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Uma Revista criada em 2001
pelo jornalista, músico e poeta paraibano
Antonio Carlos da Fonseca Barbosa.

Mauricio Grassmann


Mauricio Grassmann estudou violão popular e erudito, cello, toca guitarra synth, e é muito mais do que um músico: arranjador, compositor, engenheiro de som, produtor musical e projetista de acústica com pós-graduação em acústica (Poli-Integra-USP). Seus trabalhos incluem mais de 500 projetos em soluções acústicas e assessoria técnica, além de palestras sobre acústica. Atualmente está criando um curso para ensinar gravação, mixagem e masterização pela internet. Na falta de “ferramentas acústicas” para seus projetos, Grassmann criou um difusor acústico – Omni-64 – e começou a fabricá-lo para seus clientes, estúdios, home-theaters, fundando também a Proacustic – soluções em acústica.

Como produtor musical, tem um currículo impressionante. Desde os anos 90, ele comanda o FrequênCia Rara Studio, produzindo grandes artistas em obras fantásticas, como Dominguinhos, Banda de Pífanos de Caruarú, Eduardo Agni, Jamil Maluf, Adriana Mezzadri, Edson Montenegro, Caíto Marcondes, Ana Rita Simonka, Teco Cardoso e tantos outros. Uma de suas obras mais importantes são os álbuns duplos de música indígena (Ethnic e Fusion) Mehinaku e Caiapó, com a participação de Egberto Gismonti, Gilberto Gil, Naná Vasconcelos, Badi Assad, Simone Soul e regência de Sá Brito.

Grassmann estima ter produzido mais de 300 álbuns em vários estilos de música, como MPB, Rock, Pop, Música erudita, Word Music, mais de 30 trilhas sonoras para teatro e cinema, inúmeros jingles e spots para rádio e TV, trilhas de vídeo e documentários para empresas como; Nestlé, Itaú Cultural, Carrefour, Novartis, SBT, TV Cultura, TV Senac, TV Futura, Abril vídeo, Kibon, Globotec, USP, IBM Brasil, Fundação Bradesco, Tetra Pak, etc.

Todas estas competências e uma personalidade eclética refletem na sua carreira como compositor. Entre suas obras, devemos mencionar os álbuns: Suíte Pássaro Solar, Seres de Luz e Seres de Luz II e Proscenium Project, misturando Newage, Meditação, Rock Progressivo, Jazz e Word Music. Seus projetos mais recentes são Bases para Estudo e Improvisação, um conjunto de seis álbuns com bases em vários arranjos e tonalidades, Bach Nana Nene – lullaby com a criação de um sampler de sonoridade resgatada das caixas Polyphon, executando 26 temas de Bach, para relaxar seu bebê, além de mais um álbum para meditação (em fase final de mixagem); “Deep Journey to inner light”. Criou o novo conceito de ouvir música; NewMindMusic (música com inteligência e alma) e atualmente faz parte da banda Fusão Divina de Chandra Lacombe.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Mauricio Grassmann para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 22.06.2022:

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Mauricio Grassmann: Nasci no dia 21 de agosto de 1960 em São Paulo – SP. Registrado como Mauricio Grassmann Martello.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Mauricio Grassmann: Meu pai, Nilson, ouvia muita música: Jazz e música erudita moderna (Stravinsky, Ravel) e minha mãe, Gueisa, ouvia muita MPB, e os eruditos mais antigos; Vivaldi, Bach. Mas, aos três anos de idade eu ouvi uma banda inglesa (creio que de Liverpool) e me apaixonei! Meus pais não gostavam de rock, mas eu enchia tanto eles, que acabaram comprando para mim o primeiro disco dos Beatles. Com o passar do tempo, eles também começaram a virar fãs do quarteto de Liverpool.

03) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Mauricio Grassmann: Eu creio que desde o ventre materno um ser recebe influencias, durante toda a infância, meninice, juventude, enfim, estar aberto e atento a tudo de bom, sempre! Em casa se ouvia muita música boa, de muitos estilos, isto fez (e faz) parte da minha cultura musical. Quando eu era ainda pré-adolescente, comecei a curtir rock, um rock mais pesado que Beatles, que ia de Alice Cooper a Led Zeppelin, passando por Black Sabbath e outras bandas. Em poucos anos, surgiram as bandas de Rock Progressivo, com as quais me identifiquei imediatamente. Aquela sequência mágica de climas que se alternavam no decorrer de músicas longas e com muitas partes instrumentais sempre me hipnotizou! Apaixonei-me pelo Yes, Genesis, ELP, Pink Floyd, Gentle Giant, Jethro Tull. Com o passar do tempo comecei a direcionar meu ouvido para as fusões Jazz/Rock e deixar de vez as bandas iniciais do rock pesado. Entraram de forma avassaladora os sons de Jean Luc Ponty, John McLaughlin, Egberto Gismonti, Jeff Beck, Chick Corea, Alan Holdsworth, Hermeto Pascoal, Pat Metheny, assim como o Jazz do Oregon, Astor Piazzolla, Dave Brubeck, e o melhor fusion nacional; o Clube da Esquina e todos seus integrantes. Nos últimos anos tenho ouvido mais trilhas de cinema, e música para meditação e relax, Newage, que influenciou bastante minhas composições.

04) RM: Qual a sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical?

Mauricio Grassmann: Eu sempre fui um autodidata com gana pelo conhecimento, então me dediquei por curtos períodos em várias frentes; estudei teoria musical e Violoncello na Escola Municipal de Música por três anos, estudei Violão e Guitarra com os grandes Felipe Ávila, Heraldo do Monte e Mozart Mello (desde a inauguração do IGT no Brasil) e Violão Erudito com Eduardo Meirinhos. Chamo de curtos períodos, pois com o passar dos anos, sinto que se tivesse estudado o dobro do tempo com cada um deles, ainda seria pouco! Sempre fucei as revistas Guitar Player (as importadas, não havia versão nacional) atrás de novidades, digitações, licks e partituras que me chegavam nas mãos.

