bossa Nova “Os Cariocas” e grande violonista.  Minha escola também foi a rua. Com os amigos trocávamos experiências musicais e aprendíamos os mais novos acordes no violão. Por outro lado, me formei em Química pela UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro e fiz pós-graduação em Economia na UNICAMP.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Mauro Marcondes: Fui influenciado pela Bossa Nova e seus expoentes: Tom Jobim, Vinícius de Moraes, João Gilberto. Também ouvia Carlos Lyra, Roberto Menescal e os irmãos Marcos e Paulo Sérgio Valle. Em seguida vieram os festivais dos anos 60 e 70 e a nova leva de compositores da MPB: Edu Lobo, Caetano Veloso, Chico Buarque, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Ivan Lins, Dori Caymmi, João Bosco, entre outros. O blues americano também sempre esteve presente na minha vida de compositor, assim como dois maestros e arranjadores magníficos: Claus Ogerman e Ennio Morricone. Não posso esquecer da música de protesto latina, nas vozes de Daniel Viglietti, Zitarrosa, Mercedes Sosa, Violeta Parra e do catalão romântico, Joan Manoel Serrat, que teve uma influência interessante na minha forma de compor e cantar. Mais recentemente, passei a me identificar muito com o cantautor uruguaio Jorge Drexler.

Não creio que algum estilo ou compositor, que fazem parte de minha cultura musical, deixem de ter importância no meu processo criativo. Eu vou incorporando novas experiências sempre. Não há limite para o meu espírito absorver coisas belas.

05) RM: Quando, como e onde você começou sua carreira musical?

Mauro Marcondes: Minha carreira musical começou cedo em meados dos anos 60. As primeiras composições surgiram da parceria com o poeta e letrista Caito Spina. Nessa época foram feitas músicas que me levaram a participar dos Festivais Estudantis que proliferavam naqueles anos de muita criatividade para a MPB.  Em 1971, fui o compositor mais jovem a participar do IV Festival Universitário da Canção Popular, realizado pela antiga TV TUPI, no qual também concorreram, Belchior, vencedor com “Na Hora do Almoço”, Alceu Valença e muitos outros. No verão de 1971/72 participei de um Festival de música internacional, o VI Festival de “Costa a Costa”, em Piriápolis, no Uruguai.

Na década de 70 mantive um pé na Universidade e outro na música.  Em 1977, surgiu uma boa oportunidade para participar de um show para revelação de novos talentos, no teatro do MAM – Museu de Arte Moderna. Tive a sorte de contar com os arranjos e o apoio do Antonio Adolfo, a quem sou muito grato até hoje.  Nessa fase, tive a música “Como se fosse” classificada no Festival MPB-80 da TV GLOBO, que recebeu um belo arranjo da maestrina Celia Vaz e foi defendida pela cantora baiana Jace. Nos anos seguintes, a linha da vida puxou mais forte para meu lado de gestor e planejador e a música, meio que adormecida, seguiu uma trajetória mais retraída, através das composições que brotavam com as letras de antigos e novos parceiros.

06) RM: Quantos CDs lançados?

Mauro Marcondes: Gravei três CDs independentes: “Perfil de Sal”; “ Mar Azul” e “Cantoria de Bazar”, dois EP: “Suite Roseana” e “O Interior da Gente” e dois singles: “Love Forecast” com a cantora Leila Maria e “Além do Cais” com o pianista e arranjador Leandro Braga. Todos disponíveis nas plataformas digitais: Spotfy, Apple Music , Deezer etc.

07) RM: Como você define seu estilo musical?

Mauro Marcondes: Sou MPB na veia.  Componho, desde Bossa Nova a Blues, Samba-canção, Samba, música mais regional, Baião, Boleros, música do Rio de la Plata etc.

08) RM: Você estudou técnica vocal?

Mauro Marcondes: Nunca estudei. Sou de uma geração que canta suas próprias composições e não me preparei para ser cantor. Canto com a voz que Deus me deu.

09) RM: Qual a importância do estudo de técnica vocal e cuidado com a voz?

Mauro Marcondes: Não tenho dúvida que a técnica vocal é uma ferramenta potente para o cantor ou cantora. Faz você tirar o melhor da sua capacidade vocal. Eu faço alguns exercícios básicos que umas amigas cantoras me foram ensinando e cuido da voz. Mas o mais importante para mim é cantar todos os dias. Exercitar minha voz.

