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Uma Revista criada em 2001
pelo jornalista, músico e poeta paraibano
Antonio Carlos da Fonseca Barbosa.

Marco di Aurélio

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Marco di Aurélio que se intitula um ajuntador de palavras, um tangerino de rimas, nasceu em Bodocó-PE, e depois de ter vivido em cidades como Timbaúba, Carpina, Araripina, Triunfo e Recife, em Pernambuco, e ainda Belo Horizonte – MG, e Ijuí, Novo Hamburgo no Rio Grande do Sul, decide por se findar aposentado nas terras da Paraíba (João Pessoa).

Mantendo-se fiel às culturas de sua gente, e depois de exercer vários ofícios mergulhados em seu povo, como feirante, fotógrafo, locutor de difusora, comerciário, hipnólogo, e finalmente bancário, alimentou em todo esse tempo sua verve de contista e poeta, sem nenhuma influência acadêmica.

Vive hoje a quedar-se às terras de dentro, levando consigo um grupo diletante de artistas amigos seus, realizando saraus poéticos musicais em pequenas cidades, mais especialmente no cariri ocidental paraibano, celeiro das manifestações mais históricas, berço incontestável da poesia, literatura e música de nosso país.

Autor de mais de uma centena de títulos em folhetos, e da primeira edição de folhetos em Braile no Brasil. Produtor de artigos, de um livro de contos, membro da ALANE, Academia de Letras e Artes do Nordeste, secção Paraíba, cineasta, autor e produtor de três curtas metragens, diretor de inúmeros registros de memórias em vídeo para o CRM-PB, e produtor  de uma série chamada “Tesouros do Cariri”, onde soube registrar inúmeros valores artísticos daquela região.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Marco di Aurélio para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 15.04.2022:

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e sua cidade natal?

Marco di Aurélio: Nasci no dia 14.01.1952, em Bodocó, cidade do alto sertão pernambucano.

02) RM: Quais as suas preferências musicais? Quais deixaram de ter importância?

Marco di Aurélio: Tenho ligações profundas pela musicalidade produzida no Nordeste brasileiro, e está entre as minhas preferências. Gosto da música do mundo, pois são sentimentos diversos voltados aos mesmos desejos, a identidade e a cultura de cada uma.

03) RM: Qual a sua formação acadêmica?

Marco di Aurélio: Não tenho curso superior. O que tenho de conhecimento além do ensino médio foi de forma autodidata.

04) RM: Como e quando você começou a sua atividade de letrista e melodista?

Marco di Aurélio: Aos 15 anos comecei a rascunhar contos e poemas, e somente agora em idade avançada me joguei a ser letrista e melodista.

05) RM: Quais são os seus parceiros musicais?

Marco di Aurélio: Além de um grande amigo arranjador, Junior Matos, tenho parcerias com Pedro Soares, Beto Cajá, Haidée Camelo.

06) RM: Você escolhe sistematicamente quem será o seu parceiro musical ou deixa acontecer espontaneamente?

Marco di Aurélio: É sempre de forma espontânea, até porque fazemos parte de um grupo poético musical chamado “7 Bocas de Luz”.

07) RM: Você envia mais letra/poema para melodistas ou colocar mais letras em melodias? Qual dos dois processos você gostar mais e qual é mais complexo para você fazer?

Marco di Aurélio: Meu processo criativo tem sido autoral no que se refere tanto à letra como à música. As duas coisas nascem juntas, e passam a ter o enriquecimento do arranjador. Uma única vez coloquei melodia em uma letra de um parceiro.

08) RM: Você permite o compositor alterar a sua letra?

Marco di Aurélio: Sim. Sem nenhuma resistência, desde que não altere o sentido do conteúdo. Muitas vezes não vemos que mais uma palavra, ou menos outra, a melodia se arredonda.

09) RM: Cite as canções que já foram gravadas?

Marco di Aurélio: “Cantador Cante pra Mim”, “Oiteiro Seco”, “Baraúna”, “A Vida é um Sonho”, “Cavalo-do-Cão”, “Acaso”, “Cantiga de Inverno”, “Destino”, “O Amor”, ”Toada e Cantiga”, “Sentença”, “No Ôco do Mundo”, “Na Mata Branca”, “No Chão do Cariri”, “Sina Solta”, “Pequenino Grão de Areia”, “Palavra Solta”, “Cristo Redentor”, “O que Restou de nosso Amor”, “Se um Dia eu te Perder”, e outras em curso de produção.