Na área da acústica, estudei no IADE (SP) focando em arquitetura, mas não terminei o curso. Também estudei autodidaticamente sobre acústica e técnicas de estúdio na revista Áudio & Tecnologia desde seu número 1, com artigos dos grandes mestres brasileiros. Também traduzi tudo o que me interessava no “Handbook for Sound Engineers – The New Audio Cyclopedia” de 1.247 páginas! Também assinava e traduzia artigos da revista MIX americana. A prática de criar soluções acústicas para mim, para amigos e na sequência para clientes, me abriram as portas para uma Pós-Graduação em acústica na USP – Poli-Integra em 2012.

05) RM: Quando, como e onde você começou a sua carreira musical?

Mauricio Grassmann: Meu aniversário de 14 anos de idade (1974) foi decisivo na minha escolha de vida. Eu ganhei um contrabaixo elétrico da minha avó, Vera! Foi um divisor de águas, comecei a tocar junto (de orelhada mesmo) com as bandas que gostava e logo comecei a compor. Logo em seguida passei para guitarra, junto com as aulas de violão que minha irmã, Pat tinha e me repassava.

06) RM: Quantos CDs lançados?

Mauricio Grassmann: Na sequência em que foram lançados: “Proscenium Project – Banda de Fusion” (Jazz/progressivo) instrumental, com composições minhas e de Adriano Augusto. Eu na guitarra e SynthGuitar, Adriano Augusto: Piano e teclados, Percio Sapia: Bateria, Roberto Tafuri: Baixo. Participações de Claudio Tchernev: Bateria, Carlos Desenha: Baixo e Zé Rodrigues: Trumpet.

“Seres de Luz” – música para meditação e relax. Minha primeira investida em música newage, tocando todos os teclados, efeitos, arranjos e mixagem. Um álbum elogiado pela querida Mirna Grzich (que trouxe à música newage para o Brasil) e com quem trabalhei criando trilhas para suas meditações.

“Pássaro Solar” – uma suíte musical com história narrada e duas músicas cantadas. São 13 músicas de minha autoria, com composições que vão de 1976 até 1984, com todo instrumental gravado por mim, e participações vocais mais que especiais, como Adriana Mezzadri e Chandra Lacombe, além de mais de 30 pessoas entre coro e falas variadas. Foi terminado, mixado e masterizado depois da inserção do narrador (locutor) Antonio Viviani em 2003, que fechou o trabalho com a importância que merecia!

“Solar Bird” – é a versão em inglês do Pássaro Solar, onde somente a narração da história foi traduzida e gravada pela voz de Jason Berminghan. Lançado no final do mesmo ano, 2003.

“Seres de Luz II” – é meu segundo trabalho de relax-music, mesclando newage e worldmusic. Este é muito mais acústico que o trabalho anterior, todo autoral e com uma música em parceria com Eduardo Agni que também gravou seu violão tapping espetacular. Participação de Mario Aphonso III no sax, Mirianês Zabot nas vozes, Gabriela Machado nas flautas e Cris Miguel no acordeon.

“Bases para Estudo & Improvisação” – uma coleção de seis álbuns (três ainda em fase final de produção) com bases em todos os tons para estudo de escalas ou improvisação (para qualquer instrumento). São arranjos meus, nos estilos Jazz / Fusion / Funk / Rock / Blues / Pop.

“New Mind Music” – mais um trabalho relax, com a participação do Duo Grassmann (com Ale Grassmann nas vozes e percussões) e a sonoridade orquestral da Synth Guitar executando samplers e sinths de minha autoria. São duas faixas instrumentais e as outras são mantras, música folclórica africana, e um mantra em língua dos irmãos das estrelas. Para fechar o trabalho, um re-mix da canção Pássaro Solar.

“Bach Nana Nenê” – são 26 músicas de Bach tocadas por um sampler mais que especial construído por mim. Uma caixa de música do século XIX que tocava discos de metal onde gravei, editei e sampleei, para ter toda sua sonoridade num teclado (ou guitarra midi) e poder executar qualquer música. Uma sonoridade linda e suave, ideal para fazer seu bebe dormir, ou mesmo para seu dia-a-dia ficar mais leve!

Hoje estou compondo e gravando mais um álbum relaxante, voltado para meditações profundas, chamado Deep Journey to Inner Light.

07) RM: Apresente a Proacustic – soluções em acústica.

Mauricio Grassmann: A música me levou naturalmente à criação do meu estúdio, onde me vi como técnico de gravação/mixagem e dando os primeiros passos na construção (isolamento e tratamento) acústica. Todas estas 3 áreas; músico / produtor / projetista, sempre andaram juntas, se fundindo em vários trabalhos. Nos projetos de acústica que desenvolvi, além de ser projetista técnico, tenho total vivência das necessidades do técnico de som, do produtor e do músico, entendendo a fundo suas necessidades. Isto sempre foi um diferencial no desenvolvimento dos projetos acústicos.

Em 2000, eu já havia realizado mais de 100 projetos, e criado peças acústicas exclusivas como o difusor acústico Omni-64 que construo sob encomenda até hoje. Neste ano, fundei a Proacustic – Soluções em Acústica, um passo ainda mais importante na minha carreira como projetista. Hoje são mais de 500 projetos executados e mais de 5.000 peças do Omni-64 fabricadas. Trabalhamos com várias parcerias e mão de obra especializada em portas acústicas, janelas acústicas, pisos elevados, Box-in-a-box completos, mobiliário exclusivo e toda uma gama de peças acústicas exclusivas da Proacustic. Para saber mais sobre a empresa, acesse o site: www.proacustic.com.br

08) RM: Como é o seu processo de compor?