10) RM: Quais as cantoras(es) que você admira?

Mauro Marcondes: São tantas e tantos que fica difícil fazer uma seleção. É uma pena que tenha que deixar muitos talentos de fora e ademais ficar apenas com as(os) brasileiras(os), pois senão a lista seria muito grande. Começo com a Nana Caymmi e Elis Regina, e sigo com Elizete Cardoso, Leny Andrade, Aurea Martins, Gal Costa, Simone, Monica Salmaso, Leila Maria, Rosa Passos. Os cantores que são referência são o Milton Nascimento, Dory Caymmi, Edu Lobo, João Gilberto, Caetano, Paulinho da Viola, Lenine, Tim Maia e Ed Motta, entre muitos outros.

11) RM: Como é seu processo de compor?

Mauro Marcondes: Eu componho com o Violão. Faço melodia em cima de letra ou faço a melodia e letro depois. Na maior parte das vezes com parceiros poetas e letristas, as vezes faço a letra. Quando coloco a melodia na letra de um parceiro a letra me leva. Ela pede uma harmonia e logo surge a melodia. Quando faço a melodia primeiro também busco um acorde para iniciar e aí vai saindo a melodia num processo que se retroalimenta.

12) RM: Quais são seus principais parceiros de composição?

Mauro Marcondes: Começo com meu mais antigo e constante parceiro, que infelizmente já não está aqui pela Terra: Caito Spina. Tenho centenas de músicas com ele e participei de muitos Festivais com músicas dessa parceria, algumas registradas no meu CD – “Perfil de Sal”. Hoje tenho outro parceiro muito presente e produtivo que é o Zéjorge, que foi “o parceiro” do Ruy Maurity e tem lindas músicas gravadas pelo Ruy e por outros cantores(as). Temos quase uma centena de músicas juntos. O CD – “Cantoria de Bazar”, gravado por mim em 2017, é todo fruto desta parceria. Além desses dois, tenho músicas que gosto muito com o Paulo César Feital, Guto Marques, Arnoldo Medeiros, Éle Semog, Marcia Toledo, Eliza Maciel, Patrícia Secco, Beto Caratori, Gustavo Baião, entre outros.

13) RM: Quem já gravou as suas músicas?

Mauro Marcondes: Pelas mãos da produtora, Solange Böeke, tive três das minhas músicas com Caito gravadas, em 1980, pela Sandra de Sá (“Receio de Errar”), Fhernanda Fernandes (“Palavras Perdidas”) e Jace (“Como se fosse”). Depois disso, não me dediquei a trabalhar para que minhas composições fossem gravadas por outros artistas. Mais recentemente, em dueto com a Leila Maria uma composição minha com o Guto Marques (“Love Forecast”).

14) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Mauro Marcondes: A indústria da música mudou muito com o avanço da informática e das plataformas digitais de música. Antes era quase impossível se pensar numa carreira independente. As grandes empresas fonográficas e algumas menores organizavam o mercado da música. Um caso raro de artista independente de sucesso naquela época foi o do grupo vocal Boca Livre. Hoje é muito mais fácil começar a construir uma carreira independente. Os custos de produção e difusão são acessíveis, mas isso não significa alcançar o sucesso. Alguns independentes caem nas graças do público nas Redes Sociais e são uma explosão. No entanto, a maioria dos artistas independentes precisariam (e não tem) do apoio de uma estrutura de divulgação e de produção de shows mais forte para ampliar sua presença junto ao público.

15) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

Mauro Marcondes: Para pensar em estratégia de planejamento, tenho que ter consciência que minha música é de nicho de mercado. Fiquei muito tempo fora do Brasil e da atividade musical e venho construindo meu público com método e tranquilidade. Neste sentido, estou muito focado em planejar a produção de conteúdo para as Redes Sociais e vestir minhas composições com bons arranjos e gravar sempre com ótimos músicos para garantir um trabalho de qualidade para colocar no YouTube, Spotify, Deezer, etc. As apresentações públicas são mais espaçadas no tempo e são planejadas em função do trabalho de produção dos vídeos.

16) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira?

Mauro Marcondes: Como se sabe, eu sou um compositor e cantor independente e tenho claro que se não for empreendedor minha arte será conhecida apenas por um grupo pequeno de pessoas amigas e familiares. Por isso, além de compor e cantar, tenho que correr como doido para ampliar o universo de pessoas que possam apreciar meu trabalho. Estou à frente da produção executiva de vídeos, álbuns, shows, mas conto com o apoio de muita gente profissional: produtoras de vídeos, estúdios de gravação, engenheiros e técnicos de som, arranjadores, músicos, assessora de imprensa, assessor de mídias sociais e fotógrafos.

17) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira?

Mauro Marcondes: Como mencionei antes, o artista independente tem muito mais possibilidades hoje de desenvolver uma carreira, em função da revolução tecnológica, especialmente na área das tecnologias da informação. A internet e todas as plataformas digitais são ferramentas fundamentais para o desenvolvimento da minha carreira como compositor e cantor.

18) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)?

Mauro Marcondes: Eu tenho bons amigos músicos que têm estúdio de gravação em casa e lhes dá uma grande flexibilidade para gravar e a um custo bastante acessível. A desvantagem, eu acho, é que você tem que bater o escanteio e correr pra área para cabecear. Ou seja, o artista tem que estar antenado na mesa de som e na sua performance. Eu, particularmente, prefiro gravar em estúdios menores, com custos razoáveis, mas com bons equipamentos e contar com ótimos profissionais na mesa de som, tanto para gravar quanto na mixagem. Para a masterização eu sempre uso um estúdio diferente e especializado.

19) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo. Mas, a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Mauro Marcondes: Como eu fiquei afastado muito tempo da cena musical, tenho um grande desafio para entrar num mercado muito competitivo. Meu nicho de mercado na música é claramente composto por pessoas que tem apreço pela MPB. Para este público o que busco oferecer são canções, em geral suaves, com letras inteligentes e sensíveis de poetas experientes, num espectro relativamente amplo de temas musicais e poéticos, somado a uma produção esmerada, dentro de um orçamento limitado de qualquer independente.

20) RM: Como você analisa o cenário da MPB. Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Mauro Marcondes: A indústria da música mudou radicalmente com as novas tecnologias da informação e todos os desenvolvimentos decorrentes. Paralelamente, o Brasil mudou muito nos últimos anos, seja incorporando um grande número de pessoas ao mercado consumidor, mas também havendo um crescimento e desenvolvimento das cidades do interior do Brasil. Com isso foram surgindo novas tendências musicais que atraem um enorme contingente de seguidores e fãs, bem como os investimentos das empresas fonográficas multinacionais.

A MPB tradicional, por seu turno, ficou cada vez mais circunscrita aos grandes nomes, já setentões, e a um ou outro novo talento, como, por exemplo, Maria Rita e Maria Gadú que, a meu ver, não conseguiram, até agora, ter uma presença tão forte no cenário da MPB.  Mas tenho observado que há uma nova geração de músicos, cantores e compositores – pelo menos aqui no Rio de Janeiro – que tem um grande apreço pela MPB e suas vertentes. Tenho trabalhado com alguns e conheço a obra de outros e são um sinal de que a MPB está viva. Vou citar alguns deles só para ilustrar e mencionar que vale muito conhecer o seu trabalho: Quarteto Geral, Luiza Lacerda, Lucas Bueno, André-Pinto Siqueira, Nina Wirtti, Tico de Moraes, Gustavo Baião, entre muitos outros jovens talentos dedicados a segurar o bastão da nossa música popular brasileira. Por último, quero mencionar o encontro de Milton Nascimento com Criolo e o pianista Amaro Freitas. É de uma beleza ímpar e uma combinação de talentos e gerações que enriquece nossa música e nos enche de alegria.

21) RM: Quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Mauro Marcondes: Vou me restringir a citar apenas dois poetas e compositores como representantes de duas gerações que somam talento e profissionalismo: Chico Buarque e Jorge Drexler.

22) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical?

Mauro Marcondes: Foi bem no início da minha carreira como cantautor. Meu parceiro Caito e eu fomos convidados para participar do Festival de Costa a Costa de Pirápolis, no Uruguai, no início de 1972. Tínhamos preparado a mesma música com a qual participamos, no ano anterior, do Festival da TV Tupi. Um dia recebemos uma ligação da direção do festival para irmos a um endereço em Montevidéu, pois deveríamos cantar a canção de um outro compositor que estava classificado para o evento. A contragosto fomos ao encontro. Quando chegamos ao endereço, não podíamos acreditar: era uma funerária!  Entramos, perguntamos pelo fulano e nos fizeram entrar na sala do dono da funerária. Em resumo, a música não tinha nada a ver com um cantor/compositor de 18 anos. Começava assim: “Rompiste tu promessa de ser tan solo mía…” Afinal, participamos do Festival de Costa a Costa com nossa música: ”Num passo a passo mais alegre…”

23) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Mauro Marcondes: Mais feliz quando um show termina bem e o público sai com gosto de quero mais. Tristeza ao conhecer tantos talentos musicais subaproveitados ou não podendo viver da sua arte. No meu caso particular, tive um revés que não esperava, quando uma composição minha e do Caito não foi para a final do MPB 80 da Rede Globo.