10) RM: Alguns compositores já declaram o fim da canção. Qual a sua opinião sobre essa afirmação?

Marco di Aurélio: Não acho que seja verdade. A canção é um ato de sentimento, e por tal condição é inesgotável. A linha melódica que normalmente é ouvida nas canções tem um ar de identidade a inúmeras condições da emoção humana.

11) RM: Hoje ainda existe espaço e ouvinte para música com letra que se sustenta como um poema/poesia?

Marco di Aurélio: Está ficando cada vez menor esse campo. A invasão e divulgação do vulgar, ou de um ritmo mais pobre espanta. E parece nos remeter ao que de mais primitivo já existiu.

12) RM: Na Rádio e na TV o autor da música quase não é informado. Quem canta passa a ser “o autor” da canção. Esse fato te incomoda?

Marco di Aurélio: Incomoda e muito. É como se dissesse apenas o time e não dissesse quem fez o gol. Esse é mais um desvio de conduta cometido por nossos apresentadores, além do falseamento do sotaque, onde todos são cariocas.

13) RM: Você tem músicas que tocaram e tocam em Rádio, TV e em casa de show? O direito autoral é pago corretamente?

Marco di Aurélio: Ainda não tenho essa honra. E preciso urgentemente me inscrever como autor. As músicas são registradas por segurança, mas o autor ainda não.

14) RM: É possível sobreviver exclusivamente de direito autoral de suas músicas?

Marco di Aurélio: Não.

15) RM: Quais os prós e contras de participar de Festival de Música?

Marco di Aurélio: Acho que o positivo é a divulgação de seu nome e de sua música. O negativo dos festivais de música é a escolha de seus jurados, que normalmente julgam por emoção, ou por influência de torcidas presentes. A força poética quase nunca é valorizada, a melodia muitas vezes é mais forte.

16) RM: Festival de Música revela novos talentos?

Marco di Aurélio: Os festivais têm essa força. O autoral, a quebra da rotina pelo inédito, a provocação de novos processos melódicos tanto nos autores, intérpretes e musicistas também. O espaço de festivais cria a fome pelo belo e pelo emocional.

17) RM: Qual o seu critério para convidar um intérprete para representar a sua canção em um Festival de Música?

Marco di Aurélio: Nunca participei. Particularmente não acredito em festivais de música como autor compositor.

18) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na função de letrista e melodista?

Marco di Aurélio: O sentimento de felicidade se tem, quando se compõe algo que mesmo você não acredita que conseguiu atingir o seu sentido mais belo. Em contrapartida, me sinto triste quando um projeto de letra e melodia não casa, ou não alcança um mínimo de sentido e emoção.

19) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira de compositor?

Marco di Aurélio: Espero apenas que aconteça. É aquela história de torcer pela hora certa, no lugar certo, com alguém que acerte.

20) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira?

Marco di Aurélio: Acho que a internet só tem a ajudar na carreira de qualquer um. Não vejo essa ferramenta como negativa a alguém que precisa se divulgar. 

21) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Marco di Aurélio: Ainda não tenho conhecimento do processo de relação com rádios. Como vivemos numa sociedade desvairadamente capitalista, não vejo nenhuma novidade em alguém ter que pagar para aparecer. O mercado come gente.

22) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Marco di Aurélio: Diria que primeiro vem o poeta, o intérprete e os músicos, o devir é uma consequência aleatória. Não dá para contar com o sucesso apenas por um desejo individual.

23) RM: Como você analisa a cobertura feita pela grande mídia da cena musical brasileira?

Marco di Aurélio: A grande mídia é olho do furacão capitalista. Ela não tem compromisso nem com a qualidade, e nem com o conteúdo. O que der dinheiro ela abraça.

24) RM: Bob Dylan ganhou o prêmio Nobel de Literatura em outubro de 2016. Será que este fato anima outros letristas a “sonharem” com prêmios na área de Literatura ou é um fato isolado?

Marco di Aurélio: Pode até ser representativo, mas não é a realidade da grande maioria dos poetas e compositores.