Mauricio Grassmann: Desde o início, eu sempre compus a partir da harmonia (sequência de acordes). Somente com a harmonia – com uma sequência de acordes – você pode transmitir qualquer sentimento, muito mais do que somente com melodia ou mesmo uma letra. Nunca gostei muito dos estudos de técnica pura, então, cada vez que ia treinar escalas, pesquisar escalas “exóticas”, ou mesmo treinar digitações no violão ou guitarra, depois de meia hora já estava compondo algo novo. Acho que o momento de concentração, fechado num quarto sozinho com o instrumento, já me inspirava de algum jeito, então eu ia largando o exercício, e terminava com uma base harmônica criada! Depois, com o passar dos dias ia ajeitando a forma, durações ou tempos (formulas de compasso) inspiradores, para criar uma melodia no final, como a cereja do bolo. Quando compunha canções (melodia e letra) a letra sempre chegou com melodia e ritmos totalmente prontos.

09) RM: Quais são seus principais parceiros de composição?

Mauricio Grassmann: Eu sempre senti a composição como um ato de inspiração solitário. Nem na música, nem nas letras, nunca tive parcerias.

10) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Mauricio Grassmann: A criação musical é o maior ato de liberdade que existe, é um movimento artístico que tem que brotar do seu EU mais profundo. Assim, o músico, o compositor independente, tem toda a liberdade para esse ato de entrega total, pode ser 100% honesto com sua alma criadora. Isto é de um valor inigualável, só quem já viveu isso sabe exatamente do sentimento que descrevo aqui. Os contras desta carreira, são óbvios; não ter o respaldo financeiro, não ter os truques de marketing prontos à sua disposição, gravadoras e distribuidoras cuidando do dinheiro, da sua imagem, etc. É muito difícil para um artista (de qualquer nível) conseguir manter os alicerces artísticos da sua criação sem ter que vender sua alma em algum momento. Dá pra contar numa mão os que conseguem se manter fiéis à sua arte pura.

11) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

Mauricio Grassmann: Eu sou do tempo em que todo músico/cantor iniciante acreditava no sonho do “grande empresário”, da “grande gravadora”. Era só você compor coisas bonitas, às vezes tocar num barzinho, que aquele grande empresário iria te ver, ligar para você, te contratar, te levar pra uma grande carreira numa gravadora. Com essa ideia na cabeça, eu só ia compondo minhas músicas e muito raramente participando de algum festival de música. Nas bandas que formei, eu era sempre o cabeça artístico e acabava sendo também o produtor, o empresário, então sobrava para eu “levar a banda nas costas”, pois, era um trabalho chato que ninguém queria fazer… nem eu. Assim as bandas não tinham um tempo de maturação adequado, não formávamos um público em torno do trabalho e fatalmente as bandas terminavam em curtos períodos. Todo o mercado mudou muito em poucas décadas pra cá; a forma de gerenciar a sua carreira ou da sua banda. Comecei a aprender o “novo jeito” de trabalhar neste novo cenário musical. Mas, ainda tenho muito a aprender e pôr em prática.

12) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento da sua carreira musical?

Mauricio Grassmann: A internet ajuda muito! O acesso mundial à informação musical, estudos, partituras, gravações, a distribuição digital do seu trabalho para o mundo inteiro sem a dependência de um empresário ou gravadora são ganhos impensáveis! Mas… sempre tem a outra face da moeda; hoje você tem que ser o seu empresário, tem que colocar a mão na massa pra acontecer. Se não… vai continuar em casa esperando o telefone tocar! Não tem mais a desculpa; “meu empresário não soube trabalhar direito”. Agora é com você mesmo, ter sucesso ou não! Também abriu o mercado para uma música criada por débeis mentais, para ser ouvida por débeis mentais e chego à conclusão que tem muito débil mental neste planeta. Ruidagem sem noção – que nem chamo de música – ganhando milhões de views, milhões de plays.

É o esgoto da nossa cultura no topo! Aí, quando você chega com uma música com mais de três acordes, com dissonâncias mais arrojadas que uma sétima, ninguém gasta mais de três segundos te ouvindo. Essa grande massa tomando conta geral, dificulta a divulgação da música séria, da composição inspirada, do som que toca a alma! Outro problema muito discutido hoje – e que as empresas de streaming terão que solucionar – é o valor ridículo que pagam ao autor por cada play. É vergonhoso receber centavos por mês, por cada música tocada! Isso tem que mudar, tem que ser repensado muito breve!

13) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)?

Mauricio Grassmann: Quando montei meu primeiro estúdio, com pouquíssima grana, não existia gravação digital, PorTools, Internet. Fiz um plano muito bem calculado para poder investir com foco, o que conseguia gerar com o próprio estúdio em novos equipamentos, microfones, efeitos… e cheguei à seguinte conclusão; para melhorar 20% na qualidade final do produto do estúdio, precisaria investir o dobro do que tinha. Para melhorar 30%, o investimento seria 4 x maior. Para melhorar 40% o investimento seria 10 x maior, ou seja; onde está o limite nessa conta? Quanto eu teria que investir pra chegar ao som dos grandes estúdios da época, com suas maquinas de 24 canais caríssimas?

Eu coloquei na balança da minha cabeça um topo de qualidade sonora que não exigiria um investimento absurdo! E fui nessa direção, até que uma reviravolta aconteceu; a gravação digital! Finalmente, aquela conta inicial mudou! Agora teria a qualidade mais próxima dos grandes estúdios, com valores 100x mais baixos! Inicialmente gravando em gravadores digitais e poucos anos depois dentro dos computadores; a era ProTools. Hoje esta relação qualidade/investimento está ainda melhor, e muita gente pode gravar “em casa” com qualidade realmente profissional.

O problema sempre será a criação artística, a qualidade do que produz. Quando “música” não precisa mais ter melodia, a base é só uma batida tosca feita com a voz, e a letra tem descrições obscenas do que você faria com uma mulher tratada como uma cadela… será que é preciso investir na qualidade do áudio? Mas tem ainda muita gente boa fazendo arte de verdade!

14) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo. Mas, a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Mauricio Grassmann: Como sou um compositor muito eclético, nunca pensei em ficar somente num nicho, cada álbum meu tem um estilo/público totalmente diferente do outro. Durante todo o processo de criação, gravação e finalização de um álbum, nunca pensei na “concorrência”, ou ir atrás do que tal público almeja. Eu penso que existe um público para qualquer coisa que você crie, então este público vai ouvir e te seguir naturalmente, pois está afinado com a sua arte. Ainda estou descobrindo como encontrar o público para cada vertente criativa minha!

15) RM: Como você analisa o cenário da música instrumental brasileiro. Em sua opinião quais foram as revelações musicais nas últimas décadas? Quais artistas permaneceram com obras consistentes e quais regrediram?

Mauricio Grassmann: Três revelações destas últimas décadas, que chegaram arrasando e se mostram congruentes com sua carreira, fixaram um estilo incomparável são: Banda Mantiqueira, Hamilton de Holanda, Eduardo Agni. Os que regrediram, ou sumiram… nem me lembro! Só guardo aquilo que realmente mexeu com meus ouvidos.

16) RM: Fale da sua atuação no FrequênCia Rara Studio.

Mauricio Grassmann: O estúdio FrequênCia Rara foi criado (ainda com outro nome) em 1988 como um estúdio de ensaios e no ano seguinte iniciou as gravações, ainda com um PortaStudio de 4 canais (que gravava em fita K-7). Trabalhos chegando, comprei uma mesa de 12 canais e gravador integrado da Akai, uma qualidade de áudio fantástica! Algumas mudanças de endereço até me fixar na avenida Pompeia onde fiquei por 7 anos. Chegou o primeiro gravador Digital Adat, e a mesa foi trocada por uma Mackie de 24 canais. Praticamente tudo o que entrava virava equipamento novo, novos microfones. Foi uma época onde produzi muita gente boa, artistas espetaculares e desconhecidos do grande público. Tantos instrumentos diferentes que chegavam pra gravar, tablas, santur, sitar, harmonium, flauta-baixo, instrumentos construídos pelo artista, percussões do mundo todo. Muita novidade sonora, e eu tinha que inventar uma captação pra tudo isso! Além da parte técnica comecei a formar técnicos pra trabalhar comigo, e me dedicar a atuar também como músico e como produtor musical.

No próximo endereço do FrequenCia Rara, agora em Alto de Pinheiros, chegou a grande reviravolta tecnológica, a gravação no computador, digital puro, sem fitas e outros mecanismos. A novidade da gravação digital em fita (Adat) se tornou obsoleta em menos de 10 anos! Praticamente todos os estúdios do planeta instalaram seu ProTools, podendo trocar trabalhos entre si, e usufruindo da toda a qualidade de áudio aliada às automações de mix salvas para sempre. Foram mais 7 anos neste endereço gravando muita gente boa!

No próximo endereço, com espaço físico menor, tive o grande desafio de manter uma acústica excelente em ambientes bem menores. Várias outras DAWs (estações de trabalho) foram criadas para concorrer com o ProTools – creio que experimentei quase todas – e mais uma penca de trabalhos excelentes foram feitos.

Em 2012 me mudei para o interior, o estúdio de captação foi desativado, mas mantive equipamento e instrumentos que me permitem compor, produzir meu trabalho, assim como mixar e masterizar trabalhos captados em outros estúdios. Para conhecer mais sobre a história do estúdio e trabalhos realizados, acesse o site: http://frequenciarara.com.br

17) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical?

Mauricio Grassmann: São muitas, vou lembrar e contar algumas: No início dos anos 80, eu tinha uma banda de rock progressivo, músicas e letras de minha autoria, uma época onde eu tinha uma voz com falsetes extremamente agudos, mas sem nenhuma técnica. Algumas músicas entraram em bons festivais de música, e para defender uma delas numa final, como a letra falava em batalha, inventei de criar um clima grandioso no final explodindo uma bomba no palco. Era uma bomba de fumaça instalada atrás do baterista. Tinha um chumaço de Bombril sobre um monte de pólvora, ligado por um fio numa tomada e com o interruptor nos meus pés! Tudo para dar certo! A música correu maravilhosamente, e no acorde final, acionei a bomba, foi aquele clarão, e um cogumelo de fumaça densa. A cena deve ter impressionado muito a plateia! Saímos do palco e aquela fumaça cobria tudo, não dava pra ver mais nada no palco.

O local não tinha janelas e a fumaça não dissipava. O próximo grupo era um grupo vocal, subiram no palco e era só tosse! Ninguém sabia o que fazer! Achamos mais acertado fugir do local o mais rápido que conseguíssemos, nunca mais voltamos, nem sabemos qual foi a música vencedora! O baterista e o tecladista lembram da onda de calor intenso quando a bomba explodiu, mas tudo sob controle!

Outro caso aconteceu em meados dos anos 80, minha banda de instrumental “Proscenium” tinha uma fita (K7) demo gravada, e fui encarregado de fechar shows no Sesc Pompéia. Depois de um primeiro contato com um dos diretores da área, marcamos um encontro para eu deixar a fita em suas mãos. Chegando no dia combinado, ele me levou até o último andar do prédio, um sótão cheio de peças e sobras de tudo o que você imagina, onde havia um sistema de som. Ele pegou a fita, deu play, e ouviu em silencio toda a primeira música. Enquanto a segunda música começava, ele me perguntou: se eu jogava ping-pong (???). Disse que sim, e numa mesa próxima começamos a jogar… o som rolando… vem a terceira música, e nós jogando pingo-pong… vem a quarta música, eu já aflito pra saber o que estava rolando, perguntei: “então, o que você achou das músicas?” e a resposta foi: “seu show já tá contratado desde a primeira música, mas vamos ouvir até o final, assim podemos jogar mais um pouco…“