24) RM: Existe o Dom musical? Como você define o Dom musical?

Mauro Marcondes: Acredito que as pessoas nascem com algum dom. Para artes plásticas, matemática, esporte, música etc. Eu creio que nasci com o dom para compor. Eu e meus três irmãos convivemos com música ao vivo lá em casa. Só eu componho e ninguém me ensinou. Aprendi a tocar Violão, mas a composição surgiu naturalmente. Pode ser fruto da genética, pode ser um projeto da sua alma. Vai entender? De qualquer maneira, se alguém decide ser músico instrumental, arranjador, maestro, não basta o dom. Ajuda, mas há que trabalhar duro: muitas horas de estudo e prática.

25) RM: Qual é o seu conceito de Improvisação Musical?

Mauro Marcondes: A improvisação musical é definitivamente, a libertação da partitura. Está presente em vários estilos da música popular, começando pelo Jazz. Os grandes instrumentistas têm na música popular uma janela de oportunidade para improvisar, especialmente em shows. Mas não só os músicos instrumentistas, os cantores e cantoras também improvisam com suas vozes de maneira as vezes espetacular.

26) RM: Existe improvisação musical de fato, ou é algo estudado antes e aplicado depois?

Mauro Marcondes: Eu não posso falar muito já que não sou violonista profissional. Uso o Violão com ferramenta para criar minhas composições. Acho que, mesmo os músicos mais virtuosos, podem ensaiar alguns improvisos, mas na hora H deixam o coração falar mais alto.

27) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre Improvisação musical?

Mauro Marcondes: Acho que a improvisação musical, com moderação, pode enriquecer muito uma gravação ou show. No entanto, o músico não pode viajar na maionese e se deixar levar pelo encantamento do seu som. Para exemplificar o que penso, lembro do improviso que o Marcos Nimrichter fez ao acordeon na gravação da minha música “Personagem”. Foi um improviso na medida e sensacional! Um outro “causo” nessa mesma linha vivi com o maestro, arranjador e pianista Leandro Braga, com quem tenho tido o prazer de trabalhar. Muitas vezes quando queria um improviso numa música de um show meu, falava para um dos músicos: EXUBERA!

28) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre o Estudo de Harmonia musical?

Mauro Marcondes: Apesar de não ter estudado formalmente harmonia por qualquer método, no meu processo de criação a harmonia é fundamental.

29) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Mauro Marcondes: Reza a lenda que sem jabá não rola. Mas eu não posso afirmar categoricamente algo que não comprovei na prática. De fato, tenho dedicado muito mais esforço para divulgar minha obra e dos parceiros nas redes sociais que nas emissoras de rádios. O Spotify, por exemplo, selecionou uma composição minha com o Zéjorge, “João, o Regente” do EP “Suíte Roseana”, inspirada na obra do escritor João Guimarães Rosa, para fazer parte de uma de suas playlist (Café Bossa). Agora, com a participação da música “Renovar” no Festival de Música da Rádio MEC, parceria com Guto Marques, tenho ouvido sempre nossa música na Rádio MEC.

30) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Mauro Marcondes: O importante é reunir talento com o profissionalismo. Se for instrumentista, estudar e tocar seu instrumento sempre. O mesmo vale para a cantora ou cantor. Exercitar a voz, curtir seu canto. Eu como compositor gosto de estar sempre compondo. Se possível busque sempre estar rodeado de bons profissionais que vão agregar valor ao seu trabalho. Busquem sempre a melhor qualidade, seja no conteúdo do seu trabalho, mas no material para divulgação.

31) RM: Quais os prós e contras do Festival de Música?