25) RM: Os músicos americanos são conhecidos como grandes cantores, melodistas e arranjadores. Qual a sua opinião sobre a qualidade deles como letrista?

Marco di Aurélio: Como se trata de outra cultura, fica difícil emitir uma opinião. O que sei é que muitas músicas enganam, no sentido de ter uma bela melodia, mas de ter uma letra primária e muitas vezes muito pobre de poesia.

26) RM: Qual a sua opinião sobre a função positiva do crítico musical?

Marco di Aurélio: Temos poucos críticos musicais que realmente traduzam imparcialmente o julgamento de certas obras. São relativos e comuns a emoção e o gosto próprio atravessar um julgamento equilibrado e reconhecedor de uma boa obra.

27) RM: Nietzsche comenta que a melodia (música) sem letra perturba a alma. O que você acha dessa afirmação?

Marco di Aurélio: Depende do que ele queria dizer. Se ele traduziu perturbar como perder a serenidade, ou o sossego, de todo eu não concordo, mas como perturbar também serve para alterar, ou tirar o ouvinte da inércia, ou mesmo de seu equilíbrio emotivo, aí sim, ele estaria certo.

28) RM: No tempo da Ditadura Militar no Brasil as letras que tinham engajamento político fizeram sucesso. Qual a importância de letras que não tratem só do tema Amor?

Marco di Aurélio: Como suporte para mensagens diretas, ou indiretas, a música tem um poder enorme de se servir ao chamamento, ou à reflexão de um momento político social. E, portanto, foram, são e ainda serão muito importantes para qualquer povo.

29) RM: Qual a sua opinião sobre “as letras para acasalamento” que tocam no rádio (FUNK, Sertanejo, Pagode, Forró, etc)?

Marco di Aurélio: Não condeno a liberdade criativa de certos nichos musicais. O que vejo é um nível muito grande de forçada de barra para se alcançar um contingente de ouvintes sem a menor preocupação com a qualidade das letras, e com uma boa evolução melódica.

30) RM: Renato Russo comentou que as letras que falam de amor sempre estarão na moda. Qual sua opinião a respeito dessa afirmação?

Marco di Aurélio: Sim, ele tem razão, pelo fato de nossos afetos serem, além de atávicos, biológicos. Uma necessidade que não cessará enquanto tivermos a emoção de existir.

31) RM: Você acha que as pessoas no geral estão mais para aceitar as letras que buscam o entretenimento ou a divagação lírica do que proporcionar reflexões humanas e sociais profundas?

Marco di Aurélio: Estamos num mundo cada vez mais raso. Nossa nova geração não tem mais nada com o poder da filosofia. Alguns nem sabem mais o que é isso, e outros, mesmo sabendo, não se dispõe a tal exercício. Em breve a música eletrônica tomará conta do mundo. Restará apenas ilhas que serão tratadas como folclóricas.

32) RM: Quais os seus projetos futuros?

Marco di Aurélio: Acabei de completar 70 anos. E o que mais espero agora é curtir, contemplar o que fiz e continuar coletando o que acontece em minha volta. Projetos não faltariam, mas queiram ou não queiram, os mais idosos findam por aproveitar a contemplação de tudo que é belo, e que muitas vezes pela ocupação de nossos próprios projetos deixamos de tê-lo feito.

33) RM: Quais os seus contatos?

Marco di Aurélio: (83) 99981 – 9473 | [email protected]

| https://www.facebook.com/marcodiaurelio

Canal: https://www.youtube.com/user/marcodiaurelio

Buiú e o Pirão – Marco di Aurélio: https://www.youtube.com/watch?v=RamUVGWQcvc

Cavalo-do-Cão – Marco di Aurélio: https://www.youtube.com/watch?v=ZUdEtmJGQg4

Palavras Soltas – Marco di Aurélio: https://www.youtube.com/watch?v=Ds0Mj08eKH4

O Amor – Marco di Aurélio: https://www.youtube.com/watch?v=iOeSvHzMV44

O QUE RESTOU DE NOSSO AMOR – Marco di Aurélio: https://www.youtube.com/watch?v=Xi7P0ATmbtE

Comments · 2

  1. Agradeço a oportunidade dada pela Revista Ritmo Melodia, ao Antonio Carlos e ao Guto Martins, por valorizar a cultura brasileira.

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