Várias histórias aconteceram dentro do estúdio, dá para escrever um livro, mas vou contar uma: Em 2000, um famoso locutor foi gravar um texto médio, nem curto, nem longo, e o mais chato ocorreu. O dono da empresa contratante foi acompanhar as gravações da tal locução. O locutor (um dos Top10 do Brasil) entrou no estúdio, regulamos o nível do mic, dos fones e “gravando”! O locutor acertou de primeira, entonação, respiração, interpretação perfeitas! Quando terminou o texto o contratante até aplaudiu! “Muito bom, perfeito, que voz!!” Dei o play, ouvimos tudo novamente e só elogios. Quando pensamos que o cheque já estaria sendo assinado, o cara sugeriu: “e se você fizesse uma versão com o final um pouco mais alegre? “. Sem problema, locutor volta pro estúdio, coloca os fones e “gravando”! Tudo perfeito e com aquela alteração pedida! Ouvimos esta nova gravação mais umas três vezes e o cara pede; “sem querer abusar, mas, eu senti que no início você poderia espaçar mais as frases, sabe? Dar mais suspense!”, ok, vamos lá, take 3, gravando, ouvindo várias vezes. E mais um pedido, e mais outro pedido, e mais outro pedido. O clima começou a ficar estranho, aquele bom humor de sempre do locutor começou a virar sorriso forçado. Aí fui dentro do estúdio, mic desligado, e falei no ouvido do locutor: “Vamos tentar uma coisa? Quando eu falar gravando, na verdade eu vou dar play da primeira gravação, você fica atrás do mic só mexendo a boca, vamos ver o que o cara acha”. E assim foi “gravando”, soltei a primeira gravação! Quando o texto terminou eu mesmo já puxei os aplausos! O contratante amou está “versão final” ficou muito feliz e até hoje não sabe se tratar da primeira gravação!

18) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Mauricio Grassmann: Fazer música; seja compor, tocar, gravar, mixar, masterizar, seja um trabalho meu ou de outro artista é um prazer ainda maior do que viver! Como disse Nietzsche: “a vida sem música seria um erro”. O que me deixa mais triste é ter tanto trabalho meu e de grandes artistas que conheci sem o devido reconhecimento da massa. Num mundo capitalista como vivemos, ou você cria um “BigMac” todo mês, ou nunca será apoiado!

19) RM: Você acredita que sem o pagamento do Jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Mauricio Grassmann: Eu não tenho conhecimento atualizado sobre as rádios nos dias de hoje, não sei se ainda tem a relevância para um artista que tinham a décadas atrás. Eu creio que o Jabá seja cada vez mais uma máfia em declínio.

20) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Mauricio Grassmann: Corra pro Abraço!

21) RM: Fale do seu trabalho musical focado na meditação.

Mauricio Grassmann: Quando eu ouvia música newage, no geral achava que era uma enganação total, uns acordes num teclado com som de cachoeira e só! Quando comecei a entender o que é realmente a meditação, e como a música pode ser uma ferramenta importantíssima na prática meditativa, entender como cada estilo musical tem uma vibração energética diferente, atuando em Chakras diferentes, saquei que a música para meditação tem que ser feita com muito conhecimento, muito amor, muita vibração positiva para ser uma ferramenta adequada. Talvez seja a música mais inspirada, canalizada da luz, para ser realmente meditativa. Lógico que sempre existirão as porcarias, os tocadores de teclado com cachoeira, pra vender sem nenhum fundamento real.

Em 2000, instalei um programa novo no meu computador que permitia gerar timbres, gravar várias pistas, colocar efeitos, mixar e finalizar tudo de uma só vez. Como não tinha o manual deste programa, fui aprendendo no erro/acerto, fazendo e refazendo, até chegar numa música instrumental pronta… que me soou algo “newage”. Gostei do programa e parti para outra música, com timbres, percussões e efeitos diferentes e em poucos dias, tinha mais uma música terminada. Nesta época eu estava trabalhando num projeto junto com a Mirna Grzich; a mestre das meditações guiadas, a voz e mente do programa de rádio “música da nova era” da rádio Eldorado e mostrei para ela o que estava fazendo! Ela amou, teceu muitos elogios e já incluiu estas duas músicas no seu projeto! Foi tanto elogio, que parti para compor e terminar um álbum inteiro, que chamei “Seres de Luz”. A dedicatória que ela escreveu para este álbum é muito especial! Até sua partida em 2018, trabalhamos muita meditação, muitas trilhas exclusivas, muita música boa!

Escute alguns artistas deste gênero como: Paul Horn (e sua flauta inspiradíssima) / Steven Halpern (lançou também um livro chamado “Som Saúde”) / Deva Premal (com seu marido Miten e o flautista Manose) / Krishna Das (mais voltado aos mantras) e também escute os mais pops como Enya, Andreas Vollenweider, Kitaro e a celta Loreena McKennitt. É o estilo que mais componho hoje, a música para atingir os Chakras superiores! Namaste!

22) RM: Quais os compositores eruditos que você admira?

Mauricio Grassmann: Bach, Musorgsky, Ravel, Stravinsky são os principais nomes. Incluiria também Steve Reich que é um minimalista fantástico.

23) RM: Quais os compositores populares que você admira?

Mauricio Grassmann: Todos do Clube da Esquina, Egberto e Hermeto (se puderem estar nesta categoria), Gil, Djavan, Lenine, Filó Machado, Marcus Viana, Chandra Lacombe. Não são todos os nomes, mas os principais nomes que me vieram à cabeça.

24) RM: Quais os compositores da Bossa Nova você admira?

Mauricio Grassmann: Tom Jobim, Guinga, Francis Hime, João Gilberto, Baden Powell, Eumir Deodato, Edu Lobo, João Donato.

25) RM: Nos apresente a conclusão de sua pós-graduação em acústica.