Mauro Marcondes: Os Festivais de Música das décadas de 60 e 70 foram parte da efervescência cultural e comportamental que que explodiu no mundo ocidental, naquele momento. Foi mais que um tipo de evento musical. Foi um movimento que contaminou as escolas, universidades e os jovens de classe média urbana. Um espaço fundamental para o surgimento de toda uma geração de compositores, cantores e músicos que deram densidade à MPB e que estão, em sua maioria, presentes até hoje no nosso cenário musical.  A onda passou e a fórmula se desgastou.

32) RM: Hoje os Festivais de Música revelam novos talentos?

Mauro Marcondes: Os Festivais de Música não são os mesmos, embora usem a mesma fórmula do passado. Não têm a força dos Festivais de antigamente, pois não mobilizam a mídia tradicional e a indústria fonográfica e não criam a mística que amalgamava os artistas e o público. Hoje em dia, a revelação de novos talentos passa por outros caminhos. Porém, os festivais ainda são uma forma muito interessante de manter vivo o interesse pela produção de MPB. É um espaço para o compositor(a) mostrar sua música, o cantor(a) interpretar novas obras e servir de palco para os artistas compartilharem sua arte.

33) RM: Como você analisa a cobertura feita pela grande mídia da cena musical brasileira?

Mauro Marcondes: É mais ou menos como o Erasmo Carlos traduziu na sua canção “Quem vai ficar no gol”, que  diz: “Paulo gravou um disco que não tocou em nenhum lugar/Se o povo não escuta, não cai no gosto e não vai comprar/É que o rádio só toca o que o povo quer escutar/E o povo só compra o que ouviu o rádio tocar…”

34) RM: Qual a sua opinião sobre o espaço aberto pelo SESC, SESI e Itaú Cultural para cena musical?

Mauro Marcondes: Além de ser fundamental que os governos tenham políticas públicas robustas de fomento à cultura, ter o apoio direto e indireto do setor privado, aqui representados pelos setores comercial, industrial e bancário, é um avanço. Não tenho dúvida de que precisamos de mais compromisso da sociedade com investimentos em atividades culturais, que são impulsionadoras, ao lado da educação, do desenvolvimento de um povo. Creio que esses espaços privados poderiam melhorar a transparência do acesso aos recursos colocados à disposição dos atores culturais.

35) RM: O circuito de Bar na cidade que você mora ainda é uma boa opção de trabalho para os músicos?

Mauro Marcondes: Mesmo antes da pandemia do Covid-19, vinha-se observando a redução de espaços no Rio de Janeiro para a música ao vivo. É verdade que alguns bares abriram as portas para a MPB e seus intérpretes, mas sempre com um grande esforço pessoal dos artistas para fazer a casa. Depois do Corona Vírus vamos ver como fica. O cenário não me parece muito promissor.

36) RM: Quais os seus projetos futuros?

Mauro Marcondes: Continuar compondo muito e gerando conteúdo de qualidade para as mídias sociais. Essa é a base da minha agenda de trabalho e parte fundamental da estratégia de divulgação das minhas composições e do meu canto. De imediato, tenho três novos vídeos em gestação. Um vídeo da quarentena com arranjos e violão do meu filho Bernardo Marcondes que é músico erudito e vive nos EUA. Outro utilizando técnicas de animação em cima de uma música do meu último álbum “Cantoria de Bazar” e um que vamos esperar as condições para gravar, que vai ser um clipe noir da música “Renovar” que está concorrendo no Festival da Radio MEC. Também tenho pensado fazer um show mais intimista (Bossa, blues, boleros) na casa de shows Manouche, aqui no Rio de Janeiro.

37) RM: Mauro Marcondes, Quais seus contatos para show e para os fãs?

Mauro Marcondes: http://www.mauromarcondes.com.br/pt_BR/ / [email protected]

https://www.facebook.com/MAUROMARCONDESCOMPOSITOR

https://www.instagram.com/mauromarcondes.compositor

https://www.youtube.com/channel/UCMDCQSyCLnI8rzf3OuaRAeQ?view_as=subscriber


Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor responsável pela revista digital RitmoMelodia desde 2001, jornalista, músico, poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, propaga a diversidade musical brasileira através de entrevistas e artigos. Jornalista formado pela Universidade Estadual da Paraíba - UEPB (1996 a 2000) que lançou um livro de poesia em 1998 e seus poemas ganharam melodias gravadas em três álbuns concluindo a trilogia "reggae baseado em poesia" no seu projeto musical Reggaebelde. Unindo a sensibilidade do poeta, músico com o senso crítico do jornalista e pesquisador musical colocado em prática em uma revista que Canta o Brasil.