Mauricio Grassmann: Foi um curso superior feito na USP – Universidade de São Paulo, uma classe com 27 alunos, professores vindos de Portugal (é uma pós muito conceituada por toda a Europa) pela primeira vez no Brasil. Teve início em maio de 2012 e termino em setembro de 2012, com carga horária total de 240 horas.
Eu era o único aluno sem graduação da turma, fui aceito por Notório Saber, pelos 27 anos de trabalhos dentro da acústica. No geral, diria que 70% do que foi ensinado eu já sabia, não foi novidade para mim. Mas sempre tem uma solução nunca pensada, um cálculo que ajuda na escolha de um material, e principalmente os 5 (cinco) TCC para conclusão do curso, que nos leva à pesquisa profunda, foco e dedicação em áreas que eu nunca havia trabalhado.

26) RM: Quais as principais diferenças técnicas entre Violão Popular e o Erudito?

Mauricio Grassmann: Enquanto o Violão Erudito presa pela postura do executante, posição perfeita do instrumento, das mãos e braços, pelo estudo de escalas e digitação para uma execução perfeita, limpa, tudo apoiado na leitura de partituras, o Violão Popular dispensa todo este rigor. Tudo mais à vontade, raramente se lê partituras, o foco aqui são as batidas (ritmos) a harmonia (sequencia de acordes) e o encadeamento de acordes, presando pelo swing, pela malemolência do tocar, tudo baseado na leitura de Cifras e às vezes tablatura. O violão brasileiro (popular) é muito rico, ritmos como Samba, Choro, Bossa Nova, são como “feitos” quase sobre humanos para outros povos. O Violão mais completo, que mescla o popular e o erudito de forma espetacular é o Flamenco. Tocar bem Flamenco é para poucos, assim como executar peças eruditas de grande dificuldade. Mas, nos dois casos sempre nos faltará aquele ritmo maroto, aquela batida e harmonia com graça e molejo que faz cair o queixo de todo o restante do mundo. Se não sabe do que estou falando, só pra citar alguns, escute Lenine ou Filó Machado.

27) RM: Quais as principais técnicas que o aluno deve dominar para se tornar um bom violonista?

Mauricio Grassmann: Pro início do aluno, tocar o que gosta do jeito que for possível, como conseguir, e aliar a isso uma boa postura com exercícios de digitação e rítmicos. Se quer ser mesmo um BOM violonista, deve dominar todas as técnicas, ou pelo menos conhecer (na prática) a maioria delas. Ter conhecimento do popular, do erudito e de outros estilos fará de você um grande instrumentista. Durante o aprendizado, quanto maior for o leque de influencias pra aprender melhor. No futuro, quando você fechar o leque e escolher o que mais gosta de fazer, terá tanta bagagem para usar, que facilmente se destacará acima dos melhores!

28) RM: Quais os principais vícios e erros que devem ser evitados pelo aluno violão?

Mauricio Grassmann: O maior erro é desistir de tocar porque não consegue executar uma música que gosta em pouquíssimo tempo. Você levou tempo para aprender tudo na sua vida, não se cobre demais. Tudo o que acontece na técnica ao tocar qualquer instrumento tem o momento do clic, do salto, quando de uma hora para outra seus dedos começam a fazer aquilo que você achava mais difícil. Outro erro fatal, é achar que se ficar estudando 10:00h por dia, ficar repetindo sem parar aquela escala ou digitação, você vai progredir, e isto pode levar até a problemas físicos sérios, L.E.R (Lesão por Esforço Repetitivo) e dores que o farão desistir rapidamente. O estudo e a repetição são importantes, mas ao meu ver, quanto menos tempo por dia, e mais dias por semana você tocar/treinar (o que for) mais segura e consistente será sua viajem.

29) RM: Quais os principais erros na metodologia de ensino de música?

Mauricio Grassmann: O maior erro é querer ensinar toda a teoria ANTES de ensinar a ouvir, ensinar a tocar qualquer coisa. Ter a teoria, ter a parte motora bem treinada é importante, mas isto tem que ser sempre secundário à arte, à criação, ao lúdico. Quantos artistas natos (com Dom) vieram neste planeta e desistiram de tocar piano, violão, por ter professoras turrões, tentando enfiar teorias e exercícios a rodo na pessoa?

30) RM: Existe o Dom musical? Como você define o Dom musical?

Mauricio Grassmann: Sim, algumas pessoas já nascem com esta ajudinha lá de cima. Você pode ter o Dom de ter um ouvido muito apurado, ou pode ter um conceito musical criativo muito rico, e tudo isso sem tocar nenhum instrumento. A facilidade (ou não) para executar um instrumento é mais dedicação do que Dom. O tal do Dom, ajuda tudo na sua vida, mas sem foco, sem estudo, sem treino, o dom não é nada! A pessoa pode nascer com Dom para alguma forma de arte, mas, o pai é médico, força o filho a seguir a profissão de médico, e às vezes, por uma vida inteira aquele Dom fica apagado, num porão escuro do ser. Muito triste e muito comum!

31) RM: Qual é o seu conceito de Improvisação Musical? Existe improvisação musical de fato, ou é algo estudado antes e aplicado depois?

Mauricio Grassmann: Existem os solos e as improvisações. Solo, como o nome já diz, é tocar só; um músico tocando sozinho. Hoje, chamamos de solos, trechos instrumentais com toda a banda tocando junto, que podem ser solos previamente escritos, ou mesmo alguma improvisação no estúdio que ficou tão marcante, tão boa, que ninguém mais poderá tocar aquele solo de forma diferente. Existem muitos exemplos, um deles é o solo final de guitarra em “Ovelha Negra” de Rita Lee & Tutti Frutti, criado pelo guitarrista Luis Carlini. É um solo tema que se repete durante o fade-out da música e que fica na sua cabeça eternamente! Improvisação mesmo, é muito rara no Pop, no Rock. É mais comum no Jazz, no Fusion.

A improvisação é uma composição instantânea totalmente livre, com um espaço musical determinado (ou não) para acontecer. O músico deve estar muito à vontade com a harmonia sobre a qual irá fazer seu improviso, e penso que a intuição no momento deve conduzir esta improvisação. Logicamente, tudo o que foi ensaiado anteriormente, toda a bagagem musical, todas as frases que já estão “debaixo dos dedos”, podem aparecer durante esta criação instantânea. E isto é que marca o estilo de cada instrumentista. Às vezes, um esbarrão numa nota “errada”, um escorregão de dedo para corrigi-la, pode ser o start de uma nova frase, de algo que não havia sido pensado antes. Muitas vezes, este improviso não tem nem tempo definido, a banda vai atrás do improvisador, mas existe uma frase pronta, combinada com todos para encerrar o improviso, voltar a parte “A” da música, ou terminar tudo com uma convenção especial! Existe momento certo para solos escritos, e para improvisações frees.

32) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre Improvisação musical?

Mauricio Grassmann: Se é mesmo improvisação, deve ser criada no ato! Improviso é arte pura! Como arte, deve ser algo novo, inusitado. É muito bom para um músico conhecer o que outros músicos já fizeram, os fraseados típicos (Licks) daquele estilo em questão, te inspirar a criar novas frases, mas… é muito importante o músico abandonar tudo isso para criar seu estilo de improviso. Dar um salto além deste conhecimento. Acho fundamental o músico abrir o leque do que escuta, principalmente ouvindo estilos diferentes do que toca. Se você toca Rock, vá ouvir Jazz, se toca Jazz vá ouvir Música Erudita! Outra prática incrível, é tocar (de ouvido ou escrito) improvisos de outros instrumentos, ou seja, se você é um guitarrista, toque um improviso de Sax, tente imitar todas as nuances que são especificas daquele instrumento. Um saxofonista pode estudar improvisos de Violino, e assim por diante. Depois que você se debruça por semanas num improviso, sua cabeça terá expandido, seu fraseado terá ganho tantas “novidades” que valerá por um ano de escola de música.

33) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre o Estudo de Harmonia musical?

Mauricio Grassmann: Só prós! Claro que depende de quem escreveu, ficar decorando formulazinhas não leva ninguém a tocar ou compor bem. Eu sempre componho a partir da harmonia (sequência de acordes), mas nunca penso no que estou fazendo, são só sons que me agradam e se encadeiam de forma interessante. Quando termino totalmente uma composição, é que vou estudar o que fiz, analisar, estudar aquilo. Nunca faço o caminho inverso.

34) RM: Apresente seu difusor acústico – Omni-64.

Mauricio Grassmann: Na década de 70 os estúdios de gravação (e seus projetistas) entenderam que o som ideal de uma sala é ter vida, uma sonoridade própria, assim como cada instrumento musical o tem. Salas muito abafadas matam os timbres, apagam os harmônicos. Salas muito brilhantes – como igrejas – tem tanta reverberação, tanto eco, que uma nota de violão tocada curta e forte, pode ficar soando ainda por 6 ou 7 segundos. Isto pode ser bom para um canto gregoriano ou para uma peça em órgão de tubos, mas para 95% dos outros estilos musicais é péssimo. Ter uma sala de gravação adequada à maioria dos estilos musicais é uma mágica de engenharia muito complexa. Podemos ter áreas refletivas, áreas absorvedoras, mas ainda falta um controle mais refinado. Esta mágica final, este toque da “cereja no bolo” é conseguido com os difusores acústicos.

No início, os difusores mais simples trabalhavam com poucas frequências e dissipavam o som recebido em somente uma direção. Estes eram instalados em paredes e tetos das salas de captação e da sala técnica. No início da década de 80, novos estudos foram feitos, e foram criados difusores “3D” com espalhamento em todas as direções, trabalhando e equalizando uma grande faixa de frequências. Baseado nestes cálculos eu criei o difusor Omni-64 em 2004. Mais dois anos de testes e reformulações na forma de construção, até chegar à peça atual. De lá pra cá, já foram construídas e instaladas mais de 5.000 peças. É uma peça que usa 64 quadradinhos em Marfim (madeira de verdade, não mdf imitando) cada um numa profundidade milimetricamente estudada. Quando você instala num ambiente, toca ou canta em frente de um difusor Omni-64 a diferença é tão clara, espantosa! Tudo fica mais nítido, mais equilibrado. Não é absorção, não é reflexão, é a cereja do bolo na acústica perfeita!

35) RM: Como adequar um estúdio ao bolso sem perder na qualidade da produção final?

Mauricio Grassmann: O quanto você investe na construção de um estúdio, ou na adaptação de um local para se tornar um estúdio, pode variar de quase nada a milhões de reais. O mesmo ocorre com todo o equipamento. Eu tenho certeza que acústica e equipamentos têm que crescer juntos. Um é perna direita, outro a perna esquerda. Se faltar um, o resultado será manco, capenga. Toda a parte acústica (isolamento e tratamento) tem que ser pensada, projetada de início, mesmo que você vá fazendo tudo aos poucos, uma ajeitadinha por mês.

Com equipamentos é um pouco mais simples; você compra um equipamento baratinho hoje, daqui meio ano vende, coloca mais uma grana e está com um equipamento melhor, e assim até chegar onde sonha. Se você não tem nada de tratamento acústico, se não tem monitores bons para sua referência, eu diria para você iniciar investindo num bom par de fones de ouvidos. Eles serão a sua referência, e a sua acústica. Além de marca boa, tem que ser de resposta totalmente Flat. Qualquer ganho que tenha em qualquer frequência te prejudicará na captação, mixagem, etc. Hoje uma grande parte dos fones de ouvido tem um ganho extra no Bass, nos graves. Fuja disso sempre! Se você ouve algo com mais graves… você vai tirar graves da sua mix! Quando ouvir em outro local, ou com fones bons, vai sentir o quanto está faltado nos graves! Outra coisa, não existe milagres em preços de equipamentos. Se é de marca boa, realmente profissional, é impossível que custe baratinho. Olho vivo para não cair em ciladas!

36) RM: O que faz um Sound Designer e um Engenheiro de Mixagem?

Mauricio Grassmann: O trabalho do Sound Designer é criar, dirigir, escolher tudo o que um trabalho precisa em termos de som. Isto pode ser efeitos sonoros de um jogo ou filme, climas criados por timbres diferenciados, trilhas musicais. O Engenheiro de Mixagem (ou engenheiro de som) em estúdios menores é também o engenheiro de captação.

Nos grandes estúdios são pessoas diferentes, um fica na captação, escolha e posicionamento de microfones, e o outro trabalha somente na gravação e mixagem do áudio. O Sound Design pode dirigir o trabalho de captação e mixagem de um vídeo ou filme, por ter em mente toda a “cor” toda a textura que este trabalho precisa.

Nas produtoras menores, é muito comum que uma pessoa assuma estas três funções. O engenheiro de mixagem, junto com o produtor musical ou com o próprio artista para dar a sonoridade final para uma música ou para todo um álbum. Ele é um compositor, assim como o artista que fez a música. Quando você registra uma gravação (ISRC) este registro é exclusivo para aquela mixagem especifica. A mesma música remixada terá um novo código, pois pequenas alterações podem destruir uma obra, ou alavancar uma música mediana!O produtor, o engenheiro de mixagem, são figuras tão importantes para o resultado final de um trabalho, que comumente George Martim era chamado de Quinto Beatle. O técnico de som que gravava os trabalhos do Yes – Eddy Offord – era considerado pela banda como o Sexto músico da banda. Na contracapa do disco “Close to the Edge” existem seis fotos, de seis músicos do quinteto Yes. Uma foto é de Eddy Offord.

Outro técnico que ficou muito famoso, produziu um disco chamado “The Dark Side of teh Moon” do Pink Floyd. Era Allan Parsons, que em seguida gravou álbuns como músico e compositor, com o Allan Parsons Project. Na maioria dos trabalhos que realizei no FrequênCia Rara, atuei como produtor, técnico de captação e mixagem, e muitas vezes como engenheiro de masterização.

37) RM: Cite trabalhos seu como um Sound Designer e/ou Engenheiro de mixagem?

Mauricio Grassmann: Um dos trabalhos mais complexos (e completos) que fiz, foram para os alguns duplos das etnias Mehinaku e Caiapós. Em cada trabalho foram gastas 300 horas para a edição, filtragem, gravação de músicos, mixagem e masterização de um álbum Étnico (o som dos índios como foi captado na aldeia) e um álbum Fusion (com a participação de músicos tocando instrumentos e harmonias da nossa música por cima dos originais étnicos). Nestes trabalhos, sob regência do maestro Sá Brito, tivemos convidados como Badi Assad, Gilberto Gil, Naná Vasconcelos, Egberto Gismonti, Simone Soul, Airto Moreira, Toninho Carrasqueira, e narrações de Antonio Abujamra. Cada álbum duplo também tinha como companhia um livro de fotos de formato grande, e um DVD com um documentário sobre a tribo.

Outros trabalhos muito especiais, foram vários álbuns de Eduardo Agni, Chandra Lacombe, Ana Rita Simonka, Anaí Rosa, Adyel Silva, Madan, Tétine, Cláudio Lacerda, trilhas para filmes, documentários, peças de teatro e espetáculos de dança, assim como coleções para revistas como a Quem (Quem é você) de Mirna Grzich. Hoje o estúdio FrequênCia Rara é também produtora, junto com minha esposa Alessandra que também é locutora, cantora e diretora comercial.

38) RM: Quais os prós e contras de uma gravação de show ao vivo?

Mauricio Grassmann: A grande vantagem é ter todo um trabalho pronto, ensaiado para ser captado em tempo real, sem os custos de um estúdio. Todo o envolvimento do público e a performance mais calorosa dos músicos também é um fator que muitas vezes não acontece dentro de um ambiente de estúdio. Os contras, são ruídos que podem acontecer (como aquele concerto para Flauta e Cello em que um ouvinte dispara a tossir) distorções por manuseio inadequado de um microfone, ou mesmo um entusiasmo exagerado de um músico, uma performance ruim não poderá ser aproveitada no álbum final, enfim, o ideal na gravação de um show, é captar todo o show em vários dias diferentes, para ter material suficiente pras edições, escolha de um melhor improviso, e até substituição de trechos com problemas técnicos.

39) RM: Quais os seus projetos futuros?

Mauricio Grassmann: A construção de um estúdio (FrequênCia Rara) nos moldes acústicos ideais aqui no interior, terminar a composição, gravação e mixagem do meu último álbum de música meditativa, ter muitos trabalhos de mix, como também projetos acústicos de excelência.

40) RM: Quais seus contatos para show e para os fãs?

Mauricio Grassmann: http://grassmann.com.br

| [email protected]

| https://www.instagram.com/mauriciograssmann

Canal: https://www.youtube.com/c/mauriciograssmann

Bem vinda(o) ao canal do Mauricio Grassmann: https://www.youtube.com/watch?v=WD7L1BNHtlc

Playlist DICAS GuiTaR SYNTH 001: https://www.youtube.com/watch?v=nSd2glvYnQQ&list=PLCFdQ7s56hUYvEsHY98qwgG5gz7vf12f0

As Guitarras de Shine on you Crazy Diamond. As guitarras Solo 01: https://www.youtube.com/watch?v=37byEN6jPKg

As Guitarras de Shine on you Crazy Diamond. As guitarras de base: https://www.youtube.com/watch?v=rUHDmBo0Dbk

Solos de Shine on you Crazy Diamond – PARTE FINAL: https://www.youtube.com/watch?v=nyglnblO_ic


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Uma Revista criada em 2001
pelo jornalista, músico e poeta paraibano
Antonio Carlos da Fonseca Barbosa.
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